sexta-feira, agosto 08, 2014

A crise da indústria que nós plantamos

Adelson Elias Vasconcellos

Saíram dados da produção e venda de veículos no país. E, parte desta queda tanto da produção quanto das vendas, se diz derivada da crise na Argentina.  Pode ser. De cada 10 carros exportados, 7 se destinam ao país vizinho. Porém, há quanto tempo existe o Mercosul? Má mais de vinte anos, certo? Foi criado para quê mesmo? Para ser um mercado comum dos países da América do Sul e exigia um quesito único: que o país obedecesse ao estado de direito democrático. 

Porém, a partir da chegado do PT ao poder federal, o Mercosul foi sendo, pouco a pouco deturpado em sua ideia original. Hoje, não passa de clubinho de governos de esquerdas a praticarem o proselitismo político mais descarado do planeta. E isto se evidenciou quando o Paraguai, obedecendo sua constituição, destituiu do poder o presidente Fernando Lugo.  O que se fez? Brasil, coadjuvado pela  Argentina, aplicou um golpezinho dos mais safados: suspendeu o Paraguai do bloco, e aproveitou para incluir a Venezuela, do caudilho Hugo Chavez.  Detalhe: o Paraguai era o único membro do bloco que não aprovara a entrada da Venezuela, alegando, no que estava absolutamente coberto de razão, que a Venezuela não se caracterizava por um país com democracia plena.  

Na época, para justificar ainda mais a entrada da Venezuela no grupo,  o governo brasileiro apresentou uma coleção de números relativos à repercussão econômica para justificar o ingresso da Venezuela. 

Se até ali o mercado comum andava a passos de tartaruga, com a Venezuela de Chavez, a marca de “mercado comum econômico”, transfigurou-se em mercado comum da canalhice política. Simplesmente, os acordos até então desenhados,  desapareceram.  Como esquecer a tal refinaria Abreu e Lima, no Pernambuco, com Chavez e Lula dando-se as mãos num canteiro de obras maquiado? 

Não só isso: também a Bolívia teve aprovado seu ingresso e, no entanto, ela sequer cumpriu o acordo de Estado, firmado anos antes com o Brasil,  para o fornecimento de gás e ainda nos tomou, com a presença do exército, duas refinarias da Petrobrás. 

Tais fatos – e são fatos, não boatos – foram demarcando o território da política em lugar da economia.  Inúmeras vezes a Argentina,  da companheira Cristina Kirchner, criou unilateralmente regras e dispositivos para restringir o acesso de  produtos brasileiros ao seu mercado. Diante da gritaria geral de empresários brasileiros, o governo brasileiro timidamente retrucou, e a Argentina se dispôs a sentar em torno de uma mesa de negociações para rever suas posições protecionistas. Contudo, a cada acordo firmado, equivaleria, mais tarde, ao seu descumprimento. 

Ao longo dos últimos seis anos, ficaram claras duas perspectivas: uma, que a Argentina caminhava celeremente para uma crise econômica, com destaque para a sua dívida pública. E, segunda, que o Mercosul não   atenderia às necessidades e interesses do Brasil. E isto ficou claro diante das dificuldades criadas por Cristina Kirchner para um acordo de união entre Mercosul e União Europeia. 

Infelizmente, mesmo que este “the end” fosse plenamente previsível, não teve o governo brasileiro, nem por Lula nem por Dilma, uma posição de firmeza junto ao governo argentino para impor esta união entre Mercosul e União Europeia. Mesmo que tivesse que ser na base ou dá ou desce. Enquanto o Brasil vai substituindo componentes industriais de outras nações, com melhor qualidade e preço como a alemã, por similares argentinos, até para forçar o governo Kirchner a não ser tão opositor a uma aproximação da  América do Sul com a Europa, na contrapartida, a Argentina substitui produtos brasileiros por similares chineses. 

Assim, fica claro, que nossos parceiros no continente têm como único interesse que o Brasil financie seus governos autoritários, sem se prestarem a contrapartidas de abertura de mercados e expansão de acordos bilaterais. Sua pretensão é o isolamento completo em relação aos mercados internacionais, como forma de se sustentarem na opressão de seus povos. 

Se hoje, portanto, boa parte da indústria automobilística brasileira padece por conta da crise argentina, mas também a Venezuela, é por culpa exclusiva dos governos Lula e Dilma e suas políticas externas e comerciais de isolamento. 

O Brasil continua sendo um imenso continente de ricas oportunidades de investimentos, mas imensamente mergulhado num oceano de dificuldades para que estes investimentos se realizem.  No caso específico do Mercosul,  fomos imprevidentes e pouco convincentes. Se, de um lado, nossos parceiros no continente são importantes para nosso comercio externo, não menos verdade que estes mesmos parceiros dependem  muito mais da nossa pujança econômica do que o seu contrário. Deveríamos, neste sentido, ser o carro chefe a liderar o continente não apenas no plano político, não dando trela aos retrocessos institucionais que ocorrem em países como Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador. Mas liderar o continente numa abertura comercial ampla e benéfica para todos. 

Tanto Argentina quanto a  Venezuela não estão livres de, no curto prazo, de mergulharem numa profunda recessão econômica, com consequências muito ruins também no plano político.  Qualquer instabilidade no continente afetará diretamente o Brasil, já que continuamos isolados e atrelados a governos irrelevantes. Assim, diante deste cenário, pode ser que o Brasil se convença, definitivamente, que o Mercosul foi um sonho que acabou faz tempo.  Ou o bloco reformula seus posicionamentos, e o Brasil permanece nele atuante como sempre foi, ou o Brasil abre mão destas amarras e segue seu caminho abrindo-se para o mundo, liberto para firmar acordos bilaterais com quantos pretender e tiver real interesse.  Países interessados em alinhar-se ao Brasil é que não faltam. O Brasil é que tem de pensar mais em si, em seus interesses de desenvolvimento e ampliação de mercados,  e deixar de ser eterna babá de caudilhos latinos.

Portanto, boa parte das dificuldades da indústria brasileira, em constante queda de produção, de vendas e de emprego, se deve a uma política descolada do interesse do país. Esta mistura de ideologia política com relações internacionais e comerciais é indigesta. O Brasil é muito maior  do que este ranço ideológico todo, e não pode, deste modo, atrelar seu desenvolvimento a parceiros que se pretendem continuar subdesenvolvidos, em todos os sentidos. 

Doze anos sem rumo

O Estado de S. Paulo
Editorial

Com a indústria incapaz de competir, batida em todos os mercados e sem perspectiva de melhor desempenho a curto prazo, a Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB) iniciou, nesta quinta-feira, mais um encontro nacional de exportadores, com o problema dos custos como tema central. "O Brasil não é um país caro, mas está um país caro", disse o presidente da associação, José Augusto de Castro. Os grandes entraves, segundo ele, são a carga tributária, a burocracia excessiva e a infraestrutura deficiente e sem integração.

De modo mais amplo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mauro Borges, apontou o aumento da produtividade como o principal desafio. O Brasil é prejudicado, segundo ele, por dois "grandes déficits estruturais", o de capital físico e o de capital humano. Para enfrentar os dois problemas, faltou dizer, será preciso abandonar e inverter os critérios da política econômica mantida há mais de uma década pelo grupo instalado no poder.

O ministro, obviamente, evitou essa conclusão. Como a presidente Dilma Rousseff, ele parece esquecer de um interessante detalhe histórico: os petistas chegaram ao governo federal em janeiro de 2003. Estão completando, portanto, 12 anos de gestão. Mas ele prefere falar de períodos muito mais longos e confrontar os padrões atuais de planejamento com os dos anos 70, quando os militares governavam. "Perdemos a capacidade de planejar o País, de fazer projetos de qualidade, projetos macro de infraestrutura." É verdade, e a baixa qualidade dos projetos tem sido denunciada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Mas outros membros do governo costumam falar como se o seu partido houvesse restaurado os padrões de planejamento.

O ministro mencionou também o envelhecimento do parque fabril: em média, o equipamento tem 17 anos de uso. No caso dos competidores, essa média, acrescentou, fica entre 7 e 8 anos. Mas a idade do equipamento e as deficiências da infraestrutura denunciam um problema contornado sem maior discussão pelo ministro: o baixo nível de investimento público e privado. Empresários e governo terão sempre investido tão pouco nos últimos 4o anos?

Os números oficiais são desconfortáveis para o governo. No primeiro trimestre de 2000, o investimento em capital fixo equivaleu a 19% do Produto Interno Bruto (PIB). A relação caiu para 18,2% e 16,7% nos dois anos seguintes. Estava em 16,1% no começo de 2004, quando o PT completava um ano de governo. Subiu nos anos seguintes, com algumas oscilações, e só chegou a 19,2% - pouco acima, portanto, do nível do começo do ano 2000 - no trimestre inicial de 2010. Estava em 19,5% quando a presidente Dilma Rousseff iniciou seu mandato. A partir daí, despencou até 17,7% nos primeiros três meses deste ano.

Os governos petistas foram, portanto, incapazes, durante a maior parte do tempo, de manter a taxa de investimento registrada no fim do século passado. Ultrapassaram esse nível por um período brevíssimo e continuam muito longe da meta anunciada várias vezes pelo ministro da Fazenda, de 24% do PIB.

Mesmo esse pífio investimento tem dependido de capital estrangeiro. A taxa de poupança bruta despencou de 17% do PIB no começo da gestão da presidente Dilma Rousseff para 12,7% entre janeiro e março deste ano. Isso se explica, principalmente, pelo uso irresponsável de recursos públicos. O desempenho também ruim da indústria de máquinas e equipamentos combina perfeitamente com o baixo nível da formação geral de capital fixo.

O poder de competição da indústria acompanhou a deterioração do ambiente de negócios. Com muita improvisação e nenhuma estratégia digna efetiva, o governo abusou do protecionismo e da distribuição de benefícios a setores selecionados, sem realmente cuidar do potencial de crescimento do País. Em 2000, as vendas de manufaturados representaram 59,07% da exportação total. Corresponderam a 54,71% em 2002. No ano passado, ficaram em 38,44%. No primeiro semestre deste ano, em 34,45%.

Serão números estranhos para o ministro?

Fatos, apenas alguns fatos

Tribuna da Internet
Paulo Brossard, Zero Hora

Dilma com ditador cubano, Raul Castro

Foi lamentável o pronunciamento da chancelaria de Israel acerca da atual conduta do nosso país no plano internacional.  Isto posto, imperioso é salientar que o velho Ministério de Estrangeiros, desde a República denominado Ministério das Relações Exteriores, ultimamente tem se amesquinhado.

Dir-se-ia que a senhora presidente da República não morre de amores por ele. Contudo, seu declínio é inegável.

Já não falo dos tempos do Barão, de Oswaldo Aranha, Raul Fernandes, João Neves… que em momentos difíceis fizeram com que o solar da Rua Larga continuasse a enriquecer o acervo diplomático do país. Basta dizer que o vocábulo Itamaraty se tornara sinônimo da política externa do Brasil. Em verdade, as reiteradas ações e omissões não podem ser menosprezadas.

ALGUNS EXEMPLOS
A título de exemplo, vão mencionadas algumas:

1) Autoridades brasileiras, aliás, contrariando manifestações de servidores legalmente qualificados para opinar a respeito, abrigaram terrorista condenado pela justiça de seu país, Battisti;

2) O Brasil expulsou dois boxeadores cubanos, que aqui participavam de uma competição esportiva e queriam aqui homiziarem-se para não voltar à ilha sovietizada, despachando-os em avião venezuelano;

3) A Bolívia invadiu instalações da Petrobras, legal e publicamente instalados, como era óbvio, e o Itamaraty não viu nem notou o frontal agravo à Nação;

4) O governo namorava abertamente com o Irã no que tange aos seus planos nucleares, cujas implicações podem ser de consequências mundiais;

5) O governo tornou-se parceiro da mais antiga ditadura da América, firmou contratos secretos com Cuba e Angola e a senhora Presidente cantarolava no Porto de Mariel, financiado pelo Brasil, proclamando que seu ideal era a união entre os dois países;

6) O Itamaraty estimulou a introdução da Venezuela no Mercosul, quando é condição para ingresso o Regime Democrático;

7) O Brasil silenciou quanto às violações dos Direitos Humanos na Venezuela e ao contrário, tem se acasalado com aquele país;

8) O Brasil tem dois supostos ministros de Relações Exteriores, um que é conselheiro da senhora presidente, como se os ministros não fossem conselheiros natos, por expressa disposição constitucional, o outro ocupa o belo edifício que abre uma das fileiras de ministérios;

9) O comportamento do Brasil em relação ao asilado boliviano na embaixada em La Paz, numa espécie de prisão.

Os estilos do Itamaraty desde muito eram outros e bem melhores.

Política comercial agrava crise da indústria

O Globo
Editorial

Começam a ficar nítidos os prejuízos de uma política externa de alianças com latino-americanos populistas e terceiro-mundistas, ideologias vindas do lixo da História

As montadoras são afetadas de forma direta por duas das causas da retração do setor industrial: o desaquecimento do consumo e dificuldades para encontrar alternativas de mercado no exterior. Em junho, a produção da indústria como um todo retrocedeu pelo quarto mês consecutivo — 6,9%, em comparação com o mesmo mês de 2013, tombo, nos últimos anos, só superado pelo de 7,4% em setembro de 2009.

O retrocesso se dissemina: dos 26 segmentos industriais pesquisados pelo IBGE, 21 apresentaram queda. E o impacto nas montadoras de veículos é expressivo, com um retrocesso na produção, em julho, de espantosos 20,6% sobre julho de 2013, embora, com relação a junho, tenha havido recuperação de 17%. Mesmo deduzidos os efeitos da Copa do Mundo, são dados bastante negativos.

No caso da indústria automobilística, além do endividamento das famílias , há a crise, em fase de agravamento, da Argentina, maior importador de veículos brasileiros, bem como de produtos manufaturados em geral. A dependência crônica ao Mercosul, por opção ideológica, começa a cobrar seu preço. Bem como o erro de ressuscitar o protecionismo das décadas de 70 e 80.

O resultado tem sido manter o Brasil fora de cadeias globais de produção. Com isso, mesmo que se queira agredir outros mercados, não se tem produtos de última tecnologia, capazes de atender às exigências desses mercados. Acertos feitos para trazer montadoras, sem dar-lhes maior liberdade no uso de componentes importados, estreitam a margem de manobra da política de exportações, neste momento de retração interna e crise no maior parceiro do Mercosul.

Também começa a cobrar seu preço a falta de acordos comerciais bilaterais, em grande parte devido à subordinação, contrária aos efetivos interesses nacionais, da política externa ao viés protecionista de um Mercosul cada vez mais bolivariano. Note-se que os dez anos de negociação ainda não foram suficientes para o Mercosul e a União Europeia assinarem um acordo comercial. Que não deve mesmo ser fechado, agora que a Bolívia de Evo Morales passa a fazer parte do bloco comercial. Junta-se à Venezuela de Maduro, etc.

Torna ainda mais turvo o futuro do comércio exterior brasileiro — em queda, nas exportações e importações — o fracasso, nesta semana, do acordo que Roberto Azevêdo, o brasileiro da Organização Mundial do Comércio, conseguira costurar em Bali para ampliar o comércio internacional. A Índia, aliada estratégica do Brasil no Brics, o bombardeou.

Assim, a Rodada de Doha deve ser sepultada de vez, e o mundo, empurrado mais ainda para acordos bilaterais, em que o Brasil acumula enorme atraso. Para não se dizer que o Mercosul não assinou acordos, há dois: com Israel e Egito. Risível. Começam a ficar mais nítidos os prejuízos decorrentes da diplomacia de aliança cega com latino-americanos populistas e terceiro-mundistas, algo que há tempos faz parte do lixo da História.

Retratos do autoritarismo

 Ricardo Noblat

O que tem a ver o caso da analista do banco Santander demitida na semana passada por exercer direito o seu ofício, com o caso do correspondente do The New York Times ameaçado de expulsão do Brasil em maio de 2004?

Os dois aconteceram no começo e no que poderá ser o fim do período de 12 anos de governos do PT. Foram protagonizados por Lula. E são casos exemplares da prepotência dele e de sua turma.

De volta ao futuro... Na época, pensei: o cara pirou. Só pode ser. Ou está de porre. Compreensível que tenha se sentido ofendido pela reportagem do The New York Times sobre seu gosto por bebidas alcoólicas.

Mas daí a determinar a expulsão do país de Larry Rother, correspondente do jornal mais importante do mundo? Sinto muito, era um flagrante exagero. Uma escandalosa arbitrariedade.

Foi isso o que Lula ouviu dos poucos assessores com coragem para confrontá-lo.

Um deles, durante reunião no gabinete presidencial do terceiro andar do Palácio do Planalto, sacara de um exemplar da Constituição e apontara o artigo que garantia ao jornalista o direito de permanecer no Brasil.

Então Lula cometeu a frase que postei em meu blog às 15h16 do dia 12 de maio de 2004, poucas horas depois de ela ter sido pronunciada.

Ele disse: “Fod.... a Constituição”.

Foi mais ou menos isso que você leu. Um ministro que ouvira a frase reproduziu-a para um assessor. E o assessor, que trabalhara comigo durante vários anos, me telefonou contando.

Esperei durante o resto do dia o desmentido que não veio. Ainda espero. Prevaleceu a opinião sensata de Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça, que desaconselhou a expulsão por ilegal.

Impedido de consumar sua vontade, Lula tentou tirar proveito político do episódio se comportando como vítima. A presidência da República fora ultrajada por um irresponsável jornalista estrangeiro.

Mas, generoso e obediente à lei, o presidente desculpara o malfeitor depois que ele divulgou uma nota dizendo que não tivera a intenção de ofendê-lo. Quanto ao jornal... Recusou-se a desmentir o que publicara.
A coragem que sobrou à direção do jornal faltou à direção do Santander.

Em discurso para sindicalistas em São Paulo, Lula cobrou do banco a demissão imediata da analista, autora do boletim enviado para clientes de alta renda relacionando a queda de Dilma nas pesquisas de intenção de voto com a eventual melhoria do câmbio e valorização de ações de grandes companhias.

E a cabeça da analista foi oferecida de presente a Lula.

Um ato de subserviência. Que nem de longe parece ter envergonhado Emílio Botín, presidente mundial do Santander, amigo de Lula e admirador declarado de Dilma.

“O que aconteceu é proibido, pois não se pode fazer manifestações que interfiram na decisão de voto”, cobrou Rui Falcão, presidente do PT. Botín aquiesceu: “O boletim não representa a posição do banco”.

E se o boletim tivesse afirmado o contrário?

Se tivesse dito que a Bolsa de Valores subiria com o crescimento de Dilma nas pesquisas? Lula pediria a demissão do seu autor? Falcão recriminaria o banco por favorecer o voto em Dilma?

Lula e o PT aproveitaram a ocasião para fazer Dilma de coitadinha! De alvo preferencial dos poderosos. Perseguida como o fora durante a Copa do Mundo por uma elite preconceituosa que não respeita nem mesmo uma mulher. Imagine!

Esse tipo de jogada falsamente esperta e que aposta na ignorância coletiva, se repetirá à exaustão até que o país conheça em outubro seu futuro presidente.

Fiquem atentos para desmoralizá-la logo de saída. 

Lula

Favelas no Brasil já são mais populosas que o estado do RS

Marina Pinhoni
Exame.com

Só em 2014, moradores de comunidades devem movimentar o equivalente ao PIB da Bolívia, segundo livro que será lançado nesta quinta

Mario Tama/Getty Images 
Menino com camiseta do Brasil em favela do Rio de Janeiro

São Paulo – É no Shopping JK Iguatemi – reduto do comércio de alto padrão e ponto de encontro da classe alta paulistana – que será lançado, nesta quinta-feira, o livro “Um país chamado favela”, fruto de extenso mapeamento realizado em comunidades de todo o Brasil.

 “A escolha do local não foi aleatória”, afirma a EXAME.com Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisa Data Popular, que escreveu o livro em parceria com Celso Athayde, criador da Central Única das Favelas (CUFA).

Segundo Meirelles, um dos principais objetivos da publicação é justamente quebrar preconceitos e abrir canais de discussão sobre as mudanças sociais e econômicas que aconteceram nas favelas brasileiras na última década.

“Queremos criar pontes entre a favela e o asfalto. Também convidaremos todo mundo quando o livro for lançado nas comunidades”, diz o especialista.

Entre os dados que chamam a atenção no livro está o total de pessoas que moram hoje em favelas: aproximadamente 12 milhões. O valor é maior do que a população total do Rio Grande do Sul, quinto estado mais populoso do Brasil.

De acordo com o pesquisador, 65% dos moradores de favelas pertencem à classe média. Só este ano, o grupo deve movimentar 64,5 bilhões de reais. Para se ter uma ideia da punjança, o valor é semelhante ao PIB da Bolívia, que em 2013 registrou 30,6 bilhões de dólares (o equivalente a cerca de 69 bilhões de reais). O salário médio dos moradores das comunidades também subiu: de R$ 603, em 2003, para R$ 1.068, em 2013.

“O crescimento do emprego formal foi essencial para o aumento da renda até aqui, mas é o empreendedorismo que vai levar a favela além”, afirma Meirelles.

Como ainda há barreiras para o acesso de grandes empresas, os moradores encontram nos pequenos negócios a oportunidade para atender à grande demanda interna de consumo. Refeições para fora, padarias e salões de beleza estão entre as opções mais recorrentes.

Apesar da melhora na qualidade de vida e no grau de instrução, o pesquisador afirma que ainda faltam políticas públicas de inserção social e melhora na infraestrutura. Segundo ele, “73% dos jovens da favela têm escolaridade maior do que a dos seus pais, mas faltam cursos profissionalizantes”, diz.

Felicidade

Celso Athayde (E) e Renato Meirelles, 
autores do livro "Um país chamado favela"

 “Sabe o famoso refrão: ‘eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci'?  Ele se tornou uma realidade objetiva e concreta”, afirma Renato Meirelles sobre o fato de que 94% dos moradores entrevistados declararam na pesquisa que se consideram felizes.

Ao contrário do que se poderia imaginar, a maioria absoluta das pessoas gosta e tem orgulho do local em que vive, e não tem vontade de sair nem se o salário dobrasse, de acordo com o livro.

A presença da violência ainda é muito marcante, pois 55% das pessoas entrevistadas consideram a favela em que vivem um pouco violenta, e outros 18% muito violenta. As atividades ilegais do tráfico também são notadas por 65% dos moradores. No entanto, há um otimismo revelado na crença de que o problema tende a diminuir nos próximos meses.

"É fato que a maioria acredita que a comunidade está melhor com presença das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), por exemplo, mas isso está longe de ser considerado a solução", diz Meirelles.

Apesar de todos os problemas, um dos motivos primordiais para a satisfação seria o bom relacionamento com as pessoas e a confiança que é estabelecida no local.

“Todo mundo conhece todo mundo. As mães que trabalham, por exemplo, não se preocupam em deixar os filhos com uma vizinha. É muito comum um comerciante ‘vender fiado’, pois sabe que o cliente vai pagar”, afirma o pesquisador.

Meirelles também acredita que o senso de convivência e utilização do espaço é exercido de maneira mais intensa. “Todo lugar vira lugar, na ausência de espaços para diversão e cultura", diz. "As pessoas se reúnem nas lajes, nas praças, nas ruas”. 

A rua, o eleitor e os candidatos

Gaudêncio Torquato
O Estado de S.Paulo

 Cada eleição possui sua índole. A deste ano é a campanha de rua

O ano era o de 64 a. C. (antes de Cristo). O candidato, Marco Túlio Cícero, o tribuno mais eloquente do ciclo de César, tinha o apoio das classes altas. Disputava-se o cargo de Cônsul de Roma. O adversário, o general Catilina, era o candidato do proletariado. O marqueteiro de Cícero, Quinto, seu irmão, considerado o primeiro organizador de estratégias de marketing, enviou-lhe uma carta cheia de recomendações: “volte sua atenção para a cidade, todas as associações, os distritos e os bairros; vá ao encalço de homens de toda e qualquer região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça a amizade, cuidando para que eles cabalem votos para você; três são as coisas que levam as pessoas a se sentir cativadas e dispostas a dar apoio eleitoral: um favor, uma esperança ou a simpatia espontânea”. Cícero venceu, repetiu a vitória um ano depois, acusou Catilina de corrupção, roubo, adultério e perversão e puxou sua orelha com a célebre interrogação: “quousque tandem abutere Catilina patientia nostra? (até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”).

Os conselhos de Quinto, suportando a corrosão de mais de dois milênios, chegam incólumes ao cenário eleitoral brasileiro, sendo receita eficaz aos 24.979 candidatos que disputarão, em outubro, 1709 vagas para a presidência da República, os Executivos dos 26 Estados e do Distrito Federal, as representações no Senado, Câmara Federal e Assembléias legislativas. O tufão que inundou as ruas, ano passado, com grupos em passeatas e depredações, cujas marolas ainda se fazem presentes, aqui e ali, servem como biruta para mostrar aos candidatos a direção a seguir: ruas, becos, bairros, cidades. Tal apontamento se ancora no espírito do tempo, este vetor que tende a imprimir aos ciclos eleitorais características peculiares, agendas condizentes com o ânimo social, discursos alinhados ao cotidiano. A lógica é cristalina: se o povo está nas ruas, os candidatos devem ir ao seu encontro. Milton Nascimento, na bela música Nos Bailes da Vida, canta: “com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, todo artista tem de ir aonde o povo está”. Candidatos são os artistas do palco político. Cada eleição possui sua índole. A deste ano é a campanha de rua.

O barulho social bate nas portas dos poderes. O eco se espraia pelas teias organizadas por setores e categorias profissionais, organizações não-governamentais e, mais importante, sob o empuxo da elevação do nível de conscientização política de participantes de todas as classes, até mesmo das margens. Sob o clamor geral, aos candidatos se impõe a lição de casa: conhecer os problemas regionais; absorver as prioridades de cada compartimento da pirâmide e dar respostas adequadas e factíveis às reivindicações (demonstrando como realizarão as promessas). A diferença de outros pleitos se escancara. Hoje, a percepção do eleitor é mais aguda, situação apontada não apenas pelo ajuntamento de conglomerados eleitorais, mas pela baixa avaliação que faz de governos e candidatos.

O que motiva a contundente expressão social? Entre as hipóteses, alinham-se: o sentimento da nova classe média (C) de que não alcançou o mesmo patamar de sua vizinha de cima, a classe B; a sensação de que os ganhos obtidos se esvaem no ralo da inflação das ruas; a precariedade dos serviços públicos; o receio de voltar ao andar de baixo da pirâmide; a maré enchente de escândalos, desvios e corrupção, que estende o fosso entre o universo político e o eleitor; em suma, a sensação generalizada de que o país gira em torno de si mesmo, tateando sofregamente na trilha esburacada de grandes deficiências. Não é exagero aduzir que a comunidade nacional grita em uníssono: basta de mesmice!

A indignação é solfejada por um conjunto formado por tipos variados de eleitores, entre os quais se incluem amorfos, emotivos, pragmáticos, locais, religiosos, esclarecidos/racionais. Grupamentos de baixo nível de conscientização, que tendem a estender braços ao populismo, habitam principalmente o território que agrega 54% (72 milhões) dos 142 milhões de eleitores que não chegaram a concluir o 1º grau. Constata-se, porém, que mesmo na terra desse eleitorado, ouve-se acentuado teor crítico, a denotar menor dispersão e olhar atento. O fato é que os currais das turbas ignaras vão se fechando. Veja-se a pressão de grupos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. O voto segmentado, direcionado, será mais volumoso que o de ontem, a refletir a organicidade social do país. Um bloco em ascensão é o do voto religioso; até comporta candidato próprio, na demonstração de que os credos evangélicos e o mercado da fé, endinheirados, passam a ser parceiros poderosos da política. O bolo eleitoral incha com o fermento das redes sociais, formando exércitos de ataque e de defesa em torno dos atores políticos. A virulência verbal recrudesce. Até grupos tradicionalmente alheios à política, como os jovens, se envolvem na malha eletrônica, que passa a exercer papel importante no debate nacional.

Resta, por último, retratar a galeria de candidatos. O perfil predominante acaba de sair do forno do TSE: homem, branco, casado, sem ter concluído o ensino superior. Se considerarmos que a população brasileira é constituída, segundo o PNAD, por 47% de pessoas brancas, 43% de pardas e 8% de negras, a proporção de candidatos brancos supera o conjunto. As mulheres entram na arena eleitoral com apenas 29,7% do total de candidatos (7.410), apesar de constituírem maioria da população (51,5%). O painel de profissões mostra fatia maior de candidatos que se dizem empresários (9,3%), advogados (5,5%), comerciantes e políticos (deputados, vereadores). O circo eleitoral abre suas cortinas para os olimpianos da cultura de massa – artistas e ex-jogadores de futebol -, que tentarão atrair as massas com sua fama. Sem o sucesso de outrora. Ao fundo, o eleitor insatisfeito parece gritar: “até quando, candidatos, abusareis de nossa paciência?”

Pode?

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo 

Temos excesso de manifestações e absoluta falta de regras ou falta de meios e de disposição para cumpri-las, quando fixadas

Imagine a situação: uma mulher desce de um carro e caminha em direção a uma clínica de aborto legal. Nesse trajeto até a clínica, na calçada, portanto um espaço público, ela pode ser abordada por manifestantes antiaborto que tentarão fazê-la mudar de ideia? Sim, pode, decidiu a Corte, por unanimidade: a Primeira Emenda à Constituição garante a livre manifestação dos militantes antiaborto.

Com isso, caiu uma lei do Estado de Massachussets, de 2007, que obrigava aqueles militantes a se colocarem a uma distância de 11 metros da entrada de tais clínicas. Para organizar a situação, faixas amarelas foram desenhadas de modo a limitar o espaço livre de manifestações. Têm que ser apagadas.

Caso encerrado? Nada disso. O governador de Massachussets, Deval Patrick, reagiu imediatamente e, ainda na semana passada, conseguiu que os deputados estaduais aprovassem outra lei determinando o seguinte: a polícia pode ordenar que manifestantes se afastem da entrada da clínica se eles estiverem fisicamente impedindo a entrada de eventuais pacientes; nessa situação, a polícia pode determinar que os manifestantes se afastem a oito metros dali, por oito horas.

Trata-se do outro lado da história: a mulher que deseja fazer um aborto tem o direito de entrar livre e pacificamente numa clínica que a atenda. Ela tem o direito de não querer ouvir outras opiniões, uma vez que já terá tomado sua decisão.

Tudo considerado, as duas partes estão se considerando vitoriosas. O movimento antiaborto, conservador, entende que a decisão da Corte restabeleceu o direito de se falar diretamente com as mulheres, uma a uma, na porta de cada clínica. O grupo pró-aborto, liberal, acha que a Corte vetou especificamente a lei dos 11 metros, mas não qualquer mecanismo que imponha limites às manifestações.

De fato, o presidente da Corte, John Roberts, comentando a decisão, observou que a zona livre de 11 metros era excessiva, afastando manifestantes legítimos de uma área pública muito larga. Quer dizer que uma área menor pode?

Pode, interpretam analistas, mas com ressalva: os manifestantes só podem ser afastados se estiverem se comportando de maneira agressiva e bloqueando a entrada da clínica. Se for assim, cabe à polícia interpretar, em cada situação específica, se o comportamento dos manifestantes é ou não um bloqueio ofensivo.

O que complica ainda mais a situação. Pode apostar: um lado vai acusar a polícia de ser excessivamente complacente com os manifestantes; o outro, de excesso de violência. E aí vai parar na Justiça, claro, que decidirá se processa civis eventualmente detidos ou se processa os policiais, neste caso ou por abuso de autoridade ou falta de autoridade para garantir a ordem e o direito dos não manifestantes.

Não é fácil. Por isso mesmo, o leitor já percebeu por que estamos tratando disso: aqui no Brasil temos excesso de manifestações e absoluta falta de regras ou falta de meios e de disposição para cumpri-las, quando são fixadas. Mais que isso: falta um debate mais qualificado e mais intenso. Ia dizer também menos ideológico, mas é impossível neste caso. Liberdade e ordem pública, liberais e conservadores, direito individual e o direito do outro, o indivíduo e sociedade — eis as eternas questões.

Mas, além de ser uma questão complexa em qualquer democracia, há entre nós um bloqueio político/eleitoral. O pessoal foge de escolhas concretas, fica no princípio geral que não compromete, mas também não resolve as diferentes situações.

Vamos falar francamente: excetuando as minorias que querem subverter a ordem capitalista, somos todos a favor da livre manifestação das ideias e também achamos que a ordem pública deve ser mantida. OK. Mas uma manifestação pode bloquear a entrada de um hospital ou de uma escola ou de uma repartição que atenda o público? O grevista pode tentar convencer o não grevista? E se o não grevista não quiser ouvir? A autoridade pública, democraticamente eleita, pode vetar manifestações em determinadas áreas da cidade ou em determinados horários? É livre o bloqueio do trânsito, como parecer ser por aqui? O grupo político tem que comunicar previamente data e trajeto da manifestação ou pode sair por aí? A polícia pode bloquear um grupo de mascarados que se aproxima de um banco, uma loja ou um prédio público? Pode prender por suspeita de que haverá um saque ou só pode agir depois que o saque começa? Aliás, o que caracteriza uma manifestação? (A reunião de duas ou mais pessoas, diz a Corte americana).

Resumo da ópera: a lei e as cortes, democraticamente, precisam dizer concretamente o que pode e o que não pode.

Assim é se lhe parece

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Os suspeitos preparam as perguntas, que entregam a parlamentares amigos; os parlamentares amigos fazem as perguntas que os suspeitos pediram que fizessem; os suspeitos respondem às perguntas que eles mesmos fizeram e os parlamentares amigos, que fingiram fazer as perguntas a sério, se dão por satisfeitos. 
É um escândalo, claro - mas um escândalo comum, que se repete sempre que há CPI. 

A diferença é que desta vez a tramoia foi filmada. O grande escândalo é outro: é o comportamento da oposição. Se a bancada da situação só faz perguntas combinadas, por que os oposicionistas não levantam as questões que devem ser levantadas? Cansaço? Difícil: neste ano, o que não faltou foram dias de folga. Conhecimento? Difícil: o que não falta aos nobres parlamentares é assessoria, fora amplos recursos para estudar e decifrar o caso. Disposição? Talvez este seja o grande problema. Aproveitar a compra da Refinaria de Pasadena, EUA, para desgastar o Governo, é coisa que rende manchetes e não dá trabalho. Mas provar que ali foi gasto um montante injustificável já são outros quinhentos. Exige que o parlamentar faça o detalhamento das acusações, expondo-se a eventuais erros, e pode levar a conflitos com entidades que costumam colaborar em todas as campanhas eleitorais, o que inclui a dos partidos e parlamentares de oposição. 

O fato é que a campanha eleitoral é cara e que as tetas em que se alimentam Suas Excelências, de todos os partidos, pertencem às mesmas vacas leiteiras. Tirar-lhes o verde pasto prejudica a todos. 

Silêncio, pois, que silêncio vale ouro.

Então, tá
Hollywood um dia vai filmar essa história. O diretor de uma empresa é acusado pela presidente do Conselho de elaborar um relatório cheio de falhas, que a levou a aprovar um negócio que se revelou ruim. Mas o diretor, embora em outro posto, continua diretor por longos e longos anos. Um dia, quando o negócio se torna conhecido, o referido diretor é demitido. Mesmo assim, recebe total assistência da empresa que o demitiu, com treinamento especializado para depor na CPI e direito de formular as perguntas a que vai responder. Como diria a presidente do Conselho, que tem cara de brava mas é boazinha, É Tóis!

Coisa feia
Fazer humor com a tragédia do menino que perdeu o braço na jaula do tigre é uma das coisas mais horrorosas que existem. Só há uma mais horrorosa: fazer humor com a tragédia do menino para fins político-partidários. É asqueroso.

O inimigo do Estado
Quatro policiais foram ao escritório do delegado Romeu Tuma Jr., ex-secretário nacional da Justiça, para levá-lo coercitivamente (em outras palavras, obrigá-lo a comparecer, sob guarda) à Superintendência da Polícia Federal, para depor a respeito das denúncias que fez em seu livro Assassinato de Reputações - um crime de Estado, um best-seller redigido pelo jornalista Cláudio Tognolli. Tuma se recusou a acompanhá-los, pela ilegalidade da ação. E foi à Polícia Federal por vontade própria. 

No livro, Tuma faz acusações ao ministro Gilberto Carvalho, ao governador gaúcho (e ex-ministro) Tarso Genro, diz que Lula foi informante de seu pai, Romeu Tuma, diretor da Polícia política da ditadura militar, denuncia uma fábrica de dossiês falsos sobre adversários políticos por gente ligada ao Governo Federal. Segundo diz, todos os ministros do Supremo Tribunal Federal foram grampeados. É por dizer essas coisas que sofre pressões de cima.

Coisa perigosa
Mandar prender Tuma Jr. para que ele preste um depoimento que nunca se recusou a fazer tem um aspecto curioso: o que está no livro está no livro, não precisa ser reafirmado. E tem um aspecto perigoso: com tanto tempo como delegado, em cargos importantes, Tuma Jr. deve saber muito.

E se quiser contar mais?

O velho e o novo
Eduardo Campos, candidato do PSB à Presidência, decidiu aderir ao novo: tem um Twitter. Mas ainda não sabe usá-lo. No Twitter, uma ferramenta de transmissão de mensagens pessoais, Campos se refere a si mesmo na terceira pessoa - como Pelé. E manda: Em Pelotas, Eduardo Campos aponta a importância dos jovens na construção de um novo Brasil.

Seu endereço, para quem quiser colecionar novas pérolas virtuais, é @eduardocampos40

Sem política 1
Um pouco de cultura, em vez de política e economia: na Galeria Gravura Brasileira (ótima, só com artistas nacionais, comandada pelo arquiteto e galerista Eduardo Besen), já estão em exposição as gravuras e fotografias de Ana Calzavara e as xilogravuras de Ruth Kelson. Até 13 de setembro. De segunda a sexta, das 10 à 18h; sábado, das 11 às 13h. Rua Franco da Rocha, 61 - São Paulo.

Sem política 2

Uma nova coleção, novas e boas obras: a Bella Editora lança três livros na Coleção Diálogo Entre Religiões. Os temas são Islamismo, Budismo e Espiritismo. Os livros serão autografados pelos autores, Heródoto Barbeiro, Alexandre Caldini Netto e o xeque Taleb Hussein al-Khazraji, a partir das 11 da manhã do sábado, 9, no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, SP.

carlos@brickmann.com.br 
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******* COMENTANDO A NOTÍCIA:
Há um detalhe importante que escapou à observação do Carlos Brickmann. Fernando Pimentel, do PT, relator da CPI, arrolou mais de 70 perguntas aos depoentes, não deixando tempo vago para que as oposições apresentassem suas perguntas. Ao ser respondida a última, a sessão foi imediatamente suspensa, apesar dos protestos.  Este detalhe é significativo para demonstrar que, ale´m do teatro com perguntas já gabaritadas, o andamento das sessões está lotada de vícios e manobras para evitar que as oposições possam investigar qualquer coisa.  

Já que não se conseguiram evitar a instalação da CPI, os governistas manobram o quanto podem para esfriá-la. E eles sabem as razões para impedir que as investigações avancem. Ah, se sabem...

Pedra sobre pedra

Dora Kramer
O Estado de São Paulo



A pergunta é: se não há nada de errado na Petrobrás, qual a razão de tanto esforço para impedir que as investigações sobre os negócios da companhia, com destaque para a compra da refinaria de Pasadena, prosperem de maneira independente?

Nos últimos dias de março, há pouco mais de quatro meses, a presidente da empresa, Graça Foster, informou sobre a abertura de uma comissão de inquérito interna que em 45 dias iria apurar os fatos relativos à compra da refinaria.

"Não sobrará pedra sobre pedra", avisou em entrevista ao jornal O Globo, sugerindo rigor e transparência nos procedimentos.

De lá para cá, no entanto, o que se viu não foi uma demolição de entraves aos esclarecimentos. Observa-se, antes, a construção, pedra sobre pedra, de barreiras de proteção em torno de diretores, ex-dirigentes e tudo o mais que diga respeito à Petrobrás.

Proteção à empresa? Não foi isso o que se fez permitindo-se o uso político dos preços dos combustíveis e a desvalorização de suas ações.

A blindagem se dá mediante a ação conjunta da estatal, do governo e de seus aliados no Congresso. Os diretores em princípio responsabilizados pelo Tribunal de Contas da União pelo prejuízo de US$ 792 milhões terão a cobertura das despesas com as multas, ressarcimentos e custos com advogados garantidos por seguro da própria Petrobrás.

Aqueles que foram apontados pela presidente da República como responsáveis por tê-la induzido e aos integrantes do Conselho de Administração ao erro de aprovar um negócio que viria a provocar o prejuízo da ordem apurada pelo TCU, hoje estão todos do mesmo lado.

Há uma CPI para investigar, mas nessa investigação tudo é previamente combinado entre investigados e investigadores. Francamente, não há outra maneira - a não ser que alguém explique de forma didática - de entender o que se passa: existe uma ação conjunta para impedir que se conheçam os meandros daquela negociação e a verdade sobre a responsabilidade de cada um.

O que se pretende, ao que parece, é pôr uma pedra, se não várias, sobre essa história. E a cada dia surge uma nova armação. A mais recente aparece em decorrência da revelação das cartas marcadas na CPI do Senado.

De um lado, o PT propõe criar duas outras comissões de inquérito para atingir a oposição. Não porque queira investigar de fato, mas porque pretende assim desviar o foco.

De outro, o Senado faz dois gestos tão teatrais quanto vazios. O presidente da CPI, Vital do Rêgo, encaminha ofício à Polícia Federal pedindo que investigue a própria CPI, sabendo que a PF não vai entrar numa fria dessa envergadura.

O presidente da Casa, Renan Calheiros, empenha todo seu notório capital de credibilidade para informar que considera "muito grave" a denúncia de acertos de perguntas e respostas e, diligente, anuncia a criação de uma comissão interna de sindicância.

Faz isso na maior seriedade, como se alguém pudesse confiar na independência da comissão formada por três servidores do Senado encarregados de uma investigação cujo resultado pode apontar o envolvimento de senadores governistas, de assessores da Casa Civil do Palácio do Planalto e de funcionários da Petrobrás.

Calheiros pede "pressa" na apuração e ensina que "CPI é uma instituição que não pode ser arranhada, um instrumento fundamental de fiscalização". Seria de rir a desfaçatez, não fosse de lamentar o cinismo.

Bicudos. 
Em vários momentos de sua apresentação na Confederação Nacional da Agricultura, Eduardo Campos provocou na plateia reação de muito agrado. Já a referência feita ao final por ele à vice, dizendo ter certeza de que Marina Silva era ali "muito bem vinda", mereceu a frieza do silêncio.

Em seguida a ex-senadora subiu ao palco para as despedidas deixando claro no semblante que a recíproca era verdadeira.


Para Dilma, 2º turno será indício de mau agouro

Josias de Souza


Numa entrevista que concedeu no final de maio, Lula disse que prefere ver Dilma Rousseff eleita num segundo round folgado do que num primeiro turno apertado. “A ganhar no primeiro turno por 51% a 49%, prefiro ganhar no segundo turno, com 65% a 35%”, disse ele. “Eu acho que a Dilma está tranquila.” A intuição de Lula, aguçadíssima, pode pregar-lhe uma peça.

Hoje, a melhor coisa que poderia acontecer com Dilma seria prevalecer no primeiro turno —ainda que por margem estreita. Se a disputa escorregar para uma segunda etapa, como parece provável, a candidata de Lula terá de empapar o terninho vermelho para conservar a poltrona de presidente da República. Na virada de um turno para o outro, seus adversários revelam-se bem mais pujantes do que ela.

De acordo com o último Ibope, divulgado na noite desta quinta-feira, Dilma não subiu nem desceu. Manteve os mesmos 38% que tinha há duas semanas. Aécio Neves oscilou um ponto para o alto, estacionando em 23%. Está 15 pontos atrás da presidente. Eduardo Campos também subiu um ponto, somando 9%. Encontra-se a 29 pontos percentuais de Dilma.

Num segundo turno contra o rival tucano, Dilma iria de 38% para 42%. Agregaria ao seu cesto de votos apenas 4 pontos. Aécio saltaria de 23% para 36% —um acréscimo de 13 pontos. Ficaria a escassos seis pontos de Dilma. E teria sobre ela uma vantagem inestimável: enquanto a taxa de rejeição da presidente é de 36%, a do senador tucano soma 15%.

Numa disputa direta contra o ex-governador de Pernambuco, Dilma adicionaria seis pontos percentuais ao seu potencial de votos. Saltaria de 38% para 44%. Campos avançaria notáveis 23 pontos, passando de 9% para 32%. A diferença entre ambos cairia de 29 pontos percentuais para 12. E Campos tem uma taxa de rejeição quatro vezes menor do que a de sua rival. Enquanto 36% dos eleitores declaram que jamais votariam em Dilma, apenas 9% refugam Campos.

Mas afinal, haverá ou não segundo turno? Para liquidar a fatura na primeira rodada, Dilma precisaria obter mais votos do que a soma de todos os seus rivais. Hoje, informa o Ibope, há um empate da presidente com seus contendores. Somando-se os percentuais atribuídos a Aécio, Campos e aos candidatos nanicos, chega-se aos mesmos 38%. Há quatro meses, Dilma somava 37%, contra 25% dos demais.

Ou seja: não são negligenciáveis as chances de o eleitor preferir esticar a contenda, a exemplo do que fez em 2002, 2006 e 2010. Afora a taxa de rejeição, Dilma arrasta na cena eleitoral uma segunda bola de ferro: apenas 32% do eleitorado considera o governo dela ótimo ou bom. A taxa de aprovação é praticamente igual ao índice dos que avaliam a administração petista como ruim ou péssima: 31%.

Se a história ensina alguma coisa é que a taxa de intenção de votos de um candidato à reeleição tende a se aproximar do índice de aprovação do governo que se deseja continuar.

Em resumo: a dois meses do encontro do eleitor com a urna, a sucessão de 2014 continua sendo uma janela aberta para o imprevisível. Mas, diferentemente do que afirmou Lula, Dilma não está tranquila.

Toda entrevista de Dilma Rousseff virou uma espécie de comédia stand up, em versão política. Divirtam-se.

Carlos Newton
Tribuna da Internet


Com toda certeza, a presidente Dilma Rousseff é uma espécie de Seinfeld de saias, especialista em stand up comedy, fazendo graça o tempo todo. Cada vez que ela fica em pé diante de um microfone, podemos contar com um show imperdível, em que a governante brasileira sempre se enrola toda, começa as frases e não as termina, num espetáculo verdadeiramente hilariante e sensacional.

Ontem, após participar de sabatina organizada pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, a candidata do PT tentou desqualificar a denúncia da revista Veja de que parlamentares da base aliada repassaram perguntas da CPI aos dirigentes  da Petrobras,  para que treinassem as respostas que dariam à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga denúncias de corrupção na estatal.

O Palácio do Planalto não é expert em petróleo e gás. O expert em petróleo e gás é a Petrobras. Queria que você [jornalista] me dissesse quem elabora perguntas de petróleo e gás para a oposição. Perguntas sobre petróleo e gás, só um lugar ou em vários lugares no Brasil: na Petrobras e em todas as empresas de petróleo e gás. Eu acho estarrecedor que seja necessário alguém de fora da Petrobras formular perguntas para eles [diretores]”.

Ele tentou defender a presidente da Petrobras, Graça Foster, e sua diretoria, mas ficou parecendo uma crítica aos diretores da estatal, por precisarem de ajuda dos parlamentares da base aliada para deporem na CPI.

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Outro raciocínio dela, sobre comércio exterior: “Precisamos cada vez mais cooptar e captar novas fronteiras tanto na Ásia quanto no Oriente Médio“.

Mas o que significa “cooptar e captar novas fronteiras?

Ainda sobre comércio exterior. “É importante vocês saberem que há uma restrição na União Europeia em receber propostas de acordos comerciais, pois esses países atribuem acordos a crises. Apesar disso, estamos prontos para apresentar nossa proposta conjunta com Argentina, Paraguai e Uruguai.

Será que ela não estava querendo dizer o contrário: que os europeus atribuem crises de sua produção agrícola a acordos comerciais firmados pela União Europeia?

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Depois, falou sobre a proteção ao setor agropecuário nacional. “Não é um processo em que a gente apenas asssegure a qualidade da produção, é um instrumento fundamental de comércio agropecuário. Eu assumo aqui o compromisso de reforçar nossa defesa agropecuária, ela está hoje aquém do nosso País.

Mas o que significa reforçar nossa defesa agropecuária?

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O etanol de cana terá que ser competitivo com o etanol de milho [dos Estados Unidos]. A política do governo é ajudar nessa competitividade. Junto com Anfavea [Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores] estamos estudando a possibilidade de ampliar de 25% para 27,5% a mistura do etanol na gasolina. O setor passou por uma crise de sobreprodução no início da crise financeira. Esse processo de crise sistematicamente será absorvido. Estruturas de financiamento mais favoráveis vão garantir ampliação da nossa produtividade”, argumentou Dilma.

Crise de sobreprodução no início da crise financeira? Mas o que será isso? E ninguém riu da piada?

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Sobre a possibilidade de o Tribunal de Contas da União (TCU) rever a decisão sobre o caso da compra da Refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, e pedir o bloqueio dos bens da presidenta da Petrobras, Graça Foster.

Você [jornalista] já julgou? Acho que, se não houve julgamento, não há constrangimento nenhum. Peço para não me fazer uma pergunta sobre julgamento que não aconteceu”, respondeu.

Mas o que será que Dilma Rousseff tentou dizer ao afirmar que sem julgamento, não há constrangimento? É por isso que la nave va, sempre fellinianamente.

Lula e Dilma, a comparação relevante

Roberto Macedo
O Estado de São Paulo

Relevante porque, no regime presidencial-majestático da política brasileira, cabe exorcizar o personalismo de presidentes que se autoatribuem sucessos pelos quais não foram tanto ou mesmo nada responsáveis, ao mesmo tempo que escondem fracassos de suas ações. Para identificar uma coisa e outra é preciso examinar as circunstâncias em que ocorreram essas ações de modo a identificar o que de fato resultou delas e as demais causas. Como disse um filósofo, a pessoa é inseparável das circunstâncias no seu entorno.

Relevante também porque, nas circunstâncias eleitorais do momento, o personalismo autogratificante tende a ser exacerbado pela candidata à reeleição, alcançando também feitos atribuídos a seu antecessor. E ao fazer isso recorre a comparações dos quase 12 anos de governos petistas com os oito de Fernando Henrique Cardoso, sem atentar para as diferentes circunstâncias que marcaram os dois períodos. A oposição não pode entrar nesse jogo. Seus esforços devem ser dirigidos a outros afazeres, como o da comparação que intitula este artigo.

Segue-se um esboço dela na área econômica.

Na economia de um país, ações de seu governo usualmente se voltam para promover o crescimento do produto interno bruto (PIB), mas sem descuidar da inflação, das contas públicas e das externas. Desequilíbrios nessas áreas, no Brasil já embrionários, podem levar a sérias crises. Diante das desigualdades sociais do País, também é indispensável um esforço para reduzi-las.

Quanto ao PIB em si, a comparação com o período Lula é fortemente desfavorável a Dilma. Naquele período, a média aritmética das taxas anuais de variação do PIB foi 4,1%. Sob Dilma, e supondo uma taxa de 1% em 2014, essa média caiu para 1,8%. Mas é descabido avaliar desempenhos apenas por essas taxas, pois isso implicaria dizer que o PIB de um país depende apenas do que fazem seus presidentes, um imenso absurdo.

Mas na campanha de 2010, e mesmo depois de eleger-se, Dilma sempre seguiu esse personalismo, apregoando que Lula e ela, como sua "gerentona", haviam ampliado fortemente o crescimento do PIB, criado milhões de empregos, e por aí afora. Agora, o que ela vai dizer? Há indícios de que o bode expiatório será o desempenho da economia mundial, mais fraco na sua gestão.

Mas esse argumento só pegará se o Brasil for um país de tolos. O aspecto mais frágil da nossa economia é que ela investe pouquíssimo na expansão da sua capacidade produtiva, com o que não produz PIB bem maior. Tome-se a China, que em 2014 também vai derrotar o Brasil pelo humilhante placar de 7 a 1. Isso numa imaginária Copa do PIB em que cada 1% de crescimento valesse um gol. Mas por muitos anos a China se preparou para ganhar essas Copas investindo perto de 40% do seu PIB, enquanto o Brasil está em míseros 18%. Poder-se-ia argumentar que o país asiático tem governo autoritário, sua população é mais disciplinada e poupadora que a nossa, etc. Mas aqui perto, na América Latina, países como México, Chile, Colômbia e Peru, que investem perto de 25% do PIB, nas suas taxas de crescimento também derrotam o Brasil com folga, com placares de 3 a 1 e até de 5 a 1, conforme previsões para 2014. E, o que é importantíssimo, também enfrentando a mesma fragilidade da economia mundial com que o Brasil se depara.

Voltando aos anos Lula, o então maior crescimento do PIB, conforme a referida média, foi muito beneficiado por um período de bom desempenho da economia mundial. Dessa vez, marcado pelo forte aumento da demanda chinesa por nossas commodities, o que também aumentou seus preços. Outra força muito forte foi a expansão do crédito no Brasil, que cresceu perto de 20% do PIB entre 2002 e 2010, uma enormidade se comparada com o crescimento dos gastos sociais federais, que no mesmo período foi de 1,6% do PIB. Muitas vezes este último aumento é equivocadamente apontado como fator preponderante, embora de impacto bem menor que os outros dois citados.

Foi nesse quadro de vacas gordas que Lula cometeu um erro gravíssimo, o de crer que tal cenário continuaria indefinidamente e não optar por fortalecer a economia com mais investimentos. Dilma, em seguida, tampouco percebeu que o impulso vindo de fora para dentro do País e aqui os da expansão do crédito ao consumo haviam perdido a maior parte do seu ímpeto. O crédito, contido pelo maior endividamento dos devedores e pela maior cautela dos bancos ao concedê-lo. De sua parte, o governo continuou gastando cada vez mais sustentado pela mesma crença e disfarçando com a tal "contabilidade criativa" a consequente piora do estado de suas finanças. E, na microeconomia dos setores, Dilma interveio de forma contundente e equivocada nos seus preços, prejudicando seriamente o elétrico, o petrolífero e o sucroenergético, no processo danificando até suas queridíssimas empresas estatais envolvidas nos dois primeiros.

Tudo isso gerou o atual clima de pessimismo quanto à economia e de desconfiança no governo federal. Desse ambiente a presidente Dilma se queixa a empresários, sem reconhecer a culpa por seus próprios erros e mudar com vigor o rumo de sua política econômica.

Assim, o que se pode concluir desse retrospecto é que Lula não foi o maior responsável pelo crescimento do PIB no seu mandato, e deixou como legado um insustentável modelo de crescimento. Só mais tarde Dilma percebeu que não funcionava. E, já de olho nas urnas, optou pelo intervencionismo setorial, não tendo assim como escapar a uma responsabilidade maior pelo mau desempenho da economia.

Se culpar a economia mundial pelas taxinhas do PIB no seu governo, terá de admitir que à mesma economia cabe o devido crédito pelas taxas maiores do governo Lula, que surfou em ondas impulsionadas pelas circunstâncias. Em síntese, a comparação deixa ambos longe do conforto em que se imaginam.

É a economia, candidatos

Celso Ming
O Estado de São Paulo

A novidade da campanha eleitoral deste ano é a de que os debates começaram expondo temas preponderantemente econômicos.

Por enquanto, ativeram-se a públicos fechados, como o de fóruns e sabatinas entre candidatos e empresários, promovidos por instituições da Imprensa e por organismos representativos da Indústria e do Agronegócio. As posições dos candidatos ainda são um tanto vagas e expostas sem ordem de prioridades.

Mas já sabemos que a inflação está corroendo demais o poder aquisitivo do trabalhador e a capacidade de previsão nos negócios e que, por isso, exige contra-ataque mais eficiente do que vem tendo. Há uma percepção generalizada de que avanços tão medíocres do PIB pioram tudo: a arrecadação de impostos, o investimento, o emprego, a qualidade de vida.

(Fotos: ALEX SILVA / ESTADAO) 
Aécio, Dilma e Campos  

Ficou claro que a política cambial não pode continuar a desempenhar uma função imprópria e injustificada, como a de ajudar a controlar a escalada dos preços, como hoje acontece. A sociedade avisa que os juros têm de cair, porque vêm tornando proibitivos os custos do crédito. E que, com ou sem tarifaço, os preços administrados (combustíveis, energia elétrica, transportes urbanos) exigem correção e regras claras para que não continuem a criar distorções.

Há consenso em que a infraestrutura é ruim e cara, que o governo não vem conseguindo dar agilidade aos investimentos. Enfim, que é preciso criar um ambiente mais saudável para a atividade econômica e que o comércio exterior está emperrado e precisa ser destravado.

Em certo sentido, as reivindicações são recorrentes como também o são os compromissos de campanha manifestados pelos candidatos.

Os três principais deles (foto) concordam em que não há como escapar das reformas que vêm sendo sistematicamente postergadas. Mostram-se mais à vontade para falar de reformas do sistema tributário e do sistema político, mas preferem se omitir quanto às das leis trabalhistas e as do sistema previdenciário. De qualquer maneira, os candidatos não avançaram em como encaminhariam projetos nesse sentido.

A oposição parece mais consciente do que o governo de que não é possível dar um novo salto de qualidade na política econômica e no rumo do desenvolvimento sem que antes se coloquem em ordem as contas públicas e, até mesmo, sem antes obter um mais alentado superávit primário (parcela de arrecadação destinada ao pagamento da dívida), para criar confiança e condições para um crescimento sustentável.

É possível que estes não sejam os temas que mais comparecerão aos programas de propaganda gratuita por rádio e por televisão, que vão começar no dia 19 deste mês, porque podem parecer um tanto áridos na comunicação com as massas, numa campanha eleitoral que trabalha especialmente com as emoções. Mas indicam que as preocupações de quem decide não se atêm apenas nem prioritariamente a questões de Saúde, Educação, Segurança e Corrupção, como em geral se argumenta, mas aos problemas que, tanto quanto estes ou até mais, mexem com o bolso do eleitor.

CONFIRA: 
No gráfico, a evolução da produção de veículos nos últimos 12 meses.



Fracasso do Mercosul
Os debates pré-eleitorais acentuaram os problemas comerciais do Brasil que decorrem da falta de negociações e do fracasso do Mercosul.

Cemitério
Na quarta-feira, o ex-ministro Delfim Netto denunciou “o abandono da política comercial”. E prosseguiu: “Nos amarramos ao Mercosul, que não funciona. Transformamos o Atlântico Sul num cemitério. Abandonamos o comércio exterior como vetor de crescimento”.

Reforma à vista

Merval Pereira
O Globo 

Esta campanha eleitoral está começando a ter uma cara diferente das anteriores, com os principais candidatos de oposição apresentando propostas para questões fundamentais que dependem de reformas estruturais que não são realizadas há pelo menos doze anos.

É o caso da reforma tributária, que foi objeto de debate dos candidatos Aécio Neves, do PSDB, e Eduardo Campos, do PSB, nos últimos dias e ontem, em São Paulo, e foi tema de um seminário, do qual participei, organizado pela Lide de João Doria Jr e o Movimento Brasil Eficiente, do economista Paulo Rabello de Castro.

Só o governo não mandou representante, num dia em que O GLOBO tinha em sua 1ª página uma reportagem que mostra a urgência desse debate: o gasto público cresce sem parar no país desde 1997, seja o governo do PT ou do PSDB. E em consequência a carga tributária cresce também, tornando-se um dos principais obstáculos à competitividade das empresas brasileiras e ao crescimento do país.

A boa notícia é que os oposicionistas têm a mesma visão: não é possível aumentar mais a carga tributária. Têm compromisso com a simplificação da cobrança dos impostos, como 1º passo para a redução da carga. O Movimento Brasil Eficiente, coordenado pelo Instituto Atlântico, defende um ajuste geral, corajoso e inteligente das contas públicas com o objetivo de reduzir a carga tributária para 30% do PIB no prazo de dez anos, e criar um ambiente econômico que propicie crescimento sustentado de 6% ao ano, com o aumento de investimentos em infraestrutura para 25% do PIB.

A carga tributária, que se aproxima de 40% do PIB quando somada ao déficit público, chegou ao limite politicamente tolerável , na definição do Movimento, que reúne confederações do setor produtivo nacional, federações empresariais e de trabalhadores, empresas de vários setores e de todos os portes, entidades de representação da sociedade civil do chamado terceiro setor, além de universidades e institutos de pesquisa.

O representante do candidato do PSDB, Wilson Brumer, homem do setor privado mas com experiência de ter sido secretário de governo em Minas, foi objetivo, e considerou exequível esse movimento para redução contínua da carga tributária até que ela chegue a 30%.

Como Aécio já havia enfatizado, isso só acontecerá se houver um controle do crescimento do gasto público corrente, e Brumer retomou proposta que Dilma, quando ministra-chefe do Gabinete Civil, considerou rudimentar: os gastos do governo não podem ser maiores do que o crescimento da economia. Ou, como definiu o jurista Ives Gandra, o Estado não pode continuar sendo maior que o PIB.

O ex-deputado federal Maurício Rands, que deixou o PT e hoje assessora Eduardo Campos, anunciou como uma decisão do candidato a criação de um conselho para acompanhar as contas do governo, conforme previsto pela Lei de Responsabilidade Fiscal e nunca regulamentado. Campos havia ontem o compromisso de não aumentar impostos, e, a partir desse patamar, fazer uma reforma tributária que simplifique e distribua melhor seus impostos para melhorar os serviços públicos.

Os dois buscam saídas para um maior equilíbrio federativo, eles que foram governadores e sentiram na carne as dificuldades que a centralização dos impostos no governo federal produzem. Ao final do debate, em que ficou claro que os empresários anseiam por mudanças estruturais, o economista Castro leu a Carta do Povo Brasileiro , baseada em uma pesquisa encomendada ao Datafolha depois das manifestações de junho de 2013, que termina assim:

Perdas são pedagógicas. Perdemos, um dia, a democracia, para aprendermos a não perdê-la nunca mais; com a inflação, perdemos o sentido e o valor do dinheiro para, hoje, darmos todo o valor à moeda estável. Temos perdido tempo e energia demais com governos que governam mal e nos custam cada vez mais caro. Nossa paciência não tem o tamanho da vida inteira. O povo brasileiro exige ser senhor do seu tempo. Para o Brasil se projetar como líder em sua região e como um exemplo de nação próspera, moderna e justa, perante o mundo. Queremos de volta a ordem no governo, para termos de volta o progresso, que perdemos..

Se por exemplo chover

Miriam Leitão
O Globo 

Se chover acima da média histórica na estação chuvosa, ainda assim haverá uma conta de energia amarga para se pagar nos próximos anos. O preço já foi determinado por decisões anteriores. No ano passado, o governo emprestou R$ 10 bilhões para as distribuidoras. Agora, são mais R$ 17,7 bilhões e sobre esses recaem juros bancários. Chova ou faça sol, será cobrado do consumidor.

Há variáveis que podem mitigar o problema, mas a conta já está alta demais pelos custos nos quais as empresas já incorreram que serão transferidos para as contas de luz por determinação do próprio órgão regulador. O empréstimo foi tomado em nome da sociedade.

- É possível prever, sim, o impacto nas contas de luz e não depende da hidrologia, porque a maior parte dos fatos já ocorreu, é jogo jogado - explica Mário Veiga, da consultoria PSR.

Começando de 2013, o Tesouro fez um depósito de R$ 8,5 bilhões na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) para atenuar os efeitos da MP 579. Além disso, o governo emprestou sem juros R$ 10 bilhões para as distribuidoras para elas pagarem em cinco anos a partir de 2014. Quando chegou este ano, o governo decidiu começar a cobrar a partir do ano que vem. Isso irá para as contas de luz.

Em 2014, o governo induziu o setor privado a tomar dois empréstimos, até agora, para cobrir as diferenças entre custo e receita das distribuidoras, e o aval bancário é o aumento futuro da conta de luz.

- Isso é o gasto projetado do setor elétrico adicional à tarifa que seria cobrada normalmente. Acho curioso dizer que depende da hidrologia para haver ou não um tarifaço, porque ele já está acontecendo, o aumento médio este ano das empresas está em 25% e nesse reajuste não estão embutidos os empréstimos feitos às distribuidoras - diz Mário Veiga.

Ele sustenta que definitivamente "a culpa não é da chuva", porque, pelos dados que tem, esse não é nem o pior nem o segundo pior ano de média histórica de chuvas, mas sim o nono ano pior. E 2013 foi um ano excelente.

Os empréstimos às distribuidoras, mais o uso intensivo das térmicas, criaram um custo que será repassado ao consumidor. No ano passado, apesar da boa quantidade de chuvas, as térmicas ficaram ligadas quase o ano inteiro e isso encareceu a energia. Os erros nos leilões deixaram empresas expostas ao preço da energia no mercado de curto prazo. Em 2008, também as cotações no mercado de curto prazo subiram, mas não houve problema porque as distribuidoras tinham contratado a energia que precisavam. As compras foram apenas residuais.

E o problema é que, se o preço aumentar muito, podem ocorrer vários efeitos colaterais complicados. Um exemplo é o aumento da inadimplência. E o outro é o da queda da demanda por redução do consumo da energia industrial. Essa queda da demanda não seria por programas de eficiência energética, mas por queda do nível de atividade, como está acontecendo agora.

Há outros fantasmas rondando. A Eletrobrás vai receber R$ 6,5 bilhões de empréstimo, para fazer seu plano de negócios, e quem vai emprestar é a Caixa e o Banco do Brasil. Desse dinheiro, tirará uma parcela de R$ 425 milhões para um pagamento emergencial à Petrobras, a quem deve R$ 6,1 bilhões. Uma bomba de custos, déficit e dívida foi armada.

Bom é ouvir Maricotinha, de Dorival Caymmi, para pensar na vinda ou não da chuva. Na crise do setor elétrico, é melhor não esperar para decidir apenas se fizer bom tempo. Ainda que chova, o problema não se resolve sozinho. Na música, há o delicioso dilema de Caymmi ir ou não ir. Na vida real, será preciso enfrentar a pilha de problemas que se acumularam no setor e que vai inevitavelmente impactar os preços dos próximos anos.

Emergência no Tesouro

O Estado de S. Paulo 
Editorial 

Com suas contas em muito mau estado, o governo tenta arrancar dinheiro de onde puder para fechar o balanço fiscal, no fim do ano, com um resultado pelo menos próximo do prometido no começo de 2014. No esforço para cavar mais alguma receita, o Ministério da Fazenda tem pressionado a Caixa Econômica para entregar ao Tesouro o dobro dos dividendos combinados, embora isso torne praticamente inevitável um novo aporte de capital no próximo ano. Pela mesma razão, o Ministério das Comunicações tem insistido em realizar neste ano, contra a vontade da maior parte das companhias do setor, o leilão de telefonia 4G, mais uma promissora fonte de recursos extraordinários para um orçamento depauperado.

O setor público deve fechar suas contas de 2014 com R$ 99 bilhões de superávit primário, dinheiro destinado ao pagamento de pelo menos parte dos juros da dívida pública. Uma parcela de R$ 80,8 bilhões deverá ser fornecida pelo poder central (governo federal, Banco Central e Previdência). Mas a contribuição poderá ser maior, se for insuficiente o resultado obtido pelos governos de Estados e municípios e pelas estatais. Essa foi, pelo menos, a promessa formulada há meses pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Conhecido o balanço fiscal do primeiro semestre, fica muito difícil de acreditar no cumprimento de qualquer dessas promessas, exceto, é claro, por meio de novos lances de criatividade contábil. A contabilidade criativa foi usada amplamente nos últimos dois anos. Sem ela, o governo teria apresentado resultados muito piores. O governo jamais conseguiu enganar a imprensa e os profissionais especializados e a opinião pública foi informada sobre os truques, mas as manobras têm sido repetidas.

Neste ano, até junho, o setor público produziu um superávit primário de apenas R$ 29,38 bilhões, 43,67% menor que de igual período de 2013. O resultado primário do governo central ficou em R$ 15,37 bilhões, 54,43% abaixo do obtido de janeiro a julho do ano passado, mesmo com a redução do déficit da Previdência de R$ 27,03 bilhões para R$ 23,16 bilhões.

A arrecadação do Tesouro ficou muito abaixo da previsão inicial e o aumento real de receita estimado para o ano já passou de 3% para 2%. Mas os detalhes tornam o quadro mais feio. Mais de dois terços do superávit primário do governo central foram proporcionados por R$ 10,49 bilhões de dividendos, uma soma 36,3% maior que a do primeiro semestre de 2013. O aumento desse tipo de contribuição resultou, obviamente, de fortes pressões.

Com o baixo ritmo da atividade econômica e a manutenção das desonerações fiscais, o governo passou a depender mais dramaticamente que nos anos anteriores de receitas especiais. Essas receitas incluem dividendos, bônus de concessões e pagamentos do Refis, isto é, do reescalonamento de dívidas tributárias. A arrecadação prevista do novo Refis foi elevada, em pouco tempo, de R$ 12,5 bilhões para R$ 18 bilhões.

A pressão sobre a Caixa Econômica é parte desse jogo. Por acordo com o governo, a Caixa deveria transferir neste ano só metade dos lucros normalmente disponíveis para dividendos. O Ministério da Fazenda resolveu romper a combinação e cobrar todo o resultado, estimado em cerca de R$ 5 bilhões. A exigência complica seriamente a situação da Caixa, forçada também a participar, juntamente com o Banco do Brasil, de uma nova operação de socorro ao setor elétrico. O governo tenta, ao mesmo tempo, maquiar suas contas com dinheiro da Caixa e socorrer empresas de eletricidade, seriamente prejudicadas pela mal planejada renovação de concessões.

Os bônus de contratos para infraestrutura também entram nesse jogo. Nas últimas semanas, o grande empenho do governo foi para realizar em setembro o leilão de telefonia 4G. A ideia era obter uma receita de uns R$ 8 bilhões para reforçar as contas do Tesouro. Além de atropelar a conveniência das teles, interessadas em adiar o leilão para 2015, o governo enfrentou uma barreira criada pelo Tribunal de Contas da União. O fechamento do balanço ainda vai dar muito trabalho.

Brasileiros guardam menos dinheiro em 2014

Veja online

Segundo levantamento da Serasa e do Ibope, todas as classes sociais registraram diminuição no número de pessoas que guardaram dinheiro nos últimos 12 meses

(Thinkstock/VEJA)
 Entre classe alta, apenas 57% dos entrevistados pouparam nos últimos 12 meses 

O número de pessoas que poupam caiu em todas as classes sociais em 2014, como mostra a 2ª edição do Indicador de Educação Financeira (IndEF), em uma parceria da Serasa Experian com o Ibope. Entre os mais endinheirados (que ganham mais de dez salários mínimos), apenas 57% dos consumidores pouparam nos últimos doze meses, contra 76% em 2013, a maior queda entre as classes. 

Entre os brasileiros que ganham entre cinco e dez salários mínimos, a porcentagem de pessoas que pouparam caiu de 59% na pesquisa do ano passado para 45% neste ano, a segunda maior queda. Na classe de pessoais que recebem de dois a cinco salários mínimos, o proporção de poupadores passou de 43% para 36% no período. 

As classes mais baixas - até um salário mínimo e de um a dois salários - foram as que registraram o menor recuo no número de poupadores: de 18% para 17% e 26% para 25%, respectivamente. 

Segundo o relatório, a educação financeira também continua relacionada com o ato de poupar, embora a nota dada para quem poupou nos últimos doze meses tenha sido um pouco menor que no ano anterior (6,6 de 10 pontos máximos em 2014 contra 6,7 em 2013). Quanto maior o índice, maior o nível de educação financeira. Este ano, no entanto, os jovens tiveram o pior desempenho. O grupo de 16 a 17 anos apresentou queda em relação à nota do ano passado: de 5,9 para 5,5. Os brasileiros que têm entre 18 e 24 também caíram na comparação com 2013, de 5,9 para 5,8.

A pesquisa ouviu 2.002 pessoas maiores de 16 anos de 140 cidades de todos os Estados brasileiros e Distrito Federal no primeiro trimestre de 2014. O Indicador é composto por três subíndices referentes a finanças pessoais e familiares dos brasileiros: o Conhecimento, a Atitude e o Comportamento, tendo cada um deles um peso diferente: Atitude (24%), Conhecimento (26%) e Comportamento (50%).

Poupadores nos últimos 12 meses por faixa de renda
Em comparação a 2013, todas as classes sociais tiveram queda no número de pessoais que poupavam

Fonte: Serasa Experian e Ibope