segunda-feira, agosto 04, 2014

Xô pessimismo? Então, xô soberana!

Adelson Elias Vasconcellos

Se é Dilma quem diz “xô pessimismo”, e o pessimismo é fruto de seu governo medíocre, então está na hora do Brasil dizer-lhe “Xô Dilma”. 



No post anterior,  tratamos de desmontar o discurso repulsivo e farsante de Tereza Campello sobre “programas sociais”. 

Então, está na hora de tratarmos das mentiras e terrorismo cafajeste que Dilma e os petistas vêm espalhando no país com vistas a se perpetuarem no poder. 

No mesmo dia em que, ironicamente, desceu a bodurna no governo FHC, que teve oito anos para mudar o país (e mudou), além da oposição feroz desferida pelo PT comandado por Lula contra o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal, apenas para ficar em dois exemplos, saíram dois novos números sobre o comportamento da economia brasileira. De um lado, a produção industrial, em queda vertiginosa ao longo do governo Dilma. Aliás, esta senhora teve a petulância de afirmar, com todas as letras, ter criado em seu governo um verdadeiro “programa industrial”. Só se foi um programa para quebrar a indústria brasileira como um todo.   Desafio a senhora Rousseff a exibir os números deste programa como aumento de investimentos, geração de emprego e renda, elevação da renda média dos trabalhadores, maior participação  no produto interno bruto, aumento no volume de exportações de manufaturados e semimanufaturados, aumento de produção, elevação da produtividade nacional e participação dos produtos fabricados aqui em relação aos importados nas prateleiras do comércio interno...  Até a produção de veículos, tratada com requintes de nobreza pelos governos petistas, tem caído nos últimos meses.

Não, o governo da senhora Dilma não criou um programa industrial, criou foi privilégios para alguns ramos que podem contar com poderoso lobby junto ao seu governo. Todos os indicadores acima referidos estão em vertiginosa queda. Apenas no número de empregos, passam de 1 milhão o número de postos de trabalho fechados na indústria nos últimos anos.  

Outro, ou melhor, outros indicadores que surgiram nesta semana para desmentir o discurso vigarista da senhora Rousseff sobre seu governo, mostram a deterioração de TODOS os indicadores que façam referência a atual situação das contas públicas. 

Num evento promovido pela CUT, Dilma afirmou “... Não podemos voltar para trás e permitir que voltem aqueles que deixaram o Brasil três vezes de joelhos, em 1999, em 2001 e 2002, diante do FMI. Eles deixaram o Brasil devendo os olhos da cara, coisa de US$ 37,8 bilhões, e hoje temos US$ 380 bilhões — disse Dilma, sendo ovacionada pelos cutistas e petistas”. Bonitinho, não? Pena que não seja verdade.

Dilma fala de coisas com a desinformação característica das pessoas imbuídas de completa má fé. 
Então vamos destrinchar esta paranoia. Primeiro, os tais US $ 37,8 bi é falso. Eram pouco mais de US $ 20 bi, fruto de um empréstimo junto ao FMI no final de 2002, e com pleno conhecimento e consentimento de Lula, então já eleito. Pois bem, o que fez o PT? Emitiu títulos do Tesouro, a juros de aproximadamente 20%, para poder quitar a tal dívida cujo custo financeiro não passava de 4%. Pode-se dizer que gênio matemático algum aprovaria esta mágica. Isto é, pagar uma dívida barata comprometendo-se com outra dívida, mas de custo cinco vezes maior. 

Falar que o país tem reservas em torno US $ 380 bi pode provocar alarido na turma da CUT, braço sindical do PT, onde a verdade  está proibida de entrar. Na verdade, estas estupendas reservas são insuficientes para quitar a monstruosa dívida pública contraída por doze anos de PT no Planalto. A dívida externa, hoje, soma mais de US $ 485 bi e, a externa, já passou de R$ 2,200 trilhões. Sem dúvida, um recorde histórico.  Apenas para que o leitor tenha uma ideia do desastre plantado pelo PT, até 14 de maio deste ano, o serviço da dívida, que é apenas o pagamento dos juros desta monstruosidade, consumiu aproximadamente R$ 460 bilhões ou, cerca de 54% do gasto federal. Ou seja, apenas com a dívida construída por Lula e Dilma juntos, o Brasil consome  mais da metade de sua arrecadação total de impostos. Isto apenas para pagar os juros, sem amortizações do principal. Não é de se estranhar que faltem recursos para educação, saúde, segurança, saneamento, infraestrutura. Como o governo continua gastando muito mais do que arrecada, e não economiza o suficiente para quitar ao menos os juros devidos, a tendência é que esta dívida continue aumentando. 

Ora, se o país não cresce como vimos em reportagem da Exame.com, ao final da edição de ontem, atingindo média inferior a dos últimos 20 anos, incluindo-se aí até o período FHC, que recebeu o país,  em 1995, em frangalhos e com a economia estagnada havia 25 anos e as finanças públicas transformada numa baderna completa, ou o  governo aumenta impostos para manter seu nível de arrecadação, ou vai ter de reduzir ainda mais os investimentos públicos para não deixar esta dívida perder-se de vista.   Com crescimento baixo, como nos níveis atuais,  a tendência é o governo sofrer seguidas quedas na arrecadação, já atropelada pelas tais desonerações que a senhora Dilma entende ser política industrial. Aliás, ela precisa voltar urgente aos bancos escolares para aprender a fazer contas. 

Em seus últimos discursos, inclusive de muitos de seus ministros, a senhora Rousseff insiste no velho chavão de que o crescimento é baixo e os investimentos despencam por conta do “pessimismo”, como se o pessimismo fosse a causa, e não a consequência do mau governo atual. 

Afirma também que não tomará medidas impopulares, não reduzirá direitos,   e que está tudo bem na casa de ninguém, e que erros, se houver, a culpada é a crise lá fora, nunca o seu governo. Para começo de conversa, tanto todos os emergentes, quanto alguns dos países que mergulharam na crise de 2009,. Hoje crescem mais que o Brasil. As exceções, para não variar, são Argentina e Venezuela. 

Crise lá fora? Infelizmente, isto não condiz com a realidade. Primeiro, governante que afirma que não tomará “medidas impopulares”,  é governante afeito ao populismo vagabundo. Nem tudo que, à primeira vista parece impopular, é desastre ou prejudicial à população. E governante que tem medo de agir, que se guia pelo populismo, em detrimento do real interesse público, que só sabe jogar para torcida enquanto o time perde em campo, não tem competência para dirigir um país como o Brasil. Segundo, exclusão de direitos significa o que propriamente, na mente desnorteada da governante? Onde ela ouviu que os candidatos da oposição estão propondo redução de direitos?  
  
O que se ouve é que os programas como Bolsa Família e o Mais médicos, para ficar nestes dois, serão mantidos, contudo aprimorados. Só uma mente perturbada, mau caráter, pode supor que “aprimorar o que existe” é extermínio.  Mas, claro, os petistas, e especialmente a senhora Rousseff, precisam de um discurso terrorista contra os adversários. Esquece que sua rejeição elevada é dada pelo povo e não pelos candidatos da oposição. É o povo que está cansado de promessas não cumpridas, de mentiras oficiais, de desculpas esfarrapadas, de contabilidade criativa para enganar os ingênuos, de modelos falidos de gestão econômica, enquanto se aprofunda, ano após ano, o confisco salarial via imposto na fonte, inclusive de pessoas de baixa renda. De que vale este palavrório todo sobre os aumentos reais do salário mínimo – que, aliás, e a bem da verdade, começaram com FHC – se depois, o próprio governo retira o ganho do trabalhador com uma incidência tributária maior sobre os salários?  

Também nesta semana veio a público relatório do TCU sobre o Minha Casa Minha Vida. E qual a surpresa? Todas as obras estão irregulares, são mal feitas, com defeitos de construção. Mais: em outro relatório, TODOS OS PROGRAMAS DO GOVERNO POPULAR apresentam irregularidades.  Acham pouco? E o que dizer do rombo bilionário, que já ultrapassa a casa dos R$ 60 bilhões, fruto da intervenção desastrosa da presidente no setor elétrico, cujo preço será bancado por todos os brasileiros?  E que tal o prejuízo estúpido, de mais de US $ 700 milhões,  causado à Petrobrás, na compra da refinaria Pasadena? Ou, ainda, a interferência incompetente na política de preços da companhia, que a fez perder mais de US $ 200 bilhões em valor de mercado?  Haja herança maldita, dona Dilma!!!

Assim, não é apenas o crescimento do país que está sendo condenado, mas também sua construção e seu próprio futuro. 

Não há uma única razão para concedermos  voto de confiança num governo medíocre em toda a sua extensão. Quando Dilma fala das “virtudes” e “feitos” de seu governo, com certeza, não está a se referir ao Brasil. Como afirmei recentemente, mediocridade não merece reprise. Se o clima de pessimismo invadiu o Brasil em todos os setores, ele é consequência do mau governo comandado por Dilma Rousseff.  

E vou repetir: o Brasil só mudará, conforme deseja maciçamente seu povo, se mudar seus governantes.  Esta que aí está, afora promessas e mentiras, nada tem de bom para nos oferecer. E os resultados estão em todos os indicadores. O país vem perdendo competência em todos os rankings mundiais que medem a eficiência de governos, inclusive na América Latina. 

Não mudar, insistir em mais do mesmo  e com os mesmos que estão aí, é condenar o país a ter um futuro pior do que o seu presente. É roubar dos brasileiros a chance que uma eleição lhes oferece de mudar o país para melhor. Se é Dilma quem diz “xô pessimismo”, e o pessimismo é fruto de seu governo medíocre, então está na hora do Brasil dizer-lhe: “XÔ DILMA”. Chega de o país ficar refém das promessas vazias e da incompetência. 

Os montinhos da Tereza

Adelson Elias Vasconcellos

O PT e todos os seus militantes, notadamente o ex-presidente Lula, a atual presidente Dilma, além dos ministros e secretários espalhados pela esfera federal, continuam enganando o país. E o fazem de forma calculada, apostando que todos os brasileiros são perfeitos imbecis e desmemoriados, desinformados e analfabetos. Querem-se como senhores absolutos de todas as virtudes. Os erros ou pertencem ao passado ou são culpa de alguém de fora. Eles não pecam, não mentem, não corrompem, não iludem, não dissimulam,  não mistificam.  

Nesta nesta eleição, estamos assistindo o repeteco de um festival horroroso de imposturas. A velha comparação de “nós” e “eles” corre solta sem nenhum pejo, sem escrúpulo algum. Porém, a realidade está aí para quem quiser saber as competências de cada um. Antes de prosseguir, uma observação: perceberam que eles pararam de falar de privatizações? Por que será, né? 

Lula e Dilma adoram comparar seus números com os de FHC. Jamais se deram ao trabalho de comparar o país que FHC recebeu aliado à conjuntura mundial, com a que o próprio Lula pode desfrutar em seus oito anos de poder. Se o Brasil recuperou credibilidade e respeito mundiais, isto se deve aos oito anos de FHC. Nem mais, nem menos. (No fundo, a própria Dilma reconhece isto).  Éramos um país falido, sem crédito, com um tremendo déficit e uma esculhambação total nas contas públicas. Inflação?  Juros? Dívida externa? Ao final de 1994, éramos uma nação em frangalhos. O que colocou o Brasil de novo na rota da decência foi o Plano Real e todas as reformas que dali foram irradiadas. E o primeiro passo foi a renegociação da dívida externa, então impagável, e em condições que o país não podia suportar.  As longas negociações de Pedro Malan resultaram num Brasil reinserido na comunidade internacional.

O PT se tem na alta conta de combinar desenvolvimento econômico com inclusão social.  Não, não foram nem os inventores da roda, tão pouco pioneiros  na combinação de economia e inclusão social. Ela começou com o Comunidade Solidária e o leque de 12 programas sociais, todos com funções específicas, com metas definidas  e com uma leitura jamais feita na história do cenário de pobreza e miséria no país. 

Em entrevista ao jornalista Josias de Souza, a senhora Tereza Campello, responsável no governo Dilma pelo Bolsa Família, afirmou de forma cretina e cafajeste que os programas do Comunidade Solidária eram “monte de farelinhos”. Bom mesmo, grandioso, estupendo é o Bolsa Família. Esquece esta canastrona de que este “monte de farelinhos” provocou uma revolução nos indicadores sociais do Brasil pela primeira vez na História. Foi através deste “monte de farelinhos”, senhora Campello, que a mortalidade infantil caiu; que a educação infantil se universalizou pulando de cerca de 80% para 96%; que o trabalho infantil reduziu-se drasticamente; que a mortalidade materna caiu; que a evasão escolar sofreu uma queda sensível. E, vejam só, a própria ONU, dias atrás, medindo os indicadores sociais do país, que nos colocaram na posição 79° no ranking de IDH, e avaliando a evolução do país a partir de 1980, concluiu que a velocidade de avanços no IDH do país foi maior justamente no tempo do “monte de farelinhos”. Mais: O Brasil caiu de 5º para 8º em um ranking de inclusão social que engloba 17 países das Américas na passagem entre 2013 e 2014. O Índice de Inclusão Social é calculado pelo Americas Society / Council of the Americas, um grupo de estudos com sede em Nova York, e leva em consideração 21 itens, como crescimento da economia, percentual do Produto Interno Bruto (PIB) investido em programas sociais, direitos civil, de mulheres e LGBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros). E é a senhora que vem cuspir em cima de programas sociais que tiveram, como consequência direta, a mudança do quadro social e de qualidade de vida no Brasil? Deveria envergonhar-se de cumprir papel tão baixo, de tanta má fé e cretinice tão ordinária. E se tiver dúvidas, pode consultar o arquivo deste blog que nele há matérias com o histórico desta revolução social que o monte de farelinhos provocou. Até porque, o próprio decreto de criação do Bolsa Família junto cinco programas num único, o Bolsa Família.  

Mesmo o Bolsa Família, conforme já provamos aqui inúmeras vezes, não fez mais pelo país do que o “monte de farelinhos” que a estupidez e a ignorância abissal é capaz de ignorar.  A diferença é que, enquanto o monte de farelinhos impunha obrigações aos seus beneficiados, como matrícula e frequência escolar, exames pré-natais, afastamento das crianças do trabalho infantil, através do incentivo pecuniário e mirava os resultados, o governo petista, ao mesmo tempo em que dá com a mão esquerda o benefício, com a direita cobra a reciprocidade do voto e a submissão cidadã ao partido que se quer hegemônico. Um, usa benefícios apenas para melhorar a vida das pessoas, o outro o emprega de maneira sórdida para se manter no poder.   Como já disse  aqui muitas vezes, um programa só é social quando tem  começo, meio e fim, e fixa e busca a realização de  metas específicas. E o programa se mostra efetivo na medida em que as pessoas se libertam dele, por terem alcançado condição tal que lhes permita andar com as próprias pernas, sem a muleta do paternalismo estatal.  E é neste sentido que o Bolsa Família não vai além de mera distribuição e complemento de renda mínima. Na medida em que perde velocidade a melhoria dos indicadores sociais, mas vê aumentar o número de beneficiados, fica claro a que, efetivamente, o programa se propõem: além de  perenizar a pobreza por não oferecer portas de saída, manter cativos ao Estado como curral eleitoral, cidadãos que poderiam ser livres se o programa tivesse outro enfoque para ser alcançado.

Para a sorte de Tereza Campello, a senhora Ruth Cardoso já é falecida, não está mais entre nós para desmoralizar esta fala estúpida e canalha. Além disto, quando os programas foram criados pelo Comunidade Solidária,  o Brasil vivia uma outra situação econômica.  Foi preciso gastar um bom número de anos para por ordem na casa esculhambada justamente por dois ex-presidentes, hoje aliados da primeira hora dos governos petistas, Collor e Sarney. 

Também é preciso olhar para o mundo em nossa volta. O período de crescimento vertiginoso da economia mundial iniciou-se no começo do ano de 2002 e se estenderam até 2009. E, vejam só, neste período, todos os países emergentes puderam avançar em programas de inclusão social, alguns numa velocidade até maior do que a brasileira. 

É repugnante ouvir de uma autoridade pública o desdém com que trata programas que trouxeram qualidade de vida para milhões de brasileiros, programas que o ex-presidente Lula qualificou, quando de sua criação como eleitoreiros, que faria o povo ficar preguiçoso e deixaria de plantar macaraxeira...

O Bolsa Família para se tornar um programa social de fato, precisa ser aprimorado. Não acabar com o programa como insinua o terrorismo petista ser intenção dos adversários. Mas ele precisa oferecer portas de saída, não pode ser eterno, criar dependência e acomodação, recisa oferecer ferramentas adequadas para o cidadão prescindir do programa. No arquivo, e mais recente, há duas semanas, elencamos aqui algumas destas ferramentas as quais se pode, com propriedade (e não com mentiras), praticar uma verdadeira inclusão social.   

Assim, sempre que a senhora Tereza Campello tentar desfazer de programas que resultaram no Bolsa Família deveria dedetizar a língua e desinfetar a alma. Má fé e canalhice não transformarão o Brasil, só o tornarão mais ridículo e irrelevante. E os brasileiros pobres, dependentes da ajuda estatal,  sonham em ser independentes, e não tornarem escravos de sua própria pobreza e miséria, e ainda cativos a um partido político. Independência, fruto da inclusão social, significa também a independência de escolher seus governantes, sem precisar beijar-lhes a mãos e curvar-se em reverência. Provavelmente este é o desejo alimentado por Tereza Campello: o beijão mão da submissão. Mas isto já terá outro nome, jamais o de programa social.  

Uma conta de arrasar

J.R. Guzzo
Revista EXAME

O Brasil, mais uma vez, vai sobreviver a tudo o que for feito pelos que estão no poder com o intuito de tentar continuar no governo. Mas pagará por isso um preço incalculável — à vista e ao longo dos próximos anos

Wilson Dias/ABr 
De volta ao posto: na redistribuição de cargos, Paulo Sérgio Passos
 é o ministro dos Transportes pela quarta vez

São Paulo - Conseguirá o Brasil sobreviver à campanha eleitoral de 2014? Certamente sim, levando-se em conta que países são entidades notoriamente dotadas de couro grosso e beneficiárias de um notável instinto de sobrevivência; sua grande diferença em relação aos gatos é que os gatos só têm sete vidas.

A prova disso é que o Brasil, de uma forma ou de outra, já chegou aos 514 anos de existência, apesar de tudo o que foi feito para assegurar sua destruição. Já resistimos à saúva, à ignorância extrema e à febre amarela, e saímos vivos de praticamente todas as modalidades de desgoverno que o ser humano é capaz de imaginar.

Tudo leva a crer, assim, que o Brasil não entrará em liquidação depois dos desastres que os donos atuais do poder vão causar, até o fim do ano, para se manter no governo.

Vai continuar vivo — mas pagará um preço incalculável, à vista e ao longo dos próximos anos, como resultado da guerra aberta contra o Erário, a decência e o interesse público que as forças da situação estão travando para continuar agarradas ao osso.

Não se sabe quem ganhará a eleição presidencial de outubro, apesar do favoritismo da presidente Dilma Rousseff e das imensas vantagens materiais que ela terá na campanha. Tanto faz. Com o vale-tudo já em curso, é certo que o país vai ficar com um mico colossal — essa, sim, uma herança realmente maldita que Dilma deixará para si própria ou para quem ficar em seu lugar.

Empresas, instituições e cidadãos, portanto, fariam bem em preparar um manual de sobrevivência para o futuro próximo. Há muito tempo só se pensa numa coisa em Brasília: o que serve ou não serve para a reeleição de Dilma, e que medidas podem ser tomadas para ajudar a campanha oficial.

Os últimos dias têm sido especialmente instrutivos a esse respeito. Anote-se, por exemplo, a conduta do Palácio do Planalto na compra do apoio das “gangues partidárias” — como a ex-senadora Heloísa Helena, do PT, chamava os partidos anões que prosperam unicamente à custa do dinheiro público, trocando alianças com o governo por ministérios, cargos públicos, verbas federais e todos os benefícios que puderem carregar.

Nunca houve, nesse tráfico, a mais remota cautela em disfarçar a natureza ¬real dos acordos entre as partes — a entrega de pedaços inteiros da administração pública a cidadãos privados em pagamento por seus votos no Congresso Nacional e sua adesão às chapas eleitorais do governo.

No presente momento de nervosismo com a campanha, porém, a presidente decidiu ir aos extremos na ânsia de embolsar mais 1 minuto aqui e ali de propaganda obrigatória na TV e no rádio.

Entenda-se: esses minutos tornaram-se a questão estratégica número 1 do governo brasileiro, e para obtê-los o PT, a presidente da República e o ex-presidente Lula estão privatizando áreas-chave da administração em favor de indivíduos que pensam exclusivamente em tirar delas proveito econômico, político e pessoal.

O negócio mais recente que o governo fechou foi a entrega do Ministério dos Transportes, um dos mais ricos e conturbados da Esplanada, ao PR, grupo cujos integrantes rivalizam entre si na acumulação de prontuários criminais por suspeitas de prática de corrupção. Seu comandante, Valdemar Costa Neto, despacha atualmente do Complexo Penitenciário da Papuda.

O caso é particularmente chocante. O ministro atual, Cesar Borges, que até outro dia contava com o apoio público e fervoroso de Dilma, foi demitido e seu cargo entregue ao PR. Por que isso? Qual é a nova filosofia de transportes que o PR pretende implantar? O que está errado com Borges? Quais os méritos técnicos dos novos proprietários?

O mais bonito na história é que o substituto de Borges foi seu antecessor exatamente no mesmo cargo. Dilma pôs o homem na rua há pouco mais de um ano, em meio a denúncias de superfaturamento de obras.

O PR não é uma exceção. PP, PSD, PRB, Pros e outros colossos da política brasileira estão com fome e querem vender seus minutos na mesma moeda. A conta final a pagar, como se vê, vai ser um arraso. Prepare-se.

A economia dos poderes mágicos da mente

Rolf Kuntz  
O Estado de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff é uma batalhadora. Essa virtude ninguém pode negar. Ela briga com as palavras, a lógica, os fatos, os números, a teoria econômica e os princípios mais simples da administração. Não é uma vida fácil, até porque os números têm o hábito lamentável de atacar traiçoeiramente. Enquanto ela pregava otimismo aos empresários, na quarta-feira à tarde, o Tesouro Nacional divulgava as contas do governo central, com mais um déficit primário - de R$ 1,95 bilhão em junho - e mais uma coleção de cifras assustadoras. No dia seguinte o Banco Central (BC) mostrou um quadro ainda mais feio, ao publicar as contas consolidadas do setor público. Segundo seu critério, o mês de junho havia terminado com um buraco de R$ 2,7 bilhões na administração central e de R$ 2,1 bilhões no conjunto, com desempenho pouco melhor dos governos regionais e das empresas controladas. Na sexta-feira, novo ataque dos números mostrou mais um tombo da produção industrial: o volume foi 1,4% inferior ao de maio e 6,9% menor que o de junho do ano passado.

No mesmo dia, à tarde, as cifras do comércio exterior pareceram trazer alguma ajuda: as contas de julho foram fechadas com superávit de US$ 1,57 bilhão. Mas pouco mais de metade desse valor, US$ 866 milhões, foi garantido pela exportação fictícia de uma plataforma de exploração de petróleo. Além disso, no acumulado do ano restou um déficit de US$ 916 milhões. Sem aquela operação - legal, mas fictícia, porque a plataforma continua no País - o déficit de janeiro a julho ainda seria US$ 1,78 bilhão.

Mas a presidente, auxiliada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, continua cobrando otimismo de todos, como se isso garantisse um desempenho melhor da economia brasileira. Os dois atribuem os problemas - pequenos, naturalmente - ao pessimismo espalhado pelos mercados e às condições da economia internacional. Na Confederação Nacional da Indústria (CNI), na quarta-feira, a presidente chegou a falar em protecionismo no mundo rico para explicar o enfraquecimento das exportações. Em relação ao comércio exterior e à competitividade, os números e dados conhecidos também têm sido adversos às teses presidenciais.

A presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda têm aplicado à economia uma criativa mistura de ideias. As teses de Norman Vincent Peale, autor do best-seller O Poder do Pensamento Positivo, aparecem mescladas com crenças primitivas em faculdades mágicas da mente. Além de injusta em relação ao pastor Peale, essa mistura passa longe de qualquer ideia econômica sobre a importância das expectativas. Decisões sobre consumo, produção e investimento são realmente afetadas por expectativas, e isso os economistas sabem há muito tempo. Mas os fatos são muito mais complexos e, quando se trata de explicar o desempenho de uma economia, é sempre bom levar em conta a qualidade da política. Expectativas podem ser importantes, mas a competência de quem conduz a política também pesa.

De janeiro a junho deste ano a produção industrial foi 2,6% menor que a do primeiro semestre do ano passado. Em 2013 o produto industrial aumentou 2%, mas havia diminuído 2,3% em 2012. Nem retornou, portanto, ao nível de 2011, quando o pífio crescimento havia ficado em 0,4%. Desde o primeiro ano do governo Rousseff, qualquer iniciativa rotulada como política industrial fracassou, portanto, de forma indisfarçável.

Atribuir esse resultado ao pessimismo generalizado seria um exagero, até porque os consumidores demonstraram boa disposição e considerável otimismo durante boa parte desse período. Talvez seja o caso, diante desses dados, de abandonar a conversa sobre expectativas pessimistas e explicar o fiasco da política pelo mau-olhado. Por que não, se o poder mágico da mente é tão relevante? A culpa deve ser de oposicionistas, de neoliberais invejosos e, de modo geral, de pessoas sem patriotismo. Afinal, o crítico do governo, segundo o discurso oficial, sempre torce pelo pior e é inimigo da Pátria.

Mas as falas da presidente e do ministro revelam algo mais que a crença nos poderes mágicos do pensamento, positivo ou negativo Denunciam também uma concepção muito especial da expectativa. Uma estranha noção está implícita nessa conversa: as pessoas podem ser pessimistas ou otimistas em relação aos fatos ou dados conhecidos. Se são conhecidos, no entanto, como falar de pessimismo ou otimismo? Um fato é claro: o mau humor de empresários e analistas está associado em primeiro lugar a informações amplamente difundidas, como a persistência de pressões inflacionárias, o emperramento da indústria, a piora das contas públicas e as más condições do comércio exterior.

Informações mais detalhadas podem tornar pior esse humor. Exemplo: de janeiro a junho deste ano, a produção de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos, foi 8,3% menor que a do primeiro semestre do ano passado. Em 2012 e 2013 essa produção ficou estagnada. Além disso, entre janeiro e julho o valor gasto com a importação de bens de capital foi 6% menor que o dos mesmos meses de 2013. Conclusão inescapável: os brasileiros estão investindo menos na ampliação e na modernização da capacidade produtiva. Como o crescimento da economia depende do investimento, exceto quando há grande capacidade ociosa, o potencial de expansão do Brasil continua comprometido. É uma relação elementar. Não é questão de pessimismo. Embora seja difícil calcular aquele potencial, respeitáveis economistas concordam pelo menos quanto a um ponto: sem investir muito mais o Brasil pouco poderá crescer nos próximos anos.

As autoridades às vezes parecem admitir esse raciocínio. Mas continuam falando como se os fatos conhecidos fossem positivos e as más expectativas, infundadas, George Orwell chamou de "duplipensar" a sustentação de ideias incompatíveis. Em alguns casos, talvez fosse mais adequada outra palavra: "semipensar".

Fraude da CPI; só o mensalão foi mais grave do que isso!

Reinaldo Azevedo

Petistas e governo cometem um crime contra o Congresso, contra a democracia e contra o estado de direito

A presidente Dilma: mais uma vez, 
ela não sabia de nada, como sempre?

O PSDB pretende entrar com representações nas comissões de Ética do Senado e da própria Presidência da República contra a presidente Dilma Rousseff, funcionários da Petrobras, parlamentares, funcionários do Senado e da Secretaria de Relações Institucionais. Por quê? Fraude na CPI. Sim, leitores, vocês já devem ter lido a respeito. Reportagem de capa da VEJA desta semana demonstra que uma grande farsa foi armada na comissão destinada a investigar no Senado o prejuízo bilionário com a compra da refinaria de Pasadena. Trata-se de uma das maiores agressões jamais feitas contra o Poder Legislativo. Nessa matéria, a partir de agora, só o PT supera o PT. Um grande teatro foi armado para que não se investigasse nada. As perguntas elaboradas pelos parlamentares foram previamente passadas aos convocados, tudo sob a supervisão de funcionários graduados do governo e de políticos do alto escalão. Já entro em detalhes.

Já escrevi isto aqui algumas dezenas de vezes: é claro que o PT não inventou a corrupção e o malfeito na política. Já existiam antes dele; continuarão a existir depois. O partido inovou num aspecto: nunca antes na história deste país, como costuma dizer Lula, um partido tentou profissionalizar o crime político e fazer dele um método. Infelizmente, o PT trouxe essa novidade — e tomara que ela seja interrompida e não tenha continuadores. O que foi o mensalão? Cumpre lembrar: mais do que simples roubo de dinheiro público, mais do que peculato, mais do que corrupção ativa, mais do que corrupção passiva, mais do que formação de quadrilha, mais do que evasão de divisas, mais do que lavagem de dinheiro. O mensalão foi tudo isso para ser algo bem maior do que isso. Tratou-se de uma armação para criar um Congresso paralelo, movido pelo propinoduto, de sorte que o povo brasileiro tivesse solapado seu principal canal de expressão: o Poder Legislativo. Que passaria a se mover nas sombras. Esse, sim, foi o grande crime do mensalão. Mais do que o roubo, que já era muito grave, o que se viu foi o assalto ao estado de direito e ao Estado brasileiro.

Muito bem: agora, VEJA revela mais um escândalo deplorável. Um vídeo de 20 minutos que veio a público traz uma reunião entre o chefe do escritório da Petrobras em Brasília, José Eduardo Sobral Barrocas, o advogado da empresa Bruno Ferreira e uma terceira personagem, ainda desconhecida. Gravado provavelmente com uma caneta-câmera, a reunião demonstra que as perguntas feitas pelos parlamentares na CPI foram previamente passadas ao grupo para que os depoentes pudessem ser “treinados”. Participaram da conspirata Paulo Argenta, assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais; Marcos Rogério de Souza, assessor da liderança do governo no Senado; Carlos Hetzel, assessor da liderança do PT na Casa; o senador Delcídio Amaral (PT-MS); o senador Paulo Pimentel (PT-CE), relator da CPI; Graça Foster, presidente da Petrobras, e José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT e hoje um dos diretores da estatal. 

Vejam trecho.




O alvo maior da preocupação era mesmo Nestor Cerveró, aquele que omitiu do Conselho de Administração da Petrobras duas cláusulas essenciais na compra da refinaria de Pasadena. Barrocas, o chefe do escritório da empresa em Brasília, quer saber se as perguntas já estão com Cerveró e deixa claro que expediente idêntico foi empregado nos depoimentos de Gabrielli e de Graça. Pimentel, o relator da CPI, recorre à presidente da empresa e a Dutra para fazer um “gabarito” com as perguntas e respostas.

O PT se assustou com os desdobramentos da CPI dos Correios, que está na raiz da condenação da cúpula do partido, que foi parar na cadeia. Decidiu, então, desmoralizar esse expediente, que, na prática, já depôs um presidente e mandou para casa os tais “anões do Orçamento”. Eis ai: esse é o partido que diz querer fazer uma reforma política para moralizar o Congresso.

Estamos diante de uma dos maiores crimes jamais cometidos contra a República. Ah, sim, o que Dilma tem com isso? Paulo Argenta é braço direito de Ricardo Berzoini, ministro das Relações Institucionais. Berzoini foi nomeado justamente para tentar, digamos, segurar o escândalo da Petrobras na unha. Não custa lembrar que era ele o presidente do PT quando veio à luz o tal escândalo dos aloprados. Ficou claro que sabia de tudo. Quem escolhe um Berzoini escolhe também um método, não é mesmo, presidente Dilma?

Lula e as elites

Percival Puggina

Todos sabemos. Lula tem um problema com as elites. É só ficar solto no palanque, sem texto para ler, e lá vem ele com seu xingamento às elites, para adequar o conteúdo do discurso ao modo vulgar de discursar.

Tudo muito postiço, como nos políticos que usam os pronomes e as concordâncias segundo o auditório. Mas o Lula que quer se descolar das elites é membro aplaudido do seleto grupo! Convive com a elite política e ocupou o topo de sua cadeia alimentar. Tem atuado de modo intenso e rentável como representante da elite das construtoras nacionais. Costuma posar para fotografias e fazer agrados a atletas de elite. Seu partido nasceu no ventre da elite acadêmica do país. Nela e por ela foi concebido e propagado nas salas de aula onde se forma nossa elite intelectual. Mais do que nenhum outro homem público em nossa história foi beneficiado pela ação orquestrada da elite cultural e artística que, quase em uníssono, atuou e continua atuando em seu favor. Como presidente, usou sua prerrogativa para indicar membros aos mais altos cargos das carreiras jurídicas do país, cuja elite, em boa parte, lhe deve favores. Também como presidente, seja de direito, seja de fato, abriu as torneiras dos bancos oficiais para despejar dinheiro bom e barato nas contas bancárias de nossas maiores corporações empresariais. Descobriu, há muito tempo, que bons vinhos, uísques, charutos e lagosta ao Thermidor são mais prazerosos do que vinho de garrafão, cachaça, mata-rato e buchada de bode.

Julgo suficientemente comprovado, com os incontestáveis registros acima, que Lula é peça - e peça importante - da elite nacional. Mas quando ele fala da elite, mesmo como enfeite de discurso, a quem tem ele em mente, como protótipo de seu desprezo? Em quem ele está pensando quando o dedo que deveria apontar para si mesmo se volta para algum canto obscuro e inespecífico na cena brasileira? Não é àquela elite que está muito próxima dele e bem mereceria a desaprovação. As repulsas de Lula recaem sobre uma pequena parcela da elite que não se verga às seduções da corte e não aplaude qualquer tolice pronunciada por quem tenha a caneta turbinada pelo poder.

Essa elite é o obstáculo ainda remanescente aos anseios por hegemonia absoluta sobre a vida brasileira. É aquela parcela da sociedade, de qualquer condição social, mas de elevado valor moral, que não se deixa comprar com favores. Bem menos numerosa do que conviria, ela percebe o grau de rebaixamento e depreciação a que chegou a política nacional e atribui as devidas responsabilidades ao principal comandante dessa política nos últimos 16 anos.

Tentáculos

Miguel Reale Júnior  
O Estado de S. Paulo

A participação popular junto à administração pública não é nada de novo. Constituía, desde 1980, uma das ideias-força de Franco Montoro, a se realizar por meio da descentralização. Para Montoro, "descentralizar é colocar o governo mais perto do povo e, por isso, torná-lo mais participativo, mais eficiente, mais democrático".

Montoro ponderava que não se mora na União nem no Estado, mas no município, razão por que a população local deve, por melhor conhecer seus problemas e soluções, participar dos órgãos comunitários a serem ouvidos pela administração no diagnóstico da situação e na sugestão de caminhos a serem trilhados. A seu ver, tudo o que puder ser decidido e realizado pelo bairro, pelo município, pela região não deve ser absorvido pela administração superior, vindo a facilitar a participação popular, motivo pelo qual descentralização e participação se imbricam: uma acompanha a outra, permitindo que Estado e sociedade se aproximem.

Montoro não ficou apenas no plano do discurso, pois deu efetividade às suas ideias, desconcentrando competências e fiscalização, como ocorreu, dentre tantos exemplos, na municipalização da merenda escolar, com repasse de recursos para tanto e a criação de Conselhos Municipais da Merenda Escolar, compostos por representantes da prefeitura, da Câmara Municipal, da Secretaria de Educação, da Associação e Pais e Mestres e de produtores e fornecedores locais. No governo paulista, criou, por exemplo, o Conselho da Condição Feminina, o Conselho Estadual da Comunidade Negra, os Conselhos Comunitários de Segurança Pública.

Com a participação de especialistas, já na década de 1930 se instituíra o Conselho Nacional da Saúde, depois paulatinamente democratizado com maior número de representantes da sociedade, antes mesmo da Constituição de 1988. No plano nacional, em 1985 surgiu o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e o Conselho Nacional do Consumidor.

A Constituição de 1988 consagrou, em diversos artigos, a participação da sociedade no auxílio à formulação de políticas públicas e na fiscalização da gestão, como se pode verificar: 1) no artigo 10.º se assegura a participação de trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que haja discussão e deliberação de seus interesses profissionais ou previdenciários; 2) no artigo 187 se prevê que a política agrícola seja planejada e executada com a participação efetiva do setor da produção, envolvendo produtores e trabalhadores rurais, além dos setores de comercialização, armazenamento e transporte; 3) no artigo 198, III, se estabelece a participação da comunidade no âmbito dos serviços públicos de saúde.

Depois da atual Constituição federal muitos conselhos se formaram, tal como o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), ou tiveram ampliada a participação da sociedade, conforme se deu no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Assim, a participação da sociedade em diversos organismos para apresentar à administração a realidade a ser enfrentada, com sugestão de soluções, acompanhamento e controle de sua efetividade, é fato consagrado na realidade política brasileira.

O que espanta, então, no recente Decreto n.º 8.243, da presidente Dilma Rousseff, ao instituir a Política Nacional de Participação Social, não é o reconhecimento da participação da comunidade como auxiliar da administração, mas a tentativa de engessar essa participação à Presidência da República, mais especificamente, à sua Secretaria-Geral. Pelo decreto, verifica-se que a absolutamente necessária descentralização e a independência de organismos integrados e formados pela comunidade se esboroam, com o aparelhamento da sociedade civil, pois ficam sujeitos a um processo de centralização e de dominação da Secretaria-Geral da Presidência da República.

Malgrado se estatua ser diretriz a autonomia das organizações da sociedade civil, na verdade, submete-se sua participação à Secretaria-Geral da Presidência, à qual incumbirá orientar todos os órgãos da administração sobre a forma de implementar a contribuição da sociedade civil, bem como avaliar tal contribuição, consoante preceitua o artigo 5, parágrafos 1.º e 2.º. Para tanto se cria-se, por decreto, de forma inconstitucional, um órgão, o Comitê Governamental de Participação Social, coordenado pela Secretaria-Geral da Presidência, incumbido de a assessorar no monitoramento e implementação da Política de Participação Social.

No mais, o decreto disciplina totalmente como devem funcionar as diversas instâncias da participação social - conselhos de políticas públicas, comissões de políticas públicas, conferências nacionais, mesa de diálogo, fórum interconselhos, audiência pública, consulta pública, ambiente virtual de participação - que ficarão subordinadas à Presidência da República, retirando desses órgãos da sociedade civil sua vitalidade e sua espontaneidade ao burocratizá-los e submetê-los à orientação e avaliação de sua atuação por parte do comitê centralizador ligado à Secretaria-Geral da Presidência.

Tal centralização e o controle das instâncias de participação defluem claramente do disposto no artigo 8.º do decreto, segundo o qual compete à Secretaria-Geral da Presidência "realizar estudos técnicos e promover avaliações e sistematizações das instâncias e dos mecanismos de participação social definidos neste Decreto". Dessa maneira, as instâncias de participação ficam sugadas de sua liberdade ao serem sempre avaliadas pela Secretaria-Geral da Presidência e ao deverem obedecer à sistematização por ela imposta.

Em suma, a propalada Política de Participação Social não passa de um instrumento que, em vez de arejar a administração em contato com a sociedade, sujeita os organismos vitais da sociedade ao crivo constante do poder central, atraindo a sociedade para aprisioná-la nos tentáculos de uma insaciável sede de domínio.

Ninguém me quer.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

As últimas pesquisas mostraram um dado interessantíssimo: em boa parte dos Estados, na disputa pela maioria dos cargos, o eleitorado manifesta o mesmo voto, Nenhum Deles. Nenhum Deles acumula 34% das preferências pelo Senado em São Paulo; é seguido por Serra, PSDB, com 34%, e Suplicy, PT, 23%. 

No Rio, Nenhum Deles lidera para o Governo, com 33%. É seguido por Garotinho, PR, com 21%; Crivella, PRB, 16%; Pezão, PMDB, 15%. E, com 42%, levaria o Senado, seguido por Romário, PSB, 24%, e César Maia, DEM, 17%. 

Nenhum Deles ganha o Governo de Minas, com 44%; Pimentel, do PT de Lula e Dilma, tem 25%; Pimenta da Veiga, do PSDB de Aécio, 21%. O ex-governador Anastasia, PSDB, tem 38% para o Senado. Nenhum Deles tem 46%.

Os candidatos, os mais competitivos de que os partidos dispõem, não são aqueles com quem os eleitores sonham. Serra já foi candidato ao Planalto, Garotinho também; Romário foi campeão do mundo; o PSDB mineiro aponta seu líder, Aécio, para a Presidência; nem assim empolgam o cidadão. Mesmo para o Governo de São Paulo, onde Alckmin lidera com 50%, indicando vitória no primeiro turno, Nenhum Deles está bem na fita: tem 29%, contra 21% de todos os outros candidatos somados - e isso inclui o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, com Duda Mendonça e tudo, e Padilha, do PT, com Lula, Andrés Sanchez, o popular ex-presidente do Corinthians, e a poderosa máquina da Prefeitura paulistana. 

É hora de renovar. E renovar não é trocar um líder antigo por um poste novo.

Buraco na cédula
Ainda faltam dois meses para as eleições, há tempo para que os candidatos se tornem mais conhecidos e ganhem mais corpo. Mas, neste momento, pelo menos um terço do eleitorado, em todo o país, não quer votar nos nomes disponíveis: divide-se em nulo, branco, não sei. 

Não se pode esquecer que os Estados citados na nota acima são os mais populosos do país, onde vivem 4 entre 10 eleitores.

Petista atucanado
A frase é de Arno Augustin, secretário do Tesouro Nacional, petista desde criancinha mas ainda assim capaz de tucanar o buraco nas contas públicas: "Foi um resultado fiscal menos dinâmico, decorrente de receita menos forte".

Preço ao alto! 
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, assegurou que não haverá tarifaço de eletricidade após as eleições. A presidente Dilma, na Confederação Nacional da Indústria, garantiu que não haverá tarifaço elétrico. 

Prepare-se, pois: tarifaço não haverá, mas uma revisão do equilíbrio econômico das empresas do setor com viés exógeno de ascensão modal estruturante, isso ninguém desmentiu.

Imóveis na berlinda
O número é de São Paulo - mas não se pode esquecer de que é o Estado mais rico da federação. Em um ano, a porcentagem de pessoas que desistem da compra de um imóvel, arcando com pesados prejuízos, passou de 5 para 15%. Alguns desistem antes mesmo da entrega do imóvel; mas a maioria das desistências acontece no momento da entrega das chaves. 

Para desistir do negócio e fazer o distrato, o comprador perde mais da metade do que pagou. Este índice sugere que, na melhor das hipóteses, reduziu-se entre os compradores a confiança no futuro. E, na pior, que mais e mais famílias, que eram capazes de arcar com as prestações de um imóvel, deixaram de ter condições de comprá-lo.

Memórias da morte
Questão de tempo, talento e gosto. Um grupo de admiradores do falecido presidente venezuelano Hugo Chávez, o Trincheira Chavista, desenvolveu uma fonte de texto para computadores chamada ChavezPro, baseada na caligrafia de seu ídolo. O designer Marcos Volpe utilizou esse tipo de letra para tatuar em seu corpo frases bolivarianas.

Quem quiser abandonar o Garamond, o Arial e tantos outros pode baixar a fonte chavista no endereço http://trincheracreativa.com

Onde está o dinheiro? 
O Governo Federal diz que entregou ao Governo de São Paulo determinada quantia destinada à Santa Casa paulistana. A Santa Casa diz que recebeu menos do que isso. O Governo de São Paulo diz que repassou à Santa Casa toda a verba recebida do Governo Federal. O Ministério Público Federal decidiu investigar a questão. 

Mas não há muito a investigar: devemos imaginar que o Governo Federal, ao repassar a verba, recebeu documentos do Governo estadual acusando o recebimento; da mesma forma, ao encaminhar as verbas à Santa Casa, o Governo estadual deve ter recebido documentos atestando o montante. É só conferir. E, se houve desvio de verba, não há perdão possível: roubar dinheiro de doente não dá.

E os doentes, senhores?
Por falta de dinheiro - segundo a Santa Casa, os fornecedores já haviam suspendido as entregas - o pronto-socorro da entidade chegou a ser fechado. Há versões segundo as quais não houve repasse correto de verbas federais, ou de que as verbas estaduais não chegaram, ou de que a entidade é mal administrada. 

É uma excelente oportunidade para descobrir quem é quem, quem mente e quem não tem escrúpulos de deixar gente necessitada sem ter quem a atenda.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O Templo de Salomão é um monumento à fé

Elio Gaspari
O Globo

 A Igreja Universal do Reino de Deus inaugurou em São Paulo seu Templo de Salomão. É uma construção monumental, capaz de receber dez mil pessoas, o dobro da lotação da Basílica de Aparecida. Sua fachada tem 56 metros de altura, 13 metros mais que a de São Pedro, em Roma. Custou zero à Viúva e foi erguida com dinheiro da fé do povo.

O Templo de Salomão haverá de se tornar um símbolo da cidade e da fé dos brasileiros. Esse aspecto supera as tramoias administrativas praticadas na sua construção (o templo foi erguido como se fosse apenas a reforma de uma edificação demolida.) A fé dos evangélicos costuma ser depreciada, como se fosse produto da ingenuidade do andar de baixo. É pura demofobia. As denominações evangélicas expandiram-se associando fé religiosa e autoestima a um sentido de comunidade. Há bispos evangélicos vigaristas, sem dúvida, mas até hoje o Papa Francisco batalha para limpar a Cúria vaticana. O padre Marcial Maciel, um pedófilo promíscuo, quindim da plutocracia mexicana e figura influente no pontificado de João Paulo II, não pode ser usado para discutir a espiritualidade dos seus fiéis. O bronze das magníficas colunas do baldaquim de São Pedro foi tirado do Pantheon romano. A catedral da Cidade do México foi construída com as pedras coletadas na destruição do templo asteca de Tenochtitlan.

Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. O Templo de Salomão, como a Basílica de São Pedro e a Catedral do México, são símbolos da fé dos povos. Quem não consegue entender a fé alheia pode se habilitar a um pacote turístico de três dias em Gaza.

Os empreiteiros no escurinho do recesso
O senador Pedro Simon ensinou: “não esperem nada do Congresso”. É pior, esperem de tudo. Está na pauta do Senado para terça-feira a votação do projeto PLS 559. Pelo nome, altera a Lei de Licitações para uso de dinheiro público. Pelo texto, simplesmente revoga a lei 8.666, colocando no seu lugar um novo sistema de contratações de serviços e empreitadas. A 8.666 não é nenhuma Brastemp, mas o que vem por aí é um mecanismo que alivia as exigências feitas às empreiteiras, expande o poder dos comissários e generaliza as facilidades criadas pelo regime especial das obras da Copa. Sua tramitação teve a rapidez do raio. Começou em dezembro, não seguiu o ritual das comissões técnicas e arrisca ser votado naquilo que os senadores chamam de “esforço concentrado” (nome dado ao esforço que concentra seus interesses).

Isso tudo ao apagar das luzes de uma legislatura e no meio da colheita das campanhas eleitorais. Mesmo sabendo-se que existe uma indústria de projetos, é discutível que se façam “contratações integradas” pela vontade dos empreiteiros e burocratas apressados. O edital da licitação do sistema BRT de Belo Horizonte saiu num dia 5 de maio, os concorrentes tinham até dia 31 para apresentar os projetos, e a contratação ocorreu a 27 de junho. Monstrengos como o aeroporto de Guarulhos saíram das planilhas das construtoras. Joias como o projeto de 1937 do aeroporto do Centro do Rio, de concursos públicos. Há poucas semanas, apareceu uma emenda que permite ao vencedor de uma licitação destinada a construir um aeroporto, ou seja lá o que for, a exploração comercial da obra. Assim, a empreiteira faz a obra e leva o shopping. Tudo isso com uma só licitação.

Esse voluntarismo rondou o Trem-Bala. Não havia projeto nem estudo de viabilidade, mas o faraó queria fazer a obra. Felizmente, num caso raro, os empreiteiros não se interessaram pela pirâmide.

Eremildo no Santander
Eremildo é um idiota e acredita que o doutor Emilio Botín, presidente do banco Santander, armou uma ratoeira que poderá destruir seu banco e o sistema financeiro internacional. O doutor Botín anunciou que demitiu o responsável pelo desenho de um cenário pessimista para a economia brasileira caso o PT vença a eleição presidencial.

O cretino teme que a Doutrina Botín resulte na demissão de funcionários que, por quaisquer razões, façam previsões impróprias. Irão para a rua milhares de sábios-consultores, começando pelos que deram opiniões sobre a economia espanhola.

Eremildo exclui a possibilidade de o doutor Botín ter amarelado por pura pusilanimidade.

Natasha no Santander
Madame Natasha encantou-se com uma declaração do ministro Admar Gonzaga, que ocupa uma cadeira no Tribunal Superior Eleitoral por indicação da Ordem dos Advogados do Brasil.

Referindo-se ao patrulhamento de uma análise do banco Santander enviada aos seus clientes, ele teve o seguinte diálogo com o repórter Juliano Basile:

— As consultorias não podem elogiar ou criticar candidatos?

— Não podem adjetivar.

A senhora concedeu uma bolsa de doutorado ao ministro, para que ele ensine aos outros como se expressar sem o uso de adjetivos.

Padrão Santander
Se previsão errada (segundo a métrica petista) é motivo de demissão, o ministro Guido Mantega não deve ir trabalhar amanhã, pois perdeu o emprego há anos.

Mais: pela retórica eleitoral da doutora Dilma, Lula deveria justificar a sua teoria segundo a qual a crise de 2008 provocaria apenas uma “marolinha” no Brasil.

Lulômetro
Com o banco Santander ajoelhando no milho para agradar ao Planalto, ressurgiu a memória do infame Lulômetro, criado na casa Goldman Sachs em junho de 2002, durante a campanha que elegeria Lula.

A Goldman Sachs não deve ir para uma vala que não é a sua. O Lulômetro tinha duas elegantes equações, com quatro variáveis que ficavam à escolha do interessado. Preenchidas, forneciam o valor do dólar caso Nosso Guia fosse eleito. Refletiam a expectativa do curioso, não a do banco. Quem acreditasse que Lula manteria a política de Fernando Henrique Cardoso obteria um dólar barato. Muita gente ganhou dinheiro com essa expectativa.

Instrumento de terror eleitoral, o Lulômetro só produzia efeito se a pessoa estivesse aterrorizada.

Para o bem de todos, a Goldman Sachs apanha até hoje por causa do gracejo. Teria repreendido o autor internamente, mas nunca pediu desculpas.

Recordar é viver
Em 1973, o Bradesco negociava a compra do Banco da Bahia. O governador Antonio Carlos Magalhães não gostou da ideia de um banco paulista ficar com a tradicional casa baiana. Começaram depredações de agências do Bradesco em Salvador.

Amador Aguiar, o criador e dono do Bradesco, foi discutir a operação com ACM, e deu-se o seguinte diálogo:

— Doutor Amador, o povo baiano zangou-se com a venda do Banco da Bahia. Estão quebrando suas agências.

Amador interrompeu-o:

— Governador, não trate esse assunto comigo. A manutenção da ordem pública na Bahia é um problema seu.

(ACM contava essa história para mostrar a têmpera de Amador Aguiar.)

O aço que nos tempera

Fernando Gabeira  
O Estado de S. Paulo

O relatório sobre a queda do viaduto em Belo Horizonte apontou a causa: a viga de sustentação tinha só 1/10 do aço necessário para conter o peso da estrutura. Stalin chamava-se o homem de aço. Romances populares editados pelos partidos comunistas da época celebravam os bolcheviques de aço, entre eles um aviador que perdeu as pernas e continuou combatendo. No universo ocidental, mais crítico, o aço é integrado ao corpo humano na figura de um herói infantil, o Super-homem. Não tenho nada contra a fusão do corpo com o metal. O titânio tem ajudado muita gente a se mover normalmente: é uma boa presença. Felizmente, não trabalhamos com essa mitologia de corpos de aço. Mas pelo menos o aço de nossas construções deveria ser o suficiente para mantê-las de pé.

Para onde foram os 90% do aço? É uma pergunta pertinente, pois só assim entenderíamos melhor o desabamento, para além do laudo técnico. Ausência do aço necessário, camuflada em misturas de areia e cimento, é um elemento simbólico no País. Foi essa mistura malemolente que derrubou os prédios do Sérgio Naya. No Rio, um deputado confessa em gravação que recebe R$ 15 mil/mês, entre outros ganhos, só com o lanche que é servido por ONGs conveniadas com a prefeitura. Se os lanches pudessem ser decompostos como elementos de uma viga, diríamos que milhares de pães, rios de café com leite, igarapés de laranjada desembocaram na barriga do deputado.

Uma notícia diz que Lula se surpreendeu com o desgaste do governo, esperando algo assim só para 2018. Os governos desgastam-se, naturalmente, numa democracia. Nela precisam gerir recursos limitados para atender a gigantescas necessidades. E vencem as eleições prometendo mais do que podem. Esse é um dos dínamos da alternância. Mas cada governo se desgasta de maneira singular. A tolerância e a cumplicidade com a corrupção são fatores, entre outros, que determinaram o desgaste do PT. Alguns afirmam que corrupção sempre existiu, mas agora aumentou a transparência. Parcialmente correto. No entanto, muitos casos só emergiram, como o mensalão e esse escândalo carioca, de uma forma clássica: a disputa pelo butim.

O desgaste do PT começou como uma pedra na água. O primeiro círculo de descontentes nasceu com os navegantes próximos que abandonaram o barco. Impulsionados pelos ventos econômicos, novos amplos círculos desenham-se na água. O processo não se resume à política interna e à economia. O PT quer realizar uma política externa dele, e não do País. Isso é possível em Cuba ou na China. Não para um partido que chega ao poder pelo voto, num contexto democrático. Os dirigentes chineses e cubanos fundem o país com o partido porque liquidaram a oposição organizada.

Esse tema não tem grande impacto eleitoral, mas sempre me preocupou. A nota que o governo brasileiro publicou sobre a guerra na Faixa de Gaza exprime a posição do partido e de milhões de pessoas diante da morte de civis e crianças. No entanto, uma nota nacional sempre é mais equilibrada, mencionando também a violência do Hamas.

O porta-voz israelense chamou o Brasil de anão diplomático. Um líder trabalhista chamou o Brasil de gigante do futebol. Não somos nem uma coisa nem outra. É um equívoco chamar o Brasil de anão diplomático, pois retira a importância do fato histórico da criação de Israel. Neste caso da guerra em Gaza, a violência da resposta de Israel acabou atenuando a posição do governo brasileiro. Mas, sem dúvida, houve uma inflexão: ingenuamente, Lula achou que poderia influenciar um processo de paz. Chegou a viajar para isso.

Ao lançar a nota, o governo praticamente abre mão de dialogar com um dos atores. O Brasil não tem o poder de resolver uma crise que desafia a humanidade, como a do Oriente Médio. Mas tem sido eficaz na pacificação de conflitos nos países de sua região. Está na busca efetiva da paz o grande fundamento de nossa política externa. Mas o PT move-se em zigue-zagues.

A política externa tem pouco impacto eleitoral, mas soma-se aos equívocos que, no conjunto, jogam o PT numa aventura romanesca: navegar sem novas ideias num oceano de desejos de mudança. São Paulo é uma referência: o governo perde para qualquer um dos opositores, sinal de que, para a maioria dos entrevistados, o PT já era. Em termos eleitorais, isso é equacionado em números: perdemos aqui, ganhamos em outros Estados, não ameaça a vitória nacional. Mas perder na região mais desenvolvida do País dá o que pensar, sobretudo para quem se diz na vanguarda do progresso, combatendo elites brancas e outros moinhos de vento.

A Bolsa Família é uma zona de conforto porque envolve milhões de pessoas e foi reconhecida internacionalmente. Supor que represente um escudo contra todos os erros e tropeços é um equívoco. Alguns críticos do programa dizem que com a bolsa as pessoas não querem trabalhar. Discordo, minha tese é que, com a bolsa, o governo não quis mais trabalhar, no sentido de interpretar o Brasil, buscar alternativas, ligar-se aos setores mais dinâmicos e desenvolvidos tanto dentro como fora do País. A Bolsa Família deu para o gasto. E agora que o preço político dos erros vai ficando mais alto?

Por mais que os pragmáticos riam, o viaduto que caiu, além de matar duas pessoas, indicou, para mim, o ponto central do momento: nosso sistema político, já frágil, foi perdendo o aço com a mistura de areia e cimento que a longa dominação do PT injetou. O perito de Minas ficou surpreso porque a viga não se partiu antes. Se traduzimos o aço por credibilidade, também ficamos surpresos como o edifício político se mantém no Brasil. É um problema que transcende as eleições deste ano. Mas elas são a única oportunidade para todos poderem olhar para o abismo que se abriu entre o universo político e o Brasil real.

O ano que nos espera, sobretudo no setor da energia, não é dos mais animadores. O pequeno apagão que vivi na manhã de domingo me lembrou da aspereza do caminho. Tocar o País em tempos de crescimento internacional e distribuição de renda é mais fácil. Quem vencer as eleições encontrará uma pedreira.

Rumos indesejáveis

Maria Lucia Victor Barbosa (*)

O governo petista de Lula da Silva que não entregará facilmente as delícias do poder está sempre pronto a demonstrar o descalabro de sua política internacional. No momento assiste-se ao aprofundamento da bananificação do Brasil, cada vez mais convertido em republiqueta de Terceiro Mundo com as conhecidas marcas esquerdistas e consequente atrelamento ao que há de pior no exterior.

Isto ficou evidente no recente encontro dos Brics, em Fortaleza, quando o governo petista sagrou-se de novo campeão de tiro no pé ou pela culatra, ao perder a presidência para a Índia do Novo Banco de Desenvolvimento criado pelo grupo. A China não abriu mão da sede da entidade ficar em Xangai e postos menos relevantes foram distribuídos ao Brasil, Rússia e África do Sul. Foi criado também o Arranjo Contingente de Reservas, uma espécie de FMI de segunda categoria para dar ajuda aos componentes do bloco. Tudo para funcionar nas calendas gregas.

Negócios da China foram feitos com a China pela governanta, mas, impressionante mesmo foram as conquistas do presidente Russo, Vladimir Putin. Alvo de sanções econômicas dos Estados Unidos e da União Europeia devido à anexação da Criméia, Putin recebeu apoio dos BRICS e adentrou-se com mais força na América Latina. No Brasil, para usar de ironia, ele poderá anexar, por exemplo, o nordeste e instalar nas paradisíacas e quentes praias nordestinas confortáveis dachas a serem usufruídas pelos camaradas da elite branca russa. Algo muito melhor do que a gelada Sibéria.

Putin, o expansionista não brinca em serviço, além de usar a cúpula dos Brics para reduzir seu isolamento internacional aproximou-se da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), criada pelo falecido Chávez e propôs integrá-la à União Econômica Euroasiática que inclui, além da Rússia, países de sua influência como o Casaquistão e a Bielo-Rússia. Ele defendeu muitas outras ideias, como o aumento do peso político dos BRICS através de fóruns como contraponto a ONU, às políticas norte-americanas e de seus aliados. Putin assinou vários acordos com a governanta e foi embora satisfeito com seu êxito.

Enquanto isso, a Guine Equatorial deve ser integrada à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), apoiada pelo Brasil. O país africano é governado pelo ditador Teodoro Obiang, alvo de várias denúncias de violação de direitos humanos, tortura e censura. Isto, aliás, não é novidade, pois o Brasil tem se posicionado há quase 12 anos a favor dos piores ditadores.

A última do governo brasileiro foi continuar contra Israel e a favor do grupo terrorista e radical islâmico, Hamas. Não foram levados em conta os mais de 2.000 foguetes lançados diariamente sobre Israel, os túneis cavados em Gaza e que vão dar em escolas e hospitais israelenses, a não aceitação do Hamas em fazer uma trégua. É como se o governo petista achasse que, se alguém entrasse numa casa armado com uma faca para ferir mortalmente o morador armado com um revólver esse dissesse: “Por favor, me mate, pois não vou me defender”.

O governo Rousseff mandou o Itamaraty chamar o embaixador brasileiro em Tel Aviv, assim como puxou as orelhas do representante israelense em Brasília, pois considerou o uso desproporcional da força por Israel. Isto nunca foi feito com relação á Cuba, Venezuela, Bolívia ou mesmo Coreia do Norte onde Lula abriu uma embaixada. Sobre a Criméia nem uma palavra e todo apoio ao camarada Putin. De fato o Brasil atesta nanismo diplomático.

Marco Aurélio Garcia disse que o ataque a Israel é um genocídio contra os palestinos. Vejamos nossos dados que certamente o assessor da Internacional da Presidência desconhece. Segundo matéria de Gil Alessi, (UOL, São Paulo, 27/05/2014), “conforme dados de 2012, neste ano nossa taxa de homicídio alcançou o patamar mais elevado, com 29 casos por 100 mil habitantes”. “O índice considerado ‘não epidêmico’ pela Organização Mundial da Saúde é de 10 mortes por cada grupo de 100 mil habitantes”.

“Em 2012 foram 56.337 mortes, o maior número desde 1980”. “O total supera o de vítimas no confronto da Chechênia que durou de 1994 a 1996”.

Sem dúvida, é melhor o governo brasileiro se preocupar com essa situação do que meter o nariz onde não deve, pois não tem moral para isso.

Recorde-se que Israel, um pequeno país que brotou do deserto é hoje um dos mais desenvolvidos do mundo. De lá saem praticamente todos os Prêmios Nobel e o conjunto de invenções que fazem avançar a ciência, a tecnologia e a medicina para o bem da humanidade. Quanto a nós, realmente, somos muito pequenos diante disso.

Estes são alguns de nossos indesejáveis rumos internacionais, orquestrados pelo PT. Outros péssimos caminhos, inclusive, internos ficam para um próximo artigo.

(*) Socióloga.

Otimistas e pessimistas

Suely Caldas
O Estado de São Paulo

Entre os otimistas e pessimistas, onde se encaixam os realistas?

Em tom de campanha eleitoral, nos últimos dias o governo partiu para o ataque: tentou desqualificar os que criticam sua gestão econômica e atribuiu os males e fracassos que aparecem em pesquisas de indicadores econômicos a um suposto "pessimismo artificial" desses críticos contra o governo Dilma. Nos discursos diários da presidente e em entrevistas do ministro Guido Mantega, o "pessimismo" desponta como o grande culpado.

Se o resultado das contas públicas é o pior dos últimos 14 anos, cai a arrecadação de impostos, aumentam as despesas do governo e a meta fiscal ameaça não ser cumprida, a culpa é dos pessimistas, que não enxergam um futuro fantástico e promissor que se desenha para o segundo semestre. Para Mantega, não existe represamento das tarifas de combustíveis, insistentemente reclamadas pela Petrobrás, nem da de energia elétrica, que levou o governo a repassar às empresas elétricas R$ 9,8 bilhões em 2013 e R$ 17,7 bilhões de dois empréstimos este ano, além de R$ 9 bilhões previstos no Orçamento de 2014, tudo para evitar o aumento da tarifa, que poderia tirar votos da candidata do PT. Essa história de socorro às elétricas e um tarifaço em 2015, previsto pelo próprio governo para pagar os empréstimos, são "conversa pra boi dormir", na interpretação de Mantega.

E o que dizer da queda das exportações e do crescente déficit externo? E da espantosa combinação de inflação alta com crescimento econômico estagnado? E juros nas alturas para empresas e pessoas físicas? E a persistente queda na produção industrial? E a crise de confiança dos empresários, que freia investimentos? E o dinheiro público subsidiando usinas elétricas paradas por falta de linhas de transmissão? Para Dilma e seu ministro da Fazenda tudo isso não existe, não passa de invenção de renitentes pessimistas - que, teimosos desde o início do governo Dilma, não enxergam que o futuro vai melhorar, a economia vai acelerar nos próximos meses, o cenário ruim será superado e o País será só sorrisos. Afinal, não custa ser otimista, não é mesmo? O negócio é que a realidade não tem confirmado esse otimismo: passados quase quatro anos de Dilma, o futuro promissor não chegou e o PIB foi caindo ano a ano (cresceu 2,7% em 2011, 0,9% em 2012, 2,3% em 2013 e em 2014 deve crescer 0,97%), segundo o Boletim Focus, do Banco Central. Distante de outros emergentes, como Chile, Colômbia e Peru, que têm crescido a uma média de 4% a 6% nesses anos.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) também entrou no rol dos pessimistas, por ter divulgado relatório apontando o Brasil como um dos emergentes mais vulneráveis às mudanças da economia mundial. De 1996 a 2001 o Brasil sofreu seguidas crises influenciadas por mudanças da economia mundial. As crises da Ásia e da Rússia, em 1997/1998, a moratória da Argentina e o ataque às Torres Gêmeas nos EUA, em 2001, encontraram um Brasil frágil em seus fundamentos econômicos, e o Plano Real ameaçou naufragar. Passados 13 anos, o País estaria vivendo novamente situação parecida?

Certamente não, porque os dois momentos são diferentes. Naquele passado, o País começava sua reconstrução, iniciada em 1994 com a derrubada da hiperinflação e o real em circulação. Os fundamentos econômicos ainda eram frágeis e entre eles despontava o câmbio, que, por servir de moeda de troca com o resto do mundo, era o mais sensível às mudanças externas. As fracas reservas cambiais não conseguiram barrar as crises que vieram de fora. Introduzido no segundo mandato de FHC, o tripé (câmbio flutuante, superávit primário e meta de inflação) foi fundamental para FHC e Lula começarem a construir paredões contra ataques externos. Os bons ventos que sopravam de fora no primeiro mandato de Lula fizeram o resto, e o Brasil acumula hoje US$ 380 bilhões de reservas cambiais. Suficientes para neutralizar efeitos de mudanças externas? Não deixam de ser um anteparo. Só que no governo Dilma o setor externo da economia tem enfraquecido de forma acelerada, deixando o País vulnerável, como alerta o FMI. Infelizmente.

A destruição criativa no trabalho

Carl Benedikt Frey (*)
Veja online

Para o historiador Carl Benedikt Frey, governos devem investir em novas formas de trabalho, e não estimular setores que geram empregos do passado

 (Thinkstock/VEJA) 
Automação: governos devem estimular empregos do futuro, não do passado 

Em vez de tentar preservar o passado apoiando os setores industriais obsoletos, as autoridades deveriam centrar-se na gestão da transição para novas formas de trabalho.

Ao longo da história, o avanço tecnológico tem criado enorme riqueza, mas também tem causado grandes agitações. A indústria siderúrgica dos Estados Unidos, por exemplo, sofreu uma importante transformação na década de 1960, quando as grandes siderúrgicas foram gradualmente substituídas pelas chamadas miniusinas, destruindo a base econômica existente em cidades como Pittsburgh, na Pensilvânia, e Youngstown, em Ohio. As miniusinas, no entanto, aumentaram substancialmente a produtividade e criaram novas ocupações em outras zonas.

A história do aço norte-americano ilustra uma lição importante sobre o que o economista Joseph Schumpeter chamou de 'destruição criativa': o crescimento econômico de longo prazo depende de muito mais fatores do que um simples aumento na produção das indústrias existentes; implica também em mudanças estruturais no mercado de trabalho.

Um fenômeno similar pode ser visto na revolução atual, no setor de tecnologia da informação (TI), que afeta a maioria dos empregos modernos, inclusive aqueles que não estão diretamente relacionados com a programação de computadores ou de engenharia de software. As tecnologias criaram novos negócios promissores (inclusive clusters empresariais) reduzindo a demanda de força de trabalho industrial, causando um declínio em cidades com grande dependência do trabalho na indústria.

No entanto, cidades como Detroit (nos EUA), Lille (na França), ou Leeds (na Grã-Bretanha) não sofreram uma queda de sua produção industrial. Ao contrário, a produção aumentou ao longo da última década. Seu declínio decorre diretamente de sua incapacidade de atrair diferentes tipos de postos de trabalho. Em grande medida se trata de um fracasso da política, pois em vez de tentar preservar o passado apoiando os setores industriais obsoletos, as autoridades deveriam centrar-se na gestão da transição para novas formas de trabalho, o que requer uma melhor compreensão das tecnologias emergentes e que diferem daquelas que estão sendo substituídas.

Uma característica importante das primeiras tecnologias da Revolução Industrial foi que elas substituíram, em geral, hábeis artesãos e, por sua vez, aumentaram a demanda por operários não qualificados. De forma similar, a linha de montagem para a produção de automóveis de Henry Ford – lançada em 1913 – foi projetada especificamente para que os trabalhadores não qualificados operassem máquinas, permitindo assim que a empresa produzisse o seu popular modelo T, o primeiro carro que os norte-americanos de classe média poderiam pagar.

De fato, grande parte da história do desenvolvimento industrial ao longo do último século pode ser interpretada em termos de concorrência entre uma força de trabalho cada vez mais qualificada e novas tecnologias, que não exigem habilidades a suas qualificações. Já vimos o impacto – em especial na indústria automotiva – da implementação de robôs capazes de executar uma sequência de operações que antes eram realizadas por milhares de trabalhadores de linha de montagem com renda mediana.

No futuro, esperamos maiores mudanças nos locais de trabalho. Embora a história nos aconselhe a ter cautela na previsão do progresso tecnológico, já temos uma boa ideia de como os computadores funcionarão num futuro próximo, porque as tecnologias já estão aqui. Sabemos, por exemplo, que complexos algoritmos e “big data” podem simplificar uma ampla gama de negócios.

A plataforma Symantec Clearwell eDiscovery é um exemplo frequentemente citado deste processo. Esse é um software que usa análise linguística para identificar conceitos comuns em documentos, permitindo analisar e classificar mais de 570.000 documentos em apenas dois dias. A Clearwell já está transformando a profissão na área legal, com o uso de computadores para pesquisas mais rápidas antes do julgamento e a realização de tarefas que normalmente são realizadas por uma equipe de suporte legal – e, até mesmo, por advogados ou escritórios de advocacia especializados em direito de patentes.

Da mesma forma, o processo tecnológico levará à automação total um grande número de postos de trabalho em transporte e logística. Portanto, não é utópico imaginar que um dia o uso de carros autodirigíveis, como o que o Google apresentou há pouco, elimine postos de trabalho de taxistas e motoristas de ônibus. Inclusive, é possível que as ocupações sem necessidade de grandes qualificações, como o serviço doméstico, não escapem à automação. Por exemplo, a demanda por robôs para uso pessoal e doméstico cresce 20% a cada ano.

Os mercados de trabalho entram em uma nova era de variação tecnológica e aumento da desigualdade salarial, o que levanta uma questão mais ampla: “em que áreas serão criados novos postos de trabalho?” Já há sinais do que se espera para o futuro. Os avanços tecnológicos estão gerando demanda de arquitetos e analistas para alto volume de dados, para a área de computação em nuvem, desenvolvedores de software, bem como profissionais da área de marketing digital - ocupações que existem há somente cinco anos.

A Finlândia dá lições valiosas sobre a maneira como as cidades e os países deveriam adaptar-se a essas mudanças. Sua economia sofreu dificuldades, já que a Nokia, a maior empresa daquele país, não conseguiu adaptar-se às tecnologias de telefonia inteligentes. Não obstante, várias startups foram criadas em torno de plataformas para telefones inteligentes. Na verdade, já em 2011, os ex-funcionários da Nokia criaram 220 empresas desse tipo e muitas delas fazem parte da Rovio, que já vendeu mais de 12 milhões de cópias de “Angry Birds”, seu famoso jogo para telefones inteligentes.

Essa transformação não é uma coincidência. O investimento intensivo da Finlândia em educação criou uma força de trabalho viável. Ao investir em habilidades de ampla utilização, não limitadas a empresas específicas ou indústrias, ou suscetíveis à informatização, a Finlândia está dando um exemplo de como adaptar-se às mudanças tecnológicas.

Apesar da ampliação de tecnologias de processamento de dados, estudos indicam que a força de trabalho continuará tendo uma vantagem comparativa em termos de inteligência social e criatividade. As estratégias governamentais devem, portanto, dar prioridade no desenvolvimento dessas habilidades, de maneira a complementar tecnologias em vez de competir com elas.

(*) Carl Benedikt Frey é um pesquisador da Oxford Martin School, da Universidade de Oxford, e doutor em História da Economia na Universidade Lund

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate 2014

O Brasil cresce pouco?

Samuel Pessôa
Folha de São Paulo

Achar normal o Brasil crescer 2% é aceitar que não reduzamos nossa distância de bem-estar para os ricos

As últimas revisões que fizemos no Ibre/FGV sugerem que o crescimento do Brasil em 2014 será de só 0,6%. Forte piora no cenário. Consolida-se um crescimento abaixo de 2% ao ano no quadriênio da presidente Dilma. Se o 0,6% se confirmar, o crescimento médio no primeiro mandato de Dilma será de 1,7% ao ano.

Quatro anos não é pouco tempo. É difícil argumentar que somente fatores ligados ao ciclo econômico explicam esse desempenho.

O debate público brasileiro tem alinhavado duas explicações para os motivos do baixo crescimento. Em geral, uma delas é preferida pelos analistas que apoiam o atual regime de política econômica, enquanto a outra é da predileção dos críticos.

A coluna no "Valor" de quarta-feira passada do professor titular da UFRJ José Luís Fiori, bem como a entrevista dada no início de julho ao jornal "Brasil Econômico" pelo professor do Departamento de Economia da Unicamp Fernando Nogueira da Costa, são dois exemplos do primeiro ponto de vista.

O segundo ponto de vista é bem expresso pelo conteúdo que tenho defendido neste espaço. É útil tentarmos entender as diferenças.

O ponto de partida é lembrarmos que no período FHC crescíamos abaixo da economia mundial, mas acompanhávamos a América Latina. No período Lula, passamos a crescer aproximadamente no mesmo ritmo da economia mundial e da América Latina. No quadriênio de Dilma, cresceremos abaixo de ambos.

O debate é se a América Latina é um bom grupo de referência para avaliarmos as possibilidades e o desempenho da economia brasileira.

A argumentação de Fiori e de Nogueira da Costa é que as economias da América Latina não constituem um grupo de referência adequado para avaliarmos a nossa economia. O motivo é que a estrutura produtiva e a escala da economia brasileira são distintas da maior parte das economias latino-americanas.

Além de sermos muito grandes, somos uma economia que completou a urbanização, a transição demográfica e a industrialização. Essas dinâmicas, que não são independentes, ocorreram ao longo das cinco décadas de 1930 a 1980. A transição demográfica se completa na segunda década deste século, com o fim do bônus demográfico.

Ou seja, não faz sentido, segundo Fiori e Nogueira da Costa, compararmos o crescimento brasileiro aos de Chile, Peru e Colômbia, por exemplo, pequenas economias exportadoras de commodities.

Para eles, o grupo de referência correto para avaliar as possibilidades de nossa economia são os países industrializados e grandes em termos absolutos. Esses países apresentam estrutura produtiva --isto é, participação na produção dos diversos setores (agropecuária, indústria e serviços)-- semelhante à do Brasil.

Ou seja, dado que os países maiores --incluindo EUA, Alemanha, França e Japão-- crescem a 2% ao ano, o crescimento de 2% ao ano é o novo padrão normal de economias grandes em termos absolutos e, portanto, trata-se do nosso atual padrão normal. Dessa forma, não podemos considerar o 1,7% de crescimento na atual conjuntura como sendo pouco.

Diferentemente dos dois autores, minha visão é que o fator mais importante para diferenciar as economias, do ponto de vista de bem-estar e do ponto de vista das possibilidades de crescimento, é a produtividade do trabalho.

A hora trabalhada nos países latino-americanos produz de 1/6 a 1/4 da hora trabalhada nos EUA.

Como argumentei ao longo de diversas colunas, penso que dois são os principais fatores que explicam a baixa produtividade do trabalhador brasileiro. Primeiro, a péssima qualidade do sistema público de educação básica, e, segundo, a pior qualidade do marco institucional e legal.

Como, em relação à América Latina, temos não só níveis semelhantes de produtividade do trabalho como grande paralelismo nas trajetórias de desenvolvimento histórico e institucional, além de dificuldades semelhantes em construir sistemas públicos de educação com qualidade, penso que os países da região formam um bom grupo de referência para olharmos nossa trajetória e nossas possibilidades.

Por outro lado, considerar que 2% de crescimento ao ano seja nosso novo normal por ser o crescimento das economias do G10 representa aceitar normal que nunca reduzamos nossa distância de bem-estar com relação às economias desenvolvidas.