domingo, agosto 10, 2014

O governo rico já não vê o povo pobre

Percival Puggina

  
 A cartilha manda repetir sempre as mesmas coisas, ainda que não resistam a uma acareação com os fatos, porque a repetição se impõe à razão e acaba sendo mais convincente do que eles. Não importa que o realejo cause lesão por esforço repetitivo. O resultado compensa.

 Assim, ao longo dos anos, nossos ouvidos enrouqueceram de escutar que o país vivia sob um sistema econômico iníquo, que gerava aberrantes desníveis de renda e concentração de riqueza. Tão repetida cantoria acabou por convencer cautos e incautos de que somente uma guinada para a esquerda poderia nos conduzir ao éden da igualdade, da justiça e da prosperidade geral. Gradualmente, então, foi se abrindo a porta para o socialismo, apesar de os fatos, pela janela, berrarem que isso é uma loucura e que tal sistema não consegue apresentar um único caso de prosperidade e democracia. Têm razão os fatos: o anunciado socialismo, sempre, excetuadas suas elites, igualou a todos na pobreza, e só ao Estado concedeu liberdades. Mas isso quase ninguém diz e é nesse caminho que estamos sendo lenta e docilmente conduzidos.

O mais insólito nesse percurso é o próprio governo e seu partido, que se declaram socialistas, após 12 anos de gestão, terem que negar os fatos que os olhos mostram e insistirem em que a pobreza diminuiu. Agravou-se, assim, a situação de todos os que são pobres de fato. Eles deixaram de existir nas contas do governo.

O efeito da repetição é tão eficiente que o sujeito que escreve o que acabei de escrever passa a ser visto como um brutamontes destituído de sentimentos humanos. De nada vale dizer que não há concentração de renda maior do que aquela promovida por um aparelho estatal que fica com quase a metade de tudo que a nação produz. De nada vale denunciar esse Robin Hood burocrata que toma de quem tem (e de quem não tem) para dar ao insaciável governo. De nada vale informar que essa brutal, perversa e inútil concentração de renda nas mãos do Estado é típica do socialismo, avessa ao empreendedorismo e à economia de mercado. Com o tempo, só fará aumentar a pobreza do país.

Escrevo de teimoso, portanto: a persistência da pobreza que o governo se recusa a reconhecer têm como causa esse crescente avanço do Estado sobre a economia nacional. Não bastasse a robusta mordida de leão, o governo, no curto prazo, ainda toma dívidas em nome das gerações futuras. Mais ganancioso e perverso, só traficante.


Inflação firme, indústria fraca, país sem rumo

Rolf Kuntz  
O Estado de S. Paulo

Sem tarifaço, mas também sem crescimento econômico, o Brasil da presidente Dilma Rousseff acumulou de janeiro a julho inflação de 3,76%. Essa taxa é maior que a prevista para o ano inteiro em vários vizinhos mais dinâmicos - Chile, Colômbia, Equador e Peru. Até o fim do ano a inflação brasileira baterá também, se nenhuma grande surpresa ocorrer, a do Paraguai e a do México, segunda maior economia latino-americana. Por enquanto, o governo pode alardear mais um bom resultado parcial. No mês passado, a taxa caiu para 0,01%. A queda foi causada principalmente pelo recuo dos preços dos alimentos e pelo ajuste pós-Copa, observado, por exemplo, nas tarifas de transporte aéreo. A variação acumulada em 12 meses ficou em 6,5%, no limite da margem de tolerância.

O acumulado poderá diminuir até dezembro, mas continuará bem acima da meta, 4,5%. Para evitar um impulso maior o governo continuará contendo as tarifas de eletricidade. Poderá permitir ajustes limitados. Enquanto isso, as distribuidoras de energia, socorridas com novo empréstimo de R$ 6,6 bilhões, acumularão novas dívidas.

Haverá um repique da inflação, depois de alguns meses de recuo. Isso ocorreu em todos os anos a partir de 2010. No ano passado foi em agosto, quando a taxa passou de 0,03% para 0,24%. Neste ano, os economistas do mercado previram também para agosto o começo da nova aceleração. Poderão errar por um mês, dificilmente por dois. Os fatores inflacionários mais importantes continuam presentes. A gastança federal permanece, o crédito aumenta e o governo manteve os estímulos fiscais ao consumo. Ainda haverá muito alimento para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a referência oficial para a política anti-inflacionária. Falta saber se os juros básicos de 11% ao ano ainda produzirão efeitos e se a piora das condições de emprego assustará os consumidores e ajudará a frear os preços.

A queda de qualidade do emprego é indiscutível. A melhor empregadora, a indústria, continua demitindo. Além disso, as condições de ocupação nas fábricas estão mais precárias. No setor automobilístico, a adoção do lay-off - suspensão temporária de contratos - aumentou a insegurança. A criação de vagas tem ocorrido principalmente no comércio e nos serviços - mas a maior parte dos serviços, no Brasil, oferece condições de ocupação muito diferentes das observadas nos países desenvolvidos. O chamado emprego decente ainda é encontrado principalmente na indústria, na administração pública e no setor financeiro.

O emprego industrial aumentou 1% em 2011, diminuiu 1,4% em 2012 e encolheu mais 1,1% no ano seguinte. A redução continuou este ano. No primeiro semestre, o número de ocupados na indústria foi 2,3% menor que entre janeiro e junho do ano passado. Em junho, foi 0,5% menor que em maio e 3,1% inferior ao de um ano antes. Estes números foram divulgados na sexta-feira, pouco antes dos novos dados da inflação oficial, no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Apesar disso, a folha de pagamento real da indústria, embora tenha diminuído em junho, ainda foi, no primeiro semestre, 1,3% maior que entre janeiro e junho do ano passado. O aumento do salário médio, portanto, superou a inflação, embora o pessoal empregado tenha diminuído. Isso se explica principalmente pela baixa oferta de mão de obra qualificada ou mesmo qualificável.

Mas o aumento real de salários e de outros custos continua afetando o poder de competição da maior parte da indústria. Apesar do forte estímulo ao consumo, a produção industrial ficou estagnada durante o atual governo. Aumentou 0,4% em 2011, diminuiu 2,3% em 2012 e cresceu apenas 2% em 2013, sem voltar ao nível de dois anos antes. No primeiro semestre deste ano ficou 2,6% abaixo do registrado até junho do ano passado.

Para a indústria a inflação alta dos últimos anos traduziu-se principalmente em custos cada vez maiores. O salário real cresceu mais que a produtividade. Os custos logísticos aumentaram, assim como o peso da burocracia estatal e dos encargos administrativos. O câmbio oscilou, mas a maior parte das fábricas foi incapaz de competir no mercado internacional mesmo nas fases de depreciação do real, quando os produtos brasileiros deveriam ficar mais baratos em dólares.

A inflação elevada atrapalhou duplamente. O efeito indireto foi a elevação de custos. O indireto ocorreu quando o Banco Central interveio no mercado para frear a valorização do dólar e atenuar os efeitos inflacionários do câmbio. Num país com inflação mais civilizada o desajuste cambial, para começar, seria menor ou nulo. Além disso, uma eventual valorização do dólar seria muito menos perigosa para a estabilidade de preços. No Brasil, o Banco Central foi criticado por intervir no câmbio para prevenir uma inflação maior. Os críticos podem ter alguma razão. Mas teriam sido mais eficientes se tivessem, há mais tempo, condenado a tolerância à inflação e cobrado medidas mais fortes e mais sérias contra o desajuste de preços.

O combate à inflação tem dependido só do Banco Central, enquanto o governo mantém o gasto excessivo e o uso ineficiente de recursos públicos. Além disso, a política industrial tem consistido, há muitos anos, de uma combinação ineficiente de protecionismo, favores a grupos e segmentos selecionados e estímulos ao consumo. Tudo isso se combinou com uma diplomacia econômica de centro acadêmico. Em 2002, as vendas de manufaturados corresponderam a 54,71% das exportações brasileiras. No ano passado essa fatia estava reduzida a 38,44%. Em parte por indução, em parte por simples comodismo, a indústria se ajustou ao papel de fornecedora do Mercosul e de mais uns poucos mercados. Consequência: hoje é incapaz de competir nessas áreas e até no mercado interno. Nada mais natural.

De graça é caro.

Carlos Brickmann
Brickamnn & Associados Comunicação

O candidato do PT ao Governo paulista, Alexandre Padilha, estima os gastos de campanha em pouco mais de R$ 30 milhões. Nada anormal: seus principais adversários não devem anunciar um número muito diferente. Deste total, R$ 25 milhões vão para produzir o programa do horário eleitoral gratuito.

Gratuito, cara-pálida? Não é gratuito para ninguém: o candidato gasta a maior parte de sua verba de campanha para produzir a chatice; se as tevês e rádios têm bom desconto de impostos calculando o preço pela tabela cheia (que só existe para isso: os demais anunciantes têm grandes descontos), também perdem audiência com o programa insuportável; ouvintes e telespectadores, se ganham tempo para ir ao banheiro sem perder nada importante, são obrigados a tolerar o atraso da programação normal por causa do besteirol dos candidatos-promessinhas.

É um jogo de perde-perde, em que a conta cai nas costas de quem trabalha e gostaria de relaxar um pouco antes de dormir. E que conta! O Tesouro paga a TV e o rádio na forma de perdão de impostos, e o dinheiro que deixa de entrar será compensado, caro leitor, pelo que sai de seu bolso. O que é gasto pelos candidatos é doado por empresas privadas (que ou vão caprichar nos preços ou buscar mais benefícios, que a-l-g-u-é-m terá de pagar) ou entidades oficiais - o maior doador, até agora, é um grupo privado em que um terço do capital pertence ao BNDES, o banco de desenvolvimento ligado ao Governo. 

Mais chapa branca, impossível. Nada é de graça. O caro leitor e eleitor paga até o crachá de otário.

Pode ir pagando
Que ninguém se atreva a dizer que os homens públicos não pensam no cidadão. O Congresso parou de trabalhar antes da Copa, e já decidiu que em agosto não dá: fazer campanha eleitoral, para que o eleitor tenha a possibilidade de escolher os melhores candidatos, é tarefa exaustiva. Juntar a isso o trabalho normal de Suas Excelências é demais. Trabalho, só em setembro - e este colunista duvida, já que estaremos às vésperas das eleições. E só: em outubro há a eleição e o segundo turno. 

Trabalho, se trabalho houver, só em novembro, antes das festas. Mas eles se lembram do povo: vão receber o salário direitinho, integral, com todos os penduricalhos e verbas, pois não esquecem que há quem pague a conta.

Corrigindo
A nota acima é injusta: o Congresso não deixou totalmente de trabalhar, não. Aproveitou um raro dia em que havia gente em Brasília e votou um dispositivo que permite criar mais 200 municípios. Todos com prefeito, vice, Paço Municipal, secretários, assessores, Câmaras com no mínimo 21 vereadores, com secretárias, assessores, prédio, serviços terceirizados de limpeza e segurança, despesas de representação, carros, motoristas. 

Situação e oposição votaram a favor de mais essa gastança. Deve haver benefícios: um dia alguém nos diz quais são. E nem é preciso calcular o custo de toda essa estrutura: o caro leitor vai pagá-la.

Em quem votar?
O Ibope desta semana mantém o quadro anterior: Dilma continua favoritíssima, com possibilidades de ganhar no primeiro turno. Os pontos que perdeu, de tempos para cá, não beneficiaram os candidatos de oposição. Há desejo de mudança, aferido em pesquisas, mas os oposicionistas ainda não conseguiram capitalizá-lo - afinal, quando há uma votação que não traz nenhuma vantagem à população, como essa de criar municípios novos, Governo e Oposição votam do mesmo jeito. 

Se é para não mudar, que fique quem já está. Mas o Ibope mostrou que, num segundo turno, Dilma terá trabalho: com sua ampla rejeição de 36%, tanto Aécio quando Eduardo, quem disputar, terá chances de vencer. Não há entusiasmo em escolher um dos dois; mas, no mata-mata, unem-se todos contra ela.

Garganta Profunda
Quem gravou o vídeo-bomba mostrando que o Palácio do Planalto entregou a deputados e senadores as perguntas que deveriam fazer ao pessoal do Governo e da Petrobras durante a CPI? O responsável pela gravação fulminou o Governo e a base aliada e sumiu, sem que ninguém ao menos procure descobrir quem é e quais seus objetivos. 

Ou, pior ainda, talvez haja até quem saiba de quem se trata, mas a quem interessa revelar seu nome? De repente é fogo amigo!

Metralhadora giratória
Romeu Tuma Jr., ex-secretário nacional de Justiça, cujo depoimento ao jornalista Cláudio Tognolli rendeu um livro best-seller, Assassinato de Reputações, não cria problemas só para petistas - cujo líder, Lula, foi por ele apontado como informante de seu pai, delegado Romeu Tuma, chefe da Polícia política na ditadura. A Federal tentou conduzir Tuma Jr. coercitivamente para depor. E Tuma Jr. quer saber se foi o senador Aloysio Nunes Ferreira, PSDB, vice de Aécio, quem pediu para ouvi-lo (https://br.noticias.yahoo.com/blogs/claudio-tognolli/tuma-jr-exige-que-senador-aloysio-nunes-ferreira-013423030.html).

Tuma Jr. lembra no livro que Aloysio era ministro da Justiça na época do assassínio de Celso Daniel, PT, prefeito de Santo André. E que dois delegados da Polícia Federal, ligada ao Ministério, apreenderam o computador doméstico do político assassinado, sem que nada referente a isso aparecesse posteriormente no inquérito. 

carlos@brickmann.com.br 
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CGU pede socorro

O Estado de S. Paulo 
Editorial 

Para explicar a multiplicação de escândalos de corrupção nos últimos tempos, o governo petista costuma dizer que "nunca antes" se combateu tanto os malfeitos como agora. Por essa lógica, a corrupção sempre teve a intensidade atual, mas não vinha à luz porque ninguém investigava, gerando impunidade; hoje, conforme a versão petista, há diversos mecanismos para investigar e punir os responsáveis por desvios na administração pública federal. Um desses mecanismos é a Controladoria-Geral da União (CGU), a quem, segundo disse a presidente Dilma Rousseff em entrevista recente, o governo deu "todos os instrumentos para atuar". No entanto, memorandos da direção da CGU obtidos pelo Estado mostram que o mesmo governo que se diz tão empenhado em combater a corrupção tem sido indiferente à situação precária que o órgão enfrenta há tempos, o que tem comprometido sua capacidade de apurar o enorme volume de denúncias que lotam seus escaninhos.

Em ofícios encaminhados em 17 de abril passado aos ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Miriam Belchior (Planejamento), o chefe da CGU, ministro Jorge Hage, faz um apelo, "em caráter de urgência", para que a presidente Dilma autorize a convocação de 303 candidatos que passaram em concurso de 2012 para trabalhar como analistas de finanças e controle.

Segundo Hage, o esforço de investigar os casos de corrupção "atingiu seu limite" diante da crescente falta de funcionários. Ele afirma que houve "drástica redução" do quadro de servidores - mais de 700 saíram do órgão desde 2008, deixando a CGU com cerca de 2.300 funcionários, ou menos de metade do previsto em seu organograma -, enquanto as atribuições da controladoria aumentaram nos últimos tempos, em razão da aprovação de diversas leis destinadas a reprimir ou a prevenir a corrupção.

O problema imediato, conforme salienta Hage, é o manancial de denúncias a respeito da Petrobrás. No memorando enviado a Miriam, o ministro diz que, "nos últimos meses, o volume de denúncias envolvendo a Petrobrás (...) tem forçado a necessidade de remanejamento dos escassos quadros de analistas, de outras áreas, para os setores que fiscalizam as áreas de energia, petróleo e gás, por pane da CGU".

No ofício enviado a Mercadante, Hage diz contar com a "lucidez" do ministro para perceber a "relevância das funções de controle e combate à corrupção para o governo como um todo". Em resposta, a Casa Civil informou, por meio de nota a este jornal, que a demanda da CGU é "relevante, assim como a de outros Ministérios" e que "ajunta orçamentária do governo está avaliando os pleitos, levando em conta as possibilidades orçamentárias". Isso significa que a CGU terá de entrar na fila para obter os recursos e funcionários de que tanto necessita, sem nenhuma garantia de que os receberá algum dia.

Os apelos da CGU são antigos. Desde ao menos 2011 o governo vem sendo alertado formalmente pelo órgão de que não tem pessoal suficiente para todas as suas atribuições. No começo do ano passado, Hage pediu à ministra Miriam Belchior que autorizasse a convocação de ao menos metade do pessoal concursado e não nomeado para ocupar as vagas autorizadas, chamando a atenção para o fato de que, em breve, a CGU não teria condições de desempenhar suas funções. Não foi atendido.

No final de 2013, Hage tornou a solicitar à ministra, no mesmo tom dramático, autorização para contratar pessoal. Em janeiro deste ano, finalmente, Miriam Belchior liberou a contratação de 40 funcionários. Como esse número era claramente insuficiente, Hage renovou seus apelos, até aqui sem sucesso.

Ainda que essa situação venha a ser superada, os problemas que a CGU enfrenta há anos para realizar seu trabalho e a aparente indisposição do governo para resolvê-los - usando as restrições orçamentárias como desculpa - deixam claro que existe uma razoável distância entre discurso e prática quando se promete priorizar o combate à corrupção no País.

Ladrões de instituições

Reinaldo Azevedo
Folha de São Paulo

Um ladrão de dinheiro público é um caso de polícia; um ladrão de instituições é um caso de política

Para lembrar uma imagem empregada certa feita por Diogo Mainardi --que tem sofrido tentativas descaradas e infrutíferas de clonagem na crônica tupinambá--, parte da imprensa está se comportando, no caso da fraude da CPI da Petrobras, como a Fada Sininho do PT, batendo as asinhas para ver se a bomba dos piratas estoura longe do Palácio do Planalto. É uma missão suicida, mas vale sacrificar a honra em nome de mais quatro anos na Terra do Nunca! Há um esforço danado para provar que os petistas, os assessores palacianos e o comando da estatal não fizeram nada demais ao transformar uma CPI numa pantomima ridícula.

Não que se esperasse, dadas as personagens, grande coisa dessa comissão. Mas, vá lá, admita-se que a folgada maioria que detêm os governistas em sua composição é regimental: deriva do desequilíbrio de forças no Senado, que traduz, no entanto, a vontade do eleitor. Nada a fazer a respeito. É legítimo, sim, lastimar certos aspectos da democracia. Só não é permitido solapá-la.

Os que se organizaram numa verdadeira gangue não atentaram apenas contra as prerrogativas da comissão em si. Agrediram também a Constituição, o Poder Legislativo, o Estado de Direito e, por óbvio, o regime democrático. Já está evidente que o comando na operação ficou com o Palácio do Planalto, mais exatamente com a Secretaria de Relações Institucionais, cujo titular é Ricardo Berzoini, de tantos serviços prestados ao escândalo dos aloprados. Eu invoco com o nome dessa pasta desde que ela foi criada, no governo Lula. Quem inventa uma estrovenga chamada "Relações Institucionais" está confessando que opera com "relações não institucionais". Bingo!

Os que me acompanham nesta Folha, no blog que mantenho na Veja.com ou na rádio Jovem Pan sabem que atribuo à roubalheira o peso que a coisa tem: comprovadas as culpas, cana para os larápios! Mas eu me ocupo mais dos ladrões de instituições do que dos ladrões de dinheiro público. Eu não poderia integrar, por exemplo, uma associação de jornalistas investigativos, ainda que eles me quisessem como sócio. Investigo escolhas políticas, não contas correntes ou declarações de Imposto de Renda. Não estou a tratar com menoscabo o trabalho de ninguém, muito pelo contrário: eu o aplaudo. Mas estou mais preparado para denunciar uma ideia fraudulenta do que um crime caracterizado no Código Penal. O mal que os ladrões de instituições fazem ao Brasil é muito superior ao que praticam aqueles outros.

Um ladrão de dinheiro público é um caso de polícia; um ladrão de instituições é um caso de política. Um ladrão de dinheiro público faz um rombo no caixa; um ladrão de instituições faz um rombo numa cultura; um ladrão de dinheiro público morrerá um dia; um ladrão de instituições procria. Um ladrão de dinheiro público inviabiliza um projeto; um ladrão de instituições inviabiliza um país. Apelando agora a Padre Vieira: um ladrão de dinheiro público pode até ser enforcado; um ladrão de instituições manda enforcar.

O jornalismo político no Brasil está, sim, preparado --às vezes, atropelando garantias legais que deveriam ser preservadas-- para denunciar o larápio que avança contra o caixa, mas, infelizmente, anda muito pouco atento às manobras solertes dos ladrões de instituições. Quando um ministro de Estado, como Gilberto Carvalho, faz uma peregrinação ao Congresso em defesa do decreto 8.243 --aquele dos conselhos populares--, ele não está avançando no erário. Não há como chamar a polícia. Ele quer é assaltar os fundamentos da democracia representativa. Carvalho, nessa ação, não tenta roubar o nosso dinheiro; ele tenta é roubar o nosso futuro. Com aquele seu ar sereno de santarrão de sacristia, mas com alma de Savonarola.

Eu nunca considerei que o aspecto mais deletério do mensalão fosse a roubalheira em si --que também aconteceu. Mais grave foi a tentativa de criar um Congresso paralelo. Lambanças como as ocorridas na Petrobras, que a CPI deveria estar investigando, podem ter cura se o Brasil e a estatal tiverem governanças decentes. Mas não há esperança quando condescendemos com ladrões de instituições. Até porque eles é que escrevem os evangelhos seguidos pelos outros ladrões.

Treino é treino

Dora Kramer
O Estado de São Paulo


Estão querendo confundir as coisas a fim de conferir naturalidade ao que de forma alguma é usual. Muito menos legal.

Simular perguntas para preparar pessoas que serão submetidas a questionamentos é algo que se faz em diversas áreas e não só em comissões parlamentares de inquérito.

Candidatos são treinados para debates, advogados preparam seus clientes simulando questões que possivelmente lhes serão feitas, assim como convocados para depor em CPIs ensaiam com os respectivos grupos políticos as respostas mais adequadas aos seus interesses.

Isso não quer dizer que os candidatos se apresentem para um debate sabendo previamente do conteúdo das questões. Não significa que o advogado antes do depoimento tenha tido acesso às perguntas do juiz, do promotor ou do delegado, o que, no caso, seria uma conduta criminosa.

Da mesma forma o costume do treino não pode ser equiparado à entrega prévia do questionário ao depoente de uma CPI.

Ao que indicam os fatos até agora publicados em relação à CPI da Petrobrás no Senado, é desse tipo de escambo doloso que se tratou ali. Um funcionário da companhia recebia as questões no gabinete da liderança do PT e as levava ao conhecimento da empresa que, com isso, adequava as respostas dos depoentes às perguntas que seriam feitas.

Não foi um mero treino. Nem uma "conversa de políticos" como quis fazer crer o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, em entrevista à Folha de S.Paulo. Quando instala uma comissão parlamentar de inquérito, o nome já diz, o Congresso está travestido da função investigativa inerente aos inquéritos.

Poder e, sobretudo, dever de apurar formalmente a autoria e a materialidade de um fato criminal ou administrativo no âmbito parlamentar. Não há a ligeireza que o ministro busca imprimir à ação. O presidente da CPI é o chefe da investigação. Tem função de zelar pela lisura do processo, cuja conclusão será enviada ao Ministério Público e à Polícia Federal para as providências cabíveis.

Não se trata de uma conversa de compadres. CPI não é um fórum de debate meramente político. É o Poder Legislativo investido do poder investigativo com todos os deveres e circunstâncias daí decorrentes.

Imaginemos, só para argumentar, que a CPI dos Correios tivesse seguido esse critério da combinação de perguntas e respostas. Não teria havido o processo do mensalão. Prova de que não é sempre assim.

Evidência mesmo de que é preciso ter discernimento para distinguir as coisas e não confundi-las propositadamente em nome da proteção de eventual delito.

Prestar contas. 
A primeira prestação parcial de contas à Justiça Eleitoral dos candidatos às eleições de 2014 traz uma novidade e uma antiguidade.

A notícia recente: pela primeira vez um candidato da oposição supera em arrecadação a pretendente à reeleição. O tucano Aécio Neves está em primeiro (R$ 11 milhões), a petista Dilma em segundo (R$ 10 milhões) e o candidato do PSB, Eduardo Campos, em terceiro (R$ 8 milhões).

O que já se sabia: o grosso do financiamento vem das pessoas jurídicas, 91%. Falta resolver o que fazer a partir das próximas eleições quando o Supremo Tribunal Federal deverá proibir doações em empresas.

Considerando que a participação de pessoas físicas foi de apenas 3% e que o financiamento público via fundos partidários não ultrapassou 6%, haverá a partir de 2016 uma mudança compulsória nos meios e modos das campanhas.

Para compensar a arrecadação menor, a presidente Dilma foi quem menos gastou até agora: pouco mais de R$ 80 mil. A explicação é que enquanto os adversários precisam investir em publicidade, ela tem espaço garantido nos meios de comunicação pelo cargo que ocupa.

Razão pela qual os oponentes se dizem contrários ao instituto da reeleição. A conferir se, eleitos, manteriam a posição.

O país dos absurdos

João Luiz Mauad
O Globo 

Em Pindorama vige a famosa cláusula, utilizada em constituições de matiz socialista, que subordina toda e qualquer propriedade a uma hipotética ‘função social’

O Brasil é mesmo o país dos absurdos e da inversão completa de valores. Nações minimamente civilizadas e com alguma vocação para prosperidade concedem aos seus indivíduos garantias inequívocas de que os direitos de propriedade serão respeitados. Não aqui.

Em Pindorama vige aquela famosa cláusula, amplamente utilizada em constituições de matiz socialista, que subordina toda e qualquer propriedade a uma hipotética “função social”, que ninguém sabe exatamente o que é, e cuja interpretação é deixada a cargo da subjetividade de legisladores e juízes.

Por trás desse disparate está a ideia de que qualquer coisa que você pensa possuir é, na verdade, propriedade do Estado, que delega a você certos privilégios temporários em relação a ela, passíveis de suspensão a qualquer tempo. Parece exagero? Então vamos rememorar alguns fatos recentes.

Há poucos meses, por exemplo, um bando profissional de desocupados invadiu um prédio de apartamentos em Laranjeiras. A “ocupação”, como se convencionou chamar a invasão de propriedade alheia, foi devidamente noticiada pelo GLOBO. Os invasores não só mostravam a cara para quem quisesse vê-las, como concederam várias entrevistas, através das quais exigiam dos proprietários a quantia de R$ 20 mil para deixar o local. Despudoradamente, forneciam seus nomes e sobrenomes, como qualquer pessoa comum no exercício de atividades lícitas.

É isso mesmo. Você leu certo. Invasão de propriedade privada, algo que deveria ser uma questão de polícia, virou motivo de pedido de indenização — não para as vítimas, mas para os invasores. Um crime comum grave, passível de prisão em flagrante caso a lei fosse cumprida, transformou-se, no Brasil, em meio de vida para criminosos, que não têm sequer o pudor de esconder-se. Falam e dão entrevistas à luz do dia, sem medo de ser felizes.

Pouco depois, aconteceu outro episódio emblemático: a desocupação de um complexo de prédios da Companhia Telefônica Oi, na Zona Norte do Rio, invadido por milhares de pessoas. Ali, pudemos testemunhar as profundas contradições de uma sociedade que ainda não se definiu entre a civilização e a barbárie.

De positivo, a atuação célere da Justiça, devolvendo a posse do referido imóvel aos seus legítimos proprietários, assim como a ação eficiente da polícia, que promoveu a retirada de cinco mil pessoas, sem que houvesse registro de mortos ou feridos, apesar da resistência dos invasores.

A nota triste foi a manifesta condescendência dessas mesmas autoridades com o crime. É lamentável que os invasores, depois de retirados do local, tenham sido deixados livres, sem uma única autuação em flagrante, afinal, invasão de propriedade ainda é crime. O pior é que alguns saíram dali diretamente para praticar atos de vandalismo contra bancos, supermercados e ônibus, além de organizar passeatas exigindo — sim, as ditas “vítimas sociais” não pedem mais nada, exigem — moradia digna e “aluguel social”.

Para completar o festival de bizarrices, o líder de um movimento (MTST) que se especializou na invasão de imóveis na capital paulista virou celebridade, tendo sido inclusive contratado como articulista de um grande jornal de São Paulo.

E tem gente que ainda se pergunta por que esse estranho país não vai para a frente.

A força dos nulos, brancos e indecisos

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

Não cruzem os braços, não sejam meros espectadores. Vamos votar, está combinado?

Eles são 24%, quase um quarto do eleitorado brasileiro. Tenho simpatia por esse exército de deserdados, órfãos, ou qualquer nome que se queira dar aos 34 milhões de brasileiros aptos a votar, mas dispostos a abrir mão de escolher o próximo presidente. Os dados são da última pesquisa do Ibope, divulgada na quinta-feira.
Tenho simpatia, mas, diante da encruzilhada em que se encontra o Brasil, sinto vontade de dizer: escolham um candidato, mesmo que não estejam totalmente convictos, mesmo que tenham de cobrar depois. Sou contra o voto obrigatório, por considerar o voto um direito e não um dever. Mas, se assim é a lei em nosso país, vamos votar em alguém, está combinado?

Não cruzem os braços, não sejam meros espectadores, não se apoiem na falsa comodidade de pensar que nada têm a ver com isso que está aí. Numa democracia, somos todos responsáveis, em algum grau, pelos rumos da cidade, do Estado e do país.

São vários os sentimentos por trás da vontade de anular ou deixar branco o voto, cara a cara com a urna. Desencanto, revolta, indiferença, impotência, desinformação, desconfiança. Vontade de não se misturar à corja de políticos que só sabem aumentar os impostos e roubar a educação, a saúde, a habitação, o transporte, a segurança. Mentem com desfaçatez. E roubam até dos pobres.

Simpatizo com os nulos, brancos e indecisos, mas jamais consegui, na hora de votar, assumir esse “protesto” inútil. Lamento que o eleitor jovem tenha se afastado, diante da sucessão de escândalos e alianças sujas no partido que mais prometeu ética na recente história política brasileira. Entre 2010 e 2014, caiu 31% o número de eleitores entre 16 e 18 anos. Por que, Lula? Por que, Dilma? Por que, oposição? É uma questão de agenda, arrogância, credibilidade ou tudo junto?

Muitos jovens também se desiludiram com a violência e o vandalismo dos protestos de rua. Protestos que começaram vestidos de branco e terminaram de preto. Numa ditadura, o extremismo se entende. Numa democracia, é patético. Foi covarde e nojenta a repressão policial – de uma truculência e omissão inaceitáveis. Mas os autoproclamados líderes dos protestos afastaram o povo, que não quer um país em chamas.

Há quase 142 milhões de eleitores no Brasil. De acordo com a última pesquisa do Ibope, Dilma Rousseff (PT) tem 38%; Aécio Neves (PSDB), 23%; Eduardo Campos (PSB), 9%; outros, 6%. Os nulos, brancos e indecisos somam 24%. Mais que o segundo colocado na disputa para a Presidência.

Trinta e quatro milhões de brasileiros, a dois meses das eleições, não têm em quem votar para presidente, por rejeição ou desinteresse. No mundo, somente 37 países têm mais habitantes – não eleitores – que nosso exército de órfãos da política.

Esse enorme contingente é valioso para todos os candidatos, porque quem já decidiu dificilmente mudará o voto, a não ser que a campanha revele algo catastrófico. Até agora, a disputa anda tão fria nas ruas que lembra a Copa do Mundo. Provavelmente continuará assim, incendiando apenas as redes sociais, que têm estado intragáveis com a invasão dos militantes.

Campos, na ansiedade de subir para dois dígitos e conquistar os indecisos, afiou um discurso de terceira via, pela educação em tempo integral em todas as classes sociais, e afirmou: “Os únicos que não governarão com Renan, Sarney e Collor somos nós, Marina e eu”.

A nova classe média, cortejada pelo PT, anda ressabiada. Segundo uma pesquisa do Data Popular, 32% da classe C acha desesperadora a situação. Para 69%, está difícil pagar as contas de manutenção da casa e de comida. Com malabarismos, a classe C tenta fazer o gasto caber no orçamento. Um exercício que o governo ignora. Os gastos públicos aumentam sem parar. O Planalto sabe que o povão não lê nada sobre economia, e muitos nem recebem conta de luz.

Se você não quiser ou não puder apagar a luz e se mudar do Brasil, pense bem antes de votar nulo ou branco. Informe-se e decida. É aqui, neste país onde crescem os filhos e os netos, que as mudanças precisam acontecer. Todos os candidatos sabem disso. Tanto que os três prometem mudar.

Não dá para conviver com esse noticiário escabroso de roubalheira oficial, escolas depredadas e sem professores, hospitais sem higiene, sem leitos, sem equipamento e sem médicos, barracos sem sistema de esgoto, mares e lagos poluídos, assaltantes e PMs que matam e estupram.

É nocivo para a saúde ver como o Brasil maltrata os honestos e enriquece larápios. Vote em Dilma. Vote em Aécio. Vote em Campos. Mas vote mesmo, na hora da verdade.

Os episódios que só confirmam a vocação autoritária deste governo

Tribuna da Internet
Acílio Lara Resende 

Este governo não se emenda. Ele pode até tentar, mas não consegue esconder a sua vocação para o autoritarismo. Ele a revela periodicamente. Já não lhe satisfazem mais, apenas, o apoio, até mesmo financeiro (como ocorre por meio dos milhares de médicos cubanos), a regimes ditatoriais. Agora, faz questão de demonstrar essa vocação em episódios menos significativos, como o que envolveu a imagem do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro: a ministra Marta Suplicy teria ameaçado retirar da Igreja Católica a guarda (que só lhe dá despesas) da imagem se a polêmica proibição do seu uso (que, aliás, não precisava nunca ter acontecido) em filme do cineasta José Padilha sobre o Rio não fosse revogada.

Mas é, com certeza, o recente episódio do Santander a mais emblemática demonstração desse modelo de ditatorialismo, ao qual se alinham seus principais líderes, a começar pelo palavroso presidente do PT, Rui Falcão. Ele se nivela a tantos outros facilmente identificáveis. Basta um rápido olhar sobre sua história para se concluir que sua atuação, nas últimas três décadas, em diversas oportunidades, foi sempre contra o regime democrático e, portanto, contra – repito pela enésima vez – o nosso mais importante e precioso bem – a liberdade.

Ao tomarem conhecimento de um relatório do banco Santander, enviado aos seus clientes de alta renda, a presidente Dilma Rousseff e, também, o ex-presidente Lula da Silva, com o apoio da sua tropa de choque, de novo à frente o verboso Rui Falcão, saíram quase que de arma em punho exigindo a demissão da analista que teria sido sua autora. Mas, afinal, que dizia mesmo esse relatório? Absolutamente nada além do que o país já sabia de norte a sul: quando, nas intenções de votos, a presidente subia nas pesquisas de opinião, a bolsa caía, mas, ao contrário, quando ela caía nas intenções de votos, a bolsa subia. Para eles, o país acabara de ser vítima de uma conspiração estrangeira…

CASO PASADENA
Mas o grau de atrevimento do déspota jamais tem limites. Depois de Dilma Rousseff – que, na época, não era presidente da República, mas ministra de Estado e, ao mesmo tempo, presidente do Conselho Administrativo da Petrobras – ter sido excluída, injusta e ilegalmente, pelo Tribunal de Contas da União (TCU), de qualquer responsabilidade na aquisição, pela estatal, da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos; depois de a presidente da Petrobras, Graça Foster, não ter sido incluída pelo despótico Tribunal, ao lado de outros diretores, como responsável pelo mau negócio; e, enfim, como se não bastasse tudo isso, surge, agora, de supetão, uma nova denúncia: os investigados pela CPI da Petrobras a cargo do nosso “excelso” Senado Federal, além de receberem com antecedência as perguntas previamente preparadas, foram treinados para respondê-las.

Segundo o chefe do escritório da Petrobras em Brasília, José Eduardo S. Barrocas, as perguntas teriam sido formuladas pelo assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, Paulo Argenta, pelo assessor da liderança do governo no Senado, Marcos Rogério de Souza, e pelo assessor da liderança do PT na mesma Casa, Carlos Hetzel.

No último programa “Roda Viva”, a atriz e autora teatral Jandira Martini perguntou ao ator e dramaturgo Juca de Oliveira sobre o motivo da ausência, hoje, nas peças de teatro, do assunto “política”. “A corrupção, atualmente, respondeu Juca, se tornou absolutamente vulgar. Teria que refazer o meu texto todo santo dia…”.

Para bom entendedor, um pingo é letra…

A cada 4 anos, Deus opera milagres em Dilma

Josias de Souza


Uma semana depois de prestigiar a inauguração do Templo de Salomão, da igreja Universal, Dilma Rousseff participou, nesta sexta, de evento promovido pela Assembléia de Deus. Brindou os presentes com comentários como esse: “O Brasil é um Estado laico, mas, citando um salmo de Davi, eu queria dizer que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.''

Disse coisas assim: “Eu acredito naqueles que creem e no poder da oração. Na Bíblia, está escrito que a oração de um justo pode muito em seus efeitos. Não se esqueçam de orar por mim. Eu estarei contando muito com isso. Quero dizer também para vocês que todos os dirigentes desse país dependem do voto do povo e da graça de Deus. Eu também.''

Confirma-se em 2014 algo que os brasileiros haviam percebido em 2010: perto das urnas, a religiosidade de Dilma cresce. Surge no íntimo da ex-guerrilheira uma beatice insuspeitada. O velho materialismo dialético cede espaço ao redivivo poder divino. Depois de renovar seus laços com Lula, a ex-devota de Marx achega-se a Deus!

Certas conversões estimulam a suspeita. Há pessoas que falam em Deus com tal convicção que a plateia fica tentada a acreditar que Ele não existe. Ou não merece existir. Bobagem. Deus já não é full time. Mas aparece de quatro em quatro anos. Ele está em toda parte. Numa eleição em que o desempenho do pastor Everaldo pode provocar o segundo turno, Deus está até na alma de Dilma Rousseff.

Comédia e tragédia

Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - O ministro Paulo Bernardo tem razão ao dizer que governos combinam depoimentos com aliados em CPIs "desde Pedro Álvares Cabral", mas não leva em conta o "x da questão" no envolvimento do Planalto e das lideranças do PT e do governo na CPI da Petrobras.

Foi Dilma quem acusou o parecer de Néstor Cerveró de falho e incompleto e a compra de Pasadena de ser um erro; e é Dilma quem agora mexe mundos e fundos para defender o parecer, Cerveró e a operação.

Se o parecer induziu a presidência da Petrobras, a diretoria, o conselho de administração e a própria Dilma a comprar a refinaria por valores bem superiores ao que valia e com cláusulas danosas... Dilma teve razão ao apontar o erro e deveria agora querer investigar Cerveró. Houve erro? Foi técnico ou por má-fé?

E, se a operação foi supimpa e o Planalto e lideranças do PT e do governo dão uma mãozinha a Cerveró e para que ele se saia bem, Dilma não teve razão ao apontar o erro e deveria pedir desculpas publicamente a Cerveró, à Petrobras e à sociedade pela nota escrita e assinada por ela sobre a compra de Pasadena.

Ou Dilma errou antes, quando acusou, ou erra agora, quando defende. Sem contar que as histórias mal contadas da Petrobras vão muito além de Pasadena. E Abreu e Lima? E o ex-diretor Paulo Roberto Costa, que foi preso e depositou na Suíça uma fortuna de ditador africano?

Quanto ao TCU, há um impasse geral. Os ministros dizem que não incluíram Graça Foster no bloqueio de bens por erro técnico, pois a atual presidente era diretora na fase final do acerto de Pasadena.

O governo alega que joga seu peso para manter Foster fora dessa para evitar prejuízos à Petrobras (não por ela ser amigona de Dilma).

E a oposição acha que a gestão petista na Petrobras é um manancial para a campanha, mas está tonta diante da inclusão de Foster. Na opinião pública, ela é vista como mulher séria que tenta consertar a casa.

A envelhecida indústria

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Já é uma boa coisa admitir problemas, como nesta quinta-feira admitiu o ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges. Mas é preciso ir além. 

Já é uma boa coisa admitir problemas, como, nesta quinta-feira, admitiu o ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges. Mas é preciso ir além. Em primeiro lugar, é preciso ir às causas e, em seguida, apontar soluções.

O ministro Borges reconheceu, nesta quinta, no Encontro Nacional de Comércio Exterior, no Rio, que a indústria brasileira está envelhecida: “O baixo estoque de capital fixo do parque fabril tem, em média, 17 anos de uso”. A título de comparação ele apontou que os países mais diretamente concorrentes do Brasil contam com indústrias de 7 a 8 anos, na média.

(FOTO: DIVULGAÇÃO)
Borges. Baixa produtividade 

E, a título de referência, não é preciso puxar pelo desempenho da indústria asiática, que vende produtos de alta qualidade a uma fração do preço da indústria do Brasil, graças não só a maior eficiência do seu equipamento, mas, também, ao baixo custo da mão de obra. Borges comparou as condições de produção industrial brasileira com as dos Estados Unidos, que vêm de uma forte crise e não conseguem esconder paisagens desoladoras, como as de Detroit: “A produtividade da indústria do Brasil é apenas 20% da produtividade da indústria dos Estados Unidos”.

Quem está dizendo isso não é nenhum desses analistas profissionais do pessimismo, que disseminam o desalento no sistema produtivo nacional, de que tanto se queixa a presidente Dilma. É o ministro do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio Exterior.

Essas coisas não ficaram assim porque o empresário brasileiro desistiu do seu ferrão e do seu espírito animal. Nem apenas porque o custo Brasil é insuportável ou porque a infraestrutura é esse miserê que todos sabemos. São o resultado do descaso com que todo o setor produtivo, e não só a indústria, vem sendo tratado.

O governo Dilma, por exemplo, entendeu que bastaria turbinar o consumo popular, com a derrubada artificial dos juros e a disparada da gastança, para que o trabalhador chegasse ao paraíso e a indústria, aos tempos de pujança histórica. Mas o resultado é esse aí. A economia brasileira ficou desarrumada, a produção mergulhou, a inflação disparou e o desânimo tomou conta do sistema produtivo.

Mas é necessário ir mais fundo. O definhamento da indústria tem muito a ver, também, com a falta de coragem para formular e responder as perguntas certas. Valerá mesmo a pena produzir todas as linhas de industrializados no Brasil, desde panelas até satélites?

Bastará que uma atividade se caracterize pela manufatura para que seja automaticamente desejável? Será que é do interesse nacional seguir cortando ferro, entortando ferro e rebitando ferro, tarefas que qualquer xing-ling é capaz de executar, a custos irrelevantes, apenas para exibir depois estatísticas de produção industrial?

Ou não seria melhor replanejar a atividade industrial, ficar com o que interessa, sucatear o que não tem mais jeito e concentrar a atividade fabril em segmentos de maior agregação de valor, com maior incorporação de tecnologia, design, engenharia e software?

Tudo isso é bem mais do que tentar salvar a indústria brasileira com os emplastros de sempre, com mais subsídios, mais renúncias fiscais (sempre temporárias e só para os amigos), mais reservas de mercado, mais proteção cambial, mais defesa tarifária e, é claro, as lamentações de sempre.

CONFIRA:



A última projeção da Conab aponta para uma safra de grãos de 193,5 milhões de toneladas, 2,6% acima da safra anterior. É um resultado recorde, apesar da temporada de seca que castigou o Sudeste.


Ganhar tempo
A Argentina decidiu ontem recorrer ao Tribunal Internacional de Haia contra a Justiça de Nova York, que exigiu pagamento integral dos títulos de dívida em poder dos credores que não aceitaram a reestruturação da dívida argentina. O objetivo aparente é ganhar tempo para que os demais credores não exijam os mesmos benefícios.

À margem da lei

Míriam Leitão 
O Globo

No princípio, eu me assustei como cidadã. Era difícil acreditar que da Presidência da República foram postados ataques caluniosos a pessoas, porque na democracia o aparato do Estado não pode ser usado pelo governo para atingir seus supostos adversários. A propósito: não sou adversária do governo; sou jornalista e exerço meu ofício de forma independente.

Só no segundo momento é que pensei no fato de que os ataques eram contra mim e meu colega Carlos Alberto Sardenberg. Ninguém, evidentemente, tem que concordar com o que eu escrevo ou falo no rádio e na televisão. Há, em qualquer democracia, um debate público, e eu gosto de estar nele. Mas postaram mentiras, e isso pertence ao capítulo da calúnia e difamação.

Tenho 40 anos de vida profissional e um currículo do qual me orgulho por ter lutado por ele, minuto a minuto. Acordo de madrugada, vou dormir tarde, estudo diariamente, falo com pessoas diversas, apuro, confiro dados, para que cada opinião seja baseada em fatos. Alguns temas são áridos, mas gosto de mergulhar neles para traduzi-los para o público.

Na primeira vez que um amigo me mostrou o perfil cheio de ataques na Wikipedia fiquei convencida de que era coisa de desocupados. Saber que funcionários públicos, computadores do governo, foram usados na Presidência da República para um trabalho sórdido assim foi um espanto. Uma das regras mais caras do Estado de Direito é que o grupo político que está no governo não pode usar os recursos do Estado contra pessoas das quais não gosta.

O início da minha vida profissional foi tumultuado pela perseguição da ditadura. No Espírito Santo, fui demitida de um jornal por ordem do governador Élcio Álvares. Em Brasília, fui expulsa do gabinete do então ministro Shigeaki Ueki, durante uma coletiva, porque ele não gostava das minhas perguntas e reportagens. O Palácio do Planalto não me dava credencial porque eu havia sido presa e processada pela Lei de Segurança Nacional. Aquele governo usava o Estado contra seus inimigos. E eu era, sim, inimiga do regime.

Na democracia, em todos os governos, ouvi reclamações de ministros e autoridades que eventualmente não gostaram de comentários ou colunas que fiz. Mas eram reclamações apenas, algumas me ajudaram a entender melhor um tema; outras eram desprovidas de razão. Desta vez, foi bem diferente; a atitude só é comparável com a que acontece em governos autoritários.

O Planalto afirma que não tem como saber quem foi. É ingenuidade acreditar que uma pessoa isolada, enlouquecida, resolveu, do IP da sede do governo, achincalhar jornalistas. A tese do regime militar de que os excessos eram cometidos pelos “bolsões sinceros, porém radicais” nunca fez sentido. Alguém deu ordem para que isso fosse executado. É uma política. Não é um caso fortuito. E o alvo não sou eu ou o Sardenberg. Este governo desde o princípio não soube lidar com as críticas, não entende e não gosta da imprensa independente. Tentou-se no início do primeiro mandato Lula reprimir os jornalistas através de conselhos e controles. A ideia jamais foi abandonada. Agora querem o “controle social da mídia”, um eufemismo para suprimir a liberdade de imprensa.

Sim, eu faço críticas à política econômica do governo porque ela tem posto em risco avanços duramente conquistados, tem tirado transparência dos dados fiscais, tem um desempenho lamentável, tem criado passivos a serem pagos nos futuros governos e por toda a sociedade. Isso não me transforma em inimiga. E, ainda que eu fosse, constitucionalmente o governo não tem o direito de fazer o que fez. É ilegal e imoral.

As razões do engasgo do consumo

Luiz Carlos Mendonça De Barros
Folha de São Paulo

A indústria automobilística é a prova mais contundente de que vivemos o início de uma grande ressaca

Volto hoje à questão da queda do consumo, que tem afetado de forma importante a economia brasileira neste ano de 2014.

O motivo para tal é o clima de quase pânico que tomou conta do setor automobilístico nas últimas semanas. Uma das áreas mais dinâmicas da indústria brasileira, ele representa o maior símbolo do crescimento do consumo que marcou o período Lula. Hoje ele é a prova mais contundente de que vivemos --desde 2011-- o início de uma grande ressaca.

Embora vários analistas tenham advertido sobre o fim do ciclo do consumo, o governo manteve inalterada sua política econômica. Quando os sinais de queda ficaram mais claros, no início do mandato da presidenta Dilma, a resposta do Palácio do Planalto foi forçar a expansão do crédito dos bancos públicos e reduzir o superavit primário operacional do Tesouro via gastos adicionais.

Como a economia reage sempre com um intervalo de tempo, entre o início de um ciclo econômico e seu ocaso, somente agora é que essa dura realidade se mostra aos olhos de grande parte da sociedade.

E a queda nas venda de automóveis dos últimos meses --seguida da redução sob várias formas do emprego-- é uma realidade que ninguém pode mais esconder. Como a indústria não se preparou para este momento da verdade, mantendo a produção próxima da capacidade máxima, o ajuste será doloroso.

Mas é preciso separar o ajuste cíclico que vamos viver nos próximos meses da dinâmica de longo prazo do setor automobilístico. As vendas de automóveis cresceram entre 2005 e 2013 de uma forma impressionante, passando de 1,66 milhão de unidades anuais para mais de 3,6 milhões, com uma expansão média anual de 10,6% em oito anos.

Entre julho de 2007 e fins de 2013, por vários meses as vendas ficaram no intervalo entre 3,5 milhões e 4 milhões de unidades por ano. O quarto maior mercado consumidor do mundo. Se considerarmos três anos, entre outubro de 2005 e outubro de 2008, as vendas cresceram 50%, ou seja, a uma taxa anual de 15% anuais. IMPRESSIONANTE.

As principais forças por trás desse crescimento de vendas tiveram duas naturezas distintas: entre 2005 e fins de 2008, as forças tinham natureza estrutural, de longo prazo, em razão principalmente do aumento simultâneo da renda, do emprego e do crédito ao consumo.

A partir do início de 2010, com o enfraquecimento das forças expansionistas citadas acima, inicia-se, de forma natural, um período de ajuste nas taxas de crescimento das vendas de automóveis. Dessa forma, chegamos ao início de 2012 com um crescimento zero nas vendas e, nos meses seguintes, a uma taxa de expansão negativa.

O governo reagiu a essa situação elevando a oferta de crédito dos bancos públicos para sustentar a venda de veículos. A resposta do consumidor foi positiva, mas de curta duração, como todo movimento associado a estímulos fora de hora e sem respeito à dinâmica do mercado.

A taxa de crescimento das vendas voltou a atingir 10% ao ano, entre junho de 2012 e junho de 2013, para rapidamente voltar a zero nos três meses seguintes e entrar definitivamente no terreno negativo a partir daí.

Chama-se a esse fenômeno, no jargão do mercado financeiro, de suspiro do morto, ou seja, o fracasso de tentativas artificiais do governo para tentar alterar movimentos estruturais de ajuste do mercado. No caso específico das vendas de automóveis, tentar reconstruir uma dinâmica de consumo que havia se esgotado por razões estruturais.

De agora em diante vamos viver duas fases distintas no mercado de automóveis no Brasil.

Na primeira, teremos um ajuste nos estoques acumulados pela indústria em razão da queda expressiva das vendas nos últimos meses.

Na segunda, as empresas vão ter que fazer um ajuste estrutural na sua capacidade produtiva, para se adaptar a um mercado que deve passar a crescer a taxas não superiores ao aumento da renda dos brasileiros.

Quanto mais demorarem os ajustes de estoque, maiores serão os prejuízos na fase de ajuste nos níveis de produção da indústria.

A pergunta que fica no ar é: como uma indústria tão sofisticada não percebeu a impossibilidade de manter as taxas de crescimento do passado e não se preparou melhor para a fase que vamos viver nesse mercado daqui para a frente?

Emprego industrial cai 3,1% em junho, a 33º queda consecutiva

Idiana Tomazelli  
Agência Estado

Na variação mensal, emprego registrou queda de 0,5% com perdas no número de horas pagas e no valor da folha de pagamento real

 Indicador relativo ao número de horas pagas 
pela indústria acumula queda de 2,9% no ano

RIO - O emprego na indústria recuou 0,5% na passagem de maio para junho, na série livre de influências sazonais, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com junho do ano passado, o emprego industrial apontou uma queda de 3,1%, o 33º resultado negativo nesta base e o mais intenso desde novembro de 2009 (-3,7%). O emprego na indústria acumula queda de 2,3% no ano e retração de 1,9% em 12 meses. 

O emprego na indústria registrou queda de 0,9% no segundo trimestre de 2014 em relação ao período imediatamente anterior. Em relação ao segundo trimestre do ano passado, o recuo foi de 2,7%.

Também foram verificadas perdas no número de horas pagas e no valor da folha de pagamento real na passagem do primeiro para o segundo trimestre. Na série com ajuste sazonal, o número de horas pagas entre abril e junho foi 1,2% menor do que nos três primeiros meses do ano, enquanto o valor da folha de pagamento mostrou retração de 0,2% na mesma base.

No confronto do segundo trimestre em relação a igual período de 2013, o número de horas pagas caiu 3,6%. Já o valor da folha de pagamento real mostrou alta de 0,6%, na mesma base de comparação, informou o IBGE. 

Horas pagas. 
O número de horas pagas pela indústria, descontadas as influências sazonais, caiu 1,2% em junho ante maio. Em comparação com junho do ano passado, o indicador recuou 4,2%, a 13ª taxa negativa nesse tipo de confronto e a mais intensa desde outubro de 2009 (-5,3%).

No ano, o indicador relativo ao número de horas pagas pela indústria acumula queda de 2,9%. Em 12 meses, a retração é de 2,3%.

Comparando o resultado de junho com igual mês de 2013, o IBGE revelou que as taxas foram negativas em todos os 14 locais pesquisados e em 16 dos 18 ramos pesquisados. 

Em termos setoriais, as principais influências negativas partiram do setor de meios de transporte (-8,6%), máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (-10,6%), máquinas e equipamentos (-5,8%), produtos de metal (-6,9%), calçados e couro (-8,6%), alimentos e bebidas (-1,6%), produtos têxteis (-7,5%), vestuário (-4,2%) e outros produtos da indústria de transformação (-3,8%), todas na comparação com junho de 2013. Já os impactos positivos vieram de minerais não-metálicos (0,9%) e de produtos químicos (0,7%). 

Folha de pagamento. 
O valor da folha de pagamento real dos trabalhadores da indústria caiu 2,4% em junho ante maio, segundo o indicador ajustado sazonalmente. No ano até junho, o indicador ainda registra avanço de 1,3%, enquanto em 12 meses a alta é de 0,7%. 

Em comparação a junho de 2013, a folha de pagamento na indústria em junho deste ano recuou 0,3%, interrompendo uma sequência de cinco meses de alta nesta base. Nesse tipo de comparação, foram registradas quedas em 6 dos 14 locais pesquisados, com destaque para Minas Gerais, onde o recuo de 5,5% no valor real da folha de pagamento foi pressionado pela queda no setor de meios de transporte (-31,1%), devido à base elevada em junho do ano passado.

Ainda na comparação ante igual mês do ano passado, o IBGE destacou que o valor da folha de pagamento real da indústria caiu em 14 dos 18 setores investigados, com destaque para meios de transporte (-2,9%), produtos de metal (-5,1%), máquinas e equipamentos (-2,6%), máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (-4,3%), papel e gráfica (-3,3%) e calçados e couro (-4,6%). 

Instabilidade na economia traz revisão de estratégia

Suzana Liskauskas
Valor

João Consiglio, do Santander: segmento corporate tem sido 
fundamental para atrair clientes e evitar inadimplência

Em um cenário econômico em que as expectativas de crescimento não coincidiram com a realidade dos últimos três anos, o apetite pelo risco na decisão de tomada de crédito tem diminuído entre as empresas de grande porte. Mais conservadoras, as grandes empresas com atuação no Brasil têm seguido um planejamento mais criterioso para acessar as fontes de recursos na medida adequada ao tamanho de seus projetos. Há uma preferência por produtos de crédito que ofereçam prazos mais longos mesclados a custos mais atraentes.

Neste cenário, o papel do segmento "corporate" nos setores de crédito das instituições financeiras tem sido fundamental para atrair clientes e evitar o crescimento da inadimplência. João Consiglio, vice- presidente de corporate do Santander, diz que, de um modo geral, as grandes empresas estão reduzindo seus planos de investimentos diante da perspectiva de crescimento econômico menor.

De acordo com os resultados do Santander referentes ao primeiro trimestre de 2014, a carteira de crédito de grandes empresas totalizou R$ 79,130 bilhões, com crescimento de 16,4% em doze meses, mas houve redução de 1,6% nos três primeiros meses. A evolução dessa carteira, em doze e três meses, foi impactada pela variação cambial. A análise é de que, sem as oscilações cambiais, haveria um crescimento de 12,3% em doze meses e redução de 0,3% no trimestre.

"Quando falamos em crédito para pessoa jurídica, em especial, nos segmentos entre médio e grande portes, trata-se de um recurso destinado a investimentos e formação de estoques em função do cenário de venda. A maioria se preparou para um crescimento maior nos últimos três anos. Como a expectativa alta não se confirmou, esse cenário provocou uma redução na vontade dos agentes econômicos de tomar risco", diz Consiglio. Com isso, as equipes do segmento de crédito dos bancos ficaram ainda mais atentas ao surgimentos de produtos e linhas de crédito. A meta é criar opções com o risco no tamanho adequado aos projetos de seus clientes.

Edson Costa, diretor do Banco do Brasil, observa que, nos últimos anos, houve uma mudança no comportamento das grandes empresas ao tomar crédito. Segundo Costa, de um modo geral, elas deixaram de trabalhar no curto prazo e se sentiram mais confortáveis para tomar crédito com prazos mais alongados. Ele explica que o BB vem utilizando, cada vez mais, instrumentos que permitam o acesso ao crédito com redução de custo para o tomador final, como o Fundo de Garantia de Operações.

De acordo com os resultados apresentados pelo BB no primeiro trimestre deste ano, entre as operações de crédito negociadas com grandes empresas, houve destaque para TVM (Títulos e Valores Mobiliários) e Garantias com Pessoa Jurídica. Elas atingiram, respectivamente, no final do primeiro trimestre de 2014, saldos de R$ 40,7 bilhões e R$ 19,1 bilhões, com crescimento em 12 meses de 25,1% e 13,1%. Entre os segmentos onde houve um crescimento maior do crédito, Costa destaca a área de construção civil e de incorporadoras.

"A equipe de crédito do segmento de pessoa jurídica faz um levantamento minucioso do mercado para fazer uma abordagem mais direta nas empresas e oferecer um composto de prazos mais longos e custos mais atraentes. Nesse trabalho, verificamos que, na maioria das vezes, as empresas não têm um conhecimento muito detalhado do portfolio de crédito disponível", diz Costa.

Giovanni Alves, superintendente Nacional de Negócios com Grandes Empresas na Caixa Econômica Federal, diz que a crise financeira mundial de 2008 trouxe para a CEF a oportunidade de expandir o volume de crédito a pessoa jurídica, sobretudo as de maior porte. Segundo Alves, em 2008, a CEF tinha 1% do mercado de crédito para pessoa jurídica, e hoje detém 8,5% desse segmento.

"Com a retração do crédito nas instituições privadas no auge da crise de 2008, a CEF teve uma oportunidade de expandir o relacionamento com empresas tanto de médio quanto de grande porte na área de crédito, setor em que, historicamente, a instituição era voltada para o atendimento à pessoa física e a micros e pequenas empresas. Nosso desafio hoje é expandir essa carteira e atuar como um parceiro financeiro das grandes empresas".

Pedro Marcelo Luzardo, sócio do Modal, diz que entre os clientes do banco, o segmento de middle-market sinaliza interesse maior por operações de crédito mais estruturadas, com prazos alongados. "Eles já buscam opções além do crédito formatado em desconto de recebíveis e duplicatas", afirma.

Para TCU, projeto do trem de alta velocidade terá de recomeçar do zero

André Borges  
O Estado de S. Paulo

Projeto apresentado em 2009 é considerado defasado pelo Tribunal; governo diz que programa não tem data para ser retomado


Mudança. Para Zymler, cenário é outro após cinco anos

BRASÍLIA - Oito anos depois de anunciar a construção do trem de alta velocidade que ligaria Campinas e São Paulo ao Rio de Janeiro, o governo insiste em dizer que o projeto ainda está ativo. O trem-bala continua a figurar na lista das obras prioritárias no balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Tem o "carimbo verde" para atestar que está adequado e em andamento. Mas, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), se o governo pretende realmente levar o projeto adiante, terá de começar tudo do zero.

Nesta semana, o TCU decidiu que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) pode rasgar o estudo de viabilidade técnica e econômica do trem-bala. Os estudos foram apresentados ao tribunal em 2009. À época, custaram R$ 29,1 milhões aos cofres públicos. A conclusão do TCU é que, passados tantos anos desde o início do processo, simplesmente não há mais informações que mantenham o projeto em pé.

"Sob o viés tecnológico, o decurso de cinco anos pode significar o surgimento de novas tecnologias com melhor relação custo-benefício ou o barateamento de diversos equipamentos causado pela difusão tecnológica", declarou em seu voto o ministro-relator Benjamin Zymler.

A definição da taxa de retorno do investimento indicada nos estudos também chamou a atenção do órgão de fiscalização. A taxa proposta pelo governo era de 7% ao ano, quando as mais recentes concessões de transporte elevaram o repasse para 8%. "Não estou com isso defendendo a utilização desses valores, mesmo porque as variáveis dependem do serviço público objeto da concessão, mas apenas que a conjuntura econômica pode ser diversa da existente em 2009", disse Zymler.

O tribunal destaca ainda outras mudanças ocorridas nas cidades, como o crescimento populacional, a renda per capita, a rede de transportes atualmente existente (aéreo e rodoviário) e a quantidade de automóveis por habitante, entre outros fatores.

Procurada, a ANTT informou que a responsabilidade pelo projeto passou às mãos da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), estatal ligada ao Ministério dos Transportes.

Em nota, a EPL admitiu que o projeto segue na gaveta, sem data definida para ser retomado. Acrescentou, no entanto, que "o governo garantiu a continuidade do projeto, dando andamento às ações preparatórias para elaboração de projetos de engenharia".

Atualização. 
Sobre a determinação do tribunal, a EPL afirmou que, na definição das datas do novo cronograma será considerada a necessidade de realização de atualização do EVTEA do projeto conforme recomendado pelo TCU.

Os estudos do governo apontam que o eixo de 511 quilômetros entre Campinas, São Paulo e Rio reúne todas as condições favoráveis para implantação de um trem de alta velocidade.

O setor privado, no entanto, não se convenceu sobre questões básicas apontadas nos relatórios, como a demanda projetada para o trem e, principalmente, o custo estimado para a obra. Enquanto o governo falava em um empreendimento de R$ 33 bilhões, empreiteiras avaliam um desembolso de até R$ 60 bilhões.

A ideia de instalar um trem de alta velocidade no País foi levada a cabo em 2007, quando o ex-presidente Lula viajou em um trem-bala de Madri a Toledo, na Espanha. Com a escolha do Brasil para sediar a Copa, Lula prometeu que o trem-bala Rio-São Paulo estaria em operação em 2014.

A partir daí, começou uma saga em busca de um modelo de concessão capaz de atrair o setor privado. O projeto passou por adiamentos. Quando Lula percebeu que não teria como viajar no trem-bala na Copa, dilatou o prazo e disse que o projeto estaria pronto para a Olimpíada de 2016. Neste ano eleitoral, as discussões foram abandonadas pelo governo. A ordem é evitar temas polêmicos e tratar apenas do que está dando certo.

Lucro da Petrobras no 2º tri cai 20% para R$ 4,959 bi

Exame.com
Com informações Agência Reuters

Resultado foi menor que a média das dez estimativas de bancos de investimentos

Agência Petrobras 
Funcionário da Petrobras observa navio

Rio de Janeiro - A Petrobras teve lucro líquido de 4,959 bilhões de reais no segundo trimestre do ano, queda de 20 por cento na comparação com o mesmo período do ano anterior, informou a companhia nesta sexta-feira.

O resultado foi menor que a média das dez estimativas de bancos de investimentos obtidas pela Reuters, que apontava para lucro líquido de 7,04 bilhões.

Petrobrás quer reduzir conteúdo local. Ou seja, os críticos estavam certos.

Fernanda Nunes  
O Estado de S. Paulo

A estatal se comprometeu a comprar pelo menos 55% dos equipamentos e serviços no Brasil, mas a indústria só consegue entregar 15%


Dificuldades. Atrasos na fabricação de plataformas no Brasil 
levam Petrobrás a tentar rever compromissos assumidos

A Petrobrás negocia com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a redução nos porcentuais exigidos de compra no Brasil de equipamentos e serviços para o afretamento de sondas, o chamado conteúdo local.

O gerente de Conteúdo Local da Petrobrás, Edival Dan Júnior, lembra que a projeção era que, já neste ano, a indústria brasileira estivesse preparada para atender pelo menos à metade da demanda da estatal relativa ao desenvolvimento de áreas adquiridas na sétima rodada de licitações, ocorrida em 2005.

As previsões, no entanto, não se concretizaram e, atualmente, a capacidade de aquisição no País para o afretamento de sondas se limita a 15%, diz o executivo da estatal. Grande parte desse porcentual diz respeito à contratação de pessoal. Se o pedido da Petrobrás for aceito, a petroleira conseguirá se livrar do pagamento de multas. A decisão ainda caberá à ANP.

Compromisso. No leilão de 2005, a Petrobrás se comprometeu em suas ofertas a comprar um mínimo de 55% a 65% em equipamento e serviços no Brasil para afretamento de sondas. Para o executivo, esse porcentual só deve ser alcançado em 2015, quando começam a ser entregues as primeiras embarcações do grupo de 28 unidades contratadas pela companhia para serem utilizadas no pré-sal.

Enquanto isso, a estatal tentará com a agência reduzir o porcentual exigido de conteúdo local. A ideia é compensar a redução com o aumento na compra de equipamentos e serviços em outras fases de desenvolvimento das áreas.

A reclamação do setor é que o pré-sal aumentou a demanda da indústria e não será possível manter os patamares atuais de conteúdo local. O tema dominou o debate ontem durante um seminário sobre conteúdo local, promovido pela Câmara Britânica de Comércio, no Rio.

A diretora-geral da agência, Magda Chambriard, respondeu às reivindicações com firmeza. Qualquer mudança na política atual será para aumentar ainda mais as exigências, disse ela. "Ajustes poderão vir para reforçar a política. Cabe às empresas desenvolver a sua cadeia de fornecedores", afirmou.

Erros. A ANP está empenhada, hoje, especialmente em detectar erros cometidos por petroleiras na compra de equipamentos para desenvolver áreas adquiridas há nove anos, na sétima rodada. Magda conta que foram encontradas irregularidades em relatórios trimestrais de investimento das companhias. A executiva avalia que não houve má-fé das petroleiras, mas os problemas ocorreram porque os projetos são muito grandes, o que dá mais margem a erros. As irregularidades dizem respeito à Petrobrás, produtora majoritária de óleo e gás no País, mas não é só ela, segundo a diretora-geral da autarquia.

Gargalos no setor naval são, atualmente, as principais fontes de preocupação entre investidores e governo, que vê no setor uma oportunidade de geração de renda e emprego.

O secretário executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Sérgio Leal, diz que casos de atrasos na entrega de embarcações e de cobrança de preços maiores do que os internacionais são pontuais e "estão sendo resolvidos pelo mercado". Ele atribui o problema à carência na escolaridade da mão de obra e, consequentemente, à baixa produtividade durante a fabricação de navios nos estaleiros. O mais recente caso é o do Estaleiro Ilha S.A. (Eisa), no qual 2,5 mil funcionários estão em casa, sem receber salários.

Mais confusão no setor elétrico

O Estado de S. Paulo
Editorial

Cada vez mais enrolado na confusão criada por sua desastrosa política para o setor elétrico, o governo mais uma vez envolve os bancos federais no socorro às distribuidoras, depois de ter levado ao limite o comprometimento do Tesouro. O novo financiamento programado, de R$ 6,6 bilhões, será custeado na maior parte por Banco do Brasil (BB), Caixa e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Até ontem estava também prevista a participação de cinco instituições privadas - Bradesco, Itaú, Santander, BTG Pactual e Citibank. Outras poderão entrar no pool, segundo informação do Ministério da Fazenda.

Mas o socorro financeiro às concessionárias servirá apenas para resolver uma pequena parte da encrenca. Ainda será preciso aumentar as tarifas, congeladas no ano passado por determinação da presidente Dilma Rousseff. Alguns ajustes foram autorizados neste ano, mas falta eliminar a maior parte da defasagem. É um problema difícil para um governo empenhado em maquiar a inflação, especialmente numa campanha eleitoral.

O governo já teve de armar um socorro financeiro em abril. Bancos públicos entraram com R$ 5 bilhões do total mobilizado, de R$ 11,2 bilhões. Desta vez participarão, segundo a estimativa divulgada nos últimos dias, com R$ 6,5 bilhões, ou 68% do empréstimo planejado. O BNDES fornecerá R$ 3 bilhões. BB e Caixa oferecerão, juntos, R$ 1,5 bilhão, e o restante será coberto pelos bancos privados.

O custo será maior que o do socorro anterior. Também isso afetará o cálculo das tarifas necessárias para equilibrar as finanças das concessionárias. Somados os dois empréstimos e os juros, as distribuidoras terão de pagar, segundo estimativa do mercado, R$ 23,3 bilhões.

Também esse valor deverá entrar no cálculo das novas tarifas, se a intenção for reequilibrar as contas das empresas. Especialistas estimam entre 20% e 25% o aumento de tarifas necessário para normalizar a situação das distribuidoras. Fonte do Ministério de Minas e Energia, citada pelo Estado, projeta em 2,6% o efeito dos empréstimos sobre as tarifas em 2015. O impacto estimado deve ser de 5,5% em 2016, no mesmo cenário, e de 1,4% em 2017.

A presidente Dilma Rousseff nega a possibilidade de um tarifaço, se isso depender de sua decisão, mas continua sem explicar como resolverá o problema. Além do mais, é preciso levar em conta a situação das geradoras, também prejudicadas quando atenderam à convocação do governo para antecipar a renovação das concessões. Sem poder recusar a adesão ao plano, a Eletrobrás foi uma das mais afetadas.

Quando propôs a renovação antes do prazo, o governo ofereceu compensação pelas amortizações incompletas de investimentos anteriores. Essa compensação, segundo especialistas, ficou muito abaixo da necessária. Por isso, algumas empresas ficaram fora do esquema proposto.

Ao apresentar esse plano, a presidente Dilma Rousseff anunciou também uma política de redução das contas de energia elétrica. Em condições normais, seria um jogo muito perigoso, porque mexeria com as finanças do setor e afetaria sua capacidade de investimento. Mas o erro foi maior que esse, porque as tarifas foram cortadas numa fase de custos crescentes. A insuficiência de chuvas prejudicou a operação das hidrelétricas e forçou o uso de energia mais cara, produzida pelas centrais térmicas.

A política racional, em situações desse tipo, é estimular a redução do consumo e a busca de maior eficiência no uso da energia. A presidente Dilma Rousseff escolheu o caminho oposto, incentivando maior gasto de eletricidade. Apesar da redução das tarifas, a inflação continuou elevada, porque foram mantidos fatores mais importantes, como a expansão do crédito, a gastança federal e os incentivos fiscais ao consumo. Ao mesmo tempo, mais encargos foram jogados sobre o Tesouro, forçado a ampliar a ajuda ao setor elétrico. A sequência de erros levou a situações quase cômicas. Obrigada a participar do socorro às distribuidoras, a Caixa é ainda pressionada a fornecer mais dividendos ao Tesouro encalacrado. É difícil de combinar populismo com aritmética.