sábado, agosto 02, 2014

Onde mora o pessimismo: crescimento da economia no Governo Dilma é o pior em 20 anos

Exame.com
Com informações Agência Reuters

Seu governo também entregará a pior taxa média de crescimento da economia nos últimos 20 anos

Reuters 
Governo Dilma manteve estímulo à atividade via consumo 
e demorou para incentivar investimentos em infraestrutura

São Paulo - Ao finalizar seu mandato neste ano, a presidente Dilma Rousseff vai interromper a trajetória de desaceleração da inflação que marcou a virada dos quatro governos anteriores, ao mesmo tempo em que entregará a pior taxa média de crescimento da economia nos últimos 20 anos.

De acordo com especialistas consultados pela Reuters, essas duas marcas são fruto de erros de avaliação da situação econômica, mantendo o estímulo à atividade via consumo - uma das principais marcas de seu antecessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu segundo mandato-- aliado à demora em incentivar os investimentos.

A saída para esta espiral já foi detectada, via importantes concessões públicas de infraestrutura, mas é preciso que o caminho seja mantido daqui para frente por quem estiver à frente da Presidência da República em janeiro.

"Houve um erro de estratégia. Demorou muito para perceber que o consumo estava perdendo força para impulsionar a economia... Não se conseguiu articular a queda do consumo com recuperação do investimento", avaliou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos conselheiros econômicos da presidente Dilma.

O primeiro governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-1998) acumulou inflação medida pelo IPCA de 43,46 %. Esse número foi caindo até que Lula encerrou seu segundo mandato, em 2010, com alta de preços acumulada de 22,21 %.

Se a projeção do Banco Central de IPCA de 6,4 % neste ano se concretizar, Dilma vai interromper essa sequência de queda e terminar seu mandato com o indicador somando alta de 27 % em quatro anos.

Quando o assunto é atividade econômica, os dados também não são animadores.

Dilma deve entregar crescimento médio anual de 1,8 % em seu governo, se confirmada a expectativa do mercado de expansão de 0,9 % do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, segundo pesquisa Focus do BC.
Quando recebeu a faixa de Lula, a taxa média havia sido de 4,6 % entre 2007 e 2010. O resultado da presidente será o pior contando os governos de FHC e de Lula. 

Consumo
Mais medidas de incentivo ao consumo --como reduções tributárias para veículos e móveis-- em uma economia que já tinha uma taxa de desemprego baixa resultou em inflação alta, com a qual Dilma ainda tem que lidar às vésperas da eleição. Em junho, a alta acumulada em 12 meses do IPCA estourou o teto da meta do governo.

"Quando a desaceleração econômica veio, e aí é o erro de política dela (Dilma), entendeu-se que havia falta de demanda, mas era falta de oferta. A reação foi com políticas monetária e fiscal extraordinariamente frouxas", destacou o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman.

Foi em 2012, segundo ano do governo Dilma, que a taxa básica de juros atingiu o menor nível histórico de 7,25 %, importante fator de estímulo do consumo via barateamento dos empréstimos.

Esse patamar, no entanto, não se sustentou por muito tempo e, no início do ano seguinte, começou a ser elevado para o atual nível de 11 % ao ano --acima dos 10,75 % que Dilma recebeu.

Para os analistas, a correção do atual cenário passa invariavelmente pelo investimento em infraestrutura, destacadamente via concessões. Com isso, também conseguiria melhorar a confiança no país.

As concessões foram uma aposta do atual mandato da presidente, mas o governo acabou enfrentando mais dificuldades do que imaginava, sem conseguir por exemplo fazer até agora leilão das ferrovias. Ainda existem muitas dúvidas por parte dos investidores sobre esses processos.

Apesar disso, desde o ano passado o governo conseguiu leiloar seis lotes de rodovias e também foram concedidos à iniciativa privada seis aeroportos.

"O Brasil entrou em uma fase em que para voltar a crescer precisa ter aumento de produtividade. Isso demanda tempo e investimentos. Então Dilma acertou no final do governo abrindo concessões", afirmou o ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas, hoje chefe da divisão econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC). 

Reequilíbrio
Ainda que na avaliação de alguns de forma atrasada, o fato de já ter dado início a esse processo de ajuste é o que pesa a favor de Dilma neste momento em que ainda mantém a dianteira na corrida eleitoral, mas com pesquisas apontando disputa muito acirrada num provável segundo turno.

"No frigir dos ovos, o governo Dilma custou a se ajustar à nova realidade e, quando se ajustou, talvez tenha demorado demais. Mas não a ponto de prejudicar a solvência do país", completou Freitas.

Independentemente de quem vencer as eleições de outubro, os especialistas destacam que o importante será continuar nesse caminho para garantir o reequilíbrio da economia --mesmo que isso signifique ao menos mais um ano de crescimento baixo.

"Tem que reconhecer que o país vai ter de crescer pouco para trazer a inflação para baixo, permitir desvalorização do real, subir juros. Um ano muito difícil, mas lançaria as bases para reequilibrar a economia, avançando ao mesmo tempo na questão das concessões", disse Schwartsman.

Na pesquisa Focus do BC junto a economistas, a expectativa é de que o Brasil crescerá 0,9 % neste ano, acelerando a 1,5 % em 2015 e chegando a 2,5 % em 2016, mesmo resultado visto no ano passado.

A fábrica do futuro

Melina Costa e Fabiane Stefano
Revista EXAME

A indústria mundial está diante de uma nova revolução, que será capitaneada por digitalização e cada vez mais automação. E isso vai mudar a relação de forças entre as nações. O Brasil está pronto para essa nova era?

Jens Schlueter/Getty Images 
Fábrica da BMW, em Leipzig, na Alemanha: 
1 000 robôs trabalham na produção do primeiro carro elétrico da montadora

Leipzig e São Paulo - A fábrica mais moderna da Europa em nada se parece com as descrições da U.S. Robots and Mechanical Men, a indústria inventada pelo americano Isaac Asimov, um dos maiores autores de ficção científica de todos os tempos.

Em vez do prédio sem graça e com paredes cinza  dos textos de Asimov, o edifício que abriga a produção de carros da BMW em Leipzig, na Alemanha, tem forma arredondada, é todo envidraçado e lembra um museu de arte moderna.

Pode não produzir robôs, como a imaginária U.S. Robots and Mechanical Men, mas, na linha de montagem do i3, o primeiro modelo elétrico da BMW, tudo parece futurista. Não há barulho nem sequer faíscas. Como em uma dança sincronizada, braços mecânicos levantam carcaças, juntam pedaços e ali mesmo fazem testes de qualidade.

A indústria automobilística está entre as mais robotizadas do mundo, mas ainda assim a unidade mais moderna da BMW, com seus mais de 1 000 robôs, é um caso à parte. Os funcionários, todos de colete azul, acompanham tudo a distância pelas telas de computadores.

Os seres humanos só supervisionam o trabalho das máquinas. A unidade de Leipzig é uma prévia do futuro das fábricas. “Estamos no estágio inicial de uma mudança tão profunda na manufatura como aquela provocada pela Revolução Industrial”, afirma Erik Brynjolfsson, professor de tecnologia da informação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Junto com Andrew McAfee, também professor do MIT, Brynjolfsson é autor do livro A Segunda Era das Máquinas, com previsão de lançamento no Brasil para até o fim do ano e aclamado como a nova bíblia das tendências do setor industrial.

Para McAfee e Brynjolfsson, que teve uma conversa em junho com o presidente americano, Barack Obama, para discutir o tema da competitividade, o setor produtivo mundial está num processo movido por três forças: o avanço exponencial da capacidade dos computadores, a imensa quantidade de informação digitalizada e novas estratégias de inovação.

O progresso computacional fez com que as máquinas ficassem muito mais potentes, ágeis e, sobretudo, baratas. Em 1985, o computador mais rápido do mundo era o Cray-2, que custava 30 milhões de dólares. Em seus anos de glória, foi utilizado para pesquisas em energia atômica.

Hoje, um iPad tem capacidade de processamento superior à do Cray-2. Na última década, o preço de alguns modelos de sensores usados nos aparelhos eletrônicos caiu 85%. Na indústria, em geral, e no caso específico da fábrica da BMW, em Leipzig, essa tendência pode ser sentida pela forte expansão dos robôs.

Em 2013, as vendas de robôs industriais no mundo foram recorde: 179 000 unidades. A popularização é resultado do preço em queda e das novas habilidades que eles estão ganhando. De acordo com um estudo da consultoria americana McKinsey, o preço dos robôs vem caindo 10% ao ano nas últimas décadas. E a produtividade deles está aumentando.

Dependendo do tipo de aplicação, os modelos mais novos são 40% mais rápidos do que os das gerações anteriores. Máquinas de alta destreza que hoje são vendidas a 150 000 dólares deverão custar metade desse valor até 2025.

A segunda característica dessa nova era industrial é a imensa quantidade de informação digital disponível. A concepção dos produtos, o design, os testes com novos materiais, os protótipos, a arquitetura da fábrica, a organização da linha de produção, o estoque de materiais, o manual de um equipamento, tudo é digital.

Isso permitiu criar e operar ambientes fabris virtuais em sincronia com a unidade física. Os ganhos já são visíveis antes mesmo de os primeiros produtos ficarem prontos.

Nas montadoras de automóveis Toyota, Fiat e Nissan, o tempo de desenvolvimento de um novo modelo caiu até 50% a partir do momento que designers e engenheiros passaram a usar informações digitalizadas e testes virtuais de peças.

Na fabricante de aviões Embraer, os operários responsáveis pela produção do jato Legacy 500, em São José dos Campos, no interior paulista, começaram a treinar, de forma virtual em 3D, o que fariam no chão de fábrica um ano antes do início da produção. O projeto teve 12 000 horas de testes antes de a aeronave fazer a primeira decolagem.

Defeitos que eram detectados somente com o avião no ar foram resolvidos ainda na fase de preparação. Na linha de montagem, os operários usam computadores e tablets. Em caso de dúvida, há sempre um vídeo para explicar como colocar uma peça. Com todos os ganhos da digitalização, o tempo de montagem já caiu 25%.

“Assim como os smartphones facilitaram a vida das pessoas, o uso de computadores e tablets está revolucionando o chão de fábrica”, diz Marco Túlio Pellegrini, presidente do segmento de aviação executiva da Embraer. 

Os computadores mais potentes e a digitalização são tendências já amplamente visíveis em alguns segmentos da indústria. Mas a nova era das máquinas também deverá ser movida por avanços na área de inovação que ainda estão em gestação. Uma das tendências mais promissoras é a inovação colaborativa.

Pessoas sem nenhum contato com a indústria poderão recombinar tecnologias existentes e fazer contribuições nas áreas de design, novos materiais, gestão e produção. Algumas empresas já estão dispostas a apostar nessa estratégia.

Em novembro, a companhia de tecnologia IBM criou um fundo de 100 milhões de dólares para impulsionar a inovação tendo como base a plataforma do supercomputador Watson, famoso por ter vencido competidores humanos num programa de quiz da TV americana. Pela primeira vez, a tecnologia de inteligência artificial da IBM ficou disponível para a criação de novos aplicativos e novos negócios.

O acesso à plataforma do Watson será gradual e começou com startups que submeteram à IBM projetos de aplicativos focados em diferentes setores. Em junho, a americana Tesla, fabricante de carros elétricos da Califórnia e considerada uma das empresas mais inovadoras do mundo, anunciou que abriu todo o seu portfólio de 160 patentes para outros inventores.

“Hoje em dia as patentes servem apenas para abafar a inovação”, escreveu Elon Musk, presidente da Tesla, em seu blog ao comunicar a decisão. O objetivo de Musk é que, com mais gente usando as tecnologias criadas pela Tesla, novas ideias surjam e ajudem a criar mais mercado para o ainda tímido segmento de carros elétricos. 

Transformações incrementais fazem parte da história das fábricas desde o seu nascimento. O que mais impressiona hoje, além da extensão das mudanças, é o ritmo frenético. A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no século 18, demorou mais de 100 anos para ganhar uma escala global. As máquinas a vapor levaram sete décadas para dobrar sua produtividade.

Em apenas 15 anos, a popularização dos computadores e da internet já deixou um rastro de transformação. É essa revolução que agora está invadindo o chão de fábrica. Embora seja um fenômeno mundial, ele é mais presente nos Estados Unidos e na Europa — e isso tem uma explicação.

Durante boa parte das duas últimas décadas, a manufatura dos países ricos se deslocou em direção ao mundo emergente em busca de custos mais baixos. Foi esse movimento que transformou a China na fábrica do mundo.

O modelo Made in China reinou absoluto enquanto o país tinha uma vasta reserva de mão de obra qualificada a preços irrisórios. Mas, nos últimos dez anos, os custos trabalhistas chineses aumentaram quase 190%.

Nesse mesmo período, a pressão política para que as empresas voltassem a produzir em seu país de origem aumentou devido à crise econômica. No caso específico dos Estados Unidos, houve ainda a queda do preço da energia em razão da exploração do gás e do petróleo de xisto.

A China continua tendo um dos mais poderosos parques fabris do mundo, mas a lista de empresas que estão promovendo o que está sendo chamado de renascimento da indústria nos países ricos inclui nomes como as europeias Philips e Zara, e as americanas Apple, GE, Ford e Whirlpool.

“Quando essas companhias voltam para casa, abrem fábricas com a tecnologia mais avançada que existe para se manter competitivas”, diz Terry Hannon, vice-presidente de estratégia da fabricante de robôs Adept Technology, com sede em Pleasanton, na Califórnia. Fábricas automatizadas e robotizadas significam indústrias com cada vez menos gente.

Esse dilema é antigo. Quase três décadas de desindustrialização eliminaram 6 milhões de postos de trabalho industriais nos Estados Unidos — fazendo com que o emprego nas fábricas atingisse o patamar dos anos 40. Mesmo com o retorno das indústrias, essa parece ser uma tendência sem volta.

Há um ano, a Philips construiu uma fábrica de barbeadores elétricos na Holanda com 126 robôs e algumas dezenas de pessoas. “Os empregos que envolvem funções repetitivas vão desaparecer rapidamente nos próximos anos”, diz o economista Michael Spence, ganhador do Prêmio Nobel e professor da Universidade de Nova York.

Nos países ricos, estima-se que 25% de todas as funções na indústria deverão ser substi-tuídas por tecnologias de automação até 2025. No mundo, a estimativa é que 60 milhões de postos de trabalho em fábricas sejam limados. 

Fábricas Inteligentes
Entre os países ricos, a Alemanha aparece como exceção. Primeiro, porque suas indústrias sempre mantiveram uma presença forte na Europa. Segundo, porque há uma promissora coalizão entre governo, empresas, universidades e associações de classe para tentar garantir a competitividade local.

Criado em 2012, o projeto Indústria 4.0 tem como foco pesquisas sobre o que se convencionou chamar de fábricas inteligentes. Nelas, linhas de montagem e produtos “conversam” ao longo do processo de fabricação. Unidades em diferentes lugares também trocam informações de forma instantânea sobre compras e estoques.

“Numa fábrica inteligente, trabalhadores, máquinas, produtos e matérias-primas se comunicam de forma tão natural quanto pessoas numa rede social”, diz Henning Kagermann, diretor da Academia Alemã de Ciência e Engenharia, uma das entidades que lideram o projeto Indústria 4.0. A estimativa é que, em 20 anos, boa parte da indústria alemã tenha adotado esse padrão de produção.

Hoje, o país já conta com alguns exemplos de fábricas inteligentes. Na unidade de equipamentos eletroeletrônicos da Siemens, em Amberg, as linhas de produção não lembram em nada as tradicionais, que repetem continua¬mente a manufatura da mesma peça.

Sem a interferência de funcionários, máquinas que operam 24 horas por dia fabricam 950 diferentes componentes que são encomendados pelo sistema. A automação extrema leva a um baixíssimo índice de defeitos — um estudo da consultoria americana Gartner em Amberg registrou 15 peças com defeito a cada 1 milhão produzido.

“Não são apenas a competição e o aumento de custos que estão exigindo mudanças na manufatura”, diz Siegfried Russwurm, presidente mundial da divisão industrial da Siemens. “O ciclo de vida da tecnologia está se reduzindo e as demandas por uma produção sob medida estão aumentando.”

A fábrica inteligente da Siemens é um laboratório para criar plataformas de automação que depois são vendidas. A empresa forneceu para a montadora Volkswagen um software que cria um ambiente fabril virtual. Modernizada, a linha de produção digitalizada aumentou 30% a produtividade e diminui 40% o consumo de energia.

Nas fábricas inteligentes, os destaques serão cada vez mais os robôs. A atual sensação no mundo da automação industrial é o Baxter, um robô de quase 2 metros de altura com dois braços e um monitor que faz as vias de uma cabeça.

Lançado em 2012 pela americana Rethink Robotics (um dos primeiros investidores da empresa foi Jeff Bezos, presidente do site de vendas Amazon), Baxter é um robô que se adapta ao ambiente de trabalho. Ele tem câmeras que permitem que objetos sejam vistos, sensores que captam a presença de pessoas e um software que aprende novas funções.

Seu preço inicial é 22 000 dólares. A perspectiva de sucesso do Baxter e do crescimento desse segmento está atraindo empresas de tecnologia que, até pouquíssimo tempo atrás, não mantinham conexão nenhuma com o universo de robôs.

Em 2013, por exemplo, o Google comprou oito empresas de robótica avançada — a mais famosa é a Boston Dynamics, que desenvolveu o robô com aplicações militares Big Dog (uma espécie de mula de carga que anda em terrenos acidentados e íngremes).

Defasagem tecnológica
Enquanto o mundo se prepara para essa nova Revolução Industrial, o Brasil parece não ter se dado conta dos imensos desafios que o cercam. Em 2013, o país comprou menos de 1 300 robôs industriais — a Coreia do Sul adquiriu 21 000, e a China, 37 000.

No Brasil, a idade média de máquinas e equipamentos é 17 anos — ante sete anos nos Estados Unidos e cinco na Alemanha. Numa era de imensos ganhos tecnológicos, as empresas brasileiras estão presas a tecnologias ultrapassadas, o que afeta diretamente a produtividade do país.

Essa defasagem tecnológica tem várias explicações. A primeira é que o Brasil ainda tem uma economia fechada. Com o mercado doméstico garantido, as indústrias instaladas aqui têm menos incentivos para investir em aumento de produtividade.

Não é coincidência que as empresas expostas à competição internacional, como a Embraer, são justamente as mais avançadas em termos de tecnologia.

“A indústria brasileira precisa estar inserida nos mercados globais para poder importar as melhores práticas”, diz Pedro Passos, fundador e sócio da fabricante de cosméticos Natura e atual presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial.

Outra razão que inibe o investimento em tecnologia é o custo. Uma empresa brasileira gasta, em média, 37% mais do que uma companhia americana na aquisição do mesmo maquinário. A terceira razão é a burocracia.

Máquinas que trazem uma inovação tecnológica estão livres de impostos de importação, mas, para conseguir o benefício, a empresa precisa submeter o pedido ao governo, que, por sua vez, consulta as entidades patronais. O processo dura cerca de três meses.

Um estudo inédito sobre difusão tecnológica no Brasil produzido pelo Senai com os nove principais setores da indústria nacional mostra um quadro desalentador. Na área metal-mecânica, por exemplo, apenas de 10% a 30% do mercado deverá adotar robôs de soldagem e montagem nos próximos cinco anos.

“O problema é maior nas pequenas e médias empresas”, diz Marcello Pio, diretor de pesquisas do Senai. “Elas demoram até dez anos para adquirir uma tecnologia lançada hoje.”

As exceções estão nos setores mais dinâmicos da indústria. A Kepler Weber, fabricante de silos para armazenagem de grãos, está desenvolvendo um novo equipamento que responde automaticamente às mudanças de temperatura e umidade. Amplamente utilizada no exterior, a ferramenta elimina a necessidade de ter um técnico de plantão em cada armazém.

“Conheço produtores que perderam parte da safra porque o funcionário mexeu no botão errado e acabou torrando a soja que estava dentro do silo”, diz Anastácio Fernandes Filho, presidente da Kepler Weber. Outro canal de inovação no Brasil são as multinacionais, que trazem plataformas globais de produção.

No setor de gases industriais, a alemã  Linde adotou recentemente um sistema de gerenciamento remoto. De um centro de operações em Jundiaí, no interior paulista, cerca de 50 engenheiros operam 33 unidades na América Latina.

Se uma máquina apresenta um comportamento fora do padrão na unidade de Guayaquil, no Equador, ela é desativada por um clique no computador de um engenheiro em Jundiaí.

Isso fez com que as unidades da Linde, que antes tinham cada uma cerca de 20 funcionários, trabalhem agora com equipes de três pessoas. “Ao concentrar todos os especialistas no centro de operações em Jundiaí, aumentamos 30% nossa produtividade”, diz Max Amílcar, diretor da Linde.

Hoje, a unidade é referência da multinacional alemã no mundo e não para de receber visitas de estrangeiros curiosos em conhecer seus detalhes.  A Linde criou seu modelo de inovação e vem recebendo as recompensas por ele. Se quiser manter a relevância, a indústria brasileira terá de seguir o mesmo caminho. A competição com a mão de obra chinesa nas últimas décadas já causou estragos.

Sem preparação, a disputa com máquinas americanas e europeias poderá ser pior. Abraçar a inovação — seja ela um robô, um sensor ou o que vier pela frente — pode garantir um futuro para quem está cada vez menos relevante no presente.


Moody’s alerta para "cenário macroeconômico desafiador"

Exame.com
Stefânia Akel, Estadão Conteúdo

Real fraco vai continuar a beneficiar os exportadores de carnes de boi e aves, que serão bastante competitivos globalmente

Stock.Xchange 
Energia: "redução obrigatória eventual no consumo de energia 
reduziria a produção industrial e, portanto, as receitas", avalia a agência

São Paulo - O cenário macroeconômico desafiador do Brasil vai continuar a representar riscos para as empresas brasileiras pelo menos até meados de 2015, afirma a agência de classificação de risco Moody’s, no relatório "Qualidade do crédito corporativo no Brasil: exportações e real fraco impulsionam setor de carnes, mas açúcar/etanol e transportes terão defasagem".

Segundo a agência, o real fraco vai continuar a beneficiar os exportadores de carnes de boi e aves, que serão bastante competitivos globalmente.

"Os produtores de açúcar e etanol, porém, enfrentarão outro ano difícil em 2015, com menor disponibilidade de cana de açúcar, condições ruins de clima e preços menores do etanol", afirma a Moody’s.

O relatório destaca ainda que a economia fraca do Brasil se traduzirá em desempenhos mornos para empresas de transporte e logística em 2014 e 2015. Apesar disso, o programa brasileiro plurianual de infraestrutura de US$ 246 bilhões vai beneficiar as maiores construtoras, pondera a Moody’s, enquanto as mineradoras e siderúrgicas deverão resistir aos preços mais baixos e à demanda mais enfraquecida.

"O ambiente macroeconômico do Brasil continua desafiador em 2014", avalia Barbara Mattos, vice-presidente e analista sênior da Moody’s.

"A economia apresenta dificuldades com o declínio gradual do consumo, desaceleração do investimento e deterioração da confiança do investidor. O consumo e a disponibilidade de crédito perderam fôlego, à medida que o endividamento das famílias e a inflação deixaram os consumidores menos inclinados a gastar."

A Moody’s prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil crescerá 1,3% em 2014 e 1,5% em 2015, depois de uma expansão de apenas 0,2% no primeiro trimestre ante o trimestre anterior. A agência lembra que a confiança do consumidor brasileiro em junho atingiu o menor nível em quase uma década.

Energia
Ainda na avaliação da Moody’s, pouca chuva e o clima quente elevaram o risco de racionamento de energia, em decorrência do baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas e comprometimento da geração de energia elétrica.

"Uma redução obrigatória eventual no consumo de energia elétrica reduziria a produção industrial e, portanto, as receitas, e os preços mais elevados de eletricidade aumentariam os custos e pressionariam as margens", avalia a agência.

Segundo o relatório, porém, um racionamento pode ficar limitado às regiões mais afetadas pela seca no Brasil e as empresas com maior alcance geográfico podem implementar ajustes de forma apropriada.

Além disso, as companhias com produção de energia superior ao seu consumo próprio - como empresas de celulose e açúcar e etanol - poderiam se beneficiar do racionamento, vendendo seu excesso de energia a preços mais altos, afirma a agência. 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Argentina vai para os pênaltis

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Governo argentino não admite solução que inclua pagar dívida na íntegra e 'vai para o pau'

Havia gente graúda interessada em ajudar a Argentina a evitar um novo calote. A "ajuda" era também interessada, claro. "Amigos da Argentina" se ofereceram para pagar a dívida com os "fundos abutres", evitando a inadimplência, em troca de receber a dívida na íntegra, ou quase, mais tarde.

Mas o kirchnerismo duro e, enfim, o Ministério da Economia não querem saber de acordo que resulte em pagamento da dívida que foi objeto de calote em 2001. Ou seja, a Argentina "vai para o pau", nos vários sentidos dessa expressão, desculpe-se, vulgar.

Vai continuar a disputa com seus credores que a levaram à Justiça e vai se sujeitar a ser oficialmente declarada caloteira, o que ainda não aconteceu de fato. Assim, continua a cair o dominó de eventos que pode levar os vizinhos a uma recessão um pouco pior do que a prevista para este ano.

Como se sabe, a Justiça de Nova York decidiu que a Argentina não pode pagar os juros da sua dívida renegociada sem que pague também aos "abutres". Como os vizinhos não têm como pagar aos "abutres", em tese estão "em default", inadimplentes.

Bancos e empresários argentinos, com a promessa de apoio (também em dinheiro) de bancos americanos, comprariam a dívida dos "abutres", com algum desconto, tornando-se credores, portanto, do governo argentino. A princípio, o governo argentino ficaria livre para pagar aos credores da dívida renegociada, caso não sobrevenha outro problema legal. Assim, não haveria calote. A crise argentina voltaria ao seu nível normal de horror.

Ressalte-se: os bancos "amigos da Argentina" estariam dando essa mãozinha porque ganhariam algum (comprariam a dívida com os "abutres" por um desconto e seriam pagos pelo governo argentino com um extra).

O problema é que, na renegociação da dívida, em 2005 e 2010, a Argentina arrancou um desconto nominal de 75% (isto é, deu um calote de 75%, na prática um tanto menos, em 92% dos credores). Mas o governo não admite tal hipótese: quer arrancar o mesmo desconto de 75%, pelo menos o diz de público (diplomatas e banqueiros argentinos no Brasil dizem que poderia haver negociação, porém).

Aventou-se a possibilidade de o fundo garantidor de créditos bancários da Argentina cobrir o pagamento (o Sedesa, entidade privada sob comando prático estatal, que pode cobrir rombos bancários), solução descartada devido a vários riscos legais.

Agora, o governo argentino pode ser declarado de fato em "default" (calote) pelo banco encarregado de pagar aos credores da dívida renegociada. Se tal coisa ocorrer, os vizinhos vão à Justiça dos EUA (dizem que depositaram os pagamentos devidos, congelados por decisão da Justiça de Nova York. Logo, não deram calote). Caso entre "em default", certos credores da dívida renegociada podem requerer o pagamento antecipado do principal devido.

O caldo continuaria a entornar. Ao menos até o fim do ano, quando vencem cláusulas do contrato com os credores da dívida renegociada, o que vai permitir mais flexibilidade na negociação com os "abutres". Em tese. Se o governo argentino não radicalizar, o que não é improvável, dado o presente tumulto.

Desproporcional é o PT ameaçar retaliação usando a caneta

Tribuna da Internet
Julia Duailibi, O Estado de São Paulo


A presidente Dilma Rousseff e o PT erram quando ameaçam retaliar o Santander sugerindo o uso de mecanismos de Estado para isso. Na semana passada, o banco soltou um informe aos seus clientes com renda acima de R$ 10 mil dizendo haver risco de deterioração do cenário econômico em caso de vitória da presidente Dilma Rousseff.

Até então, a reação histérica sobre o tema parecia estar no ringue das opiniões. O ex-presidente Lula, o presidente do PT, Rui Falcão, e a oposição, cada um falou o que achava do caso. E é assim que as coisas funcionam na normalidade democrática. O banco emitiu sua opinião – você pode ou não concordar com ela. O PT reagiu a essa opinião e emitiu a sua – e você pode ou não concordar com ela.

O problema não é o bate-boca, mas o uso da máquina pública para retaliar ou ameaçar adversários ou instituições. As ameaças veladas ao Santander feitas por Dilma e por outros petistas levam a crer que algo pode estar acontecendo nos bastidores, longe dos microfones e da verborragia eleitoreira.  “Eu vou ter uma atitude bastante clara em relação ao banco”, afirmou ontem a presidente, de maneira misteriosa.

EXAGERO
O prefeito de Osasco, Jorge Lapas (PT), segundo a Folha de S. Paulo, chegou a declarar que vai romper convênio com o banco para recolhimento de taxas e tributos municipais. Se havia um convênio com o Santander, deveria existir interesse da população nele. Agora que o banco virou inimigo do PT, a prestação de serviço do Santander para a população de Osasco não serve mais?

O Santander pode até ter errado na maneira como expôs o que vários analistas já falam em alto e bom som. A opinião institucional de um banco tem um peso diferente do que a declaração avulsa de um analista. Tanto que os demais bancos têm opiniões similares, mas a expressam de modo mais cauteloso porque sabem que cenário eleitoral e expectativa econômica são duas variáveis que demandam responsabilidade e ponderação.

Mas o governo ameaçar usar a máquina porque não gostou da opinião não só é ilegal como é perigoso. Ao contrário do que disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, desproporcional não é perder de 7 a 1. É usar a mão pesada do Estado por não aceitar o contraditório.

Hipersensibilidade jeca

Marcos Troyjo
Folha de São Paulo

Acervo de improvisos demonstra amadorismo e desconforto na convivência com uma sociedade global

A tensão governo brasileiro-mercado é reveladora dos repentes e erupções emocionais que acumulamos em nossa interação com o mundo.

Além de erros de diagnóstico ou visão de futuro, tal acervo de improvisos demonstra amadorismo e desconforto na convivência com uma sociedade aberta e global. É agravado por atabalhoamento juvenil numa cena mundial em que holofotes são lançados mesmo a países de maior tradição insular.

Há dez anos, quase invalidamos o visto de trabalho do correspondente do "New York Times". Larry Rohter esteve prestes a ser expulso ao retratar suposta predileção do então presidente por um bom copo. A mercurial reação do governo fez com que a matéria de baixo relevo fosse avidamente lida no mundo todo.

Em 2008, dissemos que do vagalhão precipitado pela crise financeira chegaria ao país apenas uma "marolinha". Hoje, indevidamente atribuímos nosso subdesempenho econômico àquele tsunami.

Em 2009, denunciamos a "guerra cambial" perpetrada pela frouxidão monetária dos ricos. Agora, torcemos secretamente para que os estímulos continuem de modo a não rarear o fluxo de capitais para emergentes como nós.

Em 2011, peroramos a Merkel que não se superam crises com austeridade, mas crescimento. Fecharemos o quadriênio Dilma com o mais baixo crescimento desde os tormentosos anos Collor.

De 2012 para cá, utilizamos ministros de Estado ou notas do Planalto para rebater o "Financial Times" ou "The Economist". Não apenas por discordar da crítica, mas sobretudo por entender não terem direito de "imiscuir-se" em assuntos do país.

Em 2013, empenhamos enorme capital diplomático para eleger um brasileiro à direção da OMC, supostamente para fortalecer interesses dos países em desenvolvimento. Professamos fé nos acordos multilaterais, pois neles não há "imposição dos mais fortes sobre os mais fracos". Hoje vemos o frágil compromisso de Bali, pelo qual Roberto Azevêdo moveu montanhas, torpedeado por Índia, Venezuela e Cuba.

Ao lugar-comum do Santander sobre impactos econômicos da reeleição --já manifestado em centenas de informes de instituições financeiras-- a presidente reagiu como "inadmissível interferência" no processo eleitoral.

Seu antecessor, há pouco considerado o "político mais popular do mundo", pediu a cabeça --e o bônus-- do redator do sofrível texto. Este, dada a repercussão, já correu mundo graças ao Google Translate.

Nesta atribulada semana, quando a óbvia prudência recomendaria relativizar eventual default argentino, bradamos aos quatro ventos na Cúpula do Mercosul que o impasse Buenos Aires-abutres "ameaça o sistema financeiro internacional".

Essa lista não-exaustiva de equívocos evidencia desdém com estratégia de inserção global delineada pelo interesse nacional de longo prazo. Em vez disso, posturas imediatistas e direcionadas ao perecível consumo do público interno. Estamos respondendo aos desafios de uma conjuntura planetarizada com uma hipersensibilidade jeca.

Cúria quase perde Cristo

Merval Pereira
O Globo

 Chega de Brasília uma informação que pode ser considerada bizarra, mas que também pode ter implicações mais graves. No impasse acerca do filme de José Padilha sobre o Rio, que a Cúria Metropolitana vetou inicialmente por considerar que a figura do Cristo Redentor havia sido desrespeitada, mas depois liberou, a ministra da Cultura Marta Suplicy fez chegar ao Cardeal D. Orani Tempesta uma ameaça de, através de um decreto presidencial que já estaria pronto, retirar da Igreja Católica a tutela sobre a imagem que está implantada no Parque Nacional da Tijuca, sob o controle da União. 

O monumento foi erigido em área cedida pela União à Arquidiocese do Rio na década de 1930, mas o acesso à estátua é realizado pelo Parque Nacional da Tijuca, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.

Recentemente, a imagem do Cristo Redentor foi eleita, em votação pela internet no mundo todo, uma das modernas Sete Maravilhas do Mundo. O Prefeito do Rio, Eduardo Paes, que também atuou para liberar o filme, disse que chegou a conversar com D. Orani tentando mostrar que a imagem do Cristo Redentor é um ícone da cidade do Rio, e que como tal também deveria ser tratada, e não apenas como um santuário religioso. Mas garante que em nenhum momento soube de qualquer tentativa de retirar da Igreja Católica os direitos sobre a imagem.

Os direitos de uso comercial do Cristo no Corcovado pertencem desde 1980 à Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro, e em outubro de 2006, para comemorar seus 75 anos, a estátua foi transformada num santuário católico. Há também, na base do monumento, uma capela católica devotada a Nossa Senhora Aparecida.

A Arquidiocese do Rio de Janeiro não autorizou o uso da imagem do Cristo no filme “Inútil paisagem”, dirigido por José Padilha, por considerá-lo inicialmente desrespeitoso. Ele é um dos dez curtas que compõem o longa-metragem “Rio, eu te amo”, da franquia “Cities of love”. 

Em uma sequência do curta, o personagem interpretado por Wagner Moura, durante um vôo de asa-delta, conversa com a estátua do Cristo reclamando da vida, dos seus dissabores e da violência da cidade que ele deveria proteger.

O filme foi enviado para a apreciação da Arquidiocese em março, tendo sido vetado. Segundo a assessoria de imprensa da Arquidiocese do Rio na ocasião, “há cenas no filme em questão que foram consideradas ofensivas à imagem do Cristo e, consequentemente, à casa dos católicos. É uma prática absolutamente normal da Arquidiocese a não autorização de qualquer produto audiovisual que avance nesse caminho”.

Dias depois, diante da reação negativa à decisão, considerada uma censura artística, o Vicariato para a Comunicação Social e a Assessoria de Imprensa da Arquidiocese anunciaram em nota a reversão da medida, pois haviam chegado à conclusão de que o episódio não visou interesse religioso no trato à imagem do Cristo Redentor, “e portanto não houve desrespeito ao Cristo ou à religião católica”.

O excesso de zelo dos encarregados pela imagem do Cristo, sem levar em conta o lado icônico não religioso da estátua que representa a Cidade do Rio de Janeiro no mundo, pode levar a uma excessiva intervenção governamental que seria muito bem recebida em setores da sociedade contrários a esse controle da Igreja Católica sobre o monumento.

Após polêmica com filme, Igreja pode perder tutela do Cristo

Beatriz Souza
Exame.com

Depois da Arquidiocese negar o uso da imagem do Cristo Redentor no filme "Rio, eu te amo" (e voltar atrás), governo estaria tentando retomar a tutela sobre o monumento

Creative Commons 
Arquidiocese vetou - e depois liberou - 
o uso da imagem do Cristo no filme "Rio, eu te amo"

São Paulo - A estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, além de uma das sete maravilhas modernas do mundo e o maior símbolo da cidade, agora também seria motivo de disputa entre o governo brasileiro e a Igreja Católica. 

Segundo informações do blog de Merval Pereira, do jornal O Globo, a ministra da Cultura Marta Suplicy teria feito chegar ao Cardeal D. Orani Tempesta uma ameaça de retirar da Igreja Católica a tutela sobre a imagem. Já haveria, inclusive, um decreto presidencial pronto.

A decisão da ministra teria relação com o impasse gerado por conta do filme "Inútil Paisagem", de José Padilha, que tem uma cena em que o Cristo aparece. O filme é um dos curtas que fazem parte do longa "Rio, eu te amo", que estreia em setembro. 

Em março, a Arquidiocese do Rio vetou a veiculação da cena por considerá-la desrespeitosa. Dias depois, por conta da repercussão negativa, a Igreja voltou atrás e liberou o uso da imagem do Cristo. 

A estátua do Cristo Redentor está em área que foi cedida pela União à Arquidiocese do Rio na década de 1930. O acesso ao local, no entanto, é feito pelo Parque Nacional da Tijuca, de propriedade do governo federal. 

Veja o trailer de "Rio, eu te amo":



Educação, eleições e o PNE

João Batista Oliveira
Valor

Insatisfeito com a educação, setor produtivo não tem proposta para ela e aceita pagar a conta

Em seu editorial de 10 de junho, o Valor apresentou a crítica mais contundente e pertinente sobre o Plano Nacional de Educação (PNE), recém-aprovado pelo Congresso. A única nota otimista do referido editorial é a esperança de que o Plano não será implementado. Dada a expectativa, cabe indagar: se todas as críticas ao PNE são corretas e pertinentes, onde estava o setor privado e as associações de classe durante sua discussão e votação? Olhando para a frente, indagamos: como será o diálogo do setor produtivo com os candidatos à Presidência da República, considerando que os três principais postulantes já se manifestaram a favor do plano e um deles já colocou a execução de suas metas como compromisso de campanha?


O PNE ilustra o processo equivocado de formulação e aprovação de políticas que vem predominando no Brasil. Abre-se inicialmente um processo de consulta, que em tese é amplo e que na prática acaba controlado pelos especialistas em manipulação, hoje devidamente instalados em todos os setores do Estado e níveis federativos, com predominância no federal.

Ao invés de se debaterem teses e propostas fundamentadas, constrói-se uma colcha de retalhos em que as reivindicações dos que falam mais alto vão ganhando corpo. É a vontade de cada um predominando sobre o interesse coletivo. As alianças entre os grupos de poder e concessões feitas aqui e ali arrematam o processo, dentro de um governo federal que se tornou totalmente aparelhado.

No Congresso Nacional o esquema de pressão funciona com perfeição. Os grupos da "sociedade civil (ou incivil?) organizada" se instalam nos gabinetes e aterrorizam os poucos parlamentares que ousam discordar de suas propostas - usando e abusando das redes sociais para denegrir as vozes discordantes em suas bases eleitorais. Técnicas "inovadoras" de votação adotadas pela atual presidência trazem as vozes da sociedade organizada para dentro do Plenário, coagindo os parlamentares com bandeiras, gritaria e outros rituais que desmoralizam o Parlamento e o processo democrático.

No fim deu no que deu - uma lista de 20 prioridades desconjuntadas e mais de uma centena de indicadores e metas. Se tudo for implementado, o Brasil vai dobrar o investimento público em educação e, como corretamente previu o editorial do Valor, nada vai acontecer com o resultado.

O brasileiro quer mudanças. O país precisa mudar, desenvolver seus recursos humanos, tornar-se produtivo e competitivo. No século XXI, os fatores que contribuem para o pleno desenvolvimento humano, especialmente na área cognitiva e social, são os mesmos que contribuem para o desenvolvimento econômico: educação, produtividade e desenvolvimento andam de mãos dadas.

O processo de elaboração do PNE demonstra que nosso sistema democrático carece de instituições fortes e de processos adequados para apresentar ideias transformadoras. O conteúdo das discussões e o conteúdo do que foi aprovado demonstram que falta ao Brasil uma visão clara do que efetivamente promove mudanças em educação. Continuamos na linha dos anos 50 de que mais é melhor.

Qual o papel do empresariado nessa história? Depois do indivíduo, o setor produtivo é o maior interessado em que o país tenha uma educação de qualidade. A falta dela significa enormes custos de recrutamento, seleção, treinamento e retreinamento de pessoas e perda de produtividade. A qualidade dos serviços no Brasil tem como resultado intermináveis aborrecimentos no cotidiano do cidadão e é matéria de chacota na mídia internacional. O período da Copa do Mundo prova isso. Os empresários perdem dinheiro com educação de má qualidade, mas silenciam diante de um plano que vai manter o status-quo com maiores custos.

Nunca o setor privado local participou tanto das questões da educação. Milhares de companhias engajam-se em atividades pertinentes à educação, dentro da empresa, no seu entorno ou em parceria com outras. Empresários criam, participam, promovem ou financiam governos, instituições e ações em prol da educação. Alguns deles até participam de instituições e ações de nível mais amplo. E as Federações e Confederações nacionais de empresários têm papel, peso e voz importante nas decisões nacionais.

Nada disso parece ter funcionado no caso do PNE. E o tema merece análise. Por que, diante de um problema que afeta a sobrevivência das empresas, os empresários, individual e coletivamente foram incapazes de se mobilizar? Ou, talvez, tenham se mobilizado do lado errado? Por que só agora a mídia, como fez oValor, põe a nu o retrocesso representado pelo PNE?

O desafio ao setor produtivo é gigantesco. Embora insatisfeito com a educação, o setor não tem uma proposta para ela. E certamente esse não é o seu papel. Também não tem exercitado critérios para avaliar o custo da má qualidade da educação, resigna-se a pagar a conta e repassá-la aos custos. Não se habituou a promover avaliações independentes ou a fazer valer a sua voz a partir das avaliações existentes. No caso da discussão do PNE, limitou-se a ficar de fora do debate e garantir interesses menores em fatias do Pronatec.

Este é o Brasil que temos hoje. E estamos diante de um pleito eleitoral que pode mudar essa situação. Há pouco mais de vinte anos, uma campanha na televisão tinha como slogan a seguinte frase: "se o seu candidato não sabe como mudar a educação, mude de candidato".

Como o rol de candidatos está praticamente fechado, a opção que nos cabe é outra. Quem sabe convencer algum candidato e fazê-lo mudar de ideia sobre as ilusórias bondades do PNE? É o que nos resta tentar. E cabe à mídia criar espaço para essa reflexão.

(*) João Batista Araujo e Oliveira é presidente do Instituto Alfa e Beto

Quer que as crianças estudem mais? Siga os passos do SAS

Luísa Melo
Exame.com

Empresa de software pagará o equivalente a duas mensalidades escolares para funcionários cujos filhos conseguirem nota média anual 8 em todos os conteúdos em 2014

Getty Images 
Estudo: com incentivo, SAS espera ajudar estudantes
 a compreender o mercado de trabalho

São Paulo - Funcionários do SAS cujos filhos tiverem no boletim média anual 8 em todas as disciplinas em 2014 receberão da empresa o equivalente a dois meses de mensalidade escolar para o próximo ano. 

Além disso, a criança que tiver esse desempenho ganhará o valor de uma mensalidade para gastar com o que quiser. 

O novo "benefício" foi anunciado pela empresa desoftware no fim de junho e vale para pais de estudantes do 1º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio (na faixa de idade entre os 7 e 17 anos, aproximadamente). 

"A maioria das pessoas que trabalha aqui tem seus filhos estudando em escolas privadas, o que às vezes acaba sendo um fardo. Queremos ajudá-las a conseguir retorno nesse investimento e também fazer uma modesta contribuição para a melhoria da educação",  diz Marcio Dobal, presidente do SAS para o Brasil e Cone Sul. 

A companhia espera também ajudar as crianças e adolescentes a compreender melhor o mercado de trabalho. "Tentamos trazer para eles uma semente do que é o ambiente corporativo, onde se você desempenha há um retorno que se converte em benefícios pessoais", afirma Dobal. 

E como todo investimento mira um retorno, o SAS almeja sair ganhando com a medida. Para o presidente da companhia, se seus empregados tiverem menos preocupações quanto ao pagamento da escola dos filhos  (mesmo que apenas por dois meses) consequentemente eles estarão mais motivados a trabalhar.

"Essa tranquilidade de vida pode fazer com que eles fiquem mais leais à causa do SAS e dos clientes", destaca. 

Ele diz  ainda que investir em educação é, para a empresa, "ter uma atitude que o mercado espera". "Um de nosso valores é a inteligência e estamos criando mecanismos que estimulem essa inteligência", garante.

A gratificação
O incentivo, exclusivo do SAS no Brasil, não terá valores limitados. Ou seja: a quantia doada pela empresa será exatamente igual a três vezes o valor mensal pago pelo funcionário à escola do filho, sendo duas partes para o pai e a outra para estudante. 

A entrega do "prêmio" será feita em um evento, no fim do ano. "Entendemos que quanto mais cara é a escola, maior é o sacrifício que os pais fizeram. E também acreditamos que a ajuda pode até estimulá-los a colocar os filhos em uma escola melhor". 

A empresa também não fará exigências sobre onde o dinheiro será empregado pelas famílias.

O SAS tem uma equipe de 170 pessoas no Brasil e 60 filhos de funcionários da empresa estão dentro da faixa etária coberta pelo benefício. "Eu gostaria que todos pudessem receber (o incentivo), mas sabemos que serão poucos. Quanto mais crianças conseguirem, melhor", diz Dobal.

A empresa diz que a política está em fase de experiência e que não sabe se ela será adotada nos próximos anos.

Com dinheiro, mas sem formação, esportes olímpicos têm mais desafios que futebol no Brasil

Camilla Costa (*)
BBC Brasil 

Com mais investimento e infraestrutura, esporte olímpico tem dificuldades para criar novas gerações


Com mais investimentos, mas persistentes problemas na formação de novos atletas e na gestão das federações, o esporte olímpico brasileiro enfrenta desafios ainda maiores do que os do futebol nacional.

Na esteira da derrota humilhante para a Alemanha nas semifinais da Copa do Mundo, ganhou força o debate sobre reformas no processo de formação dos atletas do futebol. Mas essa é uma discussão conhecida em outras modalidades esportivas no país.

Um ano e meio antes da Olimpíada do Rio-2016, especialistas e profissionais ouvidos pela BBC Brasil dizem que, apesar do aumento do investimento financeiro e da melhoria de infraestrutura, os problemas persistem.

"Estamos olhando para o exemplo da Alemanha no futebol, mas há também países como o Irã, que não tem tradição nenhuma no vôlei e agora está entre os dez melhores do mundo", disse à BBC Brasil Marco Antonio Bortoleto, professor e pesquisador de Educação Física da Unicamp.

"A questão é que outros países investem muito nas categorias de base e a consequência são resultados mais eficientes no esporte de alto rendimento. O que acontece no Brasil agora é que o investimento é muito grande, só que todo verticalizado nas equipes de ponta. Não é falta de dinheiro. É falta de organização, de profissionalização da gestão do esporte brasileiro."

Procurado pela BBC Brasil, o Ministério do Esporte não respondeu a perguntas sobre como lida com as questões levantadas pelos especialistas ouvidos na reportagem.

Penúria dos pequenos

"O Brasil tem tido dificuldade em quase todas as modalidades esportivas 
em criar novas gerações. Não é falta de dinheiro. É falta de organização, 
de profissionalização da gestão do esporte brasileiro. Por isso esse 
dinheiro é mal usado, mal aplicado."
Marco Antonio Bortoleto, pesquisador da Unicamp

Apesar das diferenças e especificidades de cada esporte, as queixas têm alguns pontos em comum. Uma delas é a falta de mecanismos para fortalecer clubes poliesportivos menores - o que dificulta a formação dos atletas e contribui para um "monopólio de grandes clubes", que concentram mais investimento.

"Temos cerca de seis a oito clubes poliesportivos tradicionais. Quando, em um país do tamanho do Brasil, eu consigo sintetizar em menos de dez nomes o que é a estrutura do esporte olímpico, isso significa que temos muitos problemas", diz Katia Rubio, pesquisadora da USP e especialista no esporte olímpico brasileiro.

"Os clubes de modalidades esportivas são empresas que abrem e fecham todos os anos, deixando de contribuir para a evolução da modalidade e fazendo com que o atleta seja um nômade, o que também traz consequências pessoais ruins."

Profissionais de modalidades como judô e ginástica artística apontam como problema o "sequestro" de atletas consagrados em clubes menores pelos grandes clubes.

"Eles pegam os atletas de outros Estados e levam para seus clubes. Então não conseguimos formar bases em Estados fora desse eixo", disse à BBC Brasil Expedito Falcão, técnico da judoca piauiense Sarah Menezes, medalha de ouro em Londres 2012.

"Depois que Sarah se tornou campeã olímpica, nossa intenção é que ela deixe um legado para o Piauí. Hoje está sendo construído em Teresina um centro de lutas que será um dos melhores da região. Mas só conseguimos isso porque Sarah é campeã e o estado tem uma referência esportiva", afirma.

Para Marcos Goto, técnico do ginasta Arthur Zanetti, também medalhista de ouro em Londres, os clubes de pequeno porte ficam "a ver navios" pela falta de uma normativa que inclua, no contrato com os atletas, uma compensação ao seu clube de origem pelo investimento em sua formação.

Migração de atletas consagrados para clubes maiores 
dificulta criação de cultura esportiva em suas regiões

"Se o atleta ficou dez anos no clube, quem o contrata tem que pagar por isso também. Quando o atleta tem oportunidade de ganhar um pouco mais, naturalmente vai. Mas se o seu clube original é um formador de atletas desde a base até o alto nível, ele precisa ter condição de formar outros. Quem consegue (os recursos da) lei de incentivo e os investimentos do governo são os grandes clubes", disse Goto à BBC Brasil.

Ele admite que aumentou, nos últimos anos, o investimento na infraestrutura dos clubes menores de ginástica. Os recursos chegam do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), do Ministério de Esporte e das prefeituras das cidades que são pólos de treinamento, como São Caetano do Sul, onde treina Zanetti.

No entanto, ele diz que o trabalho feito até agora ainda não é suficiente para garantir a renovação das equipes para os próximos ciclos olímpicos.

"As mudanças são pequenas, mas estão acontecendo. Você já tem muitas entidades trabalhando com ginástica hoje no Brasil, mas não tem muitos clubes trabalhando com alto nível. A nossa safra para 2020 e 2024 vai ser fraca, não temos muitos atletas", afirma.

Esporte x Educação
Ao contrário do futebol, cuja popularidade no país garante um fluxo de novos atletas para as equipes, as modalidades mais dependentes da estrutura de clubes criticam o que dizem ser um esvaziamento do esporte escolar.

"Não temos uma cultura de esporte na escola e nem universitário. Temos um grande celeiro de atletas, mas todos formados em clubes. Em outros países, a escola é um diferencial. É da quantidade que se tira a qualidade", disse Rosicleia Campos, ex-judoca e atual técnica da seleção brasileira de judô feminino, à BBC Brasil.

"O judô está conseguindo fazer a formação de base, mas de uma forma meio torta. Os projetos sociais são o nosso celeiro, muito mais do que as escolas ou universidades."

Contar com os projetos sociais para a identificação de novos talentos do esporte é comum, mas depender deles pode ser perigoso para um projeto de longo prazo, segundo Marco Antonio Bortoleto. "Estamos delegando o futuro do nosso esporte - a educação esportiva - a um conjunto de ONGs. E uma ONG pode desaparecer a qualquer momento, quando uma empresa não quer mais apoiar. Isso é o que mais acontece no Brasil."

Segundo dados do Ministério do Esporte, parcerias com o Ministério da Educação tem garantido o espaço do esporte no currículo de escolas brasileiras. O programa Atleta na Escola, que começou em 2013, capacita professores e monitores de quase 45 mil escolas privadas e públicas do país a selecionar estudantes em modalidades como atletismo, judô e vôlei para a etapa nacional dos Jogos Escolares da Juventude, organizada pelo COB.

Os Jogos, financiados com recursos da lei Agnelo Piva, são a única contribuição direta do COB ao esporte escolar no país e revelaram recentemente talentos como Sarah Menezes e Mayra Aguiar, judoca também medalhista em Londres 2012.

Apesar de ser obrigado a destinar 10% dos recursos que recebe da Loteria Nacional ao esporte escolar e outros 5% ao esporte universitário, a principal atribuição do Comitê Olímpico Brasileiro é lidar com o esporte de alto rendimento. No entanto, de acordo com o diretor do COB, Marcus Vinícius Freire, o órgão está "tentando colaborar" com o desenvolvimento do esporte escolar.

"O mundo inteiro tem problemas na base e cada um tem a sua receita. Eu visitei as escolas de Cuba, as peneiras de atletas da China e fui conhecer o modelo universitário dos Estados Unidos. Estamos estudando todos eles, mas esse papel é do governo, do estado, do município", disse Freire à BBC Brasil.

"Fazemos a identificação dos talentos pelos Jogos Escolares, mas entendemos que as etapas de confirmação e de desenvolvimento do talento são um papel das federações. Quando recebemos o direito de receber a Olimpíada, assumimos também um pouco essa parte. Estamos desenvolvendo um plano."

Para o técnico de atletismo Aristides Junqueira, que treina o saltador Mauro Vinícius da Silva, o investimento nas competições escolares não rende o esperado, se o acesso de crianças e jovens à educação física escolar estiver sob ameaça.

"Temos no Brasil um paradoxo: a Caixa e o Ministério do Esporte estão investindo no trabalho de formação em alguns clubes e cidades, mas, na mesma proporção, o Ministério da Educação está acabando com a educação física na escola", disse à BBC Brasil.

"O número de aulas está diminuindo e agora elas podem ser até teóricas. Secretarias estaduais de Esporte ajudam atletas com bolsas, mas secretarias de Educação acabam com incentivos para que o professor treine o atleta nas escolas. O COB organiza os campeonatos juvenis e escolares, mas o número de estudantes que as escolas inscrevem tem caído."

Um debate semelhante acontece na Grã-Bretanha, onde uma das promessas do governo para o legado da Olimpíada de Londres 2012 foi fomentar o esporte de base no país (ver quadro).

Grã-Bretanha tenta manter legado esportivo de Londres 2012

O governo britânico divulgou o segundo relatório anual de ações destinadas a manter o legado esportivo dos Jogos de 2012 aos esportes de base. Conheça algumas delas:

·         No início de 2013, todas escolas primárias públicas receberam o repasse de 150 milhões de libras (R$ 567 milhões). Em novembro, um financiamento extra foi anunciado, elevando o total de aportes para 450 milhões de libras. As escolas devem prestar contas de seus gastos aos pais dos alunos.

·         Um fundo de 18 milhões de libras foi repassado a 601 escolas primárias do país para melhorar suas instalações esportivas. Muitas delas têm pouca área externa e deverão equipar espaços de atividade física internos.

·         Um novo programa está treinando 120 professores de educação física para trabalharem como especialistas em suas regiões. Outros 120 serão treinados em 2015.

·         O Sport England, órgão ligado ao Ministério de Cultura, Mídia e Esporte investiu 91 milhões de libras (R$ 344 milhões) na reforma de 1.600 clubes esportivos locais. Mais 20 milhões de libras para o projeto foram anunciados em março.

(*)  Colaborou Fernanda Nidecker, da BBC Brasil em Londres

Brasileiro anda cada vez menos de ônibus, diz NTU

Exame.com
Pedro Peduzzi, Agência Brasil

Em 2013, 560 mil passagens deixaram de ser vendidas a cada dia, na comparação com o ano anterior

Elza Fiuza/Agência Brasil 
Balanço mostra que 175 milhões de passageiros deixaram 
de usar ônibus nas nove capitais mais populosas do país

Brasília - Balanço divulgado hoje (1º) pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) contabiliza que, em 2013, 175 milhões de passageiros deixaram de usar ônibus nas nove capitais mais populosas do país (Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e São Paulo). Ou seja: 560 mil passagens deixaram de ser vendidas a cada dia, na comparação com o ano anterior.

Isso corresponde a uma redução de 1,4% no número de passageiros transportados, entre 2013 e 2012. Esse percentual sobe para 30% se o recorte for entre 1995 e 2013. De acordo com a NTU, essa queda se deve, principalmente, à migração das pessoas para os transportes individuais motorizados e ao alto custo do diesel, repassado ao valor da tarifa.

Na opinião do presidente da NTU, Otávio Cunha, não é a má qualidade do transporte público o que tem resultado nessa diminuição da demanda por ônibus – e na consequente migração das pessoas para os automóveis. “É a baixa demanda o que tem resultado na má qualidade do transporte público”, garante.

A baixa qualidade do transporte tem, segundo ele, suas explicações. “Em primeiro lugar, faltou ao governo federal o estabelecimento de políticas públicas de transportes. Falta inteligência para pensar o transporte e também investimento e capacitação profissional”, disse ele.

O resultado dessa falta de políticas públicas para o setor, acrescenta o presidente da NTU, “é a queda da velocidade operacional, o aumento do custo dos insumos e a competição com transporte individual. [Nesse cenário,] a velocidade média das viagens caiu em 50% nos últimos dez anos, passando de 25 quilômetros por hora (km/h) para 12 km/h”, completou.

Segundo o diretor administrativo da NTU, “as pessoas colocam o empresário como vilão por tentar aumentar a tarifa, mas nós tentamos aumentar a tarifa apenas para manter o mesmo nível do transporte público. As empresas fazem o que podem na gestão interna. O que acontece é que a crise está muito mais motivada pela falta de políticas públicas”.

Apesar da crítica, a diretoria da NTU avalia que os recentes investimentos feitos em infraestrutura para mobilidade já começam a apresentar resultados.

“Os corredores [exclusivos para transporte público] recentes darão melhorias significativas ao transporte. A partir de 2016 veremos resultados muito significativos. Rio de Janeiro, Belo Horizonte já têm demonstrado aceitação [por parte da população]. Esses corredores obrigarão [a construção de] novos corredores que vão atrair mais demandas. Todas cidades que migraram para esse tipo de política já colheram resultados, e os investimentos feitos reverterão a situação atual”, argumentou Cunha.

Cunha citou uma pesquisa do Datafolha relativa às reivindicações feitas pela população durante o período de manifestações. “Segundo essa pesquisa, 53,7% querem melhorias no transporte público e 40,5% querem a redução da tarifa. Isso demonstra a importância que esse serviço tem para a população”.

A fim de melhorar a qualidade do transporte público, de forma a atrair mais passageiros, a NTU apresentou oito propostas. Em geral, defendendo subsídios para que a tarifa não seja paga em sua totalidade pelo usuário.

Entre os pontos defendem a priorização do transporte coletivo nas vias; a elaboração de planos diretores, planos de mobilidade urbana por todos municípios, e de uma política de mobilidade. Ressaltam a importância de haver participação de representantes da sociedade civil organizada, bem como de conselhos municipais nessas discussões, a fim de definir qual é o serviço esperado e os valores de tarifa e de subsídios a serem pagos.

De acordo com a NTU, os subsídios ao serviço poderia ser pago por meio de fundo com recursos dos combustíveis, distribuídos aos municípios de forma proporcional à população. Outro ponto defendido pela entidade é a implantação de redes de transporte modernas, integradas, multimodais, racionais e de alto desempenho.

Planalto pode ser impedido de editar Wikipédia

Renata Honorato
Veja online

Às vésperas das eleições, enciclopédia liga radar para que artigos de candidatos não sejam editados de maneira tendenciosa durante campanha

(Boris Roessler/EFE/VEJA) 
Wikipedia 

Nesta semana, o jornal Folha de S. Paulo revelou que computadores instalados no Palácio do Planalto, sede do governo federal em Brasília, foram usados para editar artigos de políticos na Wikipédia – precisamente, a página do candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, que citava suspeitas de corrupção, foi alterada por servidores federais. As mudanças foram realizadas no ano passado, antes do início da campanha, mas o serviço colaborativo já se prepara para a enxurrada de edições tendenciosas que tradicionalmente ocorrem às vésperas de eleições, criando "perfis-pinóquio" de candidatos. A ação, que é comum no Brasil e exterior, é repelida por um exército de editores, que ao primeiro sinal de conflito de interesses reedita um texto na enciclopédia virtual. Em caso de reincidência, a Wikipédia não perdoa e bloqueia por tempo determinado o endereço IP (sequência de números que identifica um dispositivo em uma rede local ou pública) responsável pela mudança no termo.

Na prática, os computadores instalados no Palácio do Planalto podem ser impedidos de editar artigos da enciclopédia, caso a comunidade identifique alterações tendenciosas, que geralmente exaltam qualidades e omitem fatos de interesse público. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma faixa de IPs da Câmara dos Deputados foi bloqueada por dez dias depois que a Wikipédia identificou que computadores da sede do governo americano tinham vandalizado artigos. Na ocasião, a página sobre a teoria da conspiração que diz ser falso o Programa Apollo e sua chegada à Lua, acusava o governo de Cuba de espalhar os boatos. 

Segundo Katherine Maher, diretora de comunicação da Fundação Wikimedia, gestora da Wikipédia, o dono do IP em questão — o governo americano, no caso — já tinha sido notificado sobre as edições inapropriadas. Como aviso, o endereço chegou a ser bloqueado por um dia. As alterações continuaram a acontecer mesmo depois do alerta e, como castigo, a enciclopédia cancelou por dez dias qualquer edição feita a partir de um IP da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos. “A decisão partiu de um membro da comunidade Wikipédia em inglês. São eles que tomam as decisões com base nas políticas editoriais e só bloqueiam um acesso em casos extremos”, explicou a executiva ao site de VEJA. 

Lucas Teles, estudante de medicina de 28 anos, é um dos administradores da Wikipédia em português. Teles vive em Salvador (BA) e desde 2008 colabora com a enciclopédia. “As edições tendenciosas acontecem com frequência. O que não é comum é identificar a origem do IP responsável pela mudança”, explica. De acordo com Teles, muitos endereços já foram bloqueados no Brasil por causa dessas alterações. “Caso recente é o do ex-senador mineiro Clésio Andrade (PMDB). Um IP relacionado ao político foi identificado por fazer mudanças sensíveis no artigo e isso fez com que o endereço fosse bloqueado por 45 dias”, conta Teles.

Katherine afirma que as políticas de edições variam de idioma para idioma, mas na maioria dos casos é proibido que um usuário edite seu próprio artigo ou que pessoas próximas a ele façam o mesmo. O objetivo, diz a diretora, é evitar conflito de interesse. “Claro que nem todos seguem à risca essa regra editorial. É por isso que de tempos em tempos vemos políticos alterando suas próprias páginas. Historicamente, o tiro sempre sai pela culatra quando um parlamentar, uma empresa ou celebridade tentar melhorar a sua imagem na Wikipédia. Os editores reeditam o artigo e a imprensa publica reportagens sobre a manobra”, diz a porta-voz da enciclopédia. 

Para evitar que computadores instalados em sedes do governo sejam usados para modificar de forma inapropriada artigos na Wikipédia, programadores independentes criaram robôs que atualizam perfis no Twitter a cada alteração feita a partir de um IP do governo. “Essas contas já funcionam nos Estados Unidos, Rússia e Grã-Bretanha. Nada impede que alguém crie uma solução similar ao @congressedits para monitorar as edições feitas a partir do congresso ou senado brasileiros”, explica Katherine. E foi o que aconteceu dias após a revelação das edições do Planalto. A conta @brwikiedits no Twitter já está no ar e IPs do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), que fornece serviços de TI ao governo, são fiscalizados diariamente e publicados no microblog.  

Oona Castro, consultora do Programa Catalisador da Wikimedia no Brasil, explica que funcionários de empresas, relações públicas de celebridades e assessores de políticos de todos os níveis da federação tendem a editar artigos na enciclopédia. “Se uma dessas pessoas edita uma página de maneira isenta, não há problema. A questão complica quando interpretam que a Wikipédia é uma plataforma de divulgação e quando querem omitir fatos já reportados em outras fontes ou incluir informações sem referência”, diz Oona.  “Nesses casos, os editores mais experientes e ativos simplesmente reeditam os artigos.”