segunda-feira, setembro 01, 2014

Recessão e outros problemas no palanque de Dilma

O Globo 
Editorial 

A retração da economia no primeiro semestre se torna mais grave quando se constata que, no segundo trimestre, houve grande queda nos investimentos

Se fosse possível, os responsáveis pelas campanhas de Dilma e Aécio eliminariam do calendário a semana que passou. Não teriam a má notícia da lépida subida de Marina Silva na última pesquisa do Ibope, confirmada na noite de sexta pelo Datafolha. E a presidente e candidata à reeleição, em particular, escaparia do dissabor de manchar a biografia com a primeira recessão da economia brasileira desde o último trimestre de 2008. A queda de 0,6% do PIB no segundo trimestre em relação ao primeiro — quando já houve uma retração de 0,2%, numa sequência que configura a recessão — consolida, por enquanto, a expectativa do mercado de que a economia não deve conseguir crescer sequer 1% este ano.

“Recessão” é termo forte, de fácil exploração política. Mas estão no palanque de Dilma vários outros problemas, nem todos de fácil entendimento, mas nem por isso menos espinhosos. A baixa confiabilidade do governo Dilma se expressa na queda de 5,3% dos investimentos, no trimestre, também calculada pelo IBGE. É nítida a postura de “esperar para ver” do empresariado neste ano eleitoral.

Há problemas semeados pelo próprio governo. Um deriva da decisão de Dilma/Mantega de manter valorizado o real, para segurar uma inflação renitente. Para isso, o Banco Central executa as tais operações de “swaps”, pelas quais oferece dólares com compromisso de recompra futura. Não gasta o dólar físico das reservas — bastante altas, em mais de US$ 300 bilhões —, mas assume bilionários compromissos futuros. O saldo líquido dessas operações, no momento, seria de US$ 90 bilhões. Tudo isso faz a alegria de especuladores, que realizam a seguinte arbitragem, em explicação simplificada: financiam-se lá fora a juros muito baixos, pegam o dólar e o vendem no “spot”; com os reais, adquirem títulos no Brasil que rendem 11% ao ano. Fazem ainda “hedge” para garantir dólares a uma determinada cotação, num determinado prazo. E toda essa ciranda quase não tem risco porque o BC evita a desvalorização do real, com os “swaps”. Consta que muitos dos bilhões que entram hoje como “investimento externo direto” de multinacionais vêm, na verdade, participar desta ciranda. Eis porque, numa economia em recessão, bilhões de dólares chegam como se fossem investimento. E cuja taxa continua baixa, em relação ao PIB (14%).

Trata-se de uma manobra que não pode durar muito, até porque o Fed está prestes a anunciar que voltará a subir os juros nos EUA. Isso deflagrará mais uma onda de desvalorização de moedas, e o nosso BC não poderá enfrentar essa queda de braço cambial. Na verdade, os “swaps” são mais um puxadinho de política econômica. E com efeitos contraditórios: seguram artificialmente a inflação, junto com o congelamento de tarifas, mas desestimulam as exportações de manufaturados, já com dificuldade de competição por problemas de infraestrutura, burocracia, etc. Dilma e assessores devem torcer para chegar logo outubro.


O que esperar da equipe econômica de Marina Silva

Luís Lima e Talita Fernandes
Veja online

Candidata prevê aumento de gastos com a saúde e a educação, ao mesmo tempo em que prega o ajuste fiscal e a manutenção do tripé. Como fazer a mágica? Ao que parece, nem ela sabe

 (Felipe Cotrim/VEJA.com) 
Para Marina, formação de equipe está condicionada 
ao programa de governo, que será apresentado nesta sexta-feira

Reduzir gastos do governo, dar início à reforma tributária, zelar pela autonomia do Banco Central (BC) e manter o tripé macroeconômico (composto pelo sistema de metas de inflação, câmbio flutuante e rigor fiscal) são algumas das tarefas que devem ser executadas com urgência pela equipe econômica do próximo governante do Brasil, caso tenha a intenção de recuperar o crescimento e a credibilidade do país. O mercado acredita que o candidato tucano Aécio Neves não deve ter dificuldades em empreender medidas necessárias, dado seu DNA político e a presença do ex-presidente do BC Armínio Fraga em seu governo. 

No caso da presidente Dilma, o sentimento é de que uma política de ajustes aconteça de forma mais lenta e frouxa. Já Marina Silva, que despontou rapidamente na corrida presidencial, é a candidata que suscita mais dúvidas nesse aspecto. Seu compromisso com a ortodoxia agrada o mercado. Porém, a falta de um time econômico que valide seu discurso provoca desconfiança. A pouco mais de um mês do primeiro turno, o coordenador da campanha de Marina, Walter Feldman, afirmou ao site de VEJA que não há perspectivas de divulgação de nomes nos próximos dias. “Ainda não há, na cabeça da candidata, esse tipo de discussão”, afirmou. Segundo o peessebista, a prioridade ainda é debater o programa de governo. "É um momento para o eleitorado conhecer os candidatos, que serão os protagonistas maiores do novo papel que o Brasil pode ter. Apresentar a equipe é um modelo de ação. Mas nossa prioridade é debater o programa", afirma. O programa de governo do PSB será apresentado na tarde desta sexta-feira em São Paulo. 

Sabe-se que há dois economistas de peso assessorando oficialmente a candidata: o acadêmico Eduardo Giannetti da Fonseca e o ex-presidente do BNDES André Lara Resende, que também foi um dos principais assessores econômicos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Alexandre Rands, sócio da consultoria Datamétrica e um dos membros da equipe que montou o programa da ex-senadora, considera que Giannetti passou a ter mais influência na campanha após a morte de Eduardo Campos. “Como Eduardo tinha experiência em gestão pública, acabava ouvindo mais pessoas e não relegava sua avaliação a apenas uma opinião. Suas ideias eram mais diluídas. Como Giannetti é mais próximo de Marina, que não é economista, sua figura sai fortalecida", afirma. Contudo, Giannetti já afirmou, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, que não vai integrar a equipe de um eventual governo de Marina. Lara, por sua vez, tem circulado nos bastidores da campanha, sem assumir qualquer responsabilidade como porta-voz econômico. 

Outros nomes, como Marcos Lisboa, vice-presidente do Insper, Bernard Appy, ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, Eduardo Loyo, ex-diretor do BC e Tiago Cavalcanti, professor de Cambridge, são apontados como consultores, mas negam ter vínculo direto com a campanha. Eles colaboraram com artigos e discussões em oficinas temáticas realizadas por Eduardo Campos e Marina em todas as regiões do Brasil, que ajudaram na composição do programa de governo. Neca Setúbal, uma das pessoas mais próximas de Marina atualmente, afirmou ao site de VEJA que a candidata já possui uma equipe gabaritada que dá respaldo ao seu projeto político, o que, segundo ela, é suficiente para o momento. "Não há necessidade em já apresentar ao mercado uma lista de futuros ministros", afirmou Neca, que é uma das herdeiras do Itaú.

O anúncio de um time concreto de economistas, tal como fez Aécio Neves, poderia dissipar grande parte das dúvidas que pairam sobre o discurso econômico da candidata. A necessidade se faz ainda mais presente porque Marina não é economista — e faz questão de criticar o comportamento de 'gerente' de certos governantes. É considerada uma liderança política, não técnica. Situação que colocaria em maior evidência, caso vença as eleições, a figura de seu ministro da Fazenda. “Nesse sentido, Marina se aproxima mais de Lula do que de Dilma e Aécio. Isso aumenta a responsabilidade de sua equipe, que terá um papel fundamental, pois gestores de perfil mais político tendem a delegar mais e interferir menos em temas econômicos”, explicou Bernard Appy, cujo mandato no Ministério da Fazenda ocorreu durante o governo Lula. 

Segundo economistas ouvidos pelo site de VEJA, o que é possível inferir até o momento, tendo em conta o perfil de Giannetti e declarações recentes da candidata, é que um governo de Marina teria características liberais, com menos intervenção no câmbio e nos preços administrados, como no caso da gasolina e energia. Seu discurso sinaliza ainda uma preocupação com a política fiscal. “Uma defesa clara da Marina é o combate ao inchaço do Estado, que beneficia grupos privados específicos”, afirma Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting. Para Otto Nogami, professor do Insper, as bandeiras econômicas de Marina guardam bastante semelhança com o programa do PSDB. "Agora, já é hora de a Marina sinalizar, de forma clara e detalhada, como irá fazer para atingir esses fins", destaca.

Contudo, alguns dados de seu discurso exalam ambiguidade. Marina afirmou que uma de suas prioridades é aumentar de 6,9% para 10% do Orçamento da União a verba para a saúde pública. Segundo cálculos do economista Raul Velloso, tal mudança teria grande impacto fiscal. Especialista em contas públicas, Velloso afirma que, se tal elevação tivesse sido feita em 2013, por exemplo, os gastos extras com a saúde representariam nada menos que 29 bilhões de reais, ou 32% do superávit primário daquele ano. Para um governo que prega o rigor fiscal, tal postura acentua as incertezas. A escola em período integral, bandeira levantada por Campos e endossada por Marina, também precisará ser financiada com verba federal. Para tanto, o PSB afirma que não aumentará o orçamento da educação. Mas tampouco apresentou uma saída fiscal para acomodar tal gasto. Já o passe livre para estudantes, outro ponto defendido por Marina, exigirá desembolsos de 12 bilhões de reais ao ano do governo, segundo previsões do próprio partido. 

Junto com tais medidas, Marina promete criar um conselho fiscal sem vínculo com o governo para acompanhar e avaliar a qualidade dos gastos públicos. Na teoria, o plano é perfeito. Mas como empreender cortes para resolver a situação fiscal e, além disso, aumentar gastos em determinadas áreas? O caminho das pedras, dizem assessores da campanha, será apresentado nesta sexta-feira. Mas é fato que sem cortes de gastos profundos e apoio do Congresso, tais projetos tendem a permanecer no papel. "Se Marina quiser os melhores, tem de estar preparada para contar com o apoio de pessoas que hoje estão com Aécio”, afirma Sérgio Lazzarini, professor do Insper. Neste aspecto, Armínio Fraga, escolhido por Aécio, disse em entrevista a VEJA que não aceitará mudar de lado se seu candidato não for eleito.

Para se aproximar de setores da economia mais reticentes à candidatura da ex-senadora, a equipe de Marina tem recorrido a lideranças empresariais. Os coordenadores da campanha têm se dividido de acordo com os meios onde têm mais afinidade. Um deles é João Paulo Capobianco, que orbita o círculo do agronegócio, segmento onde a candidata tem alta rejeição. A intenção é acelerar o ritmo de integração da equipe de Marina à agenda que havia sido estabelecida por Campos para o setor. Nesta sexta-feira, será oferecido, em São Paulo, um jantar para a ex-senadora na casa de Plínio Nastari, presidente da Datagro, consultoria de açúcar e etanol. A agenda tem sido acompanhada também por Beto Albuquerque, o novo vice da chapa do PSB, que transita com facilidade entre os donos de terra. Dialogar com o agronegócio não será tarefa fácil. Se Marina conseguir converter o diálogo em apoio político, será um bom indício de traquejo — faceta até então pouco conhecida da candidata. 

PSB retira do programa de governo apoio a aprovação do projeto do casamento civil gay

 Isabel Braga
O Globo

Coligação afirma que primeiro texto 'não retratava com fidelidade os resultados do processo de discussão sobre o tema'. Ontem, comando retificou uso de energia nuclear

Márcia Foletto / Agência O Globo
 Campanha de Marina Silva retira de programa apoio a união homoafetiva 

BRASÍLIA - A campanha de Marina Silva, candidata do PSB à Presidência da República, divulgou neste sábado nota retirando o apoio à aprovação de projetos e emendas constitucionais que garantem o casamento civil homoafetivo e à articulação, no Congresso, para a votação do projeto que criminaliza a homofobia. O texto original, divulgado ontem, defendia o apoio a propostas "em defesa do casamento civil igualitário" e a aprovação de projetos de lei e emendas constitucionais que garantissem o direito a esse tipo de casamento na Constituição Federal e no Código Civil.

Na nova versão sobre o ponto do programa LGBT, o programa não defende mudanças legais e traz apenas uma linha sobre o tópico, defendendo apenas a garantia "de direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo" - que já foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal. Além disso, o novo texto não faz menção à aprovação da PLC 122/06, que criminaliza a homofobia. O texto divulgada ontem, defendia articulação no Legislativo da votação do PLC 122/06, que torna crime a discriminação baseada em orientação sexual e na identidade de gênero, equiparando-o aos crimes de discriminação em razão de cor, etnia, nacionalidade e religião.

Há ainda uma outra modificação no tópico referente ao projeto que regulamenta o direito ao reconhecimento da identidade de gênero das "pessoas trans", conhecido como Lei João W. Nery com base no modo como se vestem e se veem, dispensando a morosa autorização judicial, os laudos médicos e psicológicos, as cirurgias e as hormononio terapias. Na primeira versão, havia o compromisso com a aprovação do projeto. O novo texto não se compromete mais com a aprovação. Diz apenas que se ele vier a ser aprovado no Congresso Nacional, vai se "dispensar a morosa autorização judicial, os laudos médicos e psicológicos, as cirurgias e as hormonioterapias".

Outra mudança nos tópicos foi em relação à adoção de crianças por casais homoafetivos. O primeiro texto defendia textualmente eliminar obstáculos à adoção de crianças por casais homoafetivos. A nova versão diz que será dado tratamento igual a casais adotantes, " com todas as exigências e cuidados iguais para ambas as modalidades de união, homo ou heterossexual. Destaca que nos processos de adoção "interessa o bem-estar da criança que será adotada".

MARINA DIZ QUE NÃO MUDOU DE OPINIÃO
Marina Silva negou no início da tarde, durante caminhada na Rocinha, Zona Sul do Rio, ter mudado de posição em relação à defesa dos direitos dos homossexuais.Ela disse que apenas foi feita uma correção do que teria sido publicado erroneamente com a expressão usada pelos movimentos sociais ouvidos pelos coordenadores do programa.

— Independente de qualquer coisa, o nosso compromisso é com o Estado laico, com o respeito às liberdades individuais e religiosas. O Estado laico é para defender os interesses de todos, daquele que crê e o que não crê, independente de cor, orientação sexual ou religião — disse a presidenciável, em uma tumultuada entrevista coletiva, durante visita à favela.

Nota divulgada pela assessoria de Marina neste sábado diz que o texto divulgado ontem, "não retrata com fidelidade os resultados do processo de discussão sobre o tema durante as etapas de formulação do plano de governo (comentários pela internet sobre as diretrizes do programa, encontros regionais e as dinâmicas de escuta da sociedade civil promovidas pela Coordenação de Programa de Governo e pelos candidatos à Presidência pela Coligação)."

Houve mudanças tanto nos tópicos, quanto no texto que baseia o capítulo LGBT. Na versão divulgada ontem, o texto do capítulo fazia referências apenas à questões relativas à comunidade LGBT. Na nova versão, o texto é modificado, com a exclusão de palavras e a inclusão de outras minorias que também têm que ser respeitadas, como crianças e idosos. O texto retirou, por exemplo, citação de estatística de assassinatos com motivaçãop homofóbica em 2012, do Grupo Gay da Bahia.

Na nota, a campanha ressalta que apesar da mudança, mantém o compromisso irrestrito com a defesa dos direitos civis dos grupos LGBT. " Convém ressaltar que, apesar desse contratempo indesejável, tanto no texto com alguns equívocos como no correto, permanece irretocável o compromisso irrestrito com a defesa dos direitos civis dos grupos LGBT e com a promoção de ações que eduquem a população para o convívio respeitoso com a diferença e a capacidade de reconhecer os direitos civis de todos", diz outro trecho da nota.

PSB RETIFICA ITEM SOBRE USO DE ENERGIA NUCLEAR
Momentos depois do lançamento do programa de governo, o comando da campanha de Marina Silva desmentiu a proposta de usar energia nuclear, citado no documento. Segundo a nota enviada pela equipe, houve um erro de revisão e que a política energética do programa será realinhada com foco nas fontes renováveis e sustentáveis (solar, eólica, de biomassa, geotermal, das marés, dos biocombustíveis de segunda geração).

A nova roupa da velha política

Josie Jeronimo
Revista ISTOÉ

No discurso, Marina Silva se apresenta como novidade, mas para chegar ao poder a candidata do PSB recorre a antigas práticas

O currículo da candidata do PSB à Presidência da República, Marina Silva, 56 anos, enumera passagens por pelo menos três partidos, mandatos parlamentares nas esferas municipal, estadual e federal e o comando de uma pasta ministerial num governo do PT. Desde os 30 anos, Marina vive e respira política, nos moldes ditados pelo sistema partidário. Apesar disso, Marina diz encarnar a “nova política”. É enfática em seus discursos ao frisar que não compactua com o vale-tudo eleitoral e o modelo de alianças adotado por PT e PSDB nos últimos 20 anos. A utopia da candidata, ao pregar uma nova era política, rendeu a seus apoiadores o cativante apelido de “sonháticos”. A oratória envolvente de Marina embala milhões de brasileiros desencantados com “tudo o que esta aí”. Com o verniz da “nova forma de fazer política”, ela mascara as antigas e surradas práticas tão presentes em sua candidatura e biografia.


CAIXA2?
Entrevistada pelo "Jornal Naciona", Marina Silva não conseguiu explicar 
o empréstimo do jato utilizado por Eduardo Campos durante a campanha - 
a Polícia Federal investiga a origem do dinheiro usado para comprar o avião

Desde o início da campanha, Marina tem condenado as alianças forjadas única e exclusivamente, segundo ela, para alcançar o poder. No entanto, foi por pura conveniência política, nada menos do que isso, que ela aderiu ao PSB quando precisou escolher entre manter a coerência do discurso ou ficar alijada das eleições de 2014. Em setembro de 2013, antes de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sepultar as esperanças de Marina em lançar candidatura presidencial pela Rede Sustentabilidade, ela produziu um duro artigo contra o PT, comparando a legenda que a criou politicamente a um camaleão que se mimetiza para sobreviver. “Adaptou-se ao que antes combatia”, escreveu. Marina é rígida com as adaptações dos adversários, mas muito sucinta ao explicar seus ajustes.

A composição, por exemplo, com o deputado Beto Albuquerque (PSB-RS), seu vice, exigiu esclarecimentos. Marina é a candidata que diz não receber doações da indústria armamentista, barra projetos do agronegócio no Congresso e não aceita intervenção da ciência no ciclo natural da vida, posições opostas às de seu vice. Nas últimas eleições, o deputado federal Beto Albuquerque recebeu doação de R$ 30 mil da Associação Nacional da Indústria de Armas e Munições (Aniam), que tem como filiadas a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e a Taurus.

Recentemente, Marina reiterou ao PSB sua posição sobre a questão: “Estabelecemos que não iríamos receber nenhum tipo de doação da indústria do tabaco e da indústria bélica. Esses compromissos nós continuamos com eles. É uma mensagem de que defendemos uma cultura de paz. Queremos trabalhar com a ideia de promoção da saúde”, afirmou. Nada disse sobre a arrecadação feita por seu vice.



Em entrevista ao “Valor”, o candidato a vice se justificou: “É claro que ela sabe. Ela não veio para o PSB para ser PSB, assim como não nos coligamos com a Rede para sermos Rede. Nós somos de partidos diferentes” afirmou Albuquerque. O que para os adversários inspiraria um estrondoso rótulo de aproximação por interesse, na nova política de Marina Silva ganhou tratamento diferenciado. “Nós somos diferentes e a nova política sabe trabalhar na diversidade”, argumentou em sua entrevista no “Jornal Nacional”, na noite de quarta-feira 28. 

Marina defende as ideias de seu vice, mas prega distância de outros políticos tradicionais filiados ao PSB, como o deputado federal Heráclito Fortes (PSB-PI) e Paulo Bornhausen, outro ex-integrante do DEM de Santa Catarina convertido ao socialismo. Marina foge para não encontrar os parlamentares nos palanques estaduais. Embora imersa nas águas das velhas práticas, ela não quer parecer contaminada e provoca a ira de antigos militantes. Em tom de provocação, Severino Araújo – presidente do PSB do Paraná, tesoureiro da executiva do partido e ex-secretário de Miguel Arraes – conta que confeccionou 28 milhões de santinhos com a dobradinha de Marina Silva e o tucano Beto Richa, candidato à reeleição no Estado. Ele desafia a candidata à Presidência a vetar o material de campanha e alega que ela sabia dos termos durante o período de convenções. Mesmo assim, permaneceu no partido. “Se ela não quiser foto junto com outros candidatos, tem que fazer outra convenção. Não aceitamos. Essa coisa de nova política não tem a menor lógica. É um sonho, mesmo, como eles dizem.”


Quando confrontada, Marina recorre a um desgastado artifício das velhas raposas. A tática do “eu não sabia” entrou em debate quando a candidata foi instada a responder sobre ilegalidades no processo de compra da aeronave utilizada pelo PSB para os deslocamentos da comitiva da campanha presidencial. O comportamento, típico dos políticos descolados em driblar a opinião pública, veio acompanhado do clássico brado por investigações. “Meu compromisso é com a verdade. A verdade não virá pelo partido nem pela imprensa e sim pela Polícia Federal”, afirmou Marina em entrevista ao “Jornal Nacional”. A PF investiga o caso e uma das hipóteses é que a aeronave tenha sido comprada com recursos de caixa 2. Loteamento de cargos é outro tema favorito da candidata para atacar os adversários. Porém, a amizade de Marina com o governador do Acre, Tião Viana (PT) garantiu cargo de secretário a seu marido, o técnico agrícola Fábio Vaz de Lima. Somente após Marina assumir a candidatura presidencial ele se afastou da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e Serviços Sustentáveis.

Analistas políticos acompanham com cautela a retórica de Marina. Apesar de a prática ser outra, a candidata consegue dizer o que o povo quer ouvir e trabalha bem com o imaginário popular, resume o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Kramer. “Nova política é um rótulo tão gasto que deu nome a uma coleção de discursos de Getúlio Vargas na década de 1950. É um conceito para consumo externo, cativa as grandes massas desencantadas com os partidos políticos”, afirma o especialista.

Bater ou não bater, eis a questão: a estratégia de PT e PSDB para derrotar Marina

Leopoldo Mateus e Alberto Bombig
Revista ÉPOCA

Tucanos e petistas pensam em criticá-la só no final da campanha. Pode ser tarde demais

 (Foto: Paulo Whitaker / Reuters)
 PRIMEIRO ROUND
Marina, Dilma e Aécio pouco antes do debate de terça-feira. 
Tucanos e petistas afiam os golpes contra a líder nas simulações de segundo turno 

"Em 2002, nesta época, eu era vice-presidente da República. Já até comprava o terno para a posse. Terminamos em quarto lugar”, diz o deputado federal Paulinho da Força. Naquela ocasião, Paulinho era candidato a vice-presidente na chapa de Ciro Gomes. Em agosto de 2002, Lula liderava as pesquisas, Ciro estava em segundo – e, nas simulações para um eventual segundo turno, Ciro ganhava de Lula. Essa lembrança faz com que Paulinho veja com ceticismo a ascensão de Marina Silva (PSB) nas pesquisas eleitorais e acredite que o candidato tucano Aécio Neves, principal afetado pela subida de Marina nas pesquisas, ainda possa chegar à segunda fase da disputa.

Ainda assustados com a reviravolta no cenário das sondagens eleitorais após a morte de Eduardo Campos, tucanos e petistas estudam a melhor estratégia para enfrentar Marina. PT e PSDB se prepararam para uma eleição durante meses e, neste momento, disputam um pleito completamente diferente. “Na verdade, começou uma nova eleição. Tínhamos nos preparado para uma campanha. Agora é outra”, afirma o deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG).

O tom do tucano Aécio Neves subiu já na semana passada. Ele afirmou que “o Brasil não é para amadores”, em clara referência à inexperiência de Marina em cargos de prefeito ou governador. Por enquanto, a cúpula de sua campanha decidiu que ele não atacará Marina em seus programas de TV. As declarações mais fortes contra ela deverão acontecer em eventos públicos. A expectativa é que o tom vá subindo de forma gradativa nas próximas semanas. “O PSDB não pode abrir mão do seu lugar: a oposição. Não pode permitir que se apropriem desse espaço que lhe pertence. A estratégia deve ser deslocar o oposicionismo oportunista com a necessária clareza”, diz o senador Álvaro Dias (PSDB-PR).

O plano dos tucanos é associar a imagem de Marina a dois políticos que também se apresentavam como alternativa à política tradicional e tinham pouca estrutura partidária: Fernando Collor e Jânio Quadros. Além disso, eles creem que a campanha deverá expor incoerências de Marina e pontos obscuros da campanha do PSB. Para ser específico: Marina está em seu terceiro partido em cinco anos e surgiram vários mistérios em torno do avião em que Eduardo Campos morreu. Por último, os tucanos pretendem se adequar ao clima emocional que a campanha ganhou após a morte de Campos. A campanha de Aécio, cujo foco era sua capacidade administrativa, deverá passar a dar mais espaço ao “produto Aécio”, envolvendo aspectos como a família e as características pessoais.

O impacto da entrada de Marina na corrida eleitoral trouxe problemas para Aécio até em sua terra natal. Em Minas, ele aparecia com mais de 40% das intenções de voto nas últimas pesquisas. Caiu para 34%. O projeto inicial, abrir em Minas uma vantagem próxima a 2,5 milhões de votos sobre a presidente Dilma, já parece inexequível. Em São Paulo, a avaliação de tucanos ligados ao governador Geraldo Alckmin e ao ex-governador José Serra é que Aécio precisa de um discurso mais firme contra o governo Dilma, para não perder completamente o eleitorado antipetista do Estado. O receio é que Aécio possa ser vítima de uma espécie de “voto útil” dos eleitores antipetistas. Eles poderão enxergar em Marina o melhor caminho para tirar Dilma do Planalto. “A gente sente a pressão, é óbvio, mas não chega a ser contestação. Evidente que há preo¬cupações com todas essas mudanças no quadro. Mas nada que produza qualquer esmorecimento na luta”, diz o senador José Agripino (DEM-RN), coordenador nacional da campanha tucana.


Os estrategistas de Dilma se encontram numa encruzilhada – e que pode ser resumida pelo dilema: “Bater ou não bater, eis a questão”. O dilema tem a ver com dois momentos recentes das campanhas do partido. Em 2012, o então candidato a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, chegou ao segundo turno após ter criticado à exaustão uma proposta de Celso Russomanno (PRB) – naquela eleição, ele fazia o papel de terceira via entre PT e PSDB. Russomanno falou que o preço da passagem de ônibus, em sua administração, seria proporcional ao percurso percorrido. Isso penalizaria a população mais pobre, que mora longe do centro de São Paulo.  O PT soube explorar isso e turbinar a campanha de Haddad. Esse caso é visto como inspirador e estimula os petistas a ir para cima de Marina. Existe, no entanto, um exemplo oposto. Em 2008, também na eleição municipal em São Paulo, Marta Suplicy, em queda nas pesquisas, levou ao ar no rádio e na televisão um programa com questionamentos sobre a vida privada de seu adversário Gilberto Kassab. “Você sabe mesmo quem é o Kassab? É casado? Tem filhos?” A insinuação de mau gosto teve o efeito de uma bigorna amarrada aos pés de Marta. Ela perdeu a eleição.

O marqueteiro de Dilma, João Santana, também responsável pelas campanhas de Haddad em 2012 e de Marta em 2008, busca uma síntese entre esses dois caminhos. A estratégia é semelhante à dos tucanos: bater pouco agora, ir aumentando gradativamente. A campanha de Dilma deverá começar a atacar Marina Silva a partir do mês que vem, com mais intensidade na reta final do primeiro turno. Por duas razões. Primeiro, porque pesquisas internas do PT sugerem um risco, ainda pequeno, de Marina virar presidente já no dia 5 de outubro. Segundo, porque Marina não poderá chegar ao segundo turno com uma taxa de rejeição muito abaixo da apresentada hoje por Dilma. Na segunda fase da eleição, a rejeição tem um peso fundamental.

Há ainda uma corrente do PT que defende críticas incisivas a Marina por parte do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem ela foi ministra do Meio Ambiente. Neste momento da campanha, Lula deverá ser preservado. De imediato, os ataques petistas se concentrarão nas redes sociais e questionarão as posições pessoais de Marina em relação ao aborto e à união civil entre pessoas do mesmo sexo, que a aproximam de um campo mais conservador. Enquanto tucanos e petistas se esforçam em busca de um antídoto contra Marina, os aliados dela se preparam. “Espero que todo mundo bata o quanto puder, porque apresentaremos propostas e programa de governo. Bater não funciona”, diz o presidente nacional do PSB, Roberto Amaral. Ele quer evitar o nocaute – e, no mínimo, levar Marina a uma vitória por pontos.

Por que o Brasil patina?

Alexa Salomão  
O Estado de S. Paulo

Cinco economistas tentam explicar os motivos pelos quais a economia brasileira não consegue mais crescer

Bernard Appy, diretor da LCA Consultores. “Historicamente, o Brasil vem tendo um crescimento aquém do esperado por causa de três fatores: baixa taxa de investimento, porque o País poupa pouco, queda na produtividade e, mais recentemente, aumento da desconfiança entre os empresários, o que também contribui para prejudicar as decisões de investimento. Essa desconfiança foi provocada pela deterioração e pela falta de transparência nas contas públicas e por uma inflação renitente, mesmo com o represamento das tarifas públicas, o que alimenta a expectativa de que haverá inflação no futuro. A esses problemas, boa parte deles estruturais, somou-se outro fator. Houve o esgotamento de um ciclo que ocorreu nos últimos anos puxados pelo crescimento da economia mundial, até a crise, e pela expansão forte do crédito no Brasil, especialmente para pessoas físicas. À medida que o endividamento das famílias aumentou, perdeu-se espaço para que essa expansão fosse mantida nos moldes em que vinha ocorrendo.”

Fernando Nogueira da Costa, professor da Unicamp. “O PIB trimestral que estamos vendo é um problema que acontece uma vez e não se repete. A Copa praticamente paralisou a produção no País. As empresas praticamente pararam. Todo mundo aproveitou, descansou. Agora, não dá para reclamar. Também precisamos considerar que um dos grandes fatores do dinamismo da economia do Brasil é o fato de o País ser um dos maiores produtores e exportadores de alimentos e de matérias-primas do mundo. Teve ganhos com a alta dos preços internacionais até 2008, quando veio a pior crise desde 1929. A bolha explodiu e as exportações perderam dinamismo. O País também foi afetado pela produção de petróleo. Houve uma queda e foi preciso importar mais. Quando tiramos as importações de petróleo, na média, o Brasil tem superávit comercial de US$ 25 bilhões. Ainda cresce mais que os países de economia avançada. Olhando no longo prazo, desde 2003, na média, o crescimento do Brasil acompanha o da economia mundial. Também devemos considerar que a taxa de desemprego permanece baixa.” 

Marcos Lisboa, vice-presidente do Insper. “Uma agenda de intervenções jogou a produtividade para baixo. Primeiro, ela comprometeu a indústria. Agora chegou ao setor de serviços, que estava bem e sustentava um paradoxo: o País ter taxas de desemprego baixas apesar de a economia não ir bem. A perspectiva do emprego para os próximos 12 meses não é positiva. O que estamos vendo não é um simples ajuste. A perda de produtividade é estrutural e reduziu o crescimento potencial. Enfim, a capacidade de produzir bens e serviços ficou menor. O governo atribui o problema à retração internacional, mas o argumento não se comprova quando se compara o Brasil com outros países. A economia mundial cresceu quase 4% ao ano entre 2002 e 2010, ante 3,3% nesta década, comportamento semelhante ao da América Latina. O Brasil, porém, foi de 4% para 2% no período, devendo crescer menos de 1% em 2014. As taxas de crescimento latino-americanas, por sua vez, são maiores do que as apresentadas em anos anteriores à crise.”

Monica De Bolle, sócia diretora da Galanto. “Caímos nessa armadilha de baixo crescimento por erros na política econômica. Um exemplo: levaram o Banco Central para um caminho muito ruim, de experimentalismos. Ele adotou as tais políticas macroprudenciais, que nunca souberam explicar o que era. Primeiro, foi frear a valorização do câmbio. Um belo dia, virou outra coisa. O Banco Central deveria cuidar do regime de metas de inflação e já não há nem clareza sobre qual é a meta. Oficialmente é o centro da meta, de 4,5%. Mas todo mundo sabe que a meta é ficar abaixo do teto, de 6,5%. Outro exemplo de erro foi o das desonerações. A ideia de reduzir carga tributária no momento de baixo crescimento não é ruim. Mas pareceu que nem o governo acreditou no resultado, porque em vez de oferecer para todo mundo, foi implantando devagar, setor por setor. Com isso, criou incertezas. Os setores beneficiados ficaram na dúvida se era ou não para sempre e não cumpriu o plano de investimento. Quem não recebeu, não fez nada esperando a benesse. A forma com foi feita desincentivou os investimentos.”

Vinicius Carrasco, professor na PUC-Rio. “É impensável que um País como o Brasil não possa crescer. Assim, acredito que uma combinação de políticas ruins e incerteza debilitou a economia. O crescimento de longo prazo está ligado à capacidade de se produzir mais e melhor - ou seja, está do lado do que chamamos de oferta. Mas as políticas focaram no consumo até a exaustão, deixando de lado melhorias na oferta dos produtos. O gargalo de infraestrutura evidencia isso. As estradas, os portos, as ferrovias são piores do que deveriam ser. Todos sabiam que era preciso investir em infraestrutura, mas o governo demorou. Criar um cenário futuro também importa. Empresários olham para a frente quando vão investir; empreendedores, quando buscam espaço para inovar. Quanto maior a incerteza em relação às regras, menor é a disposição para investir. Outra coisa preocupante neste momento é que entramos em recessão técnica com uma inflação no teto da meta - quando recessão costuma a ser acompanhada de queda de inflação. Essa peculiaridades nos coloca dentro de um cenário de estagflação.”

Mantega usa tática do avestruz: "Brasil não está em recessão"

Veja online
Com informações Agência Reuters 

Diante da constatação técnica de duas quedas trimestrais seguidas do PIB, ministro da Fazenda culpa Copa e crise externa por redução, em postura que prejudica ainda mais a confiança dos analistas na economia

(Ueslei Marcelino/Reuters/VEJA) 
"É meramente efeito estatístico 
pelo resultado negativo do segundo trimestre", diz Mantega 

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta sexta-feira que, em sua opinião, o Brasil não está em recessão. "É meramente efeito estatístico pelo resultado negativo do segundo trimestre", disse horas depois do anúncio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de que o Produto Interno Bruto (PIB) do país caiu pelo segundo trimestre consecutivo, o que configura, sim, recessão técnica.

Mantega, de qualquer forma, parece não concordar com os economistas e dá opinião que não se sustenta diante dos dados técnicos: "Recessão é quando você tem desemprego aumentando e renda caindo. Aqui temos o contrário", analisou. Os números oficiais apontam que a economia brasileira registrou contração de 0,6% no segundo trimestre de 2014 na comparação com os três meses anteriores, nos quais houve queda de 0,2% em dados revisados. Após o anúncio,  Mantega confirmou que o Brasil não irá crescer 1,8% em 2014, conforme a última previsão do governo. Segundo ele, a sua pasta deverá fazer uma revisão para baixo dessa estimativa oficial em setembro.

O ministro abusou das desculpas para minimizar o anúncio de recessão, em um procedimento que costuma utilizar todas as vezes que surgem análises ou notícias ruins sobre a economia nacional, reforçando assim a desconfiança de investidores e analistas com os rumos do país.

Mantega declarou que a economia nacional foi afetada pela menor quantidade de dias úteis na primeira metade do ano e que espera uma recuperação moderada nos próximos meses. "No terceiro trimestre vamos ter 10% a mais de dias úteis. É como termos 10% a mais de produção e comércio", afirmou.  

Além disso, diz ele, também pesou na economia do país a política monetária do Banco Central (BC), que elevou a Selic a 11% para tentar segurar a inflação, que já é alta e ronda o teto da meta do governo, de 6,5% ao ano. Nas contas de Mantega, esse movimento causou restrição de consumo e demanda. 

Ele admite que o resultado do PIB no segundo trimestre ficou aquém das expectativas do governo, mas aproveitou para pôr a culpa mais uma vez no cenário internacional. Mantega acrescentou que acredita na melhora na economia de países como Estados Unidos e Reino Unido, o que deve ajudar nos números do Brasil.

E as desculpas não acabavam. Também citou "problemas localizados" no país, como a seca, que acabou aumentando os custos no setor energético. 

Para Mercado, PIB não passa de zero em 2014

Exame.com
Flavio Leonel, Maria Regina Silva e Vinicius Neder, Estadão Conteúdo

Pesquisa feita com 20 instituições do mercado financeiro mostra que nenhuma das projeções de crescimento do PIB ultrapassa os 0,8

Ueslei Marcelio/Reuters 
Guido Mantega: Até o Ministro da Fazenda 
disse revisará sua projeção, de aumento de 1,8%

São Paulo e Rio - A retração de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre em relação ao primeiro deflagrou uma onda de revisões nas projeções para o crescimento da economia.

Uma pesquisa feita com 20 instituições do mercado financeiro pela 'Agência Estado' mostra que, na média, os analistas esperam uma alta de 0,35% no PIB neste ano e nenhuma das projeções ultrapassa os 0,8.

Até o ministro da Fazenda, Guido Mantega, revelou que o governo vai revisar sua projeção, que hoje indica um aumento de 1,8%. Antes da divulgação ontem do PIB, o Boletim Focus, pesquisa do Banco Central (BC) com cerca de 100 instituições, apontava projeção média de crescimento de 0,7% neste ano.

Para o terceiro trimestre, o cenário traçado pelos 20 analistas financeiros pesquisados também não é dos mais animadores. As previsões preliminares vão de uma queda de 0,1% a uma expansão de 0,8% em relação ao segundo trimestre - alta de 0,2% na média.

Entre a maioria dos economistas consultados, a perspectiva para o PIB no segundo semestre é um pouco melhor do que a observada no primeiro, quando houve expansão de 0,5% em relação a igual período de 2013, mas o cenário esperado seria insuficiente para reerguer a economia.

Efeito Copa.
"A expectativa é de alguma retomada leve da atividade em agosto devido basicamente a mais dias úteis", comentou o economista Henrique Santos, da gestora ARX Investimentos, lembrando do efeito da Copa do Mundo.

Para o último trimestre, a ARX trabalha com estimativa preliminar de expansão entre 0,5% e 0,6% ante o terceiro trimestre, mas isso não seria suficiente para recuperar o resultado do acumulado de 2014, que deverá ser de apenas 0,1%.

Após os dados do PIB do segundo trimestre, a consultoria Tendências revisou a projeção para 2014, de um crescimento de 0,6% para avanço de apenas 0,3%. "Teria de haver uma recuperação muito forte da economia, o que não me parece factível, dado que os indicadores (já divulgados) não apontam isso", argumentou o economista Rafael Bacciotti.

Segundo a Associação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO), o crescimento das vendas de em julho sinaliza uma recuperação da economia, após três meses consecutivos de desempenho negativo.

O papelão ondulado é usado nas embalagens de diversos produtos e suas vendas costumam indicar avanços e retrações na economia.

O economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, está no piso do levantamento da Agência Estado. Para Oliveira, a confiança em queda reforça a percepção de baixa até no atual trimestre. Para o último quarto do ano, o banco espera avanço de 0,20%, o que levaria a crescimento zero em 2014. 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Brasil está à frente só da Ucrânia em ranking de crescimento no mundo, diz consultoria

Ronaldo D'ercole
O Globo

Para Austin Rating, situação econômica leva à perda da confiança

SÃO PAULO - A queda de 0,9% do PIB no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2013 coloca o Brasil próximo da lanterna do ranking de crescimento dos países, só à frente da Ucrânia, que vive uma guerra civil e amarga uma contração de 4,7%.

Editoria de Arte


De acordo com uma lista de 37 países compilada pela Austin Rating — com base em dados dos bancos centrais, da Eurosat e do Banco Mundial —, o desempenho da economia brasileira no trimestre passado foi pior não só que o de países desenvolvidos que ainda sofrem com os efeitos da crise de 2008, mas também que a da maioria dos emergentes e do que economias europeias que quase foram a pique recentemente, como as da Grécia (que teve queda de 0,2% no trimestre), de Portugal (que agora cresceu 0,8%), e Espanha (que avançou 1,2% no trimestre passado).

— Esses dados deixam evidente que o Brasil tem profundos problemas na gestão da economia doméstica, com uma política fiscal que vai contra a monetária, que resulta em juros altíssimos e inflação alta e a atividade em retração. O que leva à perda da confiança entre empresários, consumidores e analistas e só piora o quadro — avalia Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.

Para ele, a posição do Brasil seria ainda pior no ranking — é o 36º colocado numa lista de 37 países — se Índia, Canadá e República Checa, entre outros países, tivessem divulgado seus números.

— O governo nem pode alegar os problemas de Venezuela e Argentina, porque outras economias latino-americanas, como Peru (11,7% de crescimento no segundo trimestre), México (1,6%) e Chile, (1,9%) vão bem — acrescenta Agostini, para concluir: — É um desempenho desastroso e que não gera grandes expectativas para o futuro.

Metade dos principais setores da indústria tem perdas na produção desde 2008

Martha Beck
O Globo

Levantamento do Iedi mostra que produção caiu em 12 de 23 segmentos nos últimos seis anos

BRASÍLIA e RIO - Mesmo com desonerações bilionárias, redução de juros e incentivos ao crédito e ao investimento, mais de metade dos principais setores da indústria ainda não conseguiu se recuperar da crise mundial de 2008. Isso é o que mostra levantamento elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) com exclusividade para o GLOBO. O trabalho analisa o desempenho da produção de 23 setores da indústria nos últimos seis anos. Deste total, 12 apresentaram queda. É o caso da indústria têxtil (-29,6%), de fabricação de produtos de informática, eletrônicos e ópticos (-25,1%) e veículos (-24,3%).

— A produção de vários setores ainda não voltou ao nível pré-crise. É algo muito forte. Isso mostra que houve uma desindustrialização — afirma o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, que participou da elaboração do estudo.

Para Almeida, o resultado ruim é uma combinação de baixa produtividade e concorrência internacional acirrada, especialmente com a China, e desaquecimento da economia global. O presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein, tem a mesma avaliação e destaca que esses problemas criaram um desânimo generalizado entre os empresários. Para ele, a perspectiva de qualquer melhora ainda está distante:

— No setor de calçados, houve queda de 7,7% no nível de emprego este ano e os investimentos caíram. Houve uma clara desindustrialização e não há sinal de reversão do quadro a curto prazo.

Klein avalia que o governo agiu corretamente para tentar minimizar os efeitos da crise sobre a indústria, mas ainda deixou a desejar:

— A desoneração da folha de pagamento das empresas, por exemplo, foi boa, mas o Reintegra (que concede créditos tributários aos exportadores) teve problemas — disse.

— Existe uma desindustrialização que aumenta a cada dia — afirma o diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), Fernando Pimentel. — Há um desalento com o quadro atual.

Leo Martins 
Confecção Camarim, no Recreio, que fornece para marcas 
do Rio e de São Paulo: setor teve queda de 18,7% 

Para Pimentel, os problemas internacionais surgidos com a crise de 2008 se agravaram pelas fragilidades internas do Brasil, como carga tributária alta e complexa e deficiência de infraestrutura. Ele também aponta problemas na política externa:

— Nossas relações internacionais nos deixaram amarrados no Mercosul e fizemos acordos comerciais com países de mercado pequeno.

Os empresários reclamam do aumento nas importações. Para Luiz Fernando D’Aguiar, diretor-executivo da Werner Tecidos, isso prejudicou a indústria nacional.

— A Werner vende tecidos de alta moda. Outras empresas que fabricam tecidos mais baratos sofreram um impacto violento vindo da China porque o volume de produção lá é muito alto e barato, apesar de a qualidade não ser tão boa. Não tem como a indústria brasileira competir com a chinesa — afirma.

Sandra Oliveira, uma das sócias da Confecção Camarim, fornecedora de roupa para lojas conceituadas do Rio e de São Paulo, também atribui a queda do setor ao maior volume de importação de países como China e Índia e pondera que os altos custos da matéria-prima do país, de impostos e de mão de obra torna a competição mais difícil. O setor de confecção tem perdas de 18,7% desde 2008, segundo o Iedi.

— É a crise mais forte desde que estou neste ramo — diz Sandra, que trabalha no setor há mais de 20 anos.

O presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, por sua vez, tem uma visão mais otimista. Representante do setor que mais recebeu ajuda do governo desde a crise — com desonerações de IPI, proteção de indústria nacional e medidas para estimular o crédito para a compra de automóveis — ele considera que o pessimismo dos empresários está relacionado ao fraco desempenho da economia no primeiro semestre de 2014, que foi agravado pelo fato de a Copa do Mundo ter reduzido o número de dias úteis, afetando a produção e as vendas:

— Alguns de nossos indicadores internos mostram que teremos um segundo semestre melhor.

Cosméticos e bebidas avançam com classe média
O cenário dos últimos seis anos não foi ruim para todos os setores. O trabalho do Iedi destaca que alguns conseguiram superar a crise e elevar sua produção. Neste grupo, estão a fabricação de produtos de limpeza e cosméticos (com alta de 18,7% nos últimos seis anos) e bebidas (21,6%). Segundo o ex-secretário, esse resultado se deve principalmente ao surgimento da nova classe média:

— Quem se deu bem nesse período, o fez por causa da classe C, que está consumindo mais.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), João Carlos Basilio, destaca que esse fenômeno ajudou a preservar as empresas desse segmento no Brasil:

— Vimos maior acesso das classes D e E a esse tipo de produtos e também a classe C buscando itens de maior valor agregado.

Mesmo assim, o presidente da Abihpec vê com preocupação o quadro atual da economia, lembrando que está difícil fazer projetos de investimento de longo prazo no Brasil.

A equipe econômica se defende afirmando que o clima de pessimismo não é prerrogativa brasileira e se deve ao fraco desempenho da economia mundial. Segundo os técnicos, no Brasil, há ainda o agravante do cenário eleitoral, que cria incertezas.

— A crise internacional bateu em cheio na indústria de transformação. Quando exportam menos, as empresas ficam com estoques e se não conseguem vendê-los no mercado doméstico, isso afeta o emprego e a produção — afirmou um técnico do governo.

Mesmo assim, o Ministério da Fazenda acredita que o quadro tende a melhorar já no segundo semestre de 2014. Ao anunciar incentivos ao crédito na última quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que a confiança dos consumidores está aumentando, o que deve elevar o consumo e reduzir os estoques.

Reformas para superar o ‘pibinho’

Alexa Salomão  
O Estado de S. Paulo

Economistas de diferentes tendências apontam os caminhos para o Brasil não repetir o resultado fraco do PIB, como o do segundo trimestre

O Brasil teve dois trimestres consecutivos de retração no Produto Interno Bruto (PIB), indicador que mede a geração de riqueza das nações. Na teoria acadêmica, tal situação indica que o País encolheu e sofre recessão técnica. Alguns analistas dizem que não é para tanto e que há estagnação. O governo alega que o problema é momentâneo por causa da Copa, da seca e da crise internacional. Semântica à parte, o fato é que o Brasil crescia pouco e agora anda para trás, com efeitos sobre o emprego e a renda. 


No grupo alinhado com o governo está o professor Fernando Nogueira da Costa, da Unicamp, que lecionou para a presidente Dilma Rousseff quando ela estava no doutorado. Para Costa, foram eventos momentâneos, como a Copa, que frearam o crescimento. 

Boa parte dos economistas que estudam os altos e baixos do PIB discordam. Um deles é Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica no governo de Luiz Inácio Lula da Silva e hoje vice-presidente do Insper. Para Lisboa, o potencial de crescimento do Brasil caiu. A queda aparece nos números que medem a produtividade. 

Há uma perda de produtividade que reduziu o potencial de crescimento do Brasil.

De maneira simplista, ter produtividade significa fazer mais e melhor com o mesmo. Exemplo: elevar a produção de 100 para 150 carros com o mesmo número de trabalhadores, de máquinas e de dinheiro. Essa mágica é possível graças a avanços paralelos: trabalhadores com uma educação mais sofisticada e o uso de equipamentos mais modernos. Segundo Lisboa, de 2003 a 2010, a produtividade cresceu, em média, 1,6% ao ano. De lá para cá, estagnou. “Há uma perda de produtividade que reduziu o potencial de crescimento do Brasil.” 

Na avaliação de Vinícius Carrasco, professor da PUC-Rio, esse declínio não foi acidental e a recuperação não virá de uma reação espontânea da economia. Carrasco tem essa convicção porque é um dos autores do estudo “A Década Perdida - 2003 a 2012”, que compara indicadores brasileiros com um conjunto de outros países. A conclusão: o avanço foi menor do que poderia. “Não foram criadas condições para se ter uma produção mais eficiente”, diz. 

É melhor ele ter um celular e pegar três serviços por dia do que empregar 
e atender dez clientes - é perda de produtividade na veia.

Reverter o “pibinho” não é fácil. O primeiro passo, segundo Monica de Bolle, diretora da consultoria Galanto, é reconhecer o erro. Só isso abre espaço para a mudança. Bernard Appy, ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, acredita que as mudanças dependem de microrreformas, como a tributária. O sistema de cobrança de impostos é distorcivo e incentiva que as empresas não cresçam. “Se um eletricista ganhar R$ 3 mil por mês e for microempreendedor individual, paga 1,3% da receita em tributos. Se for dono de empresa do Simples, 10,5%”, diz Appy. “É melhor ele ter um celular e pegar três serviços por dia do que empregar e atender dez clientes - é perda de produtividade na veia.”

Tesouro atrasa repasse de R$ 19,5 bilhões a programas sociais

Veja online

Do montante, R$ 17 bilhões já deveriam ter sido transferidos ao FGTS e outros R$ 2,5 bilhões ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT)

(Daniel Teixeira/AE/VEJA) 
Balanço da Caixa está sendo prejudicado com os atrasos 

O Tesouro Nacional tem atrasado a transferência de 19,5 bilhões de reais a dois fundos ligados a programas sociais: o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Segundo informações do jornal O Globo, esse dinheiro está depositado, ainda, no caixa único do Tesouro, numa estratégia que ajudaria o governo na conta do superávit primário, que é economia feita para o pagamento dos juros da dívida.

Deste total, 17 bilhões deveriam ter sido transferidos ao FGTS e o atraso pode, segundo fontes de O Globo, prejudicar as contratações de novas moradias a médio e longo prazo, uma vez que é permitido usar parte do fundo para compra de imóveis. A expectativa é que o assunto seja discutido no Conselho Curador do fundo na semana que vem. Cerca de 10 bilhões do montante devido ao FGTS diz respeito à contribuição adicional das demissões sem justa causa que o Executivo retém desde 2012. Outros 7 bilhões são de subsídios do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). O desconto no preço dos imóveis do MCMV é arcado, em grande parte, pelo FGTS. 

No caso dos 2,5 bilhões devidos ao FAT, existe uma previsão de que, em caso de atraso no repasse, a Caixa Econômica arque com a despesa e depois cobre a conta do Tesouro, com correção. O FAT é responsável por benefícios sociais como o Bolsa Família e o seguro-desemprego.

O problema é que a Caixa está sendo prejudicada pelo movimento e já foi questionada  pelo Banco Central sobre as discrepâncias em seu balanço. Ela é responsável pelos pagamentos de benefícios sociais, mas a maior parte deles é financiada com dinheiro do Tesouro Nacional e uma minoria com recursos de Estados e municípios. Entre julho de 2013 e julho deste ano, só o pagamento do seguro-desemprego já teria tomado 2 bilhões de reais de seu caixa.

Diante do impasse, a Caixa recorreu à Advocacia-Geral da União (AGU), que, por sua vez, criou uma câmara de conciliação entre ela e a União. Segundo fontes, a Caixa quer se respaldar juridicamente para fazer frente aos questionamentos do BC. No centro dessa discussão, segundo o jornal Folha de S. Paulo publicou na quarta, está um valor superior a 1 bilhão de reais que ficou preso nos cofres do Tesouro em abril. 

Procurado pelo jornal, o Tesouro disse que os repasses para benefícios sociais, como o Bolsa Família, seguem a programação financeira e que não há anormalidade de transferência. Mas, não se pronunciou sobre o atraso nos repasses ao FGTS. 

Superávit - 
Neste ano, a meta do governo é economizar 99 bilhões de reais, o equivalente a 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) para pagamento dos juros da dívida (superávit primário). Contudo, até junho, só havia conseguido um saldo positivo de 29,38 bilhões de reais. 

Governo segura 65% dos recursos de 5 fundos setoriais para fazer superávit

Lu Aiko Otta  
O Estado de S. Paulo

Prática, que melhora resultado das contas públicas, foi intensificada este ano: de um total de R$ 11 bilhões, R$ 7,2 bilhões foram retidos

BRASÍLIA - Na “gincana” em que entrou para tentar cumprir a meta das contas públicas este ano, o governo intensificou uma antiga receita: segurar no caixa os recursos de fundos setoriais. Levantamento feito pela organização não governamental Contas Abertas a pedido do ‘Estado’ mostra em que em apenas cinco fundos, cujos recursos somam R$ 11 bilhões, R$ 7,2 bilhões foram destinados à chamada “reserva de contingência”.

Ou seja, estão numa espécie de conta poupança que só deve ser gasta numa emergência. Assim, o mais provável é que eles, ao final do ano, acabem engordando o superávit primário das contas públicas. O valor retido corresponde a 65% do disponível nesses fundos. No ano passado, o volume destinado à reserva de contingência nessa mesma amostra era de 44%.

“Nos anos passados essa prática já era usual, mas, este ano, a situação provavelmente se agravou pela dificuldade do governo em obter superávit primário”, disse o fundador e secretário-geral da organização, Gil Castello Branco. A inclusão desses recursos na reserva de contingência é uma demonstração do quanto esse bloqueio é rotineiro. Eles já entram no orçamento como dinheiro retido. 


Nos anos passados essa prática já era usual, mas, este ano, a situação provavelmente 
se agravou pela dificuldade do governo em obter superávit primário

Na pesquisa, que levou em conta os fundos mais prejudicados, o maior volume de recursos retidos está no Fundo de Universalização dos Serviços de Comunicação (Fust), alimentado por contribuições cobradas nas contas de telefone. Ele dispõe de R$ 6,2 bilhões, mas praticamente tudo foi para a reserva de contingência. 
Apenas R$ 1,7 milhão foi destinado a despesas de custeio. Ainda assim, até 26 de agosto nada havia sido empenhado. O empenho é a primeira etapa do gasto público. É uma espécie de reserva que se faz do dinheiro quando um produto ou serviço é contratado pelo governo.

O Fust é, talvez, a mais antiga vítima da prática de reter recursos para melhorar o resultado primário. Desde sua criação, em 2000, ele jamais teve os recursos totalmente liberados. É um dinheiro que, em tese, serve para levar serviços de telecomunicações às áreas mais remotas. 

Outro contribuinte antigo do resultado primário é o Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel). Neste ano, o orçamento é de R$ 343,7 bilhões, dos quais R$ 291 milhões estão na reserva de contingência. Com isso, ações de financiamento à pesquisa e inovação na área foram comprometidos.

Consultado, o Ministério das Comunicações informou que não comentaria esses casos.

A retenção atinge fundos que financiariam ações demandadas pela sociedade, como educação no trânsito e apoio à criança e ao adolescente. Segundo os dados do Contas Abertas, o Fundo Nacional de Segurança e Educação no Trânsito dispõe de R$ 933,9 milhões este ano, mas 81,9% dos recursos estão reservados para contingência.

O levantamento da Contas Abertas mostra que, dos recursos empenhados, a maior parte – R$ 54 milhões – foi destinada ao “fortalecimento institucional do Sistema Nacional de Trânsito”. Mas ações como um projeto nacional de Educação para a Cidadania no Trânsito não tiveram nenhum centavo empenhado, assim como o fomento a pesquisas na área.

O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), como todos 
os órgãos da administração pública federal, está sujeito ao contingenciamento

“O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), como todos os órgãos da administração pública federal, está sujeito ao contingenciamento”, informou o Ministério das Cidades. “Esse contingenciamento pode se dar tanto via Reserva de Contingência, quanto por meio de Decreto de Programação Orçamentária e Financeira.”

Já os R$ 33,4 milhões para o Fundo Nacional para a Criança e o Adolescente não foram retidos na reserva de contingência. Mas os números mostram que menos de 10% foram empenhados até o momento.

Nesse caso, a baixa utilização do dinheiro não tem relação com o esforço do governo de segurar gastos. Tanto que, segundo a Secretaria de Direitos Humanos, que administra o fundo, ele “jamais” contribuiu para o superávit primário. 

O dinheiro continua em caixa por dificuldades típicas da administração pública. Segundo a secretaria, os recursos são liberados para financiar projetos de entidades sem fins lucrativos, prefeituras e governos estaduais. E, neste ano, foram selecionados apenas cinco projetos, ainda em fase de ajustes. Mas, por causa de restrições da lei eleitoral, os repasses só poderão começar depois de outubro. 

O levantamento do Contas Abertas também abrangeu o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, que teve R$ 25,3 milhões na reserva de contingência, de um orçamento de R$ 3,6 bilhões.

A finalidade do governo é implementar as políticas públicas setoriais 
nos montantes necessários para a sua consecução

Além do necessário. Desde que foram criados, alguns dos fundos setoriais passaram a arrecadar um volume de recursos maior do que as políticas que eles deveriam financiar. Por isso, uma parcela tão grande é destinada à reserva de contingência, segundo explicou o Ministério do Planejamento. Como exemplo, a pasta cita o desenvolvimento do setor de telecomunicações e o consequente aumento da arrecadação dos fundos vinculados a essa área.

Mesmo não sendo utilizado, o dinheiro dos fundos continua vinculado a eles. Assim, informa o Planejamento, esses recursos poderão ser gastos em outros anos. Em 2011, os cinco fundos pesquisados pelo Contas Abertas empenharam R$ 2,58 bilhões. No orçamento de 2015, entregue na quinta-feira ao Congresso, eles contam com R$ 4,37 bilhões – um aumento de 69,6%. Esse valor não contém a parcela destinada à reserva de contingência.

O Ministério do Planejamento nega que a retenção de recursos dos fundos tenha como objetivo elevar o superávit primário. “A finalidade do governo é implementar as políticas públicas setoriais nos montantes necessários para a sua consecução.” 

Investimento estrangeiro na indústria é o menor desde 2000

Luiz Guilherme Gerbelli e  Renée Pereira 
O Estado de S. Paulo

A sequência de más notícias não dá trégua para a indústria brasileira. Após a crise internacional em 2008, os problemas se avolumaram: o setor perdeu competitividade, espaço na economia e agora até o que ia bem – ou menos ruim – piorou. De janeiro a julho, a fatia da indústria no volume de investimento estrangeiro recuou quase oito pontos porcentuais em relação a 2013, de 32,86% para 25,09%. Foi a pior participação desde 2000.

Em valores, a indústria brasileira recebeu US$ 8,013 bilhões neste ano, montante mais baixo desde 2008 (US$ 7,733 bilhões). A queda na entrada de recursos para o setor é reflexo da fraca atividade econômica do Brasil nos últimos meses e da falta de perspectiva em relação ao futuro do setor. Os dados divulgados na sexta-feira reforçam o pessimismo. O Produto Interno Bruto (PIB) nacional do segundo trimestre recuou 0,6% e o da indústria, 1,5% comparado aos primeiros três meses do ano. 

“Desde a crise (de 2008), não tivemos um ano de sossego. A vida industrial tem sido um inferno”, afirma o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Julio Sergio Gomes de Almeida. O menor investimento, diz ele, é um processo natural com a indústria em recessão. 

O economista pondera, entretanto, que nos últimos anos o setor recebeu um volume robusto de investimento externo – US$ 73 bilhões desde 2008. “O que podíamos tentar melhorar é o objetivo desse investimento para que, além do mercado interno, ele se volte também para fazer do Brasil uma economia industrial mais integrada nas cadeias globais.”

Entre as principais justificativas para a perda de competitividade da indústria nacional está a elevada carga tributária, infraestrutura deficiente, alto custo de capital e câmbio valorizado. Nesse ambiente, a indústria foi incapaz de voltar ao nível pré-crise. A produção industrial está 5% abaixo de setembro de 2008, quando a crise internacional eclodiu. “Houve perda de dinamismo generalizada em todos os setores”, diz Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Outra evidência da crise da indústria está na rápida queda de sua participação no PIB. No segundo trimestre deste ano, o peso da indústria de transformação foi de 10,7%. No mesmo período do ano passado, era 11,4%. Em 2010, respondia por 14% do PIB. Na década de 80, bateu os 27%. “O empresário não investe por instinto, muito menos por instinto animal (referência ao economista John Maynard Keynes). Ele investe baseado em retornos”, diz o diretor da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), José Ricardo Roriz.

Oi busca sócios para comprar TIM e desmembrá-la

Exame.com
Cristiane Lucchesi e Christiana Sciaudone, Bloomberg

Segundo fontes, Oi pretende dividir a TIM e comprar uma minoria dos seus ativos

Pilar Olivares/Reuters 
Atendente na porta de loja da TIM no centro do Rio de Janeiro

São Paulo - Oi está buscando parceiros para fazer uma proposta conjunta de aquisição da TIM Participações, dividir a companhia e comprar uma minoria dos ativos, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

O Banco BTG Pactual, que está assessorando a Oi, está tentando atrair a Telefónica e a América Móvil para se unirem à Oi em uma proposta em que parte relevante do negócio seria pago em dinheiro, segundo duas pessoas, que pediram para não ser identificadas porque as discussões são privadas.

A proposta superaria o valor de mercado da TIM, que ficou em quase R$ 28 bilhões (US$ 12,4 milhões) no fechamento de ontem, segundo as pessoas.

A Telecom Italia quer manter a TIM, disse Marco Patuano, presidente do grupo italiano em maio. Para ampliar a posição no Brasil, o grupo italiano disputa com a Telefónica a compra da GVT, da Vivendi.

Oi disse ontem que contratou o BTG Pactual como comissário mercantil para “desenvolver alternativas para viabilizar proposta para a aquisição da participação detida indiretamente pela Telecom Italia na TIM”.

Como parte da oferta da Telefónica, Vivendi teria direito de comprar fatia de cerca de 8 por cento que o grupo espanhol tem na Telecom Italia.

As assessorias de imprensa de BTG, Telefónica, Oi e América Móvil não quiseram comentar.

Custo Brasil afeta disputa com a China

Luiz Guilherme Gerbelli e Renée Pereira 
O Estado de S. Paulo

País terá de adotar uma política industrial agressiva para concorrer com produto chinês tanto no mercado doméstico quanto no internacional

A retomada da indústria brasileira no mundo após a ascensão da China exigirá uma política mais agressiva para o setor e uma concentração de esforços bem maior do que adotada até agora para reduzir o famigerado Custo Brasil. Ainda assim, alguns setores continuarão sofrendo com a concorrência chinesa por causa da enorme escala de produção do país asiático. 

Com escala, a economia chinesa é capaz de produzir grandes quantidades de produtos por um preço mais baixo do que os dos países concorrentes. A China ainda tem a vantagem do custo da mão de obra mais baixo, apesar de os salários terem aumentado nos últimos anos. 

“Competir com a China não dá, seja para o Brasil ou para qualquer outro país industrializado. O modelo de desenvolvimento chinês é diferente de qualquer modelo de países de industrialização avançada”, afirma a secretaria de Desenvolvimento da Produção, Heloisa Menezes, do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (Mdic).


(clique para ampliar)

Um levantamento da Federação das Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) mostra que, na comparação com um similar importador, um produto brasileiro é 32,3% mais caro do que um similar chinês importado. 

“A indústria brasileira foi negligenciada”, afirma o diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), José Ricardo Roriz. “A concorrência que a China imprime no mundo todo limita muito esse processo (de retomada da indústria brasileira)”, afirma Julio Sergio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

A dificuldade na competição com produtos importados ficou evidente para a indústria de aço, sobretudo depois da crise financeira internacional de 2008. A relação entre importação e consumo que variava entre 5% e 6% saltou para 20% em 2010, com um surto de produtos importados. Esse porcentual reduziu um pouco neste ano, para 13%, ainda acima da média. “Se nada for feito, em 2023, 53% do consumo de aço no mercado doméstico virá do exterior”, afirma o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

De acordo com ele, a competitividade da indústria foi abalada por uma série de fatores sistêmicos, como o elevado preço da energia elétrica (o governo prometeu 20% de queda no preço da energia, mas a indústria só conseguiu 7%) e do gás natural, a cumulatividade dos impostos e a pesada carga tributária. Junta-se a isso o excedente de 600 milhões de toneladas de aço no mundo por causa da desaceleração econômica do mercado global. 

“Estamos inseridos dentro de uma perversidade econômica. Não consigo exportar e não tenho condições de competir com o produto importado”, afirma Lopes. Com isso, o setor que deveria operar acima de 80% da capacidade instalada, hoje não passa dos 70%. A participação no Produto Interno Bruto (PIB) também diminuiu – era de 1,8% em 2004, e ficou em 0,7% no ano passado. “É preciso haver uma correção das assimetrias para melhorar a competitividade da indústria.” 

Retomada. 
Apesar da concorrência maior, a indústria brasileira pode voltar a crescer. O País é dono de um poderoso mercado consumidor interno – que pode ajudar a sustentar uma retomada – e tem no seu parque fabril as principais indústrias do mundo. 

No passado, na década de 80, o potencial brasileiro levou o Brasil a ser a sétima maior economia industrial década de 80. Hoje, está na 12.ª posição. Por causa da baixa competitividade dos últimos anos fomos ultrapassados pela indústria de países como China e Coreia do Sul. “Se o País conseguir resolver os problemas básicos da economia, poderá pensar numa política industrial menos defensiva e mais atrevida”, afirma Almeida.

A possibilidade de uma retomada da indústria no Brasil passa por uma agenda pesada, na avaliação de Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), com a qualificação da mão de obra, melhoria da infraestrutura, revisão do tamanho e complexidade da carga tributária. “Essa agenda é totalmente factível. É preciso criar um ambiente correto daquilo que não depende das empresas”, afirma Castelar.

Taxa de juros e câmbio comportados também são dever de casa para devolver a competitividade da indústria nacional.


China tem em excesso o que falta ao Brasil

João Pedro Caleiro
Exame.com

Enquanto Brasil não consegue turbinar sua taxa de investimento, China não sabe o que fazer com tanto capital - o que pode significar uma oportunidade por aqui

China Daily/Reuters 
Trabalhadores amarram barras de ferro 
em uma construção em Dalian, na província de Liaoning, na China

São Paulo - A grande história econômica das últimas duas décadas é a ascensão da economia chinesa, que já está próxima de se tornar a maior do mundo em paridade de poder de compra.

Um processo que afetava o Brasil principalmente pela alta das commodities se tornou agora uma questão de investimento direto - e também de lições a serem aprendidas.

O crescimento da China de 7,7% em 2013 foi o menor em 10 anos e deve ficar mais baixo daqui pra frente, mas nem tanto: entre 6,5% e 7%, ainda uma das maiores taxas do mundo. 

O PIB per capita chinês é só 13% do americano, então para cada risco – como o aumento da dívida e o sistema financeiro paralelo – há uma oportunidade pronta para ser usada – como reformas de flexibilização e um pool de talentos de 7 milhões de novos jovens graduados por ano.

Na China, a taxa de investimento em relação ao PIB foi de 35% em 2000 para 48% em 2013. No Brasil, ela é historicamente baixa e flutuou em torno de 18% na última década (com queda para 16,5% no último trimestre), longe de outros países desenvolvidos ou emergentes.

A força do investimento chinês é tão forte que já está gerando vulnerabilidades. Em debate realizado hoje em São Paulo pelo MIT Sloan Management School sobre a relação entre China e América Latina, Chong En-bai, professor da universidade Tsinghua, destacou alguns riscos sendo incubados.

Jian Gao, conselheiro sênior do Banco de Desenvolvimento Chinês, Chong en-Bai,
 professor da universidade de Tsinghua, Pei Sun, professor da universidade de Fudan, 
e Xinzhong Xu, professor da universidade de Lingnan

Um é que o retorno seja cada vez menor em relação ao custo do empréstimo, e que os emprestadores fiquem menos sensíveis a isso. Outro é que o motor da construção civil acabe ofuscando o resto da economia: “o Alibaba será provavelmente o maior IPO da história do mundo, mas a parcela da IT na economia chinesa está na verdade caindo, assim como os salários relativos deste setor em relação ao de construção - que já emprega 50 milhões de pessoas e é quase 7% da economia.”

Para reduzir essa vulnerabilidade, a ideia é que o consumo das famílias ganhe importância – como acontece no Brasil, onde esse item cresceu pela 43ª vez seguida no último trimestre.

Atualmente, a China registra seus cidadãos como rurais ou urbanos, e quem se muda sem permissão do governo fica sem acesso a educação e saúde. Na medida em que esse sistema fica mais livre, os chineses podem confiar mais na proteção social e tem menos incentivo para guardar uma grande poupança, o que libera esse dinheiro para o consumo.

O governo chinês já está fazendo este processo, além de outras reformas, mas o ritmo é lento e bate em interesses estabelecidos. Pelo menos no curto e médio prazo, o excesso de capital vai continuar e precisa ir para algum lugar, e é aí que surgem oportunidade para os países emergentes e latino-americanos como o Brasil.

“A China vai continuar dependendo de investimento, e com sua alta taxa de poupança, o doméstico não será suficiente e terá que andar de mãos dadas com o internacional. Essa é uma oportunidade para aprofundar os laços com a América Latina”, diz Jian Gao, conselheiro sênior do Banco de Desenvolvimento da China.