segunda-feira, agosto 25, 2014

Um Pinóquio de saias no Planalto

Adelson Elias Vasconcellos


Regra geral, campanha eleitoral no Brasil costuma entupir os ouvidos dos eleitores de besteiras, mentiras, falsas promessas e, claro, abuso do poder político e econômico com compra de votos. 

Porém, o PT e, principalmente Dilma Rousseff, tem levado  o costume ao teto máximo da falta de decoro. Nesta campanha mesmo, a senhora Rousseff viaja como presidente alegando “fiscalizar obras” mas,  ao mesmo tempo, com a maior hipocrisia e cinismo do mundo,  não se furta de exibir as imagens da “viagem” em seu horário eleitoral, e isto sob os auspícios do Tribunal Superior Eleitoral. Assim, com dinheiro público, acaba financiando sua própria campanha. Depois, um dia antes de determinada visita a uma cidade como presidente, uma ONG laranja, destas picaretas que só servem para abocanhar dinheiro do contribuinte e não prestar serviço algum,  faz a doação de uma prótese dentária e um fogão a lenha novo para uma senhora que, por coincidência, foi entrevistada na campanha eleitoral da mesma presidente. Mais tarde, a gente fica sabendo o resto da história antes contada pela metade: os “presentinhos” foram dados a pedido da própria presidência. Claro, o TSE não vai perder tempo com tais pequenos desvios, afinal, trata-se de “doação” de uma petista. 

Mas, dentre as  pérolas máximas da senhora presidente , está o seu discurso desta sexta-feira. Dali a gente tira a exata medida de sua mediocridade, de sua falta de tirocínio, sem falar no atropelo à inteligência entre o que pensa que fala e as palavras que conseguem pronunciar. Há um choque congênito entre pensamento e fala de difícil digestão. São como duas linhas paralelas, que só se encontram no infinito. No caso de Dilma, talvez nem no infinito.  

Rousseff esteve em Porto Alegre, aí sim para uma ação típica de campanha. No meio dos seus, não se furtou a falar sem pensar. Lá pelas tantas prometeu mudar o que não está bom. Esqueceu de dizer à plateia presente o que não está bom. Claro que a sociedade brasileira sabe o que não está bom e porque não está bom. Tudo está ruim e medíocre porque o país está sendo mal governado. 

Seguindo, fez uma das afirmações mais absurdas de quantas iremos ouvir nesta campanha e nas próximas. Afirmou, para espanto geral, que “reduzir inflação implica cortar gastos sociais”. Como que é, madame?  Desde quando?  O Brasil gasta parcela ínfima com programas sociais em percentuais do PIB  desde antes do PT chegar ao poder e, ao que se saiba, gastos sociais, em tempo algum e nenhum lugar do planeta, são ou foram motivos geradores de inflação. Aliás, começo a duvidar da seriedade do tal diploma de economia que dizem Dilma ter conquistado em  Minas Gerais. Em que cadeira ou disciplina lhe ensinaram tamanha barbaridade? 

Para a inflação existir há que se ter de duas, ao menos uma das seguintes causas: descontrole dos gastos públicos, gerando múltiplos déficits orçamentários, obrigando o poder público a gerar moeda e provocar inflação. A outra, é consumo aquecido  em tempos de crise de oferta, isto é, quando não se produz o o suficiente para atender o mercado interno. E, vejam só que lindo!, no governo Dilma encontramos justamente as duas vertentes. Aliás, já que Dilma adora endeusar seu padrinho, poderia fazer uma retrospectiva do governo Lula, nos dois mandatos, e nos apontar em que momento, mesmo com elevação dos gastos sociais,  a inflação fugiu ao controle, e se manteve teimosamente em alta, batendo no teto da meta?  Juntar mentira com burrice demonstra a má fé de uma fala desencontrada.

 Mais adiante, não satisfeita com os impropérios, era de se esperar que atacasse os governos FHC, obsessão doentia dos petistas. E aí, Rousseff se saiu com esta belezura de desqualificação; chamou os adversários de “arrochadores de salários” e de “desempregadores”.

Bem, desemprego está acontecendo agora mesmo em seu governo, não é assim, senhora Rousseff? Pergunte à CNI quantos milhares de empregos foram fechados na indústria nos últimos dois anos e meio, apesar do Bolsa BNDES e incentivos especialíssimos para os amigos do reino e franco financiadores do caixinha do partido. Foi preciso mandar a estafeta Gleisi Hoffmann ao IBGE, para criar uma profunda crise na instituição, com o intuito de suspender  uma nova metodologia de  pesquisa que apontaria o real desemprego do país, bem acima da fórmula antiga de medir apenas meia dúzia de capitais.

Arrochadores de salários? Não seja cafajeste, presidente, isto pega mal. Vamos aos fatos: quem começou a aplicar aumentos reais no salário mínimo não foi Lula, foi FHC, basta que a presidente tenha decência de consultar o próprio IBGE para tomar conhecimento deste fato. Depois, quando Lula assumiu em janeiro de 2003, a isenção do imposto de renda na fonte ia até cinco salários mínimos. Hoje, esta isenção sequer chega a dois salários mínimos e meio. Então, quem arrocha mais salários no país, senhora Dilma Rousseff, tenha a decência de admitir, são os governos de Lula e o seu, porque também em seu período este arrocho via tributação na fonte continuou intenso. 

É doloroso para uma pessoa, já passada dos 60 anos, sendo avó, governando um país do porte do Brasil, valer-se da mentira, da manipulação, da desinformação, da falsidade, da mistificação para tentar se manter no poder.

Aliás, ainda no capítulo arrochadores, deve-se acrescentar o seguinte: não fosse este um dos piores governos da história brasileira em termos de crescimento e, muito provavelmente, os salários médios dos trabalhadores teriam aumentado bem mais do que o nível atual em que se encontram. Isto também é arrocho, é compressão, é empobrecimento da massa trabalhadora, que ainda precisa suportam um governo nadando numa farra de gastos de pura ostentação e desperdício, base em que reside  boa parte da inflação que comprime salários, rouba a capacidade de compra da população,e dos pobres principalmente. Inflação, senhora Dilma, aprenda de uma vez por todas, é o pior dos impostos. 

Além disto tudo, com doze anos no poder, sinceramente, senhora presidente, termos a educação, a saúde, a segurança, o saneamento, a infraestrutura no estado miserável em que se encontram, conjugado com um crescimento vergonhoso, é prova de que, de fato,em certo ponto, sua promessa até faz sentido. É preciso  mudar o que não está bom. Então, mude-se a presidência de mãos, por ser a atual a agente principal do baixo crescimento, dos maus serviços e da inflação e juros altos.

E faça um favor a si mesmo: aproveite o resto de mandato que lhe resta para voltar a falar a verdade, senhora Rousseff: não  enxovalhe ainda mais sua biografia, pois já nos basta seu governo medíocre a nos roubar qualidade de vida, possibilidade crescimento e estabilidade econômica, social e institucional.  Chega de tanto governo obtuso. Dilma não pode continuar transformando o Brasil numa imensa Venezuela e Argentina. É bom o povo brasileiro, principalmente aqueles que votarão em outubro, olharem para os nossos vizinhos: estamos seguindo os mesmo passos. E só não chegamos lá ainda porquanto algumas instituições ainda conseguem resistir a ruptura, parte do jornalismo, que é independente e não de oposição como apregoa Lula e seus asseclas, conseguem informar a porcalhada que está em curso e porque, também, somos infinitamente mais ricos que Venezuela e Argentina. Mas se nada for feito para impedir o retrocesso, mantendo no poder o mesmo pensamento e personagens, logo os alcançaremos.  Chorar depois não vai valer de nada.   

Saúde: a grande farsa que Dilma conta na campanha
Deixo ao leitor a reprodução deste trecho da reportagem da Folha de São Paulo que reproduzimos nesta edição. Aliás, esta história de que os governos petistas destinam mais verbas para isto e aquilo é pura fantasia. A diferença é que o volume de recursos em impostos que os governos petistas arrecadam agora, são bem maiores e grças a estabilidade econômica com que receberam o país.  Daí... Mas sobre este tema há outras coisas sobre as quais retornaremos em outro texto.

A seguir, a prova da farsa sobre o investimento em  saúde da Folha de São Paulo.

(...)
Alardeado pela propaganda eleitoral da presidente Dilma Rousseff, o aumento das verbas para a saúde nos últimos anos decorre não de uma iniciativa petista, mas de uma regra criada no governo Fernando Henrique Cardoso.

"Em 2002, o orçamento da saúde era de R$ 24 bilhões; agora, é de R$ 91 bilhões, um aumento de 97,7% acima da inflação no período", informa o programa de rádio da presidente-candidata.

Apontada nas pesquisas como maior preocupação e motivo de insatisfação dos eleitores, a saúde foi menos priorizada pela administração petista que outras áreas sociais.

A ampliação orçamentária mencionada no programa é mero efeito de uma emenda à Constituição aprovada em 2000, segundo a qual os recursos federais destinados à saúde devem ser corrigidos anualmente conforme a variação do PIB (Produto Interno Bruto), medida da renda nacional.

Os gastos federais no setor em 2002 equivaliam a 1,7% do PIB, o mesmíssimo percentual de hoje.
(...)

Chegamos ao fundo ou ainda há poço?

Rolf Kuntz  
O Estado de S. Paulo

Chegamos ao fundo do poço. Essa foi a declaração mais otimista de uma autoridade econômica na última semana. De agora em diante a criação de empregos vai melhorar, prometeu o entusiasmado ministro do Trabalho, Manoel Dias, depois de anunciar a contratação formal, em julho, de 11.796 pessoas. Esse número, 71,55% menor que o de um ano antes, foi o mais baixo para um mês de julho nos últimos 15 anos. O mensageiro da pior notícia no dia seguinte, sexta-feira, foi o secretário adjunto da Receita Federal, Luiz Fernando Teixeira Nunes. No mês passado, o governo federal arrecadou R$ 98,82 bilhões, 1,6% menos que em julho de 2013, descontada a inflação. A arrecadação de sete meses, R$ 677,41 bilhões, foi apenas 0,01% maior que a de janeiro-julho do ano passado, em termos reais. Fundo do poço?

O secretário adjunto preferiu evitar novas projeções. Mas deu uma pista: o crescimento real da receita, neste ano, dificilmente chegará aos 2% previstos no mês passado. Antes dessa, a expansão estimada era de 3%. Com a arrecadação cada vez mais longe da meta, dia a dia fica mais improvável o resultado fiscal prometido para o ano: superávit de R$ 80,7 bilhões nas contas do governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) e de R$ 99 bilhões no balanço geral do setor público. Enquanto isso, o Executivo federal vai recorrendo a truques para enfeitar sua contabilidade pelo menos no curto prazo. O novo truque, segundo o noticiário dos últimos dias, é atrasar o repasse de dinheiro à Caixa e ao Banco do Brasil, agentes financeiros de vários programas federais.

O Banco Central (BC) descobriu a jogada e pediu explicações. A Caixa recorreu à Advocacia-Geral da União para mediar o conflito com o Tesouro. A confusão tornou-se mais evidente quando o problema com o Banco do Brasil se tornou público. A história pode envolver mais que uma nova tentativa de tornar as contas públicas menos feias, por alguns meses, por meio do atraso de repasses. Na prática, os dois bancos obviamente financiaram o Tesouro, porque realizaram pagamentos antes de receber o dinheiro. Saber se é possível classificar essas operações como financiamentos, formalmente, é outra história. Se a caracterização for possível, terá sido violada a Lei de Responsabilidade Fiscal. Essa lei proíbe o banco público de financiar o Tesouro.

De toda forma, o governo continua apostando em receitas extraordinárias para ajeitar seu balanço. Se der tudo certo, as contas ainda serão reforçadas, neste ano, por dividendos, bônus de concessões de infraestrutura e pagamentos de obrigações tributárias em atraso. A reabertura do Refis, o programa de refinanciamento, deve proporcionar uma arrecadação adicional de até R$ 18 bilhões, segundo as projeções do Tesouro. No caso dos dividendos, a situação da Caixa é um tanto complicada. O governo exige sua participação em novo socorro financeiro às distribuidoras de eletricidade e, ao mesmo tempo, cobra dividendos maiores que os combinados há algum tempo. A pressão se completa, como se descobriu recentemente, com o atraso de repasses de dinheiro para programas sociais.

A bagunça na administração do dinheiro público é talvez a parte mais pitoresca da história. Mas a narrativa só se completa com a inclusão dos erros de política econômica. Uma tabela da Receita Federal discrimina a evolução real dos valores arrecadados de dez grande setores - entidades financeiras, indústria automobilística, empresas de telecomunicações, mineradoras de metais, fabricantes de químicos, produtores de máquinas e equipamentos, metalúrgicas, comércio e reparação de veículos e motocicletas, fabricantes de materiais e aparelhos elétricos e fabricantes de produtos de borracha e de plástico. Entre janeiro e julho, a arrecadação obtida em todos esses setores foi menor que a de um ano antes. A redução média foi 11%. Outros segmentos proporcionaram um ganho de 4,05%. O resultado total foi uma queda de 1,09%.

O fiasco da arrecadação é explicável por dois fatores principais, a estagnação da maior parte das atividades e a insistência do governo em manter desonerações de impostos para setores selecionados. O fracasso dessa política seletiva e da ênfase no consumo é comprovado, de novo, pelo mau desempenho da indústria e pela redução do emprego industrial. Segundo o Ministério do Trabalho, a indústria de transformação fechou 15.392 postos em julho (diferença entre contratações e demissões).

Os efeitos dessa política aparecem também na balança comercial. De janeiro a julho, a receita obtida com a exportação de manufaturados foi 8,5% menor que a de um ano antes, pela média dos dias úteis. Essas vendas proporcionaram nesse período 34,5% da receita do comércio externo. Um ano antes, essa parcela havia correspondido a 37,5%. De janeiro a dezembro de 2013 a participação chegou a 38,44%. Em 2007 ainda estava em 52,25%. A queda muito sensível nos anos seguintes mostra principalmente a perda do poder de competição da indústria brasileira. O câmbio explica uma parte do problema. A causa principal é mesmo a perda geral de eficiência da economia brasileira e, de modo especial, da indústria de transformação.

A soma dos investimentos do setor privado e do setor público nunca bateu em 20% do produto interno bruto (PIB) desde a virada do milênio e essa proporção caiu seguidamente nos últimos quatro anos. A impropriamente chamada política industrial nunca foi muito além, nos últimos anos, de uma pobre combinação de protecionismo comercial com favores especiais a setores e grupos selecionados. Além de muito custosa e contraproducente, essa política foi executada sempre com base em critérios pouco claros.

Talvez o País tenha chegado ao fundo do poço. Talvez ainda haja alguma descida. De toda forma, a economia estará em mau estado quando começar o novo mandato presidencial. Segundo vários analistas, qualquer presidente eleito terá de iniciar sérios ajustes em 2015. Mas essa avaliação pode ser otimista. Nesse caso, haja poço.

Deus não joga dados

Fernando Gabeira
O Globo

Costumo deixar um espaço para o imprevisível, mas nos últimos tempos ele tem exagerado

“Deus não joga dados”, disse Einstein. Roleta-russa, quem sabe? Einsten falava de mecânica russa, da previsibilidade da posição das partículas num determinado momento no espaço. Deus não joga dados quando se trata da previsibilidade da morte humana. Mas quando, onde e como é o jogo que resta. Esses termos permitem milhares de combinações e nos jogam num gigantesco cassino.

Numa semana marcada pelo luto no Brasil não pude deixar de refletir sobre a morte no interior de Santa Catarina, de onde acompanhei o funeral de Eduardo Campos.

Lembrei-me do livro de Jacques Derrida: “Cada vez único, o fim do mundo”. É um conjunto de discursos fúnebres pranteando amigos onde de uma certa maneira condena o discurso da morte do outro que procura extrair dela um beneficio, tirar dela uma força suplementar contra os vivos.

É possível falar da morte para além dos interesses políticos ou do espetáculo? Da morte apenas, desse gigantesco enigma que cada um carrega dentro de si: quando será o fim do mundo dessa totalidade singular, logo insubstituível?

Num dos mais belos livros dos anos 1950, “A morte e a morte de Quintas Berro D’Água”, Jorge Amado me deu a primeira lição de triunfo sobre a morte. É a historia de um funcionário público transformado em boêmio e que deixa seu próprio funeral com os malandros e putas para uma bebedeira no mercado. Quincas Berro D’Água morre, finalmente, numa tempestade no mar.

Mais tarde compreendi melhor esse texto lendo um comentário de Octavio Paz: “A poesia é a maneira de triunfar sobre a morte”.

Jorge Amado quis dizer isso com a bebedeira de Quincas Berro D’Água. Aquele porre com amigos, no mundo que Quincas amava, tinha o valor etéreo de um poema, de um triunfo sobre a morte.

Um dos temas que mais me fizeram refletir nesses dias foi a imprevisibilidade na vida humana e como isso abalava inclusive parte do meu trabalho na CBN.

Refiro-me à previsão dos principais fatos da semana. Costumo sempre deixar um espaço para o imprevisível, mas, nos últimos tempos, ele tem exagerado.

No dia do funeral de Eduardo Campos, em Ipanema, um assaltante entrou na igreja e fez refém o padre que rezava a missa.

Tudo isso me faz cada mais humilde nas previsões, tanto na política como na sociedade, ambas altamente influenciadas pelo destino das pessoas e de seu encontro marcado com a morte, sem data, hora e lugar.

A política, com suas certezas, nos convida para jogadas vitoriosas, o espetáculo nos diverte durante a tragédia.

Creio que talvez Drummond tenha tocado nesse tema com o verso: “Quem reconhece o drama quando se precipita sem máscara?”

As máscaras nos protegem da imprevisibilidade. Nelson Rodrigues tentou capturá-la de forma mágica, criando o Sobrenatural de Almeida. É uma descoberta, pois adicionou ao sobrenatural um sobrenome do nosso cotidiano. O sobrenatural é familiar como um vizinho com quem tomamos uma cerveja no botequim.

No entanto, é o sobrenatural.

A formulação de Nelson Rodrigues acaba iluminando a frase de Einstein: “Deus não joga dados”. O sobrenatural é algo inexplicável; o reino da natureza, o universo se explica com o intenso e inspirado trabalho da ciência.

O problema é que nosso destino, a política, a vida social não se regem pelas leis da mecânica quântica. Isto não significa que reneguemos a paixão de entender.

No momento, a crise racial nos Estados Unidos revela a fragilidade de muitas previsões otimistas, quando o pais elegeu um presidente negro.

O caldeirão continuava fermentando, e agora vemos como as previsões eram otimistas e continuamos a confundir a realidade com nossos desejos.

A imprevisibilidade se estende também ao momento que vive o Brasil. O que acontecerá nas eleições, que país sairá das urnas que energia podem gerar para resolvermos os grandes problemas nacionais?

Ironicamente, no momento em que vivemos nesse país imprevisível, um brasileiro conquista o maior prêmio internacional de matemática. Somos um país dos extremos: o matemático Artur Ávila e o Sobrenatural de Almeida nasceram em nossa terra. De uma certa forma, é possível aproveitar o legado dos dois: o respeito aos números e aos fatos, o empenho em explicar o que pode ser explicado, mas abrindo em nossas certezas o espaço para o imprevisível.

Sabemos que diante do rigor da matemática a vida aqui embaixo é impura, contraditória e absurda. É nela que estamos mergulhados. E é assim que ela aparece nos grandes romances, nas tragédias, nas peças teatrais em que saímos com vontade de ligar para os entes queridos.

Na semana do funeral, tempo chuvoso e frio nos arrozais de Santa Catarina, onde trabalhei. Ao voltar às ruas do Rio, as pessoas me perguntam: “E agora?”. “Agora não, daqui a pouco”, respondo. “Agora ainda não acabou”.

Os princípios, os fins, os meios.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Princípios? Deixa pra lá. Beto Albuquerque, ligado ao agronegócio, é vice de Marina, que prefere a floresta como ela é. E ambos estão no Partido Socialista de Paulo Bornhausen, da mais tradicional oligarquia catarinense, para quem até há pouco a palavra "socialista" era usada apenas como xingamento. Dilma, que considera Fidel Castro um personagem quase tão importante quanto Lula, que foi presa e torturada pela ditadura, está aliada a José Sarney, que foi presidente do partido de apoio à ditadura e que só tem em comum com Fidel Castro a predileção por um tipo de roupa - a farda, até há algum tempo, para um; o fardão, até hoje, para outro. Aécio, o pragmático, que herdou do avô Tancredo a aversão às ideologias, tem na vice um ex-guerrilheiro comunista, ligado a seu adversário Serra - de quem agora gosta, mas preferiria bem-passado e com maçã na boca.

Há três bons motivos pelos quais os candidatos esquecem seus princípios: primeiro, porque nunca foram assim tão radicais; segundo, porque os fins a que se propõem (defesa do bem e combate ao mal, apoio à saúde e rejeição à doença, e outras platitudes) são tão importantes para o país que os princípios, tadinhos, têm de ser flexibilizados. O terceiro motivo é o mais importante: para fazer campanha à vontade, gastando o que for preciso, é necessário obter os meios. Pela abundância de meios, políticos fazem boi voar e passarinho devorar o gato. Para eles, fora do poder não há salvação (embora sempre dêem um jeito de salvar-se). 

Para nós, cidadãos, estando eles dentro ou fora do poder, salvação não haverá. 

Termômetro
O boato é de que o acompanhamento diário pelos partidos da tendência dos eleitores (tracking) coloca Marina à frente de Aécio no primeiro turno e de Dilma no segundo. Já no início desta semana sai a pesquisa Ibope, que mostrará como estão as coisas. 

Mas um fato não pode ser esquecido: Romero Jucá, que foi líder de Fernando Henrique e líder de Lula, senador cuja maior virtude é jamais pular em piscina vazia, apoia Aécio. Isso deve querer dizer alguma coisa.

A aposta
Paulo Maluf apostou com o empresário Washington Cinel uma caixa de vinho francês, daqueles de preço estratosférico, na vitória de Dilma no primeiro turno.

Cozinheira experienta
Dilma cozinha no horário gratuito. Dizem que assa uma pizza como ninguém.

Tristeza compartilhada
Não, caro leitor, nós não somos as únicas vítimas do horário eleitoral gratuito. As emissoras de TV aberta, embora muito bem remuneradas pelo tempo desperdiçado, terão um trabalhão para recuperar a audiência que estão perdendo para os canais pagos, livres da obrigação de transmitir a chatice. De acordo com o Ibope, a TV paga dobrou de audiência nos primeiros dias. Somados, os canais a cabo quase igualaram os números da Rede Globo. E esta é uma das fases de melhor desempenho do horário gratuito, o início, quando o público toma conhecimento dos candidatos (a outra é no final, já pertinho das eleições). Entre uma e outra, há uma barrigade audiência, em que aumenta o desinteresse do público. 

Literatura eduardiana
Da ótima coluna de Fernando Albrecht, do Jornal do Comércio e da Bandeirantes de Porto Alegre (www.fernandoalbrecht.com.br), sobre Eduardo Campos: "Os últimos acontecimentos fizeram com que eu revolvesse da minha memória citações de dois ilustres personagens. Uma é de Augusto Comte, o filósofo que criou o Positivismo: ‘os vivos são cada vez mais e necessariamente governados pelos mortos’. Já o nosso Barão de Itararé tinha uma variante: ‘Os vivos são governados cada vez mais e necessariamente pelos mais vivos’. Não há - houve - exemplo melhor para mostrar a hipocrisia não só de dirigentes partidários como também de políticos de todos os níveis e tendências que só sabiam falar mal de Eduardo Campos quando vivo e que agora o colocam no panteão dos heróis. Não tem frase que se encaixe melhor do que esta do Machado de Assis para definir o espírito dos muito vivos: ‘Está morto: podemos elogiá-lo à vontade’".

Lava mais branco
Antes da realização da concorrência para limpeza de escolas municipais paulistanas, o jornal O Estado de S.Paulo revelou que os vencedores já estavam escolhidos, registrou a lista em cartório e enviou-a ao Ministério Público. A concorrência foi cancelada. E que é que aconteceu? 

Vamos ver se o caro leitor conhece o Brasil: as empresas foram contratadas do mesmo jeito, emergencialmente, pelo prefeito petista Fernando Haddad, e vão trabalhar normalmente até que se realize nova licitação - que, espera-se, será decidida só depois de comparados os preços. Não é um belo prêmio para empresas suspeitas de formação de cartel?

Boa promessa
O senador Cyro Miranda (PSDB-Goiás), enviou esclarecimento ao jornalista Paulo Renato Coelho Neto, da revista virtual Top Vitrine (www.topvitrine.com.br), de Campo Grande, negando que esteja em estudos uma reforma radical do Português escrito. Segundo o senador, presidente da Comissão de Educação e Cultura, o trabalho é apenas de unificação ortográfica, conforme acordo de 1990 com Portugal. Ainda bem! 

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

A revolução do Bem

Percival Puggina 
Zero Hora

 Há poucos dias, o Datafolha divulgou pesquisa sobre o grau de confiança da sociedade em suas instituições. No topo, apesar do sistemático empenho de alguns jornalistas, partidos políticos e seus militantes em desacreditá-las, estão as Forças Armadas. No pé da lista, os partidos políticos. O processo eleitoral em curso, portanto, se trava entre instituições cujas atividades são exercidas num ambiente de desconfiança generalizada. Também, pudera! A toda hora, as instituições de Estado se revelam lesivas ao interesse público. Os eleitos, feitas as devidas exceções, dão sinais de crer que seus mandatos constituem uma espécie de patrimônio pessoal, a ser usada comercialmente. Rotos e descozidos atracam-se em disputas num molde institucional que só agrava os próprios males.

 Não surpreendem, pois, as opiniões emitidas pelos eleitores. Quanto mais aumenta o número de partidos (em nome de uma suposta representatividade das minorias na qual todos resultam minoritários), mais a colheita de lideranças para a elite política nacional perde qualidade. Quando morre alguém com o perfil de Eduardo Campos, vai-se um dentre tão poucos que se abre um rombo no quadro dirigente do país! Por outro lado, nas últimas décadas do século 20, o assassinato de reputações tornou-se um meio de ação política usado sem escrúpulo, com duplo objetivo: o crescimento do partido autor dos disparos e a morte política de seus adversários. Quando entramos no século 21, num país onde todas as legendas eram tradicionais e iguais entre si, o inconsciente coletivo registrava a existência de apenas um partido diferente - probo e virtuoso como almoxarife de convento. Bastou uma década para que esse mesmo partido cometesse suicídio moral. Na degradação do Brasil contemporâneo, Getúlio Vargas dispararia contra o próprio peito uma vez por semana.

 O que mais surpreende nesse contexto é a inércia das elites partidárias. Elas apostam na perenidade do modelo que as acolhe e beneficia. Confiam na imutabilidade de suas perniciosas rotinas. Amam de paixão essa concentração de poder e de recursos fiscais em Brasília. Dane-se a Federação! Danem-se Estados e municípios! Pouco importa que tamanha concentração de poder e grana atraia tantos bandidos!

Nesta eleição, se for preciso, ensine a seu candidato que as melhores democracias confiam as chefias de Estado e de governo a diferentes pessoas. Diga-lhes que militantes partidários nada têm a fazer na Administração Pública, nas estatais, nas relações exteriores. Vote pela liberdade, pela vida, pelos valores com V maiúsculo. Vote pela revolução do bem.

O ‘faço porque posso’ de Graça Foster

Elio Gaspari
O Globo

Quem segue a desenvoltura do comissariado petista convive com notícias chocantes

Quem acompanha a desenvoltura do comissariado petista habituou-se a conviver com notícias chocantes. Assessor de deputado com dólares na cueca ou o vice-presidente da Câmara voando no jatinho de um doleiro. Ainda assim, pode (se quiser) atribuir esses malfeitos às deficiências do gênero humano. Aí, aparecem os repórteres Vinicius Sassine, Eduardo Bresciani e Demétrio Weber e informam:

Entre março e abril, a presidente da Petrobras, Graça Foster, doou a seus dois filhos um apartamento no Rio Comprido, outro em Búzios e uma casa na Ilha do Governador. (A mesma generosidade bafejou Nestor Cerveró, diretor da Petrobras, levando-o a doar aos filhos e a um neto dois apartamentos no Leblon e outro em Ipanema.)

Desde 2012 o Tribunal de Contas da União investigava a encrenca da Petrobras na compra da refinaria de Pasadena, que poderia resultar no bloqueio de bens do petrocomissariado. Ele efetivamente ocorreu, meses depois das doações. Na quarta-feira, quando o TCU decidia se deveria bloquear também o patrimônio de Graça Foster, veio a informação da transferência dos bens. “É grave, porque é como se fosse uma tentativa de burlar o caso”, disse o ministro José Jorge, relator do processo no Tribunal.

Faz sentido que Cerveró tenha decidido fazer as doações, afastando a mão da Viúva caso ela queira de volta o que perdeu em Pasadena. Ele participou da operação. Graça Foster, não. Ademais, carrega uma tiara de benignidade. Entrou na Petrobras como estagiária, foi a primeira mulher a sentar-se na sua diretoria, chamaram-na de “clone da Dilma” e “Dama de Ferro”. Admitindo-se que os imóveis transferidos sejam medida de seu patrimônio, depois de 36 anos de trabalho, a engenheira Foster chegou à presidência de uma das maiores empresas do mundo com a mixaria de dois apartamentos e uma casa de praia. Qualquer lasca de contrato de uma plataforma rende mais que isso.

Pela cronologia, a doação de Graça Foster comprometeu sua biografia. O fato de ter feito algo parecido com o que fez Cerveró, juntou-a a ele, quando as tramas de Pasadena dissociavam-na.

Foram ações temerárias, produto do “faço porque posso”, sentimento que se infiltra nos poderosos, levando-os a acreditar em coisas que não fazem sentido e a correr riscos que a razão aconselha evitar. Quando Graça Foster assumiu a presidência da Petrobras viu-se festejada pela competência e também pela origem. Teria crescido numa favela do Complexo do Alemão. Nos anos 50, sua família vivia na Penha, um bairro de classe média. Nas décadas seguintes, onde algumas franjas degradaram-se com a expansão do que se conhecia apenas como “favela do Alemão”. A “favelada” pagara seu material escolar catando papéis e latas de alumínio. Nessa época, era comum que crianças vendessem a quilo jornais velhos da família ou mesmo de vizinhos. Quanto às latas de alumínio, não existiam. Graça mudou-se para a Ilha do Governador em 1965, quando tinha 12 anos.

A petista favelada e catadora de papel na presidência da Petrobras era uma alegoria-companheira. Ninguém está livre da falácia das narrativas, mas elas podem ser contidas. Dilma Rousseff poderia ter contido a história segundo a qual era doutora pela Unicamp. O general americano Colin Powell, que chegou a secretário de Estado, era filho de imigrantes jamaicanos e crescera no Bronx. Construiu-se a falácia do menino negro saído de uma comunidade violenta e degradada. Powell fez questão de dizer que na medida em que ascendia a posições de relevo, sua origem tornava-se cada vez mais humilde e o Bronx, mais miserável. Ao seu tempo, era apenas um bairro de classe média baixa de Nova York.

O ‘faço porque posso’ do magnífico reitor
Entre abril de 2010 e fevereiro de 2011, Ricardo Vieiralves, reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, manteve em seu gabinete Pedro Paulo Souza e Silva e Nilcea Pereira da Silva, funcionários da Câmara dos Vereadores e filhos da deputada Benedita da Silva. Deu bolo. Desde maio, os três são réus junto à 1ª Vara da Fazenda Pública. Ouvidos pelo Ministério Público, não explicaram de forma convincente as funções que desempenharam na Uerj.

O repórter Cássio Bruno publicou duas reportagens sobre o caso. Buscou a voz da reitoria em pelo menos cinco ocasiões por telefone ou e-mails. Nunca teve resposta.

Na semana passada, Vieiralves encaminhou uma mensagem aos seus “caros amigos” tratando do assunto. Nela, em 539 palavras, dedica apenas 65 ao caso, reiterando que os dois servidores “cumpriram suas tarefas junto a uma comunidade popular da Zona Sul do Rio”. A ver. O MP duvida, e a Justiça decidirá. Em seguida, lembra que a Uerj não gastou “nenhuma espécie de pecúnia”. Certo. Eles receberam R$ 140 mil da Câmara de Vereadores, uma subsidiária da Viúva que sustenta a Uerj.

O magnífico reitor gastou a maior parte de seu texto condenando o Ministério Público, que move oito processos contra a Uerj, alguns deles meio girafas.

Petromemória
Apesar de ter anunciado que pretende colaborar com as investigações em torno das petrorroubalheiras, o comissário Paulo Roberto Costa ainda não mostrou que fala sério.

Preso em março, o ex-diretor da Petrobras não sabe até onde as investigações já chegaram. Oferecendo pão dormido, atrapalha-se.

Perigo À vista
Desde o início do mês a doutora Dilma tem à sua disposição o preenchimento da vaga do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal. Não lhe fará bem preenchê-la em plena campanha eleitoral e será desastroso fazê-lo antes do resultado da eleição. Vitoriosa, poderá nomear quem quiser.

Esperar será duro, pois há muitos sedentos em torno do pote.

Dilma e Dali
De uma víbora incapaz de ferver água numa panela, ao ver a doutora Dilma fazendo uma macarronada:

“Essa cena lembra o que o pintor Salvador Dalí, um militante elitista, disse de Pablo Picasso:

— Picasso é espanhol, eu também. Picasso é um grande artista, eu também. Picasso é comunista, eu também”.

Medo tucano
O tucanato teme uma mudança no humor do governador Geraldo Alckmin.

Ele tem 55% das preferências em São Paulo. Uma pesquisa de julho informava que Aécio Neves estava empatado com Dilma Rousseff, com 25%.

Aécio Neves sabe o gosto amargo desses humores. Em 2006 foi beneficiado pelo voto “Lulécio”.

Bruxaria
O PSB conseguiu transformar Marina Silva num problema. Resta saber se vão insistir na bruxaria.

Dobradinha de ideias

Revista ISTOÉ

O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, é hoje o político que possui mais afinidades de programas e convicções com o socialista Eduardo Campos, não Marina Silva

Não tivesse Eduardo Campos sido tragado pela circunstância trágica e fatal, ele já havia decidido quem apoiar no segundo turno, caso ficasse de fora da corrida presidencial. A interlocutores, Campos havia revelado que declararia voto em Aécio Neves (PSDB), numa eventual derradeira disputa contra Dilma Rousseff (PT). Quem testemunhou o relato do então candidato socialista não se espantou. Desde o ano passado, quando a pré-campanha ainda engatinhava, Campos e Aécio demonstravam estar afinados nos objetivos e nas convicções Além do desejo de apear o PT do poder, o tucano e o socialista convergiam nas críticas ao governo e no receituário para tirar o País da crise. 

JOGAVAM JUNTOS
Aécio e Eduardo Campos, além do desejo de apear o PT do poder,
convergiam nas críticas ao governo e no receituário para tirar o País da crise

Ambos batiam forte no aparelhamento e no tamanho exagerado do Estado, marcas registradas da gestão petista, e teciam contundentes reparos à condução da política econômica, notadamente o baixo crescimento aliado à inflação alta e o investimento insuficiente com altos gastos correntes. Atribuíam isso à falta de disciplina macroeconômica do governo Dilma e à constante intervenção estatal na chamada microeconomia (preços da gasolina e eletricidade controlados, crédito subsidiado dos bancos controlados pelo Estado). No rol de promessas de cada um, nova sintonia: ambos planejavam aumentar a independência do Banco Central, simplificar o complicado sistema tributário brasileiro, reduzir o número de ministérios e estimular o investimento da iniciativa privada na precária infraestrutura do País.


Antes de morrer, Eduardo Campos já tinha decidido apoiar Aécio Neves
no segundo turno das eleições, caso ele ficasse fora da disputa presidencial

A harmonia cada vez mais evidente levou os dois a se encontrarem frente a frente pela primeira vez, desde que Campos havia anunciado o rompimento com o governo e a oficialização de sua candidatura ao Planalto, no dia 8 de dezembro de 2013. O palco do encontro foi o restaurante Gero, em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro. Na reunião, de mais de duas horas de duração, celebraram um acordo tácito. O pacto entre eles rezava que um não se voltaria contra o outro. Mais adiante, em meio à festa de debutante da filha do ex-diretor da Caixa Geddel Vieira Lima, em Salvador, Bahia, Campos e Aécio não só reforçaram o acerto como aperfeiçoaram o que havia sido combinado inicialmente. A partir dali, atuariam no mesmo compasso no que diria respeito ao tom dos ataques ao governo. Também se comprometeram a conversar no mínimo uma vez por semana, nem que o bate-papo, quando necessário, fosse realizado via mensagens de celular. O acerto fez com que os dois emitissem, semanas depois, declarações muito parecidas sobre a gestão da petista. “O Brasil não aguenta mais quatro anos de Dilma”, afirmou Campos. “O sentimento geral dos brasileiros é um só: já deu de governo Dilma”, fez coro Aécio. Os ataques a Petrobras também guardaram semelhanças: “A grande verdade é que o PT nos acusou durante décadas de querer privatizar à Petrobras. Quem privatizou foi o PT, levando a empresa a ter um prejuízo de R$ 200 bilhões”, disse Aécio. “Em 2010, a presidenta acusou o candidato com o qual disputava a eleição (José Serra) de querer privatizar a Petrobras. Três anos depois, a estatal vale a metade do que valia”, disparou Campos.

A dobradinha de ideias entre Aécio e Campos pôde ser facilmente identificada por quem acompanhou as reuniões dos candidatos com produtores rurais, industriais e empresários, como a 13ª edição do Fórum Empresarial realizada no resort da Ilha de Comandatuba, em maio deste ano. No evento, demonstraram proximidade nas propostas e até posaram para fotos segurando juntos a bandeira do Brasil. “Não consigo ver o Eduardo como adversário. Somos companheiros do mesmo sonho, queremos a mesma coisa e não vejo como, a partir de 2015, não estarmos, eu, ele e a Marina, no mesmo projeto de país”, afirmou Aécio na ocasião. Eduardo aquiesceu.


Não poderia ser diferente. Amigos há mais de dez anos, os dois não viram seus caminhos se cruzarem apenas na atual campanha. Cultivavam afinidades eletivas. Donos de trajetórias políticas semelhantes, herdaram de seus avôs maternos – Tancredo Neves e Miguel Arraes – um legado político e eram protagonistas de um mesmo projeto de poder.

Para figurarem como uma das principais lideranças políticas do País, Aécio e Campos trilharam caminhos parecidos, embora egressos de agremiações partidárias distintas. Tanto o tucano como o socialista se formaram em economia e passaram pelo Congresso antes de assumir o governo de seus respectivos estados. Tinham como vitrine política os bons mandatos que desempenharam em Minas Gerais e Pernambuco. Aécio tirou Minas de uma crise financeira através de sua política conhecida como Choque de Gestão. Já Eduardo Campos tinha conseguido implantar várias políticas desenvolvimentistas em Pernambuco. Portanto, uma realidade insofismável se impõe: no campo das afinidades político-ideológicas, Campos era muito mais próximo de Aécio do que de Marina Silva, hoje herdeira política do candidato morto.



Fotos: George Giann; Divugação, Gustavo Rampini; Roberto Pereira; Marcos Pinto 

Versão "Ana Maria Braga" de Dilma não convence, sugere FT

Talita Abrantes
Exame.com
Para Financial Times, PT tenta dar pitada de carisma à imagem de Dilma Rousseff ao apresentá-la como uma "pessoa normal". O problema é que ela parecia desconfortável neste papel

Reprodução/YouTube 
Dilma Rousseff durante estreia na propaganda eleitora na TV

São Paulo – A tentativa da campanha petista para mostrar uma faceta mais comum de Dilma Rousseff virou pauta no jornal britânico Financial Times.

Dos 11 minutos que Dilma tem disponível na TV, pelos menos 40 segundos do programa de estreia no horário eleitoral foram dedicados, na terça, para apresentá-la como uma pessoa comum que “trabalha muito e tenta aproveitar qualquer tempinho que resta para ter uma vida normal”, afirma a narradora.

Em uma das cenas, a candidata que tenta a reeleição aparece cozinhando macarrão enquanto a narradora explica que ela “gosta de cozinhar e tratar do jardim. Cuida da residência oficial com o esmero de qualquer dona de casa”.

Aparentemente, o papel não colou. Segundo o texto "Brasil: Dona de casa para presidente", Dilma parecia desconfortável com a tentativa de servir um espaguete.

A versão “Ana Maria Braga” de Dilma não seria gratuita. “Falta à Dilma o carisma e o toque humano que fez seu antecessor e mentor Luiz Inácio Lula da Silva, tão popular”, afirma o texto. “Qual a melhor maneira de atrair as massas senão mostrando aos brasileiros que ela é como eles (ou como suas esposas)?”.

Quando visitou o programa Mais Você, da Rede Globo, Dilma, no entanto, contou outra história.

Roberto Stuckert Filho/PR 
Dilma Rousseff no programa da Ana Maria Braga em 2011

Quando questionada se já tinha testado a cozinha do Planalto, a presidente então recém-eleita afirmou que não tinha mais tempo.

Antes da eleição, ela contou que gostava de fazer sopas. No fim, a tentativa de omelete de Dilma no programa da Ana Maria Braga rendeu até algumas dicas da apresentadora para a presidente. 

Veja como foi o programa de estreia da candidata do PT à presidência nas Eleições 2014:




Quem decifra Marina?

Claudio Dantas Sequeira e Josie Jerônimo
Revista ISTOÉ

Oficializada como candidata pelo PSB, Marina Silva entra no jogo eleitoral e demonstra fôlego para chegar à Presidência, mas hoje é uma espécie de esfinge política. Repleta de contradições, já provocou baixas em sua própria base de apoio

A PRIMEIRA BAIXA O secretário-geral do PSB, Carlos Siqueira, deixou a campanha depois de se desentender com Marina Silvaft;">Candidata oficial do PSB à Presidência da República desde a quarta-feira 20, Marina Silva vem provocando um reboliço no cenário eleitoral. Pesquisas de opinião indicam que a ex-senadora tem fôlego para superar o desempenho obtido na campanha de 2010 e até chegar a um segundo turno. Tais chances ficarão mais claras quanto maior for o conhecimento do eleitor sobre suas ideias e convicções. É aí que moram os problemas da candidata. Marina é uma personagem ainda enigmática e repleta de contradições – uma espécie de esfinge política. A evangélica fervorosa de aparência frágil esconde uma personalidade forte, geralmente inflexível e com escassa capacidade de articulação política. Essa faceta – combinada a posições radicais e a um comportamento quase messiânico – transforma Marina num enorme ponto de interrogação, praticamente um cheque em branco.


O ENIGMA MARINA
A candidata do PSB cresce nas pesquisas, em meio à comoção nacional
pela morte de Eduardo Campos, mas ainda precisa deixar claro
quais são suas ideias e seus projetos para o País

Até a morte de Eduardo Campos no brutal acidente aéreo três semanas atrás, Marina desfrutava da confortável posição de vice na chapa liderada pelo socialista. Funcionava como cabo eleitoral de luxo, tentando transferir para o colega ao menos parte dos 20 milhões de votos que amealhou há quatro anos. Era coadjuvante. Quem ia para os embates públicos, quem participava das sabatinas de entidades do setor produtivo e precisava responder às incômodas perguntas de jornalistas era Campos. Mas a tragédia que ceifou a vida do ex-governador também arrancou o véu que a protegia. Agora, na condição de protagonista, Marina terá de enfrentar esses dilemas.

Evangélica ligada à Assembleia de Deus, a candidata faz da fé religiosa um hábito político. Seja em reuniões partidárias, seja em discursos ou entrevistas, gosta de citar parábolas da “Bíblia” – e sempre carrega um exemplar no qual faz anotações constantes. Quando era ministra do Meio Ambiente, Marina convidava assessores para participar de pequenos cultos, que aconteciam muitas vezes dentro de seu próprio gabinete. Num Estado laico como o Brasil, religião é questão de foro íntimo. Convém não usá-la para justificar atos de gestão e muito menos a construção de políticas públicas, sob o risco de retrocesso à época pré-republicana, quando a Igreja controlava o Estado. O usual no País é ver a fé popular explorada por políticos de viés populista, que apostam no culto à personalidade para se perpetuarem no poder.

CHAPA
Na quarta-feira 20, o PSB confirmou Marina Silva como candidata ao Planalto.
O deputado Beto Albuquerque (à dir.) será o vice

Marina se aproximou perigosamente desse caminho quando alegou não ter embarcado no avião de Eduardo Campos por “providência divina”. Menos mal que Marina tenha incluído o filho caçula e a viúva de Campos na afirmação. Ou seja, segundo seu próprio entendimento, ela não foi a única escolhida por Deus para permanecer no convívio entre os mortais. De qualquer forma, declarações nesse tom reforçam o caráter messiânico de sua candidatura e reduzem as chances de justificativas racionais. Na verdade, Marina não embarcou para o Guarujá, no mesmo avião de Eduardo Campos, porque não queria encontrar-se com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, nem com seu vice, o socialista Márcio França. Ela sempre foi contra a aliança do PSB com o PSDB. Mas mexer com o imaginário coletivo, ao que parece, rende mais votos do que falar sobre escaramuças partidárias.

Marina se cerca de cuidados, no entanto, quando suas crenças podem colocar muitos votos em risco. É assim com o debate sobre a liberação do aborto. Antes, aliando-se à grande maioria dos evangélicos, era contra. Hoje, segundo ela, o assunto deve ser decidido em plebiscito. Sobre o casamento gay, já teve várias posições. Em 2010, se dizia contrária, agora defende a criminalização da homofobia e até apoia a adoção por casais homosafetivos. Mas numa palestra na Universidade Católica de Pernambuco, no ano passado, saiu em defesa do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que se notabilizou pelas atitudes homofóbicas. Para Marina, o parlamentar estava sendo criticado só “por ser evangélico”. Ao tentar explicar a declaração, Marina atacou um representante do agronegócio e provocou outra polêmica.


A declaração não ocorreu por acaso. Para Marina, o agronegócio, que representa 23% do Produto Interno Bruto (PIB), é o maior vilão do meio ambiente. Essa é outra questão que a candidata a presidente pelo PSB precisa esclarecer. Como alguém que anseia assumir o Executivo do País pode desconsiderar um setor que responde por 23% do PIB? Contra a agricultura e a pecuária extensivas, ela propõe um modelo “inteligente”, que produza mais com menos recursos. “Temos que agregar o conhecimento e a base tecnológica, ampliando cada vez mais para ter uma produtividade que crie uma nova narrativa para os nossos produtos”, diz Marina. Mas a candidata não explica como fará isso, o que só apavora os empresários do setor. Para tentar ganhar a confiança do campo, ela e a cúpula do PSB, com o aval da família de Campos, decidiram indicar como vice na chapa o deputado federal gaúcho Beto Albuquerque.

Importantes empresas do setor doaram para as últimas campanhas de Albuquerque, que também atuou fortemente para a liberação do cultivo da soja transgênica – coincidentemente, na época em que Marina era ministra do Meio Ambiente e nem sequer era chamada para os debates sobre o tema no Palácio do Planalto. Ele também recebeu contribuições de indústrias de agrotóxicos, armas e bebidas. Ao redigir o estatuto da “Rede Sustentabilidade”, Marina proibiu doações desses segmentos. Na condição de candidata, na semana passada, ela reforçou a intenção de vetar contribuições desses setores. Resta saber se o veto se estenderá ao seu vice.



Outras questões essenciais para quem almeja a Presidência da República permanecem mergulhadas em água turva por Marina. Questionada sobre a matriz energética brasileira, na semana passada, entoou discurso que parecia um eco da campanha de 2010. “Infelizmente, estamos sujando a matriz energética brasileira. Os arremedos que estão sendo feitos com as térmicas para os momentos de baixa dos reservatórios têm de ser reduzidos”, afirmou. Como resolverá o problema, não deixou claro. Falou em compensar a produção com investimentos em fontes já existentes. No passado recente, Marina defendia a ampliação do parque eólico e de energia solar, além da substituição de grandes hidrelétricas por pequenas centrais. As medidas são consideradas insuficientes por especialistas. A postura de Marina traz incerteza para o futuro de projetos cruciais para a ampliação da oferta de energia, como a construção da usina de Belo Monte. 


A PRIMEIRA BAIXA
O secretário-geral do PSB, Carlos Siqueira, deixou a campanha
depois de se desentender com Marina Silva

Durante o governo Lula, o debate sobre a política energética acomodou em trincheiras opostas as atuais adversárias na corrida eleitoral Dilma Rousseff (PT), então chefe da Casa Civil, e Marina Silva, à época ministra do Meio Ambiente. “Desde então, é como água e óleo. Elas não se misturam”, disse à ISTOÉ um ex-ministro do PT. As duas, no entanto, guardam semelhança numa característica essencial ao exercício do poder: ambas têm pouco jogo de cintura político. Toda vez que ocupou cargos administrativos, Marina Silva cultivou uma maneira bem peculiar de tomar decisões, que escapa aos moldes usuais. Segundo assessores próximos, ela gosta de reunir todos ao redor de uma mesa para colher suas opiniões. A decisão, no entanto, ela toma sozinha, fechada em copas. A palavra final nem sempre é consenso entre seus pares. Antes da derradeira tomada de posição, normalmente provoca suspense, deixando tensos até os aliados mais próximos. Foi assim, surpreendendo a todos, que em reunião com dirigentes do PSDB, Marina sacou essa: “Busco uma aliança com a sociedade, não com as forças políticas tradicionais. Se isso prevalecer, e se eu for eleita, só governo por quatro anos, sem reeleição”, disse, para o espanto da maioria. Essa maneira de operar gera problemas na articulação política. Quando era senadora, tinha dificuldades para negociar com colegas de plenário. Sem diálogo, sem capacidade de convencimento, Marina demonstrou um desempenho parlamentar pífio. Das 73 proposições apresentadas, a parlamentar conseguiu a aprovação de apenas três: uma PEC regulamentando a aposentadoria do “extrativista vegetal”, um projeto de lei que obriga o SUS a garantir transporte e alimentação a pacientes e outra proposição criando o “Dia Nacional dos Povos da Floresta”.




A falta de traquejo ficou novamente evidenciada nas negociações da nova chapa da coligação. Para ser chancelada pelo PSB, a candidata exigiu o controle do comando e das finanças da campanha. Escalou o ex-deputado Walter Feldman para a coordenação-geral, escanteando o socialista Carlos Siqueira. Ele abandonou a reunião no meio da fala de Marina, a quem chamou de “hospedeira”. “Ela não representa o legado de Campos. Que vá mandar na Rede dela”, disse ele, antes de resolver abandonar a campanha. Também desertaram os governadores Camilo Capiberibe (Amapá) e Ricardo Coutinho (Paraíba). Na quinta-feira 21, na tentativa de apaziguar os ânimos internos, Marina resolveu mudar a equipe. Designou Luísa Erundina para a coordenação e acomodou Márcio França na tesouraria. Questionada sobre a crise, Marina disse que houve uma incompreensão. De fato, fazer com que os outros a compreendam não é muito o forte da candidata. 

Foto: Adriano Machado

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Erundina dizia que Marina ‘desorganiza’ política


Escolhida para ser a coordenadora da campanha de Marina Silva à Presidência, a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) afirmou, em julho do ano passado, que a ex-senadora "desorganiza" e "deseduca" a política. A declaração foi feita em entrevista ao jornalista Kennedy Alencar no programa "É Notícia", da Rede TV, exibido em 14 de julho de 2013. Na época, Marina corria contra o tempo para registrar a Rede Sustentabilidade a tempo de disputar as eleições deste ano. A iniciativa, no entanto, fracassou, e Marina decidiu se filiar ao PSB.


Da Marina quero distância, diz secretário-geral do PSB

Daiene Cardoso e João Domingos  
O Estado De S. Paulo

Carlos Siqueira deixa coordenação da campanha presidencial após ex-ministra ser oficializada candidata: "Ela não é do PSB"

Brasília - O secretário-geral do PSB e coordenador da campanha presidencial do partido, Carlos Siqueira, deixou nesta quinta-feira, 21, a função. O partido formalizou nesta quarta, 20, a indicação de Marina Silva para liderar a chapa e do vice Beto Albuquerque, líder da bancada na Câmara dos Deputados. "Da senhora Marina Silva eu quero distância. Eu não participo de campanha de Marina Silva. Ela não é do PSB", afirmou ao Broadcast Político nesta manhã.

Nessa quarta, havia sido anunciado que Siqueira permaneceria na função, mas que teria ao seu lado o deputado licenciado Walter Feldman (SP), também porta-voz de Marina. Bazileu Margarido, homem de confiança da ex-ministra, que era adjunto de Siqueira durante a campanha de Eduardo Campos, foi transferido para o comitê financeiro da campanha. Bazileu vai dividir a tarefa com Dalvino Franca.

Carlos Siqueira (à dir.) acompanhado 
de integrantes do PSB e Rede, em São Paulo

Marina filiou-se ao PSB em outubro do ano passado, dias depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negar o registro do seu partido, a Rede Sustentabilidade. Pessoas ligadas ao projeto continuam trabalhando para concluir a formalização da legenda.

Siqueira, também presidente da Fundação João Mangabeira, ligada ao PSB, disse que continuará no partido, mas que se rende à decisão da maioria, que apoiou a candidatura de Marina, porque é disciplinado. Em conversa com o Broadcast Político, serviço em tempo real da Agência Estado, disse preferir não dar detalhes sobre essa decisão, porque seriam detalhes desagradáveis.

Na manhã desta quinta, o presidente nacional do PSB, Roberto Amaral, está reunido com dirigentes de partidos que compõem a coligação. Amaral ainda não comentou a saída de Siqueira.


No mato sem coelho

 Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

Nenhum BC que siga o regime de metas para a inflação toma decisões com base nos índices passados

Há momentos em que minha fé no debate econômico de alto nível, já não muito profunda, confesso, desaparece de vez e frequentemente em razão dos mesmos culpados.

No caso, trata-se de mais um artigo de Yoshiaki Nakano (“Valor Econômico”, 12/8) em que o autor, mantendo a característica de opinar sobre o que pouco entende, produziu a seguinte gema: “Numa política monetária (sic) de metas de inflação, é muito mais razoável considerar as taxas médias dos últimos três meses como medida de inflação do que a taxa acumulada de inflação dos últimos 12 meses, como faz o Banco Central do Brasil”.

Minha impressão seria levemente menos negativa se o autor tivesse perpetrado tal afirmação em qualquer período de três meses ao longo de 2014 que não fosse este terminado em julho.

De fato, segundo a peculiar medida proposta pelo professor, a inflação do primeiro semestre teria registrado um mínimo de 6,3% ao ano em junho e um máximo de 9,0% ao ano em fevereiro e março, muito acima da meta.

Imagino, portanto, que o silêncio de Nakano sobre o assunto na primeira metade do ano e a materialização da proposta precisamente no único mês de 2014 em que a inflação acumulada no trimestre ficou abaixo de 4,5% deva ser mera coincidência e jamais manifestação de oportunismo sobre a sazonalidade mais favorável da inflação no terceiro trimestre.

De qualquer forma, o problema com a ideia é bem mais sério do que a escolha a dedo do período e a desconsideração de fatores sazonais.

Para começar, porque nenhum BC que siga o regime de metas para a inflação toma decisões com base nos índices passados, seja em 3, 6 ou 12 meses. O máximo que um BC pode fazer acerca da inflação acumulada nos últimos 12 meses é avaliar se suas escolhas anteriores de política monetária foram adequadas ou não.

Pode ser surpreendente para Nakano, mas decisões sobre taxas de juros hoje não conseguem mudar a inflação passada. O tempo, esse ser voraz, insiste em correr numa única direção…

Ademais, os efeitos da política monetária costumam se manifestar sobre a inflação com defasagem considerável. Bancos centrais tomam decisões hoje que irão afetar a inflação alguns trimestres à frente, o intervalo preciso dependente das características particulares de cada economia.

Não é, portanto, o passado, mas a perspectiva sobre o futuro, considerando inclusive a própria ação do BC, que guia as decisões acerca da taxa de juros.

Aliás, é por esse motivo que bancos centrais adeptos do regime de metas costumam publicar suas previsões acerca do comportamento futuro da inflação (no caso do Brasil, por exemplo, por meio do Relatório Trimestral de Inflação, RTI). É também por causa disso que as expectativas inflacionárias dos agentes desempenham papel central na operação do regime.

Obviamente previsões estão sujeitas a vários tipos de problema. Mesmo que um BC soubesse com exatidão todos os parâmetros relevantes da economia (o que não é o caso), restam elementos imponderáveis, como clima, crises externas etc., que podem mudar o comportamento da inflação independentemente da política monetária.

É como se o arqueiro lançasse hoje a seta, mas esta só chegasse ao alvo meses depois e sujeita a todo tipo de interferência. Diga-se, aliás, que é precisamente por essa razão que o arqueiro deve mirar o centro do alvo; caso mire muito acima ou muito abaixo, aumentam as chances de que as interferências acabem jogando a seta para fora dele.

Nada do que foi dito aqui está além do bê-á-bá do funcionamento de um regime de metas para a inflação. Qualquer um que acompanhe um mínimo do debate e tenha gastado um tanto de seu tempo para ler o RTI está a par desses temas, mas, como se viu, não se trata do caso de Nakano. Mais estudo e menos palpite poderiam contribuir muito para o debate, mas esse parece ser um mato de onde coelho algum há de sair um dia.

Pouco mais do mesmo

Celso Ming
O Estado de S. Paulo

Nesta quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o Banco Central (BC) anunciaram providências destinadas a aumentar e facilitar a segurança no crédito.

Vão na linha das medidas tomadas no dia 25 de julho, que começaram a flexibilizar o depósito compulsório, a parcela do dinheiro dos clientes que os bancos têm de deixar no BC. Procuram acelerar o crédito e, portanto, o consumo e a atividade econômica.

(FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADAO) 
Mantega. “Não está patinando” 

 Não deverão ter impacto imediato, por duas razões: primeira, porque os novos recursos hoje disponíveis são relativamente baixos, como a seguir se verá; e, segunda, porque as decisões do Ministério da Fazenda (e não as do Banco Central) dependem de leis e regulamentação suplementar. Afora isso, nos próximos meses não se espera grande entusiasmo do consumidor pela tomada de empréstimos.

Mas a ideia de desburocratizar e criar novos mecanismos de alavancagem do crédito, especialmente no setor imobiliário e no de veículos, pode facilitar as operações no futuro.

A principal decisão do Banco Central autoriza os bancos a usar mais 10% do que estão obrigados a depositar no BC (depósito compulsório) nas aplicações a prazo dos seus clientes, desde que esses recursos sejam usados para novas operações de crédito ao varejo.Pelos cálculos do próprio Banco Central, mais R$ 10 bilhões serão injetados nesse segmento, além dos R$ 45 bilhões adiantados em julho. É uma insignificância diante do saldo atual do crédito no Brasil, de R$ 2,9 trilhões.

Esta é uma iniciativa com certa dose de contradição. O movimento predominante do Banco Central é de acionamento dos freios, na medida em que a política monetária (política de juros) procura enfraquecer o consumo, a atividade e a inflação, por meio da redução da ração de moeda na economia (juros altos), e não o contrário.

As novas decisões tentam acelerar o consumo e, assim, confundem as expectativas. O mercado, que vive de comunicações claras do BC, vacila em relação à direção pretendida.

O governo (e não só o Banco Central) está pressionado por forças opostas.De um lado, tem de combater a inflação, que dança sobre o precipício. De outro, enfrenta a prostração da economia. E tem dificuldade para fazer suas escolhas. Não basta jurar que “a economia não está patinando” – como, nesta quarta-feira, jurou Mantega, quando os dados apontam para o contrário.

O efeito prático imediato parece baixo. As vendas não estão emperradas por falta de crédito, mas por outras razões. A primeira delas é a erosão no poder aquisitivo provocada pela inflação. A segunda, o excessivo endividamento das famílias. E, a terceira razão, a disseminação da percepção geral de que os tempos estão mais difíceis, de que o emprego está sob risco e de que o orçamento doméstico está mais comprometido, o que induz a um comportamento mais conservador por parte do consumidor.Neste momento, ele resiste a buscar mais crédito.

O baixo fôlego das decisões desta quarta-feira mostra que o arsenal de resposta do governo à paradeira está esgotado. Ficaram para trás os tempos em que o Tesouro tinha farta munição para as tais políticas compensatórias anticíclicas. E o brasileiro parece suficientemente esperto para deixar-se levar apenas pela conversa enroladora das nossas autoridades.

CONFIRA:



Aí está a evolução mês a mês do IPCA-15 medido em período de 12 meses. Mostra acomodação dos preços no varejo (custo de vida). Para que o teto da meta anual (6,5%) volte a ser estourado, será preciso que a evolução do IPCA em agosto (sobre julho) seja de, pelo menos, 0,25%.

15 a 14
O IPCA-15 é o mesmo IPCA, o medidor mensal da inflação. A diferença é a de que a evolução de preços não é aferida no mês-calendário (do dia 30 a 30 do mês seguinte), mas no período que começa no dia 15 de um mês e termina no dia 14 do seguinte.

Enfim, o ajuste recessivo

Luiz Carlos Mendonça de Barros
Folha de São Paulo

A economia chega a uma situação da qual o político com experiência foge como o diabo foge da cruz

O PIB no segundo trimestre do ano será certamente negativo: a dúvida dos analistas é hoje apenas a intensidade da queda.

O André Muller, economista da Quest que acompanha a nossa conjuntura -confesso que não tenho mais energia para fazer isso-, prevê que a queda tenha sido de 0,4% em relação ao primeiro trimestre. Tem gente bem mais pessimista, mas aprendi a confiar nos números do André e vou adotá-los na coluna de hoje.

O André simulou o crescimento do ano como um todo com base em números do PIB -hipotéticos- para o terceiro e o quarto trimestre. Em seu cenário, para que o PIB do ano de 2014 como um todo chegue ao medíocre 0,5%, será preciso que o crescimento nos dois últimos trimestres do ano seja também ao redor de 0,5%. Uma hipótese hoje com tintas de otimismo.

No outro extremo, para que tenhamos recessão em 2014 -isto é, PIB do ano menor do que o verificado em 2013-, o crescimento nos próximos seis meses terá que ser também negativo, o que hoje parece a mim e ao André uma hipótese pouco provável.

Mas vejamos qual seria a performance da presidenta Dilma em seu primeiro mandato, caso os números do André estejam corretos:

2011: 2,7%;

2012: 1,0%;

2013: 2,5%;

2014: 0,5%.

Essa sequência de números, para quem tem acompanhado o metabolismo da economia brasileira no período entre 2009 e 2014, traz uma mensagem muito clara: o governo Lula, em seu último ano, e o da presidenta Dilma, em seus quatro anos de mandato, tentaram de forma sistemática evitar uma queda da atividade já contratada em 2009 pela crise externa que nos atingiu.

Os principais instrumentos utilizados nessa tarefa foram: a redução dos juros pelo Banco Central,a expansão do crédito pelos bancos públicos e, finalmente, o aumento vigoroso e continuado dos gastos públicos.

Para o analista com uma visão correta dos problemas que existiam na economia brasileira no ano eleitoral de 2010, estava claro que esses instrumentos iriam provocar um aumento da inflação e uma grande volatilidade no crescimento.

Se a tentativa de reviver a economia em 2010 via respiração boca a boca fazia sentido do ponto de vista político-eleitoral, a utilização desses mesmos instrumentos quando o PIB perdeu força na passagem de 2011 para 2012 deve ser catalogada como um sério erro de política econômica.

E o preço desse erro fica claro quando, no ano eleitoral de 2014, a economia chega exangue ao momento do voto. Uma situação da qual o político com experiência foge como o diabo foge da cruz.

O PIB é uma variável de difícil compreensão da grande maioria do eleitorado -ninguém come PIB, como já disse alguém recentemente-, mas seu baixo crescimento gera situações que chegam ao cidadão comum. É o caso da criação de emprego formal na economia e da taxa de desemprego.

Pois ontem tivemos a divulgação de dois números relativos ao mercado de trabalho. O IBGE divulgou a taxa de desemprego em quatro regiões metropolitanas, mostrando que a desaceleração do PIB ainda não chegou ao mercado de trabalho.

Com alguns ajustes feitos por analistas especializados nesses números, houve um ligeiro aumento no desemprego dessas regiões metropolitanas de 4,3% da População Economicamente Ativa em junho para algo como 4,5% em julho. Esse pequeno aumento não será suficiente para mudar a sensação de pleno emprego que existe hoje no Brasil.

A segunda estatística, divulgada pelo Ministério do Trabalho e que trata da criação de vagas formais em julho, também aponta para uma pequena redução do trabalho formal no país, ainda assim apenas nos números livres das flutuações sazonais (também insuficiente para alterar o humor do brasileiro quanto ao emprego). Talvez o número que mais repercussão terá nas expectativas seja o anúncio de mais de mil demissões na GM.

Mas, independentemente do timing eleitoral, o chamado ajuste recessivo continua a tomar conta da economia brasileira neste fim de mandato presidencial.


Química do crescimento

Alvaro Gribel e Marcelo Loureiro 
O Globo

Os sinais de estagnação do primeiro semestre estão presentes na indústria química, que é considerada um termômetro do nível de atividade. O consumo aparente de químicos caiu 1,3% no período, algo que não acontecia desde 2009. Produtos químicos estão no meio da cadeia produtiva e a redução do consumo indica fraqueza em vários setores, como automobilístico, agrícola e de construção civil.

A indústria química ocupa o quarto lugar no PIB industrial do país, atrás de alimentos e bebidas, petróleo e automobilístico. Sua importância quase passa despercebida, mas seus produtos servem de matéria-prima para a produção de centenas de bens de diversos setores. Produtos como plásticos, borracha, resinas industriais, tintas, adubos e fertilizantes estão em itens que vão de carros, aviões e computadores, a eletrodomésticos, cosméticos e embalagens.

Por isso, a queda do consumo aparente — que mede a produção nacional vendida internamente mais as importações — é mais um sinal de esfriamento do ritmo de atividade. Segundo a diretora de economia e estatística da Abiquim, Fátima Giovanna Coviello, o volume de importações cresceu 8,1% no semestre, mas a produção nacional caiu 7%. Tirando da conta o que foi exportado, chega-se à retração de 1,3% no consumo aparente nos seis primeiros meses do ano.

— Há uma choradeira geral entre os segmentos da indústria química. A infraestrutura não deslanchou com a Copa e ainda houve os feriados. Se a produção fechar o ano estável, estará de bom tamanho — afirmou Coviello.

Desde 2007, o consumo aparente no primeiro semestre caiu apenas duas vezes, em 2009, ano de crise, e 2014. O que acontece este ano foge do padrão. O nível de ocupação do parque industrial químico caiu para 78%, quatro pontos abaixo do mesmo nível do ano passado, indicando maior ociosidade.

O aumento dos custos da energia, os miniapagões, e a ameaça de falta de água no estado de São Paulo são problemas a mais para a indústria química, que planeja investimentos de longo prazo. Tudo isso provoca aumento de custos e deixa os empresários do setor com horizonte de visão mais curto.

Balanço dos balanços
O PIB do segundo trimestre será conhecido apenas na próxima sexta-feira, dia 29, mas uma análise dos balanços de companhias abertas aponta uma fraqueza em setores importantes, como o varejo e a indústria. O resultado operacional (Ebitda) das Lojas Marisa, por exemplo, caiu 17,9% no comparativo anual. Na Hering, a queda foi de 16,9%, para R$ 96,9 milhões. A administradora de shoppings Multiplan apresentou o resultado de suas locatárias. Houve avanço de 9,4% no indicador “vendas nas mesmas lojas”, mas o resultado foi impulsionado pelo salto de 19,2% no segmento alimentação. “As pessoas frequentaram shoppings, lancharam, mas deixaram de comprar. É um retrato interessante trazido por essa temporada de balanços. O consumidor está sem apetite para produtos de maior valor”, conta Celson Plácido, da XP Investimentos.

Trimestre bom para os bancos
Na indústria, outro termômetro são as siderúrgicas, que fornecem para diferentes cadeias produtivas. A Usiminas viu seu resultado operacional cair 17% em relação ao primeiro trimestre. A venda de aço para o mercado interno ficou estagnada. No caso da CSN foi pior. Com 73% das vendas concentradas no Brasil, a siderúrgica de Volta Redonda viu a demanda de seus clientes nacionais cair 9%. Um contraponto na safra de balanços veio de fora da economia real. As empresas financeiras bateram recordes de lucratividade aproveitando a taxa Selic mais alta em relação ao mesmo período de 2013.

RUMOS DO FED. 
Para o economista-chefe do banco Modal, Alexandre de Ázara, a alta dos juros nos EUA ficou mais próxima depois da divulgação da ata do Fed e do discurso de Janet Yellen, ontem. A visão é a mesma de Luis Otávio Leal, do banco ABC Brasil.