quarta-feira, julho 30, 2014

Memórias do futuro

Arnaldo Jabor
O Globo 

Estou na clínica especial do Nada aqui neste ano remoto do futuro. Futuro de quê? Futuro de um futuro que o Brasil esperava havia vários séculos. Essas clínicas são chamadas hoje de “zonas de esquecimento”; viraram “hype” há mais de um século e hoje abundam. Os sujeitos entram para perder todos os sentidos. Fica apenas a memória, que, aos poucos, sem ajuda de tato, gosto, cheiro, visão e audição, vai se transformando numa leve fonte de murmúrios, em lapsos de visões, em tênue brilho de lembranças, e depois, o silêncio do nada. Muitas clínicas são arapucas, e as mais baratas apenas jogam os pacientes numas salas vazias e deixam-nos na mistura de restos de comida e excrementos. Ninguém reclama. Mas eu vivo na melhor: “Le Néant”, que as famílias visitam para verificar o tratamento – é impecável no trato dos corpos sorridentes, murchos e mudos.

Hoje, inexplicavelmente, me encontro na rua com sol batendo em meus olhos, e volta a mim uma enxurrada de memórias que eu sempre evitara. Como saí? Em que ano estou? Minha lembrança mais antiga jaz no deserto, quando o Califado Islâmico tomou conta do Oriente Médio, chegando até as bordas de Israel-Palestina, já considerada “área insolúvel” e que virou parque temático.

Muitas terras viraram temáticas também: a desolação de Nueva Iork, depois das nuvens de “antrax” na Broadway, o Buraco Iraque, depois da bomba do ex-Paquistão – hoje Talibânia –, e o deserto de Tokyorama, província da China...

Mas vou me ater às memórias do Brasil.

Sei que há muitos anos o futuro do país se delineou. Foi logo depois da reeleição de uma mulher...

Esqueço-lhe o nome... Sei que, depois, o famoso Lula sucedeu-lhe em 2018, continuando em 2022, criando uma dinastia de si mesmo, reeleito em vários mandatos, até 2034, quando ele já não falava mais e tinha sido mumificado num carro móvel de vidro que desfilava entre a multidão de fiéis ajoelhados. A maioria do povo semianalfabeto celebrava a realização do projeto do seu partido, uma espécie de populismo pós-moderno (como chamavam) feito de pedaços de getulismo, chavismo e outras religiões. Quando se iniciou a decomposição, seu corpo foi entronizado no Museu Bolívar, um palácio de mármore vermelho desenhado por Oscar Niemeyer, tendo como curador Gilberto Carvalho, 108.

Nesta época, o velho Brasil tinha renascido como rabo de lagarto. Voltara a correção monetária sob uma inflação de 2.200%, um flashback do período Collor, agora representado por seu neto na grande aliança ainda presidida por Sarney, 117, que visava unir partidos no programa nacional de “decrescimento”, já que a democracia se revelara um antigo sonho grego impossível. Todo o projeto do “lulismo” tinha dado frutos depois de tantos anos no poder. “Podres poderes!” – rosnavam alguns poucos inimigos, urubus complexados. Tinha-se atingido o sonho glorioso de socialismo “puro”, onde só havia o Estado sem sociedade em volta. Era assim.

O MST tinha finalmente desmontado a maldita agroindústria, as manifestações de junho viraram uma data popular, como festas juninas animadas por black blocks, considerados agora “guarda revolucionária”; a imprensa tinha acabado, graças à proibição de papel, enquanto ex-jornalistas gritavam nas ruas e distribuíam panfletos mimeografados.

Foi nessa fase que houve o Segundo Crash da Bolsa de Nueva Iork, entre nuvens de suicidas e filas de desempregados.

Aqui foi uma surpresa. O Brasil quebrou, e nada aconteceu. Houve, claro, legiões de famintos atacando os supermercados, mas logo ficou claro que a miséria é autorregulável. Muito simples: a fome diminui a população, dado benéfico para a incrível falta de comida, provocada pela decisão do governo de jamais cortar gastos fiscais. Nossos aviões e navios passaram a ser confiscados regularmente pelos países do Império Neoliberal, o que foi bom para desonerar gastos de manutenção.

Foi então que se começou a falar em um novo lema: “Ordem sem Progresso”, no seio de um novo movimento de salvação nacional: o “Recua Brasil!”. Entendêramos finalmente que o Brasil é um “acochambramento” secular e que isso não é um defeito, é nossa grandeza fabricada por séculos de escravismo, de burocracia e de corrupção endêmica.

A nova “república” proclamava: “Vamos assumir nosso atraso, chega de progresso!”. Foi outro grande alívio o fim da angústia de progresso que oprimia os brasileiros: a Paz é a desistência dos sonhos de felicidade.

Daí, veio o movimento “Desiste Brasil”, organizando o antigo caos em ilhas, em zonas de atraso. Um dos sucessos foi o PEP, “Plano de Extermínio de Periferias”. No início, alguns humanistas protestaram, mas, depois, se acostumaram com o fechamento das favelas com muros de concreto, como em Gaza-Auschwitz. Outro grande programa foi o PROCU (Projeto de Criminalidade Unificada), que mapeou as máfias todas, a evangélica, a ruralista, a hospitalar, a de traficantes, formando um arquipélago de áreas exclusivas com regras de matança mais controláveis. Sem falar em iniciativas de vanguarda moral como a COPUT (Cooperativa de Prostituição Infantil), que organizou as meninas de rua e incentivou o turismo sexual de que tanto dependemos.

Isso, além do PROCRACK e do PROMERD (cagadas genéricas) e a PROLIM (venda de liminares “a priori”). Criou-se o “Orçamento Espoliativo”, que os congressistas adoraram, com sete novos necrotérios em Alagoas e nove clínicas essenciais de cirurgia plástica no Piauí, de onde veio também a bela ideia da “Comunidade Sossegada”, que distribui Lexotans aos retirantes da seca.
Mas foi aí que comecei a tremer. Olhava os outros do meu canto: pareciam tão felizes...

Sim, mas de vez em quando eles entravam num choro meloso, um uivo desesperado como as sirenes que circulavam em Nueva Iork, no século XXI. Meu terror foi aumentando. Eu estava só, mas via o repulsivo Futuro brasileiro, preparado por séculos de atraso. Corri de volta à minha “zona de esquecimento”, a “Le Néant”, mergulhei no silêncio dos cinco sentidos e cego, surdo e mudo, pude finalmente descansar no nada.

Desculpas por nada

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Francamente, não deu para entender a razão da polêmica em torno da análise do Banco Santander, enviada a um grupo seleto de clientes, apontando risco de piora da situação econômica caso a presidente Dilma Rousseff venha a ser reeleita.

O incompreensível nesse episódio não foi a reação do PT. Ofendido, o partido falou em entrar na Justiça (contra o quê?) e aludiu logo ao já batido "terrorismo eleitoral". Isso sempre acontece: qualquer coisa diferente de elogios é vista sob o prisma da ilegalidade e da conspiração.

Esquisito mesmo foi o banco considerar que devia "esclarecimentos" e desculpas às autoridades em geral, à presidente Dilma em particular, por uma análise de conjuntura que nem novidade é. Faz constatações que estão todos os dias nos jornais e estão no radar de praticamente todos os agentes políticos e econômicos.

Se essas previsões são acertadas ou não, são outros quinhentos. Fato é que o desenho de cenários é algo absolutamente normal. O traçado sempre será mais favorável ou desfavorável a alguém.

Se formos ver as coisas por essa ótica, ficam em princípio interditadas quaisquer formas de manifestações porque todas significariam pernicioso engajamento, interferência na decisão do voto. O presidente do Santander houve por bem se manifestar isentando a instituição pela elaboração do informe, acrescentando que os responsáveis serão todos demitidos. Acrescentou que considera o Brasil um "país importantíssimo".

E o que um cenário de risco com base em dados sobre a condução que esse ou aquele governo dá à política econômica tem a ver com a percepção sobre as potencialidades do País e a capacidade de outras forças que não aquelas momentaneamente no poder têm de geri-lo?

Os analistas do banco traçaram um cenário - trabalho para o qual se imagina que devam ter sido contratados - e serão demitidos por isso. Por quê? Porque o governo não gostou.

E se a situação fosse oposta: se o informe dissesse aos clientes que o risco de deterioração na economia estivesse justamente na possibilidade de vitória de algum dos candidatos da oposição?

Dificilmente essa ou qualquer outra instituição ver-se-ia obrigada a pedir desculpas aos oposicionistas que, porventura, se sentissem prejudicados. O gesto de retratação decorre da força de intimidação do governo.

Isso, sim, é uma vantagem e não o contrário, como quis fazer crer o presidente do PT, Rui Falcão. Para ele o que houve é proibido. "Não se pode fazer manifestação em uma empresa que por qualquer razão interfira na decisão do voto", disse. Por essa lógica as consultorias não poderiam se manifestar, as pesquisas de opinião não deveriam ser publicadas, muito menos interpretadas pelos especialistas, veículos de comunicação estariam proibidos de explicitar suas posições e o governo estaria impedido de usar suas prerrogativas para se dedicar em tempo integral a procurar interferir na decisão do voto.

Sub do sub. 
Na opinião do ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia, a conjugação de três fatores levou ao episódio do diplomata israelense que chamou o Brasil de "anão diplomático".

A posição francamente pró-árabe dos governos do PT, a convocação do embaixador brasileiro em Tel-Aviv de volta a Brasília e a impetuosidade inexperiente do autor da declaração, "um rapaz querendo mostrar serviço".

Utilidade. 
Discussão mais fértil que o debate até então estéril dos candidatos à Presidência seria a elevação do Brasil a um patamar mais decente que o 79.º lugar no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano, como meta a ser alcançada em tempo determinado.

A sua TV nova, linda e cara

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Atenção, pessoal que comprou uma TV LED de alta definição, tela enorme, som surround, com toda a tecnologia de última geração, para ver o Brasil ganhar a Copa: no dia 19 de agosto começa o Horário Eleitoral Gratuito.

Gratuito para quem, cara-pálida? Para o Tesouro não é, pois deduz dos impostos das emissoras de rádio e TV o valor do tempo de propaganda - e, ao contrário do que ocorre com qualquer anunciante, que tem desconto, o Tesouro paga a tabela cheia. Para os candidatos também não: elaborar um bom programa para o horário eleitoral é caríssimo. É a principal despesa, hoje, da campanha. Para a democracia o prejuízo é maior ainda: graças ao horário eleitoral, dezenas de partidecos se formam, só para vender seu tempo aos partidos maiores. Podem receber dinheiro ou cargos no Governo. Isso explica o inchaço do número de Secretarias estaduais e Ministérios: é preciso pagar a turma que vende o tempo. Explica também as estranhíssimas alianças: em troca de alguns segundos no horário gratuito, partidos e candidatos mais fortes vendem a mãe, e entregam.

Este colunista já defendeu o horário eleitoral gratuito, em nome da democracia, por abrir a todas as correntes o acesso à divulgação de suas ideias. Hoje é contrário, em nome da democracia, por ter visto que tudo virou negócio. Pois há, além de alianças esquisitas, também partidos que não se aliam mas vendem o tempo para falar mal dos adversários de quem os comprou. 

Chega de propaganda paga por nós. Quem quiser ser chato e falar besteira que pague por isso.

Caça ao tesouro
Na hora em que estiver com paciência, assista a um horário eleitoral inteiro. Em todos os programas, aparecem criancinhas felizes abraçando o candidato, há um "fala povo" (pessoas que, de maneira obviamente espontânea e gratuita, o elogiam). Se o candidato for do Governo, mostrará hospitais mais modernos que os americanos, escolas padrão FIFA com alunos delirantes de alegria, ruas bem iluminadas e de segurança máxima, onde não há roubos desde que o benemérito partido que apresenta o candidato chegou ao poder. Se o candidato for de oposição, mostrará onde seu partido fez hospitais muito melhores que os ali existentes, com escolas padrão FIFA como as que vai construir, e bandidos na cadeia.

Há outra coisa comum a todos. Se o caro leitor encontrar uma única e solitária verdade no que dizem os programas, ganha um vídeo de Alemanha 7 x Brasil 1.

Copiando! 
Do portal Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br), por Cláudio Humberto: "Trabalhar faz bem para finanças, ou pelo menos o Ministério do Trabalho parece fazer. Em 2006, Carlos Lupi tinha R$ 638 mil em bens. Após virar ministro de Lula, o patrimônio de Lupi disparou aos atuais R$ 1,2 milhão."

Dinheiro eleitoral
O portal UOL levantou no Tribunal Superior Eleitoral quem são os dez maiores doadores de campanha eleitoral no país. Em 2010, doaram legalmente R$ 496 milhões a partidos e candidatos. Das dez empresas doadoras, sete foram investigadas, ou ainda estão sendo, por indícios de corrupção envolvendo contratos públicos. Nada mais natural, explica Gil Castelo Branco, fundador e secretário-geral da organização Contas Abertas: "Não é doação, é investimento. Existem estudos que indicam que, de cada R$ 1 doado em campanha, as empresas conseguem outros R$ 8,5 em contratos públicos". Doadores e beneficiados estão emhttp://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/07/28/sete-dos-dez-maiores-doadores-de-campanha-sao-suspeitos-de-corrupcao.htm

Gente fina é outra coisa
Dia 20, Juazeiro do Norte, Ceará. Grande festa popular em homenagem ao Padre Cícero, ruas cheias, romeiros vindos de longe. Na missa, os tucanos Aécio Neves, candidato à Presidência da República, e Tasso Jereissati, candidato ao Senado, com comitivas. 

Pois não é que, na cidade superlotada, acharam um jeito de não se misturar à multidão? Conseguiram um cercadinho VIP, com cadeiras e tudo, que ninguém é de ferro. Tudo bem, eram cadeiras de plástico, indignas de um pessoal tão refinado que nem na missa se mistura, mas que se há de fazer?

Crime eleitoral
Dilma balança, mas segue como favorita para a Presidência. Não faz mal: há gente no Governo para quem vale tudo. Pelo menos onze computadores do Governo Federal, localizados no Palácio do Planalto, sede da Presidência, e no Serpro, Serviço Federal de Processamento de Dados, foram usados na campanha eleitoral, gastando o dinheiro do contribuinte, seja ele favorável ou não à candidata do PT. 

De computadores oficiais saíram mudanças na Wikipédia, com retirada de menção a investigações do Ministério Público sobre irregularidades na Funasa, na época em que Alexandre Padilha era diretor de Saúde Indígena; em troca, entraram elogios a Padilha. Em 2010, a Wikipédia já tinha sido alterada por um computador oficial, que incluía informações da propaganda petista sobre intenções que atribuía ao tucano Serra de "acabar com todas as empresas estatais". 

É crime eleitoral. Mas, para descobrir quem usou os computadores, o Governo Federal precisará colaborar com as investigações, o que até agora não fez.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O estado e o capitalismo

Merval Pereira
O Globo 

Concordo com a presidente Dilma, que classificou ontem o que está acontecendo no mercado financeiro de inadmissível e lamentável , mas tenho a visão oposta à dela: o que é inaceitável é um governo, qualquer governo, interferir em uma empresa privada impedindo que ela expresse sua opinião sobre a situação econômica do país. Sobretudo uma instituição financeira, que tem a obrigação de orientar clientes para que invistam seu dinheiro da maneira mais rentável ou segura possível.

Numa democracia capitalista como a nossa, que ainda não é um capitalismo de Estado como o chinês - embora muitos dos que estão no governo sonhem com esse dia -, acusar um banco ou uma financeira de terrorismo eleitoral , por fazerem uma ligação óbvia entre a reeleição da presidente Dilma e dificuldades na economia, é, isso sim, exercer uma pressão indevida sobre instituições privadas.

Daqui a pouco vão impedir o Banco Central de divulgar a pesquisa Focus, que reúne os grandes bancos na previsão de crescimento da economia, pois a cada dia a média das análises indica sua redução, agora abaixo de 1% este ano.

Outro dia, escrevi uma coluna sobre a influência da economia nos resultados eleitorais, e o incômodo que a alta cúpula petista sentia ao ver análises sobre a correspondência entre os resultados das pesquisas eleitorais e os movimentos da Bolsa de Valores: quando Dilma cai, a Bolsa sobe.

Essa constatação, fácil de fazer e presente em todo o noticiário político do país nos últimos dias, ganhou ares de conspiração contra a candidatura governista e gerou intervenções de maneiras variadas do setor público no privado. O Banco Santander foi forçado a pedir desculpas pela análise enviada a investidores sugerindo que prestassem atenção às pesquisas eleitorais, pois, se a presidente Dilma estancasse a queda de sua popularidade ou a recuperasse, os efeitos imediatos seriam a queda da Bolsa e a desvalorização cambial. E vice-versa.

O presidente do PT, Rui Falcão, já havia demonstrado que o partido governista não se contenta com um pedido de desculpas formal, como classificou a presidente Dilma: A informação que deram é que estão demitindo todo o setor que foi responsável pela produção do texto. Inclusive gente de cima. E estão procurando uma maneira de resgatar o que fizeram . Ontem, na sabatina do UOL, a presidente Dilma disse, em tom ameaçador, que terá uma conversa com o CEO do Banco Santander.

Mas não foi apenas o Banco Santander que sofreu esse assédio moral por parte do governo. Também a consultoria de investimentos Empiricus Research foi acusada pelo PT de campanha eleitoral em favor do candidato oposicionista Aécio Neves, tendo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acatado o pedido para que fossem retirados do Google Ads anúncios bem-humorados do tipo Como se proteger de Dilma e E se Aécio ganhar .

Justamente é este o ponto. A cada demonstração de autoritarismo e intervencionismo governamental, mais o mercado financeiro rejeita uma reeleição da presidente Dilma, prepara-se para enfrentá-la ou comemora a possibilidade de que não se realize. Isso acontece simplesmente porque o mercado é essencialmente um instrumento da democracia, como transmissor de informações e expressão da opinião pública.

Atitudes como as que vêm se sucedendo, na tentativa de controlar o pensamento e a ação de investidores, só reforçam a ideia de que este é um governo que não tem a cultura da iniciativa privada, e não lida bem com pensamentos divergentes, vendo em qualquer crítica ou mesmo análise uma conspiração de inimigos que devem ser derrotados.

Um dos sócios da consultoria Empiricus Research, Felipe Miranda, afirmou em entrevistas que não se intimidará, e fez uma constatação óbvia. O que já vínhamos falando aos nossos clientes sobre a gestão do governo e a condução da política econômica só piorou com esse cerceamento .

Quanto custa chegar lá

O Estado de São Paulo
Editorial 

Foi um escândalo quando, nos anos 1990, horrorizado com a disparada dos custos das campanhas eleitorais, o governador paulista Mário Covas (1930-2001) defendeu o fim da exibição de cenas externas no horário de propaganda - cuja produção é o item singular mais caro do rol de despesas dos aspirantes a cargos executivos nos três níveis da Federação. Se dependesse dele, cada candidato usaria os seus minutos para explicar, apenas com a cara e a coragem, por que vinha pedir o voto do eleitorado. A fatura ficaria reduzida a uma sombra do que era.

Os primeiros, nem de longe os únicos, a ridicularizar a ideia foram os políticos com os bolsos decerto mais fundos do que os do tucano, ou talvez menos desconfortáveis do que ele com a servidão de retribuir, uma vez no poder, à largueza dos grandes financiadores - construtoras e bancos, notadamente. A boa vontade de seus controladores variava e jamais cessaria de variar na razão direta da expectativa de rentáveis oportunidades de produzir bens ou prestar serviços aos futuros governantes. Os valores dos depósitos, evidentemente, acompanhando à risca as variáveis chances de êxito dos principais candidatos: mais pontos nas pesquisas, doações mais gordas. Mas, se aos políticos com prósperos amigos incomodava a perspectiva de um terreno de luta aplainado praticamente por igual, outros se puseram a protestar para defender o pão doce de cada dia.

De um lado, os marqueteiros pagos com ouro em pó, por cima e não raro por debaixo dos panos, pela requisitada capacidade de transformar cada fração do tempo à disposição de seus clientes no rádio e na TV em um espetáculo de imagens gloriosas para esses e desabonadoras para os seus rivais, sem falar na transfiguração midiática dos ditos cujos - de que os mais memoráveis exemplos foram Collor, o caçador de marajás, na campanha de 1989, e o Lulinha, paz e amor, de 2002. De outro lado, mas próximos dos ases da publicidade política como a unha e a carne, os muitos profissionais envolvidos em pesquisar e interpretar não apenas as intenções de voto dos eleitores, mas também, a cada dia, as reações dos espectadores e ouvintes a cada inflexão dos programas e do desempenho dos atores em torno dos quais tudo gira.

Repassados aos marqueteiros, os resultados dessas sondagens os orientavam e aos candidatos a fazerem mais do mesmo ou mudar de rota - rigorosamente como acontece, com a mesma finalidade, nas novelas. Contra tantos interesses entrelaçados, a sugestão foi rebarbada pelos detratores. Imagine, diziam, ele quer ressuscitar a Lei Falcão, de triste memória. Ministro da Justiça no governo do general Geisel, o da abertura lenta, gradual e segura (de 1974 a 1979), Armando Falcão limitou a propaganda na TV à projeção da foto do candidato com o nome e a filiação partidária e à leitura de seu currículo. Mas Covas sabia o que dizia. A campanha nacional de 1994, que o levou ao Palácio dos Bandeirantes e o seu correligionário Fernando Henrique ao Planalto, foi a primeira em que empresas puderam financiar candidatos presidenciais.

Graças a isso, os partidos gastaram - em valores atualizados - R$ 190,4 milhões. Covas seguramente reagiria à altura de sua fama de "espanhol" se estivesse vivo para saber que agora o total das despesas oficialmente projetadas pelos 11 presidenciáveis é de R$ 916 milhões, ou quase o quíntuplo de 20 anos atrás. Em valores corrigidos, repita-se. No Brasil, o custo per capita do voto beira os US$ 11, três vezes mais do que no México, a segunda maior economia latino-americana, e pouco menos da metade do que se torra nos Estados Unidos - com a diferença de que o PIB americano é mais de 7 vezes maior que o nosso. Só há um modo de acabar com a esbórnia: acabando com as doações eleitorais de pessoas jurídicas e impondo um teto baixo às doações de pessoas físicas, as únicas que votam.

A extinção das contribuições empresariais, pedida pela OAB ao Supremo Tribunal Federal (STF), empacou. O ministro Gilmar Mendes, favorável ao status quo, pediu vista do processo quando cinco de seis de seus colegas já tinham votado pela mudança - os quatro que faltam devem acompanhá-los. Até lá, a farra continua.

Dilma e seus fantasmas

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Presidente volta a culpar 'pessimistas' por economia ruim, mas não dá nome a bois nem trata de motivos

"Está havendo o mesmo pessimismo que aconteceu com a Copa com a economia brasileira. E com a economia é mais grave, porque economia é feita com expectativa", disse a presidente na sabatina promovida por esta Folha.

Quem é pessimista? Falta um sujeito na afirmação. Dilma Rousseff jamais deu nome aos bois ou a seus fantasmas desde que essa sua queixa se tornou recorrente, no ano passado.

O que é pessimismo? No discurso de final de ano de 2013, a presidente insinuou que pessimistas promovem "guerra psicológica", "instilam desconfiança, especialmente desconfiança injustificada" no país.

Desde o final do ano passado, cerca de 60% dos eleitores entrevistados pelo Datafolha estimam que a inflação vai aumentar. São "pessimistas", acreditam que o futuro será pior do que é razoável esperar?

Caso se aceite a hipótese do "pessimismo", o eleitorado teria sido influenciado por campanhas de "setores" que promovem "guerra psicológica"?

Os principais disseminadores de estimativas são economistas de consultorias e bancos, uma centena deles ouvidos semanalmente pelo Banco Central (aliás, precisam acertar seus chutes informados a fim de ganhar a vida). A previsão mediana deles é de ligeira queda da inflação em 2015. É verdade que, desde o início do ano, o pessoal cortou a estimativa de crescimento pela metade, perto de 1%, neste 2014.

De certo modo, pode-se dizer que, na mediana, os economistas estavam mais "otimistas" em janei- ro. Aliás, é o que ocorreu nos anos Dilma, a cada início de ano: os economistas subestimaram a infla- ção e superestimaram o crescimento do PIB.

Pode-se não gostar desses economistas "do mercado" por motivos teóricos, políticos, estéticos ou sabe-se lá. Mas está difícil de dizer que suas estimativas difundam pessimismo. Sim, a maioria deles, os mais vocais, atribui parte dos maus resultados a Dilma. Essa, porém, é outra história (a "culpa"). O fato é que a realidade é ruim.

O grosso do eleitorado ficou inseguro com a economia, temendo mais inflação, depois de anos de alta do nível de preços de comida e bebida, em especial depois do pico de 14% de inflação desses itens, em abril de 2013. É mais fácil acreditar que o brasileiro sentiu na carne o efeito da carestia do que imaginá-lo deprimido com o noticiário econômico.

Redução da expectativa de lucro (devido a alta de custos) e tabelamentos de preços e ameaças de fazê-lo, fatos do Brasil dos últimos três anos, são assombrações para empresários. Baixo crescimento, fatos de 2011 e 2012, quando não havia "pessimismo" (ou queixas da presidente a respeito), também assustam.

Quando o Brasil crescia a 4%, anos Lula, mesmo a elite que detesta o PT (larga maioria) sorria ou ficava quieta em relação ao governo do partido. Dinheiro (quase) não tem cheiro. Aliás, mesmo nas internas do "empresariado", pouco se ouvia falar mal de Dilma até fins de 2012. O humor azedou em 2013.

Obviamente, muita gente quer aproveitar a má ocasião para dar cabo político do PT. Mas acreditar que houve surto de histeria coletiva ou conspiração é desprezar as durezas da vida e a inteligência da maioria da população.

Diplomacia partidarizada sob encomenda

O Globo 
Editorial 

O governo evita qualquer condenação à Rússia e faz o mesmo com a Síria de Assad, ditador já com mais de 150 mil mortos na biografia. A ideia é fazer-se tudo que contrarie os americanos

A política externa é uma das que mais foram alteradas desde que o PT chegou ao Planalto, em janeiro de 2003. Ficou visível que o Itamaraty como instituição deixou de ter peso nas decisões, ao mesmo tempo em que uma visão de mundo condicionada por um nacionalismo de esquerda, antiamericanista, do pós-guerra, passou a ser preponderante. Foram engavetadas características da diplomacia profissional: a busca pelo equilíbrio, a não intervenção em crises políticas de outros países, o bom relacionamento com americanos e europeus, sem se afastar do mundo emergente.

O curioso é que onde se esperavam alterações de fundo, na política econômica, nada aconteceu. E ainda bem, porque foi a manutenção de princípios da administração tucana que evitou o descarrilamento da economia, atingida por uma séria crise de confiança causada pela perspectiva de chegada do próprio PT ao poder. Consta que, para manter as fileiras petistas unidas, a política externa foi cedida, em contrapartida, às frações mais à esquerda do partido.

E no momento observa-se mais um surto de esquerdização da diplomacia, quando o Planalto necessita de um PT unido, às vésperas da que deverá ser a mais árdua batalha eleitoral que o partido enfrentará, desde a vitória de Lula, em 2002.

O último sintoma do surto foi a decisão do governo Dilma de convocar o embaixador em Tel Aviv , Henrique Sardinha, “para consultas", devido ao “uso desproporcional da força” por parte de Israel em Gaza. Havia formas menos estridentes de comunicar o justificável mal-estar com as mortes de civis em Gaza — mas também sem deixar de registrar a contrariedade com os constantes ataques de foguetes feitos pelo Hamas contra cidades israelenses, incluindo, agora, Tel Aviv.

A atitude gerou a resposta, também desequilibrado, da chancelaria israelense, com o uso do deplorável termo “anão diplomático” para qualificar o Brasil. O ministro das Relação Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, embaixador de carreira, respondeu dentro dos códigos da atividade, enquanto Marco Aurélio Garcia, assessor especial da presidência, militante petista, uma espécie de ministro das Relações Exteriores “do b", manteve o nível do porta-voz israelense, classificando-o de “sub do sub do sub do sub do sub” — copiando o ex-presidente Lula na resposta a um comentário de autoridade americana de que não gostou.

Mais uma prova de que os profissionais da diplomacia estão em segundo plano é a tíbia posição brasileira diante do ataque ao jato comercial por grupos de rebeldes ucranianos apoiados pela Rússia de Putin, outro aliado preferencial do Planalto. O avião, malaio; o míssil, russo. Morreram 298 pessoas.

O governo evita qualquer condenação à Rússia e faz o mesmo com a Síria de Assad, ditador já com mais de 150 mil mortos na biografia. O conceito é simples: faz-se tudo aquilo que contraria a política externa americana. Parece birra, mas há quem considere eficaz para conseguir votos.

Ignomínia

Denis Lerrer Rosenfield
O Globo 

Todos os recursos do Hamas são canalizados para o treinamento militar

Certa cobertura jornalística e posicionamentos de determinados governantes, aí incluindo a diplomacia brasileira, deveriam fazer parte de uma história da ignomínia. Versões tomam o lugar de fatos, a ideologia vilipendia a verdade e terroristas são considerados como vítimas inocentes.

Os episódios protagonizados pela ONU, em Gaza, deveriam escandalizar qualquer pessoa sensata. Em duas escolas da ONU foram encontrados foguetes, lá depositados pelos grupos jihadhistas. Supõe-se que lá não chegaram caminhando sozinhos, mas contaram com uma explícita colaboração de funcionários da própria organização internacional. Trata-se de uma clara violação da lei internacional.

A ONU, curiosamente, não quis fornecer as fotos desses foguetes, pois elas teriam forte impacto midiático, mostrando o pouco caso do Hamas com as crianças e mulheres que diz, para a imprensa internacional, defender. Ou seja, a organização fez o jogo do terror, pretendendo, porém, apresentar-se como neutra. Ademais, posteriormente, entregou os mesmos foguetes para as “autoridades governamentais”, isto é, o próprio Hamas!

Nada muito diferente do que aconteceu na guerra passada. Durante semanas fomos bombardeados, com manchetes, de que uma sede da ONU teria sido bombardeada pelas Forças Armadas de Israel. Era uma mentira deslavada. A própria organização internacional demorou, no entanto, 30 dias para fazer o desmentido. Como assim? O desmentido apareceu um mês depois nas páginas internas de jornais, como uma pequena notícia irrelevante. O estrago midiático foi feito com a colaboração da própria ONU.

E quando digo que o Hamas não se preocupa com a vida de crianças, idosos e mulheres quando fala para a imprensa internacional, refiro-me apenas a um fato. Em seu estatuto, essa organização terrorista prega abertamente a “educação” das crianças para a “guerra santa”, inculcando em suas mentes que devem estar preparadas para o martírio.

Várias lideranças do Hamas também têm dito claramente que elas utilizam mulheres e crianças como “escudos humanos”, embora a sua apresentação seja, evidentemente, a do combate pelo Islã, onde vidas devem ser sacrificadas. Por que divulgação não é dada a este fato?

As Forças Armadas israelenses são cuidadosas do ponto de vista de preservação de vidas humanas. Telefonam e enviam mensagens às populações das áreas que serão bombardeadas. Ocorre que o Hamas impede que essas pessoas possam escapar, com o intuito de produzir o maior número de vítimas civis, que logo serão filmadas e fotografadas. São essas imagens que serão utilizadas para a formação da opinião pública mundial. É macabro!

O Terror se caracteriza por não ter nenhuma preocupação com a vida dos civis. Assim é com os mais de dois mil foguetes lançados contra o Estado de Israel. Assim é com os comandos que foram enviados para assassinar a população civil dos kibutzim próximos à fronteira. Assim é com os palestinos que se tornam reféns e vítimas dessa estratégia terrorista.

O Hamas se mistura com a população civil. Utiliza escolas, mesquitas, instalações da ONU e hospitais como esconderijos de armamentos e bases de seus ataques. Seus dirigentes máximos estão alojados em um bunker em um hospital na cidade de Gaza. Vivem também em seus túneis, que são inacessíveis para a população civil que, lá, poderia se proteger.

O Estatuto do Hamas é um claro libelo antissemita, que busca pura e simplesmente a destruição do Estado judeu: “Israel existirá e continuará existindo até que o Islã o faça desaparecer, como fez desaparecer a todos aqueles que existiram anteriormente a ele.”

O seu alvo são os judeus e os cristãos. Aliás, esses últimos já são as vítimas do terror por organizações jihadistas na Síria e no Iraque. Assim está escrito: “Fazei o bem e proibis o mal, e credes em Alá. Se somente os povos do Livro (isto é, judeus [e cristãos]) tivessem crido, teria sido melhor para eles. Alguns deles creem, mas a maioria deles é iníqua.”

Para eles, os judeus fazem parte de uma grande conspiração internacional, à qual terminam associando também os cristãos. Utilizam, para tal fim, um livro antissemita do século XIX, forjado pela polícia czarista, para justificar o massacre de judeus. Eis o Estatuto: “O plano deles está exposto nos Protocolos dos Sábios de Sião, e o comportamento deles no presente é a melhor prova daquilo que lá está dito.” Mais clareza impossível, porém alguns teimam em não ler. É a miopia ideológica.

Enganam-se redondamente os que dizem que o Hamas procura a negociação. Para eles: “Não há solução para o problema palestino a não ser pela jihad (guerra santa)”, isto é, o extermínio dos judeus.

Israel aceitou todas as propostas de cessar-fogo, relutando, mesmo, em empreender a invasão terrestre. O que fez o Hamas: não cessou o lançamento de foguetes e rompeu todas as tréguas. Aliás, foi coerente com os seus estatutos: “Iniciativas de paz, propostas e conferências internacionais são perda de tempo e uma farsa.”

Neste contexto, falar de “desproporcionalidade” na resposta militar israelense revela desconhecimento ou má-fé. O país não poderia continuar vivendo sob o fogo de foguetes, como se aos judeus estivesse destinado viver debaixo da terra, em abrigos subterrâneos. Aliás, essa é uma boa distinção entre Israel e o Hamas. Os abrigos são para os civis, enquanto em Gaza são para os terroristas.

Observe-se que todos os recursos do Hamas são canalizados para o treinamento militar, a construção de túneis (agora de ataque) e a compra de armamentos e foguetes. O resultado está aí: a miséria de sua população.

As manifestações pró-Hamas que tiveram lugar em Paris tiveram a “virtude” de mostrar sua natureza antissemita, onde se misturam declarações contra o capitalismo, morte aos judeus e ataque a sinagogas. Tiveram, por assim dizer, o “mérito” da coerência. Esse setor da esquerda se associa ao terror, expondo toda a sua podridão. Será que certos setores da esquerda brasileira estariam trilhando também esse caminho da ignomínia?

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:

Caro Professor Denis Rosenfield, basta recapitular a história da política externa empreendida pelo PT a partir de 2003, para sabermos que ele se alinha sim à horda de esquizofrênicos que, à frente dos governos de seus países, são ditadores, totalitários e absolutistas. 

O PT, como de resto as esquerdas brasileiras, quando na oposição, jamais moveram um dedo sequer para a construção de um novo Brasil. Pelo contrário: sabotaram todos os governos democráticos pós-1985. Sempre que um dos seus votou a favor de qualquer reforma de iniciativa do governo a que opunham, acabaram expulsos do partido. 

A nota emitida pelo Itamaraty, em todas as suas linhas, foi endossada pela presidente Dilma que, até o momento, sem saber o que se passa na Faixa de Gaza, sem conhecer os ataques e o terrorismo praticados pelo Hamas, não emitiu um único comentário de censura aquela organização, teima em condenar Israel pela morte de centenas de civis, ignorando, completamente, que, por duas vezes, o Hamas negou-se  em depor armas , além de continuar utilizando a população civil palestina como escudo humano. Se são as armas de Israel que provocam mortes, quem tem o dedo no gatilho é o próprio Hamas…

Antissionismo é antissemitismo

Claudio Lottenberg
Folha de São Paulo

Após o Holocausto, o antigo antissemitismo foi substituído pelo antissionismo. A máscara é nova, mas a alma horrenda é velha conhecida

O debate sobre o Oriente Médio parece atualmente querer regredir ao pré-1947, quando a ONU decidiu dividir a Palestina em dois países, um árabe e um judeu. Aqui e ali, volta-se a negar o direito à autodeterminação nacional do povo judeu em sua terra ancestral.

A tentativa de demonização do sionismo é apenas isto: a negação do direito de um povo à autodeterminação. Nenhum outro movimento nacional sofreu ou sofre essa campanha contrária avassaladora.

É moda dizer que o sionismo e Israel são entidades coloniais. Nem como piada serve. Os falsificadores da história precisariam explicar por que a URSS votou na ONU em 1947 a favor de um "empreendimento colonial". Votação em que o maior colonizador da época, o Reino Unido, absteve-se. Aliás, a URSS foi o primeiro país a reconhecer Israel.

Nós mesmos somos cidadãos de um país cuja independência foi apoiada pelo Império Britânico. E daí? E daí nada. É comum que nações em busca da autodeterminação explorem as contradições intercolonialistas e interimperialistas.

A divisão de um país em dois aconteceu também em outra descolonização, na mesma época da partilha da Palestina, na joia da coroa britânica, quando Índia e Paquistão viraram dois países. E o critério para a delimitação também foi étnico-demográfico. Incluindo transferências de populações --que hoje viraram sinônimo de limpeza étnica.

O direito à separação de povos e nacionalidades que não desejam viver juntos foi também assegurado, mais recentemente, no desmembramento da ex-Iugoslávia e na extinção da Tchecoslováquia.

Os argumentos deslegitimadores do sionismo mal disfarçam o preconceito e a discriminação.

Guerras têm vencedores e perdedores. O final da Segunda Guerra Mundial assistiu a dramáticos e trágicos deslocamentos populacionais, consequências de realidades produzidas no campo de batalha.

Um caso bastante conhecido é o palestino. Infelizmente, até hoje os palestinos pagam a dívida que seus líderes de então contraíram, ao aliarem-se à Alemanha nazista. Países árabes também invadiram o nascente Estado judeu logo após sua independência, em 1948.

Outro argumento contra o sionismo é que os judeus não seriam um povo, mas apenas uma religião.

Cada nação deve definir sua identidade. Se judeus definem-se por uma religião (o judaísmo), uma língua (o hebraico) e uma terra (Israel), ninguém tem nada a ver com isso.

Imagine-se o escândalo se Israel mudasse de nome, para "Estado Judeu de Israel". Mas não ouvimos reclamações contra, por exemplo, o "Islâmica" em "República Islâmica do Irã" ou "Árabe" em República Árabe do Egito.

O sionismo foi e é apenas isto: a expressão moderna da autodeterminação nacional judaica. E Israel surgiu na descolonização no pós-guerra, beneficiado pelas alianças corretas na vitória sobre o nazismo. Essa é a verdade histórica.

O único caminho para a paz é o reconhecimento das realidades históricas e a divisão em dois países por critérios demográficos. Dois Estados para dois povos.

O antigo antissemitismo saiu de moda após o mundo ter descoberto o Holocausto. Foi substituído por uma nova forma de discriminação: o antissionismo. A máscara é nova, mas a alma horrenda é velha conhecida. Uma verdadeira aberração.

O fiasco dos incentivos

O Estado de São Paulo
Editorial 

Mais um dado negativo - uma nova redução da atividade medida pelo Banco Central (BC) - reforça as apostas em um mau resultado em 2013. Em mais um ano de baixo desempenho, a economia brasileira deve ter crescido entre 1,9% e 2,3%, segundo as melhores projeções conhecidas até agora. Nada, por enquanto, permite uma avaliação mais otimista. As últimas informações cobrem o período até novembro e reforçam as apostas em um número final pífio. Em novembro, o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) foi 0,31% menor que em outubro e 1,94% maior que um ano antes, nas séries com desconto dos fatores sazonais. O crescimento acumulado em 12 meses chegou a 2,61%. O IBC-Br é considerado uma prévia, embora imperfeita, do Produto Interno Bruto (PIB). As contas nacionais de 2013, com os dados finais do PIB, só serão publicadas em 27 de fevereiro, segundo a pauta do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O recuo da atividade apontado pelo BC combina com os últimos números da indústria divulgados neste mês. O setor industrial - em outros tempos o mais dinâmico da economia brasileira - perdeu vigor nos últimos anos, ficou estagnado nos três anos deste governo e perdeu espaço tanto no exterior quanto no mercado interno. Os dados mais novos confirmam as dificuldades de recuperação do setor. A produção industrial diminuiu 0,2% de outubro para novembro, ficou 0,4% acima da observada um ano antes e cresceu 1,1% em 12 meses.

A pesquisa mensal da Confederação Nacional da Indústria (CNI) proporciona uma perspectiva a mais para o exame do fraco desempenho do setor. O faturamento real, isto é, descontada a inflação, caiu 7,2% de outubro para novembro. As horas de trabalho diminuíram 5,3% e o emprego encolheu 0,4%, mas a massa de salários reais aumentou 5,9% e o rendimento médio real dos trabalhadores, 6,3%. A combinação dos dados pode parecer estranha, à primeira vista, mas a maior parte do mistério logo se dissipa.

Apesar do recuo em novembro, o faturamento real de janeiro a novembro foi 4% maior que o do período correspondente de 2012. A explicação deve ser dada principalmente por um aumento de preços bem superior à média observada nos demais setores. A segunda prévia do IGPM de janeiro, publicada sexta-feira, apontou uma alta de 8,09% para os produtos industriais no atacado. No mesmo período, a alta geral dos preços por atacado ficou em 5,38%, e os preços dos produtos agropecuários diminuíram 1,32%. O mistério parece resolvido, embora os últimos dados do IGPM e da pesquisa mensal da CNI cubram períodos com diferença de um mês e meio.

Há um evidente descompasso entre a evolução do faturamento e a de outros indicadores de atividade. Enquanto a receita aumentou 4%, o número de horas de trabalho na produção ficou estagnado, com variação de apenas 0,1% quando se comparam os períodos janeiro-novembro de 2013 e 2012. Além disso, o uso da capacidade instalada, embora tenha aumentado 0,5% durante o ano, oscilou ao longo de 2013 e caiu 0,2% de outubro para novembro. Neste mês ficou em 82%, descontados os fatores sazonais. Um ano antes estava em 82,4%.

A massa real de salários entre janeiro e novembro foi 2% maior que a de um ano antes. O salário médio real, 1,2% superior ao de igual período de 2012. Os ganhos salariais continuaram, portanto, com a média inflada pelos grandes aumentos concentrados em alguns setores, como o da indústria de derivados de petróleo e biocombustíveis (19,9%) e de produtos químicos (23,2%). Em 11 dos 21 segmentos cobertos pela pesquisa o salário médio real encolheu. Em outros 3 o aumento real foi inferior a 1%. Esse quadro é explicável em parte pela inflação e em parte pelo crescimento moderado do emprego. Em 8 dos 21 segmentos houve redução do pessoal empregado.

Os dados da CNI referem-se apenas à indústria de transformação. Na indústria geral, segundo o IBGE, entre janeiro e novembro o pessoal ocupado foi 1,1% menor que em igual período de um ano antes. É evidente o fracasso da política de estímulos à indústria e à recuperação econômica.


Reduzir e simplificar

Gazeta do Povo - PR
Editorial

No Brasil há um imenso desperdício de recursos decorrente de um sistema tributário arcaico, superado e disfuncional

O padrão de bem-estar da população depende, inicialmente, do tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) e de como a renda nacional é distribuída entre os habitantes da nação. Em 2013, o PIB brasileiro foi de R$ 4,83 trilhões (lembrando que a renda nacional é apenas a outra face da mesma moeda e, portanto, seu valor é exatamente igual ao PIB). Esse número representa a quantidade de bens e serviços produzidos, multiplicada pelos preços de cada item. Dividindo o PIB pela população de 201 milhões (dado do IBGE referente a junho/2013), obtém-se a renda anual por habitante, a qual dá o padrão de bem-estar médio possível.

Para comparar com outros países, é necessário que as medidas sejam feitas com a mesma metodologia e na mesma moeda. Comparando Brasil e Estados Unidos, e usando o dólar como moeda básica, chega-se à renda por habitante de US$ 11 mil/ano no Brasil e US$ 53 mil/ano nos EUA. Essas cifras sugerem que o padrão de vida nos EUA é praticamente cinco vezes o do Brasil, portanto, muito melhor. Mas isso é apenas parte da verdade. Para medir o real padrão médio de bem-estar é necessário conhecer como a renda nacional é gasta e em que é gasta.

Se dois países têm a mesma renda por habitante e a mesma carga tributária como porcentual do PIB, mas um deles gasta o dobro do outro com atividades burocráticas da máquina pública, o padrão médio de vida será inferior naquele em que o governo gasta mais para fazer a mesma coisa. Se um país tem máquina pública inchada, excesso de funcionários, alto custo de seu sistema federativo (municípios, estados e União), elevados gastos para arrecadar e fiscalizar tributos e altos salários na burocracia estatal, o padrão de bem-estar de sua população será necessariamente inferior ao padrão do outro em que esse conjunto de gastos é menor.

A arrecadação tributária é destinada a sustentar a máquina de governo, os serviços públicos (incluindo as transferências de renda em aposentadorias e programas sociais), os investimentos governamentais e os juros da dívida pública. Parte desses gastos não é de benefícios diretos à população. O acréscimo de um médico em um posto de saúde ou um professor em sala de aula representa um benefício social adicional. O mesmo não vale para o acréscimo de mais um fiscal de tributos ou mais um assessor burocrático. O governo precisa de fiscais e de burocratas, isso é óbvio. O problema está no excesso, no inchaço e no tamanho desproporcional desse tipo de gasto, sobretudo quando se compara com os países desenvolvidos.

Tomando como exemplo o custo com o sistema tributário na União, nos estados e nos municípios, e lembrando que o dinheiro da tributação destina-se a prestar serviços públicos e demais gastos que beneficiem a população, quanto maior o custo da máquina de arrecadar e fiscalizar, menos dinheiro sobra para beneficiar a sociedade naquilo que é a finalidade do governo. Logo, o custo de cobrar e fiscalizar impostos deve ser o menor possível. Os economistas chamam esses ônus burocráticos de “custos de transação”, entre eles os “custos de obediência”. Um exemplo de alto custo de obediência está na reclamação constante dos empresários, afirmando que gastam demais com funcionários, sistemas tecnológicos e advogados para obedecer ao insano sistema tributário brasileiro, dinheiro que em nada ajuda a produzir bens e serviços destinados a atender às necessidades da população.

Nenhum país vive sem tributos e sem estruturas destinadas a registrar, arrecadar e fiscalizar. Entretanto, no Brasil há um imenso desperdício de recursos materiais, humanos e financeiros decorrente de um sistema tributário arcaico, superado e disfuncional. Em uma eventual reforma tributária (que nunca chega), será necessário reduzir as estruturas fiscais; diminuir o número de leis e normas; reduzir a quantidade de impostos, taxas e contribuições; simplificar o sistema de registro, pagamento e cobrança; e simplificar a forma de impor tributos sobre a produção e a renda.

É sabido que apenas essas medidas não resolverão o problema, como também não existe solução simples e fácil para o tamanho das distorções do sistema tributário brasileiro. Mas um dia o país terá de começar a consertar esse monstrengo, caso queira entrar no clube dos países desenvolvidos.

Cavalo de pau. Sim ou não?

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Se a presidente for conduzida a um segundo mandato também não bastarão correções pontuais de política econômica; Mudanças mais profundas terão de acontecer para virar o jogo, porque os erros foram também mais profundos

Não dá para afirmar que o governo Dilma tenha cometido erros apenas pontuais na condução da política econômica, como o represamento das tarifas de energia elétrica e de combustíveis ou a adoção de técnicas esquisitas de contabilidade criativa.

Se a presidente for conduzida a um segundo mandato também não bastarão correções pontuais de política econômica. Mudanças mais profundas terão de acontecer para virar o jogo, porque os erros foram também mais profundos, embora Dilma continue negando, como fez nessa segunda-feira na sabatina realizada pelo jornal Folha de S.Paulo em Brasília.

Mas como providenciar mudanças profundas se, nos primeiros quatro anos, as autoridades – e não apenas a presidente Dilma – insistiram em dizer que não há nada de errado com a economia e os programas de assistência social (Bolsa Família, por exemplo) tiveram tanto êxito que compensam eventuais equívocos cometidos ao longo do caminho?

(FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADAO)
 Dilma. Só pequenos ajustes? 

 A desoneração dos encargos trabalhistas, que contemplou apenas um punhado de setores, custou R$ 50 bilhões em renúncias tributárias só no primeiro semestre deste ano e deverá superar os R$ 100 bilhões até o fim de 2014. É mais do que o governo federal arrecada em um mês. E, no entanto, ninguém conseguiu ver os resultados. A indústria continua empacada, entulhada em estoques, perdendo competitividade todos os dias, despedindo mais gente do que contratando.

O programa de concessões de serviços públicos, destinado a empurrar os investimentos em infraestrutura, não consegue decolar. O erro não foi só tentar tabelar o lucro (Taxa Interna de Retorno) das empresas vencedoras dos leilões, mas a incapacidade do governo de gerenciar o processo e de apressar a concessão de licenciamentos ambientais.

O erro de fundo foi estratégico: foi não ter estratégia. O governo Dilma tentou inovar, desvencilhar-se do tripé original (inflação na meta, câmbio flutuante e formação de superávit primário de 3,1% do PIB) e tudo o que conseguiu foi desarrumar a economia. O resultado é a sucessão de avanços miseráveis do PIB, inflação mais perto dos 7% do que dos 6%, finanças públicas desorganizadas, investimento em queda, aumento do rombo das contas externas (déficit em conta corrente) e tombo generalizado dos níveis de confiança. Isso aí nada tem a ver com ideologia ou com concepção de linha administrativa. Tem a ver com divórcio entre políticas adotadas e resultados a serem alcançados.

Dentro do governo ainda há aqueles que sustentam que a economia só precisa de alguns ajustes e não de um cavalo de pau. Talvez não precise de tudo isso, seja lá o que signifique, na prática, dar um cavalo de pau. Terão de ser bem mais do que alguns ajustes.

A retomada da confiança do investimento, do crescimento sustentável e do controle das finanças públicas não pode mais ser alcançada com experimentos. Exige a volta à solidez dos fundamentos. Mas como justificar essa eventual reviravolta sem reconhecer os erros passados e sem contrariar aqueles que justificaram e continuam justificando a chamada Nova Matriz Macroeconômica?

CONFIRA: 
Aí está a evolução dos desembolsos mensais do crédito livre, segmento cuja desaceleração levou o Banco Central a afrouxar as regras impostas antes para reduzir os riscos bancários.



Sócios quebrados
Na cúpula do Mercosul, o governo brasileiro se queixa de estancamento do bloco. Mas foi o governo brasileiro que mais trabalhou para incorporar Argentina e Venezuela, duas economias praticamente quebradas. Além disso, a Argentina é o principal obstáculo para novos acordos comerciais que aumentariam as encomendas externas à indústria brasileira.


O Banco Central de Dilma e a ameaça de recessão

Tribuna da Imprensa
Vicente Nunes, Correio Braziliense

A presidente Dilma Rousseff não escondeu ontem de seus auxiliares a satisfação com o que ela chama de sintonia entre o Banco Central e o governo. Para ela, aqueles que viam como uma afronta ao Palácio do Planalto o anúncio da instituição de que a taxa básica de juros (Selic), que está em 11% ao ano, não cairá tão cedo, mesmo com a economia à beira da recessão, agora, serão obrigados a reconhecer que a autoridade monetária está, sim, preocupada com o ritmo da atividade. E que tem instrumentos de sobra para agir. Tanto que, ao desmontar medidas macroprudenciais, permitirá a injeção de R$ 45 bilhões no sistema financeiro e a retomada do crédito e do consumo.

O alívio nos depósitos compulsórios e nas regras operacionais dos bancos vem sendo discutido pelo governo há pelo menos um mês. E foi contemplado na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que tanta comoção causou entre os analistas, ao frisar, explicitamente, que a Selic ficará onde está. Dentro do BC, o consenso é de que, ao deixar os juros fora dos estímulos à atividade, o órgão manteve a credibilidade da instituição e se desvinculou das eleições. Temia-se que, ao ser informada da queda do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre — o resultado sairá em 29 de agosto —, Dilma pressionasse o banco a cortar a Selic no início de setembro.

No entender de técnicos do BC, as medidas macroprudenciais adotadas em dezembro de 2010, agora desmontadas, desempenharam papel importante para mitigar potenciais riscos à estabilidade do Sistema Financeiro Nacional. Eles reconhecem que, naquela época, as instituições financeiras estavam expandindo de forma muito rápida a concessão de crédito, alargando excessivamente os prazos para pagamento. Essa tendência era observada, principalmente, no financiamento de automóveis.

“O quadro atual, porém, é bem diferente do observado em 2010, e a dinâmica do mercado de crédito não suscita a formação de potenciais riscos à economia”, ressalta um dos técnicos.

RETRAÇÃO
Há retração de algumas linhas importantes de financiamento. No caso de veículos, os desembolsos nos primeiros cinco meses deste ano recuaram 7%. Escaldados, depois de uma onda de calote, os bancos botaram o pé no freio e ficaram superseletivos na hora de financiar a clientela, o que contribuiu para o baque na produção de carros e, por consequência, na indústria em geral. “Nas linhas em que ainda há expansão, o resultado é inferior ao PIB nominal”, complementa.

Os técnicos do BC destacam ainda que o perfil de demanda das famílias por crédito mudou. Reduziu-se o empréstimo para consumo em favor do financiamento habitacional. “A compra da casa própria significa abrir mão, mesmo que minimamente, do consumo de bens e serviços não essenciais para constituir um patrimônio”, acrescenta um integrante da equipe econômica.

O Planalto reconhece que o movimento do Banco Central é bem-vindo. Mas não tem a ilusão de que os R$ 45 bilhões liberados para incrementar o crédito terão efeito imediato na economia. A esperança é de que, ao menos, impeça que o terceiro trimestre do ano também registre PIB negativo. Caso haja retração, o Brasil entrará tecnicamente em recessão. Na avaliação dos especialistas, é preciso cautela. Por enquanto, dizem, nada indica que o crescimento da economia no ano será superior a 1%. O resultado pífio de 2014 já foi sentenciado por todas as escolhas erradas do governo Dilma.

Brasil será afetado por crise argentina

Luiz Guilherme Gerbelli   
O Estado de S. Paulo

Para especialistas, país vizinho terá de reduzir as compras externas, o que vai afetar ainda mais o fluxo comercial entre os dois vizinhos

O Brasil não deverá ficar imune à piora da economia da Argentina, independentemente da decisão dos próximos dias - com a declaração da moratória ou com o pagamento dos credores em negociação.

Diante da atual fragilidade externa, o governo da Argentina deverá ser obrigado a fazer um superávit comercial mais expressivo, o que tende a impactar a compra de produtos brasileiros. No primeiro semestre, as exportações da Argentina superaram as importações em apenas US$ 3,684 bilhões, uma queda de 28% na comparação com o mesmo período do ano passado. "Qualquer que seja a situação acertada nos próximos dias, a Argentina vai ter de segurar mais as importações", diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

O nó da Argentina e a necessidade de segurar as importações se dá porque as receitas de exportação deverão ser menores. Assim como o Brasil, a Argentina é uma grande exportadora de produtos básicos, como soja e milho, que estão com preços em queda no cenário internacional. A única alternativa, então, seria reduzir a compra dos produtos de outros países. A Argentina é uma das principais compradoras de produtos manufaturados das empresas brasileiras.

"Um superávit de US$ 7 bilhões da Argentina não é suficiente para pagar o custo de energia", afirma Castro.
Para o mercado financeiro internacional, uma economia dispõe de boa saúde financeira no comércio exterior quando as reservas são equivalentes a quatro meses de importação. Como a Argentina importou US$ 73 bilhões no ano passado, ela teria de dispor de US$ 24 bilhões. Porém, se o país tiver de pagar os credores que travam a batalha atual, as reservas financeiras recuarão para entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões - sem levar em conta novos pedidos de renegociação.

Recessão. A balança comercial brasileira já tem enfrentado problemas por causa da crise Argentina. A economia do país vizinho está em recessão e ele já vem comprando menos do Brasil. Os dados do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio Exterior mostram que a participação argentina nas vendas para o exterior corresponderam a 6,71% (US$ 7,4 bilhões) do total no primeiro semestre, abaixo dos 8,15% (US$ 9,3 bilhões) de 2013. Atualmente, a Argentina é o terceiro país que mais importa do Brasil. Mas está muito próxima da Holanda, responsável por 6,25% das compras.

"O Brasil está sendo afetado pela gestão macroeconômica da Argentina. As restrições que foram impostas para as nossas importações prejudicaram a indústria, em especial a automobilística", diz Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da consultoria Tendências.

A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) estima, por exemplo, que as vendas para os argentinos deverão somar neste ano cerca de US$ 50 milhões. Em 2013, foram exportados US$ 120 milhões. "Recentemente houve uma piora para receber os valores que tínhamos embarcado", afirma Heitor Klein, presidente executivo da Abicalçados.

O setor de máquinas e equipamentos também deve ter um resultado pior nas vendas para a Argentina. Os números da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram uma redução de 23% (de US$ 882,6 milhões para US$ 682,8 milhões) nas exportações para a Argentina entre janeiro e maio deste ano ante o mesmo período de 2013. "Se ocorre um agravamento da situação financeira do País, existe obviamente uma menor demanda por investimento", afirma Klaus Curt Müller, diretor de comércio exterior da Abimaq.

Drama argentino

Miriam Leitão
O Globo 

As últimas horas foram de tentativa desesperada de evitar o calote argentino. O país pagou antecipadamente os US$ 650 milhões da primeira parcela devida ao Clube de Paris, organismo que reúne os representantes dos governos credores. É uma forma de provar que não quer ficar inadimplente. O gesto de alguns credores privados, de abrir mão da cláusula que os favorece, ajuda a negociação, mas não resolve.

É mais importante continuar a negociação em Nova York do que tentar conseguir em Caracas mais uma declaração do Mercosul a favor do país. Mas é isso que a presidente Cristina Kirchner tentará hoje. E seu ministro da Fazenda não foi a NY. Há algumas saídas para a Argentina evitar a terceira moratória de sua história recente, mas ela tem poucas horas.

Concretamente, esse grupo de credores que acenou com a possibilidade de abrir mão da cláusula que obrigaria a Argentina a dar a eles as mesmas vantagens que tiverem os fundos abutres não representa a totalidade da dívida reestruturada. Além disso, os fundos que atualmente ganharam na Justiça americana o direito de receber o valor total dos títulos que têm em mãos são apenas 10% dos que ficaram de fora da dívida reestruturada. Ou seja, a vitória deles incentiva esses outros credores a exigir o mesmo na Justiça. Explicando melhor: 93% da dívida foram renegociados, 7% ficaram de fora e, desses, 10% são os fundos que venceram na Justiça.

A boa notícia é que esse calote não tem o poder de contágio. Em outras crises da dívida, havia sempre uma fila de países em situação similar e, portanto, ocorria o efeito dominó. Agora, a situação da Argentina é isolada.

Por outro lado, o fato de um juiz distrital dos Estados Unidos ser capaz de levar um país à moratória cria em torno do caso argentino um interesse que vai muito além das suas fronteiras. Está em jogo também a confiança nos Estados Unidos como foro para a discussão judicial em acordos de reestruturação de dívida soberana. Como a Suprema Corte decidiu que não é tema para ser levado à última instância, os países ficam ao sabor de decisões de juízes regionais.

Em qualquer renegociação de dívida, um grupo sempre fica fora do acordo de renegociação. Ele, em geral, é formado por investidores que compraram os papéis quando o valor estava no fundo do poço, apostando no confronto. Se a Justiça lhes der ganho de causa, eles têm alto lucro. Tradicionalmente, a Corte de Nova York tem sido escolhida nos processos de renegociação de dívida em que há conflito.

O caso da Argentina cria insegurança jurídica para qualquer renegociação de dívida soberana, porque o que o juiz está determinando é o pagamento imediato e pelo valor de face à minoria que apostou na briga judicial. Os credores que brigaram terão mais benefício. O precedente criado pelo juiz Thomas Griesa pode fazer com que credores e devedores, em futuros processos de negociação, fujam da Justiça americana como foro de eventuais conflitos.

O lado tranquilizador da dívida é que o calote não será o estopim de uma crise regional. Seu peso recairá sobre os argentinos e pode também afetar a Venezuela, que tem muitas vulnerabilidades econômicas, mas não há motivo para que seja uma crise regional.

O Brasil terá mais dificuldades de exportar para a Argentina, o que reduzirá ainda mais a venda de manufaturados, aumentando a recessão da indústria. Mas o efeito será limitado a isso. Nós temos um déficit em transações correntes de quase 4% do PIB, mas US$ 370 bilhões de reservas cambiais e uma conjuntura econômica totalmente diferente daquela na qual se encontra o nosso parceiro e vizinho.

A Argentina está na kafkiana situação de tentar pagar aos credores privados americanos com os quais renegociou a dívida e a Justiça de Nova York bloquear o dinheiro, ameaçando arrestá-lo para o pagamento dos credores que não negociaram. O pagamento ao Clube de Paris está fora desse risco porque é em outra jurisdição. O risco de Default continua alto nas próximas horas. No cenário do calote, a situação da economia argentina piora mais um pouco, mas ela já é ruim o suficiente com uma inflação acima de 30% e o PIB estagnado. O governo argentino tenta uma saída para esse labirinto.

Bancos privados travam crédito e reduzem inadimplência

Exame.com
Victor M. Alves e Laís Alegretti, Estadão Conteúdo

Os públicos, em contraponto, tentaram ocupar o espaço deixado por eles no mercado e avançaram mais, ampliando oferta de crédito em 1,5% no período

Stock.xchng/ Afonso Lima 
Acesso: no caso dos bancos privados
 há uma seletividade maior na oferta de crédito

Brasília - Apesar dos apelos do governo em sentido contrário, os bancos privados praticamente travaram a oferta de crédito no país. Em junho, eles ampliaram os saldos das operações em 0,3% entre os nacionais e em 0,2% entre os estrangeiros.

Os públicos, em contraponto, tentaram ocupar o espaço deixado por eles no mercado e avançaram mais, 1,5% no período.

Os dados, divulgados nesta terça-feira, 29, pelo Banco Central mostram que o segmento privado, em conjunto com os financiamentos para veículos, foram os responsáveis pelo período de "moderação" no crédito identificado pelo Departamento Econômico do BC.

Segundo especialistas, além de uma menor demanda por financiamentos, no caso dos bancos privados há uma seletividade maior na oferta. Incertezas em relação à inadimplência, ao crescimento do País e ao mercado de trabalho deixaram as instituições mais cautelosas.

A preocupação, no entanto, deu resultado. Os bancos privados puxaram o recuo da inadimplência registrado entre maio e junho.

Enquanto os públicos ficaram com o nível de calote estagnado, os privados nacionais reduziram a fatura de atrasados de 4,3% para 4,2%; os estrangeiros diminuíram de 4,2% para 4,0%.

Brasil não está fazendo reformas estruturais, diz diretora do FMI

 Flávia Barbosa 
O Globo

Christine Lagarde diz que fundo vem reiterando as recomendações para redução de gargalos econômicos

 JIM WATSON / AFP 
A diretora gerente do FMI, Christine Lagarde 

WASHINGTON - Às vésperas do recesso de verão do Fundo Monetário Internacional (FMI), a diretora-gerente Christine Lagarde reuniu-se na manhã desta terça-feira com um grupo de jornalistas, na sede do organismo multilateral, para discutir as perspectivas da economia mundial. Ao falar do Brasil, brincou que o país foi “uma força perturbadora” dos trabalhos do organismo por um mês, devido à Copa do Mundo, durante a qual funcionários, diretores e ela própria pararam constantemente para acompanhar os jogos. Mas também falou sério. Questionada se, diante de 15 meses de prognósticos ruins e repetição das mesmas recomendações, o governo brasileiro estava falhando na adoção de políticas para corrigir fragilidades, diplomaticamente concordou:

— Temos reiterado as mesmas fortes recomendações para que reformas estruturais sejam feitas, gargalos sejam reduzidos na economia e que o potencial, a capacidade de o Brasil entregar crescimento seja liberada. E isso não vem sendo feito — afirmou a diretora-gerente, que colocou o Brasil ainda em estado de atenção em relação à expansão do déficit em conta corrente (que fechou em 3,6% do PIB, ou 2,9% justados, em 2013, para um patamar que o Fundo considera ideal entre 1% e 2,5%).

Lagarde reforçou a mensagem de que o mundo passa por um período de retomada desigual do crescimento, com tração nos motores dos países ricos e desaceleração sincronizada e sistemática das nações emergentes. Alertou para os riscos associados à normalização das políticas monetárias dos EUA e do Reino Unido, que pode provocar turbulências e desarrumar ainda mais a casa dos países em desenvolvimento.

O receituário para vencer os obstáculos, disse Lagarde, é inequívoco: reformas estruturais, conserto dos problemas macroeconômicos (inflação alta, déficits em contas externas, desequilíbrios fiscais) e muita coordenação entre autoridades.

Ela acredita ainda que a criação de mecanismos como o Arranjo de Contingência de Reservas (ACR) das nações que compõem o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) não afronta o FMI, e sim convoca parceria entre os diversos agentes, refletindo um mundo multipolar mas interdependente. A diretora-gerente considera ainda que a falha do Congresso dos EUA em ratificar a reforma de governança do Fundo, que dará mais poder aos emergentes, não afeta a eficiência da instituição nem lhe retira credibilidade.

Sobre a iminência de default da Argentina, nesta quarta-feira, Lagarde afirma que os efeitos serão circunscritos ao país sul-americano, do ponto de vista de turbulências. Mas o episódio acentuará a necessidade de reavaliação dos processos de reestruturação de dívida, da eficiência da ação coletiva, “(d)a escolha de leis e outros critérios legais tipicamente encontrados nesses casos”. O próximo trabalho do FMI sobre o tópico será apresentado à diretoria-executiva do órgão entre o fim de setembro e o início de outubro, pouco antes da Reunião Anual da instituição e do Banco Mundial, em Washington.

Abaixo, alguns trechos da entrevista.

CONDIÇÕES GLOBAIS
“Estamos passando por uma recuperação desigual do crescimento global. O que estamos identificando é risco associado com a normalização das políticas monetárias dos países ricos, começando com EUA e Reino Unido. O Fed (Federal Reserve, BC americano) e o Banco da Inglaterra estão agora considerando o fim dos estímulos e a elevação dos juros. Banco Central Europeu e Banco do Japão provavelmente continuarão mais um tempo com a política acomodativa. Haverá consequências. Se a comunicação for bem calibrada e feita, acreditamos que os efeitos colaterais serão administráveis. Mas claramente temos em mente o que aconteceu em maio do ano passado e como apenas a comunicação da intenção afetou os mercados emergentes”.

EMERGENTES
“Também temos uma desaceleração mais sincronizada dos emergentes. Eu colocaria a China de lado, pois medidas tomadas vão segurar o crescimento de 7,5%. Mas demais emergentes, sim. Isso terá ‘consequências para a vizinhança’, no sentido de que os países que comercializam ou se beneficiam de investimentos dessas nações emergentes vão arcar com os efeitos desta desaceleração sincronizada. Se levarmos esses dois elementos em consideração (desaceleração e normalização monetária dos ricos), claramente haverá impacto na tentativa das autoridades tomarem medidas e realçar a fragilidade do crescimento”.

SETOR EXTERNO E AÇÕES
“(Antes), era mais uma questão do superávit da China versus o déficit dos EUA no debate. O que vemos agora é menos desequilíbrio, mas esta questão está mais espalhada. Do lado superavitário, claramente vemos dois líderes, China e Alemanha. Do lado do déficit, temos os suspeitos de sempre, os EUA e alguns dos países europeus, mas também países como Turquia, África do Sul e Brasil. Está espalhando-se esse lado do déficit. Então, acreditamos que o caminho de políticas é manter a casa em ordem, cada um com suas particularidades no caso dos emergentes. O que é comum a todos é fazer reformas estruturais de diversas categorias. E nos frontes monetário e fiscal, cada um também tem políticas para adotar. A segunda recomendação é: falem uns com os outros. E a terceira é cooperem o quanto puderem. Parece incongruente recomendar cooperação em tempos em que você não vê muita cooperação, mas, economicamente, isso é o mais desejável, mais comunicação, mais cooperação, particularmente os banqueiros centrais, quando forem mudar o curso de política”.

COPA DO MUNDO
“O Brasil foi uma força perturbadora do trabalho do FMI recentemente, porque a Copa do Mundo mobilizou todo mundo nesta instituição, todos grudados na tela de TV por um mês e muitos jogos. Afetou todos os níveis da instituição, dos diretores-executivos ao staff, incluindo a diretora-gerente, embora eu não tenha assistido todos os jogos, mas vi alguns”.

BRASIL
“É verdade que temos revisado para baixo nossas projeções para o Brasil e é verdade que todos temos reiterado as mesmas fortes recomendações para que reformas estruturais sejam feitas, gargalos sejam reduzidos na economia e que o potencial, a capacidade de o Brasil entregar crescimento seja liberada. E isso não vem sendo feito”.

ARGENTINA
“Estamos obviamente monitorando a situação. A Argentina está fora dos mercados financeiros e de qualquer círculo financeiro há muito tempo e, embora defaults sejam sempre lamentáveis, nós não temos a visão de que teria grandes consequências significativas além daquela situação geográfica particular (...) (há) a questão significativa dos princípios da reestruturação de dívidas e qual seria o resultado das decisões legais que estão sendo tomadas em NY no momento, que têm significado mais amplo. Os princípios da reestruturação de dívidas e a eficiência da ação coletiva precisarão ser reavaliadas, junto com escolhas de leis e outros critérios legais tipicamente encontrados nesses casos. É neste ponto em que estamos trabalhando e continuaremos nos próximos meses”.

REFORMA DE GOVERNANÇA E CREDIBILIDADE O FMI
“Sobre (a redistribuição das) cotas, não acho que afete a eficiência do Fundo, a efetividade da diretoria. Quando olho para os nossos programas, linhas de crédito em vigor, a estabilidade que tentamos entregar por intermédio da nossa assistência técnica, da supervisão bilateral que oferecemos baseada em 70 anos de expertise em campo, não acho que a falha de alguns membros em aprovar a reforma de governança é um impedimento às nossas operações. Isso está corroendo a credibilidade da instituição. Alimenta algumas pesquisas acadêmicas e alguns editoriais de observadores, mas na minha vida cotidiana, nas nossas operações com o staff e os membros da diretoria, e, mais importante, nas minhas tratativas com as autoridades dos países, incluindo com as dos países do Brics, isso não afeta o Fundo e não corrói nossas ações”.

INICIATIVAS FINANCEIRAS DO BRICS
“O Arranjo de Contingência de Reservas (ACR) criado pelo Brics vem sendo construído nos últimos três ou quatro anos. Então, acho que é bastante independente da falha dos EUA em ratificarem a reforma (de governança). É atribuída uma ligação pelos observadores, mas o Brics já vinha falando disso há algum tempo, eles decidiram em um encontro deles, há alguns anos, os princípios (do ACR). Há uma cooperação intrínseca entre o ACR e o FMI. Dos US$ 100 bilhões que o Brics reservaram, cada membro pode sacar do que aportou até 30%. Para mais, tem que ter um programa em curso com o FMI. Quando se olha para a relação do FMI com essas novas agências, os acordos, é muito similiar ao Chiang Mai (mecanismo de contingência e reserva) criado pelos países asiáticos, que tem o FMI do outro lado. Não digo que foi um ‘corte e cola’. O Brics não é uma região, Brics é um agrupamento com interesses comuns. Embora, por interesses comuns, eu digo a mim mesma ‘eles não são a mesma coisa de forma alguma’...”.

PAPEL DO FMI
“Estamos celebrando os 70 anos das instituições de Bretton Woods e há muita nostalgia expressa sobre os objetivos dos ‘fundadores’. O mundo mudou ao redor do FMI e o próprio Fundo mudou imensamente. E continuará a mudar. Esta é uma das belezas desta instituição, ela se ajusta, é flexível, mudamos os instrumentos e os programas ao longo do tempo, mudamos a supervisão, ampliamos massivamente a assistência técnica. E continuaremos a fazê-lo. Todo o mundo está mudando continuamente. O equilíbrio de poder está mudando, há confrontos e há poderes econômicos emergindo, se consolidando e cooperando, há efeitos sobre os vizinhos, que valerá a pena continuar explorando. O fato é que a rede de proteção que os coreanos particularmente demandaram no encontro do G-20 vem sendo construída, em torno do arranjo do Chiang Mai, do mecanismo europeu de estabilidade, do ACR, dos instrumentos de swap entre vários bancos centrais. Isso reflete o fato de que o mundo é vastamente global e interdependente e precisa, provavelmente, de diferentes camadas nesta rede de proteção. Mas não vejo nada que seja inconsistente com a missão do FMI, que acho que é coordenação, cooperação entre os pilares das redes de proteção internacionais – das quais o FMI é a peça central”.

Contas externas do Brasil estão em situação 'moderadamente frágil', avalia FMI

Cláudia Trevisan
 O Estado de S. Paulo

Relatório do Fundo sobre 28 economias também calcula que moeda brasileira estava sobrevalorizada em até 15% no ano passado

WASHINGTON - A situação das contas externas do Brasil é "moderadamente frágil" e corre o risco de se deteriorar rapidamente em um cenário de acentuada e prolongada queda no preço das commodities, avaliou o Fundo Monetário Internacional (FMI) em relatório sobre o setor externo de 28 grandes economias, divulgado na manhã desta terça-feira, 29. No mesmo documento, a entidade estimou que a moeda brasileira estava sobrevalorizada em até 15% em 2013.

Segundo o Fundo, o déficit nas transações do Brasil com o restante do mundo também pode crescer se houver expansão dos investimentos -que estimulam as importações-, a menos que isso seja acompanhado do aumento da poupança interna. 

No ano passado, a conta corrente brasileira fechou no vermelho em 2,9% do PIB, na estatística ajustada a fatores cíclicos. Os técnicos do FMI acreditam que o percentual deveria ser de -1% a -2,5%, o que seria consistente com a adoção de políticas adequadas para manter os fundamentos da economia em posição saudável.

Os grandes desequilíbrios entre países com déficit ou superávit excessivos em suas contas externas, que estiveram na origem da crise financeira global de 2008, estão sendo corrigidos de maneira "modesta", depois do forte ajuste registrado até 2010, afirmou o relatório do Fundo. Mas sua natureza mudou, com a redução do déficit em grandes economias, como os Estados Unidos, e sua migração para países emergentes, entre os quais o Brasil. 

"Mesmo que tenham diminuído, os desequilíbrios ainda são muito grandes. Em linhas gerais, se somarmos todo mundo, eles são o dobro do que esperávamos ver. Isso não é razão para alarme. É razão para preocupação", disse Steven Phillips, do Departamento de Pesquisa do FMI, em conferência telefônica sobre o relatório, divulgado em conjunto com outro estudo sobre contágios econômicos. 

O documento prevê que parte do déficit das transações do Brasil com o restante do mundo continuará a ser financiado por "forte" entrada de Investimento Estrangeiro Direto (IED), mas alerta que outros fluxos de capitais podem ser voláteis. "A composição dos fluxos tem um perfil de risco favorável, mas isso pode mudar rapidamente. Administrar os fluxos deve continuar a ser um desafio", avaliaram os técnicos do Fundo.
No ano passado, a taxa de câmbio real da moeda brasileira ficou entre 5% a 15% acima do patamar considerado desejável, disse o estudo. Em 2014, até o mês de abril, houve apreciação adicional de 1 ponto percentual em relação à média de 2013.

Para enfrentar o desequilíbrio nas contas externas, os economistas do Fundo sugerem que o Brasil adote medidas que aumentem a poupança, entre as quais reformas no sistema previdenciário, e alterem a estrutura dos gastos públicos, com redução dos dispêndios relacionados ao consumo. 

Phillips ressaltou que a equipe do FMI não defende mudanças "radicais" e "abruptas" para correção dos desequilíbrios globais. "Uma abordagem gradual é o mais desejável", ponderou. Segundo ele, ajustes fiscais drásticos podem ser recessivos para o país que os adote e para a economia mundial.

As economias superavitárias, como a chinesa, devem estimular a demanda doméstica, caminhar na direção de taxas de câmbio determinadas pelo mercado e reduzir restrições na conta de capitais, receitou o Fundo.

Os desequilíbrios globais chegaram ao auge em 2006 e 2007, quando o excesso de poupança nos países com superávit financiavam a extravagância financeira dos deficitários. China e Estados Unidos eram os dois extremos dessa equação. Com enorme saldo positivo em suas transações com o restante do mundo, o país asiático acumulou volume recorde de reservas internacionais, que foram usadas para a compra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. O movimento ajudou a manter a taxa de juros em patamar baixo, o que estimulou o crédito e inflou a bolha de ativos que explodiu em 2008.