quarta-feira, agosto 06, 2014

Cepal mostra Brasil estagnado

O Estado de S. Paulo 
Editorial

Com expansão prevista de 1,4%, o Brasil perderá mais uma vez a corrida do crescimento, neste ano, para a maior parte dos latino-americanos, segundo os novos cálculos da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Para toda a região, ficou em 2,2% o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para 2014. Em abril, a projeção ainda estava em 2,7%. O pessimismo denunciado com insistência pela presidente Dilma Rousseff parece haver-se tornado uma epidemia. Já havia contaminado outras instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), e continua a espalhar-se, mas com algumas limitações. Ainda há fortes apostas na recuperação dos Estados Unidos e da Europa, embora menos veloz do que se previa no ano passado. Além disso, a China, apesar de alguma desaceleração, ainda deverá crescer uns 7,5% neste ano, segundo as estimativas correntes.

Outra qualificação importante envolve a América Latina: num quadro geral menos brilhante que o dos últimos anos, o Brasil se distingue como um dos países com piores perspectivas de crescimento. O governo brasileiro já contestou o FMI, quando suas novas projeções, divulgadas em julho, reduziram de 1,9% para 1,3% a expansão esperada para o País.

A nova estimativa da Cepal é muito parecida com a do Fundo. Mas há outros detalhes desagradáveis nesse conjunto de previsões. Segundo as contas cepalinas, o dinamismo brasileiro só deve ser maior, neste ano, que o da Argentina (expansão de 0,2%) e o da Venezuela (contração de 0,5%). Mas será tão bom como o de Cuba, com crescimento igualmente estimado de 1,4%. A coincidência pode ser acidental, mas nem por isso menos notável: a convergência no mau desempenho parece acompanhar as alianças políticas, afinidades ideológicas e parentesco de concepções diplomáticas.

O novo relatório da Cepal assemelha-se aos últimos estudos do FMI também no diagnóstico das condições de crescimento. Os problemas externos explicam apenas em parte as dificuldades da América Latina. A maior parte dos obstáculos é de origem interna. Os latino-americanos, como outros emergentes, perderam potencial de crescimento, depois de alguns anos de muito dinamismo. Essa explicação é geralmente válida, mas é preciso levar em conta diferentes condições.

Em muitos países o potencial de crescimento está próximo de 3% ao ano ou abaixo desse nível. Esse grupo inclui a maior parte dos centro-americanos e algumas das maiores economias da América Latina, incluídas a mexicana e a brasileira, além, naturalmente, da venezuelana. O potencial do Chile continua acima de 3%, mas com tendência de baixa. Outro grupo, muito dinâmico nos últimos anos, mantém a capacidade de crescer mais que 4% ao ano por um tempo razoável: Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai.

Nem todos, mas vários desses países têm exibido taxas de inflação inferiores às do Brasil. Em alguns, a geração de emprego tem sido inferior à observada no Brasil, mas os números ficam muito próximos quando se consideram os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), muito mais amplos que os da pesquisa mensal divulgada pelo IBGE e realizada em apenas seis áreas metropolitanas. A Pnad cobre cerca de 3.500 municípios.

A receita para o crescimento pode variar nos detalhes, mas algumas recomendações são aplicáveis a todos os latino-americanos. É preciso investir mais em infraestrutura, cuidar mais da formação de mão de obra e, de modo geral, cuidar das condições de produtividade. A diversificação da pauta de exportações tem aparecido há anos como um componente óbvio do receituário. A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda podem continuar rejeitando as projeções econômicas e contestando os diagnósticos. Têm feito isso há algum tempo e os resultados, a começar pelos divulgados por fontes oficiais, invariavelmente indicam baixo crescimento e inflação alta. Mudar a política econômica daria mais certo.

Governo briga com os números

Percival Puggina

Qualquer analista independente, olhando os números da economia e das finanças públicas do Brasil percebe que, enquanto estão caindo os indicadores que deveriam subir, estão subindo os que deveriam cair. Sobram gráficos desse tipo nas telas de qualquer perito. Quando situações assim ocorrem é impossível querer revogar a regra de gestão segundo a qual são cumulativas as consequências dos erros não admitidos e não corrigidos.

Foi o que o analista do Banco Santander percebeu e expôs no relatório encaminhado aos clientes preferenciais da instituição, ou seja, àqueles com maior interesse em aplicações financeiras. Deu chabú. O presidente do partido do governo bradou que se tratava de “terrorismo eleitoral”. A presidente Dilma proclamou ser “inadmissível o mercado interferir na política”. Como é que é? A presidente parece imaginar que o mercado seja uma pessoa com maus sentimentos. No entanto, o leitor destas linhas sabe que entre as várias dimensões da pessoa humana se incluem a dimensão política e a econômica. Portanto, falar mercado e falar eleitorado é falar dos mesmos. O mercado não é formado por um conjunto de seres abstratos, mas por pessoas que trabalham, compram, consomem e votam.

Estranho, muito estranho, foi perceber que a bronca do governo surtiu efeito. A direção do banco desculpou-se, afirmou ter havido um erro, que aquela era a opinião de um funcionário e explicitou sua convicção no sentido oposto: a economia brasileira seguirá bem sucedida trajetória de desenvolvimento. Falar mal dizendo a verdade não pode. Falar bem ocultando a verdade pode.

Se tudo isso lhe parece muito, aguarde que tem mais. No dia 27, à mesma entrevista coletiva em que o banco reagiu e virou pelo avesso o relatório do seu analista (isso sim é que foi impróprio), o presidente da Telefónica se manifestou confiante em que “o Brasil vai ter um crescimento espetacular” e que “os governantes deste país fizeram um trabalho espetacular” e que “os brasileiros têm que estar orgulhosos”. Espetacular, mesmo, é que ninguém, no governo ou na mídia, considerou inadequada tal declaração, emitida por cidadão estrangeiro, presidente de uma empresa multinacional operando no Brasil. Arre!

Na terça-feira, foi a vez do FMI, em análise do setor externo das 28 maiores economias do mundo, afirmar que a brasileira apresenta sinais de moderada fragilidade, sendo uma das economias emergentes mais vulneráveis a mudanças no cenário mundial. Guido Mantega não acusou o FMI de fazer política, mas desqualificou o relatório. Sendo assim, os erros persistirão e as consequências, permanecerão cumulativas.


Dilma virou chefe de um governo ‘nada a ver’

Josias de Souza


O governo não tem nada a ver com o conluio entre investigadores e investigados da CPI da Petrobras. Nesta segunda-feira, Dilma Rousseff disse que cabe ao Congresso responder sobre a suspeita de que os depoentes da CPI tiveram acesso prévio às perguntas que lhes seriam dirigidas pela infantaria governista na comissão.

Os indícios da farsa saltam de um vídeo gravado nas dependências do escritório da Petrobras em Brasília. Mas o governo não tem nada a ver com isso. As imagens exibem uma conversa na qual soam as vozes do chefe da Petrobras na Capital, José Eduardo Sobral Barrocas, e do advogado da estatal, Bruno Ferreira. O governo não tem nada a ver com isso.

No diálogo, trama-se o repasse prévio das perguntas —e até das respostas— da CPI, por baixo da mesa, para Graça Foster, José Sérgio Gabrielli e Nestor Cerveró, respectivamente presidente, ex-presidente e ex-diretor da Petrobras. Ensaiados, eles não incorreriam em contradições. Dilma é a principal beneficiária da domesticação da CPI. Mas o governo não tem nada a ver com isso.

Mencionam-se no vídeo os nomes dos personagens que elaboraram os questionários de fancaria. Entre eles Paulo Argenta, assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. O presidente da CPI é o peemedebista Vital do Rêgo, que reza pelo catecismo do Planalto. O relator é o petista José Pimentel, líder de Dilma no Senado até anteontem. Mas o governo não tem nada a ver com isso.

A tese de que o governo não teve nada a ver com a farsa da CPI merece todo o crédito. Por quê? Ela é absolutamente coerente. Dilma deveria pendurar no pescoço uma placa com a frase “meu governo não tem nada a ver com nada”. Isso evitaria que os repórteres continuassem aborrecendo a presidente com perguntas inconvenientes e desnecessárias.

No comando do Conselho Administrativo da Petrobras na época em que a estatal comprou a refinaria-mico de Pasadena, Dilma já explicou que não teve nada a ver com o negócio ruinoso. Ela também não tem nada a ver nem com a crise que atiça a inflação e derruba o PIB, coisa provocada pela ruína internacional. Ora, por que diabos Dilma teria alguma coisa a ver com o abafamento de uma CPI incômoda em pleno período eleitoral?

Não atirem nos mensageiros

Gustavo Loyola
Valor

Culpar a analista pelo mau humor é uma bobagem autoritária que não tem o condão de mudar a realidade


O governo Dilma parece não gostar de ouvir más notícias, pois vive atirando nos mensageiros. O episódio da análise divulgada pelo Banco Santander é emblemático. O documento apenas buscou descrever um movimento de mercado que têm ocorrido nos últimos meses: queda de Dilma nas pesquisas é boa notícia para as bolsas e para o mercado cambial; ocorre o oposto quando as intenções de voto na presidente sobem. Culpar a analista pelo mau humor dos mercados com o governo é uma bobagem autoritária que não tem o condão de mudar a realidade. O mensageiro não tem culpa pelas más notícias que traz.

O governo faria melhor se buscasse entender as razões do pessimismo generalizado em relação ao momento econômico e agisse para corrigir seus próprios equívocos. Ao tentar enterrar as críticas, as autoridades tentam fugir de um debate que é legítimo e necessário. Com isso, contribuem ainda mais para o pessimismo e a apatia que tomam conta dos agentes econômicos. A propósito, vale notar que, na mesmíssima semana do incidente com a análise do banco, a insuspeita FGV divulgou que, em julho, o índice de confiança da indústria havia caído pela sétima vez consecutiva, batendo em seu nível mais baixo desde março de 2009. 

Observem, caros leitores, que se trata da confiança da indústria e não do mercado financeiro. Corroborando o pessimismo, os dados do IBGE mostraram a produção industrial caindo 2% no segundo trimestre do ano frente ao primeiro.

Não é muito difícil entender as razões para as oscilações do mercado financeiro diante dos resultados das pesquisas eleitorais. Cresceu a percepção de que uma mudança da política econômica para melhor dependeria da troca do inquilino do Palácio do Planalto. Caso queira contrarrestar essa percepção, o governo poderia começar desde logo a mudar os rumos de suas políticas, com vistas a clarear o horizonte e buscar a retomada do investimento que vem seguidamente caindo nos últimos meses.

Como afirmamos algumas vezes neste espaço, os desequilíbrios acumulados nos últimos anos devem cobrar um preço caro em 2015. No campo da política fiscal, os resultados apresentados até aqui em 2014 confirmam as dificuldades que o governo tem para entregar um superávit primário minimamente aceitável, o que o obriga a recorrer a expedientes variados que, embora legais, têm fôlego curto e custos crescentes para a economia. O déficit primário obtido em junho foi o pior resultado da série histórica desse indicador. Continuando assim, o Brasil pode perder o grau de investimento no ano que vem, prejudicando ainda mais o desempenho econômico do país.

No mercado cambial, o crescimento da posição de derivativos cambiais vendidos pelo BC para moderar a depreciação do real cria receios sobre a futura capacidade de reação a uma reversão mais forte da política monetária norte-americano, com a subida dos juros externos. Uma depreciação mais acentuada da moeda brasileira traria pressões inflacionárias adicionais numa conjuntura em que as expectativas de variação do IPCA para 2015 já se aproximam do limite superior da banda de tolerância estabelecido no regime de metas para inflação.

Além disso, em uma questão especialmente sensível para o investimento industrial, cresce a conta a ser paga no futuro pelos consumidores de energia elétrica, tendo em vista a persistência da disparidade entre as tarifas e o custo da energia gerada pelas termelétricas. Outra "espada de Dâmocles" pendendo sobre a cabeça de consumidores e contribuintes é a necessidade de ajuste dos preços dos derivados de petróleo, haja vista o risco de inviabilização dos investimentos da Petrobras e de todo o setor de petróleo e gás. Repercussões negativas sobre a inflação parecem ser inevitáveis por conta da correção dos preços de energia e dos combustíveis.

Em tal situação, é razoável que as pessoas - que não são apenas as do mercado financeiro - tenham expectativas negativas, a menos que o governo possa lhes assegurar que as medidas corretivas necessárias estão sendo adotadas. Uma postura de negar a existência de problemas ou de empurrar com a barriga a sua solução somente contribui para aumentar as desconfianças que se refletem nas bolsas e ecoam nas análises de mercado.

Há vários exemplos na história recente de situações em que o governo virou o jogo das expectativas levando o mercado a se tornar o primeiro e mais eficaz arauto de boas notícias para economia. O próprio PT teve prova disso no final de 2002 e no início de 2003, após Lula ter divulgado a "carta aos brasileiros" e formado uma equipe econômica com credibilidade. Não me consta que os petistas tenham se queixado da onda de otimismo que, na ocasião, se disseminou rapidamente no mercado.

Finalmente, é interessante notar que a própria presidente Dilma tem admitido a necessidade de melhorar o diálogo com o empresariado. Mas ao fazê-lo com um tacape nas mãos, o máximo que conseguirá será um monólogo que dificilmente levará a uma reversão favorável das expectativas.

O ‘Sistema S’ continua uma caixa-preta

O Globo
 Editorial

Revelação da revista ‘Época’ de que nora do ex-presidente Lula emulher do mensaleiro João Paulo Cunha estão na folha do Sesi recoloca em questão este aparato

O metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva e companheiros que lançaram as fundações da CUT e do PT, no fim da década de 70, lutavam por um programa de reformas modernizantes do meio sindical e das relações trabalhistas. Vociferavam contra o enorme aparato herdado de Getúlio Vargas, de inspiração no fascismo de Mussolini, em que as representações sindicais, de patrões e empregados, eram parte do Estado.

Defendiam o fim da unicidade sindical, para que vários grêmios pudessem se constituir na mesma região e disputar livremente o apoio entre os trabalhadores. Por coerência, eram contrários a todas as contribuições compulsórias, o imposto sindical entre elas. E, não poderia deixar de ser, atacavam o “Sistema S”, outra criação getulista, um conjunto de entidades sustentadas por deduções legais nas folhas de pagamento da indústria, do comércio e atividades rurais.

Os metalúrgicos daquele tempo também criticavam o fato de um enorme volume de recursos subtraídos dos salários transitar por Senai, Sesc, Sesi, entre outras siglas, sem transparência. O chamado Sistema S reúne características que facilitam o desperdício de recursos. Haja vista denúncias de gastos em sedes suntuosas pelo Brasil afora, entre outros desmandos.

Porém, ao chegar ao poder, Lula, seu partido PT e a CUT mudaram de opinião, e todo aquele aparato getulista foi colocado a serviço do projeto de poder petista. No fim do primeiro mandato, Lula oficializou a CUT e demais centrais. Com isso, elas passaram a ter direito a uma parte do butim do imposto sindical — tão criticado no tempo heroico da luta contra a ditadura. E, no primeiro ano do segundo mandato, Lula conseguiu aprovar no Congresso projeto que garantiu espaço para os sindicatos na gestão das entidades do Sistema S. Os bilhões que transitam por Senai e Sesc passaram a ficar ao alcance de decisões dos antigos metalúrgicos aguerridos.

Tornou-se inevitável o “aburguesamento” de líderes, caso do ex-radical Jair Meneguelli, já há onze anos presidente do conselho do Sesi, por nomeação do ainda presidente Lula, antes mesmo desse sistema de cogestão.

A última edição da revista “Época” revelou que a própria família de Lula se beneficia da influência que petistas e cutistas passaram a ter no Sistema S: uma das noras do ex-presidente, Marlene Araújo Lula da Silva, formalmente trabalha no “escritório de representação” do Sesi em São Bernardo do Campo. Em situação semelhante está Márcia Regina Cunha, mulher do mensaleiro petista condenado João Paulo Cunha. 

Outro ponto comum entre Márcia e Marlene é que não costumam comparecer ao local de trabalho: uma em São Bernardo; a outra, em Brasília. A descoberta recoloca o Sistema S em questão. Não apenas pelo seu aspecto de baixa transparência, mas pelo peso no custo das empresas em comparação com o retorno que dá para a sociedade.

Censura petista faz consultoria quase duplicar sua base de clientes

Ana Clara Costa
Veja online

Desde a representação protocolada pelo partido no Tribunal Superior Eleitoral, mais de 7.500 novos clientes foram adicionados à carteira da Empiricus

(Ueslei Marcelino/Reuters/VEJA) 
TIRO SAI PELA CULATRA: 
consultoria quase duplica sua base de clientes após censura 

O tiro da presidente-candidata Dilma Rousseff contra as 'análises pessimistas' do mercado saiu pela culatra. A despeito do que almejava o PT ao cercear anúncios de análises da consultoria Empiricus no Google, a 'punição' se converteu em ganhos — ao menos para os sócios da consultoria. Desde a segunda-feira passada, quando a firma se viu forçada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a retirar do Google dois anúncios de suas análises prevendo cenário ruim para a economia em caso de reeleição de Dilma, o número de investidores que assinam seus serviços quase duplicou. Segundo dados fornecidos pela Empiricus, a base de clientes que paga por pacotes de análises passou de cerca de 9.000 para 16.500. A consultoria possui ainda um mailing de 200.000 clientes em potencial que recebem boletins financeiros gratuitamente, após fazerem inscrição no site. Essa carteira específica ganhou em torno de 7.000 novos nomes diariamente na semana passada.

A derrapada do PT fica mais evidente quando se analisa os números da Empiricus antes do episódio. Os anúncios que foram alvo de representação no TSE tiveram cerca de 40.000 cliques, sendo que apenas 5% dessa cifra se converteu em assinantes do mailing que distribui boletins gratuitos. Nesse universo de cerca de 2.400 interessados que, de fato, leram o texto taxado pelos petistas de 'terrorismo eleitoral', nenhum se tornou cliente dos pacotes pagos — cujos preços variam de 10 reais a 200 reais ao mês. Ou seja, até a representação ser protocolada, a divulgação dos anúncios ainda não havia garantido qualquer retorno. O marketing trazido pelo partido foi providencial para a empresa, que prevê faturar 10 milhões de reais este ano.

O sócio da Empiricus responsável pelas análises retiradas do Google, Felipe Miranda, afirmou que os ganhos não são oportunistas, e sim resultado do maior interesse dos brasileiros pelas análises de cenário econômico após a intervenção no PT também no trabalho dos analistas. "Ainda que haja mais desdobramentos de marketing, o episódio é lamentável demais para ser celebrado. O governo quis desviar o debate, colocando o mercado como vilão. Mas não poderá fazer isso para sempre. Pode calar os bancos agora. Contra nós, não podem fazer nada além desse cerceamento momentâneo que pode, aliás, ser retirado a qualquer momento pelo TSE", afirmou Miranda.

Segundo a representação, a Empiricus estaria vinculada ao candidato tucano Aécio Neves, à coligação Muda Brasil e ao Google numa campanha com o intuito de manchar a imagem da presidente Dilma por meio de propaganda paga. A consultoria, conhecida no mercado pela forma dinâmica e descomplicada com que produz suas análises, nega o viés político e afirma que produziu as análises com foco nas melhores oportunidades para seus clientes — mesmo em cenário adverso que venha a se confirmar caso a vitória seja da candidata petista. "Nosso principal argumento contra a representação é a falta de evidências de que estejamos fazendo campanha contra a candidatura. O pleito aponta que gastamos uma fortuna com anúncios, o que não é verdade. Gastamos apenas 7.400 reais. Para efeito de comparação, esse valor representa menos de 10% do que gastamos mensalmente para promover nossas análises no Google", afirma o analista.

Santander — 
Há pouco mais de uma semana, toda a artilharia petista se armou contra o banco Santander depois que um relatório enviado a clientes de alta renda previa mais dificuldades para a economia brasileira se a presidente Dilma Rousseff se reeleger. Temendo represália, o banco enviou nota ao mercado desculpando-se pelo texto da equipe de análise e assegurando que medidas haviam sido tomadas em relação aos responsáveis: a demissão de todos os envolvidos.

Discurso vazio causa decepção ao empresariado

Tribuna da Internet
Vicente Nunes, Correio Braziliense

Se o Palácio do Planalto apostava em uma distensão na relação da presidente Dilma Rousseff com o empresariado, depois da sabatina promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), é melhor não se entusiasmar muito. Assim que a candidata petista à reeleição encerrou a participação no evento, o consenso entre os presentes foi de que, mais uma vez, a decepção imperou.

Além de não apresentar propostas concretas sobre o que será o seu eventual segundo governo, Dilma não conseguiu dissipar dúvidas importantes a respeito de questões prementes — como os reajustes da conta de energia e da gasolina —, que estão na base do pessimismo que empurra a economia para a recessão. “Saímos da apresentação da presidente com as mesmas indagações que entramos”, diz um integrante do alto escalão da CNI.

A perspectiva era de que Dilma aproveitasse a proximidade com o empresariado — do qual se manteve distante em quase todo o mandato — para apresentar propostas efetivas a fim de reverter o péssimo desempenho da indústria, que contabiliza quatro trimestres consecutivos de retração. Pelo contrário. Ela usou parte de seu tempo na sabatina para reforçar que, não fossem as ações de seu governo, como a desoneração da folha de salário e os empréstimos subsidiados concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o setor estaria pior do que está.

FRUSTRAÇÃO
No mercado financeiro, também houve frustração com a fala presidencial. “Dilma até sinalizou que, se for reeleita, fará mudanças em seu governo. Mas não deu detalhes. Se ela realmente quer reverter o pessimismo que tanto critica, deve ser mais clara no discurso”, ressalta Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global Partners. “Que reformas ela encampará? Reduzirá a intervenção no setor elétrico e na Petrobras? Qual será a política econômica a partir de 2015? Nenhuma dessas questões foi respondida”, acrescenta.

Os dois principais candidatos da oposição, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), cumpriram, na avaliação do empresariado, um papel protocolar. Não decepcionaram, mas também não empolgaram como se esperava, ainda que tenham sido bem aplaudidos no fim da sabatina. Para os industriais, os dois precisam dar transparência aos programas econômicos e reforçar o compromisso com reformas, sobretudo a tributária e a trabalhista, para garantir maior dinamismo à economia.

“O discurso da oposição está começando a encorpar. Mas, para convencer a maior parte do eleitorado de que merecem vencer a disputa de outubro, tanto Aécio quanto Campos precisam indicar caminhos seguros de que a mudança de governo não será uma aventura”, assinala um executivo do ramo siderúrgico. “Foram justamente as aventuras do atual governo, como a nova matriz econômica, que aceitou mais inflação para garantir crescimento maior, que nos levaram para o atoleiro”, complementa Eduardo Velho.

MEDO DE REPRESÁLIAS
» Um dado interessante observado pelos presentes na sabatina com os presidenciáveis promovida pela CNI: os empresários que fizeram as perguntas para a presidente Dilma mostraram grande nervosismo. Nem de longe pareceram os executivos que, nos bastidores, cobram, de forma enérgica, medidas para salvar a indústria. Alguns até gaguejaram, como se temessem afrontar a presidente e serem vítimas de respostas nada lisonjeiras da candidata petista à reeleição.

Prostração na indústria

Celso Ming
O Estado de São Paulo

A indústria vai mal porque as escolhas de política econômica foram as que estão aí

Nesta terça-feira, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) confirmou as estatísticas desoladoras do setor que já tinham sido adiantadas, na sexta-feira, pelo IBGE.

Em junho, os indicadores industriais de produção, faturamento, utilização da capacidade instalada e emprego estão embicando para baixo, pelo quarto mês seguido (veja os gráficos abaixo).

Repetir compulsivamente, como hoje faz o governo, que isso acontece apenas em consequência da baixa atividade das economias maduras, da temporada atípica da Copa do Mundo ou, ainda, que a crise da Argentina não ajuda é fazer pouco-caso da indústria e da inteligência dos brasileiros.

A indústria vai mal porque as escolhas de política econômica foram as que estão aí. O câmbio não ajuda porque está sendo operado pelo Banco Central (BC) para combater a inflação e não para alinhar preços internos e externos. A inflação está perto da goleada de 7% ao ano porque o governo gasta mais do que pode e, em seguida, submete as contas públicas a truques contábeis destinados a disfarçar o mau desempenho.

Os juros também trabalham contra a indústria porque, a partir de meados de 2011, o Banco Central optou por uma política monetária frouxa e injetou dinheiro demais na economia. Essa lambança obrigou o BC a compensar com uma puxada dos juros básicos a partir de abril de 2013, para o nível que hoje é de 11,0% ao ano, o que, por sua vez, deixou proibitivo o custo do crédito.


Não basta repetir que a indústria perde competitividade todos os dias sem reconhecer as causas dessa vulnerabilidade e sem tratar de enfrentá-las. É preciso admitir que isso acontece pelos mesmos motivos apontados acima e outros mais. Porque, por exemplo, esta mesma política econômica provocou a deterioração do ambiente de negócios e represou preços e tarifas, também para, artificialmente, evitar uma escalada da inflação. A indústria está perdendo mercado externo porque o governo não faz acordos comerciais e transformou o Mercosul em clube bolivariano, além de não conseguir manter as regras do jogo.

O setor vai capengando porque tem de enfrentar custos crescentes, uma infraestrutura cara e ruim e uma concorrência braba, não só da China, mas de um punhado de países cujos custos de mão de obra são uma fração dos nossos.

Também não dá para esconder que muitos desses problemas aconteceram porque os dirigentes da indústria aplaudiram as políticas imediatistas que beneficiaram alguns setores em detrimento de outros, apoiaram as reduções tributárias temporárias e as desonerações de efeito ao mesmo tempo inócuo e predatório.

Preferiram aceitar os cala-bocas de sempre a fazer um esforço de convencimento para que o jogo virasse, para que a política econômica fosse mais consistente. Não se esforçaram para que isso que o governo chama de política industrial deixasse de ser puramente uma ação entre compadres ou tentativas de fortalecimento de escolhidos para serem os futuros campeões nacionais.

A presidente Dilma repetirá que essa paisagem é outra dessas deformações espalhadas pelo mesmo cordão de pessimistas. E, no entanto, é o que mostram os números do PIB, da inflação e as tabelas que dão conta do desempenho da indústria, como as que estão aqui na Coluna.

Intervenção do BC no câmbio chega a US$ 90 bilhões

Exame.com
Victor M. Alves, Estadão Conteúdo

Desde ano passado, BC despejou bilhões de dólares por meio de operações complexas de swap cambial, pressão para baixar o preço do dólar em relação ao real

Susana Gonzalez/Bloomberg 
Dólar: esta é a maior intervenção desse tipo já feita pelo Banco Central

Brasília - O Banco Central fez uma intervenção de US$ 90 bilhões no mercado de câmbio para evitar grandes oscilações na cotação do dólar ao longo dos últimos 12 meses até junho.

Desde meados do ano passado, o BC despejou bilhões de dólares por meio de operações complexas chamadas de swap cambial. Na prática, esses contratos de swap ampliam a oferta de dólares no mercado, o que ajuda a definir a cotação da moeda.

Quanto mais operações desse tipo o BC faz, maior a pressão para baixar o preço do dólar em relação ao real.

Em sua política de "ração diária" ao mercado, o BC oferece e retira dólares do mercado. A diferença disponível, justamente esse volume de US$ 90 bilhões, dá a medida da âncora que impede oscilações e movimentos mais bruscos do dólar.

Desde junho de 2013, o BC ofereceu US$ 186 bilhões ao mercado. Parte desse dinheiro, ou exatamente US$ 96,7 bilhões, foi retirada em outras operações pelo BC.

Maior intervenção
Esta é a maior intervenção desse tipo já feita pelo Banco Central. Nem mesmo na primeira eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, quando a cotação do dólar bateu em R$ 4, o BC realizou uma operação desse tamanho.

"Em 2002, o BC não tinha tanta munição. Hoje, ele pode colocar um caminhão de swap porque tem um caminhão de reservas", diz o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central. Há 12 anos, quando Lula foi eleito, o BC havia irrigado o mercado com US$ 40 bilhões.

Inflação
Especialistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, afirmam que a inflação próxima do teto da meta estabelecida pelo governo, de 6,5% ao ano tem levado o BC a usar todas as ferramentas que dispõe para segurar o custo de vida.

A cotação da moeda, avaliam, tem impacto em preços importantes, como gasolina, trigo e outros itens relevantes no consumo diário das famílias.

"O câmbio tem importância para a inflação, não há dúvidas. A atuação do BC, de desvalorizar a moeda frente ao real, traz implicações para o custo de vida", diz o economista-chefe do banco J. Safra, Carlos Kawall.

Faixa de cotação
Para analistas, o objetivo não declarado do Banco Central seria manter, sem grandes oscilações, a cotação do dólar em uma faixa entre R$ 2,20 e R$ 2,30. Nos cálculos de José Roberto Carreira, economista da Fair Corretora, se não fossem as operações de swap do BC, a cotação do dólar em relação ao real estaria entre R$ 2,35 e R$ 2,40.

"A intenção é claramente segurar a inflação com o dólar. Se estivesse vendendo dólar físico, já teria gasto US$ 90 bilhões para atingir esse objetivo", diz.

Outros países
Crítico da atual política econômica, Alexandre Schwartsman fez um comparativo entre países semelhantes ao Brasil, com o mesmo tripé econômico (câmbio flutuante, meta de inflação e meta fiscal) para reforçar sua tese de que a queda da volatilidade cambial não está estreitamente vinculada às operações de swap.

No Peru, Chile, México e na Colômbia, segundo ele, o dólar disparou a partir do ano passado, quando o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) começou a fazer a retirada de estímulos à economia americana. No entanto, passado esse momento, o cenário se tornou menos instável, com pouca variação do dólar, mesmo em países que não fizeram intervenções.

"Até quem não tem feito intervenções registrou queda da volatilidade (oscilações de mercado)", afirma. "Tudo isso significa que a redução da volatilidade é muito mais um fenômeno global do que motivado pelo Banco Central brasileiro", afirma. "Quando a volatilidade acabou, o BC continuou com as intervenções. Isso sugere que a intenção foi manter o dólar mais barato frente o real."


Kawall faz avaliação semelhante. "Se olharmos a oscilação de outras moedas frente ao dólar, teremos algo parecido com o que ocorreu no Brasil", diz.
"A atuação do BC não é o único determinante da cotação do dólar. O cenário externo também influenciou o movimento do câmbio no País."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Uso da capacidade industrial instalada diminui, diz CNI

Exame.com
Com informações Agência Brasil

De acordo com Fábio Guerra, economista da CNI, a utilização da capacidade instalada teve em junho o menor percentual desde abril de 2009

Arquivo/Agência Brasil 
Indústria brasileira:
 retração industrial confirma situação preocupante do setor

A utilização da capacidade instalada na indústria (UCI) ficou em 80,1% em junho, ante 80,6 % registrado em maio. Os dados foram divulgados hoje (5) pela Confederação Nacional da Indústria 

De acordo com Fábio Guerra, economista da CNI, a utilização da capacidade instalada teve em junho o menor percentual desde abril de 2009, logo após o início da crise. O faturamento real da indústria caiu 5,7% e as horas trabalhadas na produção tiveram queda de 3% em junho na comparação com maio, na série livre de influências sazonais.

Para a CNI, “os resultados de junho apontam a quarta queda consecutiva da atividade industrial, com intensificação do movimento de baixa". O economista Flávio Castelo Branco, da CNI, acredita, inclusive, que as incertezas da economia, como a elevação de juros, contribuíram para a queda nos investimentos.

O emprego diminuiu 0,5% e a massa salarial, 0,8%. Os dois intens registraram retração pelo quarto mês consecutivo, o que para CNI representa baixa atividade e começa a ter impacto sobre o mercado de trabalho. Na avaliação da Confederação, a Copa do Mundo teve papel importante pois agravou o quadro com as interrupções de jornada e a queda nas vendas. Para Fábio Guerra, a massa salarial real é uma variável que mostra a retração do mercado de trabalho da indústria. Segundo ele, é preciso aguardar os próximos meses para ver se os resultados vão se repetir e o efeito Copa se confirmar.

“Antecipo, o que aparentemente é um paradoxo, mas com o emprego caindo, a massa salarial caindo e rendimento estável ou com leve crescimento, chamo a atenção à interpretação que, no momento de ajuste do quadro de trabalho, dado à fraca atividade da indústria, provavelmente, os primeiro postos de trabalho, os primeiros desligamentos, serão dos colaboradores com os salários mais baixos”, avalia Guerra. A indústria geralmente tem uma mão de obra mais qualificada e, portanto, é preciso aguardar os próximos meses.

No primeiro semestre, o faturamento real caiu 1% e as horas trabalhadas na produção tiveram queda de 2,2%, ante o mesmo período do ano passado. Na mesma base de comparação, o emprego acumula alta de 0,9% e a massa real de salários 3,8%.

Para a CNI, a retração no primeiro semestre confirma que a situação da indústria continua preocupante. O economista Flávio Castelo Branco acredita, inclusive, que as incertezas da economia, como a elevação de juros, contribuíram para a queda nos investimentos. Ele acredita que o que vai mesmo reverter o quadro é quando o investimento reagir e mostrar trajetória de crescimento e que alguns fatores podem melhor este cenário, como a política monetária, neste semestre.

******* COMENTANDO A  NOTÍCIA:

Sem que haja um único sinal de crise no horizonte, a indústria nacional vem afundando nos últimos meses. Queda de produção, fechamento de postos de trabalho, queda no faturamento. E a senhora Rousseff teve a cra de pau que seu governo restabeleceu uma “política industrial”. Diante de tais resultados, melhor seria que deixasse como estava, sem política alguma. Pelo menos o prejuízo seria bem menor. 

Concessionárias criticam modelo que libera aeroportos por autorização

Murillo Camarotto e Leandra Peres
Valor


Jorge Jardim, da Aneaa: mudança exigirá reequilíbrio 
econômico-financeiro e redução no valor de outorga devido

Depois de se comprometerem com cerca de R$ 48 bilhões em pagamento de outorgas nos leilões de aeroportos, as concessionárias subiram o tom das críticas ao plano do governo federal de permitir a construção de novos terminais por regime de autorização, que não prevê a realização de licitação.

As preocupações do setor cresceram após recentes declarações de Moreira Franco, ministro da Secretária de Aviação Civil (SAC), sobre a intenção da presidente Dilma Rousseff de autorizar as obras de um novo aeroporto em São Paulo.

Reunidas na Associação Nacional das Empresas Administradoras de Aeroportos (Aneaa), as concessionárias responsáveis pelos aeroportos de Guarulhos, Viracopos, Brasília e São Gonçalo do Amarante (RN), criticaram duramente o modelo de autorização, que segundo elas tem caráter predatório e coloca incertezas sobre o futuro dos investimentos no setor.

O presidente da Aneea, Jorge Jardim, disse ao Valor que a adoção de um modelo de autorização obrigará as concessionárias de aeroportos a cobrarem a revisão dos contratos assinados com o governo após os leilões. "Embora sejamos totalmente favoráveis ao desenvolvimento da infraestrutura aeroportuária brasileira e comprometidos com a livre concorrência, admitimos que essa mudança levará fatalmente ao reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos atuais, com provável redução no valor de outorga devido", afirmou Jardim.

A judicialização das concessões é o principal temor do governo, que trabalha para desenhar um modelo que não prejudique nem concessionários nem empreendedores autorizados. Segundo informou uma fonte ao Valor, Dilma é simpática à ideia da autorização e deve anunciar nas próximas semanas uma decisão favorável ao modelo. Em junho, no entanto, a presidente vetou uma emenda do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que previa a autorização.

Há cerca de um mês, representantes da associação se reuniram com o secretário-executivo da SAC, Guilherme Ramalho, para expor as preocupações do setor. O secretário disse a eles que o governo pretende continuar dando prioridade ao modelo de concessões, mas não tiveram garantia de que Dilma barraria a autorização para a construção de um aeroporto em Caieiras, município da região metropolitana de São Paulo.

Orçado em R$ 9 bilhões, o projeto tem como sócios as construtoras Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, que também atuam como concessionárias no aeroporto de Confins (MG), por meio do consórcio Aero Brasil. O Valor apurou que o grupo está em vias de se associar à Aneaa.

As empresas concessionárias têm dúvidas sobre a viabilidade do empreendimento em Caieiras. O argumento é que as ampliações - para cerca de 80 milhões de passageiros por ano - dos aeroportos de Guarulhos e Viracopos seriam suficientes para absorver a demanda nos próximos anos.

Sob o regime de autorização, os novos aeroportos vão precisar arcar com todos os gastos desde o início do projeto, incluindo a compra do terreno e toda a infraestrutura envolvida. A indefinição que resta no governo é se eles deverão pagar alguma taxa para que não levem vantagem competitiva em relação aos terminais concedidos. Cogita-se, por exemplo, a aplicação da Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (Cide) sobre as tarifas aeroportuárias.

Além da revisão dos contratos e das outorgas, os concessionários poderão solicitar o enquadramentos no novo modelo de autorização. "A exploração de uma mesma atividade sob regimes jurídicos diferentes consiste em uma técnica denominada assimetria regulatória", disse o presidente da Aneaa. "É evidente que a adoção tardia e inadvertida da regulação assimétrica redundará em inúmeros prejuízos às atuais concessionárias", afirmou Jardim.

Operadoras alemã e espanhola disputam sociedade em subsidiária da Infraero

Geralda Doca e Gabriela Valente
O Globo

Empresa de serviços será independente da estrutura atual e ficará livre de dívidas

Custório Coimbra / O Globo
Terminal 1 do Galeão: Infraero Serviços deve ter perfil privado 
e atuar na elaboração e monitoramento de projetos 

BRASÍLIA - Diante das dificuldades do governo em aplicar um choque de gestão na Infraero – que entregará na próxima semana os aeroportos do Galeão e de Confins a operadores privados, o que significa perda de receitas – o governo vai turbinar a Infraero Serviços, subsidiária a ser criada ainda este ano, para torná-la uma empresa eficiente e lucrativa, e completamente independente da estrutura atual.

A nova empresa terá como sócio privado um grande operador estrangeiro. Os dois mais cotados são a espanhola Aena e a alemã Fraport. E terá amplos poderes para operar aeroportos regionais e prestar todo o tipo de serviço, desde pavimentação de pista à implantação de modernos sistemas em terminais, além de qualificação de mão de obra. Segundo uma fonte envolvida nessa modelagem, a Infraero Serviços nascerá “sem vícios”, com quadro enxuto de funcionários e livre de passivos trabalhistas.

as mudanças atendem às exigências do parceiro internacional e buscam aproveitar oportunidades no setor, com projeção para atingir 200 milhões de passageiros por ano até 2020. O processo de escolha do sócio estrangeiro está em fase final de negociação.

‘SÓCIO ESTRANGEIRO COM VOZ ATIVA’
A espanhola Aena tem maior identidade com a Infraero, porque é uma empresa pública, mas a Fraport tem maior potencial para provocar uma mudança cultural, disse a fonte. Ao todo, oito grupos internacionais entregaram propostas para participar da nova sociedade. A criação da Infraero Serviços foi anunciada pelo governo no fim de 2012, junto com o plano de aviação regional.

— O sócio estrangeiro terá voz ativa na nova empresa, vai participar de todas as decisões estratégicas. A solução proposta é uma resposta ao atual sistema — disse um técnico do governo, ao se referir às críticas à qualidade do serviço prestado pela Infraero nos aeroportos e à estrutura inchada da estatal.

A Infraero tem hoje 12.900 empregados do quadro e mais 16.745 terceirizados. No fim do ano passado, o passivo trabalhista da empresa somava R$ 213,5 milhões.

Em 2013, a empresa registrou prejuízo de R$ 1,2 bilhão e a projeção neste ano é de um resultado negativo de R$ 405,6 milhões. Em 2012, o Tesouro Nacional aportou R$ 800 milhões na empresa; no ano passado, mais R$ 1,8 bilhão e neste ano, outra injeção de R$ 1,9 bilhão.

Na prática, a Infraero Serviços ficará com a parte boa da estatal, num processo de restruturação semelhante (mas no sentido inverso) ao adotado pelo governo em 2001 para limpar o balanço da Caixa Econômica Federal, com a criação da Empresa Gestora de Ativos (Emgea). Segregada da contabilidade da Caixa, a Emgea herdou os financiamentos habitacionais problemáticos do banco público.

Setores do governo que acompanham as estatais se queixam do forte corporativismo da Infraero, que atrapalha as iniciativas de tornar a empresa mais eficiente. O estatuto foi alterado e o comando passou por mudanças, mas não houve resultados práticos na rede de aeroportos administrados pela empresa.

Depois da concessão dos principais aeroportos do país (Guarulhos, Brasília, Viracopos, Galeão e Confins), a Infraero atual ainda continuará responsável pela operação de 60 aeroportos — o que representa 50% do tráfego aéreo.

A nova subsidiária vai herdar o know-how e o quadro técnico da Infraero, que será complementado com a experiência do operador internacional. A ideia é criar uma empresa com fôlego para uma ampla atuação no setor, inclusive com a elaboração e monitoramento de projetos e obras em terminais de passageiros e de cargas, no Brasil e no exterior.

O montante de capital que a Infraero vai aportar na nova sociedade ainda depende de negociação com o sócio estrangeiro e não pode ser divulgado devido à cláusulas de confidencialidade. Mas já está certo que a nova empresa terá perfil privado, a fim de assegurar governança e eficiência.

O objetivo é atrair para a Infraero Serviços negócios que a União pretende estimular com os investimentos na aviação regional, nos aeroportos e na concessão de subsídios às companhias que aderirem ao programa. Para esse fim, o governo anunciou R$ 7,3 bilhões, recursos que virão do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac).

INTERESSE EM AEROPORTOS REGIONAIS
Segundo fontes do Banco do Brasil (BB) — contratado para fazer a modelagem da nova empresa, desde as sondagens a investidores internacionais, até a elaboração do plano de negócios — a criação da Infraero Serviços é muito semelhante a um processo de privatização.

Por isso, a possibilidade é de que o projeto somente seja divulgado depois das eleições, diante da resistência de funcionários e do risco de exploração política do tema.

O presidente do Sindicato Nacional dos Aeroportuários (Sina), Francisco Lemos, disse que o governo ainda não informou detalhes sobre a nova empresa. Apenas informou que um dos focos de atuação será o gerenciamento dos aeroportos regionais.

Segundo ele, há cerca de 600 funcionários “sobrando” na Infraero, depois do processo da privatização e que precisam ter uma destinação. Lemos disse ainda que a entidade vai exigir que a Infraero Serviços siga os acordos coletivos negociados com a empresa atual.

— Não concordamos com regras diferenciadas, nem que a Infraero Serviços seja uma empresa privada — disse o sindicalista.

Eletrobras usa empréstimo para pagar Petrobras

Murillo Camarotto e Leandra Peres
Valor

O governo aproveitará o empréstimo de R$ 6,5 bilhões negociado entre os bancos federais e a Eletrobras para resolver também um problema bilionário da Petrobras. Impedida pelo governo de reajustar o preço da gasolina e diesel, a petroleira negocia com a Eletrobras uma solução para a dívida de R$ 6,1 bilhões que as distribuidoras e geradoras de energia da região Norte, controladas para estatal elétrica, acumulam com a compra de combustível para as termelétricas que abastecem Manaus e outras cidades do Estado.

Mais uma vez, a triangulação de recursos trará vantagens fiscais ao Tesouro Nacional. A despesa com o pagamento do combustível usado pelas térmicas deve ser coberta com recursos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). O fundo setorial é abastecido, entre outras fontes, com recursos fiscais.



Quando o Tesouro Nacional deixa de colocar dinheiro na CDE, o repasse às distribuidoras atrasa e a Petrobras não recebe. Com o financiamento do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, uma despesa que necessitaria de aportes do Tesouro Nacional será coberta por meio de uma operação financeira sem impacto fiscal.

A solução para o problema da Petrobras - que é antigo, mas cresceu muito no início deste ano - foi uma das condições estabelecidas pelo governo para conceder garantia da União ao empréstimo do Banco do Brasil e Caixa para a Eletrobrás, segundo o Valor apurou.

A Eletrobras confirmou que suas subsidiárias farão pagamento de R$ 452 milhões à BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, para quitar uma primeira parcela da conta do combustível em atraso. Em nota ao Valor, a empresa informou que a fonte desses recursos é o financiamento de R$ 6,5 bilhões obtido junto aos bancos federais.

Questionada sobre o pagamento do restante da dívida, a Eletrobras confirmou a negociação e informou que não comentaria quaisquer aspectos da negociação, no momento. "Quando tivermos algo concreto a informar, o faremos pelos canais institucionais", informou a empresa. A Petrobras não comentou o assunto.

O Valor apurou que a dívida das distribuidoras da Eletrobras com a compra de óleo combustível foi discutida no Conselho de Administração da Petrobras. Entre dezembro de 2013 e março deste ano, a falta de pagamento pelas distribuidoras fez a dívida saltar de R$ 5 bilhões para R$ 6,1 bilhões, segundo nota explicativa do balanço consolidado da petroleira.

Diante do impacto elevado no resultado consolidado da empresa, o Conselho de Administração havia determinado que a BR Distribuidora passasse a vender o combustível à vista a partir de 1º de julho. O prazo foi ampliado até 31 de julho, por causa do empréstimo que o governo estava negociando com a Eletrobras. O pagamento de R$ 452 milhões que as distribuidoras farão à Petrobras será repassado às empresas pela Eletrobras como um empréstimo, e ressarcido nas mesmas condições em que os recursos foram captados (prazo total de oito anos, dois anos de carência e taxa de 119,5% do CDI).

O valor da dívida entre as duas estatais não é ponto pacífico. A Petrobras contabiliza seu crédito pelo valor do óleo combustível estabelecido em contratos. A Eletrobras, por sua vez, considera que deve apenas o valor que é reembolsado pelo governo, por meio de um fundo setorial que cobre, entre outras despesas, a compra de óleo para o sistema isolado de energia da região Norte. Segundo fontes, a negociação entre as estatais está avançada, com proposta de valores e fluxos de pagamentos já à mesa.

O fornecimento de energia no Amazonas ainda depende da geração térmica. Em Manaus, 90 % da eletricidade consumida vem dessas usinas e apenas 10% é atendida pela hidrelétrica Balbina, no rio Uatumã. Além das usinas da Eletrobras, a Amazonas Energia compra energia de produtores independentes, que contam com os repasses da estatal para realizar os pagamentos à Petrobras.

Essa dependência e o atraso no pagamento à Petrobras podem afetar o abastecimento de energia elétrica em Manaus e nos sistemas isolados da região Norte. Segundo fontes ouvidas pelo Valor, ainda persistia, na sexta-feira, o impasse entre termelétricas a óleo, que geram a energia na região, e a BR Distribuidora. De acordo com as fontes, o abastecimento em Manaus teria sido interrompido na sexta. As usinas no Norte tem estoque para gerar energia por mais alguns dias, mas precisam de um acordo.

A Eletrobras é responsável pelo gerenciamento dos fundos setoriais que fazem o ressarcimento pela compra de combustível por essas usinas. Desde 2012, quando o governo federal mudou a regulamentação do setor elétrico para baixar as tarifas, os recursos acumulados nos fundos vêm sendo usados para pagar as indenizações às empresas que renovaram antecipadamente as concessões com o governo. A seca dos dois últimos anos obrigou o governo a aumentar a geração termelétrica e elevou o preço da energia no mercado de curto prazo ao teto de R$ 852, fazendo com que os fundos setoriais também fossem usados para evitar aumentos de tarifas. 

Colaborou Cláudia Facchini 

TARIFAÇO: Aneel aprova reajustes de mais de 20% na conta de luz em três Estados

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

Aumento atingirá mais de 5,8 milhões de consumidores atendidos por empresas de Santa Catarina, Espírito Santo e Pará

(Marcelo Bittencourt/Futura Press/VEJA)
Subestação de energia das Centrais Elétricas de Santa Catarina 

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou nesta terça-feira os reajustes das tarifas de energia elétrica da Escelsa, Celesc e Celpa. As novas tarifas passam a vigorar a partir de quinta-feira. Os reajustes médios superam 20% na conta de luz de 5,8 milhões de consumidores atendidos por empresas dos Estados de Santa Catarina, Espírito Santo e Pará. Os índices refletem o aumento do custo da energia, motivado pela seca que reduziu o nível das reservatórios das hidrelétricas, e pelo uso intensivo de térmicas, que geram uma energia mais cara.

Reajustes — 
Para a Escelsa, que atende 1,4 milhão de unidades consumidoras do Espírito Santo, o reajuste médio será de 23,58%. Para consumidores conectados à baixa tensão, como residenciais, o aumento será de 24,71%, e para a alta tensão, de 21,99%.

As tarifas da Celpa, que atende 2 milhões de unidades consumidoras do Pará, terão um reajuste médio de 34,96%. Os consumidores da baixa tensão terão um aumento de 34,34%, e os da alta tensão, 36,41%.

A Celesc, que atende 2,4 milhões de unidades consumidoras de Santa Catarina, terá um reajuste médio de 22,62%. Os consumidores da baixa tensão terão um aumento de 22,76%, e os da alta tensão, 22,42%.

Empréstimos — 
O diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, informou também nesta terça que os reajustes aprovados já têm embutidos parte das contas da elevação do preço futuro da energia elétrica. Outra parte dos custos das distribuidoras, como o encarecimento da energia de curto prazo, será coberto com recursos de um empréstimo oferecido por um consórcio de bancos.

Rufino afirmou que o segundo financiamento, de 6,5 bilhões de reais, deve ser fechado até o fim desta semana. O dinheiro virá de bancos públicos e privados, mas o governo teve de apelar ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para fechar o valor final do empréstimo

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:

O governo não vai esperar 2015 para aplicar o tarifaço nas contas de energia. Já está fazendo isto agora, em 2014 mesmo. Há duas semanas, diferiu o reajuste da COPEL, reduzindo de 35 para 25%, dentro da média do que está aprovando. Antes das citadas, as demais concessionárias também tiveram reajustes na média de 20 a 30%.


Belo Monte atrasa 'fatura social'

André Borges 
O Estado de S. Paulo

Presidente Dilma visita hoje as obras da usina, que deveria ter dado novas casas a 5 mil famílias, mas por enquanto só transferiu 300

 Em obras. Cerca de 20 mil pessoas 
serão afetadas diretamente pela usina de Belo Monte

BRASÍLIA - A visita que a presidente Dilma Rousseff faz hoje às obras da hidrelétrica de Belo Monte deveria incluir uma passagem pelos novos endereços de 5.241 famílias que tiveram de sair de suas casas para dar espaço ao futuro reservatório da usina. O passeio terá de ser abreviado. Em Altamira (PA), Dilma não vai encontrar mais do que 300 famílias realocadas pelo consórcio Norte Energia, dono da hidrelétrica.

O atraso em concluir a mudança de aproximadamente 20 mil pessoas é um dos pontos mais complexos na lista de obras compensatórias assumidas, e não cumpridas, pelo consórcio. Um ano atrás, a própria Norte Energia cravava que chegaria a julho deste ano com 100% das realocações concluídas, uma condição básica para que possa iniciar a formação do lago da usina. O fato é que, hoje, nem 10% das famílias trocaram de endereço.

As dificuldades em concluir os trabalhos passam pela elaboração do chamado "cadastro socioambiental", um banco de dados que deve reunir informações de todos aqueles que são impactados pela obra. É a partir desse levantamento que a Norte Energia orienta suas ações.

Cadastro. O cadastro deveria estar pronto há mais de dois anos, quando Belo Monte recebeu sua licença prévia ambiental. Mas, segundo o Ibama, até hoje o banco de dados não foi concluído.

O orçamento estimado para as ações de reassentamento é da ordem de R$ 500 milhões. A previsão original era de que o consórcio iniciasse a construção das de casas ainda em 2011, o que não ocorreu.

"Os dados sistematizados referentes ao cadastro socioeconômico da UHE Belo Monte, conforme solicitados, não foram disponibilizados ao Ibama pela Norte Energia", informou o Ibama, em resposta encaminhada ao Estado, por meio da Lei de Acesso à Informação. "Não foi oficializada, até o momento, a finalização ao cadastro socioeconômico", relatou.

O posicionamento do Ibama surpreendeu a Norte Energia, que garante ter enviado o cadastro ao órgão no fim de 2012.

Pelos números do consórcio, 5.241 famílias serão diretamente afetadas pela usina e, por isso, precisam sair de suas casas.

O balanço atual da Norte Energia diz que cerca de 900 negociações foram feitas, englobando acertos de áreas públicas e privadas. Cerca de 300 famílias concordaram em mudar para as casas construídas na região. Outras 230 famílias optaram pela indenização.

Meta.
 A nova meta do consórcio é concluir o processo até o fim deste ano. Não será fácil. Entre agosto de dezembro, teriam de ser reassentadas 942 famílias por mês. Na Norte Energia, a avaliação é que o processo deve ganhar ritmo após a etapa inicial de alocações, considerada mais complexa.

"Isso explica muito bem por que o atraso de quase um ano no projeto. A questão social é mais sensível. Por lei, a Norte Energia já deveria ter publicado a lista completa do cadastro social, em toda a região, para que todos pudessem vê-la. A única coisa que vimos foram listas parciais, em apenas alguns locais", diz Biviany Rojas, advogada do Instituto Socioambiental.

Entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014, o Ibama impôs três multas ao consórcio. A mais recente foi em fevereiro, no valor de R$ 2,5 milhões.

Geradoras devem ter custo extra de R$ 15 bilhões para comprar energia no mercado

O Globo 

Crise do setor pode afetar indústria, dizem especialistas

AC Junior / AC Junior / Divulgação
  
O baixo nível de reservatórios em usinas como a de Estreito, em São Paulo, tem levado geradoras a comprar energia no mercado livre A forte seca que está reduzindo drasticamente o nível dos reservatórios tem feito as geradoras de energia hidrelétricas acumularem perdas bilionárias neste ano, por estarem produzindo menos energia do que o previsto. Estimativas feitas pela consultoria Safira Energia a pedido do GLOBO dão conta que o gasto extra deve chegar a R$ 15,83 bilhões em 2014, dos quais cerca de R$ 7,86 bilhões entre agosto e dezembro. Especialistas advertem que a situação crítica do setor elétrico — com a forte estiagem e as mudanças regulatórias — inibe os investimentos, não só na expansão do próprio setor, como em outras atividades, aprofundando a queda da atividade industrial.

Como as geradoras têm produzido menos energia do que a contratada, elas precisam recorrer ao mercado à vista de hidrelétricas e termelétricas com energia excedente para comercializar - com preços em alta - para cumprirem seus contratos. O nível dos reservatórios continua baixo, e as usinas térmicas, que têm uma energia mais cara, precisam continuar operando a plena carga. Segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o valor do megawatt/hora (MWh) está em R$ 817,53 esta semana, perto do teto estipulado pelo governo. Na semana passada, o preço era R$ 593,73. O nó do setor elétrico atinge também as distribuidoras que têm sido obrigadas a comprar parte da energia no mercado livre. Os gastos maiores das distribuidoras já vêm sendo repassados aos consumidores, que vão pagar uma conta ainda mais alta a partir de 2015.

O contrato de concessão com as geradoras envolve o risco do negócio, por isso não há ajuda do governo, como nas distribuidoras, que receberam empréstimos de R$ 11,2 bilhões em abril e vão contar com mais R$ 6,5 bilhões.

De acordo com a Safira Energia, a exposição das geradoras ao mercado à vista se agravou nos últimos meses: em junho foram 3.619 MW médios produzidos a menos pelas hidrelétricas que tiveram que ser comprados pelas geradoras no mercado à vista. Isso representou custo adicional de R$ 1,04 bilhão. Em julho,o custo foi de R$ 1,93 bilhão. Segundo projeções da consultoria, agosto será o mês mais crítico: a exposição das geradoras somando despesas extras chegará a R$ 2,46 bilhões.

— A situação das geradoras começou a se agravar em fevereiro, quando a seca reduziu o nível dos reservatórios, elevando os preços da energia no mercado livre, que atingiram o teto máximo de R$ 822 o MWh — lembra Mikio Kawai, diretor executivo da Safira Energia.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), Flávio Neiva, diz que a exposição das geradoras no mercado à vista varia mensalmente. Ele lembra que já chegou a cerca de R$ 2 bilhões em um mês e atualmente está em torno de R$ 1,8 bilhão. Neiva afirmou que as quatro principais associações que reúnem as geradoras de energia hidrelétrica (Abrage, Abiape, Apine e Abragel) estão fazendo um levantamento para avaliar a situação das empresas e apresentar ao Ministério de Minas e Energia e à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O executivo afirma ainda que há algumas geradoras que vendem sua energia no mercado livre, pois não renovaram seus contratos de concessão com base na Medida Provisória 579 de 2012, como Cemig, Cesp e Copel, entre outras. A regra permitiu a antecipação da renovação das concessões a vencer das empresas do setor elétrico, em troca de redução na tarifa de energia.

— Estamos esperando a liquidação (contabilização) de maio e vamos quantificar a extensão do problema para conversar com o governo sobre o que pode ser feito. As empresas que estão positivas (vendendo energia) não precisam de empréstimo. É preciso ver uma solução para garantir a continuidade e normalidade do mercado .
Na opinião de Charles Lenzi, presidente da Abragel, que reúne as companhias de geração de energia limpa, as geradoras têm que arcar sozinhas com os custos da energia, não podendo repassar para as tarifas o custo extra, o que ocorre no caso das distribuidoras.

— As distribuidoras pagam mais agora, mas recebem no ano seguinte, após a revisão tarifária. No caso das geradoras, isso não ocorre. Por isso, vamos apresentar o estudo para o governo em meados de agosto. É preciso rever o modelo — diz.

Para Luiz Fernando Vianna, presidente da Apine, dos produtores independentes, o setor vive uma fase delicada. Ele confirma que, por conta do risco de seca, os custos para as geradoras neste ano devem ficar acima dos R$ 15 bilhões. O contrato de concessão com as geradoras envolve o risco do negócio, por isso não há ajuda do governo, como nas distribuidoras.

A AES Tietê afirmou, em seu relatório, que terá de comprar este ano de 800 GWh a 1.000 GWh de energia no mercado de curto prazo para cobrir sua exposição. Com tal previsão, o impacto negativo líquido esperado em 2014 pode ser de R$ 350 milhões a R$ 500 milhões", informou. Já a CPFL ressaltou que "comprou energia para entrega a partir do segundo trimestre". Segundo especialistas, a maioria dos grandes geradores, principalmente as empresas do grupo Eletrobras, está recorrendo ao mercado à vista: Furnas confirmou ter uma exposição de 200 MW. A maior parte das geradoras de energia do país, aliás, é de estatais.

Mas um possível socorro às geradoras é motivo de polêmica entre os especialistas. Kawai, da Safira, é contra o governo socorrer as geradoras assim como fez com as distribuidoras:
— O mercado de geração é bem competitivo e livre. Portanto, as geradoras estatais ou privadas, se optaram por vender um volume tal da energia que têm, assumem o risco. Sou contra qualquer auxílio do governo federal para salvar as geradoras.

O analista da RC Consultores Marcel Caparoz explica que o problema enfrentado pelas distribuidoras alcançou as geradoras porque o consumo continua maior em relação à oferta, obrigando a geração termelétrica a operar a pleno vapor, o que eleva os preços no mercado à vista:

— Essa situação diminui a confiança no setor elétrico, e inibe os investimentos. O empresário não sabe quais as condições futuras que vai enfrentar quando seu negócio ficar pronto e entrar no mercado. O intervencionismo estatal e as mudanças de regras dificultam os grandes agentes. Isso está acontecendo no setor elétrico e em toda a economia.

‘SOLUÇÃO DE CURTO PRAZO É CHOVER’
A curto prazo, segundo o economista da RC Consultores, a única solução é chover para permitir o aumento da geração de energia hidrelétrica:

— Só assim vão conseguir cumprir contratos. Como acho que não vai chover o suficiente, vai ter que ter algum tipo de socorro para as geradoras, para não estressar mais o fluxo de caixa das geradoras.

Para o professor Edmar de Almeida, do Grupo de Economia da Energia do Instituto de Economia da UFRJ (GEE-UFRJ), o governo federal provocou desorganização econômica no setor a partir da renovação das concessões de geração:

— Enquanto o mercado livre estiver com o preço da energia tão alto como agora, ocorre uma violenta transferência de recursos de uns agentes para outros. Alguns estão ganhando muito dinheiro e outros estão perdendo muito, e quem vai pagar por tudo isso é o consumidor.

Segundo o professor, além de ter "que se rezar para chover", a única saída para evitar a desorganização total do setor é o consumo mais consciente de energia.

TCU pede mais detalhes e impede publicação de edital do leilão de telefonia 4G

Anne Warth e Eduardo Rodrigues  
Agência Estado

Anatel está impedida de publicar o edital sem a aprovação de todos os ministros do Tribunal de Contas da União; Tesouro Nacional deixou claro que espera arrecadar receita do leilão ainda neste ano

O Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu nesta segunda-feira, 4, impedir a publicação do edital de leilão 4G na faixa de 700 MHz. O governo pretendia licitar a frequência na segunda quinzena de setembro. O órgão de controle suspendeu cautelarmente a publicação até que o documento seja aprovado pelo plenário de ministros da Casa. Até então, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) estava autorizada a publicar a versão final do documento mesmo antes do aval do órgão, sem os valores de outorga da faixa. Agora, isso não será mais possível.

O edital da faixa de 700 MHz estava na pauta do TCU até a última sexta-feira e seria analisado na próxima quarta-feira, 6, em sessão sigilosa, a pedido da própria Anatel. Mas hoje o processo saiu da pauta, assim que a medida cautelar foi concedida. Oficialmente, o tribunal informou que solicitou mais informações e esclarecimentos sobre o documento à agência.

O Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, apurou que a pressão das empresas pelo adiamento do leilão chegou aos ministros do TCU. As teles pedem para que a licitação não ocorra neste ano, pois o início do uso da faixa depende da saída das emissoras de TV que atualmente a ocupam em importantes regiões do País. O edital prevê que o serviço de 4G em 700 MHz só poderá ser iniciado 12 meses após a limpeza da frequência. Nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, principais mercados do País, isso só aconteceria em 2018. O custo da limpeza da faixa corresponderia a 30% do valor da outorga.

As recentes declarações do secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, a respeito do leilão também prejudicaram as negociações com o TCU, segundo apurou o Broadcast. Augustin afirmou que o governo esperava arrecadar integralmente o valor da outorga da faixa já neste ano, no ato da assinatura dos contratos. Já o edital aprovado pela Anatel autoriza que apenas 10% do valor seja pago à vista, podendo o restante ser dividido em quatro parcelas.

Augustin disse também que a praxe no setor de telecomunicações é que a outorga seja paga à vista. Mas no leilão da faixa de 2,5 GHz, ocorrido em 2012, apenas uma das quatro teles fez essa opção. Mesmo com as pressões das companhias, o governo estava decidido a manter o leilão para setembro deste ano, para que arrecadação do certame ajudasse a tentar fechar as contas do Tesouro em 2014.

Após a disputa, os contratos devem ser assinado em 40 dias. Por isso, o pagamento de qualquer valor correspondente à outorga só ocorrerá este ano se o leilão for realizado até a metade do mês de novembro. Procurado pelo Broadcast, o presidente da Anatel, João Rezende, informou que a agência vai prestar todas as informações e esclarecimentos necessários à área técnica e ao ministro-relator do caso, Benjamin Zymler.

Mantega indica que haverá reajuste da gasolina em 2014. Será que agora vai?

Exame.com
Luciana Otoni e Alonso Soto, Agência  Reuters

Ministro disse que em todos os anos houve correção nos preços da gasolina e que o comportamento do governo é continuar com reajustes

Dado Galdieri/Bloomberg 
Frentista abastasse carro em um posto 
de gasolina da Petrobras no Rio de Janeiro

Brasília - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta terça-feira que em todos os anos houve correção nos preços da gasolina e que o comportamento do governo é continuar com reajustes normais, mas negou que haverá "tarifaço" após as eleições de outubro.

"Todos os anos tem correção do preço da gasolina, uns mais outros menos, todos os anos tem correção. Não teve nenhum ano que não teve aumento da gasolina, essa é a regra", afirmou o ministro em entrevista à Reuters nesta terça-feira.

"Quando ocorrerá o aumento, essa é decisão que mexe com o mercado, com ações, não se comenta. É questão das empresas responsáveis", acrescentou o ministro, que também é presidente do Conselho de Administração da Petrobras.

Mantega deu a declaração ao ser questionado se, com o arrefecimento da inflação mais para o fim deste semestre, haveria espaço para ajustes nos preços administrados. "Nosso comportamento é continuar com reajustes normais, sem tarifaço", afirmou o ministro.

A diretoria da Petrobras, inclusive a própria presidente da estatal, Maria das Graças Foster, tem pleiteado ao governo reajuste dos preços dos combustíveis para reduzir a defasagem dos valores praticados no Brasil com os vistos no exterior, algo que afeta as finanças da companhia.

A gasolina tem um peso importante no IPCA, índice que baliza a meta de inflação do governo que é de 4,5 por cento ao ano, com margem de tolerância de dois pontos para mais ou para menos.

Com o IPCA em 12 meses acima do teto da meta atualmente, o governo tem menos espaço para elevar preços administrados como os dos combustíveis.

Em junho, o indicador acumulava alta de 6,52 por cento em 12 meses e, segundo pesquisa Reuters, deve ter subido a 6,60 por cento em julho.

A última vez em que houve reajuste nos preços da gasolina foi em novembro do ano passado, quando a Petrobras anunciou aumento médio de 4 por cento da gasolina e de 8 por cento no diesel nas refinarias.

Na época, especialistas calcularam que a alta da gasolina ao consumidor final seria de cerca de 3 por cento.

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:

Vamos ver quantos dias levará para a senhora Rousseff desmentir o boato do ministro. Sempre que as ações da Petrobrás despencam, ou como agora, com a estatal no centro de um novo furacão, ou escândalo, o governo solta a informação de que “pretende” reajustar o preço dos combustíveis. As ações na Bovespa sobem e, passados alguns dias, a presidente se encarrega de desmentir o tal reajuste. 

Já cansamos de denunciar  esta manobra. E seria prudente que a CVM olhasse com lupa para perceber quem ganhará dinheiro (e bom dinheiro) com a falsa notícia. 

Até pode acontecer o reajuste, aliás, já deveria ter acontecido. Porém, este jogo de vai-e-vem, tem provocado um colossal rombo no caixa da companhia. Inadmissível é esta grotesca manipulação do mercado. 

Hotel flutuante mostra metas distantes da Petrobras

Exame.com
Sabrina Valle e Juan Pablo Spinetto, Bloomberg

Estatal depende de mais plataformas para alcançar os vastos depósitos na costa brasileira após descumprir as metas por 10 anos seguidos

Dado Galdieri/Bloomberg 
Funcionários da Petrobras em uma plataforma de petróleo 
em construção na bacia de Angra dos Reis

Rio de Janeiro - As chances de a Petrobras cumprir suas metas de produção pela primeira vez em uma década estão diminuindo em um momento em que a pressa para despachar novas plataformas de petróleo está causando dores de cabeça a quilômetros de distância, no mar.

Um hotel flutuante ancorado no mês passado em sua plataforma P-62 simboliza a situação da estatal.

O chamado flotel abriga centenas de trabalhadores enviados para consertar a nova unidade que já está meses atrasada em relação à programação após um incêndio e uma manutenção de emergência.

Outras novas plataformas nos campos de Roncador, Sapinhoá e Lula Nordeste reportaram falhas de segurança e atrasos em equipamentos de fornecedores, o que desacelerou a produção.

A Petrobras, maior produtora em águas com mais de 300 metros de profundidade, depende de plataformas como a P-62 para alcançar vastos depósitos na costa brasileira após descumprir as metas de produção por 10 anos seguidos.

No ano passado, a empresa disse que a produção começaria a aumentar no quarto trimestre, já que as novas plataformas adicionaram um milhão de barris à capacidade diária.

Até junho, a capacidade é 1,4 por cento maior em comparação com uma meta de crescimento anual de 7,5 por cento.

“Estamos menos otimistas em relação ao crescimento da produção da Petrobras neste ano”, disse Auro Rozembaum, analista da unidade de banco de investimento do Banco Bradesco.

“A produção ficou praticamente estável nos primeiros quatro meses do ano com paradas para manutenção e atraso de equipamentos, ficou mais difícil”.

Recuperação das ações
Em uma resposta a questões enviadas por e-mail, a Petrobras disse que no segundo semestre 33 novos poços serão conectados à P-62 e à plataforma-irmã P-55, cada qual com capacidade de bombear 180.000 barris ao dia. A empresa reitera sua meta de crescimento.

“Novos sistemas de produção vão entrar em operação ao longo de 2014 para garantir o crescimento sustentado da produção, conforme o Plano de Negócios e Gestão da Petrobras 2014-2018, que prevê aumento de 7,5%, até o final de 2014, com margem de tolerância de um ponto percentual para mais ou para menos”, disse a companhia, que tem sede no Rio de Janeiro, no relatório de produção de maio.

A Petrobras, que tem as ações com pior desempenho nos últimos cinco anos entre 15 pares monitorados pela Bloomberg, recuperou 14 por cento de seu valor na bolsa, neste ano.

É mais que o dobro do ganho médio de 6,2 por cento de seus pares. O Brent Crude perdeu 4,9 por cento em 2014.

Trabalho apressado
Os investidores não confiam que a Petrobras vá cumprir suas metas neste ano, disse Eric Conrads, que ajuda a gerenciar US$ 500 milhões em ações latino-americanas como gerente financeiro do ING Groep NV.

A ação subiu com a especulação de que a eleição presidencial de outubro prenunciará políticas mais favoráveis aos investidores.

A pressa para lançar a P-62 e outras plataformas ao mar no ano passado contribuiu com os atrasos, segundo José Maria Rangel, líder sindical e ex-membro do conselho, que visitou a plataforma em 1º de julho.

Ele disse que testemunhou dificuldades para conectar o 3º e o 24º poços e que a empresa também estava consertando falhas em equipamentos e se preparando para receber um navio cheio de trabalhadores.

“A quantidade de reparos a serem feitos não é pequena”, disse por telefone.

“Estão com dificuldade para conectar poços na P-62 e na P-55. Obviamente se há atraso de interconexão de poços, isso se reflete no resultado final, sem sombra de dúvida”.

Na melhor das hipóteses, a Petrobras adicionará 200.000 barris ao dia por ano em média, contra os cerca de 300.000 previstos no plano de negócios da companhia, disse Bernardo Wjuniski, analista da Medley Global Advisers, que realiza pesquisas sobre a indústria petrolífera no Brasil, por telefone, de São Paulo.

A Petrobras superestima a velocidade com que pode tornar os novos poços operantes e subestima a queda de produção em campos mais antigos com reservas por esgotar, disse ele.

As taxas de declínio da companhia estão em linha com os níveis internacionais, disse José Formigli, diretor de exploração e produção da empresa, a repórteres, no mês passado.

A Petrobras pretende duplicar a produção local para mais de 4 milhões de barris ao dia até o fim da década.