quinta-feira, agosto 07, 2014

Por que no Brasil é obrigatório votar?

Juan Arias  
El Pais

Das dez maiores economias mundiais, só no Brasil o cidadão tem que votar

Nos países mais desenvolvidos do mundo, nos mais modernos e nas democracias mais sólidas, o voto político é facultativo.

Entre os 10 países mais ricos do planeta, em todos, menos no Brasil, ir às urnas deixou de se obrigatório ou nunca foi.

Hoje o voto facultativo está vigente em 205 países do mundo e só em 24 deles (13 na América Latina) continua sendo obrigatório.

Seria preciso deduzir disso que esses países, começando pelo Brasil, não são nem modernos nem contam ainda com uma democracia consolidada? Talvez não, mas segundo vários analistas políticos, se fosse realizada a tão anunciada e nunca realizada reforma política, deveria começar por admitir o voto facultativo, já que uma das características de uma democracia real e não apenas virtual é a proteção dos maiores espaços de liberdade dos cidadãos.

É possível que um direito se converta em um dever? Que alguém possa ser castigado com sanções em uma democracia por não querer exercer um direito?

O direito do voto a todos os cidadãos 
foi uma das maiores conquistas das democracias liberais

O direito do voto a todos os cidadãos, homens ou mulheres, ilustrados ou analfabetos, foi uma das maiores conquistas das democracias liberais. Todos, sem distinção de sexo ou posição social, têm o direito de poder participar na vida política através do voto que permite eleger os representantes da vida pública.

Isso não significa, no entanto, que deva ser obrigatório nem que deva receber algum castigo quem deixar de usar este direito. Sobretudo porque não foi provado que o voto obrigatório melhore as democracias do mundo nem que aumente nelas a participação cidadã nas eleições.

A maior ou menor participação depende sobretudo do interesse ou desinteresse que os cidadãos demonstrem em cada eleição. Inclusive o voto chamado “antipolítica” (como, por exemplo, o nulo ou em branco), não significa um voto contra a democracia ou contra a legítima Constituição do país. Pode indicar, simplesmente, uma forma de descontentamento com o modo de governar dos políticos eleitos democraticamente, ou simplesmente a vontade de abrir espaço a novas formas de democracia mais modernas e mais adaptadas aos novos instrumentos de comunicação global que a tecnologia oferece hoje.

Manifestar-se contra a obrigatoriedade do voto tampouco significa que quem está contra esta obrigatoriedade vá deixar de votar, mas simplesmente que prefere, para benefício da democracia, que cada um seja livre de participar ou não.

Há quatro anos, o Datafolha mostrou que 64% dos brasileiros
 achavam que o voto deveria ser  facultativo

Se o Brasil, sétima potência econômica do mundo, com uma democracia reconhecida por todos, onde existe a separação dos três poderes, continua entre os 24 países que ainda obrigam a votar, significa, no mínimo, uma clara anomalia democrática.

A última vez que a pesquisa Datafolha, há quatro anos, publicou os índices de brasileiros que prefeririam que o voto fosse facultativo, ficou claro que a grande maioria (64%) achava que o voto não fosse obrigatório. E entre esses 64% figuravam sobretudo os mais instruídos e os jovens.

Não seria suficiente esse índice, que certamente hoje seria ainda maior, para que se incluísse na reforma política a liberdade de votar?

Como se fosse pouco, outra pesquisa indicou que 30% dos eleitores já tinha esquecido o nome do candidato votado 20 dias depois de ir às urnas. Será esse o fruto da obrigatoriedade do voto?

Como escreveu Nicolás Ocarazán: “O voto obrigatório é uma maneira desesperada de tentar que os apáticos votem. Mas se a política é incapaz de seduzi-los pela via das ideias, para que obrigá-los a participar em um sistema incapaz de ser representativo e participativo?”.

A resistência dos políticos brasileiros ao voto facultativo, ao contrário da grande maioria dos países do mundo, poderia levar a pensar que mais que da defesa de um direito trata-se de interesses inconfessáveis que pouco tem a ver com a defesa dos valores da verdadeira democracia.

Para onde vão os 10% da educação?

João Batista Araujo Oliveira (*)
O Estado de São Paulo

Tornou-se natural esperar que políticos façam promessas, e não que as cumpram. No caso da educação, o preço a pagar é alto, pois impede um debate qualificado sobre importantes questões, como a do salário dos professores. A valer o que circula pela mídia, fiados nos presumidos 10% do PIB para o setor, alguns de nossos candidatos ao pleito de outubro prometem aos professores aumentos significativos nos próximos anos. Nada mais justo e necessário. Mas há recursos para isso?

Hoje temos no Brasil mais de 2 milhões de professores da educação básica - cerca de 35% nas redes estaduais e 65%, nas municipais. Levando em conta os contratos de dupla jornada, é quase o dobro do que precisamos, tendo em vista que há apenas 1,5 milhão de turmas. E ainda temos a perspectiva de aumento de vagas na educação infantil. Ao custo médio atual, essa conta gira em torno de R$ 60 bilhões por ano, o que representa quase 3% do PIB.

Há, igualmente, uma conta de professores inativos, que anda por volta de R$ 30 bilhões/ano, cerca de 1,5% do PIB. Mesmo sem aumento de salários, nos próximos 15 anos essa conta vai para 2% do PIB. Para pagá-la não há dinheiro do Fundeb e na maioria dos Estados e municípios não existe um fundo de pensão, ou provisão especial, ou ainda recursos orçamentários próprios. Mais cedo ou mais tarde, Estados e municípios vão passar a conta para a viúva, que, por sua vez, tomará dinheiro dos contribuintes, se ainda houver o que deles tirar.

Pela legislação vigente, professores aposentam-se com 25 anos de serviço, em média vivem outro tanto e, normalmente, recebem os mesmos benefícios e aumentos dos profissionais da ativa. Pelo andar da carruagem demográfica, e com um esforço de eficiência e racionalidade, poderíamos reduzir nosso plantel a um total máximo de 1,5 milhão de professores da ativa. Nos próximos anos, portanto, poderemos ter um contingente aproximado de 1,5 milhão na ativa e igual total de aposentados.

Suponhamos que, nos próximos anos, os governos aumentem em 50% o salário dos professores e esse valor caiba dentro do valor do Fundeb. Isso representará um incremento de 1% do PIB na conta dos aposentados. Se o salário dos professores da ativa dobrar, significará 2% em cima de uma conta que hoje já não fecha. A conclusão é simples: para melhorar os salários da categoria hoje atuante é preciso desenvolver políticas inovadoras e diversificadas que contemplem de forma diferenciada o contingente de ativos e inativos no presente e ambas as categorias no futuro. E isso não deverá ser feito a expensas das futuras gerações de crianças, como ocorre hoje.

A maneira simplista de lidar com esse tipo de questão é empurrá-la para debaixo do tapete, como se tem feito desde a Lei do Piso. Ou apelar para a retórica e dizer que basta vontade política, pois recursos não são problema. Político gosta muito de trocar pneu com o carro andando. Mas em educação as coisas não funcionam assim. Se está claro que o futuro do País depende de professores bem remunerados, é preciso um debate sério para decidir como resolver essa questão. E não é hipotecando metade dos presumidos novos recursos para pagar aposentados.

Sabemos que períodos eleitorais não são, por natureza, bons momentos para descer a detalhes e muito menos tomar medidas revolucionárias ou receitar remédios amargos. Nesse terreno não há Tiririca, se deixar como está, pior fica. Mas a ocasião permite ao menos pôr a discussão no prumo certo. E algumas provocações podem interessar àqueles que se dizem defensores dos interesses das crianças.

A primeira, portanto, que merece toda a atenção, é a dos recursos. Quem vai pagar a conta? Estados e municípios não têm dinheiro para enfrentar o contingente de aposentados que vem por aí. Quem promete isso não cumprirá se a equação ficar do jeito que está.

Segunda questão: Estados e municípios não podem continuar com as políticas e regras atuais relativas a tempo de serviço, horas de trabalho, fundos de pensão sem fundo. Mas essas regras dependem de iniciativas do Executivo ou do Congresso para mudar. Onde estão os interessados nos interesses das crianças? Alguém está disposto a rever o Plano Nacional de Educação e as ineficiências que ele se propõe a aumentar?

Terceiro, não há recursos para criar carreiras atrativas para os professores de que precisamos e, ao mesmo tempo, repassar os mesmos benefícios para o atual plantel e para os inativos. É preciso propor políticas diferenciadas, regras de acesso e de transição. Só assim os governos farão justiça às futuras gerações. Alguém já fez as contas e andou pensando nisso?

Quarto, ao pensar em políticas diferenciadas e novas carreiras é preciso levar em conta a expansão do ensino infantil, a expansão do ensino em tempo integral e a viabilidade de novas formas de agrupamento de alunos e formação de turmas em face das novas tecnologias. Também será necessário pensar em formas diferenciadas de acesso ao magistério e em carreiras diferenciadas e de duração determinada, como já se faz para serviços civis nas Forças Armadas. Se medidas como essas forem implementadas de forma consistente, a conta pode fechar.

Crianças não votam. Criar carreiras atrativas para professores e ao mesmo tempo fechar a conta são desafios para gente que pensa grande, para líderes políticos de grande envergadura. Esta pode ser uma excepcional oportunidade para governantes com visão de estadista transformarem limão em limonada. E também para professores bem preparados e que se consideram mal remunerados terem acesso a carreiras interessantes.

O Brasil ainda não começou a verdadeira reforma educativa. É preciso dar o primeiro passo com a criação de carreiras para atrair e manter jovens talentos no magistério. Dos que estão hoje na corrida eleitoral, alguém se habilita a realizar um debate consequente?

(*) João Batista Araujo Oliveira é presidente do Instituto Alfa e Beto

Ensino médio testa saídas contra desinteresse e evasão escolar

Paula Adamo Idoeta
BBC Brasil 

Reforma do currículo escolar é um dos pontos vistos como mais importantes para ampliar interesse no ensino médio


De um lado, adolescentes pouco estimulados pelos estudos, muitas vezes cursando séries atrasadas. Do outro, um currículo escolar extenso porém desconectado da realidade, em aulas excessivamente teóricas e incapazes de suprir deficiências anteriores dos alunos.

Esses são, segundo especialistas, alguns dos ingredientes que levam a altos índices de evasão no ensino médio brasileiro, ciclo que é considerado hoje o principal gargalo da educação no país.

O tema voltou a entrar em evidência neste mês com um relatório do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) apontando que, entre os jovens mais pobres, menos de um terço conclui o ensino médio no Brasil.

"É no ensino médio que desembocam todos os problemas anteriores da formação", explica à BBC Brasil Andrea Bergamaschi, gerente de projetos da ONG Todos Pela Educação.

"A criança começa a acumular dificuldades de aprendizado desde a alfabetização; dificuldades em ler e em interpretar. O ensino médio acaba tendo que lidar com tudo isso, além de seus próprios problemas: um currículo escolar desconectado das expectativas do aluno para seu futuro."

Em 2012, apenas 51,8% dos jovens de até 19 anos haviam concluído os anos finais da educação básica brasileira, segundo dados do IBGE compilados pela ONG Todos Pela Educação.

Interesses
E é nessa fase da vida em que os jovens passam a ter outros interesses, além de começarem a se sentir tentados – sobretudo se forem de baixa renda - a largar os estudos e focar esforços em entrar no mercado de trabalho.

"Se o menino começa a perceber que o mercado ou a vida são mais atraentes, e ao mesmo tempo não tem esperança de entrar no ensino superior, o que ele fará na escola?", questiona Angelo Ricardo de Souza, doutor em políticas públicas educacionais da Universidade Federal do Paraná.

Quando os alunos ultrapassam o limite de 25% de falta, seu caso costuma ser encaminhado pelas escolas aos Conselhos Tutelares das respectivas cidades ou bairros.

No Conselho Tutelar do Itaim Paulista, que abrange 430 mil pessoas nesse bairro carente do extremo leste de São Paulo, os cinco conselheiros dizem receber quase dez casos por dia de evasão escolar, de todas as séries.

Há, segundo o conselheiro Edemir de Melo, desde alunos que abandonam a escola após sofrer bullying e ameaças ou por "preguiça mesmo", até alunos sem acompanhamento dos pais ou desmotivados com o que a escola tem a oferecer – o que especialistas dizem ser o grande problema atual.

Em pesquisa realizada em 2012 pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e a Fundação Victor Civita, jovens do ensino médio se queixaram de usar pouca tecnologia na escola e viam pouca utilidade prática em muitas das disciplinas cursadas, de filosofia a sociologia.

Ensino integral
Mas já há iniciativas em curso para implementar mudanças no ensino médio e, com isso, conter o abandono de estudantes.

Desde 2004, está em curso em Pernambuco um plano de educação integral, hoje presente em 320 escolas públicas do estado, explica Marcos Magalhães, presidente do Instituto de Corresponsabilidade Pela Educação, que participa do projeto.

Alguns dos pilares do projeto, diz Magalhães, são voltar mais a escola ao projeto de vida do aluno e incluir habilidades socioemocionais (resiliência, resolução de problemas, estímulo à curiosidade) nas disciplinas ensinadas.

"Além do ensino regular das matérias, incluímos iniciação científica para descobrir os alunos que podem se interessar ou não por ciências; implementamos uma cultura de avaliação sistemática do desempenho dos estudantes, dando tratamento individualizado a quem ficou para trás; e estimulando o jovem a escrever seu projeto de vida e pensar como a escola pode ajudar a alcançá-lo", explica Magalhães à BBC Brasil.

Escolas como a Chico Anysio testam 
o ensino integral e reforma de currículos escolares

Hoje, segundo ele, o projeto está sendo implementado em escolas de outros cinco estados (Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Espírito Santo) e a taxa de evasão fica em torno de 5% (contra cerca de 50% no sistema educacional geral).

Iniciativa semelhante está em curso na escola estadual Chico Anysio desde 2012, no Rio, que reformou seu currículo com a ajuda do Instituto Ayrton Senna.

Lá também o ensino se tornou integral e passou a incluir habilidades socioemocionais nas aulas, para "sair da decoreba e dar significado ao conteúdo", diz Mozart Neves Ramos, diretor de articulação do instituto, que ofereceu um curso de formação aos professores para o novo currículo.

Ramos afirma que a evasão "praticamente inexiste nesse novo modelo, mas isso não é o principal - e sim renovar o currículo escolar para aproximá-lo mais do mundo juvenil".

O modelo de educação integral custa mais caro: cerca de R$ 1,5 mil por ano por aluno a mais que o ensino tradicional, que por sua vez requer investimento de cerca de R$ 2,3 mil por ano por aluno no ensino médio. "Mas numa escola assim o aluno aprende", argumenta Magalhães.

Pacto
Em junho, a presidente Dilma Rousseff sancionou sem vetos o Plano Nacional da Educação, que objetiva, entre outras metas, oferecer ensino em tempo integral em no mínimo 50% das escolas públicas.

Em audiência pública em abril, o ministro da Educação, Henrique Paim, afirmou que o ensino médio é o setor com mais problemas e um dos principais desafios da pasta.

Uma das maiores dificuldades é que muitos alunos já chegam atrasados ao ensino médio: um terço dos alunos desse ciclo está cursando uma série defasada em relação a sua idade, segundo dados de 2012.

Em resposta, o governo lançou em novembro passado o Pacto Nacional Pelo Fortalecimento do Ensino Médio, que prevê, entre outros pontos, uma discussão sobre o currículo escolar, a ampliação do ensino integral e o aperfeiçoamento da formação dos professores.

Segundo a professora Monica Ribeiro da Silva, que coordena as ações nacionais de formação de professores no Pacto, 350 mil deles deverão passar por cursos de formação continuada até 2015, para discutir os perfis dos jovens do ensino médio, currículo e gestão escolar, avaliações e organização do trabalho pedagógico. Em seguida, a serão discutidas as disciplinas ensinadas.

"A preocupação é qualificar o professor para que ele consiga enfrentar o abandono escolar", diz Ribeiro da Silva, que também é professora da Universidade Federal do Paraná.

Para Bergamaschi, da Todos Pela Educação, a formação de professores é um desafio em todo o ciclo educacional brasileiro: "Muitos dão aulas de disciplinas nas quais não têm formação. É imprescindível uma reforma na formação deles, que lhes permita dar uma aula mais relevante e com uma nova metodologia."

Fora isso, é preciso trabalhar para reduzir a defasagem entre idade dos alunos e a série cursada por eles, bem como repensar a quantidade de disciplinas ensinadas no ensino médio – que costumam ser entre 15 e 19 -, opina Tufi Machado Soares. Ele é autor de estudo sobre evasão escolar para a Universidade Federal de Juiz de Fora, em que entrevistou cerca de 800 jovens que evadiram a escola.

"A maioria dos jovens reconhece a importância da escola. Mas ela está em descompasso com suas necessidades, e muitos têm dificuldade em acompanhar o conteúdo. Precisamos que os jovens concluam as etapas (prévias) de ensino na idade correta."

Números do ensino médio brasileiro

·         O número de matrículas no ciclo aumentou 120% em 21 anos, para 8,37 milhões de matrículas em 2012, segundo o Ministério da Educação
·         Apenas 51,8% dos jovens de 19 anos haviam concluído o ensino médio em 2012, segundo o Anuário da Educação (da ONG Todos Pela Educação, com informações do IBGE)
·         31,1% dos alunos do ensino médio estavam cursando série não ideal para sua idade em 2012

‘O ensino médio se reduziu a uma preparação para o vestibular’, diz educadora

O Globo

Filósofa e professora Viviane Mosé critica modelo educacional do país

Mônica Imbuzeiro
 Mosé: o professor é quem ensina a lidar com as novas mídias 

Para a filósofa Viviane Mosé, educadores precisam refletir sobre as reais demandas dos alunos e adequar o ensino aos novos tempos. Ela participará do encontro internacional “Educação 360”, que será realizado pelos jornais O GLOBO e “Extra” de 5 a 6 de setembro na Escola Sesc de Ensino Médio, no Rio, em parceria com o Sesc e a prefeitura do Rio e apoio do Canal Futura

A sra. já disse que precisa haver uma revolução no ensino médio. Que revolução seria essa?
Se o ensino fundamental tem melhorado, o ensino médio permanece estagnado. Como trata da educação de adolescentes e jovens, é hoje o olho do furacão. Mesmo com oferta de vagas, com a melhora das condições físicas das escolas, muitos jovens abandonam os estudos, fenômeno que já aparece nos anos finais do ensino fundamental. A escola, do modo como está estruturada, não consegue atrair. Se esse fenômeno acontece em muitos países, em função da democratização do saber permitida pela internet, no Brasil se apresenta de modo ainda mais grave, já que o ensino médio se reduziu a uma preparação para o vestibular. Como as escolas públicas não conseguem competir com as particulares, jovens das classes populares não encontram nada na escola: nem acesso à universidade, nem ferramentas que o ajudem a viver melhor, nem acesso ao mercado de trabalho, nem espaço de encontro e experiências lúdicas. Muitas medidas paliativas têm sido tomadas, como as cotas para as escolas públicas nas universidades, mas nada disso resolverá o problema. O Brasil precisa repensar o ensino médio, que deve oferecer diferentes possibilidades, dependendo da vocação e do interesse do aluno.

O que torna um projeto educacional bem-sucedido?
Um projeto é bem sucedido quando as crianças aprendem e não abandonam a escola. Quando encontram na escola um espaço de crescimento não apenas intelectual, mas humano. A escola não deve se sustentar na administração de conteúdos, mas na aquisição de ferramentas para viver melhor. Os conteúdos estão disponíveis na rede, precisamos estimular a capacidade de ler e interpretar dados e sofisticar nossa habilidade de ler o mundo. Essa é uma escola que dá certo, pois permite que a pessoa continue aprendendo.

Qual o novo papel do professor?
Nós, professores, nos sustentávamos nos conteúdos que tínhamos e devíamos passar aos alunos. Hoje, esses conteúdos estão disponíveis, muitas vezes, com mais dinamismo e qualidade nas novas mídias. Então, nosso poder passa a ser o de preparar os alunos para lidar com as mídias. Isso significa incentivar a inteligência, o pensamento e, especialmente, a capacidade de filtrar dados e interpretá-los, para que não sejam levados por uma onda de informação manipulada ou de má qualidade. O professor não é mais quem sabe tudo, mas quem se interessa por tudo. A educação caminha para a formação de pesquisadores, e isso é muito favorável.

As escolas precisam olhar mais para as comunidades ao redor?
Elas devem se abrir para o mundo. Não podem mais se esconder por trás de altos muros. Os desafios do mundo devem ser questões presentes no cotidiano das escolas, não apenas questões acadêmicas abstratas. Mas esse mal, o isolamento, deve começar a ser vencido nas universidades, que nasceram dos conventos, com seus altos muros.

Muitos especialistas associam as manifestações do ano passado ao aumento do acesso à educação. Acredita nesta conexão?
De forma nenhuma. As manifestações são consequência do acesso às novas mídias, que rapidamente reúne pessoas. Mas essa reunião se deu em um momento em que as pessoas ainda não têm uma educação de qualidade, voltada para a vida, para as questões sociais. Sem rumo, elas se perderam, não produziram conquistas, desembocaram em violência. Em breve, teremos outro cenário: manifestações, sim, enormes, mas com direção, sentido, maturidade política e intelectual.

No encontro “Educação 360”, a senhora vai participar de uma mesa sobre as iniciativas de educação que partem do Brasil. As ações brasileiras guardam um diferencial comum?
Não há uma gente mais criativa que a nossa, eu penso. Depois de andar do Oiapoque ao Chui, tenho a honra de conhecer experiências incríveis e inéditas que dão muito certo. Muitas vezes, escolas muito pobres; em outras, mais ricas, sempre com criatividade e vontade, conseguem produzir uma educação de qualidade. Temos de valorizar essas práticas e compartilhá-las, precisamos adotar o modo brasileiro de educar que dá certo, e não importar modelos, o mundo inteiro repensa a educação.

Aumento da escolaridade brasileira muda perfil do eleitor

Exame.com
Ana Cristina Campos, Agência Brasil (*)

Especialistas afirmam que há um novo eleitor em construção e a melhora no nível educacional pode se transformar em mais consciência política

Elza Fiúza/Agência Brasil 
Pessoa utilizando uma urna eletrônica: melhora no nível de educação
 pode contribuir para a mudança no perfil do eleitor

Brasília - Se antes era prática comum prometer cestas básicas, emprego ou tratamento médico em troca de votos para conquistar um mandato, com o aumento da escolaridade do eleitor brasileiro essas propostas começam a perder espaço para um voto de mais qualidade.

Para especialistas, há um novo eleitor em construção e a melhora no nível educacional pode se transformar em mais consciência política no médio prazo.

Apesar de a maior parte dos eleitores ainda ter baixa escolaridade, houve aumento no número de pessoas com superior completo e incompleto e ensino médio completo e incompleto.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que dos 142,8 milhões de eleitores aptos a votar no pleito de outubro, 5,6% (8 milhões) terminaram a graduação - 2,8 milhões de pessoas a mais que nas eleições de 2010.

O número de pessoas com superior incompleto também subiu em relação a 2010 – aumentou em 1,5 milhão, passando de 2,7% para 3,6%. O número de cidadãos com ensino médio completo aumentou em 5,9 milhões de pessoas, de 13,1% para 16,6%. Já o número de eleitores com ensino médio incompleto teve um incremento de 1,8 milhão, de 18,9% para 19,2%.

Em contrapartida, o número de analfabetos e dos que apenas leem e escrevem (analfabetos funcionais) diminuiu. São cerca de 700 mil analfabetos a menos que na eleição de 2010, passando de 5,8% dos eleitores para 5,1%. No caso dos analfabetos funcionais, são 2,5 milhões a menos no pleito de 2014, de 14,5% do eleitorado para 12%.

Para o cientista político Leonardo Barreto, especialista em comportamento eleitoral, o índice de desenvolvimento educacional do eleitor é reflexo da evolução dos indicadores de educação da população brasileira. “As pessoas melhoraram a capacidade de buscar e processar informações porque é isso que, basicamente, o nível de educação mais elevada proporciona.”

O Censo Demográfico 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou que o nível de escolarização, de um modo geral, tem melhorado no país. No grupo acima de 25 anos, idade considerada suficiente para conclusão da graduação, o número de pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto caiu de 64% em 2000 para 49,3% em 2010.

Com ensino médio completo passou de 12,7% para 14,7% e a proporção de pessoas com ensino superior completo passou de 6,8% para 10,8%.

Para Barreto, ainda não é possível dizer que o país já tem um eleitor mais crítico e consciente. “É um eleitor híbrido, que combina a necessidade de propostas novas para ele, de políticas públicas mais universais, com práticas antigas. Era uma pessoa que até ontem estava dentro de um contingente populacional que era muito suscetível a trocas e a propostas clientelistas. É uma pessoa que está migrando de um lugar para outro, mas que ainda está no meio do caminho porque essa é uma mudança de uma geração.”

De acordo com o especialista, com o aumento da escolarização e da renda, fazer campanha em uma região pobre não significará encontrar um eleitor desprovido de capacidade crítica e de informação. “Na periferia, você vai encontrar pessoas cujos filhos estão fazendo ou fizeram faculdade. Uma geração abastece a outra. O filho que fez faculdade é o orgulho da família, vai influenciar quem não fez. Tem um efeito de dispersão desse conhecimento. Isso torna o processo político mais complexo. Abre uma janela de oportunidades para uma nova geração de políticos. Quem interpretar e conduzir bem esse processo vai sair na frente”, disse.

O professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Roberto Kramer também avalia que o eleitorado brasileiro está em fase de transição. Para ele, os dados do TSE comprovam o gradual avanço nas condições de vida e de educação da população. “Um eleitor mais instruído costuma ser mais exigente. Esse eleitor tende a transcender o nível mais básico de expectativas e necessidades, como o alimento e o teto, e passa a querer políticas públicas mais amplas, de educação, saúde e mobilidade urbana de qualidade.”

Na opinião do especialista, os políticos vão se deparar com uma parcela cada vez maior da população que vai cobrar seus direitos. “Esse novo eleitor certamente vai lançar um desafio para os políticos, que é repaginar suas propostas, suas maneiras de abordagem, pois está mais crítico ao confrontar as promessas que são feitas com a possibilidade de concretização.”

Para a coordenadora-geral da organização não governamental (ONG) Ação Educativa, Vera Masagão, à medida que o país mude o perfil educacional da população, a tendência é que o perfil do eleitorado também seja alterado no sentido de um voto mais consciente.

“Pessoas com mais escolaridade se sentem mais empoderadas, sentem menos o político como alguém de quem precisam para ter um favor. Tendem a romper essa visão do clientelismo, daquele pobrezinho que precisa ir lá pedir favor para o político. Aumentam a consciência cidadã de que eu estou exercendo meu direito votando e que o meu dever também não acaba na hora do voto. Tenho que continuar cobrando e é dever desse gestor público cumprir as promessas que fez. Esse caráter da cidadania é reforçado”, disse.

Segundo Vera, ao lado da educação formal, é preciso ampliar a educação cidadã. “Essa é uma educação que se dá principalmente no engajamento político. Então são pessoas participando de partidos, de ONGs, engajadas, acompanhando causas de interesse público e políticas públicas. É dessa forma que a gente vai, de fato, mudar a política, com mais gente participando e exercendo o controle social.”

*Colaborou Pedro Peduzzi

JOGOS OLÍMPICOS: Obras públicas têm apenas 14,5% dos recursos liberados

Guilherme Serodio e Rodrigo Polito 
Valor

O Parque Olímpico da Barra será o principal palco das competições durante a Olimpíada do Rio. Mas a dois anos do início das competições, obras sob a responsabilidade da prefeitura contam até agora com uma pequena parcela dos recursos previstos já desembolsados. A construção dos quatro principais equipamentos esportivos da área é estimada em R$ 722 milhões em recursos federais, mas apenas R$ 105 milhões - 14,5% do total - foram liberados para erguer um velódromo, centro de tênis, ginásio de handebol e centro de esportes aquáticos.

As obras são tocadas pela prefeitura do Rio com recursos do Ministério do Esporte repassados por convênios com a Caixa Econômica Federal. A situação mais crítica é a do centro de esportes aquáticos. Levantamento do Valor junto à Controladoria-Geral da União e à Caixa com dados atualizados na segunda-feira da semana passada, apontam que apenas R$ 7,8 milhões foram liberados para a obra. O montante soma 3,1% do custo total do projeto, estimado em R$ 219,5 milhões. Nos registros do banco a obra consta como não iniciada e com o contrato "em suspenso" por falta de documentação de projeto, falta de titularidade ou licença ambiental.



Na Matriz de Responsabilidade, a Barra da Tijuca receberá os maiores investimentos para a Olimpíada. Ao todo, o bairro receberá R$ 5,5 bilhões, entre os quatro projetos e a PPP do Parque Olímpico. O valor total estimado para a realização da Olimpíada é de R$ 6,5 bilhões.

Na segunda maior instalação olímpica, o complexo esportivo de Deodoro, os recursos federais para construção e adequação de instalações esportivas ainda não foram liberados. As obras são estimadas em R$ 804 milhões em verbas do Ministério do Esporte. Nos dados do Sistema Integrado de Administração Financeira, que acompanha desembolsos do governo, há apenas um convênio registrado para a elaboração do projeto básico, embora a prefeitura do Rio diga que as obras já começaram.

A demora no avanço das obras aperta o cronograma. O Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, entidade responsável por organizar os jogos, afirma que os eventos teste nas instalações da Barra estão previstos a partir de julho de 2015. Mas, de acordo com a Empresa Olímpica Municipal (EOM), as obras no local estão em "fase de fundação", com previsão de conclusão entre outubro de 2015 e março de 2016.

Para o presidente da EOM, Joaquim Monteiro de Carvalho, não há preocupação com atrasos. "A gente está muito afinado com o governo federal, todos os entes estão afinados", disse ao Valor.

Presidente da Empresa Municipal de Urbanização (RioUrbe), órgão responsável pela administração das obras geridas pela prefeitura, Armando Queiroga reconhece que os prazos são apertados. Para não perder tempo, as empreiteiras contratadas para o parque de Deodoro já estão instalando canteiros de obras mesmo sem que o convênio com o Ministério do Esporte tenha sido assinado. Segundo ele, o mesmo procedimento foi usado nas arenas do parque da Barra.

Na Barra, a prefeitura já pagou R$ 22 milhões às empreiteiras contratadas. Os recursos são as primeiras parcelas liberadas pelo governo federal a partir de maio.

Queiroga afirmou que o trabalho nos canteiros de obra do parque da Barra seguem "em velocidade de cruzeiro", mas reconheceu os problemas no convênio do centro de esportes aquáticos que mantêm os repasses suspensos.

"Os últimos ajustes foram sanados e o status [da obra] deve mudar na próxima semana, mas isso não engessa a nossa obra", disse. Mesmo sem novas liberações da Caixa, os operários trabalham no local. De acordo com Queiroga, o pagamento às empreiteiras está em dia. Apesar de não trabalhar com a hipótese de represamento de recursos pelo governo, a prefeitura empenhou uma quantia para ser usada em emergência.
"A gente entende isso [a implantação das estruturas olímpicas] como um caminho crítico. Temos reuniões quinzenais da alta cúpula do Ministério do Esporte, Caixa e prefeitura. É um investimento pesado e a gente sabe que o empresário tem de ter um fluxo de caixa. Controlamos quinzenalmente o fluxo de caixa", afirmou Queiroga. "A máquina é gigantesca e pode emperrar a qualquer momento", reconheceu.

Em nota, o Ministério do Esporte afirmou que empenhou R$ 331,4 milhões para os projetos da Barra. A pasta afirmou que as liberações ocorrem à medida que a Caixa aprova a evolução das obras. O ministério negou problemas na liberação de valores e disse que não há risco de atrasos pois "repasses e cronograma de obras estão em dia", inclusive no centro de esportes aquáticos. Sobre Deodoro, o ministério afirmou apenas que "a liberação começará assim que houver avanço do cronograma de execução".

Tombini açucarou a crise

O Estado de S. Paulo 
Editorial

A economia brasileira deve ter crescido perto de zero no primeiro semestre e o resultado do ano deve ser inferior aos 2,5% de expansão de 2013, segundo o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini. Traduzida para a linguagem corrente, foi essa a avaliação apresentada no Senado na terça-feira. A tradução ainda é suave, mas muito menos que o discurso original. Diante dos senadores, o presidente Tombini usou palavras macias para falar da crise: "Na avaliação do Banco Central, o ritmo de expansão da atividade econômica em 2014 tende a ser menos intenso do que o observado no ano passado, mostrando moderação, próximo da estabilidade, no primeiro semestre, e recuperação ao longo do segundo semestre deste ano". No caso de um país emergente, descrever um ritmo inferior a 2,5% como "menos intenso" é abusar do eufemismo, especialmente quando o próprio BC já cortou de 2% para 1,6% sua projeção de aumento do Produto Interno Bruto (PIB).

Apesar do excesso de açúcar, a fala do presidente do BC foi geralmente fiel aos fatos conhecidos - pelo menos para o ouvinte razoavelmente informado e em condições de ultrapassar as barreiras da linguagem. O baixo crescimento neste ano e nos três anteriores é apenas parte de um cenário mais assustador. Para avançar com maior velocidade e maior firmeza, a economia brasileira precisará investir muito mais, e com muito maior eficiência, em máquinas, equipamentos, construções privadas e infraestrutura. Esse investimento foi muito baixo nos últimos anos e ainda caiu no primeiro semestre de 2014. Mas a história parece muito menos desagradável na linguagem do presidente do BC. "Prospectivamente", disse ele, "minha avaliação é de que o desempenho da formação de capital neste ano será menos favorável do que o observado em 2013."

No ano passado, o investimento correspondeu a pouco mais de 18% do PIB. Nos 12 meses terminados no primeiro trimestre de 2014, ficou em 17,7%. Os dados parciais da primeira metade do ano indicam produção e importação de máquinas e equipamentos menores que as de um ano antes. O total investido na capacidade produtiva será neste ano ainda mais distante da meta, anunciada e repetida pelo governo, de 24% do PIB. Essa proporção ainda será inferior à da maior parte dos outros países emergentes, incluídos vários latino-americanos. Sem negar explicitamente os fatos conhecidos e as projeções contidas até nos documentos do BC. Tombini conseguiu, no entanto, adoçar consideravelmente a descrição.

Com igual cuidado, ele se absteve de confrontar o desempenho econômico do Brasil com os de países emergentes mais dinâmicos e com taxas de inflação bem menores. Na descrição do cenário internacional, mencionou a série de revisões, para baixo, das projeções de crescimento publicadas por várias fontes nacionais e internacionais. As tendências observadas até agora, segundo ele, confirmam a expectativa de recuperação global mais lenta que a prevista no ano passado. A recuperação provavelmente continuará, ressalvou o presidente do BC, mas só ganhará mais impulso quando os espíritos animais dos empresários forem restabelecidos totalmente.
Até aí, a análise émuito parecida com a de muitos outros especialistas. Mas o presidente do BC comete uma espécie de contrabando, em sua descrição da cena global, ao tratar como parte de uma tendência geral a piora das previsões para a economia brasileira. A revisão para baixo das projeções de crescimento, segundo ele, "engloba países avançados, como os Estados Unidos, assim como economias emergentes, como o México, a China, o Brasil", etc.

As revisões, de fato, são gerais, mas é um tanto abusivo diluir o caso brasileiro nesse conjunto. O desempenho do Brasil tem sido, há anos, bem pior que o da maioria dos emergentes e as projeções para o País, neste e nos próximos quatro ou cinco anos, continuam muito ruins. Os obstáculos ao crescimento brasileiro são na maior parte de origem interna. Não se pode examiná-los adequadamente sem uma discussão franca da política econômica. O discurso do presidente do BC passou longe desse quesito.

Mais atenção à indústria

Correio Braziliense
Editorial 

A mais nova rodada de maus resultados da indústria sugere que a recuperação do setor, um dos mais importantes da economia brasileira e tradicional criador de empregos formais e duráveis, requer do próximo governo a sua inclusão entre as prioridades da política econômica.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) informou ontem que, em junho, o faturamento real da indústria caiu 5,7% e as horas trabalhadas na produção tiveram queda de 3%, na comparação com maio, na série livre de influências sazonais.

Foi a quarta queda mensal consecutiva da atividade industrial no país, sem qualquer sinal de melhora nos próximos meses. Os dados de junho ajudaram a consolidar o mau desempenho do setor no primeiro semestre, quando o faturamento real caiu 1% e as horas trabalhadas na produção tiveram queda de 2,2%, ante o mesmo período do ano passado.

Outro dado preocupante, que reflete o quadro de desaceleração da atividade industrial, revela que a utilização da capacidade instalada das fábricas ficou em 80,1% em junho, ante 80,6% registrado em maio, em mais um passo rumo à estagnação. Só o emprego e os salários ainda resistem e é pensando neles que algo mais consistente precisa ser feito.

Para começar, seria bom uma mudança de diagnóstico, a aceitação de que faltou uma política industrial horizontalizada, em vez de medidas pontuais e setoriais. A perda de competitividade da indústria brasileira não é, certamente, um fato único na economia mundial, principalmente depois da explosão da capacidade produtiva da China. Mas a invocação de demônios externos, ainda que verdadeiros, não pode satisfazer a quem tem o dever de reagir e de buscar soluções realistas.

Uma realidade inconteste é que o caminho que o Brasil terá de percorrer no campo da educação para conseguir se alinhar aos países mais competitivos tem a duração do tempo perdido por décadas de abandono e de equívocos. Também é certo que, antes de vencer esse desafio, o país precisa buscar a inovação, mas ainda não pode sonhar com a troca do chão das fábricas pela indústria da inteligência. Não de imediato.

Está claro, então, que é urgente a recuperação da indústria brasileira, mas não por meio de curativos e analgésicos. A questão do custo Brasil precisa deixar de ser apenas literatura e passar a ser encarada com seriedade e de modo amplo. Por exemplo, o custo do setor público é cada vez mais alto, o que impede a redução da carga tributária. Esse custo tem ainda o grave efeito colateral de impedir o investimento público, que, nos últimos anos, tem perdido a corrida para o aumento dos gastos com pessoal e custeio dos vários níveis de governo.

Superada a estéril discussão sobre o papel do Estado no desenvolvimento, está claro que cabe a ele definir marcos regulatórios atualizados e estimular a construção de infraestrutura que garanta redução de custos na produção industrial e agropecuária. Para isso, terá de se associar ao capital e à eficiência da iniciativa privada, sem vieses anacrônicos - que, até agora, só nos atrasaram -, e, por fim, conduzir com previsibilidade e transparência a política econômica. Que os candidatos à Presidência se comprometam e se preparem para cumprir essa prioridade.

Produção industrial cai em junho em 11 locais, diz IBGE

Exame.com
Daniela Amorim, Estadão Conteúdo

No mês, os recuos mais acentuados foram registrados no Amazonas (-9,3%), Paraná (-7,5%), em Pernambuco (-7,4%) e no Ceará (-5,4%)

Marcos Issa/Bloomberg News 
Na direção oposta, houve expansão no Pará (6,7% no último ano), 
puxado pelo setor extrativo (minérios de ferro em bruto)

Rio - A produção industrial caiu, no mês de junho, em 11 dos 14 locais pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou a Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física Regional. Em São Paulo, principal parque industrial do País, houve queda de 1,0%.

No mês, os recuos mais acentuados foram registrados no Amazonas (-9,3%), Paraná (-7,5%), em Pernambuco (-7,4%) e no Ceará (-5,4%).

No Amazonas, a perda acumulada em quatro meses seguidos de queda na produção chegou a 19,2%.

No Paraná, o resultado negativo reverteu o avanço de 0,7% verificado no mês anterior.

Em Pernambuco, a indústria acumulou um recuo de 8,9% entre os meses de abril e junho.

Já o Ceará interrompeu dois meses consecutivos de crescimento na produção, período em que acumulou expansão de 0,8%.

As demais taxas negativas foram verificadas na Região Nordeste (-4,4%), em Santa Catarina (-4,0%), no Rio Grande do Sul (-2,3%), Pará (-2,0%), em Minas Gerais (-1,7%) e na Bahia (-1,1%).

No período, a média nacional da indústria foi de queda de 1,4%. Na direção oposta, houve avanço nas indústrias do Rio de Janeiro (5,4%), Espírito Santo (3,5%) e Goiás (0,4%).

Em relação a junho de 2013 a produção industrial em junho de 2014 encolheu em 12 dos 15 locais pesquisados.

Houve recuo no Amazonas (-16,1%), Paraná (-14,0%), na Bahia (-12,1%), no Rio Grande do Sul (-11,9%), na Região Nordeste (-8,3%), em Santa Catarina (-7,5%), Pernambuco (-7,3%), no Mato Grosso (-7,1%), Ceará (-6,7%), em São Paulo (-6,5%), Minas Gerais (-6,1%) e no Rio de Janeiro (-2,1%). No mesmo período, a média da produção industrial nacional ficou em -6,9%.

Na direção oposta, houve expansão no Pará (6,7%), puxado pelo setor extrativo (minérios de ferro em bruto), além do Espírito Santo (4,1%) e de Goiás (3,3%).

Produção e vendas de veículos no Brasil têm pior julho desde 2006, diz Anfavea

O Estado de São Paulo
 Com informações Agência Reuters

Segundo Anfavea, queda tem sido causada por fraquezas no mercado interno e nas exportações

A produção das montadoras em julho diminuiu 20,5 por cento
 em relação ao mesmo período no ano passado

A indústria de veículos do Brasil teve em julho seu pior resultado de produção e vendas para o mês desde 2006, segundo dados divulgados nesta quarta-feira, 6, pela associação que representa o setor, Anfavea.

A produção das montadoras no mês passado somou 252,6 mil carros, comerciais leves, caminhões e ônibus, queda de 20,5% sobre julho de 2013. Ante o mês anterior, houve alta de 17%. No acumulado do ano, a indústria produziu 17,4%, ou 1,82 milhão de unidades. 

Em julho de 2006, foram produzidos 221,7 mil veículos.     
     
A queda tem sido causada por fraquezas no mercado interno, atingido por reticência dos bancos na concessão dos crédito, e das exportações, que em julho caíram 36,7% sobre um ano antes, para 34,2 mil veículos, segundo a entidade.

O cenário tem feito uma série de montadoras a ajustar produção por meio de concessão de férias, suspensão de contratos de trabalho e redução de jornadas em fábricas e obrigou o governo federal a adiar para o fim do ano aumento de carga tributária que deveria ter ocorrido no final de junho.

Segundo a Anfavea, o nível de emprego nas montadoras fechou julho em 150.295 postos ocupados, queda de 4,2% sobre um ano antes.

Por segmento, a produção de carros e comerciais leves caiu 19,9% em julho em relação ao mesmo período do ano passado. Já o volume produzido de caminhões recuou 30,5%, enquanto ônibus tiveram queda de 22,9%.

As vendas de veículos novos no mercado interno no mês passado subiram 11,8% na comparação com junho, diante de um período maior de comercialização, mas tombaram 13,9% sobre julho de 2013, para 294,8 mil unidades, segundo a Anfavea. No acumulado do ano, o setor acumula vendas de 1,96 milhão de veículos, queda anual de 8,6 por cento.

Em julho, a Anfavea reduziu suas projeções de desempenho da indústria este ano, prevendo queda de 10% na produção e recuo de 5,4% nas vendas no mercado interno. A projeção para as exportações é de queda de 29%. Na ocasião, os estoques de veículos novos à espera de comprador eram de cerca de 400 mil unidades, suficiente para mais de 40 dias de vendas.

Com produção caindo mais do que as vendas, o estoque de veículos nas fábricas e nas concessionárias caiu de 395,5 mil para 382,6 mil unidades de junho para julho.

BC e Argentina. 
O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, diz que as medidas adotadas recentemente pelo Bando Central para reduzir o compulsório bancário, que injetarão quase R$ 45 bilhões na economia, devem ter um impacto positivo no setor automobilístico.

"As medidas foram uma surpresa positiva, a economia brasileira precisava desta liquidez. Mas nós entendemos que a rede bancária precisa de uma análise apurada para decidir onde aplicar", comentou Moan. Segundo ele, os primeiros efeitos positivos das medidas devem ser sentidos já no final deste mês e início de setembro.

Moan também comentou que a questão do novo calote da Argentina não deve ter um grande impacto no setor automotivo brasileiro, "apesar de o país ser o destino de quase 75% das nossas exportações". Segundo ele, os governos dos dois países estão trabalhando na expansão do comércio e o acordo bilateral fechado em junho prevê um aumento de integração produtiva. Com isso, os vizinhos poderão negociar, em conjunto, a abertura de novos mercados externos.

"Estamos trabalhando fortemente em uma maior integração na América do Sul, e num segundo momento vamos trabalhar o mercado africano", comentou o executivo, lembrando que o Mercosul ainda negocia um acordo comercial com a União Europeia.

Mais duas montadoras adotam lay-off

Cleide Silva 
O Estado de S. Paulo

Mercedes-Benz e Man Latin America suspenderam contratos de trabalho temporariamente e Iveco dá férias

Estoques em alta. Caminhões lotam pátio 
da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo

Com redução de 13% nas vendas no resultado acumulado em sete meses e sem perspectivas de melhora no curto prazo, fabricantes de caminhões e ônibus continuam a ampliar medidas de corte de produção. Nesta semana, três empresas, a Mercedes-Benz, a Man Latin America e a Iveco, dispensaram trabalhadores pelo sistema de lay-off (suspensão temporária de contratos) e banco de horas.

A Mercedes-Benz colocará em lay-off 158 funcionários da fábrica de Juiz de Fora (MG) a partir do dia 18, com retorno em janeiro. A unidade produz caminhões e emprega 750 pessoas. Na fábrica de São Bernardo do Campo (SP), 1,2 mil trabalhadores entraram em lay-off em 1.º de julho. A unidade produz caminhões, ônibus, motores e câmbio e emprega cerca de 9,5 mil pessoas na produção.

Além do lay-off, a Mercedes mantém um Programa de Demissão Voluntária (PDV) em São Bernardo com meta de cortar 2 mil vagas, consideradas ociosas. Até agora, obteve 1,1 mil adesões, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

A MAN, que também produz caminhões e ônibus da marca Volkswagen, colocou 100 trabalhadores em lay-off a partir de segunda-feira, por período de cinco meses. A empresa, que junto com fornecedores de peças emprega 5,5 mil pessoas no complexo de Resende (RJ), já havia adotado o lay-off em março para 200 pessoas. Esses funcionários retornariam neste mês, mas, segundo a MAN, aceitaram oferta de indenização especial de R$ 4 mil a R$ 5 mil e deixaram a montadora.

Com fábrica em Sete Lagoas (MG), a Iveco vai deixar em casa 1,5 mil trabalhadores e parar a produção de caminhões pesados entre os dias 4 e 20 deste mês, e a de veículos leves entre 4 e 15. É a terceira medida desse tipo desde abril, quando deu férias coletivas para 500 trabalhadores. Em junho, foram mais dez dias de parada técnica para 800 pessoas, mesmo expediente adotado desta vez.

"A medida tem por objetivo equacionar o número de pessoas disponíveis e a produção necessária para o período", informa a Iveco, que emprega 3,7 mil pessoas. Setores como expedição e CKD não vão parar.

Vendas. 
As vendas de caminhões e ônibus somaram 95,2 mil unidades de janeiro a julho, 13% menos que as 109,5 mil unidades de igual período de 2013.

No lay-off, o funcionário pode ficar afastado por até cinco meses. Nesse período, parte do salário (R$ 1,3 mil) é bancada pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e o trabalhador precisa frequentar um curso de qualificação profissional.

Também estão com trabalhadores em lay-off a Volkswagen (750 na fábrica de São Bernardo do Campo e 400 na de São José dos Pinhais, no Paraná) e a Ford (108 pessoas na unidade de motores em Taubaté, São Paulo). A PSA Peugeot Citroën, que tinha 650 trabalhadores afastados no Rio, abriu um PDV e obteve adesão da maioria dessas pessoas.

A General Motors negocia na sexta-feira com o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos um lay-off para cerca de mil trabalhadores.


Calote do Brasil na ONU passa de R$ 380 milhões

Diário do Poder

Dívida do Brasil com as Nações Unidas já passa dos R$ 380 milhões

Sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

Sem conseguir cumprir as obrigações financeiras junto à Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2013, o calote brasileiro já soma mais de R$ 380 milhões. De acordo com o último relatório sobre a saúde financeira da ONU, o Brasil é o quinto maior devedor entre 196 países-membros que contribuem para o financiamento das missões de paz, mas estamos em segundo lugar geral na lista de inadimplentes.

Do total da dívida, R$ 122 milhões são referentes às missões de paz da ONU que o Brasil sempre teve o orgulho de fazer parte e até liderar.

A inadimplência pode ter sido um dos motivos que levou Israel, sempre em dia com os pagamentos, a fazer chacota da diplomacia brasileira.

Secretário-Geral da ONU fez menção honrosa aos membros com todos os pagamentos em dia em abril citando um a um, incluindo Timor-Leste.

Ao final do relatório a ONU reitera que a saúde financeira só é mantida quando os países-membros quitam, dentro do prazo, todos os débitos. 

Malha ferroviária produtiva do Brasil é a mesma do Império

Valéria França 
O Estado de São Paulo

Modernizar e expandir ferrovias é o caminho para logística mais eficiente e para produtos competitivos no mercado mundial

SÃO PAULO - Investimentos vultuosos e execução de longo prazo são dois motivos que costumam desanimar os governantes em apostar na ampliação da malha ferroviária brasileira. Gasta-se muito com um projeto que pode ser inaugurado na gestão do político adversário. “Logística é investimento de futuro, e o Brasil precisa melhorar sua malha para ser competitivo mundialmente”, diz Rodrigo Vilaça, presidente da Associação Brasileira de Logística (Analog). 

Dos 27.782 km da malha ferroviária nacional, um terço é produtivo, transportando minério. Os demais trechos são subutilizados. No Império, a linha férrea tinha um terço da extensão atual, mas sua ocupação era equivalente. O setor cresceu pouco se comparado com a malha ferroviária americana, que é dez vezes maior. “A eficiência só virá com 52 mil km de ferrovias interligadas a portos, rodovias e hidrovias”, diz Vilaça. 

Atrair investimentos externos é um dos grandes desafios do governo federal para ampliar a malha ferroviária, conseguir fretes mais baratos e ainda melhorar a logística. “Para se ter uma ideia, o custo de construção de apenas um quilômetro de ferrovia é de U$ 1,5 milhão. Sem contar as pontes e viadutos, que muitas vezes são necessários”, diz Gustavo Bambini, presidente da Associação Nacional de Transporte Ferroviário (ANTF). “O preço médio para a construção de um quilômetro de rodovia é de U$ 200 mil. Ou seja, o valor final de uma ferrovia sai sete vezes mais caro que o de uma rodovia.”



"O custo de construção de apenas um quilômetro de ferrovia
 é de U$ 1,5 milhão. Sem contar as pontes e viadutos, 
que muitas vezes são necessários”, diz Gustavo Bambini

A construção de ferrovias também leva mais tempo. Em seis meses, abre-se 500 quilômetros de estrada de terra. A mesma extensão de uma ferrovia levaria cinco anos. Hoje a malha ferroviária é 50 vezes menor que a rodoviária.

No ano passado, os investimentos públicos e privados aplicados em estradas somaram R$ 11,92 bilhões, e em ferrovias, R$ 7,30 bilhões. “O mercado fica mais inseguro em apostar em projetos de longo prazo, como uma linha férrea”, diz Roberto Fantoni, diretor de pesquisa da consultoria McKinsey, “É preciso acenar para os investidores com garantias de lucratividade e de que as regras não vão mudar ao longo dos anos.” 

Avanço. 
Em 2012, o governo federal lançou o Plano de Investimentos em Logística (PIL), que prevê a sinergia entre todos os modais de transporte. O governo estabeleceu como meta a construção ou melhoria de 11 mil km de estradas de ferro. Para isso seriam necessários R$ 99,6 bilhões. Menos de um terço dessas obras foram feitas até agora. E para atrair mais investidores, também contemplou um novo modelo de concessão (por 35 anos) e estabeleceu novos papéis. A Valec, empresa que antes cuidava da construção e da operação, agora passa a monitorar o tráfego de linhas férreas, num sistema parecido como das aerovias, onde são vendidas horas de voos às companhias. 

O Instituto de Pesquisas e Estudos Avançados (Ipea), que analisou o sistema ferroviário a partir de 1997, quando houve a privatização de ferrovias, apontou falhas no novo modelo, como não estimular um maior nível de investimentos, não propiciar melhor utilização da malha ferroviária em toda a sua extensão e não permitir maior concorrência entre as concessionárias. “Há realmente problemas no modelo, mas que estão sendo discutidos”, diz Vilaça. “Desde que o governo apresentou um novo plano, as concessionárias, os investidores, agências passaram a dialogar. Isso é uma esperança de chegar a um modelo atraente para todos.”

Poupança tem o melhor resultado do ano em julho, mas ainda é o pior para o mês em 6 anos

 Gabriela Valente
O Globo

Depósitos superaram retiradas da caderneta em R$ 4 bilhões


BRASÍLIA - Os depósitos na caderneta de poupança superaram os saques em R$ 4 bilhões em julho, informou o Banco Central. Apesar de ter sido a melhor captação líquida da aplicação mais popular do país neste ano, é o pior desempenho para meses de julho desde 2008, quando a diferença entre depósitos e saques foi de R$ 2,3 bilhões.

Em julho de 2013, a poupança teve uma captação líquida de R$ 9,3 bilhões. Na época, os juros básicos estavam em 8,5% ao ano. Agora, a taxa Selic é de 11% ao ano. Isso faz com que aplicações nos fundos de investimentos rendam mais e ganhem a preferência de muitos poupadores.

Ao todo, a poupança captou R$ 13,6 bilhões nos sete primeiros meses deste ano. No mesmo período de 2013, a captação chegou a R$ 37,6 bilhões. Ou seja, caiu 64% em 2014 por causa da mudança dos juros e também pela inflação, que corrói parte da renda do trabalhador e achata a parcela dos salários que poderia ser economizada.

A inflação e juros mais elevados têm deixado os brasileiros com o orçamento mais apertado e menos capacidade de poupar. No primeiro semestre, segundo o Bancok Central, a captação líquida da caderneta de poupança — diferença entre depósitos e saques — caiu 66%, com saldo de R$ 9,6 bilhões.

O brasileiro guarda hoje R$ 634,4 bilhões na caderneta de poupança. Sobre esse dinheiro, os bancos pagaram rendimentos de R$22,8 bilhões apenas neste ano.

Com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 11% ao ano, a poupança perde nos rendimentos para os fundos de renda fixa cuja taxa de administração seja de até 1,5% ao ano, de acordo com dados da Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac).

Beneficiados pelos aumentos recentes dos juros, os fundos deste tipo ficaram no topo do “ranking” de melhores investimentos do mês da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) no acumulado deste ano, com alta de 6,57%.

Fluxo cambial fica negativo em US$ 1,8 bilhão em julho

Victor Martins  
Agência Estado

Acumulado do ano até 1º de agosto é positivo em US$ 2,4 bi por causa de transações comerciais, apesar de baixa na conta financeira


BRASÍLIA - O fluxo cambial no Brasil ficou negativo em US$ 1,791 bilhão em julho, informou nesta quarta-feira, 6, o Banco Central (BC). As operações financeiras respondem por uma saída líquida de US$ 3,408 bilhões, diferença entre entradas de US$ 40,796 bilhões e saídas de US$ 44,177 bilhões.

No comércio exterior, o saldo ficou positivo em US$ 1,617 bilhão, com importações de US$ 19,894 bilhões e exportações de US$ 21,511 bilhões. Nas exportações estão incluídos US$ 3,804 bilhões em ACC (adiantamento ao exportador em contratos de câmbio), US$ 6,924 bilhões em PA (pagamento antecipado às exportações) e US$ 10,783 bilhões em outras entradas.

No acumulado do ano até 1º de agosto, o fluxo está positivo em US$ 2,418 bilhões, sendo negativo em US$ 1,943 bilhão no financeiro e positivo em US$ 4,361 bilhões no comercial. No mesmo período de 2013, o fluxo total estava positivo em US$ 8,920 bilhões. 

Dilma precisa do ‘media training’ da Petrobras

Josias de Souza


A Petrobras já deixou claro que zela pela qualidade da oratória dos seus executivos e ex-executivos. Prepara-os para os embates em “simulações de perguntas e respostas.” A estatal deveria fornecer um dos seus pacotes de media training à ex-presidente do Conselho de Administração Dilma Rousseff.

Dilma candidatou-se ao petro-treinamento nesta quarta-feira. Ela se irritou ao ser questionada por uma repórter sobre a participação do Planalto na farsa das inquirições da CPI da Petrobras. Algo já admitido. Ao responder, a presidente da República pronunciou 11 frases à procura de um sentido.

“Eu vou te falar uma coisa'', disse Dilma à repórter. “Eu acho extraordinário… O Palácio do Planalto não é expert em petróleo e gás. Quem sabe de perguntas sobre petróleo e gás é a Petrobras. Você podia me informar quem elabora perguntas sobre petróleo e gás para a oposição? Também não é o Palácio do Planalto, nem a sede de nenhum partido. Só tem um lugar no Brasil: a Petrobras e todas as empresas de petróleo e gás. Há uma simetria de informação entre nós, mortais. E o setor de petróleo é altamente oligopolizado e complexo tecnicamente. É estarrecedor que seja necessário alguém de fora da Petrobras para formular perguntas para ela.''

O repórter suspeita que, filtrada pelo petro-treinamento, a frase da presidente ficaria assim: “No que se refere a petróleo e gás, a Petrobras reúne os maiores especialistas, dispensa ajuda externa.”

Resgatada a semântica, restaria esclarecer que ninguém está interessado nas técnicas da indústria petrolífera. O que se deseja é um lote de bons esclarecimentos sobre as razões que levaram a maior estatal brasileira a se meter em ruínas como o prejuízo bilionário de Pasadena e o superfaturamento da refinaria Abreu e Lima.

Dilma se irrita (e se enrola) ao explicar relação do Planalto com farsa da CPI

Gabriel Castro e Laryssa Borges
Veja online

Presidente exaltou-se ao ser questionada sobre a ação de servidores das Relações Institucionais. E ensaiou a tese de que só técnicos teriam condições de elaborar perguntas à estatal

(Ichiro Guerra/Divulgação/VEJA) 
Dilma Rousseff participa do encontro na Confederação 
da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em Brasília 

A presidente Dilma Rousseff ficou extremamente irritada nesta quarta-feira ao ser questionada sobre a participação do Planalto na farsa montada por governistas e pelo PT para impedir investigações na CPI da Petrobras no Senado – revelada por VEJA nesta semana. Ao deixar a sabatina promovida pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em Brasília, a petista negou-se a esclarecer a ligação de servidores do Planalto com o caso: nesta quarta, o jornal Folha de S. Paulo informou que Luiz Azevedo, secretário-executivo das Relações Institucionais, ajudou a elaborar o plano de trabalho apresentado pela comissão em maio. Já Paulo Argenta, outro assessor da pasta, foi um dos responsáveis pela preparação das questões antecipadas aos depoentes, como mostra vídeo obtido por VEJA. Dilma também não explicou porque servidores do governo e da liderança governista no Senado participaram da formulação de um gabarito para depoentes. E foi além: ignorando o fato de que a elaboração das perguntas feitas em uma CPI seja tarefa exclusiva dos integrantes da comissão e do relator dos trabalhos, Dilma afirmou ser “estarrecedor o fato de que seja necessário alguém de fora da Petrobras formular perguntas para ela”.  

Em um raciocínio confuso, a presidente-candidata disse que o setor de petróleo seria complexo demais para que pessoas de fora da área questionassem a Petrobras a respeito – e ainda ensaiou a tese de que apenas técnicos especializados em combustíveis teriam condições de elaborar perguntas à estatal. “Vou te falar uma coisa. Acho extraordinário. Primeiro porque o Palácio do Planalto não é expert em petróleo e gás. O expert em petróleo e gás é a Petrobras. Eu queria saber se você pode me informar quem elabora perguntas sobre petróleo e gás para a oposição também. Muito obrigada. Não é o Palácio do Planalto nem nenhuma sede de nenhum partido. Quem sabe das perguntas sobre petróleo e gás só tem um lugar. Pergunta só tem um lugar no Brasil. Eu diria vários lugares no Brasil: a Petrobras e todas as empresas de petróleo e gás”, disse, sem disfarçar o nervosismo – que tornou a fala da presidente ainda mais difícil de ser compreendida.

 “Você sabe que há uma simetria (sic) de informação entre nós, mortais, e o setor de petróleo. É um setor altamente oligopolizado, extremamente complexo tecnicamente. Acho estarrecedor que seja necessário alguém de fora da Petrobras formular perguntas para ela”, completou, sem esclarecer o episódio.

VEJA revelou nesta semana que governistas engendraram esquema para treinar os principais depoentes à comissão de inquérito, repassando a eles previamente as perguntas que seriam feita na CPI e indicando as respostas que deveriam ser dadas. Paulo Argenta; Marcos Rogério de Souza, assessor da liderança do governo no Senado; e Carlos Hetzel, secretário parlamentar do PT na Casa, formularam perguntas aos depoentes e atuaram para que as respostas, tal qual um gabarito de prova, fossem entregue às pessoas que falariam à comissão. O kit de perguntas e respostas foi distribuído ao ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli e ao ex-diretor Nestor Cerveró, apontado como o autor do “parecer falho” que levou a estatal do petróleo a aprovar a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, um negócio que causou prejuízo de quase 1 bilhão de dólares à empresa. A atual presidente da companhia Graça Foster também recebeu as perguntas da CPI por meio do chefe do escritório da empresa em Brasília, José Eduardo Barrocas.

Até o momento a oposição identificou que o teatro na CPI da Petrobras pode ter envolvido os crimes de obstrução da Justiça, fraude, improbidade por uso de servidores para fins privados, falso testemunho de depoentes, advocacia administrativa e possível violação do sigilo funcional se servidores tiverem repassado documentos sigilosos da CPI para o Poder Executivo.

Sem deixar que questionamentos sobre a Petrobras fossem apresentados a ela, a presidente ainda se recusou a responder sobre os possíveis impactos da inclusão de Graça Foster entre os responsáveis por Pasadena, em decisão a ser tomada pelo TCU nesta quarta-feira. Graça, que era diretora de gás e energia quando se desenvolviam as negociações de Pasadena, deve ter seus bens declarados indisponíveis, a exemplo dos demais. “Você já julgou, querida? Se você julgou, eu te agradeço por não fazer isso”, afirmou Dilma, interrompendo a pergunta. “Acho que se não houve julgamento não se gera constrangimento nenhum. Peço para você não me fazer uma pergunta sobre um julgamento de uma corte, que não foi feito. Não é correto”, disse.

Telefónica oferece R$ 20 bilhões pela GVT

Veja online
Com informações Agência   Reuters

Empresa francesa diz que unidade brasileira não está à venda, mas vai considerar a oferta na próxima reunião de seu Conselho

(Orlando Kissner/AFP/VEJA) 
Sede da empresa GVT em Curitiba, no Paraná 

A espanhola Telefónica ofereceu 20,1 bilhões de reais pela GVT, unidade brasileira da francesa Vivendi, em uma estratégia para fortalecer sua liderança no mercado de telecomunicações móveis no país. A medida vem após a Vivendi, liderada pelo presidente de seu Conselho de Administração e maior acionista Vincent Bollore, dizer no fim de junho que gostaria de manter seu último ativo restante de telecomunicações, apesar de se reposicionar como uma empresa de mídia.

Em comunicado, a empresa francesa disse que nenhuma de suas unidades está à venda, mas que irá considerar a oferta da Telefónica na próxima reunião de seu Conselho. A Telefônica Brasil disse que a oferta consiste em 11,96 bilhões de reais em pagamento em dinheiro mais novas ações de emissão da companhia representando 12% da Telefônica Brasil após a aquisição da GVT.

Em um esforço para cortar o custo do acordo, a Telefónica ofereceu à Vivendi a chance de adquirir 8,3% de participação na Telecom Italia. O Brasil, onde a Telefónica controla a maior operadora de telefonia móvel, a Vivo, é um mercado crucial para a gigante das telecomunicações espanhola, uma vez que representa seu segundo maior gerador de caixa e tem potencial de crescimento diferente de mercados saturados como os de Alemanha e Grã-Bretanha.

A compra da GVT ajudaria a espanhola a se fortalecer no mercado de telefonia fixa e Internet banda larga, mercado em que ocupa a terceira posição no Brasil, com fatia de 18,4%. A GVT é líder no Brasil em Internet de alta velocidade e televisão conectada.

A Telefónica cobiça o ativo há tempos, tendo perdido uma guerra de ofertas inicial para comprar a GVT para a Vivendi em 2009.

Governo pressiona caixa das teles

Geraldo Samor
Veja online

As empresas de telecomunicações temem que o setor tenha que pagar uma conta pesada nos próximos meses — o mais recente exemplo de como certas iniciativas do Governo destroem valor para as empresas (fazendo com que a Bolsa caia quando a Presidente sobe nas pesquisas).

O primeiro problema, ainda difícil de ser quantificado, é o Banda Larga para Todos, um programa que a Presidente Dilma Rousseff promete lançar em um segundo mandato e que pretende oferecer a todos os brasileiros um serviço de internet “barato, rápido, potente e seguro”.

As teles temem que, assim como aconteceu com o setor elétrico, elas tenham que pagar a conta do investimento pesado com retorno baixo, já que o governo vai forçar uma tarifa módica.

A outra frente de batalha é o leilão de serviço de internet de quarta geração (4G), que o Governo tenta fazer acontecer ainda este ano, para desespero das teles.

De acordo com previsão do próprio Governo, o leilão arrecadaria no mínimo 8 bilhões de reais (são quatro faixas, com preço mínimo de 2 bilhões cada) — e seria chave para o Tesouro fechar as contas este ano.

Acontece que a faixa de 700 megahertz, que será leiloada, hoje é usada pela TV analógica. Isso significa que, para as teles poderem começar a usar a frequência, ela terá que ser “limpa”, um processo que vai custar cerca de 4 bilhões de reais, outra fatura a ser paga pelas operadoras que vencerem o leilão.

Tem mais: a trabalho de limpeza da frequência no interior do País (onde a rentabilidade é menor) vai demorar no mínimo um ano. Já em São Paulo e no Rio de Janeiro, os maiores mercados, a limpeza vai demorar muito mais, e as teles só devem começar a oferecer o serviço em 2018.

Em outras palavras, as teles serão obrigadas a desembolsar capital agora, e só começarão a ter o retorno daqui a vários anos.

Dado esse descasamento de prazo, era de se esperar que o Governo aliviasse um pouco as condições de pagamento. Só que não.

O edital que a Anatel levou a audiência pública exige que 10% do valor da outorga seja pago à vista. Após três anos de carência, o restante seria pago em seis parcelas anuais (corrigidas pelo IGP-DI + 1% ao ano). As teles reclamam que essas condições de pagamento, similares à do leilão anterior, encarecem ainda mais as outorgas, forçando um pagamento à vista — o que é música para os ouvidos do Secretário do Tesouro, Arno Augustin.

A exigência de novos investimentos vem num momento em que o setor está em seu pico de investimento histórico. Em 2012, as teles investiram 25,8 bilhões de reais.  Em 2013, 29,3 bilhões.  São valores maiores até do que o investido em 2001, na universalização da telefonia fixa logo após a privatização, quando as teles gastaram 24,5 bilhões colocando orelhões em vilarejos que tinham mais de 300 habitantes e telefonia fixa em lugares com mais de 600 habitantes. (Como hoje em dia todo brasileiro tem um celular e ninguém quer saber de orelhão, a rentabilidade daqueles investimentos, obrigatórios por lei, foi para o saco.)

As teles, cujo negócio depende de regulação e portanto de boas relações governamentais, estão pisando em ovos para falar do assunto.

A TIM, por exemplo, reafirmou publicamente que vai participar do leilão, mas pediu humildemente que o Governo antecipe a limpeza de frequência.

Mas, como a corda anda esticada, até o alinhamento automático do setor com o Governo pode estar em risco. “Não posso afirmar que vamos participar [do leilão]“, o presidente da Claro, Carlos Zenteno, disse ontem à Agência Estado. “Isso depende das condições do edital”.

A Anatel e o Ministério das Comunicações tentam liberar a realização do leilão, que está suspenso pelo Tribunal de Contas da União.

A história fica mais interessante quando se leva em conta que a maioria das empresas querem a consolidação do mercado de telefonia celular, passando de quatro — Vivo, TIM, Oi e Claro — para três. A consolidação se daria com um fatiamento e venda da TIM, e isto, claro, depende da boa vontade governamental.

Reduzir o número de empresas disputando o mesmo consumidor é tão importante que, ontem, a Telefonica fez uma oferta de 20,1 bilhões de reais pela GVT. A oferta foi vista no mercado financeiro como puramente defensiva: a Telefonica está agindo para evitar uma fusão entre a TIM e a GVT, que acabaria aumentando a concorrência entre as quatro operadoras de celular e dificultando ainda mais a consolidação do setor.

Difícil saber quem sofre mais: os clientes das teles, que recebem um serviço sofrível, ou seus acionistas, que cada vez mais têm que injetar capital para ter algum retorno.