quarta-feira, setembro 03, 2014

Tchau, Brasil

Tatiana Bautzer e Patricia Valle
Revista EXAME

Os milionários brasileiros estão investindo cada vez mais fora do país. Há boas oportunidades de ganhar dinheiro no exterior, mas o que essa turma quer mesmo é se proteger

Joe Raedle/Getty Images 
Vista de Miami: alguns bancos já têm assessoria imobiliária
 no exterior para clientes brasileiros

São Paulo - Pouco depois do estouro da crise financeira mundial em 2008, os brasileiros despontaram como compradores de imóveis nos Estados Unidos, especialmente na Flórida. Com a queda dos preços provocada pela recessão, casas e apartamentos de luxo em cidades como Miami e Nova York chegaram a ficar mais baratos do que os vendidos em bairros de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Nos últimos meses, porém, ficou claro que os brasileiros ricos não querem só passar férias com a família no exterior. Eles estão investindo uma parcela maior de seu patrimônio fora do país, em ações, títulos de renda fixa e, claro, imóveis, majoritariamente nos Estados Unidos e na Europa. 

Os números desse movimento ainda não foram divulgados pelo Banco Central, que só reporta anualmente o total de recursos enviados por investidores para fora do país.

Mas dez executivos de alguns dos principais bancos e assessorias financeiras do Brasil disseram a EXAME que o percentual do patrimônio que seus clientes aplicam no exterior é o maior dos últimos dez anos. Os ricos, em suma, estão dando um “bye-bye, Brasil” coletivo.

Na GPS, maior assessoria financeira do país, com 17 bilhões de reais sob gestão, a parcela do patrimônio dos clientes de altíssima renda alocada fora do país dobrou nos últimos 12 meses, para 30%. No Santander, o aumento foi de 110% desde dezembro, e hoje a fatia está em cerca de 30% do volume total.

Os demais bancos consultados — Bradesco, HSBC, UBS e outros que não quiseram ter o nome divulgado — disseram que o percentual oscila entre 20% e 30% e que as remessas para o exterior começaram a ganhar força no fim de 2013. A estimativa é que, no primeiro semestre deste ano, cerca de 4 bilhões de dólares tenham saído daqui (em 2013, o total foi inferior a 6 bilhões de dólares).

A imensa maioria desses investidores aplica, no mínimo, 1,5 milhão de dólares no mercado externo: enviar um volume abaixo desse não compensa em razão das taxas bancárias e dos custos de movimentação. 

Mas vale a pena investir fora do país agora? Os ricaços brasileiros estão agindo por ganância ou por medo? “Quem manda dinheiro para fora está mais preocupado em proteger seu patrimônio do que ter retornos elevados”, diz o diretor de um banco nacional que pediu para não se identificar.

A principal preocupação dos investidores, segundo os profissionais ouvidos por EXAME, é a perspectiva de uma nova desvalorização do real — aplicando no exterior, eles conseguem proteger seus recursos desse risco. “Isso costuma acontecer quando há um cenário de incerteza.

Hoje, as dúvidas são provocadas pela eleição presidencial”, diz Paulo Corchaki, diretor de investimentos do banco UBS. A maioria dos economistas acredita que, qualquer que seja o resultado das eleições, o câmbio deverá desvalorizar até o fim de 2015, devido ao aumento do déficit externo.

A projeção média é que o dólar feche o próximo ano em 2,50 reais, o que representa queda de 10% em relação à cotação atual. Mas vai saber como o câmbio vai reagir ao novo governo — e, na dúvida, a turma está comprando lá fora.

Uma parcela dos investidores diz estar mandando recursos para o exterior por temer que as condições econômicas piorem no Brasil. Na conta deles, está o risco de reajustes de tarifas e preços como o dos combustíveis, que estão defasados cerca de 11% em relação aos preços internacionais do petróleo pagos pela Petrobras na importação.

Há ainda os alarmistas, que temem que o novo governo eleve impostos sobre investimentos ou limite remessas para o exterior. Os executivos de mercado disseram que não viam essa “apreensão” entre os investidores desde a primeira eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002.

Na época, o movimento foi muito mais intenso: os investidores mandaram cerca de 9 bilhões de dólares para fora do país, o dólar bateu os 4 reais e o Ibovespa caiu 17% em 12 meses (neste ano, o índice está subindo 16%). 

Mas vale olhar também o que está acontecendo lá fora. Além do medo do que pode se passar por aqui, o interesse dos investidores em aplicar no exterior se deve ao bom desempenho de vários mercados. A bolsa de Nova York subiu 79% em cinco anos, e a do Japão, 48%, enquanto o Ibovespa valorizou só 3,5%.

Desde dezembro de 2009, o preço de imóveis nas 20 maiores cidades dos Estados Unidos aumentou quase 20%. Os juros pagos pelos governos de países europeus, como Espanha, França e Itália, caíram drasticamente desde a crise de dois anos atrás — quem apostou na queda ganhou muito dinheiro.

Na tentativa de abocanhar parte desses ganhos, dezenas de fundos multimercados brasileiros passaram a comprar ações e títulos no exterior, mantendo os recursos dos cotistas no país (só em 2013, o patrimônio desses fundos aumentou cinco vezes, para 3 bilhões de reais, segundo a consultoria Risk Office).

Está tudo muito bem até agora, mas o risco parece alto olhando à frente. A dúvida é se essa alta de preços em muitos desses mercados é sustentável ou se tem sido inflada pelos juros baixíssimos praticados nos países desenvolvidos. 

É bolha? 

Cada vez mais analistas estão apostando na segunda opção: o BIS, o banco central dos bancos centrais, vem alertando em artigos — o último deles publicado em junho — para a formação de bolhas financeiras em diversos países.

Os bancos e as assessorias consultados por EXAME recomendam que seus clientes endinheirados apliquem no exterior uma pequena parcela do patrimônio, entre 10% e 15% do total. O objetivo, dizem, é diversificar riscos. Atualmente, a principal indicação é aplicar em fundos de ações que invistam nas bolsas dos Estados Unidos e da Europa, que podem ganhar com a esperada retomada da economia.

Os especialistas também recomendam imóveis, principalmente os comerciais, que podem ser alugados e dar um rendimento mensal. O banco Santander montou uma área para assessorar seus clientes nisso, e o Credit Suisse, o HSBC e o Itaú estão vendendo fundos imobiliários nos Estados Unidos e na Europa.

Para quem prefere a renda fixa, o conselho é investir nos países desenvolvidos, porque o risco é menor, mas procurar opções que rendam mais do que os títulos públicos, com suas taxas próximas de zero. As alternativas são papéis de empresas sem grau de investimento e fundos que apostam na alta dos juros nos Estados Unidos e estão ganhando dinheiro.

O rendimento não é nenhuma maravilha — tem ficado em torno de 5% ao ano —, mas pode fazer sentido para quem está querendo dar um tempo no risco Brasil.

O bicho vai pegar em quem?

Arnaldo Jabor
O Estado de São Paulo

O Brasil se move por acaso. Os rumos da história, se é que tem rumos, tendem a se enrolar em si mesmos e só fatos, traumas inesperados disparam a mutação. Que quer dizer essa frase? Que não são apenas as 'relações de produção' que explicam nossa marcha, mas os detalhes, as ínfimas causas, as bobagens casuais e tragédias intempestivas fazem o Brasil andar.

Getúlio deu um tiro no peito e adiou a ditadura por dez anos. Jânio tomou um porre e pediu o boné, um micróbio entrou na barriga do Tancredo e mudou nossa vida, encarando o Sarney por cinco anos, o Collor foi eleito por sua pinta de galã renovador e acabou 'impichado' por suas maracutaias. Roberto Jefferson mostrou sua carteirinha de corrupto, se denunciou junto com os mensaleiros e mudou a paisagem política. E agora Marina Silva pode ser presidente, em vez da presidenta.

Com a população mal informada em sua maioria (não falo dos miseráveis e analfabetos, mas de gente de terno e gravata) sobre as complexas questões da política e da economia, a emoção e a catarse movem o País.

Agora, estamos na expectativa; somos o país do eterno suspense: Marina vai ser eleita ou não? Será que o efeito "tragédia" vai se evaporar? A grande mudança seria, claro, a social-democracia apta a desfazer as boquinhas e os pavorosos erros com que o PT nos brindou. Aécio, se eleito, pode trazer a agenda correta. Mas, se Marina ganhar, teremos um outro tipo de mudança, uma virada para um "novo" desconhecido, uma virada psicológica e cultural inesperada. Não adianta analisar Marina com os instrumentos de análise costumeiros.

Agora, em vez dos óbvios vexames do PT, estamos diante do mistério Marina.

Marina é 'sonhática'ou não? Marina é populista? Marina é de esquerda ou não? Nada. No entanto, amigo leitor, Marina pode ser o olho de um furacão que, claro, jamais conseguirá renovar a velha política sólida; mas ela pode criar um 'caos' na vida política. Talvez até um "caos progressista" pelo avesso. Que é isso que quero dizer? Marina pode vir a bagunçar mais a bagunça existente, mas poderá ser uma "bagunça crítica", que pode trazer uma espécie de "destruição criadora" nesta zorra instalada.

Para falar em termos de "contradições negativas", que eles tanto amam, o caos que Lula, Dilma e o PT criaram na vida nacional pode ter sido o gatilho para uma revisão em busca de um modelo melhor. Se Marina vencer, será sabotada continuamente pelos vagabundos que se instalaram no Estado, será confrontada pelas barreiras fisiologistas dos parlamentares, talvez quebre a cara tentando. Mas, mesmo que fracasse, teremos um "caos mais moderno", tirando do poder a velha cartilha regressista dos nossos bolivarianos. Mesmo que ela se perca na selva dos meliantes da política, não será mais irracional que os atuais governantes. O súbito surgimento inconcebível dessa moça da floresta e suas abstratas declarações são uma prova encarnada do delírio político do País. Com a queda do avião, houve uma grande reviravolta trágica que resultou em uma comédia de erros. Ninguém sabe o que vai nos acontecer.

Podemos decifrar, analisar, comprovar crimes ou roubos, mas nada se move, porque a maior realização deste governo foi justamente a desmontagem da Razão. Se bem que nunca antes nossos vícios ficaram tão explícitos, nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo. Já sabemos que a corrupção no País não é um "desvio" da norma, não é um pecado ou crime; é a norma mesmo, entranhada nos códigos e nas almas. O caudilhismo sindicalista de Lula serviu para entendermos melhor nossa deformação. Os comentaristas ficam desorientados diante do nada que os petistas criaram com o apoio do povo analfabeto. Os conceitos críticos como "democracia, respeito à lei, ética" viraram insuficientes raciocínios contra um cinismo impune. Lula com seu carisma de operário sofredor nos decepcionou, revelando-se um narcisista egoísta e despreparado, enquanto o melhor governo que tivemos, do FHC, ficou no imaginário da população como um fracasso, movido pela campanha de difamação sistemática e pela babaquice dos tucanos que não se defenderam. Os petistas têm mania da ideologia da contramão. Fizeram tudo ao contrario do óbvio, movidos por uma ridícula utopia revolucionária, quando na realidade só fizeram avacalhar o País.

Meu Deus, que prodigiosa fartura de novidades fecundas como um adubo sagrado, belas como nossas matas, cachoeiras e flores. Ao menos, estamos mais alertas sobre a técnica do desgoverno que faz pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da terra, tudo como plano de aceleração do crescimento. Fizeram tudo para a reestatização da economia, incharam a máquina pública, invadiram as Agências Reguladoras, a Lei de Responsabilidade Fiscal, em busca de um getulismo tardio, com desprezo pelas reformas, horror pela administração e amor aos mecanismos de "controle" da sociedade, esta "massa atrasada" que somos nós. A esquerda psicótica continua fixada na ideia de "unidade", de "centro", ignorando a intrincada sociedade com bilhões de desejos e contradições. Acham que a complexidade é um complô contra eles, acham a circularidade inevitável da vida uma armação do neoliberalismo internacional.

Os petistas têm uma visão de mundo deturpada por conceitos acusatórios: luta de classes, vitimização, culpados e inocentes, traidores e traídos. Petistas só pensam no passado como vítimas ou no futuro como salvadores e heróis. O presente é ignorado, pois eles não têm reflexão crítica para entendê-lo. Reparem que Dilma na TV só fala do que "vai fazer", se for eleita. Por que não fez antes, nos 12 anos da incompetência corrosiva? A solução é mentir: números falsos, contabilidade falsa. Antigamente, se mentia com bons álibis; hoje, as tramoias e as patranhas são deslavadas; não há mais respeito nem pela mentira. É isso aí, amigos, o bicho vai pegar. Em quem?

FUGIU DA RAIA: As perguntas que Dilma não quis responder na TV

Veja online

Presidente-candidata se recusou a participar de entrevista no Jornal da Globo

(Ivan Pacheco/VEJA.com) 

Dilma não explicou a ausência na bancada do Jornal da Globo 

A presidente-candidata Dilma Rousseff (PT) se recusou a participar nesta terça-feira da série de entrevistas feitas pelo Jornal da Globo com os presidenciáveis. Segundo a TV Globo, a petista não informou o motivo – apenas disse não. A ordem dos entrevistados foi escolhida por sorteio. A sabatina é gravada nos estúdios do jornal, em São Paulo, horas antes do programa ir ao ar.

Nesta terça, Dilma esteve bem perto do local da entrevista: ela passou o dia na Grande São Paulo e cumpriu agenda de candidata no ABC paulista, reduto petista, com o ex-presidente Lula. Na segunda, também estava na capital paulista, no debate promovido pelo jornal Folha de S. Paulo e pelo SBT. Na ocasião, fez questão de dizer que estava nervosa diante das câmeras – o desempenho ao microfone deixou claro mais uma vez seu desconforto com entrevistas e debates.

A emissora divulgou as seis perguntas que os apresentadores inicialmente prepararam para a petista e informou que é a primeira vez que uma candidata convidada recusa a sabatina de 25 minutos. Marina Silva, do PSB, foi entrevistada na segunda. Na quarta, será a vez de Aécio Neves. Saiba quais eram as perguntas que Dilma não quis responder:

1. Os últimos índices oficiais de crescimento indicam que o país entrou em recessão técnica. A senhora ainda insiste em culpar a crise internacional, mesmo diante do fato de que muitos países comparáveis ao nosso estão crescendo mais?

2. A senhora continuará a represar os preços da gasolina e do diesel artificialmente para segurar a inflação, com prejuízo para a Petrobras?

3. A forma como é feita a contabilidade dos gastos públicos no Brasil, no seu governo, tem sido criticada por economistas, dentro e fora do país, e apontada como fator de quebra de confiança. Como a senhora responde a isso?

4. A senhora prometeu investir R$ 34 bilhões em saneamento básico e abastecimento de água até o fim do mandato. No fim do ano passado, tinha investido menos da metade, segundo o Ministério das Cidades. O que deu errado?

5. Em 2002, o então candidato Lula prometeu erradicar o analfabetismo, mas não conseguiu. Em 2010, foi a vez da senhora, em campanha, fazer a mesma promessa. Mas foi durante o seu mandato que o índice aumentou pela primeira vez, depois de 15 anos. Por quê?

6. A senhora considera correto dar dentes postiços para uma cidadã pobre, um pouco antes de ser feita com ela uma gravação do seu programa eleitoral de televisão?

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Aqui, a reportagem do  Portal G1 e vídeo do Jornal da Globo.




Principal cabo eleitoral de Marina é o saco cheio

Josias de Souza

O ‘Plano A’ era declarar guerra à elite branca do PSDB, fingir que a ruína econômica tem causas externas, pintar o país de rosa na propaganda eleitoral e conquistar mais quatro anos de Poder. O ‘Plano B’ era, era, era… Não havia um ‘Plano B’. O generalato do PT não tinha considerado a hipótese de o ‘Plano A’ dar errado. Ninguém podia imaginar que a morte de Eduardo Campos ressuscitaria a cafuza Marina Silva.

Ricardo Moraes/Reuters  
A candidata à Presidência pelo PSB, Marina Silva, faz caminhada na comunidade
 da Rocinha, zona sul do Rio de Janeiro, junto com os colegas de partido
 Beto Albuquerque, candidato a vice-presidente, e Romário, que é candidato ao Senado. 

Agora, Dilma Rousseff e seus operadores buscam uma saída que os redima do fiasco. Neste sábado, num comício organizado pelo PMDB, Dilma adotou um ‘Plano B’ que seu vice, Michel Temer, improvisara em cima da perna. “Numa democracia, quem não governa com partidos está flertando com o autoritarismo”, disse a ex-favorita, ecoando um discurso que o vice fizera na véspera, em Porto Alegre. “Não existe um único lugar em que haja regime democrático e que não haja partido.”

Nessa formulação, Marina e sua promessa de governar com “as melhores pessoas” da República seria uma ameaça à normalidade democrática. “As pessoas não podem ser colocadas acima das instituições”, disse Temer, no pronunciamento que inspirou Dilma. “Quando isso aconteceu no mundo, nós fomos para o autoritarismo. Nós temos exemplos dramáticos no mundo, não quero nem mencioná-los!”

A nova estratégia evidencia o desnorteio do conglomerado governista. O que fez de Marina uma alternativa real de poder foi justamente a insuportável normalidade que permeia a democracia brasileira. Oito em cada dez eleitores desejam que o próximo presidente adote providências diferentes das atuais, informa o Datafolha. Ou, por outra: 79% do eleitorado acha que algo de anormal precisa suceder. Sob pena de passar por natural o que é absurdo.

Quem quiser compreender o que está acontecendo deve levar em conta o seguinte: os últimos presidentes brasileiros —FHC, Lula e Dilma— foram prisioneiros de um paradoxo: prometeram o avanço sem chutar o atraso. Pregaram o novo abraçados ao velho. Presidiram a ilicitocracia enrolados na bandeira da moralidade. E terminaram confundindo a plateia. Uma parte acha que são cínicos. A outra avalia que são cúmplices.

Hoje, os quase 80% que estão sedentos por mudança dividem-se em dois grupos. Os que duvidam de tudo enxergam os últimos presidentes como cínicos. Os que não duvidam de mais nada os vêem como cúmplices. As duas alas se juntam na percepção de que, à margem dos avanços econômicos e sociais, proliferou um sistema político-partidário caótico, um mal cada dia menos necessário.

Aos olhos de muita gente, o PT virou um projeto político que saiu pelo ladrão. O PMDB e seus congêneres tornaram-se organizações partidárias com fins lucrativos, todas elas financiadas pelo déficit público. E o PSDB é a mesma esculhambação, só que com doutorado na USP. Se a economia vai bem, o acúmulo de fraudes é tolerado. Se a inflação aperta, a roubalheiras salta às retinas.

Num Brasil remoto, a análise política exigia meia dúzia de raciocínios transcendentes. Era necessário decidir se o pragmatismo do PSDB seria melhor do que o puritanismo do PT, se a social-democracia responderia às dúvidas do socialismo, se a ética da responsabilidade prevaleceria sobre a ética da convicção… Hoje, a coisa é bem mais simples.

Karl Marx e Max Weber tornaram-se descartáveis. Falidas as ideologias, o templo da política abriga uma congregação de homens de bens. Vigora no Executivo, no Legistivo e, por vezes, até no Judiciário a lógica do negócio. Tudo se subordina a ela, inclusive os escrúpulos. A integridade dos ovos não vale mais nada. Importa apenas o proveito do omelete.

Já nem é preciso varrer as cascas para debaixo do tapete. A generalização da desfaçatez, hoje espraiada da Esplanada à Petrobras, tornou a anomalia normal. Tudo parecia tranquilo nessa democracia anestesiada até que as ruas decidiram roncar em junho de 2013. Ao despencar do olimpo das pesquisas, Dilma virou uma espécie de porta-voz do asfalto.

O que os manifestantes querem é o mesmo que o governo deseja, disse ela na época. “O meu governo está ouvindo essas vozes pela mudança. Está empenhado e comprometido com a transformação social”, declarou, antes de acrescentar que passeata é uma coisa normal, que ela mesma já participou de muitas.

Por muito pouco Dilma não jogou uma mochila nas costas e foi à Avenida Paulista cobrar a melhoria dos serviços públicos, ao lado de herois da resistência como Sarney e Renan. “Essa mensagem direta das ruas contempla o valor intrínseco da democracia”, ela festejou. “Essa mensagem é de repúdio à corrupção e ao uso indevido de dinheiro público.”

Candidata de um partido cuja cúpula se encontra na cadeia, Dilma soou esquisito. Não se deu conta de que o excesso de cadáveres políticos dera origem a um defunto mais, digamos, ilustre: o próprio PT. Morreu também o pobre. De suicídio. E, suprema desgraça, não foi para o céu. A ex-petista Marina Silva é o purgatório do ex-PT. Ela se tornou uma espécie de repositório do ‘voto saco cheio’.

É nesse estágio que o país se encontra agora. De saco cheio das alianças espúrias e da tolerância presidencial para com os maus hábitos. De saco cheio da teia de chantagens e exigências feitas em nome da pseudo-governabilidade. De saco cheio do mês que dura sempre mais do que o salário. De saco cheio de tudo isso que está aí.

Ao dizerem que ninguém governa sem os partidos, Dilma e Temer tentam aproximar Marina Silva da figura de Fernando Collor, a “nova política” que terminou em impeachment. O problema é que, tomada pela biografia, ela está mais para Lula, em sua versão 2002, do que para caçadora de marajás. Com uma diferença: foi digerida pelo mercado sem precisar assinar nenhuma carta aos brasileiros.

Para se manter no topo das pesquisas até outubro, Marina talvez não precise fazer nada além de desviar dos laranjas do jato de Eduardo Campos e cuidar das suas boas maneiras. Prevalecendo a bordo do PSB e de sua coligação diminuta, chegaria ao Planalto sem dever nada a ninguém, exceto aos donos dos votos. Diz-se que pode terminar em desastre. Mas o eleitor, de saco cheio, parece cada dia mais disposto assumir o risco de, no mínimo, cometer um erro diferente.

Uma seringueira em área de lavoura

Percival Puggina

O eleitor comum é um sujeito com o coração no lugar do cérebro e o cérebro dividido entre a geladeira e o contracheque. Foi assim que elegeu Lula duas vezes e colocou uma tartaruga no poste em 2010.

No entanto, tem razão Bob Marley: "You may not be her first, her last, or her only. She loved before, she may love again". Ocorre o mesmo com o amor de eleitor. E o coração do eleitor brasileiro pulsou fortemente quando a queda de um avião sem dono, sem caixa-preta e sem motivo para cair, entregou uma candidatura presidencial à acreana Marina Silva. A esguia senhora, que parece saída de uma foto de Sebastião Salgado, entrou em espiral ascendente. O coração do eleitor faz coisas assim. E depois? Ora, quanto ao depois, especulemos.

A coligação agora formada em torno de Marina Silva envolve os seguintes partidos: PSB, PPS, PRP, PHS, PPL e PSL. Os três últimos não têm um único deputado federal ou senador. São legendas e quase nada mais. Os três primeiros, têm, respectivamente, 24, 6, e 2 deputados, correspondendo a apenas 6% do plenário da Câmara dos Deputados. O PSB tem 4 senadores. Mesmo supondo que a condição privilegiada da candidata socialista no momento do pleito de 5 de outubro conceda um upgrade às suas nominatas de candidatos proporcionais, é muito improvável que tenha peso significativo no Congresso a base parlamentar natural de um eventual governo do PSB. Será mesmo do PSB ou será da Rede? Marina estaria como uma seringueira solitária em área de lavoura. Onde iria buscar os outros 250 deputados e os 50 senadores que lhe faltarão para compor maioria? Como aprovaria ela as medidas que serão necessárias na crise que já se instalou no país e que se agravará no ano que vem?

Marina fala numa tal Nova Política, que incluiria o fim do instituto da reeleição e o emprego de mobilização popular para exercer pressão sobre o Congresso Nacional onde ela, como se depreende do exposto acima, teria sólida minoria. Marina contaria, então, com o apoio do povo. Por quanto tempo, Bob Marley? Até o primeiro arrufo entre namorados?

Se ela tiver fé religiosa no elevado espírito público dos senhores congressistas, um eventual governo seu terá curto prazo de validade, como demonstra a experiência histórica. No entanto, ela já deve ter consciência disso, e a questão se resume em saber quem correria primeiro - se ela para o PMDB ou o PMDB para ela. Certo, porém, é que o PMDB e seus abnegados congressistas estariam no governo. E quem mais? Tudo indica que dona Marina não nutre qualquer simpatia pelo PSDB, o que levaria esse partido para mais um quadriênio de elegante retórica oposicionista. Tampouco parece razoável, no plano das suposições, que o PSB venha a formar governo com o PT no momento em que tiver na mão as ostras e o canivete para sucedê-lo como protagonista principal da cena política nacional. Quem resta, então, para servir de coadjutor a um projeto governista de dona Marina na legislatura de 2015 a 2019? Virtudes cívicas e força política não costumam piar juntas na atual ninhada de siglas partidárias do país.

Continuo convencido de que o movimento das peças no jogo do poder é para profissionais. Quando o eleitorado, como agora, começa a desenhar estratégias, votos mudam incontrolavelmente de lado. O PT acelerou o caminho para a recessão tentando fugir da recessão. E a crise em que lançou o país acelera esses movimentos espontâneos da opinião pública em busca de novos amores, "eternos enquanto duram".

A recessão mais grave é a da qualidade

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo

O Brasil desmorona, enquanto o mundo rico sai da crise e os demais emergentes enfrentam o desafio de se ajustar para ganhar novo fôlego e voltar a crescer com rapidez. Com a indústria enfraquecida e o investimento produtivo em queda, é ridículo discutir se houve mesmo recessão no País no primeiro semestre. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, recusa essa palavra, mas, por enquanto, prevalecem os novos dados oficiais: depois de encolher 0,2% no primeiro trimestre, o produto interno bruto (PIB) diminuiu mais 0,6% no período de abril a junho. Rótulos técnicos são menos importantes que a substância dos fatos. A reação do ministro só seria mais que um esperneio inútil se ele conseguisse contestar os dois dados mais agourentos das contas nacionais.

O primeiro deles é o recuo do investimento em máquinas, equipamentos, construções e obras de infraestrutura. O valor investido no segundo trimestre foi 11,2% menor que o de um ano antes e correspondeu a míseros 16,5% do PIB. Esse é um dos fatores determinantes da capacidade produtiva, do potencial de crescimento e da capacidade competitiva. O segundo indicador agourento foi a diminuição do produto industrial - 1,5% menor que o do primeiro trimestre e 3,4% inferior ao de abril-maio de 2013. O enfraquecimento da indústria afeta a qualidade do emprego, prejudica o dinamismo dos serviços e de toda a economia urbana e compromete seriamente as contas externas.

O governo continua prometendo para dentro de alguns anos - ninguém sabe quantos - uma taxa de investimento de 24% do PIB. Taxas entre 24% e 30% são encontradas em muitas economias emergentes. Não é indispensável, nem politicamente exequível, investir o equivalente a 40% da produção ou até mais, como na China. Mas uma taxa inferior a 20% do PIB é suicida.

A economia brasileira cresceu na última década impulsionada basicamente pela incorporação de mão de obra. Essa possibilidade está esgotada. A cada dia se torna mais urgente ampliar e modernizar o estoque de capital e apostar na qualidade da mão de obra, muito mais que na quantidade.

Nada disso tem sido feito seriamente. O total investido em capital fixo pelo setor público e pelas empresas privadas ficou sempre abaixo de 20% nos últimos 15 anos. A maior taxa observada num segundo trimestre foi de 19,2%, em 2010. Em 2000 ficou em 16,76%, pouco acima da calculada para o período de abril a junho deste ano, 16,5%. Os efeitos do baixo investimento são visíveis na queda de produção da indústria de máquinas, na redução de importações de bens de capital e no recuo da construção civil, com produção 8,7% menor que a do segundo trimestre do ano passado.

As concessões de infraestrutura têm ocorrido lentamente e o governo só tem procurado apressá-las, nos últimos tempos, para recolher os bônus proporcionados pelos leilões. Esse dinheiro foi muito importante para o fechamento das contas públicas no ano passado. A infraestrutura continua muito deficiente e os custos de logística são um dos grandes entraves à competitividade. As obras do Programa de Aceleração do Crescimento(PAC) permanecem atrasadas e com baixo índice de conclusão. O investimento privado também vai mal, porque os empresários têm pouca ou nenhuma segurança para se arriscar comprando máquinas ou ampliando instalações. A incerteza tem sido motivada em boa parte pelo voluntarismo desastroso do governo e pela insistência em políticas ineficazes. Diante dos sinais de economia empacada, o ministro da Fazenda tem reagido, regularmente, com a prorrogação de benefícios fiscais seletivos e voltados basicamente para o consumo.

A indústria é o tema da segunda informação mais agourenta. Os únicos segmentos industriais com desempenho positivo, quando comparado com o de abril a junho de 2013, foram o da extração mineral (+ 8%) e o de produção e distribuição de eletricidade, gás e água (+ 1%). A indústria de transformação, por muito tempo um dos principais núcleos de modernização tecnológica e gerencial, continuou muito ruim e produziu 5,5% menos que um ano antes. Isso é desastroso para o conjunto da economia.

Um gráfico publicado no Boletim Macro de agosto da Fundação Getúlio Vargas mostra as curvas de crescimento da indústria de transformação, dos serviços e do PIB entre junho de 2007 e junho de 2014. A curva de serviços espelha a da indústria, "de forma amortecida", como observam os autores da análise. Além disso, a evolução do produto industrial e a do PIB são muito parecidas. No Brasil, tem-se dado muita importância aos serviços, por seu peso na composição geral do produto, e tem-se negligenciado, no debate cotidiano, o papel dinâmico da indústria, especialmente do segmento de transformação.

Quando se fala em recessão, a presidente e seus auxiliares costumam retrucar citando a criação de empregos nos últimos anos. Mas o emprego industrial tem diminuído, como indicam os dados do Ministério do Trabalho, e a maior parte dos postos tem sido aberta em segmentos de baixa produtividade e de salários modestos. Mesmo a criação desses empregos tende a diminuir e já tem diminuído, com a perda geral de dinamismo associada à estagnação da indústria.

Em 2013, a indústria de transformação empregou 8,29 milhões de pessoas, 144,41 mil a mais que em 2012. Foi um aumento de apenas 1,77%. A administração pública empregou 9,34 milhões, 402,97 mil a mais que no ano anterior, com variação de 4,51%. Nos serviços a variação foi de 3,46% e o total de postos chegou a 16,73 milhões, com acréscimo de 558,63 mil. Mais que um enfraquecimento e uma crise passageira, os números apontam uma perda qualitativa. Ao discutir se a palavra recessão é adequada, o ministro da Fazenda concentra-se novamente no alvo errado. Toda economia pode recuar ocasionalmente. Mas, além de recuar, a economia brasileira está piorando. É esta a consequência mais grave da política inepta. A qualidade é essencial para o crescimento econômico e para a manutenção dos ganhos sociais.


As Bolsas Plebiscito de Dilma e Marina

Elio Gaspari
O Globo

Marina Silva merece todos os aplausos. Anunciou em seu programa o que pretende fazer se for eleita. Ela quer criar uma "democracia de alta intensidade". O que é isso, não se sabe. Lendo-a vê-se que, sob o guarda-chuva de uma expressão bonita — “democracia direta” — deseja uma nova ordem constitucional. Apontando mazelas do sistema eleitoral vigente, propõe outro, plebiscitário, com coisas assim: “Os instrumentos de participação — mecanismos de participação da democracia representativa, como plebiscitos e consultas populares, conselhos sociais ou de gestão de políticas públicas, orçamento democrático, conferências temáticas e de segmentos específicos — se destinam a melhorar a qualidade da democracia”.

Marina parte da premissa de que “o atual modelo de democracia (está) em evidente crise". Falta provar que esteja em crise evidente uma democracia na qual elegeu-se senadora, foi ministra e, em poucas semanas, tornou-se virtual favorita numa eleição presidencial. Ela diz que nesse país em crise “a representação não se dá de forma equilibrada, excluindo grupos inteiros de cidadãos, como indígenas, negros, quilombolas e mulheres”. Isso numa eleição que, hoje, as duas favoritas são mulheres, uma delas autodefinida como negra.

Marina quer “democratizar a democracia”. O jogo de palavras é belo, mas é sempre bom lembrar que na noite de 13 de dezembro de 1968, quando os ministros do marechal Costa e Silva aprovaram a edição do Ato Institucional nº 5, a democracia foi exaltada 19 vezes. Deu numa ditadura de dez anos e 18 dias. A candidata, com sua biografia, é produto da ordem democrática. Ela nunca a ofendeu, mas seu programa vê no Congresso um estorvo. Se o PT apresentasse um programa desses, a doutora Dilma seria crucificada de cabeça para baixo.

Marina não está sozinha com seu projeto de reestruturação plebiscitária. Durante o debate da Band, Aécio Neves criticou a proposta de Dilma de realizar uma reforma política por meio de um plebiscito, rotulando-a de “bolivariana”, numa alusão às mudanças de Hugo Chávez na Venezuela. Ela respondeu o seguinte: “Se plebiscitos forem instrumentos bolivarianos, então a Califórnia pratica o bolivarianismo”.

Que todos os santos de Roma e d’África protejam a doutora. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Desde janeiro de 2010, a Califórnia fez 338 plebiscitos e aprovou 112 iniciativas. O mais famoso deles ocorreu em 1978 e tratava do congelamento do imposto sobre propriedades, associado à exigência de dois terços das assembleias estaduais para aprovar aumento de impostos. Tratava-se de responder “sim” ou “não”. Deu 65% a 35% e atribui-se a esse episódio um dos maiores sinais do renascimento do conservadorismo americano (em 1980-1981 Ronald Reagan foi eleito presidente dos Estados Unidos.)

No Brasil já se realizaram três grandes plebiscitos. Em 1963 e 1993, o povo escolheu entre parlamentarismo e presidencialismo. Ganhou o presidencialismo. Em 2005, a urna perguntava: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?” O “não” teve 64% dos votos.

A sério, um plebiscito é simples: “sim” ou “não”? “Parlamentarismo” ou “presidencialismo”? Essa é uma prática da democracia direta, porque é simples.

A proposta de encaminhamento plebiscitário de uma reforma política só não é bolivariana porque vem a ser um truque muito mais velho que a bagunça venezuelana. Em 1934, Benito Mussolini fez a reforma política dos sonhos dos comissariados. Os eleitores recebiam uma lista de nomes com a composição do Parlamento e podiam votar “sim” ou “não”. Il Duce levou por 99,84% a 0,15%.

A República brasileira não está em crise, pelo contrário. Seus poderes Executivo e Legislativo serão renovados numa eleição em que Marina vê vícios profundos, ainda que não os veja na possibilidade de ser eleita. Sua proposta de reordenamento do Estado pode encarnar a vontade do eleitorado mas, na melhor das hipóteses, dá em nada. Na pior, em cesarismo plebiscitário.

Recordar é viver
Marina Silva não sabia que o avião em que viajava com Eduardo Campos saía de um caixa dois. (naquele jatinho só a máquina parecia estar nos conformes; era de um usineiro falido, fora vendido a um consórcio de laranjas, e o piloto estava “cansadaço”).

Lula também não sabia da existência do mensalão. Em 1993, numa de suas campanhas, foi apanhado voando em dois jatinhos. Um pertencia ao filho do deputado João Alves, que amealhara uma fortuna ganhando na loteria e participando das malfeitorias da Comissão de Orçamento. Ficou conhecido como um dos Sete Anões. Outro era de uma empresa que fornecia alimentos à prefeitura petista de São Paulo.

Confrontado com a impropriedade, Nosso Guia informou que não sabia de nada e foi para o ataque: “Estão querendo jogar o PT na mesma lama dos outros partidos”.

Obama e Marina
Em 2008, Vernon Jordan, um dos ícones da elite negra americana, apoiava a campanha de sua amiga Hillary Clinton. Ela tinha tudo para ser indicada candidata a presidente pelo partido Democrata. Anos antes, ele percebera que o casal tinha futuro e ajudou a construir a figura de Bill, um desconhecido governador do Arkansas.

Quando Jordan passou a apoiar a candidatura do companheiro Obama, explicou-se em poucas palavras: “É duro você ir contra um movimento”.

O Pró-Mercedes
Um carioca bem-humorado conspiromaníaco acredita ter descoberto um programa secreto do PT para azarar Aécio Neves.

Estariam distribuindo automóveis Mercedes-Benz com adesivos do candidato no vidro traseiro.

Boa notícia
As coisas boas também acontecem. Apesar de persistir a guilhotina tributária que expõe as pequenas empresas à morte súbita quando elas faturam mais de R$ 3,6 milhões anuais e são expulsas do sistema de cobrança do Simples, andou-se um bom pedaço nessa questão.

Há poucas semanas a doutora Dilma expandiu o alcance do Simples, beneficiando cerca de 450 mil empresas de profissionais liberais. Além disso, acabou com o martírio da exigência de certidões negativas para abertura e fechamento de empresas. Mais: pequenas e médias empresas só poderão ser multadas se forem visitadas duas vezes pelo fiscal. Na primeira, caso não haja dolo, ele adverte; na segunda, autua.

Pleito
Os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal aprovaram o encaminhamento ao Congresso de um pedido de aumento. Ganham R$ 29.462 e querem R$ 35.919, equivalentes a US$ 209 mil anuais. Mais carro com motorista e passagens.

Seus nove colegas da Corte Suprema americana ganham US$ 214 mil, sem mais nada. O juiz Harry Blackmun, pai da sentença que legalizou o aborto, ia para o serviço de Fusca. David Souter rodava um Passat. Antonin Scalia dirige o BMW que comprou.

Arte de rua
Para quem acompanha a produção dos grafiteiros que fazem a melhor arte destes tempos nas ruas do mundo, apareceu uma novidade. É Pejac, um jovem espanhol que passou por Paris. Tem a ironia e o traço de Banksy (herdada do francês Blek le Rat), sem a marquetagem que hoje envolve a misteriosa figura do inglês.

(Acaba de sair o livro “Banksy in New York”, com os grafites que ele fez por lá no final do ano passado.)

O semeador de ventos.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Aécio Neves passou boa parte do tempo, no início de sua campanha, montando acordos em todo o país. Discretamente, habilmente, rachou partidos alinhados a outros candidatos (exemplos: Pezão, PMDB do Rio, está oficialmente com Dilma, mas extraoficialmente tinha se aliado a ele; o PSB paulista de Márcio França estava, claro, com Eduardo, mas também com Aécio). Bastou uma semana de alta acelerada de Marina Silva nas pesquisas para que tudo mudasse: até os tucanos de bico mais comprido já estão assobiando, olhando para os lados e torcendo para quem ninguém os note. Aécio chegou àquela fase de inferno astral de campanha em que os inimigos são muito menos perigosos do que os amigos.

Alckmin, por exemplo, é franco favorito para o Governo paulista, é Aécio desde criancinha, mas transferir seus votos a ele, convenhamos, dá trabalho. Marconi Perillo é favoritíssimo em Goiás e alma gêmea de Aécio, mas como pode impedir que amigos que o apoiam para o Governo façam propaganda de Dilma para a Presidência? E Serra, à frente na luta para o Senado, não estaria sossegado demais quando se trata de transferir votos para o candidato à Presidência?

Ninguém fará a grosseria de lembrar que, nas três eleições presidenciais anteriores, Aécio assistiu com calma à derrota de seus aliados. Em 2010, fez campanha - não em Minas, onde tinha votos, mas viajando para regiões onde jamais tinham ouvido falar dele. Para o PSDB, o importante é derrotar o PT, mesmo que seja com Marina. 

O semeador de ventos que colha sozinho suas tempestades.

Recordando
Em 2010, o PSDB sonhou com a chapa Serra e Aécio, unindo São Paulo e Minas. Aécio deu a entender a caciques tucanos que ficaria feliz com a vice. Quando a ideia vazou, seus aliados abriram fogo, acusando Serra de tentar salvar-se da derrota obrigando Aécio a candidatar-se. 

A pancada doeu; e Serra, sem alternativa, escolheu o primeiro vice que conseguiu laçar, o fluminense Índio da Costa, desconhecido fora do Rio. Entre as qualidades que Serra porventura tenha, certamente não está a capacidade de perdoar. Engolir ofensas passadas por um objetivo comum, que o beneficie, vá lá; mas vingar-se é gostoso demais. 

O voto dos debates
Quem ganhou o primeiro debate entre os candidatos à Presidência, na Bandeirantes? Depende de quem assistiu: para os dilmistas, foi Dilma; para os marineiros, Marina; para os aecistas, Aécio. Pois cada espectador vê o debate de acordo com sua tendência, aceitando melhor as teses com as quais concorda.

E qual a consequência eleitoral deste debate? Nenhuma: debate pode derrubar (o que não aconteceu), mas só em raríssimas ocasiões irá impulsionar um candidato. Para este colunista, Marina Silva foi a melhor, seguida por Eduardo Jorge (que, porém, não tem como subir) e Aécio (que, entretanto, não empolga). Eleitoralmente, é um debate com o qual ou sem o qual a pesquisa continua tal e qual.

Sim, não, talvez
A campanha de Marina é um poço de contradições: o agronegócio a encara com desconfiança, mas confia em seu vice Beto Albuquerque. Marina é conservadora em questões de comportamento, mas muitos de seus adeptos defendem posições menos rígidas. Marina mantém muito da ideologia estatizante dos tempos de PT, mas seu principal assessor da área econômica, Eduardo Gianetti da Fonseca, desconfia de intervenções estatais. 

Haverá choques entre Marina e equipe? Talvez - mas não se deve esquecer o que a História ensina sobre flexibilidade quando se trata de chegar ao poder. Um bom caso é o de Henrique de Navarra, que comandava as forças protestantes durante as guerras religiosas na França. Surgiu-lhe a oportunidade de chegar ao trono, mas teria de virar católico. Henrique se tornou católico, com uma frase famosa - "Paris bem vale uma missa" - e decretou a liberdade religiosa na França. Houve paz e ganharam todos.

Nuvem passageira
É importante não esquecer, como dizia Magalhães Pinto, que política é como nuvem: olha-se, está de um jeito, olha-se de novo, está de outro. Marina está indo bem, mas ainda não ganhou. Pesquisa é bom, mas o que elege é voto na urna.

Juízo, Excelências
A economia está em recessão, o orçamento federal vive de contabilidade criativa, e os ministros do Supremo bem agora pedem aumento de 22%? Pedido errado, na hora errada - quando se anuncia 8% para o mínimo, 5,5% para os aposentados, e no ano que vem. Estarão os ministros deixando de perceber o que ocorre no país? Imaginarão que este não é problema deles? 

Pois informem-se: é.

A Marina que não é Marina
Começou como mal-entendido, virou golpinho eleitoral de baixo nível. É um vídeo em que Lula pede votos para Marina, a maravilhosa, fantástica, que merece ser eleita. Este colunista chegou a pensar que o vídeo era antigo, do tempo de Marina Silva no PT; mas não é, não. É atual; manifesta o apoio de Lula a Marina Santana, candidata ao Senado pelo PT goiano. Alguém botou no início e no final do vídeo o logotipo de Marina Silva, espalhou-o na Internet e pronto. Marina Silva, claro, já disse que não sabia de nada. Mas como tirar o vídeo da Internet?

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As regras do jogo

Fernando Gabeira
O Estado de S. Paulo 

A morte de Eduardo Campos inaugurou uma nova realidade na campanha eleitoral. Mas é uma ilusão pensar que tudo mudou.

Há elementos que permanecem, como, por exemplo, a força eleitoral do governo federal, baseada na sensação de que os tempos de prosperidade e crescimento econômico não acabaram. Para muitas pessoas, a crise ainda não é um fato. Na verdade, ela é um conjunto de índices e perspectivas sombrias que somente os mais atentos conseguem captar.

Dilma Rousseff, por exemplo, deixou de negar a crise e espantar os urubus que rondam o seu discurso triunfal. Agora admite sua existência e ressalta: "Mantivemos empregos e salários". Ela se dirige precisamente àqueles que ainda não sentiram a crise. Seu ministro do Trabalho disse que, em termos de emprego, o Brasil tinha chegado ao fundo poço. Depois desmentiu: o buraco não seria tão fundo como a sua frase dera a entender.

Isso se parece com aquela piada do Millôr, a de um homem caindo de um décimo andar que, ao passar pelo oitavo, diz: "Até aqui, tudo bem".

O cara da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, parece ter decidido pela delação premiada. Ele é o cara porque articulava tudo, tinha milhões de dólares na Suíça. Antes ele havia dito, na cadeia, que não poderia abrir a boca porque, caso falasse o que sabe, não haveria eleições no País. É uma força de expressão. As eleições brasileiras podem renascer, como após o desastre que matou Eduardo Campos. Não importa o que Paulo Roberto diga, elas vão ser realizadas no dia 5 de outubro.

A morte de Campos e a entrada de Marina Silva na disputa pela Presidência reafirmaram a tendência de segundo turno. Mas ela não é novidade. O PT, com Lula ou Dilma, sempre ganhou no segundo turno.

A novidade é que a oposição pode triunfar. Para isso é preciso que demonstre, com clareza, que a sua proposta é a que melhor protege salários e empregos. Ela precisa encontrar uma unidade entre sua proposta econômica e a disposição de combater o fisiologismo e reduzir a corrupção no Brasil a níveis administráveis.

Não acredito em longos programas de governo, embora esteja sempre disposto a discuti-los e a sintetizá-los, como fiz com o seminário de três dias realizado pelo PPS em Brasília. O ideal seria fixar em alguns pontos comuns. Isso é possível. Basta analisar o discurso dos candidatos de oposição para perceber que convergem em várias questões essenciais.

Eduardo Campos e Aécio Neves tinham uma relação cordial, trocavam ideias constantemente. Isso não impediu que procurassem singularizar-se na campanha eleitoral, marcando suas diferenças.

Essa troca de ideias é fundamental. É uma ilusão supor que se governa um país tão complexo como o Brasil sem criar uma base de sustentação técnica e política.

A maioria das pessoas quer mudança. Mas ainda não está muito claro que mudanças querem. Suponho, pela constância das denúncias, que se queira estancar a corrupção. E, naturalmente, a julgar pelas manifestações de junho de 2013, melhores serviços públicos.

Tão amplo desejo de mudança exige clareza de ideias, mas, sobretudo, humildade. Segundo as pesquisas, metade dos eleitores de Dilma também quer mudança. Isso significa que, potencialmente, eles podem abandonar a candidatura dela se as propostas de mudanças forem diretas. E se o bloco que disputar com o PT, no segundo turno, der claras indicações de que a governabilidade não estará ameaçada.

Todos esses palpites são de um simples eleitor. Não estou dentro das eleições, não conheço seus bastidores, não me informei sobre afetos e rancores que as movem neste instante.

Muitos analistas reclamam que o quadro está confuso. Lamentam que as decisões possam ser tomadas num clima emocional. Ao longo destes anos vimos o processo político degradar-se, o abismo se abrindo entre instituições e eleitores. Mesmo as eleições de 2010, marcadas por fortes votações em candidatos folclóricos, como Tiririca, já eram inquietantes. Depois disso vieram as manifestações de 2013, mostrando mais claramente como o povo estava insatisfeito com o governo, com a oposição e com todo o sistema político.

Observo apenas a contradição de alguns setores que não se importaram em degradar a política e afastá-la do povo, na crença de que a máquina de governo e a propaganda tudo resolvem. Agora clamam por racionalidade, frieza e um roteiro seguro para dirigir o País.

Não creio que Marina vá subir nos fios e fazer milagres, como aquela santa no filme de Pasolini. Mas terá a oportunidade de apresentar suas ideias, responder às questões mais delicadas, enfim, oferecer também uma base racional para ser aceita ou rejeitada.

Tanto para ela como para Aécio, creio, um dos temas centrais é como se relacionar nesse conjunto de candidatos que propõem mudança, querem construir algo diferente do que fizeram o PT e seus aliados nestes 12 anos. A proposta de uma nova política não é esotérica se analisamos o discurso dos candidatos de oposição. Eles condenam o fisiologismo, o toma-lá-dá-cá, o balcão de negócios em que se transformaram governo e Congresso Nacional.

Não se navega nessas águas turvas sem apoio dos políticos. Não é possível discriminá-los, afastando-os do governo. O que é desejável é que se escolham apenas os honestos e que tenham competência específica para o cargo que vão ocupar.

Diante do segundo turno, emerge a possibilidade real de conduzir o País por um caminho mais sólido na crise econômica, menos corrompido na política, mais próximo dos grandes centros tecnológicos nas relações exteriores, mais sério na gestão dos serviços públicos.

Há quem queira disputá-lo sozinho na oposição. Há quem prefira Dilma por achar o PT previsível. Mas assim mesmo teremos um ano de 2015 cheio de surpresas.

Façam o seu jogo.

Pânico na elite vermelha

Guilherme Fiuza
O Globo 

Armínio Fraga foi o comandante da etapa de consolidação do Plano Real — a última coisa séria feita no Brasil 

Pela primeira vez em 12 anos, os companheiros avistam a possibilidade real de ter que largar o osso. Nem a obra-prima do mensalão às vésperas da eleição de 2006 chegara a ameaçar a hegemonia dos coitados sobre a elite branca. A um mês da votação, surgem as pesquisas indicando que o PT não é mais o favorito a continuar encastelado no Planalto. Desespero total. 

Pode-se imaginar o movimento fervilhante nas centrais de dossiês aloprados. Há de surgir na Wikipédia o passado tenebroso dos adversários de Dilma Rousseff. Logo descobriremos que foram eles que sumiram com Amarildo, que depenaram a Petrobras, que treinaram a seleção contra os alemães. É questão de vida ou morte: como se sabe, a elite vermelha terá sérias dificuldades de sobrevivência se tiver que trabalhar. Vão “fazer o diabo”, como disse a presidente, para ganhar a eleição e não perder a gerência da boca.

O Brasil acaba de assistir à queda de um avião sobre o castelo eleitoral do PT. Questionada sobre as investigações acerca da situação legal da aeronave que caiu, Dilma respondeu que não está “acompanhando isso”, e que o assunto não é do seu “profundo interesse”. Altamente coerente. Se a presidente e seu padrinho não “acompanharam” as tragédias no governo popular — mensalão, Rosemary e grande elenco — não haveria por que terem “profundo interesse” numa tragédia que veio de fora. Eles sempre fingiram que estava tudo bem e o povo acreditou, não há por que acusar o golpe agora. Avião? Que avião?

Melhor continuar arremessando gaivotas de papel, para distrair o público. Até o ministro decorativo da Fazenda foi chamado para atirar a sua. Guido Mantega, como Dilma e toda a tropa, é militante de Lula. O filho do Brasil ordena, eles disparam. Mantega já chegou a apresentar um gráfico amestrado relacionando o PAC com o PIB — um estelionato intelectual que o Brasil, como sempre, engoliu. Agora o homem forte (?) da economia companheira entra na campanha para dizer que Armínio Fraga desrespeitou as metas de inflação. Uma gaivota pornográfica.

Para encurtar a conversa, bastaria dizer que Armínio Fraga foi um dos homens que construíram aquilo que Mantega e seu bando há anos tentam destruir. Inclusive a meta de inflação. Armínio foi o comandante da etapa de consolidação do Plano Real — última coisa séria feita no Brasil — enfrentando o efeito devastador da crise da Rússia, que teria reduzido a economia nacional a pó se ela estivesse nas mãos de um desses bravateiros com estrelinha. Mantega e padrinhos associados devem a Armínio Fraga e aos realizadores do Plano Real a vida mansa que levaram nos últimos 12 anos. E deve ser mesmo angustiante desconfiar pela primeira vez que essa moleza vai acabar.

Se debate eleitoral tivesse alguma ligação com a realidade, bastaria convidar os companheiros a citar uma medida de sua autoria que tenha ajudado a estruturar a economia brasileira. Uma única. Mas não adianta, porque, como o eleitorado viaja na maionese, basta aos petistas dizer — como passaram a última década dizendo — que eles livraram o Brasil da inflação de Fernando Henrique. A própria Dilma foi eleita em 2010 com esse humor negro, e jamais caiu no ridículo por isso. Com a fraude devidamente avalizada pelo distinto público, Guido Mantega pode se comparar a Armínio Fraga e entrar em casa sem ter que esconder o rosto.

Em meio às propostas ornamentais, aliás, Armínio é o dado concreto da corrida presidencial até aqui. Nada de poesia, de “nova política”, de arautos da “mudança” — conceito tão específico quanto “felicidade”, que enche os olhos da Primavera Burra e dos depredadores do bem. Armínio não é terceira, quarta ou quinta via, nem a mediatriz mágica entre o passado e o futuro. É um economista testado e aprovado no front governamental, que não ficará no Ministério da Fazenda transformando panfleto em gaivota. 

O PSDB, como os outros partidos, adora vender contos de fadas. Mas seu candidato, Aécio Neves, resolveu anunciar previamente o seu principal ministro. Eis a sutil diferença entre o compromisso e a conversa fiada.

Marina Silva também é uma boa notícia. Só o fato de ser uma pessoa íntegra já oferece um contraponto valioso à picaretagem travestida de bondade. Nunca é tarde para o feminismo curar a ressaca dos últimos quatro anos. O que seria um governo Marina, porém, nem ela sabe. Se cumprir a promessa de Eduardo Campos e empurrar o PMDB S.A. para a oposição, que grande partido comporia a sua sustentação política? Olhe em volta e constate, com arrepios, a hipótese mais provável: ele mesmo, o PT — prontinho para a mudança, com frete e tudo.

Marina vem do PT e está no PSB, cujo ideário é de arrepiar o maior sonho cubano de José Dirceu. E tentar governar acima dos partidos foi o que Collor fez. Que forças, afinal, afiançariam as virtudes de Marina?

A elite vermelha está pronta para se esverdear.

O diabo a quatro

Dora Kramer
O Estado de S. Paulo

A possibilidade de uma derrota na eleição presidencial já estava no radar do PT há algum tempo. O partido havia abandonado a esperança de vencer no primeiro turno desde que as taxas de rejeição e aprovação à presidente Dilma Rousseff se encontraram.

Os petistas consideravam que a disputa final seria um páreo duro. Perder para Aécio Neves, do PSDB, seria uma hipótese. Remota, é verdade. Principalmente diante da perspectiva de que o horário eleitoral desse à presidente uma dianteira, senão confortável, ao menos segura.

No fatídico dia 13 de agosto último, porém, tudo mudou. Eduardo Campos saiu da vida e Marina Silva entrou na disputa para presidente justamente numa quadra da história em que o País só quer saber de mudança e nada mais. A qualquer custo.

Veio a primeira pesquisa, a segunda, a terceira e as análises precisaram ser revistas. A derrota de Dilma já não se desenhava mais como uma hipótese remota. Enquadrava-se na moldura de uma possibilidade concreta.

Os especialistas em interpretações de pesquisas passaram a dizer que, mantida a tendência e salvo o imponderável, a candidata do PSB se elegeria presidente em segundo turno.

Observam esses mesmos analistas que em 2002 havia um clima semelhante. Na época, a tentativa de mudar começou em abril, com Roseana Sarney. Abatida em maio, com a descoberta pela Polícia Federal de dinheiro sem origem justificada em empresa de propriedade dela e do marido no Maranhão.

O eleitorado, então, fez nova tentativa voltando-se para Ciro Gomes. Subiu nas pesquisas, ficou com jeito de fenômeno em junho, dizimado pelo próprio destempero verbal. Em seguida, a ausência de opções (só havia Anthony Garotinho e o governista José Serra) levou o rio para o mar de Lula.

Hoje, visto do alto o panorama parece pior para o PSDB, que ficaria fora da disputa. Mas, olhando com visão pragmática, o partido perderia o que não tem. Contabilizaria mais uma derrota eleitoral. Péssimo para seus projetos político-partidários? Sem dúvida alguma.

Mas o dano maior mesmo seria para quem corre o risco de perder o que tem. O PT está mais perto de perder o poder do que nunca esteve antes nos últimos anos.

E por poder entenda-se não apenas o federal. Dos dez maiores colégios eleitorais só está em primeiro lugar nas pesquisas para governador em Minas Gerais. Em Estados importantes como São Paulo, Rio, Paraná e Bahia o PT fica entre os 3.º e 4.º lugares.

Nesse quadro, a perda do poder central seria especialmente desastrosa, pois enfraqueceria a legenda também no Congresso, reduzindo seu poder de fogo como força de oposição.

Por essas e várias outras questões relativas ao acomodamento dos companheiros (petistas ou aliados) máquina pública País afora, a inquietação toma conta dos que se veem ameaçados de voltar à condição de 12 anos atrás.

Essa mesma máquina está sendo mobilizada no afogadilho para trabalhar na campanha. Convoca-se o conselho político, reúnem-se assessores de segundo escalão de ministérios e empresas estatais para serem despachados a encontros e debates com o objetivo de defender o governo.

Ou seja, terror e pânico. O clima não chegou ao horário eleitoral. A presidente mantém artificialmente a fleuma e a ideia de que ainda pretende polemizar com o tucano Aécio Neves. Bobagem. Chuva que já choveu.

A inimiga real é Marina e contra ela é que está sendo feita a convocação geral para pôr em prática o uso do "diabo" anunciado pela presidente para ganhar as eleições.

Farão daqui em diante o diabo a quatro para impedir que seja interrompida não a implantação de um projeto de País, mas a execução de um plano de ocupação hegemônica de todos os instrumentos de poder.
Para isso anunciou-se a disposição de fazer "o diabo". Diante do perigo, não há dúvida: haverá de se fazer o diabo a quatro.

Transmarina e a “zelite”

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

Marina considera a “luta de classes” velha e ruim. Sua ideia de elite é outra. É quem inspira e lidera

"O problema do Brasil não é sua elite, mas a falta de elite. Não tenho preconceito contra a condição econômica e social de quem quer que seja. Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de combater a elite. Essa visão tacanha de combater as pessoas com rótulo. Precisamos fazer o debate envolvendo ideias, empresários, trabalhadores, juventudes, empreendedores sociais. Com pessoas de bem de todos os setores, honestas e competentes.”

Essa resposta desconcertante de Marina Silva no debate  da Band entre os candidatos à Presidência mostra que Dilma Rousseff e Aécio Neves terão de dar um duro danado para dinamitar – ou “desconstruir” – a rival.

O Brasil do PT tem reforçado o maniqueísmo entre pobres e ricos, ou “proletariado” e “burguesia”, expressões caras da esquerda caviar-champanhe. Como se os pobres fossem todos bons, puros, generosos e vítimas – e os ricos fossem todos safados, cruéis, desnaturados e bandidos. Em nosso país, quem ganha mais de seis salários mínimos é rico.

Nos últimos tempos, sobrou fel até para a classe média. Vimos com espanto o vídeo com o discurso histérico da filósofa da USP Marilena Chauí no ano passado. Era uma festa do PT para lançar o livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. “Odeio a classe média”, afirmou Chauí, sob aplausos, risos e “u-hus” da plateia. “A classe média é o atraso de vida. A classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante. Petulante, arrogante, terrorista.” Presente no palco, Lula ria e aplaudia a companheira radical petista, embora dificilmente concordasse. “A classe média é uma abominação política porque é fascista. É uma abominação ética porque é violenta”, afirmou Chauí, fundadora do PT e adepta da luta de classes.

É uma luta que Marina considera antiquada e ruim para o país. Sua ideia de elite é outra: quem se sobressai no que faz, quem inspira e lidera. Neca Setubal, socióloga, educadora, autora de mais de dez livros, defensora do desenvolvimento sustentável e herdeira do banco Itaú, é o braço direito de Marina. Com seu discurso de união e um plano de governo de 244 páginas, costurado com Eduardo Campos, Marina ameaça tornar-se presidente do Brasil, segundo as pesquisas de intenção de voto.

Ela não passa de uma amadora, diz Aécio Neves. Marina responde: “Melhor ser amador do sonho que profissional das escolhas erradas”. Ela faz uma campanha da mentira, afirma Dilma. “Mentira”, responde Marina, “é dizer que os adversários não estão comprometidos com políticas sociais”.

Marina virou o sujeito da mudança. Colhe em sua rede indecisos, revoltados, idealistas, anarquistas e também aecistas e dilmistas. Isso não é elogio, só a constatação de um fato provado em pesquisas. Os “marineiros” são um caldeirão de eleitores de diversas ideologias, ou avessos a pregações ideológicas. Quando Marina diz que “a polarização PT-PSDB já deu o que tinha que dar”, ou que “o Brasil não precisa de um gerente, mas de um presidente com visão estratégica”, isso bate forte em milhões de brasileiros de todas as idades.

Marina não tem resposta para uma enormidade de questões – entre elas, como a “nova política” poderá ser diferente da “velha política”, se concessões e alianças são essenciais para aprovar reformas, governar o país e transformar em realidade seus sonhos. Marina tem convicções pessoais que precisará reavaliar ou abandonar se quiser mesmo colocar o país nos trilhos do futuro, abraçar as novas famílias e os estudos de células-tronco.

Mas seu discurso de grandes linhas, abstrato e utópico, empolga e atrai. Os adversários a ajudam. De um lado, temos o desfile chato, emburrado e claudicante de percentagens e estatísticas infladas. Do outro, um rosário sorridente de êxitos discutíveis em Minas Gerais.
Nos Estados Unidos, Barack Obama ganhou uma eleição no discurso, na oratória, no simbolismo – não no preparo ou na experiência administrativa. Guardadas as proporções, Marina busca o mesmo.

Nas redes sociais, a ascensão de Marina provocou uma campanha de ódio e ironias. Ela foi chamada de “segunda via do PSDB” – porque defendeu a estabilidade iniciada por Fernando Henrique Cardoso e porque os tucanos votariam nela, jamais em Dilma, num confronto direto. Chamaram Marina de “segunda via do PT” – porque defendeu a política de inclusão social de Lula. Traíra, oportunista e coisas piores. Fizeram uma montagem de seu rosto com o corpo nu da mulata Globeleza. Disseram que ela tem “cara de macaco”. Um show de racismo e de pânico.

Os arautos à esquerda e à direita a chamam de “novo Collor” ou de “Jânio de saias”. A Transmarina, ao acolher a “zelite” do bem, veio para confundir. E incendiar uma eleição antes morna, entediante e previsível.

O voto, do cansado ao fisiológico

Gaudêncio Torquato 
O Estado de S. Paulo

Chico Heráclio (1885-1974), o poderoso dono do poder nas plagas de Limoeiro (PE), sabia como ninguém interpretar o ânimo dos eleitores. Dominava o voto de cabresto no Agreste Pernambucano e vizinhanças. Mas não conseguia encher as urnas na capital. Indagado sobre o motivo, a raposa política saiu-se com esta: “O eleitor do Recife é muito a favor do contra”. Pois bem, a máxima do último dos coronéis, como era designado, serve para explicar a disposição do eleitorado brasileiro das grandes cidades, no ciclo eleitoral em curso, que deixa antever um cidadão “muito a favor do voto contrário”.

O rol de qualificações desse eleitor é extenso: indignado, revoltado, saturado, descrente, desesperançoso, cansado. O último adjetivo traduz bem a motivação das ruas: o voto do cansaço, que atinge o clímax no processo eleitoral contemporâneo, desenvolvido sob a paisagem devastada da política e da gestão pública (escândalos, corrupção, desvios). Essa é a modalidade que explica o avanço da ex-senadora Marina Silva no ranking eleitoral e sugere um redesenho completo no tabuleiro do jogo político, eis que começa a ser considerada um quadro competitivo na esfera de um eventual - e provável - segundo turno em 26 de outubro.

O sentimento de mesmice na vida institucional empurra imensa parcela do eleitorado a correr em direção ao perfil que mais se identifica com inovação, ética, seriedade, sendo a ex-seringueira do Acre a beneficiária principal da corrente mudancista, ainda mais quando a onda emotiva criada com a morte trágica de Eduardo Campos a eleva aos píncaros da fama e da visibilidade. Mas a hipótese de que possa vir a ser vitoriosa há de ser conferida, se não contrabalançada, por um conjunto de fatores que servem de argamassa para a construção do edifício político, como bases partidárias, máquina pública, cabos eleitorais, recursos financeiros e, sobretudo, a multifacetada tipologia eleitoral. Daí a propriedade da pergunta: os votos rebeldes (“a favor do contra”) suplantarão os sufrágios que costumam entrar no panelão tradicional, onde se misturam grupos que ainda primam por cultivar velhos costumes e práticas?

Um ligeiro exercício para identificar núcleos, setores e áreas serve de biruta para indicar a direção do vento na hora da escolha. Vejamos.

O voto do cansaço, claro, abre a planilha e dá as caras nos mais diferentes conglomerados, desde as galeras jovens, desencantadas com a política, até os emergentes da classe C, que descobriram o caminho das ruas, desde o ano passado, para fazer ecoar suas demandas. Trata-se de poderosa tuba de ressonância, com particular desempenho nas redes sociais.

Deixando esse exército de vanguarda, sigamos os batalhões de retaguarda, começando com os bolsões tradicionais das margens, propensos a dar um “voto de coração”, em agradecimento e reconhecimento a quem lhes proporcionou “um rico (?) dinheirinho”. A massa fisiológica dos fundões e até de alguns espaços centrais tenderá a recompensar candidatos que se identificam, por exemplo, com o Bolsa Família (cerca de 50 milhões de beneficiados) e o Mais Médicos (cerca de 30 milhões de assistidos), a par de outros pacotes de benefícios.

Olhemos também para os votos agarrados aos partidos, não em função de sua índole ideológica (que só tem peso no bojo de duas ou três pequenas siglas radicais), mas pela malha gigantesca de empregos na máquina pública das três instâncias federativas. As massas funcionais votam pensando em garantir o emprego. Não são poucos os milhões de eleitores deste bloco, sem esquecer os conglomerados sob a égide do sindicalismo atrelado ao Estado.

O convite, agora, é para entrar no barulhento andar da classe média B, essa com poder de gerar influência, criando marolas ao jogar pedrinhas no meio do lago e fazendo com que as ondas corram até as margens. Essa divisão tende a votar de maneira consciente, racional, compulsando atores, analisando propostas e se identificando com perfis mais próximos ao seu dia a dia. Gira no entorno do centro para a esquerda, identificando-se com a modernidade, porém evitando qualquer pista que leve ao fundamentalismo messiânico.

Apesar de menor, a cada pleito o voto conservador, outro bloco, não segue a onda emotiva que se espraia no território. Rejeita quadros localizados na esquerda do arco partidário.

No outro lado do espectro político, distingue-se o contraponto, um posicionamento duro que transita pelas siglas nanicas de corte ideológico. Ao longo dos anos, esse eleitorado tem diminuído.

São esses alguns tipos de votos de nosso painel eleitoral. Será possível que um tsunami emotivo embaralhe as regras do jogo, liquidifique todas as tendências e faça o “voto da indignação” assumir o pódio, elegendo uma pessoa que garante, caso seja vitoriosa, dar adeus à velha ordem política? Sim, isso é até possível. Significaria a vitória de um ícone identificado com as forças sociais em curso. A carga de mudanças que tal situação deflagraria seria inimaginável, a partir de um arrastão que levaria de roldão os carros das reformas fundamentais, a começar da reforma política.

No curto prazo, uma “revolução” nesses moldes parece pouco provável, mas na política o imponderável - como bem sabemos - teima em deixar marcas. Há, em todo esse rearranjo, algo positivo. Trata-se da taxa de conscientização política, que se expande sob o empuxo de uma sociedade que se mostra desejosa de participar do processo de mudanças.

À guisa de conclusão, uma historinha com Getúlio Vargas. Um repórter, na saída do Catete, indagou: “Presidente, o que é preciso para vencer uma eleição?”. Respondeu: “Muita coisa. Boa memória, por exemplo. Ou usar a política como água no feijão. Basta ver, o que não presta flutua, o que é bom repousa no fundo”. 

O eleitor começa a ver o que é bom e o que é ruim no feijão do nosso cotidiano. 


Trapaças da História

José Casado
O Globo

A tendência ao aumento dos índices de rejeição a Dilma Rousseff, confirmada nesta semana, deixou atônitos os líderes do Partido dos Trabalhadores.

Isso porque o número de eleitores afirmando “não votar de jeito nenhum” em Dilma supera em até dois pontos percentuais a soma das intenções de voto (34%) da presidente-candidata. É bem acima da rejeição a Aécio Neves (PSDB), com 23%, e Marina Silva (PSB), com 15%.

Reafirma-se a harmonia entre a rejeição, frustração com o governo e declínio das expectativas de progresso — realçados pela economia recessiva e com alta inflação. O resultado é o desejo crescente de mudanças, que avançou de 76% para 79%, informa o Datafolha. É a característica desta eleição.

Dilma animou-se à luta pela reeleição, em meados de 2012, quando tinha 75% de aprovação. As manifestações de junho de 2013 sinalizaram inflexão. A desaprovação dobrou (para 47%).

Sobravam evidências de ineficiência governamental (a burocracia bloqueara o uso de 60% dos recursos destinados à saúde e 40% ao transporte durante a década.) Dilma e o PT optaram por reagir com a receita clássica da perfumaria política para crises — Constituinte exclusiva, plebiscito, etc. A sociedade ficara mais moderna que o seu Estado, mas Lula escolheu bater nos manifestantes: “Isso é coisa da direita”.

Um ano depois, a desaprovação e a rejeição à presidente-candidata continuam altas. Trapaças da História: o desejo de mudança alcançou nível só comparável ao de 2002, prévio à eleição de Lula, numa disputa com três ex-fundadores do PT — entre eles a líder nas pesquisas, Marina Silva.

Contradições

Merval Pereira
O Globo 

O caso do jato Cessna que vem dando dor de cabeça à direção do PSB por ser, ao que tudo indica, produto de uma obscura transação que envolve laranjas e dinheiro não contabilizado, trouxe para a herdeira política Marina Silva uma questão adicional, que reforça as supostas contradições de sua candidatura.

Uma das empresas envolvidas na compra do jato é a Bandeirantes Companhia de Pneus Ltda, que importa pneus usados, negócio considerado como dos mais danosos ao meio-ambiente. A autorização de importação de pneus usados, por sinal, foi uma das muitas brigas que Marina travou à frente do ministério do Meio-Ambiente, e perdeu.

Em 2003, foi convencida pelo então ministro da Casa Civil, José Dirceu, a recuar em sua posição contrária à importação de pneus em nome de um “bem maior”, no caso a unidade do Mercosul. Isso por que, apesar de oficialmente proibir a importação de pneus remodelados, o Brasil acata desde 2002 uma decisão do Tribunal Arbitral do Mercosul que obriga o país a aceitar a entrada de pneus vindos do Uruguai.

Essa posição provocou decisões judiciais que trouxeram para o país pneus usados dos Estados Unidos e da União Européia. Marina sempre reclamou que a questão dos pneus era tratada como puramente comercial, sem que fosse levado em conta seu lado ambiental. Seu objetivo, dizia, era fazer com que o Brasil deixasse de ser uma "lata de lixo global" para os pneus usados em outros países.

Sabe-se agora que a então denominada Bandeirantes Renovação de Pneus foi beneficiada por um decreto assinado em 2011 pelo governador Eduardo Campos, que ampliou seus benefícios fiscais, eliminando limites de importação fixados anteriormente por decreto do ex-governador e hoje deputado federal Mendonça Filho. Um dos sócios da hoje denominada Bandeirantes Companhia de Pneus Ltda, Apolo Santana Vieira, responde a processos de sonegação fiscal estimados em cerca de R$ 100 milhões devidos pela importação de pneus pelo porto de Suape, em Pernambuco.

Unindo-se a natureza do empreendimento ao fato de que o uso do avião não fora ainda declarado como doação de campanha eleitoral, com forte cheiro de caixa 2, têm-se que a candidata Marina Silva está em uma situação no mínimo delicada. A "nova política" que ela e Eduardo Campos pregavam era transportada para cima e para baixo por um jatinho todo irregular, financiado em última instância por uma atividade comercial que a ambientalista Marina Silva repudia. E que recebeu estímulos fiscais de seu companheiro de luta política anos antes de os dois se juntarem para tentar chegar ao Palácio do Planalto.

A essa contradição da dupla anterior soma-se a atual, de ter como companheiro de chapa o deputado Beto Albuquerque, que foi um dos líderes da aprovação do uso de transgênicos no Congresso, derrotando a posição da então senadora Marina Silva. Como a própria Marina explica agora, trabalhar com quem discorda de seus pontos de vista mostra apenas que ela não é uma radical como a acusam, e que sabe conviver com contrários.

No caso de Beto Albuquerque é uma verdade, pois trata-se de um político correto que, ao que se sabe, estava em defesa dos agricultores do Rio Grande do Sul no caso dos transgênicos, e não em alguma transação nebulosa. Mas no caso da empresa de pneus usados, não há desculpa para receber doações de campanha fora da legislação e de um empreendimento que considera nocivo ao meio-ambiente.

Nem mesmo dizer que não fora informada de nada. Ao se juntar à campanha de Eduardo Campos, tinha a obrigação de se informar desses detalhes, justamente para não se ver em uma situação delicada como agora. Outra aparente contradição, mas que desta vez trabalha a seu favor, é a nota do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Xapuri (Acre), fundado por Chico Mendes, ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), que não gostou de ver Marina colocá-lo como membro da "elite" brasileira, nem quer vê-lo classificado como um "ambientalista", mas sim como "sindicalista".

O sindicato também condena a política ambiental "idealizada pela candidata Marina Silva enquanto Ministra do Meio Ambiente, refém de um modelo santuarista e de grandes Ong's internacionais". Ora, os próprios termos do debate mostram que a ex-seringueira Marina Silva saiu do Acre para ganhar uma dimensão modernizadora, com uma visão mais ampla da disputa política e da própria defesa do meio-ambiente.

O Brasil enlouqueceu (Marina na frente, economia em recessão, bolsa em alta, dólar em baixa)

Tribuna da Internet
Paula Arend Laier,  Agência Reuters

O principal índice da Bovespa atingiu a maior pontuação em 19 meses no fechamento desta sexta-feira, acumulando em agosto a maior alta mensal desde janeiro de 2012 e o melhor desempenho para o mês desde 2003.

Os ganhos ao longo do mês foram amparados na forte participação de estrangeiros na Bovespa e na consolidação de um cenário mais difícil para a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT).

O Ibovespa encerrou o último pregão de agosto em alta de 1,65%, aos 61.288 pontos, maior pontuação desde 23 de janeiro de 2013. O volume financeiro somou R$ 10,9 bilhões.

Na semana, o índice acumulou ganho de 4,93%, maior alta semanal desde a última semana de março; enquanto em agosto índice valorizou-se 9,78%.

DEPOIS DA QUEDA
O mês foi marcado pelo trágico acidente aéreo que matou no dia 13 o então candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos, resultando em uma reviravolta no cenário eleitoral. A vice Marina Silva assumiu a candidatura e passou a liderar as pesquisas nas simulações de segundo turno.

Até o dia 13, o Ibovespa acumulava no mês queda de 0,44%. Do dia 13 até o final do mês, o índice contabilizou uma valorização de 10,27%. E os papéis das empresas estatais se destacaram na alta do índice.

As ações preferenciais da Petrobrás encerraram o mês com avanço acumulado de 22,25%, enquanto as ordinárias subiram 23,07%. O Banco do Brasil subiu 26,55%, enquanto a Eletrobras PN avançou 13,41% e ON ganhou 30,4%. O peso total dos papéis dessas estatais no índice é de 15%.

DILMA CAI, BOLSA SOBE
“Nos últimos 30 dias, o que era uma chance de 50%/50% para o resultado da eleição se tornou provavelmente algo como 90% de chance de Dilma perder. O mercado está feliz de que um acionista que não se importa com os lucros será substituído”, disse o sócio da Leblon Equities Marcelo Mesquita.

“Mais importante também é que a taxa de juro de longo prazo caiu abaixo da taxa de juros de curto prazo, o que não era o caso no Brasil por um longo tempo no governo de Dilma Rousseff, apontando para a confiança a longo prazo em mudanças que devem ser excelentes para os lucros das empresas”, acrescentou.
Mesquita vê as expectativas relacionadas às eleições “continuando a ditar 100% da performance dos mercados até a sua conclusão, definição de detalhes dos times…”

RECESSÃO?
A dinâmica eleitoral também guiou a Bolsa no último pregão do mês. Os números do IBGE mostrando recessão técnica da economia acabaram tendo efeito positivo pelo eventual impacto na intenção de voto, com agentes avaliando que reforçam o quadro mais difícil de reeleição de Dilma Rousseff (PT).

À tarde, as atenções voltaram-se para o programa de governo do PSB, que prometeu menor presença do Estado na economia, criando condições para elevar a presença do capital privado nos investimentos, assim como assegurou independência institucional ao Banco Central. Ainda esteve no radar pesquisa Datafolha, prevista para ser divulgada nesta sexta-feira à noite.

Petrobrás encerrou o dia em alta, também em meio a comentários sobre a empresa em relatório de bancos, entre eles o BofA Merrill Lynch, que elevou o preço-alvo das ações.

O setor bancário teve peso relevante para o avanço do índice, em meio aos ganhos de Itaú Unibanco, Bradesco e Banco do Brasil.

Cosan também chamou a atenção, registrando a sexta alta consecutiva, após Marina Silva defender na quinta-feira um marco regulatório “claro” para o setor de cana-de-açúcar e dar destaque ao setor em seu programa de governo.

Telefônica Brasil liderou os ganhos do Ibovespa. Mais cedo, a espanhola Telefónica disse acreditar que a operação e integração da GVT com seus negócios no Brasil proporcionará sinergias de 4,7 bilhões de euros.

As ações da Vale seguiram debilitadas pela fraqueza dos preços do minério de ferro na China, ainda abaixo de US$ 88 a tonelada. No mês, as preferenciais da mineradora caíram 10,85%.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG - O Brasil enlouqueceu ou não? (C.N.)