sexta-feira, agosto 29, 2014

E o pibinho, hein, Dilma: encolheu de novo?

Adelson Elias Vasconcellos


A gente precisa parabenizar a senhora Rousseff pelo resultado obtido com o PIB do 2º trimestre. É preciso muita incompetência para colocar o Brasil em recessão técnica, que representa o recuo da economia por dois trimestres seguidos.

Há poucos dias, o senhor Mantega afirmou com aquele ar de severo desprezo às críticas sobre a condução medíocre da economia do país, que não estamos patinando coisa nenhuma. Chegamos a comentar no texto final da edição de ontem sua afirmação grosseiramente irreal e patética: “...Que crise é essa com pleno emprego, com valorização da Bolsa há mais de seis meses, e com estabilidade cambial? Que crise é essa com elevado volume de investimento estrangeiro direto no país?...”

No debate entre os presidenciáveis realizado pela Band, Dilma tentou justificar o baixo crescimento apontando o fantasma de uma crise internacional que já acabou faz tempo. A economia mundial, aqui e ali, se recupera lentamente. Os Estados Unidos, por exemplo, centro da crise de 2008/09, fechou o trimestre com 4,2% de crescimento, e todos os demais países emergentes, também,  têm alcançado resultados positivos. Já o Brasil da dupla Dilma/Mantega é esta ladeira abaixo que há algum tempo os analistas vem alertando. 

Assim, o resultado desastroso de agora não representa, para quem lida com a realidade, não com a fantasia, a mentira, a mistificação, surpresa alguma. O próprio Banco Central já havia apontado a curva negativa .

E vamos ver o seguinte: em 2011, o governo Dilma projetava PIB a 5,5%. De lá para cá,  este índice vem despencando nas próprias projeções exageradamente otimistas, a razão de 0,5% ao ano. E, além de não acertar nem uma única vez, o resultado final sempre foi abaixo da metade do previsto. Ou seja, este governo medíocre sequer realiza  metade do que se propõe como meta. 

Agora, Dilma quer um segundo mandato, Mantega promete que o  segundo semestre será melhor do que o primeiro (é possível ser pior?), e um ano de 2015 com uma economia mais robusta. Dilma, de outro lado, não para de afirmar que preparou o país para um novo ciclo de crescimento. Só se for crescimento do tipo rabo de cavalo: para baixo. 

É visível que a economia brasileira vai de mal a pior e os irresponsáveis por esta má condução sequer conseguem enxergar sua própria incompetência, continuam alimentando um discurso cretino de que o amanhã será venturoso. Falta dizerem a que século pertence este amanhã venturoso, porque o que se tem até aqui, infelizmente, são resultados horrorosos. 

Assim, ao invés de Mantega perder tempo em criticar Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central ao tempo de Fernando Henrique Cardoso, deveria era criar vergonha na cara e entregar parte daquilo que promete.  Num português muito claro: Mantega já encheu o saco com sua mediocridade na condução da economia e com seu discurso carregado nas tintas da tolice. E se acontecer o azar da senhora Rousseff  ser reeleita (arre!), que tenha a decência de mudar o comando da economia e nela colocar gente com um mínimo de preparo, com menos discurso e mais ação. 

Chega de empulhação. Basta de o governo mentir para o país, tentando enganar uma realidade visível a todos e que apenas ele não consegue perceber. Aliás, está na hora de um basta ao governo Dilma e sua arrogância, sua incompetência, seu despreparo, sua incompetência.  

As tolices no debate dos presidenciáveis na Band

Adelson Elias Vasconcellos


A Rede Band de Televisão realizou na noite desta terça-feira, um debate entre os candidatos presidenciáveis. Ali compareceram Dilma Rousseff, Luciana Genro , Marina Silva, Eduardo Jorge, Luiz Fidélix,  Aécio Neves e Pastor Everaldo. 

Claro que a imprensa irá debulhar o comportamento de cada um dos candidatos. COMENTANDO A NOTÍCIA não irá se furtar de comentar rapidamente as observações que registrou neste debate.

Começo por uma constatação que até poderia caber como pergunta à senhora Rousseff: com qual candidato do PSDB ela pensar estar concorrendo, com Aécio Neves ou Fernando Henrique?  Esta senhora só sabe criticar um governo do qual Aécio não participou em cargo nenhum. Portanto, se erros e acertos aconteceram naquele governo, não é com Aécio que ela deve discutir. 

Além disto, Aécio Neves foi governador de Minas Gerais por dois mandatos, saindo com aprovação próxima a 70%. Como Minas Gerais  é um importante estado da federação, com um povo trabalhador, inteligente e culto, Aécio não receberia tamanha aprovação de forma gratuita, a amenos que seu governo tivesse sido de alto nível.

Marina e Aécio combinaram em um momento ao menos: ambos apontaram a fantasia do Brasil apontado na propaganda de Dilma com a realidade do dia a dia dos brasileiros.

Já Dilma parecia estar fora do lugar. Acusou o PSDB de, no governo FHC,  ter cortado salário e aplicado tarifaços. Mentira. Sobre salários falo mais adiante e quanto aos tarifaços é engraçada a acusação de Dilma. Quando o PT assumiu, a carga tributária sobre as tarifas de energia elétrica era de 21,6%.  Já no primeiro mandato  de Lula, a carga subiu para 48,0%. Corte de empregos? Pois não: a indústria brasileira, apenas no mandato de Dilma Rousseff, já fechou mais de 1 milhão de postos de trabalho. No campo estatal, juntando-se Petrobrás, Infraero e Eletrobrás, foram para o ralo mais de 12 mil empregos.  Sem contar que as três empresas junta, e cada uma ao seu modo, estouraram sua capacidade de endividamento. 

Num texto publicado logo abaixo, comentamos a declaração de Guido Mantega, Ministro da Fazenda do governo Dilma, de que o Brasil não vive crise nenhuma. Isto foi dito na segunda feira.  Afirmou o ministro: ”... Que crise é essa com pleno emprego, com valorização da Bolsa há mais de seis meses, e com estabilidade cambial? Que crise é essa com elevado volume de investimento estrangeiro direto no país?...”. E não é que, na primeira oportunidade que teve para se manifestar, a senhora Rousseff veio com o papo desgastado tanto quanto inadequado da tal “crise internacional”?

Além disto, quando pode, também não se furtou de acusar o governo FHC de haver quebrado o Brasil três vezes. Isto é de uma estupidez e falta de senso de realidade dolorosa e doentia. Foi FHC quem quebrou o Brasil, quando FHC recebeu o Brasil para governar o país já estava quebrado, sem crédito no mercado internacional, falido, em profunda recessão, inflação galopante de dois dígitos mensais,  déficit público descontrolado, uma dívida externa impagável. Além disto, a média de crescimento mundial naquele período nunca foi superior a 2,5% anual, enquanto no período de Lula a economia mundial cresceu na média índices superiores a 5,0% anuais.  A liquidez do mercado era mínima em razão de cinco crises mundiais. Lula surfou numa onda de 6 anos de crescimento mundial ininterruptos e sem crise alguma. E, claro, com um país arrumado, ao contrário que ele recebeu em 1995. 

Dilma ainda acusou o governo FHC de desemprego, recessão, compressão dos salários. Já mostramos que aconteceu justamente o contrário. Primeiro,  quem comprime e arrocha os salários são os governos petistas com a redução gradual da faixa de isenção do imposto de renda na fonte. Quem primeiro começou a aumentar o salário mínimo em termos reais foi FHC, e em índices superiores aos da própria Dilma. Quanto ao desemprego, ele já muito alto. O país vivia um período de pura especulação financeira, quando os investimentos convergiam apenas para os títulos públicos e realização de ganhos fácil. E, graças ao Plano Real e as reformas dele derivadas, este verdadeiro circo teve fim. E, cereja do bolo, foi quem criou os programas de distribuição d renda através do Comunidade Solidária. 

A todas as acusações feitas por Dilma, Aécio se mostrou um oponente fraco que não soube retrucar as mentiras colocando a verdade no seu devido posto. Por incrível que pareça, neste ponto, Marina Silva se mostrou muito mais tucana do que o próprio candidato do partido. 

Do discurso de Marina dá para retirar um ponto positivo, e aqui tantas vezes comentado. Os governos petistas governam dividindo o Brasil, ao contrário do que a Marina pretende fazer. Difícil será negociar as reformas que pretendem implementar com uma base congressual relativamente pobre. Neste aspecto, tanto Aécio quanto Dilma tem maior poder de fogo. Mas marina precisa rever afirmações sobre a polarização PSDB-PT representar retrocesso ao país. Ou bem ela reconhece as virtudes de um governo e outro, como de fato fez, ao destacar as conquistas econômicas de FHC e as sociais de Lula, ou esquece o assunto e parte para o confronto. Nada há de errado em polarização política. Pelo contrário. Isto é assim em grande parte dos países democráticos. Raros em que existe uma terceira via fortalecida e com presença marcante no cenário eleitoral. Bem que marina poderia tomar umas lições de história universal, e ainda tentar compreender alguns ensinamentos da política como ciência. 

Dilma ainda se vangloriou da desoneração da cesta básica. Na verdade, ela se vangloria é de uma vigarice contra o país. O projeto de desoneração da cesta básica era de autoria do PSDB e ela foi aprovada no Congresso. Na hora de sancionar, Dilma simplesmente vetou a desoneração. Pouco mais de um mês depois, ela própria reapresentou o projeto para, como é costume do seu partido, cumprimentar com o chapéu alheio.

Levy Fidélix tocou num ponto nevrálgico: dívida pública.   FHC entregou o Brasil com uma dívida de R$ 600 bi, sendo que boa parte desta dívida era proveniente de governos estaduais assumidos pelo Tesouro nacional. A dívida que estados e municípios pagam hoje ao governo federal provém justamente desta repactuação. A dívida estadual passava para o plano federal, desde que os estados assumissem compromissos com a responsabilidade fiscal. E isto foi vital para a conquista da estabilidade econômica, recuperação da capacidade investimentos dos estados  e controle da inflação galopante . 

Hoje, de acordo com o site Auditoria Cidadã da Dívida, está dívida foi multiplicada em 5 vezes.  A dívida pública é de exatos R$  R$ 2.986.224.207.362,59. A dívida externa está em US$ 485.128.950.263,77. Como nossas reservas internacionais são pouco mais de US$ 300 bi, a balela de que Lula pagou a dívida externa não passa de grossa mentira. R$ 459.717.351.360 = 3,4 bi / dia.

Em 2014, até 14/5, a dívida consumiu R$ 460 bilhões ou 54% do gasto federal. Ora, não há orçamento suficiente que consiga bancar além do serviço da dívida, os investimentos necessários nas áreas da educação, saúde, segurança, saneamento e infraestrutura, além do que é consumido pela própria máquina pública. 

Assim, as propostas defendidas por Luciana Genro, por exemplo, e pelo próprio Levy Fidélix, deve ser levadas na conta de imaturidade e irresponsabilidade. A profunda recessão vida pelo Brasil com Sarney e Collor, com brutal custo social,  foi proveniente justamente da moratória  da dívida declarada por José Sarney. 

Ora, além do brutal crescimento da arrecadação de impostos ocorrido durante 12 anos de governos petistas, ter aumentado a dívida em cinco vezes, e o resultado que se tem de baixo crescimento, inflação e juros altos, além de serviços públicos deteriorados, a questão que se coloca é a seguinte: para onde foi todo esta dinheirama, fruto de impostos e dívida pública? 

Assim, o que fica do debate é um resultado ainda de maior insegurança: nenhum dos candidatos foi capaz de apresentar um projeto minimamente devotado ao interesse do país. Promessas? Ah, sim, houve muitas, algumas até inviáveis, mas projeto que é bom o resultado é decepcionante. 

Por exemplo, Marina fala de seus feitos enquanto ministra do  Meio Ambiente. Bem, os empresários e agropecuaristas sabem bem o perigo destes feitos, não é mesmo?

Dilma promete fazer, mas em 12 anos de PT o resultado que se tem é de retrocesso, tanto no plano institucional quanto no econômico. Justificar como fez o investimento no Porto de Cuba, é uma destas tolices que só um pensamento medíocre e alienado é capaz de oferecer. Os empregos gerados pela construção do porto foram gerados em Cuba, não no Brasil, e quem vai operar o porto são os russos que já firmaram protocolo para tanto. Dizer que a obrigação dos cubanos seria a de comprar máquinas e equipamentos não resiste a meio segundo de reflexão: poderíamos ter gasto o mesmo dinheiro para ampliar as capacidades de Paranaguá e santos, comprados os mesmo equipamentos também no Brasil, e no canteiro de obras ter gerados milhares de empregos diretos. No fundo, Dilma tentou justificar de maneira distorcida, o financiamento à ditadura cubana. 

Da mesma forma o programa Mais Médicos.  O problema da saúde pública é a falta de estrutura física da rede pública, onde as pessoas são atendidas em macas estendidas pelos corredores entupidas e sem a menor condição de higiene, e onde faltam até medicamentos básicos para atendimento.   Meses a fio as pessoas precisam esperar para realizar exames, muitas vezes porque os equipamentos estão quebrados e sem manutenção. Há dez anos que a tabela de serviços do SUS não é reajustada, razão pela qual tem ocorrido a redução de milhares de leitos nos últimos anos. E não é nada ético, senhora Dilma,  que os médicos cubanos  recebam  salários menores que seus colegas de outros países, tudo porque boa parte do dinheiro pago pelo Brasil fica retido pelo governo cubano.  E a afirmação de que pouco mais de 14 mil médicos dá conta de atenderem 50 milhões de pessoas é pura alucinação.    

E quando o assunto foi segurança o que Dilma tinha para dizer,  depois de 12 anos de PT poder, e com 50 mil homicídios por ano? Nada. Não há projetos, não há programas, não há realizações. Sistema penitenciário degradante? Silêncio, até parece que quem governa são os outros. De Dilma só promessas e discursos vazios.

Dá sim para se tirar algumas conclusões sobre as respostas de cada um dos candidatos. É possível perceber que Dilma  imagina estar numa eleição errada, ao bater em quem sequer está registrado. Que ela e Marina não têm projetos, que Aécio ainda não afinou seu discurso muito embora tenha sido ele quem melhor apresentou propostas concretas e não apenas promessas  débeis. No confronto, Aécio se mostrou ao mesmo nível de Marina, sendo eles os que se saíram melhor.  Dilma não consegue rebater críticas sem agressividade e patetice.  Sua performance sobre os escândalos da Petrobrás foi simplesmente ridícula.

O jeito é ninguém comprometer-se com ninguém. O melhor que podemos fazer é aguardar os próximos debates e o andamento das campanhas e discursos de cada um dos candidatos para fazermos melhor avaliação de quem é quem. 

O bonde do Planalto

J.R Guzzo
Revista VEJA

Pouco a pouco, os brasileiros começam a se perguntar o que valeria mais a pena para o país, e sobretudo para eles próprios, nas eleições de outubro próximo: manter Dilma Rousseff na Presidência da República, em sociedade com o ex-presidente Lula e o PT, ou enviar para lá um candidato contrário às figuras que mandam no Brasil há doze anos, e querem continuar mandando? Cada um chegará às suas conclusões até a hora de votar, e aí seja o que Deus quiser. Mas, além das questões sobre crescimento da economia, atendimento nos hospitais públicos, Bolsa Família e mais um mundo de temas que vão da construção de aeroportos no interior de Minas Gerais à compra de refinarias de petróleo no Texas, seria muito saudável que a campanha eleitoral colocasse em cima da mesa de discussões, sem medo, a seguinte pergunta: o que vai acontecer com as liberdades públicas e individuais depois de anunciado oficialmente o lado que ganhou?

Num país onde os adversários políticos estão de acordo sobre o que é democracia e o que é tirania, não é preciso fazer indagações desse tipo – ganhe quem ganhar, está combinado que ninguém mexe nos direitos e deveres de ninguém. O problema, em nossa vida real, é que o Brasil não é um país assim. Como vai ficando cada vez mais claro na atual disputa pela Presidência, um dos lados não quer jogar segundo o que está escrito no regulamento democrático. Mais ainda, anuncia publicamente que quer para o Brasil um futuro em que as garantias de liberdade em vigor no presente não estarão valendo mais; pelo que o governo propõe, seriam substituídas por um angu de normas que ele próprio pretende ir tirando da gaveta à medida que achar necessário. Esse lado, para não ficar perdendo tempo com conversa fiada, velhaca e hipócrita, é o lado de Lula, de Dilma e do PT.

O que adianta esconder-se por trás de uma imparcialidade meia-boca, fingindo que estamos diante de uma disputa leal entre duas partes? Não adianta nada, quando a cada dia fica demonstrado que o governo não respeita as ideias do adversário, propõe um regime que não combina com a Constituição vigente e, em vez de responder às críticas com argumentos lógicos, prefere ameaçar, insultar e agredir quem critica. Nenhuma dessas observações vem da imaginação, ou da vontade de falar mal do governo. Vem diretamente do que estão fazendo, dia após dia, a própria candidata oficial e o seu padroeiro número 1. O que se pode dizer, entre tantas outras coisas esquisitas, desse “decreto 8243″ que Dilma enviou há pouco ao Congresso, onde sonha usar sua maioria de 70% dos votos para trocar o baralho do jogo? Se não tivesse aparecido no Diário Oficial, com todos os carimbos do Palácio do Planalto, o texto seria uma piada. 

No português de terceira categoria que os redatores do governo costumam utilizar, constipado, metido a besta e cheio de palavras que não querem dizer nada e podem servir para tudo, o decreto inventa para o Brasil um regime desconhecido pelo resto do mundo. Pelo que escreveram ali, o poder público, na prática, não seria mais exercido em conjunto pelo Executivo, Legislativo e Judiciário; também não estaria subordinado ao voto livre e universal de todos os cidadãos e aos demais controles democráticos que se conhecem. Quem vai decidir as coisas é um ente sobrenatural que se apresenta em estado gasoso e se coloca acima do Congresso Nacional e da Justiça brasileira: a “PNPS”, ou “Política Nacional de Participação Social”. Em matéria de pescaria em água turva, é o que há.

O papel enviado por Dilma ao Congresso, para encurtar a conversa, nos informa que fica criada no Brasil a sociedade brasileira. “Para os fins deste decreto”, como se diz logo no começo, a sociedade deste país é formada pelos “movimentos sociais”, tenham ou não tenham existência legal, e por uma nebulosa de “coletivos”, “organizações”, “redes” etc.; caberá a esses “movimentos” formar “conselhos” que na prática vão tomar decisões de obediência obrigatória para todo mundo, seguindo “as orientações da Secretaria-Geral da Presidência da República”, citada dez vezes ao longo do decreto. É isto, em suma, o que Dilma realmente propõe: abrir espaços para que o Brasil se submeta a regras criadas fora do Legislativo e do Judiciário. Segue-se uma alucinação burocrática falando de entidades exóticas como o Sistema Nacional de Participação Social, o Comitê Governamental de Participação Social, a Mesa de Monitoramento das Demandas Sociais, Conselhos, Comissões e Conferências Sociais, Fórum Interconselhos, Mesas de Diálogo – enfim, um sanatório geral que faz cessar tudo o que a antiga musa canta em termos de empulhação.

Não há nada que preste nos 22 artigos do decreto. No que é ruim é ruim; no que não é ruim é inútil. O secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, tem dito que o governo não está fazendo nada de mais: tudo o que diz o texto presidencial já existe. Mas, se é mesmo assim, por que raios querem aprovar no Congresso uma aberração dessas? Também não se entende por que o ministro insiste na urgência da aprovação e diz que os senadores e deputados terão de enfrentar “as consequências” de uma rejeição do decreto – algo que, salvo engano, parece muito com uma ameaça. Murmura-se em volta do governo que nada disso é para valer; seria apenas falatório de campanha, como as obras do PAC e outras miragens, para acalmar os petistas mais bravos. Seja como for, o recado que Lula, Dilma e PT estão passando é o seguinte: nós gostamos dos “movimentos sociais” e queremos que eles venham governar junto com a gente. Esses grupos são os que existem aí – invasores de terras, invasores de imóveis, delinquentes que querem manifestar sua opinião jogando bombas na rua, destruindo propriedade pública e privada e cometendo crimes que chegam ao homicídio, como o que praticaram meses atrás contra um cinegrafista de televisão. Todos esses, e dezenas de outros, têm em comum a convicção de que podem agir acima da lei, porque não gostam da lei “que está aí”. Totalitarismo, pelo que se sabe, é isso. Seria o que a campanha eleitoral do governo propõe? “Sininho” no ministério Dilma-2015?

Fica complicado acreditar, diante da pregação agressiva do Pró-Dilma, que as forças dedicadas a mantê-la na Presidência da República tenham um compromisso sincero com as liberdades no Brasil. Lula propõe uma “reforma política” que tira dos eleitores o direito de escolher seus parlamentares – só poderiam votar nos partidos, e os donos dos partidos ficariam com o direito de nomear os eleitos. O PT, em nota oficial, apoia os “ativistas” que estão sendo investigados pela prática de crimes previstos no Código Penal, em inquéritos que o Ministério Público e a polícia conduzem perfeitamente dentro da lei – acha que os acusados são réus “políticos”, e que a autoridade pública não deve mais incomodá-los. O governo não deixa praticamente nenhum espaço para a manifestação de críticas ou de mera discordância; como não tem poder para proibir que as pessoas falem, acusa de sabotagem, traição ao Brasil etc. qualquer adversário que abra a boca.

A conduta de Dilma e das forças que lhe dão apoio está construindo no país um ambiente de intolerância em estágio avançado. Dizer que a economia vai crescer 1% em 2014 e que a inflação está acima da meta, por exemplo, é agir contra o Brasil – embora o Banco Central diga exatamente as mesmas coisas. Temos também essa prodigiosa história da analista do banco Santander acusada de crime de le¬sa-pátria por ter opinado que a economia vai melhorar se Dilma perder, e piorar se ela ganhar. E daí? Opinião dela, que já foi dada por um monte de gente. A reação do governo foi uma exibição pública de histeria. Dilma disse que se tratava de uma “interferência inadmissível”, uma agressão à soberania nacional e um insulto à “sétima economia do mundo” – economia bem fraquinha essa aí, que se abala com a previsão de uma pobre consultora de banco. O Santander, numa espetacular demonstração de coragem, colocou a moça na rua. Dilma continua de cara feia. Seu governo não hesita em fraudar as investigações sobre corrupção na Petrobras e usar a máquina pública em proveito da candidatura oficial.

Esse é o bonde do Planalto. Pelo cheiro da brilhantina, não vai parar até a eleição.

O PT fora da conta

O Estado de S. Paulo 
Editorial 

O governo terá de renegar as maiores bobagens da diplomacia petista, se quiser seguir a proposta do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mauro Borges: fortalecer a relação comercial com parceiros estratégicos, como Estados Unidos, Europa e China. E terá de renegar a incompetência na gestão de projetos de infraestrutura e o populismo na política educacional.

Em princípio, o ministro está certo. É preciso rever as relações comerciais com os principais parceiros e tratar com maior seriedade a palavra estratégia. Os Estados Unidos foram neste ano, até julho, o maior importador de manufaturados brasileiros. Em outros anos, têm ficado em segundo lugar, logo abaixo da Argentina, mas sua política tem sido sempre mais confiável e previsível, sem as barreiras de ocasião e os truques inventados seguidamente na Casa Rosada.

Mas a diplomacia brasileira, sob o terceiro-mundismo instalado no Planalto em 2003, menosprezou a relação com os mercados mais desenvolvidos e definiu como grande objetivo redesenhar o mapa da economia mundial juntamente com novos parceiros ditos estratégicos. Esses parceiros até estavam dispostos a mexer no mapa, mas para cumprir seus objetivos nacionais, sem levar em conta as fantasias do presidente Lula e de seus conselheiros.

O presidente brasileiro, aliado ao colega argentino Néstor Kirchner, manobrou para liquidar o projeto da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca). A diplomacia brasileira voltou-se, então, para alianças com países emergentes e em desenvolvimento. Aceitou o protecionismo argentino e acomodou-se em posição defensiva em relação ao mundo rico. Por sua vez, a negociação do acordo de livre-comércio com a União Europeia, iniciada nos anos 90, está emperrada até hoje. Negociar com ricos, só na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas essa rodada também emperrou e continua paralisada.

Nesse período, a China converteu-se na maior parceira comercial do Brasil, no papel de maior importadora de matérias-primas. Em rápido crescimento, a China compraria produtos básicos de quaisquer fornecedores, mas o governo brasileiro parece ter sido incapaz de perceber esse fato.

Em sua ânsia para mudar a geopolítica mundial, a diplomacia petista aceitou uma relação semicolonial com a China. Neste ano, até julho, só 3,17% das exportações brasileiras para a China foram de manufaturados e 12,13%, de industrializados. De lá para o Brasil vieram quase só manufaturados. Não foi muito diferente o comércio com outros grandes países emergentes: 11,80% de manufaturados nas vendas para a Índia e 44,31% de industrializados. Para a Rússia, as proporções foram de 7,17% e 20,65%.

O comércio com os velhos imperialistas foi diferente. Manufaturados compuseram 49,96% das exportações para os Estados Unidos. Somados os semimanufaturados, a indústria exportou para lá 69,49% do valor total. Além disso, as vendas para o mercado americano foram 13,5% maiores que as de um ano antes, enquanto as exportações totais foram 0,6% menores. Para a Argentina, o Brasil exportou 22,1% menos que em 2013 - efeito combinado da crise no vizinho e de seu protecionismo. Para a União Europeia, 47,57% das vendas foram de industrializados (33,82% de manufaturados).

Acordos comerciais teriam facilitado o acesso da indústria aos EUA e à Europa, mas isso ficou fora da estratégia petista. Também o investimento - que dinamizaria o setor, aumentando sua competitividade - emperrou nos últimos 12 anos, em parte por mera inépcia administrativa, em parte pela demora do governo em aceitar parcerias com o setor privado.

Quanto à educação - que, como reconhece o ministro, é muito importante para a competitividade e para a inovação -, foi prejudicada pela política populista de apoio ao ingresso no ensino superior. Os níveis básico e médio foram negligenciados e só há pouco o governo descobriu o ensino técnico.

O ministro mencionou insuficiência de ações nos últimos 30 anos. Mas o PT está há 12 no poder. Isso fica fora da conta?


Se é para mudar...

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo 

A burocracia é uma doença de crescimento espontâneo. Não custa nada exigir mais um carimbo, uma declaração

Não, não vamos falar da disparada de Marina. Mas vamos falar de campanha — ou de algumas propostas para melhorar o desempenho econômico.

Ellison, nosso ouvinte na CBN, conta que comprou uma fazenda em Minas Gerais, na qual havia um gerador hidráulico de energia desativado. Nesses tempos de alta na conta de luz, não seria uma boa ideia ativá-lo? Não deu. Ellison topou com tanta burocracia e exigências que acabou desistindo. Perdeu eficiência e ganhou custos.

Pois o mesmo tipo de problema atrapalha — e encarece — atividades tão diversas quanto a concessão de crédito para compra de carros ou o despacho de mercadorias nos portos brasileiros.

O financiamento de veículos vem caindo nos últimos meses. Sim, as famílias estão bastante endividadas e os juros subiram, mas não é só por isso.

Acontece que, de uns tempos para cá, ficou mais difícil para o banco retomar o veículo de um devedor inadimplente. Segundo o pessoal dos bancos e das revendedoras, são mais de 200 dias para se retomar o carro, ou seja, para executar a garantia. Isso quando se encontra o veículo, conta um vendedor.

É preciso acionar a Justiça e a polícia, passando por burocracia e regras supostamente estabelecidas para defender o devedor. Na verdade, isso reduz a segurança do crédito, encarece a taxa de juros para todos e protege o devedor de má-fé.

O crédito explodiu no Brasil por uma combinação de dois fatores: um macro, a estabilidade da moeda; outro micro, novas regras que deram mais segurança para a concessão de financiamentos diversos, como o consignado e o imobiliário. Também os juros para compra de carros eram mais baratos exatamente porque o credor conseguia em prazo razoável a retomada do bem. Daí os 60 meses sem entrada

Mas teve o outro lado da história. Sem experiência, sem educação financeira, muitas famílias tomaram mais dívidas do que podiam pagar. A resposta a isso, nas casas legislativas, no Judiciário, nos movimentos e serviços de defesa do consumidor, foi a criação de normas e práticas que dificultam a execução da dívida.

Em um ambiente de negócios já emperrado pela burocracia, a consequência foi direta: bancos mais seletivos na concessão do crédito, juros e, especialmente, custos indiretos mais altos. E para quem? Para a grande maioria dos que pagam ou que poderiam pagar corretamente.

Eis o ponto: normas e práticas institucionais aumentando o custo Brasil.

Exatamente o que acontece, por exemplo, com os portos. Pessoal do setor conta que as instalações portuárias propriamente ditas — guindastes, contêineres, sistemas — são em geral modernas e funcionam bem. Mas há problemas antes e depois da chegada ao porto — navios e caminhões demoram para entrar e sair — assim como na gestão (despacho, desembaraço das mercadorias, fiscalizações diversas não sincronizadas, papelada da Receita, por aí vai. É a parte do governo.)

Tanto no caso dos financiamentos quanto nos portos, há muita solução que pode ser implementada sem alterar uma única lei. No caso dos empréstimos imobiliários, por exemplo, o governo federal anunciou medidas para reduzir e simplificar a tramitação da papelada nos cartórios e nos bancos.

Mas em outros casos é preciso alterar a legislação. Também por iniciativa do governo, vai ao Congresso lei que facilita a retomada dos carros com financiamento não pago. No setor de concessionárias, essa medida é considerada a mais importante para se retomar o fluxo de empréstimos.

As soluções parecem óbvias, mas não é simples assim. A burocracia é uma doença de crescimento espontâneo. Não custa nada exigir mais um carimbo, mais uma declaração negativa com efeito de positiva (sim, existe isso) ou mais uma vistoria. Tirar é complicado.

Além disso, há uma questão meio cultural, meio ideológica. De um lado, encontra-se a desconfiança de que o cidadão está sempre tentando fazer alguma coisa errada no seu relacionamento com o poder público. De outro, a “convicção” de que as empresas, especialmente as grandes, estão sempre tentando prejudicar o cliente, o fisco e a sociedade.

Ora, quem está de má-fé até gosta desse ambiente que, paradoxalmente, favorece a fraude e a corrupção. Quem está de boa-fé, desiste ou paga mais caro.

Não é fácil mudar. Mas todos os candidatos estão falando de mudança, não é mesmo?

A “presidenta” de volta à cozinha

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

A vida tem sido difícil em 2014 para o governo brasileiro, mesmo estando nas mãos de um partido de vida fácil. Os números do PIB apontam para a recessão, a inflação não cede, e até o prognóstico oficial de que a Copa do Mundo aqueceria a economia teve de ser engolido - já que aconteceu exatamente o contrário. Mas agora tudo ficará mais fácil para o governo popular: começou a campanha eleitoral. Como se sabe, esta é a hora de os brasileiros matarem a saudade do cachorro da Dilma. Com o horário eleitoral gratuito, o PT poderá montar suas histórias sem precisar traficar informação.

Já estava mais do que na hora. Ninguém aguentava mais aquele baixo-astral das notícias sobre espionagem no Palácio do Planalto. Felizmente, a invasão e adulteração criminosa dos perfis de jornalistas na Wikipédia ficou por isso mesmo. O Brasil não tem mais estômago para ficar acompanhando investigação de atos sórdidos. Já basta a novela do mensalão. Deixem os aloprados abrigados no palácio do governo em paz com suas escaramuças malcheirosas. É a única alegria que eles têm. Agora, em vez de ficar difamando Carlos Alberto Sardenberg, o departamento de ficção científica dos companheiros se dedicará de corpo e alma a embelezar Dilma. Chega de sombras, agora é tudo azul. Ou vermelho.

Dilma Rousseff inaugurou suas aparições no horário eleitoral, apresentada no lugar onde o PT acha que a mulher deve estar: na cozinha. Foi a estratégia clara de sua campanha: vai que o eleitorado esqueceu que a "presidenta" é mulher? Sem pensar duas vezes, o comando progressista foi logo mostrando Dilma no meio das panelas. Para o eleitor desatento, que nos últimos anos a tenha achado atrapalhada, lá estava ela preparando um macarrão - e calando definitivamente a boca dos que duvidam de suas capacidades.

Na campanha eleitoral de 2010, quando ninguém tinha visto ainda Dilma Rousseff governando, os filmes procuravam mostrar que ela era uma líder. Numa das cenas, enquanto um locutor avisava que a candidata tinha comando, a imagem a mostrava atirando um osso para o seu cachorro buscar. Ele buscava - e devolvia na mão da dona. Uma prova inequívoca de autoridade presidencial. Em 2014, não será necessário repetir essa cena. Os brasileiros já viram que Dilma e seus comandados pegam o osso e não largam mais.

Eis a questão que dominará a corrida presidencial: como fazer o PT largar o osso, após 12 anos de dentes bem cravados? Não será fácil. Além do referido azedume dos indicadores que prenunciam uma recessão, o esfolamento da Petrobras teve novos capítulos candentes - como as revelações da distribuição de verbas pelo doleiro anexo e a combinação clandestina de perguntas e respostas na CPI. A resposta da opinião pública foi imediata: a avaliação positiva do governo Dilma subiu!

Que fazer diante de tal cadeia de eventos? Como concorrer com uma presidente que faz outras coisas além de macarrão e é aplaudida pelos súditos?

A oposição já tentou de tudo. O PSDB, coitado, a cada eleição tenta parecer mais pobre. Já apresentou o economista José Serra como "o Zé", filho de feirante. Quando concorreu à Presidência, Alckmin virou "o Geraldo". Tentam parecer amigos do Lula (o filho único do Brasil) e escondem o Plano Real, essa jogada neoliberal que o PT consertou - segundo a nova verdade nacional, construída com afinco pela central de inteligência companheira. Experimente desmentir o Império do Oprimido, e você descobrirá seu passado terrível na internet.

Entrevistada no Jornal Nacional, Dilma não respondeu por que ela e seu partido tratam os condenados do mensalão como heróis nacionais e perseguidos políticos. Disse que não comenta decisões judiciais. Alertada de que não se tratava de comentar uma decisão judicial, mas uma posição política, ela se reservou o direito de fingir que não entendeu. E repetiu que não comenta decisões judiciais.

São as maravilhas da campanha eleitoral. A partir de agora, a presidente só comentará que trabalha muito e tem saudades da filha, da neta e do cachorro. Lá vai o Brasil descobrir de novo o doce de coco que é Dilma. Que ninguém estranhe se essa dona de casa sobrecarregada aparecer no horário eleitoral reclamando do preço do macarrão.



A primeira vítima

Alexandre Schwartsman
Folha de S.Paulo

Afirmar que as contas públicas estão organizadas é um acinte; na eleição, a primeira vítima é a verdade

Vários dos 18 leitores devem ter suas contas domésticas agendadas para pagamento por débito automático. Nesse caso, o banco costuma realizar o pagamento mesmo quando os fundos não são suficientes, desde que o cliente tenha acesso ao chamado “cheque especial”, que, aliás, sugiro fortemente ser evitado a todo custo.

De fato, quem precisa usar o “cheque especial” para pagar as despesas do mês por causa de eventuais insuficiências de fundos tem certeza absoluta de que gastou mais do que poderia.

Caso reste ainda alguma dúvida, a chegada da fatura dos juros cobrados sobre saldo insuficiente deve ser mais do que o bastante para convencer o cidadão de que ele deve dinheiro ao banco e que é bom tratar de cobrir o buraco o mais cedo possível, antes que a bola de neve termine por crescer além do sustentável.

Aparentemente, contudo, o governo federal não se considera sujeito ao mesmo tipo de regra. Conforme noticiado pela imprensa, o Tesouro Nacional não tem depositado recursos nas contas de seus agentes financeiros (Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, BNDES) para cobrir algumas das suas despesas agendadas para “débito automático”.

Isso não faz nenhuma diferença para os beneficiários finais (os que recebem, por exemplo, dinheiro dos programas sociais) porque os bancos federais fazem o pagamento em nome do governo, mesmo quando os recursos não são suficientes.

A contrapartida disso, porém, é o aumento do endividamento do governo federal com seus bancos. E, como ocorre com toda dívida, sobre ela incidem juros a serem eventualmente pagos pelo Tesouro Nacional, ainda que não tão elevados quanto os associados ao “cheque especial”.

Ao contrário do cidadão comum, porém, pelos critérios da contabilidade pública, nem os gastos cobertos pelos bancos federais aparecem entre as despesas nem o saldo negativo dessas contas é classificado na dívida governamental. Sabedor disso, o Tesouro ganhou uma “licença para gastar”, conhecida no jargão como “pedalada”, nome que me causa imensa tristeza dada a minha condição de ciclista amador.

Posto de outra forma, os bancos federais financiam o governo, isto é, emprestam-lhe dinheiro, prática em tese proibida pela LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) e que, anos atrás, esteve na raiz da quebra em série dos bancos estaduais.

Há, é bom que se diga, ainda discussão para saber se a operação descrita acima se encaixa no rol de operações vedadas pela LRF (acredito que sim, porém não sou especialista na parte legal), mas resta pouca dúvida de que o espírito da coisa contraria frontalmente as boas práticas de gestão fiscal.

A começar pela falta de transparência. Não se trata da primeira vez (nem certamente a última) em que o Tesouro Nacional é pego às margens das normas contábeis, disfarçando de forma nada discreta resultados fiscais bem aquém das metas fixadas pelo próprio governo federal. Isso só serve para aumentar o descrédito quanto às estatísticas públicas, um retrocesso considerável nos nossos padrões de governança.

Além disso, porém, o fato é que – mesmo sem terem sido contabilizados – os gastos ocorreram, assim como seus efeitos sobre a atividade econômica, a inflação e demais variáveis de interesse. Em particular, a inflação no teto da meta (quando não acima dele) se deve, em boa parte, precisamente às persistentes estripulias com as contas públicas.

A verdade é que a política fiscal, apesar das promessas de austeridade do governo e dos supostos cortes de gastos anunciados no começo do ano, tem sido não apenas bem mais frouxa do que a observada no ano passado mas ainda pior do que os números oficiais nos mostram.

Nesse contexto, a afirmação do ministro da Fazenda (“As nossas contas públicas estão absolutamente organizadas”) chega a ser um acinte aos que têm por ofício acompanhar nosso desempenho fiscal. Assim como na guerra, na época de eleição a primeira vítima é a verdade.

Corda no pescoço

Folha de São Paulo
Editorial 

Juros ao consumidor chegam ao maior valor desde 2011, o que desfaz mais uma das inúmeras fantasias divulgadas pela gestão Dilma

As novas informações sobre as concessões de empréstimos no país, divulgadas pelo Banco Central, evidenciam que também essa área da economia está paralisada, apesar dos esforços do governo.

Pior, os juros do crédito livre (sem destinação específica) ao consumidor chegaram a 43,2% ao ano, um recorde desde 2011. Desfaz-se, assim, mais uma das inúmeras fantasias propagadas pela gestão Dilma Rousseff (PT) --a de que haveria redução nas taxas escorchantes a que as famílias são submetidas.

Não surpreende, pois, que o saldo das operações de crédito tenha desacelerado pelo sétimo mês consecutivo, na comparação com o mesmo período do ano passado. Em julho, houve expansão de 4,6% (já descontada a inflação), menos da metade do padrão observado de 2011 a 2013.

A pequena dinâmica existente deve-se aos bancos estatais. Sua participação no mercado, hoje de 53%, cresceu 18 pontos percentuais desde 2008, quando o governo federal decidiu turbiná-los.

Enquanto isso, os bancos privados, ressabiados com o ambiente econômico incerto, deixaram o saldo dos financiamentos cair 2,8% em relação a dezembro último.

Em termos setoriais, a expansão concentra-se no crédito rural e imobiliário, que são direcionados por lei. Ou seja, as instituições são obrigadas a destinar a essas duas finalidades, com juros mais baixos, um pedaço dos depósitos à vista e na poupança. No segmento livre, as novas concessões estão estagnadas desde 2011.

Natural que seja assim. O crédito, por cerca de uma década, cresceu muito além da economia, complementando a renda salarial e sustentando o consumo. O volume total dessas transações mais que dobrou, passando de 25% do PIB em 2004 para 56,1% no mês passado.

Agora, contudo, as dívidas já representam 45,7% da renda das famílias, segundo dados do BC. As pessoas se sentem com a corda no pescoço, por assim dizer, e ninguém gosta de apertar o nó.

No caso das empresas, a baixa demanda de crédito reflete a falta de confiança na economia.

Verificadas tais tendências, o governo adotou mais medidas de estímulo: reduziu a exigência de retenção de depósitos dos bancos no BC e afrouxou regras prudenciais para empréstimos.

Em paralelo, reforçou a segurança das instituições, com novas diretrizes para o crédito consignado e, no caso de automóveis, maior facilidade para a retomada do bem se houver inadimplência.

Algumas dessas ações até são corretas do ponto de vista regulatório, mas não soa promissor insistir na força do crédito num ambiente de desajuste econômico.

Dilma e a arte de torturar números no debate eleitoral

Veja online

Entre os feitos citados pela presidente e atribuídos a seu governo, houve exagero, mentiras e meias verdades

 Ivan Pacheco/VEJA.com 
A candidata Dilma Rousseff (PT), durante intervalo do debate 
entre os presidenciáveis promovido pela Rede Bandeirantes, em 26/08/2014 

No debate dos candidatos à Presidência da República transmitido pela Band na terça-feira à noite, a presidente Dilma Rousseff mostrou ao público um Brasil com o qual poucos se identificam: inflação sob controle, pleno emprego, estabilidade econômica, alto padrão de consumo, entre outras características que poderiam ser atribuídas a países escandinavos.

Questionada sobre o problema do baixo crescimento econômico, a presidente atribuiu a culpa, como de costume, à crise internacional. Dilma não só parece estar vivendo num Brasil completamente fora desta dimensão, como também mostrou seus argumentos lançando mão de informações equivocadas e meias verdades. O site de VEJA selecionou algumas delas.

Os sete erros de Dilma no debate


Política econômica

O que Dima disse: “Fizemos um compromisso com a questão da estabilidade econômica e cumprimos esse compromisso”

Qual é a realidade: É consenso entre especialistas em gestão pública, economistas e cidadãos brasileiros que acompanham o desenrolar dos assuntos econômicos que estabilidade não é bem a melhor característica que define a economia nos dias atuais. A grande crítica ao governo Dilma é a deterioração do tripé econômico (composto pelo sistema de metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal), um mecanismo criado no governo de Fernando Henrique Cardoso para fazer a economia brasileira a entrar nos eixos. Os dois maiores indicadores da instabilidade econômica são o baixo superávit fiscal e o altissimo deficit em transações correntes. 

O primeiro, que significa a economia feita pelo governo para pagar os juros da dívida, vem se deteriorando desde 2012. Devido ao aumento dos gastos num ritmo mais acelerado que o da arrecadação, o governo não tem conseguido cumprir as metas anuais de superávit. Em 2014, por exemplo, a meta é de 99 bilhões de reais, ou 1,9% do PIB. Até junho, o superávit estava em apenas 34 bilhões de reais, apenas um terço do resultado total. Num intento de maquiar o fracasso fiscal, o governo tem se valido de medidas de contabilidade criativa. 

A última delas foi atrasar os repasses de recursos para a Caixa que devem financiar programas sociais, como o Bolsa Família. Já o deficit em transações correntes mostra um diagnóstico do fluxo de negócios do Brasil com o exterior. É impactado, sobretudo, pela balança comercial. O deficit até julho estava em 49 bilhões de dólares, mas o BC espera que o resultado até o final deste ano fique negativo em 80 bilhões de dólares, ou 3,5% do PIB. Como resultado da deterioração das contas públicas e externas, o país teve sua nota rebaixada pela agência Standard and Poor’s, além de ser considerado, em 2014, uma das cinco economias frágeis, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Inflação
O que Dilma disse: “A inflação está sistematicamente sendo reduzida. Mantivemos a inflação sob controle. Ela está no limite da banda, a mesma situação que ocorreu nos últimos 9 anos.”

Qual é a realidade: Segundo dados do IBGE, a inflação ficou, em média, maior no governo Dilma do que nos quatro anos anteriores. Em 2011, chegou a fechar em 6,5%, no teto da meta, que vai de 2,5% a 6,5% e tem como centro 4,5%. Em 2014, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a estourar o teto em junho, ao atingir 6,52%. Em julho, cravou 6,5%. Assim, não só ela não está sendo reduzida, como tampouco está sob controle. O próprio Banco Central não prevê o retorno do índice ao centro da meta nos próximos 12 meses. 

Duas informações importam nesse contexto. A primeira é que o governo Dilma não perseguiu o centro da meta de inflação, tolerando o patamar máximo de 6,5% como “nova meta” ao longo de todo o governo. A segunda é que, não fossem os malabarismos feitos nos preços administrados para conter o avanço inflacionário, o IPCA teria ultrapassado o teto da meta há muito tempo. 

O governo Dilma atuou diretamente no preço da gasolina, ao impedir a Petrobras de realizar reajustes de acordo com o mercado internacional, além de ter criado uma situação de caos no setor elétrico depois que decretou a redução do preço da energia em cerca de 20%. 

Resultado é que, depois da queda forçada, os preços estão sendo reajustados em 2014 em mais de 30% em alguns estados, o que deverá impactar a inflação nos próximos meses.

Emprego
O que Dilma disse: “O Brasil tem hoje as menores taxas de desemprego da história, mesmo diante da mais grave crise internacional. Geramos, no meu governo, mais empregos do que vocês (PSDB) geraram em oito anos. Em três anos e oito meses geramos 5,5 milhões de empregos.”

Qual é a realidade: A questão da taxa de desemprego tornou-se um problema institucional no governo e gerou uma debandada de funcionários do do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), alegando ingerência. Ocorre que dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) se mostraram conflitantes com aqueles da Pnad Contínua, ambos medidos pelo instituto. Enquanto a primeira, feita em apenas seis regiões metropolitanas, apontava desemprego de 5,4% em 2013, a Pnad, feita em mais de 3 mil municípios, apontava uma taxa de 7,1%. 

Tão logo a pesquisa foi divulgada, em abril, a senadora petista Gleisi Hoffmann protocolou um requerimento no Senado questionando a metodologia da Pnad, o que acabou levando à suspensão da pesquisa mais ampla e à saída de diversos técnicos do instituto. A esse episódio sucedeu-se uma greve de funcionários que terminou apenas em agosto. Sendo assim, desde abril os brasileiros não sabem qual é a taxa de desemprego do país. 

Um retrato mais fiel do mercado de trabalho vem sendo mostrado pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), computado pelo Ministério do Trabalho. Segundo o levantamento mais recente, que corresponde a julho, a criação de empregos naquele mês foi a pior desde 1999. No acumulado do ano até julho, houve contratação líquida de 504.914 trabalhadores com carteira assinada, o pior resultado desde 2009, ano em que o mundo, de fato, passava por uma crise.

Petrobras
O que Dilma disse: “A Petrobras é a maior empresa da América Latina. Passou de um valor no governo do PSDB de 15 bilhões de dólares para 110 bilhões de dólares agora. Houve aumento de valor porque nós concedemos à Petrobras um volume de reservas que permite que ela se transforme em uma das maiores empresas de petróleo do mundo”.

Qual é a realidade: A Petrobras perdeu 52% de seu valor de mercado entre maio de 2008, quando o preço da ação da empresa atingiu seu auge, e os dias de hoje. Se contabilizarmos as perdas apenas até março deste ano, somam 73%. Isso significa que o brasileiro que investiu 1000 reais em papéis da empresa em 2008 tinha em março apenas 270 reais. De março até hoje, as ações da estatal se valorizaram mais de 40% e fizeram com que voltasse a ser a maior empresa de capital aberto da América Latina, desbancando a Ambev. As razões dessa alta, contudo, estão inversamente relacionadas ao sucesso do governo — algo que a presidente Dilma preferiu ocultar. Investidores pararam de penalizar a ação da empresa em março, quando as primeiras pesquisas de intenção de voto mostravam a presidente Dilma Rousseff com um baixo nível de aprovação e um alto nível de rejeição entre os eleitores. 

Com a aproximação das eleições, tanto as ações da empresa quanto a de todas as estatais se valorizaram, com investidores apostando numa mudança de governo. Alvo de corrupção e ingerência, a Petrobras atingiu no governo Dilma o título de empresa de petróleo mais endividada do mundo, com uma dívida de 300 bilhões de reais — maior, inclusive, que seu valor de mercado, que está em 287 bilhões de reais, segundo o Google Finance.

Crise internacional
O que disse Dilma: “Eu acho que o Brasil enfrenta hoje uma coisa que ninguém pode negar: uma das maiores crises internacionais. E, ao enfrentar essas crises, nós recusamos a velha receita que, diante da crise, o Brasil botava a conta para o trabalhar pagar, desempregava, arrochava empregos, aumentava impostos e aumentava tarifas. Nós nos recusamos a fazer isso".

Qual é a realidade: O governo petista tem recorrido à crise para justificar todos os resultados ruins da economia. Mas o fato é que a crise internacional é página virada no mundo todo — menos no Brasil. Exemplo disso é que, em 2014, as projeções de crescimento econômico se mostram mais favoráveis que nos últimos anos para a grande maioria dos países, mas não para o Brasil. Relatório do Barclays aponta que o crescimento médio no mundo será de 3,2% este ano. No caso das economias desenvolvidas, o avanço será de 1,6%. Especificamente os Estados Unidos devem crescer 2%. N

o caso dos Brics, o crescimento médio será de 5,5%, enquanto o Brasil espera um número próximo de zero. Analistas ouvidos pelo BC para elaborar o Boletim Focus apontam alta de 0,7% este ano. Mas as projeções vêm sendo sistematicamente cortadas a cada semana. Estudo da Fundação Getulio Vargas aponta, inclusive, que o país teve recessão técnica no primeiro semestre. Entre os cinco países do globo apontado como frágeis pelo FMI, o Brasil está ao lado de Índia, Turquia, Indonésia e África do Sul. Ou seja, nenhum dos principais afetados pela crise de 2008 constam do levantamento.

Aumento da renda
O que Dilma disse: “Quando se financia empresa brasileira no exterior, a mesa do trabalhador brasileiro recebe de volta o investimento porque assegura empregos aqui, já que todo o fornecimento de equipamentos, bens e serviços lá fora é feito condicionado aos bens e serviços brasileiros. (…) e garante um padrão de consumo para o trabalhador brasileiro que ele nunca teve”

Qual é a realidade: A internacionalização de empresas brasileiras deveria ser motivo de celebração, pois significa vitória do setor privado em meio a um ambiente global cada vez mais competitivo. Ocorre que, no caso citado pela presidente no debate, não é a internacionalização que está em jogo, e sim o financiamento de obras públicas em países de regimes antidemocráticos, como é o caso de Cuba, por meio do BNDES, que, em teoria, tem a função de financiar projetos de desenvolvimento social no Brasil. Afirmar que o financiamento de um porto em Cuba, por exemplo, traz comida para a mesa do brasileiro é um argumento sem dados que possam ser confrontados. 

O que se sabe é que, segundo estatísticas mais recentes do IBGE, a despesa de consumo das famílias desacelerou para 2,2% no primeiro trimestre deste ano em vem mantendo níveis de crescimento 50% inferiores aos da gestão do ex-presidente Lula. Como a inflação está mais alta (6,5% ao ano) e o crédito está mais caro – os juros para pessoa física bateram recorde de 43% ao ano em julho --, a tendência é de deterioração da renda. O crescimento da massa salarial em 12 meses recuou de 5,2% para 2,8%. Enquanto isso, o ritmo de expansão do crédito cedeu de 10% para 6%.

Política externa
O que Dilma disse: "Nossa política, de fato, tem um passo a frente. O Brasil olha para toda a América Latina e a África, e tem uma relação positiva com os Brics. Isso permitiu que criássemos um banco de desenvolvimento dos Brics, com 100 bilhões de dólares que vão permitir o financiamento de infraestrutura".

Qual é a realidade: A política externa tem ocupado os últimos lugares na lista de prioridades da presidente Dilma. O Itamaraty tem sido considerado quase um sub-ministério, sem verba nem prestígio no Palácio do Planalto, e as investidas da presidente para posicionar-se junto a outros líderes têm causado mais saias justas que benefícios ao país. Durante o governo Dilma, houve um distanciamento diplomático dos Estados Unidos, marcado , em especial, pelo cancelamento da visita oficial ao país após o escândalo de espionagem denunciado por Edward Snowden. 

Antes disso, a presidente liderou uma investida truculenta para expulsar o Paraguai no Mercosul e viabilizar a entrada da Venezuela. Ela usou ainda seu tempo de discurso na Assembleia Geral da ONU, em Washington, para criticar duramente os Estados Unidos. Por meio do Itamaraty, a presidente ainda se calou diante de situações gravíssimas de conflitos, como os protestos e perseguições na Venezuela de Nicolas Maduro e o ataque à aeronave da Malaysia Airlines por míssil russo, matando quase 300 passageiros. Por fim, o governo resolveu se pronunciar de forma estabanada sobre o conflito entre Israel e a Palestina na Faixa de Gaza e acabou sendo alvo de chacota internacional, sendo chamado de "anão diplomático". Na criação do banco dos Brics, o país ainda perdeu a presidência da instituição para a Índia. A sede será em Xangai.



Satisfação garantida

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

A campanha vinha meio morna, como de resto ocorre desde que as eleições deixaram de ser uma novidade, passando de exceção a regra repetida de dois em dois anos como parte do calendário nacional.

Aos que sentiam sua falta, eis de volta a emoção pela via da tragédia que abriu caminho à realização de dois tipos de anseios existentes no eleitorado: desalojar o PT do poder e a possibilidade de dar ao próprio voto o sentido de utilidade cívica e bem-estar psicológico.

Os fatores aí envolvidos podem ser a esperança difusa, o protesto à deriva, a admiração por uma figura ímpar em relação ao elenco tradicional ou mesmo a sensação gostosa de ficar ao lado do "bem" imaginando-se partícipe de uma espécie de reinvenção do Brasil.

Seja por qualquer desses pontos ou pela junção de todos eles e outros tantos, fato é que a entrada de Marina Silva no páreo pôs a eleição deste ano em outro patamar, no mínimo despertou o interesse de quem andava desinteressado.

Esse contingente que por ora opta por Marina Silva dando a ela o segundo lugar nas pesquisas, distante do tucano Aécio Neves, derrotando com folga a presidente Dilma Rousseff no segundo turno, não necessariamente escolhe um projeto de País com começo, meio e fim. Até porque isso a candidata do PSB ainda não apresentou.

Nem é certeza de que seja necessário que apresente planos e propostas detalhadas para sentar praça no coração (sim, é mais com corações e menos com mentes que estamos lidando) do eleitorado. No debate da Band, na terça-feira, a candidata do PSB trabalhou basicamente com conceitos. Ou "ideias-força".

Projetos passados, presentes ou futuros, números, índices, resultados e porcentagens ficaram ao encargo da presidente Dilma Rousseff e do candidato do PSDB, Aécio Neves.

O tucano procurando se mostrar como o caminho da mudança segura citando exemplos de sua administração em Minas e, quando provocado, remetendo-se às realizações do governo Fernando Henrique.

A presidente repetidamente forçando comparações com as gestões FH e se perdendo na confusão de dados oficiais na pressa de encaixar a maior quantidade possível de citações de programas de governo na limitação das regras do tempo para cada debatedor.

Marina fugiu desse enquadramento. Numa perspectiva mais realista, isso pode ser visto como ausência de clareza e consistência. Mas, do ponto de vista do eleitor ávido pelo "novo" pode ser percebido como sinal de uma visão diferente.

Em resumo, quais as "ideias-força" de Marina? As seguintes: Dilma não admite erros do governo, mostra "um Brasil que não existe", PT e PSDB querem dividir o País enquanto ela pretende unir. Marina vai governar com "as melhores competências", sempre voltada para as demandas da sociedade e não para os interesses partidários. Além disso, ela, apenas ela, tem uma visão abrangente e não preconceituosa do que seja "elite".

Conta meias-verdades para adaptar a realidade à sua narrativa. Por exemplo: os tucanos jamais foram partidários da dicotomia do "nós" contra "eles", de autoria petista, mas Marina socializa a tese para se diferenciar dos adversários. Cria, assim, sua própria versão dos fatos, repetindo um truque da velha política.

Mas nela não cola. Neste aspecto, tem vantagem semelhante à de Lula: certas características não muito positivas são toleradas simplesmente porque as pessoas só querem enxergar o que convém ao que já elegeram como fonte de alívio de consciência e de bem-estar. Chega um momento em que não estão dispostas e serem importunadas com o contraditório.

Marina terá atingido esse patamar de inviolabilidade? Ainda é dúvida. Certo é que ela mostrou no debate ser competidora dura, bem articulada, embora vulnerável à tentação da soberba.

Mudança de tom

Merval Pereira
O Globo 

A entrada em cena da candidata Marina Silva com ares de favorita tornou a campanha eleitoral mais aberta e franca por parte dela e do candidato do PSDB Aécio Neves. É natural, os dois disputam o mesmo espaço, isto é, a possibilidade de derrotar a presidente Dilma no segundo turno. O próprio Eduardo Campos achava que quem fosse ao segundo contra a presidente venceria as eleições, diante do clamor da sociedade por mudança.

Chegou até mesmo a imaginar um segundo turno entre PSB e PSDB, candidatos de perfis semelhantes que chegaram a vislumbrar uma parceria. Cenário que ficou impossível com a chegada em cena de Marina Silva, uma oposicionista de outro calibre, que exasperou a disputa. Aécio foi o mais atingido pelo surgimento de uma candidatura nova na área da oposição, pois está tendo que mudar o ritmo de sua campanha em plena corrida. Com Campos na disputa, teria tempo para apresentar-se ao eleitor, pois o adversário também teria que se apresentar.

Agora, ao mesmo tempo em que se torna mais conhecido, vai subindo o tom para entrar na disputa com uma candidata que foi poupada em toda a primeira parte da campanha e chegou a ela já com índices vigorosos. A presidente Dilma não pode fazer mais do que tentar convencer o eleitor de que o país não está tão ruim quanto seus adversários dizem. O problema dela, e por isso tem tido um sucesso relativo, é que os eleitores-espectadores sabem o dia a dia que vivem, e não é um filmete publicitário que mudará suas opiniões.

Uma bela sacada de Aécio foi dizer que o sonho de todo brasileiro é viver no mundo virtual da propaganda de Dilma, que é muito melhor do que o mundo real. Tanto é assim que a avaliação de seu governo melhora na margem e não se reflete no número final da votação, que está em queda.

Marina, por sua vez, já entrou no debate da TV Bandeirantes muito mais assertiva do que sempre foi, para enfrentar as tentativas de desqualificação a que será submetida nesses pouco mais de 30 dias de campanha. Terá que esclarecer posições, assumir compromissos e mostrar-se agregadora, que não é exatamente seu perfil de ação pública até agora. A seu favor, poderá dizer que teve de enfrentar interesses encastelados tanto no governo petista quanto nos partidos em que já esteve, e por isso teve atritos.

Aécio está acelerando a apresentação de seu projeto e a explicitação de seus programas, para ganhar crédito como o candidato da mudança segura, como está se apresentando. Desse ponto de vista, anunciar formalmente que o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga será o comandante de sua equipe econômica, ou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é e será seu grande conselheiro, é uma maneira de marcar posição contra Marina, que classifica como uma amadora .

O que atrapalha sua campanha é a ineficiência até agora dos acordos regionais que montou, seu grande trunfo como articulador político. Para quem pretendia sair de São Paulo e Minas com cerca de 5 milhões de votos na frente da presidente Dilma, os resultados até agora são decepcionantes, muito pelo surgimento da opção Marina Silva.

Em SP, Marina está à frente, e Dilma em segundo, mesmo com o PT levando uma surra para governador e senador, o que sugere que a máquina tucana não se move a favor de Aécio. Uma vingança silenciosa pelas campanhas anteriores em Minas não é de se descartar.

Em MG, seu território político, o candidato do PT está à frente na disputa para governador e Aécio aparece quase empatado com Dilma na preferência do eleitorado. Marina reafirma a boa votação que teve em 2010 no Estado, com cerca de 20% das preferências.

No nordeste, onde pretendia reduzir a diferença a favor de Dilma, o candidato do PSDB não está tendo sucesso até mesmo nos Estados onde as dissidências da base aliada teoricamente estariam a seu lado. Na Bahia, Dilma está bem à frente, seguida por Marina. Em Pernambuco, Marina Silva absorveu a força política de Eduardo Campos e está liderando a disputa, seguida da presidente Dilma. No DF, aonde Aécio chegou a liderar, Marina tomou a frente. No Rio de Janeiro, primeiro grande estado em que a dissidência do PMDB surgiu em seu apoio, Dilma lidera com folga, seguida de Marina, relegando-o a um terceiro lugar.

Os dias de setembro dirão se esta é uma situação mutável ou se o quadro está cristalizado fora da polarização PT-PSDB, que prevalece há 20 anos.

Um outro mundo é possível

Percival Puggina

 Assistindo às presidenciáveis no debate promovido pela Band, percebi que vivemos sob a influência de uma ideologia escancaradamente reacionária. Seus adeptos, encilhando-se a fórmulas superadas, se dedicam, por todos os modos, a puxar as rédeas da humanidade e da civilização. Lembrei-me dos Fóruns Sociais Mundiais e de seu slogan - "Um outro mundo é possível". Sim, sim, escrevi eu à época. Um novo Big Bang, uma nova Criação, um novo Paraíso com maçãs para todos.

Foi em nome dessa ideologia que, em abril de 2000, muitos saíram às ruas a vociferar contra o Descobrimento. Quando o MST invade uma propriedade rural, eles chamam de ocupação. Quando se referem ao desembarque dos portugueses em Porto Seguro, falam em invasão. Por algum motivo obscuro ainda não escolheram Cabral, primeiro invasor, como patrono do MST. É claro que se os portugueses tivessem tocado direto para as Índias, nosso país seria hoje o que são as tribos que se mantiveram sem contato com a civilização. Vale dizer: viveríamos lascando pedra.

Essa ideologia, se pudesse, acabaria com o imenso usucapião denominado Brasil. Os negros voltariam à África, os brancos seriam banidos para a Europa e os índios promoveriam uma continental desapropriação do solo e das malfeitorias aqui implantadas. Alerta: os defensores de tão escabrosa geopolítica se aborrecerão terrivelmente se você apontar o racismo embutido em tais conceitos.

Como não poderia deixar de ser, a ideologia em pauta é contra a globalização. Para evitá-la, teríamos que retornar às cavernas de origem e combater o nomadismo como um fenômeno perigoso, precursor do famigerado neoliberalismo.

Ela é, também, contra o grande capital, o que não significa ser favorável ao pequeno capital pois o capital é um bem que degenera enquanto cresce... Melhor e menos suspeito seria não ter capital algum. Idêntico raciocínio leva a rejeitar a grande empresa e a grande lavoura. Se essa ideologia tivesse poder há mais tempo, estaríamos plantando com as mãos, tocando tambor para chover, trocando mercadorias e desinventando o dinheiro. Malthus teria razão e o planeta providenciaria menos 4 bilhões de almoços por dia.

Essa ideologia é contra a democracia representativa, a pesquisa genética, as privatizações, o mercado, a tecnologia. No fundo, deve ser contra, até mesmo, quem agride a natureza lascando suas pedras. Cuidado, porém. Mais alguns passos para trás e a gente vira ameba.

A sociedade, segundo Marina

Demétrio Magnoli
O Globo 

Sua vida política organizou-se ao redor de relações com coleção de ONGs. Seu partido chama-se Rede para marcar uma distância com o sistema político-partidário

No registro do lugar-comum, Dilma Rousseff é associada com qualificativos como rude, ríspida, mandona e autoritária. No mesmo registro, atribui-se a Marina Silva qualidades opostas: suavidade, doçura, flexibilidade, reflexão. A gerente tecnocrática, de um lado; a filósofa da “nova política”, do outro. O lugar-comum é a notação do mundo das aparências. Os primeiros passos de Marina como candidata presidencial oferecem indícios de que o contraste é uma má caricatura — e, ainda, de uma similitude fundamental entre as duas candidaturas.

Marina rejeitou participar das campanhas de Lindbergh Farias (PT-RJ), Geraldo Alckmin (PSDB-SP) e Beto Richa (PSDB-PR), apoiados pelo PSB, sob o curioso argumento de que sua ausência desses palanques fora previamente acordada com Eduardo Campos. O gesto equivale a selecionar exclusivamente os produtos que lhe interessam: da prateleira do presente, ela fica com a posição de candidata presidencial; da prateleira do passado, com um acordo aplicável apenas a uma postulante à vice-presidência. Das fagulhas da manobra oportunista acendeu-se uma fogueira no PSB. Mas a luz desse fogo ilumina algo mais relevante: a crença de Marina de que uma pureza singular proporciona-lhe liberdades políticas excepcionais.

Na réplica à pergunta de um jornalista encontram-se pistas na mesma direção. Indagada sobre sua permanência no PSB caso triunfe na corrida ao Planalto, Marina saiu-se com uma não resposta, articulada na forma de um longo desvio em torno das balizas da “nova política”. Ao sonegar a informação, a candidata circunda uma dúvida legítima de todos os eleitores: afinal, o voto nela tem o potencial de sagrar uma presidente do PSB ou da Rede? Contudo, para além da constatação de que Marina refugia-se em ambiguidades dignas da “velha política”, a não resposta contém um elemento mais esclarecedor.

À pergunta, a candidata replicou, hieraticamente: “Nós não devemos tratar o presidente como propriedade de um partido. A sociedade está dizendo que quer se apropriar da política. E as lideranças políticas precisam entender que o Estado não é o partido, e o Estado não é o governo.” Em tudo isso, há um sopro de justa aversão à putrefata elite política brasileira — e uma crítica pertinente à indistinção lulopetista entre Estado, governo e partido. Entretanto, o núcleo do raciocínio situa-se na palavra “sociedade”, traduzida de modos diversos pelas diferentes correntes de pensamento político. O que é a “sociedade”, segundo Marina?

Segundo Margaret Thatcher, “essa coisa de sociedade não existe”. De acordo com o polo ultraliberal, existem apenas indivíduos que realizam intercâmbios no mercado. No extremo oposto, encontra-se o polo neocorporativista, que define a sociedade como um conjunto de “coletivos” legitimados por um selo estatal. O lulopetismo coagulou essa concepção pelo Decreto 8.243, que institui a “democracia participativa” e normatiza os “conselhos de políticas públicas”. No fundo, o governo está dizendo que a sociedade é uma extensão do Estado, o ente responsável pela seleção dos “movimentos sociais” convidados a se sentar à volta das mesas de negociação.

Mas, e Marina? Dois meses atrás, a então candidata a vice defendeu a substância do Decreto 8.243, que ressurge numa versão preliminar de seu programa de governo. A vida política de Marina organizou-se ao redor de suas relações com uma coleção de ONGs. Seu partido chama-se Rede para marcar uma distância com o sistema político-partidário. Teia de movimentos, de ONGs — eis o sentido do nome cunhado pelos “marineiros”. Na sentença “a sociedade quer se apropriar da política”, não é abusivo ler que o Estado deve estabelecer uma relação preferencial com as ONGs “marineiras”.

À primeira vista, a Marina “doce”, “flexível” e “reflexiva” concorda com um princípio caro ao lulopetismo — ou seja, à “ríspida”, “mandona” e “autoritária” Dilma. Tanto uma quanto a outra, ao que parece, imaginam-se portadoras da prerrogativa de falar pela “sociedade”. A diferença residiria no detalhe: os “movimentos sociais” do lulopetismo não são os mesmos que os do “marinismo”. Nessa linha de raciocínio, não é casual que Marina sinta-se à vontade para ignorar as alianças do partido cuja sigla ostenta diante dos eleitores e para desdenhar da indagação sobre sua filiação partidária na eventualidade da vitória.

Todo o poder às ONGs! — é isso a “nova política” cantada no verso difícil de Marina? O lulopetismo degradou as instituições da democracia representativa, especialmente o Congresso, em nome de uma “democracia participativa” que funciona como metáfora de seu próprio poder. Nessa moldura, o projeto de uma “nova política” vertebrada pelos movimentos “marineiros” significaria mais continuidade que ruptura — e o “novo” seria tão somente um disfarce eleitoral do “velho”.

É cedo demais, porém, para formular diagnósticos definitivos. Marina é uma obra aberta, no sentido positivo da expressão. A evolução do pensamento “marineiro” expressou-se, em 2010, por uma narrativa avessa ao sectarismo, capaz de tecer elogios paralelos à estabilização econômica de FHC e às políticas contra a miséria de Lula. Hoje, na candidata comprometida com a restauração da credibilidade do tripé de política macroeconômica, há poucos traços da senadora petista que votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Um sintoma da abertura à mudança apareceu em suas últimas declarações, segundo as quais “aprofundar a democracia significa a valorização das instituições”, e no alerta de que a versão preliminar do programa não passou pelo seu crivo.

A candidatura de Marina surfa na onda imensa de indignação popular contra a “velha política” — ou seja, a ordem de coisas que estimula o consumo privado sem produzir bens públicos. Nem por isso ela deve ser autorizada a utilizar o refrão da “nova política” como instrumento de prestidigitação.

JN: jato de Campos cai sobre a pose de Marina

Josias de Souza




Duas semanas depois da tragédia que produziu uma reviravolta na corrida presidencial, o jato Cessna que transportava Eduardo Campos e mais seis pessoas caiu uma segunda vez. Despencou sobre a pose de Marina Silva no instante em que ela concedia entrevista ao Jornal Nacional, na noite passada. Abriu-se uma fenda no discurso da candidata. Por um instante, a pregação da nova política, tema compulsivo de Marina, tornou-se vulneravelmente opaca.

O jato foi objeto de uma transação milionária feita por meio de laranjas, disse William Bonner. O negócio não foi informado na primeira parcial da prestação de contas à Justiça Eleitoral, prosseguiu. A senhora, que fala em inaugurar uma nova forma de fazer política, usou o avião como teria feito qualquer representante velha política. Procurou saber quem tinha pago por aquele avião ou confiou cegamente nos seus aliados?

Marina estava diante da primeira oportunidade de dizer meia dúzia de palavras sobre o assunto. Até então, sempre que o tema a abalroava, ela se limitava a transferir a responsabilidade pelo provimento de explicações para o PSB. Acomodada diante das câmeras do telejornal de maior audiência do país, Marina podia tomar distância da encrenca. Preferiu misturar-se ao problema.

Nós tínhamos, William, uma informação de que era um empréstimo, que seria feito um ressarcimento, num prazo legal, que pode ser feito, segundo a própria Justiça Eleitoral, até o encerramento da campanha, tentou explicar Marina. Esse ressarcimento seria feito pelo comitê financeiro do candidato, ela acrescentou.

Professora de formação, Marina soou didática: existem três formas de fazer o provimento da campanha: pelo partido, pelo comitê financeiro do candidato e pelo comitê financeiro da coligação. Nesse caso do avião, seria pelo comitê financeiro do candidato. Essas eram as informações que nós tínhamos.

A senhora sabia dos laranjas?, inquiriu Bonner, incisivo. E Marina: Não tinha nenhuma informação quanto a qualquer ilegalidade referente à postura dos proprietários do avião. Nesse ponto, a candidata preocupou-se em preservar seu ex-companheiro de chapa. Tomada pelas palavras, Marina pareceu dar de barato que eventuais ilegalidades deveriam ser acomodadas sobre os ombros dos donos do avião, não de Eduardo Campos.

Marina prosseguiu: Uma coisa que eu quero dizer para todos aqueles que estão nos acompanhando é que, para além das informações que estão sendo prestadas pelo partido, há uma investigação que está sendo feita pela Polícia Federal.

Na fase seguinte, Marina deixou ainda mais explícita sua pretensão de resguardar o ex-companheiro de chapa: O nosso interesse e a nossa determinação é de que essas investigações sejam feitas com todo o rigor, para que a sociedade possa ter os esclarecimentos e para que não se cometa uma injustiça com a memória de Eduardo.

Por mal dos pecados, a Rede Sustentabilidade divulgara no seu site um texto sobre a participação de Marina no debate presidencial realizado na noite da véspera nos estúdios da Band. Eis o título: Nosso compromisso é de que o Brasil seja passado a limpo, defende Marina.

O texto da Rede recordou que Marina evocara no debate o desejo de mudança da população, explicitado nas manifestações de junho de 2013. Anotou: esse movimento social, para Marina, foi um claro sinal de busca por mudanças e um novo jeito de fazer política. Reproduziu, entre aspas, uma das frases marteladas pela candidata: uma das coisas mais importantes para que a gente possa resolver os problemas, em primeiro lugar, é reconhecer que eles existem.

Pois bem. Bonner esforçou-se para arrancar de Marina um reconhecimento de que o jato convertera-se num problema: candidata, quando os políticos são confrontados ou cobrados por alguma irregularidade, é muito comum que eles digam que não sabiam, que foram enganados, que foram traídos, que tudo tem que ser investigado, que se houver culpados, eles sejam punidos, disse ele.

O entrevistador foi ao ponto: esse é um discurso muito, muito comum aqui no Brasil. E é o discurso que a senhora está usando neste momento. Eu lhe pergunto: em que esse seu comportamento difere do comportamento que a senhora combate tanto da tal velha política?

 Fernando Frazão/Agência Brasil
14.ago.2014 - Funcionários retiram material de campanha de comitê 
das candidaturas de Eduardo Campos (PSB) à Presidência e Paulo Câmara (PSB) 
ao governo do Estado de Pernambuco, no Recife, nesta quinta-feira (14) 

Abre parênteses: numa das crises que ameaçaram o mandato de Renan Calheiros, em 2007, o presidente do Congresso foi pilhado recebendo dinheiro de uma empreiteira. Os recursos bancavam a pensão de um filho que Renan tivera numa relação extraconjugal com uma jornalista. Para justificar-se, o senador dissera que dispunha de renda. Alegara que vendera cabeças de gado de uma fazenda alagoana. Apresentara pseudo-comprovantes.

Ao perscrutar os supostos compradores, a imprensa deu de cara com laranjas. Periciado pela Polícia Federal, o papelório de Renan foi desqualificado. Chamava-se Renato Casagrande (PSB-ES) um dos relatores do caso no Conselho de Ética do Senado. Hoje governador do Espírito Santo, o então senador Casagrande subscreveurelatório que recomendava que o mandato de Renan fosse passado na lâmina. Para salvar o mandato, Renan renunciou à presidência do Senado.

Mal comparando, o episódio do jato é da mesma família. Numa ponta, empresários generosos prestando favores a um político. Em vez de pensão, um avião. Noutro extremo, um laranjal. No miolo da encrenca, muita desconversa e explicações desconexas. Coisas que fizeram de Renan um protótipo da velha política de que tanto fala Marina Silva. Fecha parentêses.

Em que esse seu comportamento difere do comportamento que a senhora combate tanto da tal velha política?, indagou Bonner. E Marina: Difere no sentido de que esse é o discurso que eu tenho utilizado, William, para todas as situações. Inclusive quando envolve os meus adversários. E não como retórica, mas como desejo de quem de fato quer que as investigações aconteçam. Porque o meu compromisso e o compromisso de todos aqueles que querem a renovação da política é com a verdade.

O diabo é que a verdade começara a ser exposta pelo próprio Jornal Nacional, que desnudara na véspera alguns dos laranjas apresentados como financiadores da compra do jato. Numa segunda reportagem, exibida minutos antes da entrada de Marina em cena, revelaram-se novos e constrangedores buracos na rede de ilegalidades.

Submetida ao impensável, Marina disse respeitar o esforço de reportagem. Mas falou como juíza de direito, não como candidata à Presidência: A verdade não virá apenas pelas mãos do partido nem pela investigação da imprensa. Ela terá que ser aferida pela investigação que está sendo feita pela Polícia Federal. Isso não tem nada a ver com querer tangenciar ou se livrar do problema. Muito pelo contrário, é você enfrentar o problema para que a sociedade possa, com transparência, ter acesso às informações.

Bonner fez uma derradeira investida: o rigor ético que a senhora exige dos seus adversários nos faz perguntar e insistir se a senhora, antes de voar naquele avião, não teria deixado de fazer a pergunta obrigatória: se estava tudo em ordem em relação àquele voo. Não lhe faltou o rigor que a senhora exige dos seus adversários?

Marina, de novo, mirou nos empresários. Rigor é tomar as informações com aqueles que deveriam prestar as informações em relação à forma como aquele avião estava prestando serviço. E a forma como estava prestando serviço era por um empréstimo, que seria ressarcido pelo comitê financeiro. Agora, em relação à postura dos empresários, os problemas que estão sendo identificados agora pela imprensa, e que com certeza serão esclarecidos pela Polícia Federal, eu, como todos os brasileiros, estou aguardando.

Prosseguiu: Eu não uso, William, de dois pesos e duas medidas. Não é? A régua com que eu meço os meus adversários, é porque eu a uso em primeiro lugar comigo. E, neste momento, o meu maior interesse é de que tenhamos todos os esclarecimentos. Mas uma coisa eu te digo: a forma como o serviço estava sendo prestado era exatamente essa do empréstimo, que seria ressarcido depois.

Marina teria soado mais Marina se tivesse declarado algo assim: eu viajei nesse jato como candidata a vice. O cabeça da chapa era Eduardo Campos. O usineiro João Carlos Lyra de Melo Filho, que supostamente emprestou o jato, era amigo do Eduardo. Espanta-me a presença de laranjas no negócio. Sou da Rede. Agradeço muito a hospialidade do PSB. Mas o partido precisa explicar o que sucede. Não me consta que os responsáveis pelo comitê financeiro do candidato tenham morrido no acidente.

Noutras questões, Marina não hesitou em desgrudar a sua Rede do PSB. Refugou, por exemplo, os acordos que levaram o partido de Campos para os palanques de políticos como o tucano Geraldo Alckmin. Não fez o mesmo em relação à encrenca do jato porque faltaram-lhe as condições políticas. Tornou-se candidata com o aval da família do morto. Virou uma espécie de viúva política do ex-parceiro. Não quer passar por ingrata. É do jogo. Mas a condescendência custou-lhe a pose.

O cotidiano de um político é uma sucessão de poses. O político faz pose ao acordar, ao escovar os dentes, ao fazer as refeições. No geral, é difícil saber se o altruísmo do político é ou não representado. Em junho de 2013, o asfalto empurrou para dentro do processo sucessório o desejo de mudança. Marina converteu-se na personificação desse desejo porque as ruas enxergaram sinceridade nas suas poses. Recusando-se a enxergar o problema do jato, Marina arrisca-se a virar uma espécie de sub-Marina.