domingo, julho 27, 2014

Mediocridade não merece reprise

Adelson Elias Vasconcellos

Gestores medíocres devem dar lugar a quem tenha noção do que o país precisa e  competência para corrigir os erros, criando as bases para que possamos sair  dos atoleiros provocados pelos medíocres.




Todo o filme, peça teatral, novela que não brindar os expectadores ou o grande público com belas encenações e espetáculos logo vê o circo vazio, isto é, seu IBOPE cai e força, muitas vezes os promotores dos eventos a antecipar seu fim. No mesmo sentido, um órgão de imprensa que não brilhar pela verdade conjugada com a crítica irretocável, mesmo que discordante, mas ainda assim bem fundamentada, logo perde leitores e até patrocinadores. É a lei do mérito que pratica a justiça a seu modo.

No post anterior, do J.R. Guzzo da Revista VEJA, praticamente ele encerra o assunto sobre a forma até alucinada dos petistas se recusarem a serem alijados do poder. No entendimento distorcido de suas mentes confusas, a única democracia que o Brasil pode admitir é a que mantém o PT no poder. Simplesmente, de seus dicionários, varreram a expressão “alternância no poder” para o lixo e transformaram a expressão para “alternância de petistas no poder”.    

Creio que nestes 8 anos de existência do blog jamais precisamos refazer ou retocar  aqui alguma crítica que os fatos tenham desmentido sobre os anos do PT no poder. Diariamente, basta correr as várias fontes em que pesquisamos para encontrar temas e fatos merecedores destas críticas.  Não se trata, portanto, de “preconceito” ou “pessimismo” para com o partido que se quer o mais progressista dos progressistas.  Não um há um único setor de atuação federal dos quais não se possa extrair críticas da forma como eles administram o Estado brasileiro. E, no entanto, se querem o topo máximo da competência e da ética, que os fatos, para a desgraça deles, desmentem diariamente. 

Tão logo se encerrou a Copa do Mundo, a Folha de São Paulo reproduziu uma entrevista concedida pela presidente Dilma Rousseff à emissora de TV  Al Jazeera. Dentre tantos autoelogios a si mesma e aos doze anos de administração petista, recitando o evangelho das “conquistas” do povo brasileiro graças à própria Dilma e à atuação de seu antecessor, mentor e comandante em chefe, Lula da Silva, lero-lero que estamos enojados de ouvir e torcer o nariz por se tratar de meras fantasias de doze anos de clausura, desfilou as “razões” para ter um segundo mandato. 

Em dado instante, afirmou a senhora Rousseff: “..."Eu acredito que o povo brasileiro deve me dar oportunidade de um novo período de governo pelo fato de que nós fazemos parte de um projeto que transformou o Brasil..."

Observo o seguinte: foi a própria Dilma, ainda no início de seu governo que reconheceu que a estabilidade econômica se deve ao governo FHC. Ontem, no texto em que apontamos a necessidade de se promover mudanças no Bolsa Família, e uma vez mais, demonstramos que o programa nasceu da união de cinco outros programas sociais implementados no governo FHC. Também a própria ONU reconhece que as profundas “mudanças sociais” acontecidas no país começaram antes do PT chegar ao poder. E, ao final indicamos que a velocidade de melhoria do índice de Desenvolvimento Humano no período FHC foi maior do que no governo da era petista. Então, vamos acabar com este papo furado de “mudanças revolucionárias”, porque não foi o PT quem as iniciou. Ele apenas deu continuidade ao que já existia. 

Na economia, a senhora Rousseff tentou modificar a matriz da política econômica de forma arrogante. Deu no que está dando: deterioração de todos os indicadores, não se salvando um único e miserável sobrevivente para ser festejado. E não me venham coma história do “pleno emprego”, tantas vezes aqui desmentido e provado como falso. 

Em dado instante da entrevista a senhora parece que perdeu o raciocínio e se saiu com esta pérola de contradição e confusão mental; ” nós estamos numa fase de baixa de ciclo econômico", “... esse fenômeno é influenciado pelo contexto da economia mundial que ainda se recupera da crise financeira internacional de 2009”. Mais adiante, contudo, assegurou que “... o país entrará em um novo clico de crescimento, independente da economia mundial”.

Ora, se as dificuldades se devem à conjuntura mundial, como independente dela conseguiremos “entrar em um novo ciclo de crescimento”? Papo furado de quem não sabe o que fazer para tentar empurrar o crescimento para os mesmos níveis dos demais emergentes. 

Dias depois desta entrevista “magnífica", a  senhora Rousseff falando à empresários – só lembrou que eles existem às portas da eleição -, reconheceu que seu governo cometeu “erros”, sem especificar quais, e promete corrigi-los em um segundo mandato. 

Ora, digam lá, para que existe a reeleição de cargos executivos, não são justamente para premiar as gestões competentes que produziram resultados positivos? Mas, no entendimento da senhora Roussef ela quer um segundo mandato como prêmio pela mediocridade de seu primeiro período.  Convenhamos, não faz sentido. A reeleição não foi feita para premiar gestores que, como vemos no governo da senhora presidente, trouxeram a economia do país para níveis de nação subemergente. 

Vai encerrar seu governo com juros altos, inflação alta, e crescimento que é o terceiro pior da história republicana do Brasil. Onde, portanto, está o mérito conquistado para merecer novo voto de confiança?   Mais: se reconhece que errou nestes primeiro quatro anos, diga-nos presidente: onde estes erros foram cometidos e quais as soluções para corrigi-los? 

O atual pessimismo que toma conta do país se deve não ao discurso da oposição, ou aos golpistas da mídia, ou a reação negativa da direita. É fruto de um governo medíocre cujos resultados consagram a gestão medíocre cumprida pela senhora Rousseff. Não há méritos a embasar mais quatro anos de mediocridade, feitiçarias e improvisos. Logo após ser declarada vencedora nas eleições de 2010, mas antes mesmo de assumir, publicamos um texto de alerta para a senhora Rousseff sobre as escolhas que teria de fazer. O caminho que tinha pela frente lhe oferecia duas opções para a escolha de uma: ou perseguiria o interesse público, realizando um projeto de país que nos conduzisse para avanços em todos os campos, uma vez que as condições sociais, econômicas e estruturais estavam todas dadas. E as condições para isto de país eram muito propícias. Ou, optaria pelo projeto de seu partido, e insistiria em orientar as políticas públicas para consolidação deste projeto, mas que contrariavam o interesse do crescimento. Pretender seguir pelas duas avenidas que eram, por tese,  contraditórias entre si, seria impossível.  Infelizmente, a senhora Rousseff preferiu adotar o modelo de projeto de poder, relegando o interesse do país a um plano secundário. 

Portanto, senhora Rousseff, considerando todo o quadro  trágico que seu governo está promovendo na economia do país, e considerando que a senhora se desviou de sua missão que deveria ser a de servir ao interesse público, dando largueza ao projeto de poder petista,  tentando criar tentáculos no Estado, aparelhando de forma infame os poderes Judiciário e Legislativo,  através dos tais “conselhos populares”, forma bolivariana de dar ao Executivo  poder superior sobre os demais, além de criar uma falsa classe média para acabar, por decreto, com pobreza, dada a aliança festejada com a direita mais retrógrada e oligarquias mais nefastas e seculares do Brasil,  seu prazo de validade, lamento informar, acabou.  E os índices de rejeição falam por si mesmo. 

O instituto da reeleição foi criado  para premiar os bons gestores públicos, cujos resultados positivos beneficiem todos, e não apenas aos companheiros e a bancada submissa. Gestores medíocres devem dar lugar a quem tenha noção do que o país precisa e  competência para corrigir os erros, criando as bases para que possamos sair  dos atoleiros provocados pelos medíocres. E mais medíocres ainda são os que, além de cometer erros de condução, ainda precisam de bengalas socorristas por lhes faltar luz própria.  

Uma verdade só

J.R.Guzzo
Revista VEJA

Com frequência cada vez maior, a mensagem que o governo está enviando ao público em geral, quando se raspão verniz do palavrório,  é a  seguinte: a alternância de poder não pode ser aceita pelo povo brasileiro, pois é um mal em si .

A campanha eleitoral para a Presidência da República e os governos estaduais está prometendo colocar o Brasil diante de uma pregação totalitária para ninguém botar defeito. Tudo isso? É sempre confortável, claro, imaginar que essas coisas não acontecem mais hoje em dia, não num país que caminha para a sétima eleição presidência seguida com voto livre, secreto e universal, sob a proteção de todas as leis e defesas de um Estado de direito.  Virar a mesa, a esta altura do jogo, com certeza não é fácil. Mas, como se vê, não é impossível  criar um clima de hostilidade disfarçada, ou nem tão disfarçada assim, às regras segundo as quais candidato de oposição têm i direito de disputar a Presidência e o vencedor deve ser aquele que teve a maioria absoluta dos votos.

É o que já se pode, neste momento, pelos atos praticados na campanha do governo e seu partido para reeleger a presidente Dilma Rousseff – ou, se não é isso, estão fazendo o possível para parecer que é. Sua atitude diante da eleição de outubro, pelo que dizem e fazem em público, é sustentar que os eleitores brasileiros só podem uma decisão nas urnas:  reeleger a presidente Dilma.   Qualquer outro resultado, segundo o que têm pregado até agora, seria “um golpe de Estado da direta”.   

Não é uma suposição ou um exagero: são fatos que se reptem na frente de todo mundo, com frequência cada vez maior. A mensagem que o governo está enviando ao público em geral, quando se raspa o verniz do palavrório, é a seguinte: a alternância de poder não pode ser aceita pelo povo brasileiro, pois é um mal em si. Servirá apenas para colocar no governo a elite branca, principalmente a “do Sul”, que vai “se aproveitar” de métodos falsamente democráticos, como são essas “eleições formais”, para tirar do poder as forças comandadas pelo PT- as únicas, sempre na versão oficial, que têm o direito político e moral de governar o Brasil, pois quem discorda delas quer agir contra a pátria, o interesse nacional e os “benefícios sociais” que o povo ganhou nos últimos doze anos com Dilma e seu antecessor, o ex-presidente Lula. Em português claro: é indispensável para salvar a “verdadeira democracia”, agir contra a democracia defeituosa que “está aí”. A regra eleitoral, em suma, só vale se a presidente for reeleita. Se ela perder, é “golpe”. Fim de conversa.   

A ferramenta mais utilizada no momento para levar adiante esse evangelho é   alegar que o governo está sitiado por uma poderosíssima ofensiva conservadora, que lançaria mão de armas e recursos desproporcionais, desleais e ilícitos para “derrubar”a presente administração do PT e sua “base aliada”. Como assim? Disputar uma eleição, dentro das regras estabelecidas em lei, seria “derrubar” alguém?  Também não dá para entender  como pode se colocar no papel de vítima um governo cuja candidata tem à sua disposição um arsenal termonuclear de vantagens materiais para ganhar a eleição. Dilma conta com um tempo de propaganda obrigatória na televisão que é o dobro do que têm, somadas, as candidaturas de seus dois concorrentes mais próximos. Esse patrimônio, como é público, foi comprado dos partidos de aluguel que andam por aí, tentando escapar da polícia e do Código Civil, em troca de cargos rentáveis no governo, desses que decidem licitações de obras e outras maravilhas – algo que só pode ser dado por quem está no poder.

A campanha da presidente estimou que vai gastar 300 milhões de reais até outubro – cerca de 50% a mais do que o valor de 2010, e um total maior que o de qualquer adversário. O governo se vale, também, do Tesouro Nacional: só nos meses de maio e junho gastou cerca de 800 milhões de reais em propaganda pró-Dilma. É dinheiro público direto na veia – de novo, coisa que pode fazer quem manda no caixa. O governo tem a seu favor 70% dos votos no Congresso, uma força decisiva para protegê-lo de acusações de corrupção: com isso, 300 pedidos de investigação sobre irregularidades estão bloqueados no momento. As empreiteiras de obras jogam pesado a favor do governo – entre outros ajutórios, pressionam parlamentares que lhes devem favores a segurar a apuração dos recentes escândalos em torno da Petrobrás.  Mais que tudo, vende-se abertamente mercadoria falsa. Qualquer crítica é tida como “preconceito”. Quedas nas pesquisas são atribuídas ao “ódio” de quem discorda. A presidente chama de “urubus” os que apontam algum problema em seu governo.

O que Lula, Dilma e o PT estão dizendo é algo bem claro: “só existe uma verdade aqui – a nossa”.

O fiasco do Mercosul e a diplomacia de banquinho

Rolf Kuntz
O Estado de S.Paulo 

Foi uma semana dura para a diplomacia brasileira e revoltante para os anões. Na quinta-feira, o governo de Israel ofendeu os baixinhos de todo o mundo ao descrever o Brasil como um anão diplomático. Três dias antes o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, havia cobrado, em tom quase paternal, mais empenho de Brasília para a conclusão do acordo comercial do Mercosul com o bloco europeu. Os dois fatos evidenciaram, mais uma vez, a desmoralização e a falência da política externa brasileira, tanto na área comercial quanto na geopolítica. O fato coberto com maior destaque foi o bate-boca entre funcionários de Brasília e de Tel-Aviv, mas os dois episódios são partes da mesma história.

Anões, ao contrário da atual diplomacia brasileira, inaugurada em 2003, podem ser inteligentes, eficientes, equilibrados e relevantes. Outros governos têm pressionado o de Israel e cobrado a suspensão ou moderação dos ataques à Faixa de Gaza, mas nenhum deles pagou o mico de se explicar e de responder em tom quase meigo a um porta-voz de chancelaria. A explicação oferecida: o Brasil criticou apenas a violência "desproporcional" de Israel, sem contestar seu direito de defesa. A resposta complementar: o Brasil mantém relações diplomáticas com todos os membros da ONU e, portanto, se houver algum anão, será outro país. A explicação e a réplica foram apresentadas pelo chanceler Luiz Alberto Figueiredo. Polidamente, ele se absteve de mostrar a língua e de chamar de feio o funcionário israelense.

Ator relevante age com clareza e se dispensa de explicações. A manifestação brasileira nesse caso, como em muitos outros, confirmou a inépcia da orientação formulada no Palácio do Planalto e seguida no outrora respeitado Itamaraty. Esse amadorismo, inspirado num terceiro-mundismo requentado e rejeitado por emergentes de respeito, tem-se evidenciado também na diplomacia comercial.

O Brasil é a maior economia da América Latina, mas seu governo é incapaz de desemperrar a negociação entre o Mercosul e os europeus. "A mim me parece um bocadinho absurdo que a União Europeia tenha acordos de livre-comércio com praticamente o mundo inteiro e não tenha com o Brasil", disse na segunda-feira o presidente da Comissão Europeia.

Por que "um bocadinho absurdo"? Para entender, basta pensar no tamanho da economia brasileira. Esse detalhe foi mencionado também pelo funcionário israelense. Ele qualificou o Brasil como gigante econômico, antes de chamá-lo, por contraste, de anão diplomático. Um contraste semelhante esteve implícito, mesmo com boa intenção, no comentário de Durão Barroso.

O presidente da Comissão Europeia foi até generoso. Teria sido menos gentil se tivesse ido mais fundo na avaliação do impasse. Absurdo, mesmo, é um país do tamanho do Brasil ter uma diplomacia subordinada aos interesses chinfrins da aliança entre o petismo, o kirchnerismo e o bolivarianismo.

Comandado por essa aliança, o Mercosul deu prioridade aos chamados acordos Sul-Sul, em geral com parceiros de pouca importância comercial. A aproximação com a Palestina é um marco notável dessa política. O livre-comércio regional com participação dos Estados Unidos foi recusado pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner. Nos anos seguintes, outros governos sul-americanos negociaram com Washington, sem o Mercosul, pactos comerciais. Nem sequer com o México, uma das economias mais importantes do hemisfério, foram tentadas negociações ambiciosas. Não se foi além de um limitado pacto de complementação.

Com a recente formação da Aliança do Pacífico (Chile, Peru, Colômbia e México), foi evidenciada mais uma vez a estagnação diplomática do Mercosul. Os dois blocos poderiam, talvez, promover uma integração. Mas só se os países do Mercosul se tornarem mais abertos, disse em janeiro o presidente do México, Enrique Peña Nieto. Quanto à negociação com a União Europeia, iniciada nos anos 1990, continua emperrada e sem perspectiva de avanço neste ano. O Mercosul permanece incapaz, principalmente por causa da resistência argentina, de apresentar suas ofertas para avaliação e discussão.

Enquanto isso, europeus e americanos negociam o pacto transatlântico e tentam novos entendimentos com outros parceiros. Asiáticos buscam aproximação com todo o mundo. A União Europeia se amplia e países da vizinhança desfrutam comércio favorecido com o bloco. A nova trama de concessões bilaterais e inter-regionais cresce e torna-se mais complexa, enquanto os líderes da Organização Mundial do Comércio (OMC) tentam reanimar e revalorizar a Rodada Doha.

Nesse quadro, a posição do Brasil e de seus parceiros do Mercosul se torna cada vez mais desvantajosa. A diplomacia comercial brasileira escolheu como prioridades, há mais de dez anos, a Rodada Doha, multilateral, e a aproximação com países emergentes e em desenvolvimento. O baile promovido pela OMC, a grande rodada multilateral, continua quase paralisado. Sem ingresso para os outros bailes - as dezenas de acordos parciais -, o Brasil tem de continuar no sereno, espiando as festas de fora.

Muitos empresários brasileiros aceitam sem aparente dificuldade a diplomacia comercial anã. Mostram-se mais interessados no protecionismo, parte importante dessa política, do que em conquistar mercados. Outra parte do empresariado reclama oportunidades comerciais mais amplas.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) cobrou do governo mais de uma vez, nos últimos dois anos, empenho maior na busca de acordos bilaterais e inter-regionais. Será impossível atender a essa demanda sem chacoalhar o Mercosul. No limite, restará trocar o status de união aduaneira pela condição, menos ambiciosa e menos limitadora, de zona de livre-comércio. Antes disso, falta o governo abandonar as fantasias terceiro-mundistas e semibolivarianas e redescobrir a noção de interesse nacional.

Os vândalos, quem diria, são vikings.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

São ferozes como os vikings e, como os vikings, acreditam no poder da destruição: os vândalos ferem, destróem e já mataram pelo menos uma pessoa. São unidos como os vikings, e desta união extraem sua força: a coordenação que mantiveram deixou os inimigos, os policiais, desarvorados. E, quem diria, a moda viking, aquele famoso capacete com chifres, expôs sua maneira de agir. Uma integrante do grupo de vândalos, Anne-Josephine Louise Marie Rosencrantz, descobriu que seu namorado Luiz Carlos Rendeiro Jr., Game Over, pai de seu filho, era partilhado por outra ativista, Elisa Quadros Pinto Sanzi, Sininho.

A traída se vingou traindo: Anne-Josephine foi à Polícia e prestou depoimento sobre a ação dos vândalos. Começou informando como Sininho admitiu o namoro com Game Over: "Sininho diz que ela e Game Over tinham um romance revolucionário". E apresentou as denúncias - entre elas, diz, a tentativa, liderada por Sininho, de incendiar o prédio da Câmara dos Vereadores do Rio. Segundo Anne-Josephine, este incêndio não fazia parte dos planos dos manifestantes, eSininho, aos gritos, pedia que lhe levassem gasolina para iniciar o fogo. Conforme diz Anne-Josephine, foi Game Over que conseguiu controlá-la.

De acordo com a Polícia, Anne-Josephine detalhou ainda as funções dos principais lideres dos vândalos e - oh, novidade! - relatou o uso de drogas por eles.

E daí? Daí que todos os detidos por vandalismo, inclusive os acusados por Anne-Josephine, foram libertados por ordem do desembargador Siro Darlan.

Os herdeiros - Presidência
A primeira tentativa de organização administrativa do Brasil foram as capitanias hereditárias, criadas por D. João 3º, rei de Portugal, em 1534. O sistema foi extinto pelo Marquês de Pombal em 1759. 

Mas, na prática, a capitania hereditária, em que o poder passa de pai para filho, ainda existe. A candidata do PSOL à Presidência, Luciana Genro, é filha do governador petista Tarso Genro, candidato à reeleição no Rio Grande do Sul. Aécio Neves, PDSB, é neto do governador mineiro Tancredo Neves, que morreu sem tomar posse na Presidência; Eduardo Campos, PSB, é neto do governador pernambucano Miguel Arraes. 

Os herdeiros - Governos
O candidato do PMDB no Maranhão, Lobão Filho, é filho do ministro e ex-governador Édison Lobão. No Pará, o candidato do PMDB é Hélder Barbalho, filho do ex-governador, ex-deputado e senador Jader Barbalho (político famoso, que até preso já esteve), e da ex-deputada federal Elcione Barbalho. Renan Filho, PMDB, Alagoas, é filho do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobrinho dos ex-deputados federais Olavo e Renildo, sobrinho do ex-prefeito de Murici, Remi Calheiros. Lobãozinho e Renanzinho descendem de um tronco mais antigo: José Sarney, padrinho de seus pais. Zé Filho, PMDB, candidato à reeleição no Piauí, é sobrinho do ex-governador Mão Santa. Nelsinho Trad, PMDB, Mato Grosso do Sul, é filho do deputado federal Nelson Trad. Marcelo Miranda, PMDB, Tocantins, é filho do deputado estadual Brito Miranda e foi governador por dois mandatos. Henrique Alves, PMDB, Rio Grande do Norte, é filho dos governadores e ministros Aluísio Alves e Garibaldi Alves Filho. Vital do Rego, PMDB, Paraíba, é neto do ex-governador Pedro Gondim. irmão de Veneziano Segundo Neto, ex-prefeito de Campina Grande, e filho da deputada federal Nilda Gondim.

Filhos, filhos
Moraes Moreira canta que "todo menino é um rei". E todo mundo é fidalgo - na versão original da palavra, "filho de algo", filho de alguém. 

E boa parte dos candidatos, admitamos, é mesmo filho de algo.

Tudo junto e misturado
Dilma jantou com o PMDB do Rio. Mas o candidato do PMDB ao Governo, Pezão, é Aécio. Lindbergh Farias, PT, se irritou com a visita de Dilma aos adversários do PMDB. Mas está aliado a Eduardo Campos. Aliados ou não aos adversários, Pezão e Lindbergh estão com Dilma - e seus adversários Marcello Crivella e Anthony Garotinho também. Todos com ela, ninguém com ela.

Eduardo Campos se coloca como alternativa ao "retrocesso" petista e à "modernização conservadora" de Aécio. Mas seu PSB está com os tucanos Alckmin em São Paulo e Beto Richa no Paraná (com Aécio) e com o PT de Dilma no Rio. 

E, no entanto, é simples entender: cada um por si e o butim do poder para todos.

Virou guerra
O peemedebista Roberto Requião, candidato ao Governo do Paraná, é Dilma desde criancinha. A petista Gleisi Hoffmann, sua adversária, também é Dilma desde criancinha, foi ministra e é casada com um ministro. Gleisi e Requião se odeiam. Agora, Gleisi denunciou Requião por ter, como governador, determinado ao Regimento Montado da PM do Paraná que cuidasse de seus 88 cavalos, a custos variáveis, por animal, entre R$ 1.000 e R$ 1.500 mensais. 

Resultado: o Ministério Público do Paraná designou a promotora Cláudia Cristina Martins Madalozo para investigar a denúncia. Gleisi também está debaixo de fogo: dois de seus auxiliares mais próximos, Eduardo Gaievsky e André Vargas, enfrentam acusações - Gaievsky por estupro de menores, Vargas por corrupção de maiores.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Onde a realidade melhor se esconde

Percival Puggina

Por inusitado que pareça, um dos modos mais eficientes de ocultar a realidade é escondê-la atrás dos números. A vantagem proporcionada por esse método está no sentimento de que "números não mentem". Contudo, eles podem ser enganosos, sim. Muitas vezes, quem deseja ocultar a realidade usa dos números como se fossem pecinhas de um lego, que tanto servem para fazer um trem, um avião ou um barco.

 Foi assim que li o artigo de um porta-voz do governo Tarso Genro na Zero Hora de ontem, dia 22. Nele, o porta-voz exalta os números de evolução do PIB do RS, buscando transmitir a impressão de que tudo vai bem ainda que salte aos olhos que quase tudo vai mal. Para apoiar sua tese, o autor, por exemplo, aponta o fato de que o PIB do Estado cresceu 6,3% no ano passado. Se tivesse referido também os dados de 2012, seria forçoso reconhecer que o PIB estadual, naquele ano, evoluiu -1,4%. Diante desse tombo, determinado principalmente pela estiagem então ocorrida, era natural que a expansão do ano subsequente fosse elevada. Só para exemplificar: de 2012 (estiagem) para 2013 (boas chuvas), a agropecuária apresentou um crescimento de 39% (!), puxando todos os outros indicadores para cima.

No texto em questão, atrás dos números de 2013, foram escondidos os maus números de 2012. E de lambuja, ocultaram-se, também, os maus números de agora, de 2014. Nos cinco primeiros meses deste ano, o Índice de Desempenho Industrial do RS caiu -2,1%. O fenômeno atinge vários setores, o nível de emprego industrial e as exportações, que caíram 20% no primeiro semestre deste ano.

Por outro lado, é oportuno falar sobre o desenvolvimento do RS dois dias depois de o ex-governador Olívio Dutra haver reconhecido, publicamente, que foi sua a decisão de expulsar a montadora que a Ford começava a implantar no Estado em 1999. A empresa foi parar na Bahia. E desde que isso aconteceu, o setor automotivo daquele Estado recebeu 58 novas empresas industriais, o número de empregos saltou de 548 para 10.518 e o PIB do setor passou de R$ 3,6 milhões em 2000 para R$ 2,9 bilhões em 2012! Tudo graças ao "desenvolvimentismo" do PT gaúcho.

Quem produz ou deixa de produzir, quem emprega ou desemprega são as empresas. Para o petismo, quando o nível de emprego sobe, quem os cria é o PT. Quando ele diminui, quem desemprega é a iniciativa privada. O que os governos podem fazer pelo desenvolvimento num sentido amplo é aquilo que o governo gaúcho não vem fazendo. As estradas estão abandonadas, a CEEE em situação pre-falimentar, a educação pública ideologizada e de má qualidade segue o estilo Paulo Freire, e uma hecatombe fiscal está desenhada para o próximo exercício. Quem ressaltou muito bem essa hecatombe foi o economista e contador Darcy Francisco Carvalho dos Santos em artigo publicado no dia 20, também em Zero Hora. Ao término da analise que fez, de modo inspirado, ele anteviu assim o teor da contestação que viria dois dias depois: "A estratégia política encontrada é se refugiar em números de crescimento conjunturais do PIB, que nada têm a ver com as ações do governo estadual". É atrás dos números que a realidade mais facilmente pode ser escondida.

Até quando?

Fabio Giambiagi
Valor

Gasto público, consumo crescentes, poupança doméstica declinante, déficit em aumento. Até quando?

Entre 1991 e 2013 a despesa primária do Governo Central, incluindo as transferências a Estados e municípios, passou de 13,7% para 22,8% do PIB, como mostra o gráfico. É uma variação espantosa, que implica uma média de 0,41% do PIB a mais do PIB de gasto público a cada ano por um período de 22 anos. Isso seria muito bom se o Brasil tivesse se convertido em um canteiro de obras, nossa educação tivesse a qualidade suíça e o atendimento à saúde um padrão escandinavo. Sabemos, porém, quão distantes estamos de tudo isso.



O padrão fiscal mudou após o ajuste fiscal de 1998, quando a percepção de que era necessário colocar limites ao déficit público levou o país a adotar metas relativamente rígidas de superávit primário, após o que a expansão da dívida foi contornada e o país efetivamente se ajustou em termos do resultado fiscal. O problema é que trocamos uma flexibilidade por outra: se antes o crescimento do gasto público era financiado por uma inflação elevadíssima até 1994 e pela expansão da dívida pública nos primeiros anos depois do Plano Real, estabelecido o "tripé" de metas de superávit primário/metas de inflação/câmbio flutuante vigente desde 1999, a variável de ajuste passou a ser a carga tributária federal: a receita do Governo Central, incluindo a Previdência, passou de 18,7% do PIB em 1998 para 24,4% do PIB em 2013. Isso dá uma média de 0,38% do PIB de carga tributária a mais na economia a cada ano durante 15 anos. Não é de estranhar que o Brasil tenha problemas de competitividade, resultantes entre outras coisas da combinação de uma carga tributária elevada com distorções do sistema de arrecadação.

Estas e outras questões que dizem respeito à avaliação dos problemas enfrentados pela economia brasileira encontram-se no meu capítulo de abertura, "A economia brasileira na segunda metade da década: riscos de esgotamento do ciclo de expansão iniciado em 2004" escrito com Marcelo Kfoury Muinhos, no livro "Propostas para o Governo 2015/2018", que organizei recentemente com Cláudio Porto e foi publicado pela Ed. Campus.

No capítulo, mostramos que, como os gastos do Governo têm crescido ao longo dos últimos 20 anos e como parte desses gastos se traduzem macroeconomicamente em maior dispêndio em consumo das famílias - como no caso do componente da Previdência Social associado ao INSS - o financiamento do investimento, tendo menos espaço para ser coberto por poupança doméstica, se tornou progressivamente mais dependente da poupança externa. Anos atrás, escrevendo para o livro que organizei com Octavio de Barros, "Brasil globalizado" (Ed. Campus), os professores Affonso Pastore, Maria Cristina Pinotti e Leonardo Almeida já tinham constatado que "uma importante regularidade empírica brasileira é a elevada correlação positiva contemporânea entre as importações e os investimentos: aumentos na formação bruta de capital fixo são extremamente dependentes de aumentos de importações" (página 296/297). Os resultados econométricos que identificamos no artigo com Marcelo K. Muinhos sugerem que essa relação entre o nível do investimento e a poupança externa se acentuou.

Nos 5 anos entre 1999 e 2004, a poupança doméstica aumentou 6,4 pontos percentuais do PIB, de 12,1% para 18,5% do PIB. Nesse período, o PIB cresceu 3,0 % a.a. e o consumo cresceu menos: 2,1% a.a. Já na média dos 9 anos de 2004 a 2013, o crescimento anual do PIB foi um pouco maior, embora não tenha mudado drasticamente (3,5%), mas foi no crescimento anual do consumo total que houve um salto: 4,3%. Em contrapartida, a poupança doméstica cedeu 4,7 pontos do PIB, caindo de 18,5% para 13,8% do PIB. No primeiro período, o país estava fazendo o que era certo, mas todo ajuste dói. No segundo, sacou contra o futuro e os governos compraram popularidade. A consequência se vê no resultado em conta corrente do balanço de pagamentos nas Contas Nacionais do IBGE: entre 1999 e 2004, passou de um déficit de 4,3% do PIB a um superávit de 1,4% do PIB - quase 6 pontos do PIB de ajustamento. Já em 2013, foi deficitário em 4,1% do PIB - uma piora de 5,5 pontos do PIB em 9 anos.

Gasto público crescente, consumo crescente, poupança doméstica declinante, déficit em conta corrente em aumento. A pergunta que cabe é: até quando? Esperemos que cedo ou tarde o país encare estas questões. Caso contrário, como diria Ancelmo Gois... deixa pra lá.

Militância diplomática

Ruy Fabiano
Blog do Noblat

Diplomacia, como se sabe, não é exatamente campo adequado para exercícios de militância.

O Itamaraty, desde os tempos do Barão do Rio Branco, cultivou o que veio a se chamar de pragmatismo responsável, o que o tornou considerado nos fóruns internacionais.

Sendo o Brasil um país ainda periférico, sem grandeza bélica, sempre evitou entrar em briga de cachorro grande. 

Seu ingresso na Segunda Guerra Mundial foi precedido de amplas negociações com os Estados Unidos, que resultaram na Siderúrgica de Volta Redonda, na Eletrobras e no consequente up grade em sua infraestrutura industrial.

Mesmo assim, só o fez, já na etapa final do conflito, depois de ter navios em sua costa bombardeados pelos nazistas. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Mas esse era o Itamaraty pré-PT, cujas linhas-mestras sobreviveram aos mais variados governos, incluindo os da ditadura militar.

O PT introduziu na diplomacia brasileira o vírus da militância. O país deixou de lado seus interesses - comerciais, políticos, estratégicos -, perdendo mesmo a noção de sua desimportância relativa, e passou a orientar sua conduta pelo viés ideológico.

A adesão ao bolivarismo chavista – de cuja gênese o PT participou, via Foro de São Paulo – o distanciou de parceiros tradicionais, como Estados Unidos e União Europeia.

Em compensação, o país passou a apoiar – e financiar – ditaduras, como as de Cuba e do Sudão, que contabiliza assassinatos numa ordem de grandeza que supera a soma de diversas Faixas de Gaza. Seus aliados preferenciais, na geopolítica global, são países como Coréia do Norte e Irã.

Alia-se a forças criminosas como as Farc, que mantêm campos de concentração na selva e vivem do que apuram com sequestros e venda de drogas. O chanceler de fato, Marco Aurélio Garcia, recusou-se a admiti-las como grupo terrorista, optando pela expressão oblíqua de “forças insurgentes”.

É compreensível, já que suas lideranças sentavam-se lado a lado do PT no Foro de São Paulo. Grande parte dos assassinatos que ocorrem anualmente no Brasil – mais de 50 mil, a maioria pobres e jovens – decorre dessa aliança sinistra, que igualmente supera em muito os até aqui sacrificados da Faixa de Gaza.

Eis, porém, que, não satisfeito em protagonizar uma diplomacia pelo avesso no continente, o Itamaraty decide incursionar pelo Oriente Médio. Lula já havia aparecido por lá, quando presidente, sustentando que sua experiência de sindicalista, habituado a negociar, seria suficiente para clarear um conflito que há décadas desafia as maiores diplomacias do planeta.

Expôs-se (e nos expôs) ao ridículo, sobretudo porque, além de não negociar coisa alguma, optou claramente por uma das partes – no caso, os palestinos. Eis que agora o ridículo se repete. E, de certa forma, com maior gravidade, pois a militância diplomática se dá em pleno conflito.

Diplomacia não comporta amadorismo. O Brasil não integra o grupo de países com expressão geopolítica, que exercem influência na região e nos fóruns internacionais. O primeiro dever da diplomacia é o desconfiômetro, isto é, perceber o seu tamanho. Foi mais ou menos isso que, para nosso constrangimento, nos disse o porta-voz do governo israelense, ao nos qualificar de “anões”.

O conflito de Gaza tem complexidade bem maior que uma negociação sindical. Não começou hoje e nem se sabe quando, como e se terminará. Apelar ao cessar-fogo – gesto-clichê que as grandes potências fazem enquanto buscam uma saída - implica não julgar as partes em conflito.

O Itamaraty valeu-se do jargão, para, em seguida, condenar apenas uma das partes, exatamente a que não teve a iniciativa do presente embate. Militância e diplomacia são práticas que se repelem e, quando se insiste em misturá-las resulta no que se viu: vexame.

Governo fecha a lojinha

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Taxas de juros estáveis, reconhecimento de erros e fim de 'estímulos' encerram ações na política econômica

No que diz respeito à economia, o governo Dilma Rousseff deixa transparecer que estão praticamente encerradas as suas atividades além da rotina burocrática.

Ontem, o Banco Central afirmou que não vai mais mexer na política monetária (pode até mexer, mas afirmou que não vai). A atual taxa básica de juros, com o auxílio do Pibículo e do câmbio ("dólar") mais ou menos tabelado, baixaria a inflação para perto da meta lá por meados de 2016, afirma o Banco Central.

Faz uma quinzena, o governo editou o que disse ser o último pacote de remendos destinado a evitar uma baixa crítica da rentabilidade das empresas, o que deve ajudar a evitar um surto de desemprego. Eram medidas derradeiras e cansadas de "estímulo econômico" compiladas numa medida provisória.

No mais, a atividade do governo deve se resumir aos estertores de um remendo já previsto. Ou seja, arrumar trocados a fim de evitar que as contas públicas fiquem num vermelho muito escuro.

Como se soube nesta semana, a arrecadação do governo federal praticamente não cresceu na primeira metade deste 2014 (alta de 0,28%, se descontada a inflação). A despesa cresce, mesmo que não se invente gasto novo.

Até o final do ano, a gente vai ver de novo o show de mágicas e milagres com os quais o governo vai pretender dar aparência menos lastimável ao seu balanço, o que será tão convincente quanto a realidade de, bem, um show de mágica.

O encerramento sem cerimônia da política econômica contou também com um mea culpa anônimo, um tanto espantoso e ainda não renegado, o reconhecimento de que a agitação ativista do governo foi infrutífera, pelo menos no que diz respeito aos tabelamentos ou tentativas de limitação de preços e lucros (gasolina, eletricidade, passagens de transporte público, juros, rentabilidade de privatizações).

Assim vai seguir a economia, no meio do caminho, sem crescer nem resolver os problemas que estorvam ao menos a retomada de um crescimento "normal" (3%?), triste e fatigada como no poema de Olavo Bilac, parada de súbito na estrada da vida.

Diga-se, mais uma vez, que não deve haver crise operística, frequentes até 2002, pois a economia tem gordura para queimar, reservas e melhoras acumuladas entre 1994 e 2008, por aí. Isto é, não deve haver colapso de natureza econômica, de origem doméstica, embora se possa dizer que o crescimento da renda per capita abaixo de 1% ao ano (média entre 2011 e 2014) seja algo desastroso para um país ainda algo pobre.

O mundo lá fora pode nos contaminar, não apenas devido a tumultos econômicos, vide as ondas recentes de mortícinios. A política econômica americana vai mudar, ou pelo menos os donos do dinheiro grosso podem antecipar tal mudança, talvez a partir do trimestre final deste ano, segundo o novo zum-zum-zum da praça financeira mundial. Pode não dar em nada de grave, pode haver novo surto de loucura especulativa, como se viu no ano passado e no início deste.

No mais, haverá reflexos e paniquitos da eleição muito incerta e especulação sobre o que será do novo governo, que não será fácil para ninguém.

IDH do Brasil perde dinamismo

O Globo
Editorial

Revoga-se a ideia corrente de que todos os problemas se resolvem com mais dinheiro. Na verdade, ele existe, porém parte importante é desperdiçada

Em mais uma divulgação de Índices do Desenvolvimento Humano (IDH) pela Organização das Nações Unidas, estes referentes a 2013, o Brasil repete o desempenho de versões anteriores, em que há avanços, mas nada que garanta a chegada do país aos primeiros lugares do ranking, em horizonte de tempo previsível.

O Brasil subiu uma posição, para o 79º lugar, numa relação de 187 países, ficando ao lado de Geórgia e Granada, e, na América Latina, abaixo, por exemplo, de Chile, Uruguai e Cuba. Como na última vez, o governo — agora, com mais motivos, devido à campanha eleitoral — reclama da ONU o uso de dados atualizados sobre educação, e de questões metodológicas. A seguir os números do governo, o Brasil teria ficado na 67ª posição do ranking. Não seria uma mudança estrondosa, mas certamente ajudaria na propaganda.

O progresso do Brasil é indiscutível, e nenhum governo isoladamente pode capitalizá-lo. Todos deram uma contribuição. De 1980 em diante, o IDH brasileiro cresceu 36,4%. Entre os fatores que ajudaram nesta evolução, a expectativa de vida do brasileiro aumentou 11,2 anos (está em 73,9 anos), a renda per capita, 56% (US$ 14.275), e a escolaridade média passou de 2,6 anos para 7,2 anos. Mas, observando-se os últimos anos, constata-se uma perda de dinamismo no IDH: de 2008 a 2013, o índice passou de 0,731 para 0,744 — quanto mais próximo de 1, melhor —, porém, no período, o Brasil perdeu três posições. Ou seja, há países em que o desenvolvimento humano evolui num ritmo superior ao do brasileiro.

E a taxa de aumento médio do IDH brasileiro tem desacelerado: 1,16% ao ano entre 1980 e 1990, 1,10% entre 90 e 2000, e apenas 0,67% de 2000 a 2013.

É preciso entender o que acontece. No período iniciado em 2000, tem-se o aumento substancial dos recursos para programas sociais, enquanto se inicia, de maneira mais focada, o programa de melhoria da qualidade do ensino público básico, séria vulnerabilidade do país. Há, ainda, a partir de 2011, a desaceleração da economia e a passagem da inflação para um patamar superior. E, além de tudo isso, persistem as deficiências no SUS.

Ao analisar este último relatório da ONU, o cientista político Simon Schwartzman, presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), disse estar o Brasil numa “armadilha da renda média”. Para ele, o brasileiro tem uma renda relativamente alta em relação a países africanos, a mortalidade infantil melhorou, as crianças estão nas escolas, mas a questão é como ter uma educação de qualidade. Dar, enfim, o salto para o estágio de desenvolvimento.

É muito provável que tudo passe pela melhoria dos gastos bilionários de um Estado que já absorve 40% das rendas da sociedade. Revoga-se, assim, a ideia corrente de que todos os problemas se resolvem com mais dinheiro. Na verdade, ele existe, porém parte importante dele é desperdiçada.

Gustavo Ioschpe derruba 12 mitos da educação brasileira

Bianca Bibiano
Veja online

Professor ganha pouco, universidade pública deve ser gratuita... O economista desconstrói versões predominantes sobre a realidade e os desafios do ensino nacional. Leia também: trecho inédito do novo livro do colunista de VEJA

(Heitor Feitosa/VEJA.com) 
Gustavo Ioschpe: "No dia em que a má qualidade do ensino tirar votos, 
teremos uma mudança verdadeira no país." 

No início de 2013, Israel Lelis (PP), prefeito de Ibipeba, cidade de 17.000 habitantes no interior da Bahia, teve uma atitude bastante incomum: deu a todos os 200 professores da rede municipal de ensino local um exemplar do livro O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer?", de Gustavo Ioschpe, economista e colunista de VEJA. "Pensamos que era uma piada de mau gosto", conta Cleide Lelis, secretária de Educação da cidade. "Os professores que não conheciam o autor acharam que se tratava de um pseudônimo criado pelo prefeito para criticar nosso trabalho." Esclarecida a situação, os docentes organizaram um evento para discutir os artigos do livro, publicados originalmente em VEJA. "Os textos falam do que ninguém quer ouvir e fazem questionamentos que enriqueceram o debate sobre o que fazer para melhorar a qualidade da educação", diz a secretária.

Divulgação/ Ed. Objetiva 
O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer?
 (Editora Objetiva; 254 páginas; 36,90 reais)

Sim, falar de temas espinhosos, questionar versões consagradas e derrubar mitos sobre a educação brasileira (leia na lista abaixo) é uma especialidade de Ioschpe, de 37 anos. Apoiado em rigor metodológico e na análise minuciosa de pesquisas nacionais e internacionais, o economista desconstrói discursos que se tornaram predominantes entre professores, pais, políticos e quase toda a sociedade para explicar a funesta situação do ensino nacional e seus desafios. Ioschpe volta à carga em novo livro, uma edição ampliada de "O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer?", que chega às livrarias no dia 1º de agosto e reúne 40 artigos publicados em VEJA entre 2006 e 2013. Os textos tratam de questões como financiamento da educação, participação dos pais e propostas de melhoria do ensino. O volume traz ainda um extenso material produzido após uma viagem do autor à China, em 2011, para investigar as causas do recente e acelerado avanço da educação no país asiático. Parte da apuração foi publicada à época em VEJA, mas parte permanecia inédita até agora (leia capítulo na íntegra).

A bagagem que permite ao economista fazer afirmações incisivas, que destoam da maioria — como a de que o Brasil não gasta pouco em educação e de que os professores não ganham mal —, foi acumulada ao longo de mais de 15 anos de pesquisas. "Eu não escrevo para mostrar minha opinião. Escrevo como pesquisador, apoiado em literatura empírica", diz Ioschpe. O gaúcho de Porto Alegre começou a escrever quando cursava o ensino médio e se preparava para o vestibular. "Sempre gostei de escrever e resolvi fazer um livro com dicas para vestibulandos que, assim como eu, precisavam aguentar a pressão dos exames." A repercussão do livro rendeu um convite para se tornar colunista do jornal Folha de S.Paulo, em 1996. No mesmo ano, foi aprovado na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, onde estudou administração, economia e ciências políticas.

O interesse pela educação brasileira nasceu com a repercussão de um artigo que defendia a cobrança de mensalidade nas universidades públicas. "Foi a primeira vez que recebi uma resposta agressiva dos leitores", diz. Para compreender o que causava tantas queixas, decidiu aprofundar a discussão em uma pesquisa científica. O resultado do trabalho ganhou forma em sua tese de graduação e foi aprofundado no curso de mestrado em desenvolvimento econômico na Universidade de Yale, onde ele mergulhou no estudo da economia da educação.

"Minha pesquisa me deixou chocado. Àquela altura, o Brasil ganhava visibilidade internacional com a promessa de um forte crescimento econômico, mas sofria com um problema seriíssimo de falta de capital humano, que atrapalhava o crescimento da nação e persiste até hoje. Para piorar, a discussão a respeito era irrelevante. O debate se resumia ao financiamento da educação e ao salário dos professores."

Com a "pretensão da juventude", como ele mesmo define, Ioschpe pensou que poderia mudar o eixo central do debate usando argumentos de sua tese de mestrado, publicada em 2002. "Eu queria mostrar que soluções comprovadamente eficazes para alavancar a aprendizagem, como cobrar diariamente o dever de casa, não envolviam recursos financeiros. Mas ninguém quer ouvir sobre soluções que deem mais trabalho aos professores. A educação nacional era e continua um desastre."

O receio de que o atraso educacional aniquilasse as chances de o Brasil se tornar um país desenvolvido motivou Ioschpe a seguir escrevendo — ele é colunista de VEJA desde 2006. "O maior elogio que posso receber é uma crítica pessoal. Se os comentários apontassem fraquezas nos dados que apresento, eu me importaria de verdade. Quando elas vem recheadas de xingamentos, vejo apenas que faltaram argumentos consistentes aos meus interlocutores." Com poucos interlocutores nessa seara dispostos a debater, o economista mirou outro alvo. "Antes, eu acreditava que poderia interferir no debate educacional mostrando que o problema é de má gestão e não de falta de recursos financeiros ou tecnológicos. Recentemente, concluí que discutir com esses grupos não adianta: a mudança só vai acontecer quando a população passar a cobrar melhorias."

Gustavo Ioschpe derruba 12 mitos da educação brasileira


Em entrevista, o economista comenta a situação e os desafios do ensino nacional

"O Brasil investe pouco em educação"


“Se um médico prescreve um remédio para uma doença e ele não surte efeito, a primeira opção é aumentar a dosagem. Se o problema persistir, provavelmente o médico tentará outro medicamento. Quando o assunto é educação, a lógica segue o caminho oposto: a solução para todos os problemas é sempre aumentar a dosagem do que se considera o único remédio, ou seja, o dinheiro. Os defensores desse tratamento desconsideram o fato de que repasses de verba cada vez maiores já foram anunciados por programas como Fundef e Fundeb sem melhorar a qualidade da educação. Apesar disso, o Plano Nacional de Educação, recém-sancionado pela presidente Dilma Rousseff, prevê que, até 2024, 10% do PIB brasileiro deve ir para o setor. Segundo a Unesco, países como Finlândia, China, Irlanda e Coreia do Sul, que apresentam os melhores índices educacionais do mundo, gastam até 5,7% do PIB com educação. Em contraponto, nações como Quênia, Namíbia, Armênia e Mongólia despendem entre 7% e 12,9% do PIB no setor: mesmo assim, não conseguiram solucionar o problema da baixa qualidade do ensino.”

"Os professores são mal remunerados"
“No Brasil, o salário da maioria dos profissionais, como médicos, engenheiros, artistas e professores, é em média 3,5 vezes inferior ao pago a profissionais das mesmas categorias nos Estados Unidos. A diferença salarial é explicada pelo PIB per capita de cada país. O professor ganha pouco por ser brasileiro, não por ser professor. O argumento comum, porém, é de que se o Brasil quiser atingir o patamar educacional de países desenvolvidos, como os próprios Estados Unidos, deve pagar o mesmo a seus docentes. Isso desconsidera o fato de que quase 80% do gasto com educação aqui são destinados a pagar salários de professores e funcionários. Se pagarmos aos docentes brasileiros, em termos nominais, o mesmo que os americanos recebem, eles seriam a única categoria a atingir esse patamar salarial no Brasil. Os demais profissionais, contudo, continuariam a ganhar 3,5 vezes menos.”

"Ganhando mais, os professores vão ensinar mais"
"Não há, na literatura empírica nacional e internacional, provas de que salários mais altos influenciam a melhora na qualidade do ensino. Uma simples constatação disso é que os sucessivos aumentos no piso salarial dos docentes brasileiros até hoje não tiveram reflexos nos índices educacionais e também não solucionaram os problemas das greves, que continuam a acontecer todos os anos. O sistema educacional é perverso: se o professor faz mal o seu trabalho e ainda assim ganha mais, por que lutar para fazer um trabalho melhor que não trará mais ganhos?”

"As salas de aula têm alunos demais"


“Este é um dos mitos comumente relacionados à baixa qualidade do ensino e à necessidade de aumento salarial dos docentes. A relação, porém, não resiste à apuração de pesquisas empíricas. Elas mostram que, em salas com menos de 20 alunos, a turma aprende o mesmo que em uma sala mais cheia. O único fator que faz diferença real é o professor e sua capacidade de gerir uma sala de aula e transmitir conhecimentos para um grupo.”

"Escola em tempo integral vai melhorar os índices educacionais"
"Há evidências de que mais horas-aula melhoram o desempenho acadêmico. O problema é que a carga horária brasileira, que já não é alta, raramente é cumprida, e a maioria dos programas de ensino integral praticados no Brasil oferecem atividades não-acadêmicas, como música e esporte, no contraturno. Nesse modelo, o ensino em tempo integral é um desperdício. A primeira prioridade deveria ser usar o tempo de aula de modo eficiente, pois o Brasil é um dos países que mais desperdiça tempo com atrasos de professores e alunos, anúncios, chamada etc. Quando essa carga horária estiver bem ocupada, e quando os programas no contraturno forem de português, matemática e outras disciplinas, o desempenho dos alunos vai melhorar. Nesse caso, eu seria totalmente favorável à iniciativa."

"A tecnologia vai resolver o atraso escolar"
“Praticamente toda a pesquisa sobre o assunto, não apenas no Brasil como no exterior, mostra que não há relação entre a presença de computadores na escola e aprendizado. Ainda assim, o Ministério da Educação decidiu em 2012 dar tablets aos professores, um custo de 150 milhões de reais. O fracasso atual das tecnologias em sala de aula não quer dizer que elas não possam dar resultados no futuro. A utilização de softwares específicos para aprendizado tem mostrado resultados positivos, principalmente em matemática. Mas o melhor software educacional disponível hoje é, disparado, o cérebro de um bom professor."

"A escola tem que formar cidadãos críticos e conscientes"
“Esse argumento reflete a ideologização do ensino, presente em todas as escolas brasileiras. Pesquisas do Inep (órgão ligado ao MEC responsável por pesquisas educacionais) com professores mostram que nove em cada dez docentes concordam com a afirmação de que ‘o professor deve desenvolver a consciência social e política das novas gerações’. Menos da metade, no entanto, acredita que ‘o professor deve evitar toda forma de militância e compromisso ideológico em sala de aula’. Essa percepção, além de alterar o conteúdo a ser ensinado, afeta a forma como ele chega aos alunos: por isso, trabalhos em grupo passaram a se sobrepor a exercícios individuais, notas e provas passaram a ser vistas com maus olhos e recompensar o mérito acadêmico é equivalente a premiar uma competitividade nefasta. É impossível, porém, medir se essa filosofia está efetivamente criando cidadãos críticos e conscientes ou apenas se sobrepondo ao ensino dos conteúdos.”

"Rankings educacionais não levam em consideração a realidade das escolas"


"É verdade que os rankings educacionais não consideram fatores socioecômicos. O que se esconde por trás desse mito, contudo, é a ideia de que por causa disso eles não podem ser considerados bons termômetros para a educação, como apontam os críticos das avaliações externas nacionais e internacionais. Os rankings estão certos em não considerar esses fatores, porque eles devem medir o conteúdo que está sendo ensinado em uma determinada etapa de ensino, independente da localidade da escola. Se eles considerassem o fator social, esse serviria apenas de muleta para justificar o fato de que em regiões mais pobres os alunos aprendem menos e não há nada a ser feito. Com os rankings isentos dessas peculiaridades, é possível saber onde está o problema e minimizar fatores externos ao ensino dos conteúdos com uma política educacional específica. Onde há déficit econômico, é preciso haver superávit educacional."

"Divulgar a nota do Ideb na porta das escolas estigmatizaria alunos"
"A divulgação das notas do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, que mede o fluxo escolar e o desempenho dos estudantes em avaliações nacionais) nas escolas é uma campanha que defendo há algum tempo. A medida já foi aplicada em Estados como Minas Gerais e Goiás e até o momento não foi constatado nenhum prejuízo psicológico aos alunos, nem nas escolas com as piores notas. Não há explicação lógica em pensar que uma criança seria humilhada por saber que estuda em uma instituição que não está oferecendo bom ensino. Pelo contrário: a divulgação dos dados educacionais deve servir para que as famílias cobrem melhorias e, ao mesmo tempo, para que as escolas tomem consciência de que precisam melhorar."

"Universidade pública deve ser gratuita"


"A cobrança de mensalidade para alunos ricos foi uma das primeiras bandeiras que defendi. Quando fui aprovado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde estudei apenas três semanas antes de ir para os Estados Unidos, cheguei a procurar a reitoria para que eu pudesse colaborar com a instituição de alguma forma, pagando mensalidade ou fazendo doações. Minha família pagou pelo ensino básico e não via razões para eu estudar gratuitamente no ensino superior. A universidade negou minha tentativa veementemente. A prática funciona perfeitamente em outras nações, como Austrália, Estados Unidos e Chile, que recentemente anunciou a gratuidade a todos os alunos. Será um retrocesso em um sistema educacional que colocou o país entre os melhores do mundo. No Brasil, é fato conhecido por todos que os aprovados em instituições públicas vêm de grupos econômicos mais favorecidos e a maioria esmagadora dos alunos mais pobres acaba em faculdades privadas de baixa qualidade. A cobrança não prejudicaria o sistema de ensino e traria subsídios para financiar os estudos de quem precisa."

"A sociedade está engajada na melhoria da educação"
"É socialmente aceitável ter um discurso que mostra preocupação com a educação, mas a maioria das pessoas não se importa realmente. Uma pesquisa do Inep com pais de alunos mostrou que, em uma escala de satisfação de 0 a 10, sendo zero muito insatisfeito e 10 muito satisfeito, a nota média dada pelos pais às escolas de seus filhos foi 8,6. Se as famílias brasileiras apontam esse nível de satisfação com o ensino público, muito dificilmente elas vão protestar por melhorias. É preciso ponderar, contudo, que esses dados não revelam falta de interesse por parte das famílias. Em muitos casos, os pais que não têm instrumentalização para medir a qualidade da escola, pois sequer terminaram o ensino básico. Para um pai, é muito difícil conviver com a ideia de que o filho está com problemas na escola e que ele não pode ajudar. Se ele sabe que tem um problema, mas não consegue apontá-lo, acaba se baseando em critérios mais palpáveis, como o recebimento de uniforme, transporte e outros fatores que não estão ligados diretamente ao aprendizado dos estudantes. Para reverter esse quadro, é preciso voltar a um passo anterior: mostrar a ele a realidade do sistema. O engajamento vem depois da conscientização do problema."

"O ensino brasileiro está melhorando na velocidade desejada"
"Governantes e até órgãos internacionais, como Unesco e OCDE, gostam de ressaltar o crescente esforço do Brasil para melhorar a educação no país. As melhorias, porém, são pífias se comparadas ao gastos no setor. O problema do acesso ao ensino pode ter sido praticamente sanado, mas a qualidade da oferta definitivamente não traduz o discurso feliz e eleitoreiro de muitos porta-vozes."

Pesquisa mostra que alunos perdem um dia de aula por semana devido a má gestão no ensino público

 O Globo

No Brasil, 27% do tempo em sala é dedicado a organização da turma e 9%, a atividades não escolares

Michel Filho/24-3-2013 - Agência O Globo
Levantamento mostra que no Brasil o percentual do tempo usado 
para atividades acadêmicas é de 64%: o ideal são, pelo menos, 90%  

RIO - O mau gerenciamento das salas de aula das escolas públicas no Brasil faz com que os estudantes percam o equivalente a um dia inteiro de ensino por semana. O dado é do relatório “Professores excelentes: como melhorar a aprendizagem dos estudantes na América Latina e no Caribe”, divulgado pelo Banco Mundial.

Ao observar mais de 15 mil salas de aula de três mil escolas em sete países latino-americanos, pesquisadores detectaram problemas relacionados às relações cotidianas entre alunos e educadores — falta de liderança, perda de tempo letivo com assuntos extracurriculares —, além de baixo padrão de formação de professores, ausência de planos de carreira, baixos salários e falhas nas avaliações de desempenho. Tudo isso, somado, explicaria o desempenho ruim dos alunos nas avaliações internacionais.

—A observação das salas de aula no Brasil mostrou que 64% do tempo são direcionados a atividades acadêmicas; 27%, à organização da sala de aula; e 9%, a atividades que não competem ao ensino. O padrão para um bom gerenciamento seria com 90% direcionados às práticas pedagógicas, e 10%, para a organização sala — afirma Barbara Burns, uma das coordenadoras da pesquisa.

Docente bom, aluno adiantado
O levantamento demonstrou que alunos com os melhores docentes conseguem superar em até 50% o conteúdo previsto para uma determinada série, antecipando tópicos da seguinte. Já nas escolas com os piores professores, a turma chega ao fim do ano letivo com menos da metade do conteúdo planejado.

A pesquisa também revelou que o desempenho escolar dos estudantes influencia na economia do país. O relatório expõe que, se o México aumentasse o rendimento médio de seus estudantes no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) até o nível da Alemanha, seu produto interno bruto (PIB) teria um incremento de dois pontos percentuais.

— É difícil pensar em um elemento mais importante para ampliar as oportunidades para todos os latino-americanos do que a qualidade da educação — afirma Jorge Familiar, vice-presidente do Banco Mundial para a região.

O Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe) afirma que o Estado não fornece condições para a atuação do professor, e isso é refletido em sala de aula.

— É inviável um bom rendimento sem formação continuada e com remuneração baixa. O que acontece na sala de aula é um reflexo da falta de estrutura. O professor está entregue a sua própria sorte — afirma Samantha Lopes Maciel, coordenadora-geral do sindicato, que ficou espantada com o índice de “perda de tempo” em sala, mas o vê como um problema de planejamento. — É necessário que o professor tenha um momento na sua carga horária para reunião e planejamento. Quando não existe, isso impacta na relação com os alunos.

O relatório demonstra a falta de incentivo salarial. O nível de remuneração mensal em 2010, na América Latina, era entre 10% a 50% mais baixo do que a verificada em outras carreiras equivalentes. Essa relação se mantém desde 2000.

Revisão curricular é necessária
Para o presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, Moacir Feitosa, há uma deficiência na formação, que deveria ser bem mais completa.

— Do ponto de vista acadêmico, os currículos deveriam ser mais plenos. Falta uma atenção mais intensiva aos objetivos de cada série. A distribuição do tempo fica prejudicada quando se dá atenção a várias demandas e se perde o foco na questão central. Por isso, é necessário revisarmos o currículo para cada segmento — afirma Moacir.

A atenção mais direcionada é um dos pontos do relatório que demonstram como simples práticas podem gerar resultados.

— Durante a observação, vimos professores que faziam coisas simples como comentar o dever de casa. Quando cruzamos com os resultados daquela turma em exames, vimos que há uma correlação positiva — afirma Barbara, que enfatiza a necessidade de investimento: — Obviamente, o professor precisa ter condições de trabalho para atuar.

População cresce mais que PIB e a renda per capita diminui

Pedro do Coutto
Tribuna da Imprensa

Na Folha de São Paulo a reportagem está assinada por Cláudia Rolli e Tatiana Freitas, enquanto no Globo a matéria é de Geralda Doca, Marta Beck e Rennan Setti, mas os temas e as fontes são os mesmos: Boletim Focus do Banco Central reduziu a perspectiva de crescimento do Produto Interno bruto este ano para um patamar entre 0,9 e 1%. O índice coincide com o calculado pelo Banco Santander.

Resultado muito ruim. Primeiro, porque a taxa demográfica é calculada pelo IBGE na escala de 1,2%: nascem 1,9, morrem 0,7% ao ano. População avançando acima do PIB significa recuo na renda per capita, indicador fundamental para o desenvolvimento. Em segundo lugar, destaca O Globo, o IPCA está apontando para uma inflação de 6,4%. Maior do que os reajustes de salário. O reflexo atinge a sociedade como um todo em face da perda do poder aquisitivo.

Os juros aplicados às compras a crédito continuam no mundo da lua, ao lado de uma retração de consumo. Tanto assim que empresas que passaram a vender menos decidiram vender mais energia quepossuem em estoque. O destino é o mercado livre de curto prazo, cujos preços são elevados.

Todos esses fatores convergem e conduzem para ampliar os índices de insatisfação social e o governo necessita agir com firmeza para revertê-los, sobretudo porque nos encontramos num ano eleitoral com a disputa presidencial fixada para daqui a três meses e uma semana.

PESSIMISMO
O Boletim Focus encontra-se pessimista, não prevendo melhora do quadro econômico até às eleições. Surpreendente tal posicionamento, sobretudo expressado por uma entidade vinculada ao Banco Central. Não é possível que não vislumbre ele, sem trocadilho, nenhum foco de esperança no horizonte.

Provavelmente sem que sua direção sentisse  ou percebesse, o Focus proporcionou um panorama que serviu à oposição e não ao Planalto. Não ao governo, portanto, ao qual está administrativamente vinculado. Passou uma forte dose de pessimismo, que inevitavelmente se acrescenta ao clima negativo que partiu  da derrota por sete a um da Seleção Brasileira, clima que ainda vai perdurar por vários meses envolvendo a população, portanto, o eleitorado brasileiro.

O governo  Dilma Rousseff necessita reagir a tempo e mobilizar suas equipes e suas correntes de comunicação com a opinião pública para desfazer o derrotismo injetado na atmosfera nacional.

Não é possível que não exista uma fonte de reação, sobretudo no momento em que a campanha eleitoral está prestes a se iniciar através dos horários gratuitos na televisão e no rádio. Inclusive possuindo um espaço bem maior do que aquele que os seus adversários somados vão utilizar, Dilma Rousseff terá de preenchê-lo. E fazê-lo de forma positiva, otimista e convincente.

Em matéria de marqueteiro, não poderia haver alguém mais capacitado do que João Santana. Pode haver igual, mas não mais capacitado para a função. A propósito: por que a presidente da República não ouve Santana a respeito da divulgação dada pelo Boletim Focus aos números que confrontam o índice demográfico, o PIB e o aumento da inflação?

2015: com ou sem tarifaço?

Leandra Peres
Valor Econômico 

Socorro a elétricas terá impacto de 0,2 ponto no IPCA

A recomposição nos preços da gasolina e da energia elétrica, represados para evitar um estouro da meta de inflação em ano eleitoral, será determinante para o comportamento dos preços em 2015. Não há no governo quem ouse traçar cenários para os reajustes da gasolina. Mas já foram feitas contas do que pode custar a energia elétrica.

A equipe econômica calculou em 0,2 ponto o impacto do empréstimo de R$ 17,7 bilhões que está sendo finalizado para socorrer as distribuidoras de energia elétrica. O efeito se dará ao longo de 2015 e se repetirá no IPCA de 2016, ano em que o financiamento ainda estará sendo pago pelos consumidores. Na tarifa de energia, são cerca de oito pontos percentuais, mantidos por dois anos.

O mercado financeiro estima esse custo em 0,5 ponto no IPCA, mas estaria superestimando. O empréstimo feito às elétricas pelo consórcio de bancos se transformará num encargo nas contas de luz em fevereiro de 2015, mas o primeiro pagamento do empréstimo só ocorrerá em novembro.

O dinheiro arrecadado nesses nove meses, cerca de 7% do valor da operação, ou R$ 1,2 bilhão, funcionará como uma garantia extraordinária ao empréstimo. A partir de fevereiro de 2017, esse dinheiro pode ser abatido do saldo devedor ou devolvido ao consumidor na forma de redução nas tarifas. Por isso, um impacto menor sobre o IPCA do que o calculado pelo mercado financeiro.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) também tem trabalhado no alívio financeiro das distribuidoras. Os reajustes concedidos nas tarifas em 2014 atualizaram o preço da energia comprada nos leilões realizados em 2013 e início deste ano. Assim, tarifas que embutiam uma energia comprada, por exemplo, a R$ 100 por MWh, já estão sendo projetadas com a energia a R$ 260 por MWh, preço do último leilão.

Nos reajustes já concedidos, a Aneel fixou o custo das térmicas e da parcela da energia que as distribuidoras não conseguiram cobrir com contratos de longo prazo (exposição involuntária) num valor igual à média da energia adquirida por meio de contratos de longo prazo, algo que varia entre R$ 140 por MWh e R$ 150 por MWh. Dessa forma, o custo extraordinário causado pela explosão no valor da energia no mercado de curto prazo, que hoje oscila acima de R$ 650, ficou fora da tarifa, mas será coberto pelos R$ 17,7 bilhões intermediados pelo governo, diluindo o impacto nas tarifas, na inflação e no caixa das distribuidoras.

No cenário desenhado pelo governo para a inflação da energia em 2015, os oito pontos adicionais de reajuste nas tarifas, necessários para pagar esse empréstimo, serão pelo menos parcialmente compensados com a oferta de energia mais barata para as distribuidoras.

Em janeiro e julho, vence o prazo de concessão de usinas da Cesp, Cemig e Copel, que juntas somam cerca de 5 mil MW, equivalente a cerca de 8% da demanda atual. Essa energia custará às distribuidoras cerca de R$ 40 por MWh, muito abaixo dos atuais R$ 140 por MWh dos contratos em vigor. Essa diferença equivale a uma pressão de baixa nas tarifas.

Para isso, o governo conta com uma decisão favorável do Superior Tribunal de Justiça (STJ) na disputa travada com a Cemig pela usina de Jaguara. A concessão da empresa mineira venceu em 2013, mas uma decisão judicial permite que ela não seja devolvida ao governo federal e a Cemig mantém o direito de comercializar a energia no mercado de curto prazo. Uma vitória nessa disputa, na visão do governo, significaria um desestímulo a novas ações judiciais, além de um precedente favorável, caso haja alguma nova discussão.

Um outro fator que poderia elevar os reajustes de 2015 é o repasse feito pelo Tesouro Nacional às distribuidoras em 2013 no valor de R$ 10,8 bilhões. O decreto que autorizou a operação fala num prazo de três anos para pagamento, mas as autoridades não contam com o início dessa cobrança no horizonte próximo. Ou seja, daí haverá pressão de preços.

Por último está o imponderável. As chuvas que começam em novembro vão determinar quais usinas térmicas serão acionadas, e por quanto tempo, ao longo de 2015. O resultado dessa combinação determinará a necessidade de novas operações de socorro às distribuidoras.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) vê o uso de termelétricas como o novo padrão do sistema. As usinas só deverão ser desligadas nos anos em que chover acima da média histórica. Em anos de hidrologia próxima à média, a tendência é que as térmicas continuem como fonte importante de geração.

As autoridades federais acreditam numa hidrologia melhor em 2015, algo na linha de que não é possível um terceiro ano de tanto azar, mas concordam que nem assim será possível o desligamento completo das termelétricas. Seria considerado muito bom um uso menos intensivo e o desligamento daquelas movidas a diesel, as mais caras do sistema.

Se isso se confirmar, o gasto com térmicas e com a compra de energia no mercado de curto prazo cairá bastante em 2015. Na conversa com os bancos que vão fazer novo empréstimo às distribuidoras, a Fazenda deixou claro que não há programação de novas operações. Ou seja, não espera pressão sobre o caixa das distribuidoras ou do Tesouro Nacional no ano que vem.

Esses argumentos sustentam o quadro oficial de que não haverá um tarifaço em 2015, pelo menos no que diz respeito à energia elétrica.

Num dos cenários pessimistas traçados pelo ONS, os reservatórios das regiões Sul e Sudeste, onde estão os principais reservatórios, chegariam a novembro com 18,5% de armazenamento, o que exigiria chuvas equivalentes a 77% da média histórica até abril para garantir o suprimento de energia em 2015. No último período úmido, as chuvas foram 57% da média histórica.

Especialistas em energia costumam dizer que não basta chover, mas é preciso chover no lugar certo. Em 2015, essa máxima parece ganhar ainda mais relevância. São Pedro terá que derramar água na cabeceira dos rios do Sudeste e Centro-Oeste. Até porque o espaço para o novo presidente fugir de um tarifaço está ficando cada vez mais apertado.

Morde e assopra

Celso Ming
O Estado de S.Paulo 

No intervalo de 24 horas, o Banco Central emitiu sinais contraditórios. Na quinta-feira, por meio da Ata do Copom, avisou que a prioridade era o combate à inflação e, por isso, os juros básicos (Selic) não poderiam cair para segurar o consumo. Ontem, afrouxou as regras para concessão do crédito e, com isso, empurrou os bancos para o aumento dos financiamentos e, portanto, para o aumento do consumo.

O que está por trás desse jogo ambíguo ficou mais difícil de saber. O que a gente sabe é que, há meses, tanto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, como o ex-presidente Lula vinham questionando publicamente a desaceleração do crédito pelos seus efeitos sobre a venda de bens de consumo duráveis, especialmente veículos. Isso sugere que o Banco Central encontrou um jeito de ceder às pressões ao mesmo tempo que tenta passar a impressão de que se mantém inflexível na política de juros.

Um dos efeitos desejados de uma política monetária restritiva (aquela que opera com juros altos, como agora) é o aperto no crédito. Se agora decidiu facilitar as operações de crédito, o BC está, na prática, tirando força da política de juros.

A decisão tomada ontem veio com o rótulo de medida regulatória, como afrouxamento de medidas prudenciais. Estas são exigências impostas aos bancos para reduzir o risco de calotes nas operações de crédito.

Fica sem explicação por que certas providências destinadas a dar segurança ao sistema, de repente, não precisam ser tão rigorosas, sem que aparentemente as condições de operação tenham se alterado.

Afora os curtos-circuitos na área de administração das expectativas, o efeito prático das decisões ontem tomadas parece limitado. Os bancos terão mais dinheiro para o crédito. São mais R$ 45 bilhões, avisa o chefe do Departamento de Normas do Banco Central, Sérgio Odilon dos Anjos. A pergunta sem resposta é se há demanda por mais crédito, algo que até agora os bancos vinham negando diante da desaceleração do crédito livre (veja o gráfico).

A queda das vendas de veículos, por exemplo, não aconteceu por falta de crédito, mas por falta de apetite do comprador. As isenções tributárias para venda de automóveis provocou antecipação de compras e não aumento de mercado. Se tem carro novo e está pagando financiamento por ele, o proprietário não espera trocá-lo tão cedo por outro zerinho.

Afora isso, o consumidor formou a percepção de que a inflação alta está minando seu poder aquisitivo e que seu emprego pode balançar. É natural que, nas circunstâncias, assuma comportamento mais conservador e evite comprometer seu orçamento com mais despesas.

Esse quadro sugere que o afrouxamento do crédito não terá grande impacto na pretendida retomada do consumo e da atividade econômica, com a agravante de que esta diretoria do Banco Central, presidida por Alexandre Tombini, junta mais um caso à coleção de decisões contraditórias.

Ao liberar compulsório, BC se contradiz e ataca o problema errado

Ana Clara Costa e Naiara Infante Bertão
Veja online

Para economistas, medida anunciada nesta sexta-feira não deve impactar o crescimento e ainda coloca em xeque ata do Copom divulgada apenas um dia antes

(Eduardo knapp/Folhapress) 
Alexandre Tombini, presidente do Banco Central 

O impacto da medida deve ser sentido de forma mais relevante nos bancos médios, que possuem menos liquidez, e financiam, sobretudo, a compra de automóveis

O Banco Central anunciou nesta sexta-feira uma portaria que permite que até metade do dinheiro aplicado em forma de depósito compulsório pelos bancos possa ser usado em operações de crédito. Com isso, o BC espera aumentar em 30 bilhões de reais a oferta de crédito ainda em 2014. Os depósitos são a contribuição obrigatória que os bancos fazem junto ao Banco Central, cuja alíquota é calculada com base no volume de depósitos feitos à vista e à prazo nas instituições. A obrigação reduz o risco sobre o sistema financeiro e pode ser usada como ferramenta de política monetária. Ao reduzir a taxa do compulsório, o BC permite a liberação automática de mais dinheiro para que os bancos possam emprestar a seus clientes. Quando a taxa aumenta, há um aperto monetário e tendência à redução da oferta de crédito.

Segundo a nota do BC, a medida leva em conta o baixo nível de inadimplência para tentar aumentar a liquidez dos bancos, ou seja, a oferta de crédito ao consumo, por exemplo. A autoridade monetária não deu mais explicações sobre as razões que motivaram o relaxamento das regras, mas diante das recentes revisões nas estimativas de crescimento da economia brasileira, não há dúvidas de que a iniciativa do BC é uma das poucas, senão a única, opção que resta ao governo para tentar reavivar a economia. O problema, segundo economistas ouvidos pelo site de VEJA, é que os 30 bilhões de reais terão efeito nulo no estímulo ao crescimento, por representarem um porcentual insignificante do tamanho do mercado de crédito no Brasil, que hoje está em 2,8 trilhões de reais.

Outro equívoco é o timing do anúncio. Apenas um dia antes, a autoridade divulgou a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), documento que comunica ao mercado as razões que levaram o BC a manter os juros em 11%. Nela, o órgão afirma que a moderação do crédito é positiva para o cenário de inflação: "O Comitê considera oportunas iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio de operações de crédito", diz a nota. Em outro parágrafo, a autoridade afirma não ter intenção de implementar mudanças na política monetária. "O Comitê antecipa cenário que contempla inflação resistente nos próximos trimestres, mas, que, mantidas as condições monetárias – isto é, levando em conta estratégia que não contempla redução do instrumento de política monetária – tende a entrar em trajetória de convergência para a meta nos trimestres finais do horizonte de projeção", afirma.

A contradição deixou economistas perplexos. "A decisão soa completamente fora do lugar quando comparada à ata. Numa medida que desafia o bom senso, o BC simplesmente desdisse o que afirmou um dia antes", escreveu o economista da Gradual Corretora, André Perfeito, em nota a investidores. A contradição era tudo o que o BC não precisava. A autoridade vinha conseguindo, pouco a pouco, recuperar a credibilidade do mercado depois de episódios ocorridos em 2011 que demonstraram ingerência do governo sobre a política monetária. Para o ex-diretor do BC, Alexandre Schwartsman, a medida desta sexta foi infeliz. "Se alguém no BC ainda tivesse a capacidade de pensar um pouco além do dia seguinte, teria notado que o anúncio das medidas de hoje, pontuais e sem impacto macro, e sim mais voltadas a questões específicas do setor bancário, não deveria se seguir à divulgação da ata que menciona moderação de crédito e manutenção da taxa de juros", afirmou o economista ao site de VEJA.

O beneficiário — 
O impacto da medida deve ser sentido de forma mais relevante nos bancos médios, que possuem menos liquidez, e financiam, sobretudo, a compra de automóveis, afirmou ao site de VEJA a economista Mariana Oliveira, da Tendências Consultoria. "Se o BC olhar apenas o mercado de crédito, as mudanças anunciadas hoje fazem sentido porque o crédito está desaquecido, especialmente em financiamento de veículos", afirma. Em entrevista recente ao site de VEJA, o presidente da JAC Motos, Sergio Habib, afirmou que a desaceleração econômica fez com que o crédito ao setor ficasse mais restritivo, devido, em especial, à inadimplência registrada nesse tipo de operação. Há alguns dias, a Moody's alertou para o risco de crédito em bancos de montadoras do Brasil. O setor tem passado por fortequeda em vendas e produção, o que tem impactado não só a cadeia industrial, mas também o emprego. 

O real problema — 
Contudo, na avaliação de Alexandre Schwartsman, para retomar a tendência de crescimento, a solução seria colocar em prática planos contundentes de reforma econômica, não medidas paliativas para um único setor. "São necessárias medidas que elevam a produtividade. Ou seja, um programa menos intervencionista de concessões de infraestrutura e petróleo, avanços na privatização, simplificação tributária, correção de preços administrados para destravar investimentos. Enfim, uma agenda longa, mas voltada ao amento da produtividade e investimento", afirma o economista.

O arrefecimento do crédito em determinados setores não significa, contudo, que a falta de crédito seja o problema que impeça o crescimento do país, segundo análise de Tony Volpon, economista do banco Nomura. "O problema do Brasil não é crédito ou liquidez. Ambos estão amplamente disponíveis, sobretudo nos bancos estatais. O problema é a baixa demanda por crédito decorrente da falta de confiança na economia", afirma.

A mensagem final transmitida pela portaria do BC, na avaliação dos economistas ouvidos pelo site de VEJA, é de que a medida volta a colocar em xeque as expectativas do mercado em relação à Selic para 2015, caso a presidente Dilma se reeleja e mantenha Alexandre Tombini como presidente do órgão. O mercado se agarra à comunicação do BC para traçar suas perspectivas sobre a economia brasileira. Quando há ruído entre o que o BC diz e o que, de fato, pratica, as expectativas se perdem e o pessimismo tende a aumentar. Para Volpon, do Nomura, há mais garantias em relação às expectativas se o vencedor for o candidato da oposição, Aécio Neves. "Se a oposição ganhar em outubro, colocamos em 70% a probabilidade de haver cortes de juros. Isso ocorre porque prevemos aperto fiscal, um estímulo imediato à confiança dos empresários, o que reduziria as expectativas de inflação e armaria caminho para um real mais forte. Com isso, sob a gestão de Neves, poderia haver corte de juros", afirma.