terça-feira, agosto 19, 2014

O perigo de outubro repetir o passado

Adelson Elias Vasconcellos


Se antes havia a alternativa de Eduardo Campos, apesar da vice Marina, às candidaturas de PT e PSDB, ou a tal terceira via, com a morte do ex-governador de Pernambuco, esta alternativa desapareceu. Marina, nem que se pinte, conseguirá ser a socialista que Eduardo Campos foi tampouco tem o traquejo que o ex-governador possuía em alto nível.. Aliás, se querem saber, Marina é o contraponto piorado de Dilma. É uma ex-petista que apenas deixou o partido, mas jamais mudou seus conceitos. No fundo de sua alma, ainda brilha uma estrela vermelha.  

Eduardo Campos poderia ser, sim, uma alternativa à política tanto econômica quanto social ao atual governo. Aécio, certamente, é outra destas alternativas. Marina, não. Aliás, Marina sempre se posicionou contra o desenvolvimento. Prova? Basta qualquer pessoa pretender abrir uma indústria para saber o calvário que precisará enfrentar para obter as tais licenças ambientais. Na infraestrutura? Basta ver porque os muitos projetos do PAc, em qualquer uma de suas múltiplas versões, sequer conseguiram sair do papel. Tudo porque o Brasil precisa suportar uma legislação ambiental que, no total, soma absurdas 30 mil normas. E adivinhem quem foi a pitonisa deste calvário? Não há país que consiga avançar tendo contra si um emaranhado tão antidesenvolvimento como se tornou a legislação ambiental brasileira. 

Muito embora Marina tenha a seu lado o economista Eduardo Gianetti, com boas ideias, conceitos e formação, dado o próprio temperamento centralizador e autoritário da ex-senadora pelo Acre, Gianetti não conseguirá implementar as reformas que o país precisa. Se com Dilma tudo precisava ser filtrado ao estilo imperial da governanta, e por conta disso tudo andava devagar quase parando, com Marina vai parar de vez. Para Marina, uma colônia de pererecas vale muito mais do que uma multidão de seres humanos. Que estes fiquem sem energia elétrica, sem estradas, sem pontes, sem fábricas, desde que a colônia de pererecas seja preservada.   

Estes 21% apontados pelo Datafolha para a provável candidata à sucessão presidencial pelo PSB pode até aumentar um pouco mais. Mas não irá muito longe. Este é exatamente o capital político conquistado por Marina na última eleição. São pessoas que aceitam qualquer terceira via, mesmo que seja uma alternativa vazia, ruim para o país em termos de propostas e projetos, e que não consiga dizer A com A, B com B, C com C. O discurso marineiro é confuso, não aponta rumo nenhum, é ideário demais e realista de menos. 

É claro que Marina pode até ganhar. Se no país até um desmiolado Fernando Collor já ganhou eleição, se a atual presidente não passava de um poste ancorado na popularidade do padrinho, por que Marina não pode vencer a disputa? Claro que sim. Mas a munição e as armas de Marina são reduzidas para uma campanha com tantos fatores estranhos como esta. E mesmo que ganhe, tendo uma base parlamentar reduzida, vai obrigar-se, goste ou não, a ter de negociar com as velhas raposas do Congresso. E isto é exatamente contrário ao discurso que Marina prega. O Brasil já viveu situação semelhante. Collor também se elegeu como um furacão, mas sem base parlamentar acabou tragado pelos costumes imorais de um Congresso francamente oposicionista. Deu no que deu. Democracia nenhuma se mantém em pé sem a ação política. 

Sinceramente, causa apreensão (ou deveria, ao menos, causar) alimentar o desejo de um presidente sem uma base parlamentar com alguma solidez. Quanto mais se o presidente não perde oportunidades de pregar a antipolítica. De certa forma, a presença de Marina na vaga de Eduardo Campos abre a imensa possibilidade de um segundo turno. Mas, neste caso, abre também o enorme temor de que Dilma acabe reeleita.  E manter Dilma no poder, é apostar no desastre.  

Marina precisará afinar seu discurso em temas polêmicos dos quais sempre se esquivou. Um deles, que propostas têm para recuperar as contas públicas e retomar o crescimento. Noutro campo, quais projetos leva consigo para a área de segurança e requalificação dos serviços públicos. E o sempre espinhoso tema da infraestrutura, afogada nas 30 mil normas ambientais.

A grande esperança de mudança alimentada pelos brasileiros periga transformar-se, em outubro próximo, em uma enorme frustração e um pesadelo sem fim. Alguém disse que a história não se repete? Por certo, era alguém que não conhecia o Brasil.

A mágica do mercado interno virou fumaça

Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo 


Perdido o primeiro semestre, o governo terá de rezar com muito fervor para fechar o ano com o mísero crescimento econômico previsto há dois meses pelo Banco Central (BC), 1,6%. No setor privado as apostas há muito tempo estão abaixo desse número. No dia 8 a mediana das projeções do mercado, coletadas entre instituições financeiras e consultorias, já estava em 0,81%. Quatro semanas antes havia chegado a 1,05%. Só no fim do mês o IBGE divulgará os novos números do produto interno bruto (PIB) e mostrará, de acordo com os padrões oficiais, o tamanho do desastre nos primeiros seis meses. Por enquanto, a informação mais aproximada é o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Publicados na sexta-feira, os dados mostraram queda mensal de 1,48% em junho e crescimento de apenas 0,08% no semestre. Esses números são da série depurada de efeitos sazonais.

A Copa das Copas tem sido usada como desculpa, ou meia explicação, para o emperramento da atividade em junho: menos dias de trabalho, adiamento de compras e coisas parecidas. Mas a Copa das Copas, também anunciada como a melhor de todos os tempos, durou umas quatro semanas. A economia, no entanto, foi mal durante seis meses - sem contar, é claro, o período entre o começo de 2011 e o fim de 2013. A presidente Dilma Rousseff e sua equipe cuidaram de manter em 2014 um desempenho econômico à altura dos três anos anteriores. Não tomaram, pelo menos até agora, uma única e solitária medida para renegar o padrão. Seu sucesso é confirmado pelos principais indicadores - contas públicas em frangalhos, inflação ainda ameaçadora, investimento baixo e balanço de pagamentos esburacado.

O baixo investimento é explicável tanto pela má condução dos programas oficiais quanto pela desconfiança dos dirigentes da indústria. Muitos podem até apoiar politicamente o governo e aplaudir o protecionismo e os favores setoriais, mas aplicar dinheiro em máquinas, equipamentos e instalações é outra história. A produção de bens de capital no primeiro semestre foi 8,3% menor que a de um ano antes, segundo o IBGE. Os empresários terão substituído máquinas e equipamentos nacionais por estrangeiros? Nem isso. O valor gasto com a importação desse tipo de produto, entre janeiro e julho, foi 6% menor que nos sete meses correspondentes de 2013, pela média diária.

Apesar disso, fabricantes estrangeiros de bens de capital até podem ter ocupado uma parcela maior do mercado interno. Mas, no balanço geral, tudo indica, por enquanto, um corte do investimento em bens de produção. A pior situação, de toda forma, é a dos produtores nacionais, pressionados pela combinação de procura em queda e custos em alta. Com dificuldades para competir no mercado externo, têm de enfrentar, ainda, a retração dos compradores nacionais.

Na maior parte dos últimos seis anos, desde o começo da recessão internacional, o governo brasileiro alardeou o vigor e a dimensão do mercado interno como fator de segurança contra a crise. A insistência nos estímulos ao consumo foi uma consequência dessa concepção - e da percepção errada, naturalmente, do problema e das soluções possíveis.

Se a presidente e sua equipe fossem mais atentas aos fatos, teriam percebido há muito tempo os erros de sua estratégia. Apesar dos incentivos fiscais a alguns setores, da expansão do crédito e da elevação da renda dos consumidores, a indústria brasileira teve um desempenho muito fraco durante os últimos anos. Alguns setores mais beneficiados pelos incentivos conseguiram boas vendas e lucros, durante algum tempo, porém nem esses aproveitaram as vantagens para ganhar poder de competição. Mas até a mágica do mercado interno parece estar acabando, como indicam os últimos números do comércio varejista. De janeiro a junho, as vendas foram 4,2% maiores que as do primeiro semestre do ano anterior, sem contar veículos, componentes e material de construção. Com a inclusão desses itens, a diferença fica em apenas 0,1%.

O mercado interno está sendo incapaz de acompanhar a produção de automóveis, disse na quarta-feira o vice-presidente da associação nacional das montadoras, Antônio Carlos Botelho Megale. A solução, segundo ele, é exportar mais. Outros segmentos mal acompanharam - ou nem acompanharam - a expansão da procura, nos últimos anos, como indica o aumento de importações. Todos estariam agora em melhor situação, e com melhores perspectivas, se houvessem cuidado mais do poder de competição e da ocupação de espaços dentro e fora do País.

Para exportar a indústria automobilística depende amplamente do mercado argentino, estagnado e protegido. A maior parte das indústrias, com algumas exceções notáveis, acostumou-se a exportar principalmente para os vizinhos. Agora nem esse mercado é garantido, por causa da invasão da turma da Ásia. Até no Mercosul esses competidores têm deslocado os brasileiros. Mas a concorrência vem também de economias desenvolvidas, facilitada pelos acordos comerciais dos latino-americanos com as potências da América do Norte e da Europa.

Esnobar o mundo rico foi uma das espertezas da diplomacia comercial brasileira a partir de 2003. Boa parte da indústria aceitou esse jogo e se acomodou como fornecedora de países da vizinhança. Alguns exportadores continuaram batalhando pelos mercados da Europa e dos Estados Unidos. Mas tiveram problemas crescentes de competitividade. O ambiente de ineficiência - tributação irracional, logística ruim, inflação elevada, intervencionismo desastrado, etc. - prejudicou também as empresas bem organizadas e equipadas. Nos últimos 12 anos o País foi orientado para jogar na segunda ou na terceira divisão. Falta explicar esse detalhe ao resto do mundo e pedir compreensão.

Começar de novo

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo 

Simplificando, para facilitar, se poderia dizer que Campos era o lado ‘amigável ao mercado’; Marina, o social

Há pesquisas eleitorais já prontas para divulgação, outras em campo. Não servem para mais nada. Marina Silva no lugar de Eduardo Campos muda o jogo na política e nas perspectivas econômicas.

Confirmada candidata a presidente, Marina pode obter entre 15% e 20% logo na primeira pesquisa. Com isso, chega nos calcanhares de Aécio Neves e torna praticamente inevitável o segundo turno.

O sentido da candidatura também muda. Sim, havia uma aliança, um acordo entre Campos e Marina, mas o candidato era o ex-governador de Pernambuco, com seu perfil: de esquerda e “amigável aos negócios”, como dizem os economistas para os líderes que se propõem a buscar justiça social no quadro do regime capitalista.

O papel de Marina, no essencial, era atrair os votos das pessoas que foram às ruas em junho do ano passado e que, apontavam as pesquisas, não se identificavam com os políticos tradicionais. Ao contrário, manifestavam uma bronca geral com a política. Marina estava fora disso. As pesquisas também indicaram que, entre os políticos conhecidos, era a única aprovada pelos manifestantes.

Aquelas manifestações não tinham uma agenda política determinada. Talvez por isso mesmo tenham sido tão amplas. O pessoal estava de bronca com a política, com a corrupção, com a inflação, com os serviços públicos, especialmente saúde e escolas, e com tudo o mais.

A chapa Campos/Marina era uma boa ideia por isso: uma tentativa de atrair esse pessoal, ou seja, os votos de Marina, para uma posição institucional, organizada, com metas e programa, representada pelo ex-governador de Pernambuco. Eis a terceira linha. Poderia ou não convencer o eleitor, mas fazia sentido.

Marina é certamente de esquerda, com o forte lado do ambientalismo. Há empresários e economistas ortodoxos ou próximos disso no seu time, mas ela está à esquerda deles. Nos meios econômicos, nos quais Eduardo Campos estava ganhando espaço, a restrição à chapa era justamente a presença de Marina.

Simplificando, para facilitar, se poderia dizer que Campos era o lado “amigável ao mercado”; Marina, o social. Ainda nos meios econômicos, era crescente a admiração pela administração de Campos em Pernambuco, sobretudo pela introdução de métodos de gestão privada inclusive nas áreas de educação e saúde.

De outro lado, ia por aí mesmo a bronca de muitos militantes da Rede Sustentabilidade, o verdadeiro partido de Marina Silva. Reclamavam da falta de maior compromisso do time de Campos com o social e a sustentabilidade.

O que reduzia essas tensões era a atuação pessoal dos dois líderes.

Resumindo: confirmada candidata, Marina Silva deve aparecer com talvez o dobro das intenções de voto obtidas até aqui por Campos. Deve atrair votos de eleitores de Dilma arrependidos. Mas terá de mostrar muita habilidade política para manter a aliança original.

De todo modo, ela deve garantir um segundo turno. Alcançará Aécio? Só se conseguir juntar os votos dela com todos aqueles dos eleitores de Campos e mais um pouco do centrão.

Aécio fica sozinho no centro, naquela região em que se quer mudar a política econômica num sentido mais conservador, mais pró-negócios. Deve herdar os eleitores de Campos que se aproximavam desse lado.

Isso no lado da oposição. Dilma deve ficar onde está — ou perder um tanto se Marina for mais para a esquerda. Ou seja, o jogo mudou. Aqui estão as primeiras especulações, mas vai começar de novo.

PERDA
Recebi este e-mail de Cristiane, ouvinte da CBN: “Eu ainda estava conhecendo Eduardo Campos e, apesar de pretender votar em outro candidato, ficava esperançosa de que a política no Brasil estava mudando a cada vez que o ouvia falar. Inclusive ontem (terça-feira), pois, apesar de não ter resposta para as perguntas espinhosas do Bonner, usou nelas a lógica de um estadista.”

Esse foi o tamanho da perda. Eduardo Campos não era um político comum. Era uma novidade na política brasileira — e uma grande novidade. Os que o conheciam, os que trabalharam com ele, os que de algum modo se relacionaram com suas administrações, todos sabiam como combinava habilidade política com moderna capacidade de gestão.

Foi ousado, mas consistente, ao propor a terceira via.

Era esse político e gestor que Cristiane estava conhecendo. E tanta gente mais.

Tancredo Neves morreu quando ia finalizar sua obra política. Eduardo Campos morreu quando tentava começar a parte maior.

Morreu jovem para viver sempre.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Como no verso clássico do poeta Guilherme de Almeida, Eduardo Campos viveu pouco para morrer bem. E morreu jovem para viver sempre. Por viver pouco, por morrer jovem, deixa uma sólida e indiscutível herança política e eleitoral. O que discute não é a existência da herança: é quem irá desfrutá-la.

Marina Silva sai na frente. Tem luz própria, já mostrou força eleitoral, é a candidata da família de Campos; e sua trajetória, do PT à oposição, é semelhante à dele. Mas a força de Marina é também sua fraqueza: desperta em parte de seu partido, o PSB, o temor de que dê preferência aos companheiros de Rede - a legenda que não conseguiu fundar, mas que é a de seu coração - e deixe os socialistas ao sol e ao sereno. Lula tem bom contato com alguns dirigentes do partido que preferem perder sem Marina a ganhar com ela. Seu objetivo é fazer com que o PSB se abstenha de indicar candidato; ou, pelo menos, provocar um racha, levando alguns socialistas para Dilma e convencendo outros a declarar-se neutros. 

Aécio quer que Marina seja candidata e cresça para que haja segundo turno - desde que não cresça muito. O tucano já mostrou que não é empolgante; poderia ser ultrapassado, e Marina iria para o segundo turno contra Dilma. Também não interessa a Aécio que se realize o sonho antipetista, de Marina tirar Dilma do páreo e garantir um segundo turno sem PT. Pois o voto petista seria de Marina, jamais de Aécio. E, se Marina crescer demais, o PT tem sempre a chance de trocar Dilma por Lula. Aí muda tudo. Para citar outro poeta, Caetano Veloso, ou não.

Quem é contra
O presidente nacional do PSB, Roberto Amaral, não gosta de Marina. Márcio França, secretário nacional de Finanças, chefe do PSB paulista, líder de um terço do Diretório Nacional, brigou com ela ao apoiar a reeleição do tucano Alckmin, que lhe entregou a vice, e que ela rejeita. 

Cá entre nós, Marina é difícil, mesmo.

Os lugares
Marina só não será a candidata do PSB se não quiser. Se servia para vice, para substituir o presidente, por que não serviria para substituir o candidato? O tempo também é dela: até dia 22, como criar outra candidatura? Há quem fale em lançar Renata, viúva de Eduardo; mas quem a conhece bem não acredita que ela aceite.

#pronto falei
Quando um político fala a verdade, a surpresa é geral. Até por isso vale a pena ler este trecho da entrevista à Folha de Londrina de Marcelo Almeida, candidato a senador pelo PMDB paranaense, sobre a CPMI da Petrobras.

"Primeiro que não acredito em CPI do Congresso. O PT, o meu partido [o PMDB], os tucanos, não tem mais santo. Não tem partido que signifique transparência, verdade, dignidade. Os partidos, hoje, um quer jogar no outro, todo mundo errou, todo mundo roubou. Um na Petrobras, outro fez um aeroporto, outro tem Pasadena. Eu não acredito nessa ferramenta que é a CPI." 

O herói solitário
Às vezes, o Fantasma, grande personagem criado por Lee Falk e Ray Moore, ia à cidade, disfarçado de cidadão comum - OK, com sobretudo, em qualquer temperatura, cobrindo o uniforme; óculos escuros para esconder a máscara; e um lobo na coleira. Mas aceitava-se que estivesse disfarçado de cidadão comum. Ali, com sua habilidade, desafiava reis e ditadores protegidos por poderosos exércitos; e, herói solitário, solitário vencia. O Super-Homem, criado por Joe Shuster e Jerry Siegel, também não precisava de auxiliares. 

Mas tanto o Super-Homem como o Fantasma são personagens de ficção: não existem na vida real. Na vida real também não existe o gatuno de dinheiro público que age sozinho. Ele até pode assumir sozinho a culpa, por dar valor à vida; mas sempre age em equipe.

O suspeito solitário
Como foram formados os cartéis e como funcionou o superfaturamento no Metrô e nos trens urbanos de São Paulo, no Governo Mário Covas, o primeiro da atual dinastia tucana? É isso que se investiga. Robson Marinho, personagem criado por Mário Covas, seu amigo e aliado, é apontado como responsável por desvio de recursos; foi afastado de seu atual cargo, ministro do Tribunal de Contas do Estado, pela mesma suspeita. Cabe à Justiça decidir se Marinho é culpado. 

Mas uma coisa é certa: se agiu, não agiu sozinho. Quem bota a mão tem que dividir, ou é jogado às feras. Investigar somente Robson Marinho é no mínimo ingenuidade: todos os seus colegas de Governo, corregedores, secretários de outras pastas, ninguém notou nada? Quem analisava os contratos do Estado e os aprovava? Qual a função da Secretaria da Justiça? E da Fazenda? E dos Transportes? E do Governo? E dos Transportes Metropolitanos? Vai tudo ficar por isso mesmo? As perguntas que não querem calar: só Robson Marinho? E os outros? 

Lições de Shakespeare
Eduardo Campos, ao morrer, provocou comoção nacional, transformou-se em personalidade cultuada, suas virtudes foram festejadas. Não permitamos que a frase de Marco Antônio, no discurso após o assassínio de César, volte a ser aqui aplicada: "O mal que os homens fazem vive depois deles; O bem é muitas vezes enterrado com seus ossos". 

Que o bem que poderia fazer sobreviva a ele.

carlos@brickmann.com.br 
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Quais os riscos econômicos com Marina presidente?

Fernando Dantas (*)
O Estado de S. Paulo

Riscos de uma eventual presidência de Marina são circunscritos: estão menos na macroeconomia e mais no agronegócio e no setor energético. Agricultura, porém, é forte e resiste a restrições. Já o panorama de energia é frágil, e dogmatismo militante pode ser grande empecilho ao crescimento.

Não há certeza ainda de que Marina Silva será candidata no lugar de Eduardo Campos, vítima do trágico acidente da quarta-feira (13/8/14), mas esta possibilidade está crescendo e é impossível deixar de pensar no cenário em que ela encabece a chapa do PSB. Afinal, Marina é uma das grandes lideranças políticas do Brasil, com uma história de vida emblemática no bom sentido, uma ambição ética acima do normal na política brasileira e um comprometimento forte com as questões ambientais, um dos temas definidores da nossa época. É difícil encontrar um perfil mais presidenciável e, diante da oportunidade histórica derivada de uma situação dramática, seria bastante frustrante para seus potenciais eleitores que ela não assumisse o projeto que vinha tecendo a dois com Campos.

Em termos econômicos, a candidatura de Marina pode implicar mudanças na chapa até quarta-feira (13/8) encabeçada por Campos. O ex-governador de Pernambuco desperta mais confiança no empresariado que a ex-petista. No momento em que a economia brasileira está quase parando por um fenômeno explicado em boa parte pela crise de confiança, a troca do candidato por Marina na chapa do PSB pode ter algum efeito negativo nas expectativas, caso ela desponte como uma contendora competitiva e com chances de ganhar.

Nesse sentido, é interessante rememorar o recente debate entre assessores econômicos na Globo News, mediado pela jornalista Monica Waldvogel, e que reuniu Marcio Holland, secretário de Política Econômica do governo Dilma; Mansueto Almeida, assessor de Aécio Neves; e Eduardo Gianetti da Fonseca, conselheiro da chapa Campos-Marina.

Apesar de todo o esforço de Campos de aparecer como uma terceira via entre petistas e tucanos, o que se viu na discussão dos assessores – e que é válido ao menos para o campo da política econômica – foi que a plataforma de Aécio e da candidatura socialista era praticamente idêntica.

Almeida e Gianetti uniram-se nas críticas a Holland, o que, em princípio, poderia ser um mero arranjo tático de conveniência – duas candidaturas postulantes abrem fogo conjunto contra os favoritos. O interessante, porém, é que o ponto de partida das fustigadas dos dois assessores da oposição era indistinguível. Ambos buscaram mostrar como a política heterodoxa do governo de Dilma Rousseff estava errada e causara os atuais problemas do País. Ambos defenderam um retorno a um arranjo mais ortodoxo, com resgate da austeridade fiscal, combate à inflação e fim do excesso de intervencionismo.

A grande questão é saber se Gianetti (e André Lara Resende, outro economista que pende para a ortodoxia nos temas macro) seria tão ouvido por Marina como aparentemente estava sendo por Campos. Alguns no mercado financeiro temem o alegado radicalismo de Marina, caso ela venha a se tornar uma candidata com chances, mas é bom lembrar que já na campanha de 2010 ela teve boa interlocução com economistas ortodoxos, e sinalizava que a política macroeconômica teria uma condução técnica, e mais centrista do que à esquerda.

Na verdade, o radicalismo de Marina, se de fato existe, é circunscrito a temas específicos ligados ao seu ativismo ambiental. No agronegócio, é certo que ela crie áreas de atritos caso chegue à presidência. Este é, contudo, o setor mais potente da economia brasileira, e é difícil imaginar que quaisquer ônus adicionais de caráter ambiental ou de respeito às populações indígenas que Marina impinja aos empresários do campo será capaz de descarrilar uma das agriculturas mais competitivas do mundo.

Uma questão particularmente delicada são os transgênicos. A biotecnologia é dos poucos setores em que o Brasil reúne condições para estar no estado da arte global, e isso já vem sendo retardado pelas atuais restrições legais à engenharia genética na alimentação. Evidentemente, esta é uma questão que depende da perspectiva de cada um – para muitos eleitores, é melhor viver num país com mínimos riscos à saúde pelo consumo de transgênicos do que promover um setor de ponta tecnológica no país. De qualquer forma, mais restrições nesta área deverão tornar ainda mais difícil para o Brasil transformar em realidade o seu protagonismo potencial neste segmento da economia do conhecimento.

Uma questão talvez mais séria em termos sistêmicos para a economia brasileira, numa eventual presidência de Marina, é a área energética. O País tem dificuldades de investir com seu setor público e em agilizar a parceria com a iniciativa privada em grandes projetos de infraestrutura, e já está bastante atrasado em termos de compatibilizar a capacidade energética instalada com a demanda, mesmo com uma economia que cresce pifiamente.

As iniciativas da presidente Dilma para baratear as tarifas, aliadas ao clima desfavorável, agravaram o desequilíbrio entre as trajetórias da oferta e da demanda em energia. Se o setor for agora alvejado por novas restrições ambientais, desenhadas mais pelo sectarismo militante do que pelo bom-senso técnico, este pode vir a ser um dos maiores gargalos a bloquear a retomada da economia brasileira.

(*) Fernando Dantas é jornalista da Broadcast 

Tribunais do faz de conta

Suely Caldas
O Estado de S. Paulo 

Instrumento que se tornou vital para o controle da gastança dos políticos, a Lei de Responsabilidade Fiscal entrou na adolescência (completa 15 anos em 2015) produzindo resultados positivos: desde sua criação, em 2000, obriga presidentes, governadores, prefeitos e quem mais tem poder de manejar dinheiro público a frear o ímpeto gastador e adequar suas despesas às receitas. Apesar disso, é uma lei que segue incompleta, porque a estrutura de fiscalização dos gastos públicos não acompanhou a lei e continua com os mesmos vícios e distorções de antes, deixando o caminho livre para contas reprováveis de políticos serem aprovadas (às vezes com louvor) e para a prática de corrupção de agentes que deveriam fiscalizar e punir.

Essa estrutura é formada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e mais 33 tribunais de contas de Estados (TCEs) e municípios (TCMs), responsáveis por fiscalizar, aprovar ou rejeitar a prestação de contas de presidentes, governadores, prefeitos, empresas estatais e órgãos sustentados com o dinheiro dos impostos. Quem não se lembra do ex-governador Paulo Maluf proclamando "minhas contas foram aprovadas com louvor pelo TCE de São Paulo", quando questionado sobre o dinheiro dos contribuintes paulistas que foi parar em 20 contas da família Maluf na Suíça e na Ilha Jersey? E os casos dos conselheiros Robson Marinho (TCE-SP) e Domingos Lamoglia (TCE-DF), que respondem na Justiça por crimes de corrupção? E tantos outros (para ficar só nos casos mais recentes) dos tribunais do Rio, Bahia, Mato Grosso, Espírito Santo, Rondônia e mais sete (quase o pleno inteiro) do pobre Amapá, acusados de desviar R$ 100 milhões do tribunal?

Os erros já começam pela lei: eles são parte do Poder Legislativo, quando deveriam pertencer ao Judiciário, já que sua função é fiscalizar e julgar a gestão financeira de deputados, senadores e vereadores que se tornaram governadores e prefeitos. E o erro continua com os critérios para escolha de ministros do TCU e de conselheiros dos TCEs. Pela lei, 1/3 é escolhido pelo presidente da República ou por governadores e 2/3, pelo Congresso Nacional e Assembleias dos Estados.

Com esse modelo, obviamente, a escolha dos felizardos candidatos a ganhar, em média, R$ 37 mil (entre salário, auxílios alimentação e moradia e abono de permanência) resulta de acordos político-partidários que, invariavelmente, indicam para as vagas parlamentares aposentados ou derrotados em eleições. E o acordo, claro, contempla a regra "aprova as minhas contas que eu aprovo as tuas", já que eles fiscalizam a si próprios. O critério, escrito na lei, de possuir conhecimento jurídico e reputação ilibada vira mera formalidade na decisão da escolha, vistos os inúmeros casos em que conselheiros são acusados de receber propina em troca de decisões favoráveis a envolvidos em processos. Ah, e tem mais: os cargos são vitalícios.

A mesma equipe que concebeu a Lei Fiscal preparou, em 2000, uma proposta de emenda constitucional (PEC) propondo as seguintes mudanças nos tribunais de contas: 1) como no Judiciário, os cargos de ministros e conselheiros seriam ocupados por técnicos de carreira concursados; 2) o mandato vitalício seria substituído por mandato fixo de seis anos; 3) criar um conselho nacional para controlar e fiscalizar os tribunais de contas; 4) vedar nomeações de funcionários sem concurso público (hoje o apadrinhamento inflaciona os tribunais); 5) extinção dos tribunais de contas dos municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo; e 6) definir com mais rigor os critérios de notório saber e reputação ilibada na escolha de conselheiros. Obviamente, o poder dos contrariados venceu e a PEC nem sequer tramitou no Congresso.

O presidente da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), Valdecir Pascoal, reconhece o problema: "Não ganhamos confiança da população se isso não mudar, mas não posso sair por aí chutando feito um black bloc", diz, referindo-se à resistência de parlamentares e de governadores. Recente encontro da Atricon recomendou mudanças, mas sem poder de implementá-las.

Ruptura da ruptura

Demétrio Magnoli
Folha de São Paulo

Eduardo Campos, ainda hesitante, escolhia um lugar para o retrato de Lula na galeria do passado

Morremos porque um dia Deus puniu nossa desobediente ousadia de buscar o conhecimento, tornando-nos humanos. Eduardo Campos morreu em meio a uma trajetória política, mas, sobretudo, na hora crucial de um percurso de ruptura intelectual. Na campanha ao Planalto, o neto de Miguel Arraes e antigo protegido de Lula tentava completar algo como uma libertação pessoal, definindo seu lugar na cena brasileira. Um acaso trágico, ruptura súbita de uma ruptura progressiva, interrompeu a escritura do capítulo final da história.

"Versão moderna de um coronel nordestino tradicional" --a síntese ambígua escolhida em 2012 pela "The Economist" para classificá-lo talvez servisse como uma fotografia banal, mas não captava o fluxo da vida. O "coronel" cerca-se dos seus, distribuindo os destroços da coisa pública ao séquito dos "compadres". Campos, pelo contrário, distinguiu-se no governo de Pernambuco por um esforço persistente, nem sempre bem sucedido, para insular a máquina estatal dos interesses das camarilhas. Quando seus restos mortais baixarem à sepultura de Arraes, será tão legítimo celebrar a ruptura quanto a continuidade.

Campos provou que o Bolsa Família não congela a política. Dois anos depois de, com o respaldo de Lula, obter 83% dos votos na reeleição ao governo estadual, sua liderança catapultou Geraldo Júlio a um improvável triunfo na disputa municipal do Recife contra o candidato lulista. Naquela hora, convenceu a si mesmo, e ao mundo político, de que já não precisava ser um apêndice do presidente de fato. Ingrato, oportunista, traíra? Os epítetos lançados pelo PT, até quarta-feira incorporados à campanha dilmista e ainda reverberados pelos "companheiros de viagem", circulam na esfera da difamação. Campos ambicionava o poder, como qualquer político, mas sua ruptura refletia divergências de princípio.

No Brasil, vezes demais, sacrificamos a clareza no altar dos afetos. Um "lulismo sem Dilma", como parecia propor o candidato Campos, não era uma narrativa política viável, mas um tributo pago pelo presente ao passado --e uma renúncia voluntária à crítica justa. O fato, porém, é que o ex-ministro de Lula rejeitava a sujeição do interesse nacional à ideologia ("Nós não podemos ter diplomacia de partido. Nós temos de ter uma diplomacia de país"), acreditava na meritocracia ("Eu fiz salário variável na educação, na saúde, na segurança pública") e esboçava um desafio à partidocracia ("A nossa perspectiva é que os cargos comissionados, algo como metade deles, sejam exclusivos dos servidores de carreira").

Aprender e evoluir não é trair. Na sua ruptura, Campos pisou a fronteira do tabu ao concluir que os programas de transferência de renda devem funcionar como ponto de partida, não de chegada, e sugerir uma "política social 2.0". "Vemos as filhas do Bolsa Família serem mães do Bolsa Família. Vamos assistir a elas serem avós do Bolsa Família?", indagou com uma coragem incomum entre os políticos. O "ciclo da pobreza", explicou, só será ultrapassado pela qualificação dos serviços universais de educação e saúde. Ele não disse, nem precisaria, que os beneficiários políticos do "ciclo da pobreza" entrincheiraram o país no castelo da "política social 1.0".

O "menino de Arraes", na expressão cunhada por um rival em Pernambuco, pendurou o retrato do avô na parede, mas mordeu a maçã da desobediência, procurando uma trilha ainda não devassada. Em sua campanha ao Planalto, martelo e pregos à mão, ainda hesitante, escolhia um lugar adequado para o retrato de Lula na galeria do passado. Nessa tendência a se desviar encontram-se as fontes da saraivada de recriminações que lhe dirigiam as páginas de propaganda lulopetistas, apagadas às pressas logo depois da queda do Cessna PR-AFA.

Ruptura da ruptura, história incompleta. Cada um pode imaginar seu final preferido.

A revolução do bem

Percival Puggina
Zero Hora 

Há poucos dias, o Datafolha divulgou pesquisa sobre o grau de confiança da sociedade em suas instituições. No topo, apesar do sistemático empenho de alguns jornalistas, partidos políticos e seus militantes em desacreditá-las, estão as Forças Armadas. No pé da lista, os partidos políticos. O processo eleitoral em curso, portanto, se trava entre instituições cujas atividades são exercidas num ambiente de desconfiança generalizada. Também, pudera! A toda hora, as instituições de Estado se revelam lesivas ao interesse público. Os eleitos, feitas as devidas exceções, dão sinais de crer que seus mandatos constituem uma espécie de patrimônio pessoal, a ser usada comercialmente. Rotos e descozidos atracam-se em disputas num molde institucional que só agrava os próprios males.

Não surpreendem, pois, as opiniões emitidas pelos eleitores. Quanto mais aumenta o número de partidos (em nome de uma suposta representatividade das minorias na qual todos resultam minoritários), mais a colheita de lideranças para a elite política nacional perde qualidade. Quando morre alguém com o perfil de Eduardo Campos, vai-se um dentre tão poucos que se abre um rombo no quadro dirigente do país! Por outro lado, nas últimas décadas do século 20, o assassinato de reputações tornou-se um meio de ação política usado sem escrúpulo, com duplo objetivo: o crescimento do partido autor dos disparos e a morte política de seus adversários. Quando entramos no século 21, num país onde todas as legendas eram tradicionais e iguais entre si, o inconsciente coletivo registrava a existência de apenas um partido diferente _ probo e virtuoso como almoxarife de convento. Bastou uma década para que esse mesmo partido cometesse suicídio moral. Na degradação do Brasil contemporâneo, Getúlio Vargas dispararia contra o próprio peito uma vez por semana.

O que mais surpreende nesse contexto é a inércia das elites partidárias. Elas apostam na perenidade do modelo que as acolhe e beneficia. Confiam na imutabilidade de suas perniciosas rotinas. Amam de paixão essa concentração de poder e de recursos fiscais em Brasília. Dane-se a Federação! Danem-se Estados e municípios! Pouco importa que tamanha concentração de poder e grana atraia tantos bandidos!

Nesta eleição, se for preciso, ensine a seu candidato que as melhores democracias confiam as chefias de Estado e de governo a diferentes pessoas. Diga-lhes que militantes partidários nada têm a fazer na Administração Pública, nas estatais, nas relações exteriores. Vote pela liberdade, pela vida, pelos valores com V maiúsculo. Vote pela revolução do bem.

Presença de Marina

Dora Kramer
O Estado de S. Paulo 

O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, aponta dois movimentos imediatos no cenário eleitoral em decorrência da substituição de Eduardo Campos por Marina Silva como titular da chapa do PSB.

O primeiro, a consolidação do segundo turno. "O que era uma tendência passa a ser um fato". O segundo diz respeito às perdas e ganhos em termos de intenções de voto.

Na opinião do tucano, na largada só Marina ganha. Ele prevê que no primeiro momento, em boa parte devido ao clima de comoção, a ex-senadora talvez apareça nas pesquisas com o dobro dos índices registrados por Campos, previsão esta coincidente com as expectativas de políticos do PSB.

O senador mineiro acha que a presidente Dilma perde um pouco, ele próprio acredita que deva ter uma pequena queda nos índices ("isso vai atrasar meu crescimento"), mas imagina que a maior fonte de votos da ex-senadora esteja no grupo dos pesquisados dispostos a anular ou deixar o voto em branco.

O fato de o quadro se alterar, na visão de Aécio não quer dizer que a mudança será radical. "Não tem essa história de que o jogo ficou zerado".

Obviamente ele continua trabalhando com o cenário de um segundo turno entre ele e a presidente Dilma Rousseff, embora reconheça que a vaga agora será mais disputada. Este pensamento é traduzido assim por um companheiro dele de partido radicado em São Paulo: "Antes haveria segundo turno sem o risco de Aécio ser ultrapassado, agora já não podemos ter tanta certeza".

Voltando ao candidato, para ele a "grande incógnita" é saber como Marina vai se posicionar uma vez assumida a candidatura: se terá um discurso franca e nitidamente de oposição ao PT, a Dilma e a Lula ou se vai se concentrar em falar de si, de suas propostas e concepções sobre grandes temas de interesse nacional deixando de lado o embate mais agressivo.

E por que isso é importante? Justamente por causa do segundo turno. Aécio não se concentra na possibilidade de ter ou não o apoio pessoal de Marina. Até porque há certo consenso no PSDB de que pelo histórico de 2010 e pela personalidade dela o mais provável é que caso fique de fora da fase final não apoie nenhum dos dois concorrentes.

A preocupação do tucano é herdar o eleitorado dela. Se não na totalidade, a maior parte. Por isso a intenção dele será manter a sintonia com o eleitor de oposição, imaginando que quem escolhe Marina Silva não vota no governo.

Neste aspecto, não há mudança estratégica no rumo da campanha. A avaliação é a de que os setores do PSB próximos ao PT ficarão com Dilma e os que já têm boas relações com o PSDB em vários estados não têm motivo para romper acordos já fechados.

O que muda nesse momento e pelas próximas duas semanas é o grau de atritos. Haverá uma "baixada" de alguns decibéis no tom dos discursos. A morte de Eduardo Campos abalou a todos; até que o efeito do choque se amenize não há clima para beligerância.

Apaga a luz. 
Ao contrário da avaliação do presidente do PT, Rui Falcão, sobre a necessidade de a presidente Dilma se reeleger para o ex-presidente Lula "voltar em 2018", um ministro de fino tino político acha que a reeleição encerra um ciclo.

Na opinião desse integrante do primeiro escalão do governo, caso Dilma consiga mais um mandato o PT terá gastado seus últimos créditos junto ao eleitorado.

Pálida ideia. 
Na rodada estadual do Datafolha divulgada sexta-feira Geraldo Alckmin continua firme no patamar de 55% de intenções de votos.

O governo é considerado ótimo ou bom por 47% dos entrevistados. Mas, quando perguntados sobre quais as melhores áreas da administração, 22% responderam "nenhuma" e 24% não souberam dizer. Juntos, somam 46%.

Ou seja, o paulista vota em Alckmin, mas não sabe por quê.

O governo FHC e o gasto social

Samuel Pessôa
Folha de São Paulo

O governo FHC pode ser acusado de ter cometidos erros; não pode ser acusado de ter cortado o gasto social

Em entrevista ao jornalista Josias de Souza, do UOL, no dia 2, a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, afirmou que o governo FHC "sempre cortou o gasto social". Segundo ela, a tradição no Brasil, nos governos anteriores à gestão petista, sempre foi: "Precisa fazer ajuste fiscal? Onde corta? Funcionário público, servidor público, política social".

Essa narrativa vai de encontro à que tenho construído neste espaço. Tenho defendido que os ajustes fiscais que ocorreram em 1999 e 2003 foram por meio de aumento de receita e do corte de investimentos, e nunca pela redução do gasto social.

Adicionalmente, a construção de uma sólida posição fiscal na segunda metade da década de 1990 e na primeira metade da década inaugural do século 21 resultou do contínuo crescimento da receita de impostos e contribuições, a velocidade muito superior ao crescimento do produto.

Meu entendimento é que a elevação do gasto social é permanente nas últimas duas décadas e meia, em razão do que chamei de contrato social da redemocratização, consubstanciado na Constituição de 1988 e reiteradamente renovado nos mesmos termos nos diversos pleitos eleitorais desde então.

Tenho defendido ainda que a diferenciação dos governos petistas em relação ao governo FHC encontra-se na política econômica, e não na política social. A grande distinção está no conjunto de medidas conhecidas por nova matriz econômica, como o ministro Guido Mantega nomeou e que, como argumentei em diversas colunas, é a causa maior da desaceleração da economia no quadriênio de Dilma.

Em que pesem questões ideológicas --minha narrativa pode estar enviesada por meus vínculos ao PSDB--, o debate envolve variáveis observadas. Ou seja, mesmo que as discordâncias persistam, e elas sempre existirão, não deveria haver dissenso em relação a quantidades diretamente observadas.

Ao longo do governo Collor/Itamar, o gasto social, resultado da agregação de INSS, Loas, abono salarial, seguro-desemprego e bolsas, cresceu 1,5 ponto percentual do PIB. Nos oito anos do governo FHC, cresceu 1,5 ponto; e, nos oito anos do governo Lula, outro 1,68 ponto. No primeiro triênio do governo Dilma, o crescimento foi de 1,03 ponto.

A evolução de 1991 a 2013 desse conjunto de rubricas do gasto público, cujo crescimento total no período foi de 5,71 pontos percentuais do PIB, apresenta expansão contínua como proporção do produto, com inflexão para menor na virada de 1994 para 1995, de 2007 para 2008 e novamente de 2009 para 2010, por reduções temporárias da despesa do INSS (como percentual do PIB).

A grande diferença entre os períodos é nas prioridades no interior da área social.

Na década de 1990, a prioridade foi o ataque à pobreza entre os idosos e a construção das redes públicas e universais de saúde, com o SUS, e de educação, com o Fundef. Os números que reportei subestimam o crescimento do gasto social para o período FHC, pois não conseguimos separar para os anos 1990 os gastos da União com custeio de saúde e educação dos demais itens de custeio.

A partir dos anos 2000, a prioridade passou a ser a infância, materializada, entre outros, no exitoso programa Bolsa Família. Mais recentemente, passou-se a atacar a educação superior, com Prouni e Fies (que são programas de financiamento e não aparecem no crescimento do gasto público aqui reportado), e o problema de moradia, com o Minha Casa, Minha Vida. Aparentemente, a educação pré-escolar será uma das prioridades do próximo governo, independentemente de quem ganhe a eleição.

O governo FHC poderia ter feito mais? Acho difícil que qualquer governo que vivesse as mesmas circunstâncias seria capaz de fazer mais na área social. Evidentemente esse é um ponto de vista, e não proposição baseada em variáveis observadas.

De qualquer forma, o governo FHC cometeu erros. Como afirmei em minha coluna sobre os 20 anos do Real, a política fiscal no primeiro mandato foi ruim e está na raiz das dificuldades que tivemos de sair do câmbio fixo, em 1998. E é possível que o esforço de manter o gasto social explique, em parte, a piora da política fiscal do primeiro mandato e a necessidade de encontrar novas bases tributárias no segundo.

O governo FHC pode ser acusado de ter cometidos erros, mas não de ter cortado o gasto social.

Palácio do Planalto, Brasília

Fernando Gabeira
O Estado de S. Paulo 

Internet é isto mesmo: um território livre onde se trocam informações, críticas e insultos. É raro uma pessoa pública nela encontrar apenas elogios. E raro um texto sobre ela que não desperte comentários sacanas. Wikipédias, desciclopédias, com informações truncadas, dizem o que querem e, se as pessoas acreditassem firmemente no que leem na rede, ficariam paralisadas caso encontrassem um personagem dos verbetes, o médico e monstro. Suas reações seriam como as de Alec Guines no Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick: os gestos desmentiriam as palavras, o abraço se transfiguraria num soco, e vice-versa.

Num prefácio para o livro do treinador Rômulo Noronha sugeri a natação como uma das táticas para enfrentar comentários negativos. Você os lê, mergulha e, nos primeiros cem metros, começa a achar que não foram tão graves assim. Nos 400 metros, já admite que talvez possam ajudar você de alguma forma, na autocompreensão ou na aceitação do mundo.

Algo muito grave acontece quando os ataques nascem num computador do Palácio do Planalto, sede do governo federal. É o caso das inserções feitas na biografia dos jornalistas Carlos Sardenberg e Miriam Leitão.

Como sempre, o governo reagiu, a princípio, dizendo que era difícil rastrear a origem das notas, os dados foram desmanchados - a mesma tática usada para as gravações das câmeras naquele problema de Dilma Rousseff com uma diretora da Receita Federal. A segunda explicação também é clássica: o Wi-Fi do Planalto é usado por visitantes, pode ter sido alguém de fora - de preferência, da oposição.

Às vezes paro para pensar: por que o PT faz tanto mal a si próprio? Deixo o campo estritamente moral para raciocinar apenas de uma forma política. O caso do Santander é típico: uma nota realista sobre o comportamento do mercado provocou uma grande reação, sua autora foi demitida e o banco, forçado a se derreter em desculpas.

O mercado deve ser livre para fazer suas previsões. E arcar com as consequências. O mercado tinha uma visão negativa no primeiro mandato de Lula. E errou, pois o País iniciou um processo de crescimento.

A pressão contra o Santander, além de sugerir censura, amplificou a análise do banco, que em outras circunstâncias ficaria restrita aos clientes especiais. Assim mesmo, aos que se orientam politicamente por cartas bancárias. O governo conseguiu transformar uma simples análise num debate nacional, o que era um consenso entre analistas de mercado se tornou uma consistente crítica à política econômica de Dilma.

A julgar pelo digitador do Palácio do Planalto, as coisas estão pegando aí, na política econômica: os dois jornalistas atingidos são críticos das medidas do governo com base nas evidências.

No universo político, a artilharia sempre foi comandada pelos blogueiros mantidos por empresas do Estado. Eles cuidam de nos combater com dinheiro público e racionalizam essa anomalia com a tese de que uma verba muito maior é usada pelos meios de comunicação que criticam o governo.

Os intelectuais dissidentes em Cuba dão de barato que o governo os vigia, os boicota e promove campanhas para assassinar sua reputação. Mas é uma ditadura.

Num país democrático, essas práticas, além de condenáveis, não são eficazes. Todo este universo de rancor acaba se voltando contra os agressores, que, como dizem os orientais, sempre se desequilibram no ataque. Os nove jornalistas atacados, nominalmente, por um dirigente do PT tiveram a solidariedade internacional, uma nota de apoio da organização Repórteres sem Fronteiras.

O PT sabe que existe um nível de rejeição ao partido nas grandes cidades - em Vitória os petistas já não usam estrelas e bandeiras vermelhas, talvez nem barba. O que parece não perceber é como seus movimentos autoritários aumentam a rejeição. É como se um partido abrisse mão de seduzir e se focasse apenas em intimidar.

Esse é um jogo muito perigoso. Em primeiro lugar, porque há muitos homens e mulheres que não se intimidam. Em segundo, porque envenena uma atmosfera que já é medíocre com atos de campanha sem graça, muitos bebês no colo, Dilma comendo cachorro-quente. Come cachorro-quente, pequena. Olha que não há mais metafísica no mundo, senão cachorro-quente.

O PT conseguiu construir uma linguagem própria. O verbete aloprado é um descoberta para se distanciar de seus combatentes da guerra suja. Digo com conhecimento de causa. Depois das eleições de 2006, interroguei todos os chamados aloprados. Era estranho que aloprados tivessem coletado mais de R$ 1 milhão. Mais estranha, ao longo dos interrogatórios, a recusa em responder, a frieza matemática em usar os mecanismos legais em sua defesa. Aloprados?

Se um dia aparecer o aloprado do computador do Planalto, observem como se esquiva, como é difícil achar nele algum traço que o defina como aloprado, como resiste às provocações. Ele é resultado de uma cultura que domina a política brasileira desde 1992. A constante tentativa de liquidar o outro é uma arma típica de ditaduras. Infelizmente, para uma grande parte da esquerda, a democracia ainda não é um valor estratégico.

Não sei qual será o resultado das eleições. Mas acho que o PT faz tudo para merecer uma derrota, algo que lhe dê pelo menos a chance de refletir sobre o período sombrio que acabou instalando no Brasil.

Uma força verdadeiramente democrática, à esquerda, seria boa para o futuro.

Será que é preciso que Cuba desmorone, que a Venezuela fracasse mais claramente, para que os petistas se convençam de que esse não é o caminho?

Sei que assim procedendo me exponho ao Twitter de todos vocês. Mas é preciso combater essa cultura de ressentimento e mediocridade que leva um digitador do Palácio do Planalto a dedicar sua tarde ao ataque a jornalistas na Wikipédia.

Não é um aloprado, mas um caso extremo e talvez cristalino: revela, em toda a sua profundeza, o abismo em que nos lançaram.

O PR-AFA de Eduardo Campos acertou Dilma

Elio Gaspari
Folha de São Paulo

Se Aécio também foi atingido, é uma dúvida, mas o dano causado à campanha do PT é uma certeza

A conta é simples: em agosto do ano passado, antes de ter o registro de seu Rede negado pelo Tribunal Superior Eleitoral, Marina Silva tinha 26% das intenções de voto na pesquisa do Datafolha. Tendo-se abrigado no PSB, acabou numa chapa que era encabeçada por Eduardo Campos. Há um mês, tinham 8%.

Os números de uma nova pesquisa do Datafolha estarão nas ruas nos próximos dias. Partindo-se dos 8%, somando-se o efeito da comoção provocada pelo acidente do jatinho PR-AFA, ela poderá surpreender. Para que Dilma saia incólume, qualquer ponto percentual que vá para Marina precisará sair do acervo de Aécio Neves, e essa hipótese é absurda. Dilma certamente perde quando fortalece-se a possibilidade de um segundo turno. Se Aécio Neves perde algo com a nova situação, é uma dúvida.

Manejando-se apenas percentagens vai-se a lugar nenhum. Falta saber o que Marina proporá para transformar preferências em votos. No primeiro turno de 2010 ela teve cerca de 20 milhões de votos (19,33%). Até agora, o programa de sua chapa foi ralo e confuso. Fala em "eixos programáticos", "brasileiros socialistas e sustentabilistas", "borda de desfavorecidos", "democracia de alta intensidade", em "ampliar a dimensão dos controles ex post frente à primazia dos controles ex ante". Propõe plebiscitos e "um novo Estado". Isso pode dar em qualquer coisa.

Com dois minutos no programa eleitoral gratuito contra 11 de Dilma e quatro de Aécio Neves, só as redes sociais e a internet poderão socorrê-la. Tomara que isso aconteça e que ela ponha carne no feijão. A ideia de uma candidata a líder espiritual reconforta o eleitor desencantado com a polaridade PSDB-PT, com seus mensalões mineiro e federal. Para o primeiro turno isso é um bálsamo. Para o segundo, uma aventura.

TIRO NA DOUTORA
Na quinta-feira o presidente do PSB, Roberto Amaral, anunciou que o partido só decidiria a substituição de Eduardo Campos depois do seu sepultamento.

O PSB é soberano, mas, se alguém no Palácio do Planalto acreditou que, derrubando-se Marina Silva dentro da grande área ajuda-se a doutora Dilma, enganou-se.

O efeito da jogada seria um pênalti contra a meta de Dilma. Quem derruba jogador sempre espera que o juiz não veja o lance. No caso, os juízes serão os eleitores, sobretudo os indecisos ou parte daqueles que pensavam em anular o voto.

DILMÊS
Levando um texto escrito e falando da tribuna do Palácio do Planalto, a doutora Dilma tratou do desaparecimento de Eduardo Campos e disse o seguinte:

"Uma morte tirou a vida de um jovem político promissor".

JOSÉ DIRCEU
Pelas suas contas, o comissário José Dirceu acredita que em outubro deixará o regime semiaberto, dormindo em casa.

Felizmente, tanto ele como José Genoino abandonaram o comportamento teatral que exibiram no dia em que se apresentaram à prisão. Ambos de punho cerrado, e Genoino envolto numa cortina que servia-lhe de manto para sabe-se lá o quê.

FRITURA DE OBAMA
Outro dia Hillary Clinton deu uma entrevista atirando na testa do companheiro Barack Obama.

O casal Clinton mostrou que pretende esfolá-lo. Se Hillary acerta nas testas, Bill corta jugulares. Em novembro realizam-se eleições parlamentares e tudo indica que os republicanos mantêm a maioria na Câmara e arriscam levar também o Senado.

Os Clinton querem distância desse legado.

BOMBAS ATÔMICAS
Começou a contagem regressiva para os 70 anos das manhãs em que os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas sobre duas cidades japonesas, em agosto de 1945.

É uma grande história diplomática, industrial, tecnológica e militar. Está na rede o livro "Hiroshima Nagasaki - The Real Story of the Atomic Bombings" ("A História Real dos Bombardeios Atômicos"), do jornalista australiano Paul Ham. Sai por US$ 16,99. Cada aspecto da carnificina vale um livro, mas Ham conseguiu juntar todos num só. Era um tempo em que o presidente da Dupont relutava em participar da produção da bomba. Tendo aceitado construir a usina que produziria o plutônio que explodiu em Nagasaki, estabeleceu que a empresa não ganharia um tostão com isso.

Narrativa emocionante, sustenta que o uso das bombas em cima de duas cidades foi uma demasia. Coisas da vida. Passados 70 anos, muita gente pensa assim. Em 1945 ocorria o contrário, e a tardia rendição do Japão foi festejada em todo o mundo.

RECORDAR É VIVER
Rompimentos e alianças políticas são coisas fugazes, mas Eduardo Campos, falando da sala em que seu avô recebeu os militares que o prenderam no dia 1º de abril de 1964, informou a Lula que não pretendia mais ter relações políticas com ele.

ESPIRAL
O ministro Ricardo Lewandowski assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal e imediatamente vestiu o manto de presidente do sindicato dos magistrados.

Defendeu um aumento salarial para os juízes usando uma expressão capaz de assombrar Lula e a doutora Dilma. Segundo ele, há no Brasil uma "espiral inflacionária".

VIERALVES, O VANDERBILT DA UERJ
Em plena campanha eleitoral, caiu em cima da candidata a deputada federal Benedita da Silva a denúncia de que em 2010 dois de seus filhos, funcionários da Câmara Municipal desde 1987, foram pendurados na folha de pagamento da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Faturaram R$ 143 mil.

À primeira vista, isso faz parte do tiroteio da campanha. Olhando-se bem, há meses a comissária Benedita, seus dois filhos e mais o reitor da Uerj, companheiro Ricardo Vieiralves de Castro, sabiam que estavam encrencados. O caso estourou agora porque não foi esclarecido direito enquanto era investigado pelo Ministério Público. Os dois filhos da deputada ficaram lotados no gabinete de Vieiralves. Diligências revelaram que eles lá não iam e em seus depoimentos deram explicações contraditórias a respeito de serviço que faziam. Os dois, mais Vieralves, tornaram-se réus na 1ª Vara da Fazenda Pública, acusados de improbidade administrativa. Benedita, não.

Filhos de maganos pendurando-se em Câmaras Municipais e transferindo-se para outras paragens são costumes antigos. Quando esse abrigo é uma universidade, dá pena. Quando nela é o gabinete do reitor, dá raiva. Desde que o processo foi aberto a Uerj manteve solene silêncio. Em busca da posição da universidade, no dia 12 os repórteres Cassio Bruno e Fábio Vasconcelos enviaram-lhe uma mensagem com perguntas. Passados dois dias depois, Vieiralves não se dignara a responder. O doutor pegou a linha de Alice Vanderbilt, a milionária americana que entrou no carro, disse o nome da dona da casa onde ia jantar, percebeu que o motorista tomou um caminho errado, mas ficou calada. Ela não falava com criados. Com uma diferença, madame Vanderbilt cuidava do dinheiro dela. Vieralves mexeu com dinheiro da Viúva.

“ENROLATION” PURO: Dilma faz uso perfeito do 'dilmês' no Jornal Nacional

Veja online

Presidente-candidata abusou de frases longas e rodeios e esquivou-se dos temas mais espinhosos – em alguns casos, simplesmente porque não respondeu

(Reprodução/TV Globo) 
DILMÊS APLICADO – 
A presidente-candidata Dilma Rousseff 
em entrevista ao Jornal Nacional: rodeios e respostas confusas 

Em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, nesta segunda-feira, a presidente-candidata Dilma Rousseff lançou mão do mais puro dilmês: frases longas e confusas, engatadas umas nas outras. Por mais de uma vez, ela insistiu em concluir suas longas explanações: "Só um pouquinho, Bonner", dizia. Dilma ultrapassou em quase 50 segundos o tempo de 15 minutos destinado a ela. Mas desta vez o dilmês pode ter jogado a seu favor. Numa sala do Palácio da Alvorada, e não nos estúdios da Rede Globo, os entrevistadores — além de Bonner, Patricia Poeta — só conseguiram lhe fazer quatro perguntas. Se da entrevista não resultou nenhum slogan de campanha, ela tampouco será lembrada por uma frase negativa, com o reconhecimento de um erro ou malfeito. Diante das interpelações mais duras, Dilma se escondeu atrás de sua barragem de frases. 

Na primeira pergunta, William Bonner tratou dos muitos escândalos do governo petista e perguntou se era difícil escolher pessoas honestas para preencher os cargos do governo. A presidente não respondeu diretamente: optou por tratar das instâncias de combate à corrupção. "Nós fomos o governo que mais estruturou os mecanismos de combate à corrupção, a irregularidades e malfeitos", disse ela, que também minimizou os escândalos. "Nem todas as denúncias de escândalo resultaram em realmente a constatação que a pessoa tinha de ser punida e seria condenada".
A petista também se escudou convenientemente no cargo e foi evasiva quando o apoio do PT aos mensaleiros condenados por currupção pelo Supremo Tribunal Federal foi colocado em pauta: "Eu não vou tomar nenhma posição que me coloque em confronto, conflito, ou aceitando ou não (sic). Eu respeito a decisão da Suprema Corte brasileira. Isso não é uma questão subjetiva".

Em seguida, Dilma afirmou que a troca de César Borges por Paulo Sérgio Passos no Ministério dos Transportes – uma exigência do PR, envolvido em casos de corrupção na própria pasta, para apoiar a reeleição da petista – foi feita com base na integridade do nome indicado pela sigla. "Os partidos podem fazer exigências. Mas eu só aceito quando considero que ambos são pessoas íntegras e não só integras, são competentes", afirmou.

Quando o assunto foi economia, a estratégia foi a mesma: William Bonner perguntou se o governo não havia errado em nenhum momento na reação à crise internacional. A resposta foi o discurso-padrão apresentado pela presidente nos últimos meses: "Nós enfrentamos a crise pela primeira vez no Brasil não desempregando, não arronchando salário, não aumentando tributos e sem demitir", disse ela.
Em um dos poucos momentos significativos da entrevista, a presidente acabou admitindo que a saúde não está em padrões minimamente razoáveis: "Não acho", disse ela, antes de desandar a falar sobre o Mais Médicos, uma das bandeiras de sua campanha.

Já com o tempo estourado, Dilma ainda tentou pegar carona na comoção que tomou o país com a morte do candidato do PSB, Eduardo Campos, cuja frase final no Jornal Nacional – "Não vamos desistir do Brasil" –virou lema do PSB. "Eu acredito no Brasil", disse Dilma, que foi interrompida uma última vez enquanto tentava pedir votos aos eleitores.

A outra goleada

Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

O mundo não só cresceu bem mais que o Brasil como o fez a uma diferença de velocidade jamais vista

No primeiro semestre, a produção industrial brasileira caiu pouco mais de 2,5%, segundo dados divulgados pelo IBGE, e o consenso dos analistas aponta para queda superior a 1% em 2014 (acredito que vá ser pior, mas fiquemos com o consenso).

Dado esse desempenho, o crescimento do PIB neste ano talvez não chegue a 1%, implicando expansão média no período 2011-2014 inferior a 2% ao ano, a mais fraca em um quadriênio desde 1999.

A resposta oficial aponta para a conjuntura internacional como a responsável. Recentemente, por exemplo, a presidente admitiu ter "minimizado os efeitos da crise externa sobre a economia brasi- leira", ao atribuir a ela a culpa pelo crescimento medíocre durante sua gestão.

Parece um bom argumento, exceto, é claro, por não fazer nenhum sentido à luz dos números disponíveis. A valerem as projeções do FMI para a economia global neste ano (crescimento de 3,4%), a média da expansão do PIB mundial nos últimos quatro anos aceleraria a 3,3% anuais, comparados a 3,0% ao ano observados no quadriênio anterior. Por outro lado, o desempenho nacional revelaria desaceleração expressiva no mesmo período, de 4,5% para 1,8% ao ano.

Posto de forma mais delicada, apenas um exercício delirante de imaginação poderia atribuir a piora do desempenho brasileiro à conjuntura internacional, que, longe de ser brilhante, apresentou melhora modesta, embora visível, no mesmo período. Não bastasse isso, a diferença entre o crescimento mundial e o nosso (1,5 ponto percentual) é a maior em pelo menos 12 anos, outro recorde a somar à maior goleada sofrida pelo país.

O caso pode ser ilustrado em maior detalhe pelo gráfico que compara a produção industrial brasileira à mundial. Como se vê, a indústria nacional seguiu sua contraparte global até o fim de 2010, em que pesem alguns desvios pontuais, refletindo momentos de crescimento um tanto mais forte ou mais fraco.

Em particular, é aparente a recuperação mais rápida do país em seguida à crise de 2008-2009, pois demoramos apenas dois anos para atingir o pico anterior (de outubro de 2008 a outubro de 2010), enquanto a indústria global precisou de quase três anos para isso.

No entanto, a partir de 2011 o Brasil "andou de lado", situação que ainda perdura: nos 12 meses terminados em maio deste ano, a produção nacional era 1% inferior à registrada em 2010 e indistinguível do pico que antecedeu à crise. Já a produção global no mesmo período era 10% superior à observada em 2010 e cerca de 7% maior que o pico pré-crise.

Qualquer que seja a métrica adotada, a verdade é que o mundo, mesmo combalido, não só cresceu bem mais que o Brasil como o fez a uma diferença de velocidade jamais vista na história deste país.

Por tudo o que foi dito, deve ficar claro que a origem do problema de baixo crescimento tem raízes locais. Da forma como entendo, a questão relaciona-se essencialmente ao aumento dos salários muito à frente da expansão insignificante da produtividade, em particular no setor manufatureiro.

Diferentemente do que ocorre no caso dos serviços, esse aumento do custo do trabalho encontra dificuldades de repasse para preços diante da concorrência externa. Assim, as margens industriais se contraem, limitando a expansão do setor, ao mesmo tempo em que a inflação de serviços segue vigorosa (acima de 9% nos 12 meses até junho).

A nota curiosa da desculpa (esfarrapada) para o baixo crescimento é que seus autores não parecem ter notado que, se fosse verdadeira, implicaria concluir que a aceleração observada no período 2004-2010 também resultaria do mundo mais forte, e não de méritos do governo de plantão.

Não sei se o presidente Lula se deu conta da crítica de seus aliados a seu desempenho à frente do país. Provavelmente não, mas, em nome da verdade, seria bom alertá-los para achar uma justificativa mais sólida para o desempenho lamentável dos últimos anos.

Desfigurando a verdade

O Estado de S. Paulo 
Editorial 

Contra fatos não há argumentos, mas em desespero de causa sempre se pode tentar desqualificá-los, na expectativa de que outro dito se confirme - o que diz que uma mentira repetida muitas vezes acaba virando verdade. O primeiro fato, no caso, foi a revelação sustentada em evidências irrefutáveis de que, não bastasse a presidente da Petrobrás, Graça Foster, o seu antecessor José Sérgio Gabrielli e o ex-diretor da empresa Nestor Cerveró conhecerem de antemão as perguntas que lhes seriam feitas na CPI no Senado que focaliza notadamente o escândalo da compra de Pasadena, elas foram escolhidas a dedo para produzir respostas convenientes - também elas, aliás, combinadas com os depoentes.

O segundo fato inconteste foi a identificação do coordenador da armação que mobilizou dirigentes da estatal, assessores parlamentares petistas e a liderança do Planalto no Congresso, cujo titular, o senador José Pimentel, do PT, é nada menos do que o relator da CPI. (Dez de seus 13 membros, por sinal, integram a base governista na Casa.) O principal operador da farsa - veio a se saber, como tudo o mais, pela imprensa - chama-se Luiz Azevedo e exerce a função de secretário executivo da Secretaria de Relações Institucionais, comandada pelo ministro Ricardo Berzoini, calejado quadro petista. As primeiras pistas não chegavam tão longe, fixando-se no assessor especial da Secretaria, Paulo Argenta. Ele havia sido citado numa comprometedora conversa cuja gravação um dos presentes passou adiante.

A descoberta de um Pasadenagate envolvendo diretamente o braço direito do ministro responsável por fazer a ponte entre a Presidência da República e o Poder Legislativo eliminou quaisquer dúvidas que ainda pudessem subsistir sobre a razão de ser da escabrosa articulação - muito mais do que defender a elite dirigente da Petrobrás, blindar a candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição. Desde que ela confessou a este jornal, em março último, ter aprovado em 2006 a aquisição de metade da refinaria então em posse de um grupo belga, a história que parecia ter sido abandonada no freezer em seguida aos depoimentos de Gabrielli e de Graça Foster nas duas Casas do Congresso, ano passado, ressurgiu no micro-ondas.

Afinal, foi na condição de presidente da mais alta instância decisória da Petrobrás, o seu Conselho de Administração, que Dilma - fundamentando-se apenas em um resumo "técnica e juridicamente falho", do negócio em preparo, como diria ao Estado - abriu caminho para o maior vexame da petroleira em seus 61 anos de existência. Uma sucessão de erros primários - como o de recorrer, por decisão de Dilma, de uma sólida sentença judicial americana que dava ganho de causa à parceira da Petrobrás, depois que se desavieram - abriu na estatal um rombo histórico de US$ 792,3 milhões, segundo os cálculos do Tribunal de Contas da União (TCU). Não será surpresa se um dia a cifra for revisada para cima. Ou se for constatado que, além de equívocos, grossas falcatruas contribuíram para a catástrofe financeira.

A primeira tentativa da presidente de brigar com os fatos da manipulação da CPI consistiu em se distanciar deles. "É uma questão que deve ser respondida pelo Congresso", lavou as mãos. Desmoralizado o "incluam-me fora disso" ao se comprovar na semana passada que a farsa havia sido concebida dentro do Palácio, esperou o que seria o melhor momento para desfigurar a verdade. Para aparecer na televisão no domingo à noite, convocou pouco antes uma entrevista no Alvorada, a residência oficial dos presidentes, a pretexto de mandar uma saudação pelo Dia dos Pais. E esperou o momento de ser perguntada sobre a armação na CPI para dizer que não é correto "misturar eleição com a maior empresa de petróleo do País".

Foi essa rota alegação que o governo invocou ao tentar de tudo - em sociedade com o dilmista Renan Calheiros, presidente do Senado - para impedir que a oposição abrisse na Casa uma CPI sobre os presumíveis malfeitos na Petrobrás. Barrado na Justiça o rolo compressor, o Planalto apropriou-se da investigação chegando aos extremos denunciados - para Dilma, apenas "um factoide político". Fez lembrar o seu mestre Lula negando o mensalão.

Os jihadistas tupiniquins

Marco Antonio Villa
O Globo 

O auge do jogo sujo será justamente na breve campanha do segundo turno, onde calúnia tem muito mais efeito eleitoral

Estamos a menos de dois meses das eleições. Mas não parece. Há um clima de desânimo, de desinteresse, de enfado. Acreditava-se que, após o fim da Copa do Mundo, as atenções estivessem concentradas no processo eleitoral. Ledo engano. A pasmaceira continua a mesma. Agora, o divisor de águas é o horário gratuito que começa dia 19. Para o PT, este é o clima ideal para a eleição presidencial. Quanto menor o interesse popular, maior a chance de permanecer mais um quadriênio no poder. O partido tem, inclusive, estimulado discretamente campanha pelo voto nulo ou branco. Sabe que muitos eleitores estão desanimados com a política, justamente com as mazelas produzidas pelo próprio petismo.

A desmoralização das instituições foi sistematicamente praticada pelo partido. A compra de maioria na Câmara dos Deputados, que deu origem ao processo do mensalão, foi apenas o primeiro passo. Tivemos a transformação do STF em um puxadinho do Palácio do Planalto. O Executivo virou um grande balcão de negócios e passou a ter controle dos outros dois poderes. Tudo isso foi realizado às claras, sem nenhum pudor.

Não há área do governo que nos últimos anos tenha permanecido ilesa frente à sanha petista. Todos os setores da administração pública foram tomados e aparelhados pelo partido. Os bancos, as empresas estatais e até as agências reguladoras se transformaram em correrias de transmissão dos seus interesses partidários.

Imaginava-se que, após a condenação dos mensaleiros, o ímpeto petista de usar a coisa pública ao seu bel-prazer pudesse, ao menos, diminuir. Nada disso. Os episódios envolvendo a Petrobras demonstram justamente o contrário. E mais: neste caso levaram ao descrédito total os trabalhos de uma Comissão Parlamentar de Inquérito e desmoralizaram mais uma vez o Legislativo.

As ações seguem um plano de que o partido é o elemento central da política, nada pode ocorrer sem a sua anuência. Esta estrutura tentacular tem enorme dificuldade de conviver com a democracia, a alternância no governo e com o equilíbrio entre os poderes. A insistência em impor o projeto dos conselhos populares — uma espécie de sovietes dos trópicos — faz parte desta visão de mundo autoritária.

O maior obstáculo para o PT é a existência do Estado Democrático de Direito. O partido tem como objetivo estratégico miná-lo diuturnamente. Suas ações chocam-se com a “institucionalidade burguesa”.

O PT usará de todos os meios para se manter no poder. Manteve até aqui a campanha em banho-maria, como era do seu interesse. Mas com a permanência de Dilma em um patamar que vai levar a eleição para o segundo turno — isto hoje é líquido e certo —, o partido vai abrir a sua caixa de ferramentas, como o fez em 2006 e 2010.

O uso da internet para desqualificar seus opositores é realizado há um bom tempo. O PT tem um verdadeiro exército de jihadistas prontos para o ataque. O recente episódio de mudanças no perfil de jornalistas na Wikipedia é café pequeno frente ao que vem por aí. O auge do jogo sujo será justamente durante a breve campanha do segundo turno, onde uma calúnia tem muito mais efeito eleitoral, principalmente se divulgada às vésperas da eleição.

As modificações ocorridas no Tribunal Superior Eleitoral passaram em branco. É bom que a oposição fique atenta, pois quem vai presidir a eleição é um ex-funcionário do Partido dos Trabalhadores e ex-advogado de um sentenciado no processo do mensalão, José Dirceu. O presidente do TSE é o ministro Dias Toffolli.

Neste processo chama a atenção a ação de Lula, seu líder máximo — e único, na verdade. Tem se mantido — até o momento — discreto na campanha eleitoral. Visitou alguns estados e mesmo em São Paulo tem participado pouco das atividades. Pode ser que tenha sentido um cheiro de derrota no ar e está buscando preservar sua figura. No caso da eleição paulista, isto já é definitivo. Seu candidato já está derrotado. Esperto como é, pode já estar iniciando a campanha de 2018. E com o figurino de salvador da pátria.

Frente a este quadro é que a oposição precisa exercer o seu papel. Nesta eleição tem agido com mais consistência, buscando alianças regionais e um discurso mais simples e compreensível para o eleitor. Tem atuado melhor, mas distante do que se espera de uma oposição no grave momento histórico que vivemos.

Eduardo Campos tenta — mas tem muita dificuldade — de encarnar o figurino oposicionista. Afinal, permaneceu mais de um decênio apoiando o governo, inclusive exercendo função ministerial. Mas teve ousadia em se lançar candidato.

É Aécio Neves que tem de exercer o papel de opositor do petismo. Tem se esforçado, é verdade, porém a campanha ainda não empolgou. Conseguiu habilmente construir bons palanques estaduais. Diversamente de 2010 rachou o apoio petista no trio de ferro da política brasileira. Em Minas Gerais deve ter uma grande vitória. Em São Paulo, se conseguir colar a sua candidatura à de Geraldo Alckmin, pode ter a maior vitória do partido no estado desde o restabelecimento das eleições diretas. Conseguiu um raro feito no Rio de Janeiro, rachando o bloco de apoio à petista que foi importante em 2010. Deve surpreender no Nordeste tendo uma boa votação, rompendo com o domínio petista, como na Bahia. Mas ainda é pouco.

A máquina autoritária petista pode ser derrotada. Os dois próximos meses são decisivos. O PT vai usar todas as suas armas. Sabe que é uma batalha de vida ou morte, pois longe do aparelho de Estado não consegue mais sobreviver.

A Caixa espremida

O Estado de S. Paulo
Editorial

O governo decidiu usar e abusar da Caixa - o principal banco executor das políticas sociais - para remendar as contas públicas em frangalhos e consertar problemas criados por sua política desastrosa. A história inclui a cobrança de dividendos crescentes e pressões para participação no socorro às distribuidoras de eletricidade. Além disso, desde o ano passado o Tesouro tem atrasado repasses para programas como o Bolsa Família e o seguro-desemprego. A Caixa usa recursos próprios para atender os beneficiários. Quando o dinheiro é finalmente liberado pelo governo central, chega depreciado pela inflação e sem juros. É como se o Ministério da Fazenda dispusesse de um cheque especial sem limite e sem custo para emergências. Essas emergências se vêm tornando cada vez mais frequentes.

Com o atraso nos pagamentos o Tesouro melhora a aparência de suas contas, pelo menos por algum tempo. A contabilidade criativa, usada principalmente para maquiar as finanças públicas no fim do ano, inclui, entre outros itens, o adiamento de vários tipos de repasses. Embora o grande objetivo seja o fechamento do balanço fiscal em dezembro, os truques aparecem durante todo o ano.

O governo continua gastando demais. Ao mesmo tempo, a arrecadação tem sido afetada por incentivos fiscais ao consumo e pelo baixo crescimento econômico. O Tesouro tem recorrido a receitas especiais e a atrasos de pagamentos para tentar obter, pelo menos formalmente, o resultado fiscal prometido. Para 2014, o objetivo é um superávit primário - dinheiro para pagar juros - de R$ 80,8 bilhões para o governo central.
Pressionada pelo Banco Central (BC) a explicar a "discrepância" em suas contas, a diretoria da Caixa recorreu à Advocacia-Geral da União (AGU) para mediar o conflito com o Tesouro. Uma câmara de conciliação foi criada para cuidar do problema, com participação da Caixa, do Tesouro e do BC. "Os trabalhos da câmara podem evoluir para um parecer técnico", informou ao Estado o chefe da AGU, Luiz Inácio Adams.

Se esse parecer for baseado exclusivamente nos termos do contrato entre o Tesouro e a Caixa, o problema permanecerá. Para uma solução, será preciso levar em conta as condições financeiras da prestação do serviço, mas ninguém avançou nesse tipo de detalhe. Por meio de sua assessoria, a Secretaria do Tesouro disse desconhecer qualquer proposta da Caixa para alteração do contrato.

A natureza do problema, no entanto, é bastante clara. Os termos do acordo entre as duas partes seriam muito menos importantes em outra circunstância. O Tesouro está em muito má situação e o governo está perdido no emaranhado de erros da política econômica. Para reforçar a receita fiscal, o governo tem pressionado a Caixa para entregar dividendos maiores que os combinados para este ano. A ideia inicial era entregar apenas metade do ganho disponível, mas o Ministério da Fazenda resolveu mudar o jogo. Agora se espera da Caixa uma contribuição de cerca de R$ 5 bilhões.

Dividendos maiores que os do ano passado já reforçaram as contas do Tesouro no primeiro semestre e o jogo deve continuar. Além disso, o governo espera recolher uns R$ 18 bilhões de pagamentos do novo Refis, o refinanciamento de dívidas tributárias, e mais algum dinheiro de bônus de concessões.

Pressionada para aumentar os dividendos pagos ao Tesouro, a Caixa foi mobilizada também para o socorro às distribuidoras de energia. Determinada há mais de um ano pela presidente Dilma Rousseff, a diminuição das tarifas de eletricidade prejudicou as companhias do setor. Danosa mesmo em circunstâncias normais, essa política foi especialmente custosa porque as empresas tiveram de comprar eletricidade - mais cara - de centrais térmicas. A redução das contas de luz foi duplamente errada: distorceu os preços e estimulou o consumo em fase de restrição de oferta.

A Caixa deve participar com R$ 750 milhões do novo financiamento, de R$ 6,5 bilhões, articulado pelo governo. Um empréstimo de R$ 11,2 bilhões mobilizado em abril já se esgotou e o novo será mais caro. Populismo, voluntarismo e incompetência têm custos altos.