quarta-feira, setembro 10, 2014

Perseguição autoritária

Adelson Elias Vasconcellos


Além de jornalistas, o governo petista agora persegue analistas críticos à política econômica. Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, tornou-se a última das vítimas que, iludindo-se viver numa democracia plena, em que a liberdade de expressão é um dos princípios basilares do sistema, se consideram livres para elogiar e CRITICAR governos e instituições quando entendem que estas estão sob domínio da má gestão, ou fazendo escolhas inadequadas. 

Num post mais abaixo, o leitor poderá se defrontar com mais esta agressão de um estado policial instalado no poder, que não admite a crítica, que não suporta ser contradito, que não tolera o livre pensamento a não ser aquele que os adula, idolatra e se dobra à sua autoridade. 

Se já não tivéssemos motivos suficientes nos campos dos serviços públicos em geral, na educação e na economia,  a simples ação de perseguir críticos, tentando calar suas vozes discordantes, seja pelo emprego mafioso de alas do Judiciário que sorriem para a censura fascista, seja pelo o uso do poder econômico canalha, esta patrulha totalitária é inadmissível. 

Como esquecer que Lula, de viva voz, pediu a demissão sumária de quatro funcionários do Santander, ao seu amigo banqueiro e presidente daquela instituição? 

Como sempre se disse aqui, não me basta um governante recitando discursos cheios de sentenças belas e sedutoras. O que determina o julgamento final é o resultado de suas ações, ou o conceito que as move. E, neste ponto, Dilma e Lula não diferem muito de alguns generais do regime militar. Toleram a tal liberdade  de expressão não porque a defendam com total e plena convicção, mas porque sabem que não podem tolher esta direito inalienável de qualquer regime democrático, ou seja, se puderem, criarão mecanismos para reinstaurar de modo hipócrita a velha censura combalida  de guerra.

Listas de jornalistas indicados para perseguição por parte dos militantes do partido petista, já fazem parte da paisagem. Agora, entrou na moda da ação fascista do PT a perseguição a economistas e analistas econômicos que discordam da política econômica adotada pelo governo da senhora Rousseff. Até parece que basta silenciá-los com a mordaça da censura para que a economia saia da mediocridade!

É bom que o país varra do poder partidos e ideologias que atentam contra a nossa democracia. O PT, apesar do discurso, tem em suas fileiras gente que, na ditadura militar, jamais reclamou por democracia. Queriam substituir um regime totalitário por outro, na versão soviética ou cubana. A insistência que vem desde o governo Lula em restaurar o censura aos meios de comunicação só corrobora a tendência totalitária que inunda a alma desta gente. 

Portanto, esta queixa-crime levantada pelo BC contra um economista que teve a ousadia de discordar da atual gestão da política monetária do país, é apenas mais um  dentre os muitos episódios a ilustrar a semente do mal abrigada no seio do poder. Mais constrangedor é nos depararmos com procuradores e membros do judiciário a darem guarida a tamanha boçalidade!

O uso da máquina pública para fins eleitoreiros é uma daquelas calamidades a nos alertar para o perigo em manter no poder um partido que não incorpora  em seus ideais conceitos democráticos. Já nos livramos do regime  militar. Está na hora de nos libertarmos do fascismo civil que o PT representa.   

E que estes estúpidos aprendam de uma vez: na democracia, são os fatos e não o partido quem determina que notícias e análises publicar. O PT não é nem nunca será nosso censor. O  direito da livre manifestação é um direito conquistado pela sociedade brasileira, e não um mero favor prestado por seus pelegos e militantes fascistóides.  

NOTA 1: Diante do espetáculo ridículo que o BC começava a encenar e, também, face a forte reação contrária por amplos setores da sociedade, alguém no BC caiu na real: decidiram desistir da ação contra o economista Alexandre Schwartsman. Se a desistência vale como  medida de bom senso, a iniciativa da ação contra o economista serve, a exemplos de muitas outras ações semelhantes, como um alerta à sociedade nas mãos de quem o governo está entregue, o pensamento e a ideologia de que estão revestidos e o real perigo que representam à democracia do país. A única coisa que o país não precisa é de um estado policial, a perseguir adversários políticos e censurar os críticos.
  
NOTA 2: A senhora Rousseff em seu horário eleitoral acusou Marina Silva, sem nenhuma razão,  de ser mero agente dos banqueiros, caso eleita. Primeiro, que Marina jamais pronunciou um “a” em favor do mercado financeiro. Segundo, jamais, em tempo algum, os banqueiros ganharam tanto dinheiro como nos governos Lula e Dilma. Impressiona, cada vez mais, a completa falta de escrúpulos e má fé empregadas pela senhora Rousseff na tentativa de se reeleger.  Haja vigarice política e discurso obscurantista!!!!!   

NOTA 3: Ainda sobre a atuação patética da senhora Rousseff, agora sobre o mar de lama que se mistura aos barris de petróleo da Petrobrás.  Esta senhora dizer que nada sabia sobre o esquema de corrupção bilionária é chamar o país todo de idiota. Pelos cargos que ocupou e ocupa, escolheu a dedo a senhora Graça Foster, funcionária de carreira, para substituir Sérgio Gabrielli no comando da estatal. Conhece com lupa os cantos e recantos da Petrobrás. Tentou, desesperadamente, a mando de Lula, impedir qualquer investigação sobre os negócios obscuros feitos na administração anterior e atual, a ponto de montar um teatro vergonhoso na CPI.  Não cola mais esta do “não sabia de nada”. É tão responsável quanto qualquer diretor pelos desatinos e desvios, se não diretamente, pelo menos no plano administrativo não escapa. Eis aí mais uma razão concreta para o país negar-lhe um novo mandato. Ou ela errou por omissão, o que não se coaduna com a fama de “gerentona”, ou por incompetência. Não há terceira opção.

NOTA 4:  A campanha de baixaria explícita desenvolvida por Dilma Rousseff só sabe bater na tecla da desqualificação dos adversários, sem olhar-se no próprio espelho e reconhecer e apontar os próprios erros. Projeto que é bom para tirar o Brasil do atoleiro do baixo crescimento, NADA vezes NADA. Acrescente-se: baixo crescimento fruto do seu mau governo. Promessas? São muitas sem definir, por outro lado, os meios de alcançá-las. Seria saudável que a campanha da senhora Rousseff trouxesse para o debate ao menos um projeto consistente em favor do país. Após 12 anos no poder, o petismo não apenas não conseguiu resolver os problemas que encontrou, mas está contribuindo ainda para deteriorar as virtudes recebidas…E com um latifúndio de tempo à disposição, além do paraíso tão verdadeiro quanto uma nota de 3 reais que tenta vender, só consegue apresentar e resvalar no terrorismo e vigarice políticas. As dissimulações, cinismo e hipocrisias presidenciais já estouraram o limite.

O silêncio de Lula

Marco Antonio Villa
O Globo

Ao escolher candidatos sem consulta à direção partidária, ele transformou o PT em instrumento de vontade pessoal

Na história republicana brasileira, não houve político mais influente do que Luiz Inácio Lula da Silva. Sua exitosa carreira percorreu o regime militar, passando da distensão à abertura. Esteve presente na Campanha das Diretas. Negou apoio a Tancredo Neves, que sepultou o regime militar, e participou, desde 1989, de todas as campanhas presidenciais.

Quando, no futuro, um pesquisador se debruçar sobre a história política do Brasil dos últimos 40 anos, lá encontrará como participante mais ativo o ex-presidente Lula. E poderá ter a difícil tarefa de explicar as razões desta presença, seu significado histórico e de como o país perdeu lideranças políticas sem conseguir renová-las.

Lula, com seu estilo peculiar de fazer política, por onde passou deixou um rastro de destruição. No sindicalismo acabou sufocando a emergência de autênticas lideranças. Ou elas se submetiam ao seu comando ou seriam destruídas. E este método foi utilizado contra adversários no mundo sindical e também aos que se submeteram ao seu jugo na Central Única dos Trabalhadores. O objetivo era impedir que florescessem lideranças independentes da sua vontade pessoal. Todos os líderes da CUT acabaram tendo de aceitar seu comando para sobreviver no mundo sindical, receberam prebendas e caminharam para o ocaso. Hoje não há na CUT — e em nenhuma outra central sindical — sindicalista algum com vida própria.

No Partido dos Trabalhadores — e que para os padrões partidários brasileiros já tem uma longa existência —, após três decênios, não há nenhum quadro que possa se transformar em referência para os petistas. Todos aqueles que se opuseram ao domínio lulista acabaram tendo de sair do partido ou se sujeitaram a meros estafetas.

Lula humilhou diversas lideranças históricas do PT. Quando iniciou o processo de escolher candidatos sem nenhuma consulta à direção partidária, os chamados “postes”, transformou o partido em instrumento da sua vontade pessoal, imperial, absolutista. Não era um meio de renovar lideranças. Não. Era uma estratégia de impedir que outras lideranças pudessem ter vida própria, o que, para ele, era inadmissível.

Os “postes” foram um fracasso administrativo. Como não lembrar Fernando Haddad, o “prefeito suvinil”, aquele que descobriu uma nova forma de solucionar os graves problemas de mobilidade urbana: basta pintar o asfalto que tudo estará magicamente resolvido. Sem talento, disposição para o trabalho e conhecimento da função, o prefeito já é um dos piores da história da cidade, rivalizando em impopularidade com o finado Celso Pitta.

Mas o símbolo maior do fracasso dos “postes” é a presidente Dilma Rousseff. Seu quadriênio presidencial está entre os piores da nossa história. Não deixou marca positiva em nenhum setor. Paralisou o país. Desmoralizou ainda mais a gestão pública com ministros indicados por partidos da base congressual — e aceitos por ela —, muitos deles acusados de graves irregularidades. Não conseguiu dar viabilidade a nenhum programa governamental e desacelerou o crescimento econômico por absoluta incompetência gerencial.

Lula poderia ter reconhecido o erro da indicação de Dilma e lançado à sucessão um novo quadro petista. Mas quem? Qual líder partidário de destacou nos últimos 12 anos? Qual ministro fez uma administração que pudesse servir de referência? Sem Dilma só havia uma opção: ele próprio. Contudo, impedir a presidente de ser novamente candidata seria admitir que a “sua” escolha tinha sido equivocada. E o oráculo de São Bernardo do Campo não erra.

A pobreza política brasileira deu um protagonismo a Lula que ele nunca mereceu. Importantes líderes políticos optaram pela subserviência ou discreta colaboração com ele, sem ter a coragem de enfrentá-lo. Seus aliados receberam generosas compensações. Seus opositores, a maioria deles, buscaram algum tipo de composição, evitando a todo custo o enfrentamento. Desta forma, foram diluindo as contradições e destruindo o mundo da política.

Na campanha presidencial de 2010, com todos os seus equívocos, 44% dos eleitores sufragaram, no segundo turno, o candidato oposicionista. Havia possibilidade de vencer mas a opção foi pela zona de conforto, trocando o Palácio do Planalto pelo controle de alguns governos estaduais.

Se em 2010 Lula teve um papel central na eleição de Dilma, agora o que assistimos é uma discreta participação, silenciosa, evitando exposição pública, contato com os jornalistas e — principalmente — associar sua figura à da presidente. Espertamente identificou a possibilidade de uma derrota e não deseja ser responsabilizado. Mais ainda: em caso de fracasso, a culpa deve ser atribuída a Dilma e, especialmente, à sua equipe econômica.

Lula já começa a preparar o novo figurino: o do criador que, apesar de todos os esforços, não conseguiu orientar devidamente a criatura, resistente aos seus conselhos. A derrota de Lula será atribuída a Dilma, que, obedientemente, aceitará a fúria do seu criador. Afinal, se não fosse ele, que papel ela teria na política brasileira?

O PT caminha para a derrota. Mais ainda: caminha para o ocaso. Não conseguirá sobreviver sem estar no aparelho de Estado. Foram 12 anos se locupletando. A derrota petista — e, mais ainda, a derrota de Lula — poderá permitir que o país retome seu rumo. E no futuro os historiadores vão ter muito trabalho para explicar um fato sem paralelo na nossa história: como o Brasil se submeteu durante tantos anos à vontade pessoal de Luiz Inácio Lula da Silva.

Pátria mal amada e abusada

Percival Puggina
Tribuna da Internet


Sete de Setembro em São Paulo: a marcha dos excluídos

Não subscrevo manifestações de hostilidade ao Brasil, tão comuns nos Sete de Setembro. O que me move a este texto é algo bem diferente. É um apelo aos bons brasileiros, aos que amam a pátria que aniversaria e que se sentem responsáveis por ela. Escrevo para muitos, portanto. Aproveitemos para refletir sobre o que os maus conterrâneos estão fazendo com nossa gente. Eles não podem continuar transformando o Brasil numa casa de tolerância, desavergonhada como nunca se viu igual. Uma casa de tolerância que aplaude o gangsterismo político, o crime organizado nos altos andares da República, o banditismo deslavado e sorridente de uma elite rastaquera e debochada, que conta dinheiro e votos como se fossem a mesma coisa.

Já não lhes basta a própria corrupção. Dedicam-se, há bom tempo, à tarefa de corromper, aos milhões, o próprio povo, porque são milhões e milhões que já não se repugnam, que já não reclamam, que já sequer silenciam. Mas aplaudem e se declaram devotos.

Pior, não é apenas no plano da política que a nação vai sendo abusada e corrompida. Também nos costumes, também no desprezo à ética, à verdade e aos valores perenes. Também nas novelas, na cultura, nas artes, nas baladas. Nas aspirações individuais e nas perspectivas de vida. No pior dos sentidos, aburguesaram uma nação pobre. Incitaram o conflito racial numa nação mestiça desde os primórdios. À medida que Deus vai sendo expulso, à base de interditos judiciais e galhofas sociais, instala-se, no Brasil, a soberania do outro.

ELEIÇÃO DOS MELHORES
Recebemos de Deus e da História um país esplêndido, que se converte em covil de malfeitores. Estamos próximos dias de uma eleição geral. Não nos conformemos apenas com o “dever cívico” do 5 de outubro. Nosso dever cívico não tem data nem prazo de validade. Empenhemo-nos na eleição dos melhores! Sob o chicote do voto, expulsemos do poder os abusadores da Pátria Mãe.

Afundando num mar de rosas

Raul Velloso
O Globo

Estimular o consumo interno além da conta é o mesmo que penalizar a poupança

São várias as inconsistências no modelo econômico perseguido pelo atual governo. Os resultados desastrosos obtidos até agora legam um enorme desafio para a administração que se iniciará em 2015, seja qual for. De acordo com as pesquisas, o eleitor parece já ter percebido que há muitos problemas por corrigir. Torçamos, então, que os candidatos da oposição estejam preparados para enfrentá-los.

A principal inconsistência está em estimular forte e seguidamente o consumo e achar que tudo o mais se resolve como uma decorrência natural, especialmente o crescimento dos investimentos e da produção industrial.

Estimular o consumo interno além da conta é o mesmo que penalizar a poupança. Assim, quanto mais rápido for o crescimento que se deseja, mais o país dependerá de poupança de fora para financiar suas necessidades de investimento.

O mundo tem favorecido como nunca a absorção de poupança por países como o Brasil. Só que a única maneira de o ingresso de poupança materializar-se é via financiamento de déficits externos equivalentes. Para esses déficits ocorrerem, a taxa de câmbio tende a diminuir, fazendo com que os setores que comercializam com o exterior, notadamente a indústria, importem mais em detrimento da produção local. Para júbilo governamental, os salários da indústria tendem simultaneamente a crescer, só que acima da produtividade, inviabilizando os negócios.

Para entender isso melhor, é só pensar na China, que tem o modelo oposto. Lá se poupa muito e ele é voltado para atender ao consumo de produtos industrializados dos demais países. Investe-se muito nesses setores e se exportam grandes volumes de capitais e produtos, estes a preços cada vez menores.

A exemplo da Austrália, exportamos commodities agrícolas e minerais para os asiáticos e importamos produtos industriais deles. O que não se pode é achar que, nesse quadro, a indústria será forte um dia em nosso país, a não ser por exceção, como no caso da Embraer.

Quando o governo diz que fortalecer a indústria é um de seus principais objetivos deixa dúvidas no ar. Ou parece não entender do assunto, o que é pior. Acaba intervindo na economia para tentar compensar os segmentos prejudicados, com medidas que são vistas pelos industriais como não sustentáveis, e estas, além de custar caro, não produzem os efeitos desejados. A queda, desde 2008, na razão entre investimento e PIB, na produção industrial e no próprio crescimento do PIB está aí para confirmar isso. O governo culpa o cenário externo adverso, pura conversa fiada, como demonstrou Alexandre Schwartsman na “Folha de S.Paulo” de 13 de agosto. O crescimento médio da produção industrial mundial passou a ficar maior do que no Brasil já há algum tempo.

O segundo grande eixo da inconsistência governamental é o populismo tarifário, prática em que estamos perfeitamente alinhados com a Argentina (veja raulvelloso.com.br). Para agradar aos eleitores, estimular o consumo e ajudar a indústria, o governo tenta jogar para baixo, na marra, preços críticos da economia, como os pedágios, as tarifas urbanas, e os preços de eletricidade e petróleo, despejando uma ducha de água fria sobre aqueles que deveriam ser cortejados — os investidores privados. As contas decorrentes dessas práticas lamentáveis são gigantescas, e estão sendo empurradas para o próximo mandato, sem aviso à população. Em energia elétrica, por exemplo, é da ordem de R$ 50 bilhões, o que equivale a dois anos de gasto com o Bolsa-Família. Um escândalo!

Outra grande inconsistência está no principal motor do modelo, os gastos correntes, especialmente com gigantescas transferências previdenciárias e assistenciais, que crescem a mil por hora e vão “engolir” o PIB em breve. Para viabilizá-los, a carga tributária tem de crescer sempre e os investimentos em infraestrutura cair, o que suga o sangue das veias da economia, especialmente da indústria, menos competitiva, e tem óbvios limites. E como o DNA do governo é estatal e anti-qualquer-lucro, parece que estimula os investimentos privados em infraestrutura, mas na prática os penaliza. Anuncia que fez isso e aquilo, mas de fato pouco acontece. Ao final, ninguém cobra nada, como no caso da segunda rodada de concessões rodoviárias, de 2007/08, que, segundo matéria na mídia há alguns dias, continua travada.

Qualquer coisa que relembre racionamento de energia é proibida no vocabulário governamental, pois foi criticando a gestão FH nesse e noutros aspectos que o atual governo chegou ao poder. Só que a oferta de energia — onde o governo interfere de A a Z — não cresce conforme o governo determina, por incompetência, escassez de recursos e por desestimular os investidores privados sérios. A seca deste ano, que se encaixa na normalidade climática, acaba sendo usada como bode expiatório. Enquanto isso, estimulado pela redução tarifária extemporânea sob a MP 579 e pelo adiamento da inclusão dos custos atuais na conta de luz, o consumidor residencial mantém seus hábitos de consumo de energia como se estivéssemos num mar de rosas.

Abacate dá tomate e vai virar limão

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Como disse o Governo Federal, em 30 de maio, a Copa iria ajudar o PIB do Brasil a ser maior. Como disse o Governo Federal, em 29 de agosto, a Copa tem parte da culpa pelo PIB negativo. Em ambos os casos, o porta-voz foi o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ele, que está no cargo há oito anos, sob Lula e sob Dilma, certamente sabe o que fala: fala aquilo que a presidente o manda falar.

Faz parte. O que é bom a gente conta, o que é ruim a gente esconde. Mas justamente Dilma acusa Marina de mudar de opinião? Pois é - e tem razão. Marina odiava o agronegócio e, há poucos meses, impediu a aliança de Eduardo Campos com Ronaldo Caiado. Marina ama o agronegócio e seu vice é Beto Albuquerque, um Caiado gaúcho. Marina amou o PT, rompeu com o PT, e seu marido foi secretário do Governo petista do Acre até uns dias atrás. Saiu quando descobriram.

Só Aécio é coerente? Sim: Aécio faz apenas o que acha bom para ele. Largou Serra e Alckmin sozinhos, hoje adoraria tê-los a seu lado. Amava Eduardo Campos de paixão, ambos jovens, amigos; foi gentil com Marina até que ela o atropelasse nas pesquisas Agora acusa Marina, a sucessora de Eduardo, de plagiar programas do PSDB - como se algum partido tivesse programa. Há aecistas que chamam Marina de melancia: verde por fora, vermelha por dentro. Só falta acusá-la (e nisso teriam razão) de querer ocupar o espaço tucano em cima do muro.

Faz sentido? Não. Refazenda também não faz e foi um tremendo sucesso de Gilberto Gil - sim, Gil, aquele que foi ministro de Lula e hoje apoia Marina.

Como é o nome dela?
Dilma esteve em Pernambuco para buscar os votos que tinha nos tempos em que era aliada de Eduardo Campos. Foi uma viagem esquisitíssima: a convocação do PT nem citava o nome da presidente ("Hoje é dia de vermelho; tem Lula em Petrolina"). A música-tema era o Lula-lá, composta por Hilton Acióli para a campanha de Lula em 1989. Nenhum jingle de Dilma nem da campanha atual.

Números, números, números
Para quem acredita que pesquisa é anabolizante de candidaturas, dose dupla: na terça, devem sair os novos levantamentos do Datafolha e da CNT-MDA sobre as eleições presidenciais. Encerrada a fase de beatificação de Eduardo Campos, após o acidente, será possível medir com mais precisão quem tem o que em termos de intenções de voto, e quais as perspectivas de evolução dos candidatos. 

Foi mas não é
Um dos principais adversários do atual Governo petista é um petista tradicional, dos tempos de criação do partido, militante, ativista: o professor Ildo Sauer, ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras. Sauer critica Lula e Dilma por aceitar indicações de partidos para cargos técnicos apenas para ganhar apoio; diz que o argumento de Dilma, de que apoiou a compra da Refinaria de Pasadena pela Petrobras por basear-se num resumo mal feito, é "piada"; e lembra que Dilma "procura um culpado sempre que acontece um problema". Sauer, respeitadíssimo na área energética, diz também que o relacionamento entre o pessoal técnico da Petrobras e a presidente é tenso. 

Sauer é um adversário perigoso para o Governo petista porque não faz acusações: só conta como as coisas funcionam.

Inverno quente
As investigações do Congresso estão paralisadas porque todo o Congresso está paralisado, Suas Excelências dedicando-se exclusivamente á campanha eleitoral. Mas as investigações da Polícia Federal na Operação Lava Jato, tendo como centro Alberto Youssef, acusado de ser doleiro e de promover lavagem de dinheiro, continuam a avançar. 

O leque dos envolvidos ainda está se ampliando. 

Temperatura máxima
Se o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa fizer mesmo o acordo de delação premiada, muita gente importante poderá ser atingida pelos estilhaços das reputações detonadas. Mas, fora isso, já há muita coisa explosiva que ainda não apareceu nas reportagens. Há parlamentares citados (e os nomes só não apareceram para evitar que a investigação inteira vá para o Supremo), há dezenas de contratos com grandes empresas, há manifestações de interesse de laboratórios no sal da Sibutramina, cuja venda era restrita e que acaba de ser, sob protestos da Anvisa, bem facilitada (a sibutramina é moderadora de apetite). 

É muita, muita coisa - tanta que, se os envolvidos tiverem sorte, o escândalo será tamanho que a repercussão das denúncias acabará sendo menor que a prevista.

Comentando
Notícia da coluna de Ancelmo Gois (www.oglobo.com.br/ancelmo) em O Globo, sob o título Salve ele: "O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, esteve no fim de semana com Antônio Cândido, de 96 anos. Ficou impressionado com a disposição e a memória do grande crítico literário". 

Ancelmo nada disse a respeito da impressão de Antônio Cândido sobre a disposição, a memória e outras características do prefeito Fernando Haddad.

O nome do fenômeno
Do jeito que a coisa vai, a candidata sonhática Marina Silva já pode lançar seu novo slogan: "Chega de intermediários. Para presidente, pastor Silas Malafaia".

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

A vida e nosso tempo

Fabio Giambiagi
O Globo 

Vivemos em um país onde o Executivo não executa, o Legislativo não legisla e a Justiça não julga. O Brasil clama por reformas. Não podemos continuar a perder tempo

Nasci em 1962 e tenho 52 anos. Creio que o espírito do que vou expressar é representativo de uma parte da geração que vai dos 40 aos 70 anos e que acompanha de perto os problemas do país. Por que essa faixa etária? Porque antes dos 40 o tempo tende a ser visto como infinito na vida do jovem. Já depois dos 70, são poucos os que contarão ainda 20 ou 25 anos de caminhada pela frente. O grupo etário entre 40 e 70 anos representava 19% da população em 1980 e hoje é de 30%. Trata-se de um contingente expressivo.

Sendo filho dos anos 60, vivenciei alguns momentos importantes e esperançosos da vida nacional: a luta pela anistia no fim dos anos 70 e a expectativa pelo retorno dos exilados; a campanha pelas eleições diretas em 1984 e a consequente eleição de Tancredo no Colégio Eleitoral, pondo fim ao ciclo de mais de 20 anos de governos militares; as passeatas pelo impeachment de Collor em 1992; e os primeiros passos da estabilização em meados dos anos 90. Finalmente, acompanhei com interesse cívico a eleição de Lula em 2002 e o processo político-social da década passada, caracterizado como uma etapa de inclusão social e que explica a elevada popularidade com que ele concluiu sua gestão em 2010.

Cada uma dessas etapas da vida do país testemunhou avanços: com a anistia e o retorno dos exilados, encerrou-se uma etapa de segregação entre brasileiros; o fim do regime militar distendeu a vida do país e em 1989 levou à retomada das eleições diretas para presidente depois de quase 30 anos; os eventos políticos de 1992, conquanto expressassem um arrependimento amargo da maioria da população em relação ao voto que tinha dado pouco antes, foram sinal de vitalidade e de vigência plena das instituições; a estabilidade implicou deixar atrás a hiperinflação que corroía a auto-estima nacional, além de ser um transtorno na vida de todos; e o Brasil atual é um país socialmente melhor e mais justo que o do começo da década passada.

Apesar de tudo isso, para quem chega à meia-idade e acompanha as mazelas da realidade nacional desde que começou a ficar antenado para a realidade — no meu caso, nos tempos de Geisel — o sentimento de angústia pelo avanço do tempo é a cada dia mais nítido. Não falo de angústia aqui no sentido existencial, pela consciência individual de que o fim da caminhada de cada um vai se aproximando — falo da mistura de tristeza, desconforto e exasperação pela percepção de que nosso tempo vai se esgotando, sem que nos tenha sido dada a chance de conhecer o país com o qual todos sonhamos em nossa juventude. É então que o sentimento de urgência se torna mais palpável. E é aqui, justamente, que o contraste entre essa percepção individual e a ausência total e absoluta de qualquer sentimento de urgência na classe dirigente do país se torna mais dramática para quem compartilha essa idade e foi partícipe daqueles movimentos que antes citei.

Nesse contexto — e não falo isso para expor meu caso pessoal e sim porque considero representar um ânimo difuso e compartilhado, provavelmente, por muitos leitores — lembro-me de conversas, por vezes intensas, com meu falecido pai, nos anos 80, quando eu começava a perceber que mudar o mundo e o Brasil não era tão simples. Naquela ocasião, nos primórdios da minha vida cívica, eu com 20 e poucos anos e ele a caminho dos 60, quando discutíamos sobre o Brasil, eu era otimista pela possibilidade de chegar a ver um país desenvolvido, 30 anos depois. Tive que envelhecer para, retrospectivamente, entender o motivo da irritação do meu pai com aquele raciocínio: é que ele, simplesmente, não dispunha de mais 30 anos pela frente para esperar esse dia chegar. Hoje, o sentimento que me acomete é o mesmo: o tempo está passando — e o Brasil com o qual minha geração sonhou está demorando a chegar.

Costumo dizer em minhas palestras que o Brasil avançou muito nos últimos 20 anos, mas continua sendo um país que não funciona bem. Por quê? Em poucas palavras, porque vivemos em um país onde o Executivo não executa, o Legislativo não legisla e a Justiça não julga. O Brasil clama por reformas. Não podemos continuar a perder tempo e a protelar a solução dos problemas. Seria bom que os candidatos à Presidência tomassem ciência disso.

A “nova política” está grávida da velha

Guilherme Fiuza
Revista Época

Os brasileiros amam novela e detestam política. A solução encontrada por esse povo criativo foi simples: transformar a política em novela. Assim surgiu o filho do Brasil (também conhecido como messias de Garanhuns), sucedido pela mamãe-presidenta-faxineira-mulher. Quem imaginou que o brasileiro havia se cansado de apanhar de personagens folhetinescos se enganou. Vem aí a imaculada da floresta. Na verdade, Marina Silva pode ser uma excelente candidata - desde que consiga derrotar seu próprio mito.

Marina tem dignidade. Só isso já a situa anos-luz à frente dos canastrões que embromam o Brasil há 12 anos. Mas este é um país fascinado pela embromação. Já está louco para votar numa santa e ficar esperando sentado pelos milagres. Dizem que a onda verde é uma extensão das manifestações de 2013. Se for isso mesmo, danou-se. A famosa Primavera Burra - com seu lema nada na cabeça e uma pedra na mão"" ou simplesmente "uma pedra na cabeça" (do próximo) - é o ingrediente ideal para mais uma era de mistificação.

O Brasil caindo aos pedaços, em véspera de recessão após três mandatos de sucção ininterrupta, quer saber se os gays podem se casar de véu e grinalda. A Bíblia é o grande hit da eleição. Terreno arado e semeado para novo triunfo da picaretagem.

Depois de anos e anos de empulhação politicamente correta de Lula, Dilma, Dirceu, Gilberto Carvalho e oprimidos associados, o país resolveu achar interessante a "democracia de alta intensidade" de Marina Silva. Não se sabe o que seria uma democracia altamente intensa, mas deve ser algo parecido com uma gravidez de alta intensidade.

A quantidade de conceitos ornamentais no ideário de Marina não chega a substituir à altura o famoso "dilmes* (insubstituível) - mas também comove. Nota-se aquele sotaque de burocratas de ONG, com seus relatórios cheios de palavras doces e ociosas - um banquete para Madame Natasha, a personagem de Elio Gaspari que combate a prostituição do idioma.

O Brasil ama esses tipos que falam pelos cotovelos sem saber o que fazer. Basta ver a longevidade de um Guido Mantega no governo — e não é no Ministério da Pesca. Marina vem com uma das mais mofadas utopias de esquerda, o tal discurso da participação direta da população nas decisões de governo. O agravante é que ela parece acreditar nisso - diferentemente de seus ex-colegas petistas, que vieram com o decreto presidencial 8.243, dos conselhos populares, como esperteza chavista.

No final das contas, o grau de inocência não faz diferença. Os tais conselhos de intensificação democrática servirão ao aparelhamento ideológico e partidário da máquina pública. Militantes selecionados para atropelar técnicos e legisladores. A ditadura do bem.

Marina é uma pessoa admirável, de caráter sólido e espírito público. Isso é joia rara no Brasil - mas não é tudo. Basta lembrar o lendário caso de Saturnino Braga, o prefeito honesto que faliu o Rio de Janeiro, classificado por Millor Fernandes como "o homem que desmoralizou a honradez". Quando quer provar que terá solidez administrativa, Marina cita os princípios macroeconômicos implantados no governo Fernando Henrique - hoje plataforma de Aécio Neves, com seu pré-anunciado ministro da Fazenda Armínio Fraga. Quem garantiria tal solidez e perícia a um governo Marina?

Outro enigma: ninguém sabe qual seria a base político-partidária de Marina. Ela tem o PSR, um nanico vitaminado, e a Rede, que não existe. Já avisou que, em seu governo, o PMDB será oposição. Com o PSDB não dá para compor, porque é tido como monstro neoliberal pela esquerda pueril que a apoia. Sobra qual partido grande, com que Marina mantém laços históricos, não só em seu Estado de origem? Ele mesmo, aquele que o eleitorado marinista-mudancista acha que escorraçará do poder: o PT.

O Brasil é mesmo uma grande novela. Neste momento, uma imensa parcela do eleitorado projeta o voto em Marina, que oferece o lastro administrativo de Aécio e provavelmente está grávida de Dilma. A intensidade dessa gravidez, só Deus sabe.

Talvez um dia o brasileiro aprenda a votar (alô, Pelé), avaliando que governo um candidato é capaz de fazer, e não que sonhos bonitinhos (e ordinários) ele pode inspirar.

O governo acabou

José Casado
O Globo

Mantega sustentou a vaidade de ser recordista no comando da Fazenda. Agora, Dilma deseja que ele fique 112 dias arrastando correntes na Esplanada dos Ministérios

Governos têm prazo de validade constitucional. A presidência Dilma Rousseff tem mais 112 dias de duração, a partir de hoje. A novidade é que, daqui para a frente, ela pretende administrar o país com 39 ex-ministros.

Dilma, virtualmente, anunciou o fim do seu governo na semana passada, quando subtraiu do poder quem está ministro. “Alguns poderão ficar, outros eu irei trocar” — confirmou no domingo, em entrevista numa varanda do Palácio da Alvorada, em Brasília.

Numa poltrona, dentro do palácio, estava Guido Mantega, 65 anos de idade, dos quais um terço dedicado à militância no Partido dos Trabalhadores. Ele está há uma década no poder na Esplanada dos Ministérios: ficou um biênio no Planejamento e acaba de completar oito anos e quatro meses na Fazenda.

A última conversa com Dilma sobre sua permanência na Fazenda data do primeiro trimestre. Na época, Lula fazia eco às críticas de empresários à condução da economia. Mantega foi ao palácio e pediu para sair. Alegou razões familiares e insinuou abril como época propícia, quando se tornaria o mais longevo ministro da Fazenda. Dilma recusou, deixando Mantega surpreendido e Lula pasmado, como ele relatou em reuniões de cúpula do PT.

Agora, diante das ameaças na disputa eleitoral, a candidata fez a presidente realizar uma proeza política: há cinco dias seguidos, Dilma demite em público Mantega e 38 ministros.

Nunca antes “na história dos anos recentes deste país”, como ela diz, um presidente insistiu em anunciar o fim de seu governo com tanta antecedência e de forma, para alguns, vexatória.

Lula demitiu ministros e foi demitido por um, Marina Silva. Dispensou Cristovam Buarque da Educação quando ele estava em viagem ao exterior. Telefonou e o demitiu, mas numa conversa privada. Buarque resgatou seu mandato de senador e foi para a oposição, onde permanece.

Dilma inovou ao criar 39 ministros-zumbi na Esplanada a um trimestre do fim do mandato, sem razões práticas e objetivas. Se queria sinalizar uma “nova política”, não funcionou. Se pretendia uma recomposição com o empresariado, como deseja Lula, iludiu-se porque a principal característica de Mantega foi — e continua sendo — cumprir ordens. Dilma raramente delegou, sempre interferiu na condução da política econômica. É da sua lavra a economia que está aí, recessiva e com alta inflação.

Foram suas as principais decisões que levaram as contas nacionais ao obscurantismo, como adverte o Tribunal de Contas da União no mais recente relatório: “O acompanhamento e o controle têm-se tornado verdadeiros desafios aos órgãos de fiscalização e à sociedade (...) mudanças metodológicas e transações atípicas cada vez mais complexas vêm contribuindo para reduzir a transparência e dificultar o entendimento (...) A estabilidade macroeconômica é um bem público, conquistado à custa de um forte ajuste fiscal suportado por toda a sociedade brasileira em um passado recente. A preservação da percepção de solvência do setor público é crucial para minimizar eventuais expectativas negativas quanto ao controle do endividamento público.”

Mantega sustentou a vaidade de um recorde de permanência na Fazenda. Dilma agora parece desejar que ele escreva um novo capítulo na sua biografia: 112 dias arrastando correntes na Esplanada dos Ministérios.

Dispendiosa caixa-preta

O Globo 
Editorial 

Já virou tediosa — não por desimportante, mas pelo renitente descaso do lulopetismo com a coerência de ideias defendidas antes da chegada ao poder — a discussão sobre o abandono de princípios defendidos pelo PT quando o partido, e suas bases aliadas, eram contra “tudo isso que aí está”. Nesse bolo entravam, por exemplo, o bombardeio contra a CPMF, críticas à voracidade do sistema tributário e à preservação, na estrutura trabalhista do país, de um emaranhado de dispositivos herdados do getulismo. Neste caso, a legislação que sobreviveu a seu criador e às conjunturas que a engendraram — inclusive à ditadura militar de 64, deflagrada, entre outras justificativas, para livrar o país do “perigo da implantação de uma república sindicalista”.

Nessa revisão programática, a CPMF, de combatida, virou tábua de salvação no primeiro mandato de Lula, a ponto de as gestões para sua extinção terem sido tachadas, por PT e aliados, de golpe contra as finanças do país. Também assim se deu com a oposição a dispositivos anacrônicos, criados pelo Estado Novo ou nele inspirados — caso do chamado Sistema S, uma hipertrofiada rede de siglas, 11 no total, abastecida por dinheiro público e por deduções legais nas folhas de pagamento do comércio, da indústria e de atividades rurais. Entre as mais conhecidas entidades nele reunidas estão o Sesi, o Sesc e o Senai.

Estima-se que, por ano, abasteçam o caixa desse sistema algo em torno de R$ 15 bilhões — quantia que, por si só, a exemplo do imposto sindical, outrora combatido, e hoje “cláusula pétrea” na legislação abençoada pelo lulopetismo, explica a ferrenha defesa que dele fazem os aliados do Planalto. Afinal, de combativo adversário dessa eficaz máquina arrecadadora, o PT no governo passou a guardião da chave do cofre. E tem sido generoso ao girá-la em favor dos companheiros.

Tanto é assim que o Sistema S tem sido alvo de denúncias de malversação de recursos, corrupção, apadrinhamento, contratação de parentes de amigos do poder e pagamento de altos salários a companheiros petistas. Recente reportagem da revista “Época”, por exemplo, afirma que a Controladoria Geral da UNião (CGU) detectou alguns desses “malfeitos” na gestão do Serviço Social da Indústria (Sesi). Entre as irregularidades, fruto do aparelhamento da sigla, estão a contratação de funcionários que recebem sem trabalhar, aí incluídas uma nora do ex-presidente Lula e a mulher do ex-deputado e mensaleiro João Paulo Cunha.

Também engordam o prontuário do sistema denúncias de superfaturamento na compra de imóveis — um deles, a aquisição de uma propriedade em Mato Grosso, pela qual o Sesc pagou dez vezes o valor de mercado. Isso sem contar a presença, desde o primeiro mandato de Lula, do ex-deputado e ex-líder sindicalista Jair Meneguelli na cadeira de presidente do Sesi, e de uma sindicalista amiga do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares na folha de pagamento do órgão. São fatos que, a par da discussão sobre seu papel, põem em xeque o Sistema S, uma caixa-preta que precisa ser aberta e um penduricalho no custo das empresas, com bons propósitos, mas impenetrável para a sociedade.

Sob nova direção

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

À presidente Dilma Rousseff não restava outra saída a não ser dizer o que disse no primeiro momento a respeito do que transpirou de parte dos depoimentos do acordo de delação premiada feito pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa.

Descontada a (remota) hipótese de ocorrerem novos vazamentos até o fim dos interrogatórios e a conclusão do inquérito pela Polícia Federal, será preciso mesmo aguardar a divulgação do que ela chamou de "dados oficiais".

A saber, os depoimentos propriamente ditos com todos os autores e as provas dos crimes que Costa precisa entregar para livrar não só a si de longa estada na cadeia, mas também os familiares de punições criminais.

A impropriedade, talvez decorrente da necessidade de uma reação qualquer no calor dos fatos, está na segunda parte da declaração de Dilma. A presidente afirmou que só depois de conhecer os referidos dados tomaria as "medidas cabíveis".

Ora, ora, quais medidas? A não ser a demissão de um ou outro atual ocupante de cargo no Executivo, tais providências estão fora do alcance da presidente. Nessa altura, encontram-se sob a jurisdição da polícia, do Ministério Público (MP) e da Justiça. Pedir mediante ofício acesso às informações é objetivamente inútil porque elas não podem ser oficialmente fornecidas.

O governo sabe perfeitamente disso. Pede, não leva e com esse movimento de pura cenografia pretende dar ao que foi até agora publicado o caráter de mero boato e ganhar tempo até as eleições, contando que os prazos não levem o MP a se pronunciar sobre o conteúdo do material fornecido por Paulo Roberto Costa antes de divulgados os resultados do pleito.

A presidente não pode demitir senadores, deputados, ex-ministros, governadores, ex-governadores. Ao mesmo tempo não pode negar nem se livrar do fato de que os até agora citados são todos seus aliados e que o esquema denunciado funcionou ao tempo em que ela foi ministra das Minas e Energia, ministra da Casa Civil.

O delator promete à promotoria provas de que o propinoduto por ele operado permeou os dois governos de seu antecessor e criador, Luiz Inácio da Silva. Gerente rigorosa, as "medidas cabíveis" Dilma Rousseff, se quisesse, poderia ter posto em prática no devido tempo. Agora as providências não são mais de sua alçada.

Mas, digamos que nunca tenha ouvido falar de nada que ensejasse a necessidade de abrir algum tipo de investigação interna. Poderia tê-lo feito inclusive sobre os dois casos ocorridos no governo Fernando Henrique (afundamento de uma plataforma e troca de títulos da Repsol) que sempre cita como exemplos de episódios obscuros que não foram devidamente investigados.

Ao assumir a Presidência da República, pôs no comando da Petrobrás Graça Foster, uma funcionária de carreira, profissional respeitada e de acordo com o que disse ontem a presidente na entrevista ao Estado, extremamente "minuciosa".

No convívio diário da companhia, uma gestora com essa característica dificilmente deixaria de perceber algum indício da existência de um esquema daquela magnitude. No entanto, o que se viu não foi a iniciativa do governo de investigar. Muito ao contrário.

Dificultou o quanto pôde o envio de informações ao Tribunal de Contas da União, recorreu a todos os métodos ao seu alcance para impedir que as comissões de inquérito do Congresso fizessem um trabalho sério e durante todo o tempo atribuiu aos inimigos, aos pessimistas, aos detratores da estatal, aos não patriotas o desejo de investigar.

Se a Petrobrás, como afirma e repete a presidente da República, prima pela lisura, não há melhor prova que um certificado de correção resultado de uma investigação limpa e rigorosa. Estaria dada a resposta sem tergiversações nem espaços para ilações outras.

Mar de lama ameaça a Petrobras

Ricardo Noblat

A exemplo de Lula no caso do mensalão em 2005, quando Dilma dirá que foi traída e pedirá desculpas aos brasileiros pelo escândalo do mar de lama que entope os dutos da Petrobras, ameaçando tragar a maior empresa do continente?

No mínimo, é o que se espera dela, ex-ministra das Minas e Energia, ex-presidente do Conselho de Administração da Petrobras, e presidente da República em final de mandato.

Digamos que Dilma compete com Lula para ver quem foi mais feito de bobo por seus subordinados.

A auxiliar de mais largo prestígio nos oito anos de Lula no poder, a presidente eleita sem jamais ter sido, sequer, síndica de prédio, Dilma foi surpreendida, assim como o seu mentor, pelo escândalo do mensalão – o pagamento de propina a deputados federais para que votassem conforme a vontade do governo.

Foi surpreendida de novo quando chefiou a Casa Civil da presidência da República e ficou sabendo que um dos seus funcionários confeccionara um dossiê sobre o uso de cartões corporativos pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua mulher, dona Ruth.

Dilma pediu desculpas ao casal. O autor do dossiê conseguiu manter-se na órbita do serviço público.
Outra vez, Dilma foi surpreendida pela suspeita de malfeitos praticados por Erenice Guerra, seu braço direito na Casa Civil e, mais tarde, sucessora no comando do ministério.

Na ocasião, Dilma estava em campanha pela vaga de Lula. Para evitar danos à sua candidatura, Erenice pediu demissão. Dali a dois anos, a Justiça a inocentou por falta de provas de que roubara e deixara roubar.

Quase ao término do seu primeiro ano de governo, batizada por assessores de “a faxineira ética”, Dilma degolou seis ministros de Estado. Pesaram contra eles acusações de corrupção publicadas pela imprensa.

De lá para cá, ministérios e cargos públicos foram entregues por Dilma aos ex-ministros degolados ou a grupos políticos ligados a eles. A “faxineira ética” baixou à sepultura.

Por ora, Dilma está atônita e se recusa a falar sobre o mais novo escândalo que bate à sua porta.

Paulo Roberto Costa, chamado de Paulinho por Lula, preso em março último pela Polícia Federal como um dos cérebros da quadrilha acusada de roubar a Petrobras, começou a contar o que sabe – ou o que diz saber. Em troca, quer o perdão judicial para não ter que amargar até 50 anos de cadeia.

Dilma sabe muito bem quem é Paulinho, nomeado por Lula em 2004 para a diretoria de Abastecimento da Petrobras. Saiu dali só em 2012.

No período, compartilharam decisões, algumas delas, responsáveis por prejuízos bilionários causados à Petrobras.

Dilma mandou diretamente na empresa enquanto foi ministra das Minas e Energia e chefe da Casa Civil. Manda, hoje, via o ministro Edison Lobão, das Minas e Energia.

Lobão foi citado por Paulinho como um dos políticos integrantes da mais nova e “sofisticada organização criminosa” da praça, juntamente com mais seis senadores, 25 deputados federais e três ex-governadores.

A organização superfaturava licitações da Petrobras e desviava dinheiro para um caixa que financiava campanhas de políticos da base de apoio ao governo. Por suposto, nem Lula nem Dilma sabiam disso.
O que é mais notável: entra campanha e sai campanha da Era PT, e os adversários do governo são acusados por Lula e Dilma de se valerem da Petrobras como arma política.

Pois bem, debaixo do nariz deles, camaradas deles usaram a Petrobras como arma para enriquecer. 

Foto Michel Filho /Agência O Globo  
Dilma e Lula 

A pretexto de tostar Mantega, Dilma se autofrita

Josias de Souza


Dilma Rousseff opera uma revolução nos costumes político-administrativos. Noutros tempos, presidentes livravam-se de problemas fritando ministros. Hoje, Guido Mantega, já bem passado, conserva-se grudado na poltrona de ministro da Fazenda. E a presidente, a pretexto de virar o auxiliar na frigideira, se joga no óleo quente. A autofritura é original. Mas não resolve os problemas. Agrava-os.

De passagem por Fortaleza na quinta-feira, Dilma foi indagada sobre o futuro do seu ministro da Fazenda. Ao final de uma resposta cheia de floreios, a presidente cravou uma coroa de espinhos na cabeça do auxiliar: “Eleição nova, governo novo, equipe nova.'' Quem ouviu ficou com a impressão de que os problemas econômicos do país têm nome e sobrenome: Guido Mantega.

Se isso fosse verdade, a solução seria rápida e barata. Levaria o tempo necessário para redigir uma exoneração. E custaria a folha de papel e a tinta. O diabo é que o problema do governo tem outro nome. Chama-se Dilma Rousseff. Ela chegou ao Planalto carregada pelos brasileiros que acreditaram estar votando numa executiva de alta qualificação. Tornou-se problema ao revelar-se uma gestora centralizadora e precária, a quem o eleitorado hesita em conceder o prêmio da reeleição.

Numa visão simplificada, há sobre a mesa duas encrencas econômicas: inflação alta e PIB estagnado —com tudo o que vem de cambulhada. Por exemplo: o descontrole fiscal, os juros gordos, o câmbio sobrevalorizado, os investimentos mixurucas… Até ontem, Dilma não tinha nada a dizer sobre nenhum desses temas, exceto o seguinte: “Culpa da crise internacional.”

Acossada pela antagonista Marina Silva, que a acusa de desconhecer o vocábulo autocrítica, Dilma pôs-se a apontar para Guido Mantega, insinuando que, reeleita, enviará sua tostada figura para o olho da rua. Todo o mercado sabe que, desde 2011, o comando da economia é exercido no Palácio Planalto, não no Ministério da Fazenda. Mantega tornou-se, não é de hoje, peça de decoração.

Assim, ao declarar “eleição nova, governo novo, equipe nova'', Dilma corre o risco de ser mal entendida. As pesquisas já indicam que a plateia está tentada a corrigir o final da frase. Pode ficar assim: “Eleição nova, governo novo, presidente nova”. Por ora, os comentários de Dilma produziram dois míseros efeitos: a oradora autofritou-se. E condenou seu ministro da Fazenda a brincar de esconde-esconde até dezembro.

O novo mensalão

Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Se a Petrobras entrou na eleição de 2010 para aniquilar as chances do PSDB, ela já entrava na de 2014 para enfraquecer a posição do PT e se torna agora um canhão contra o governo e os governistas.

O ex-diretor da empresa Paulo Roberto Costa, que sabe das coisas, aproximou-se do PT, mas está longe de ser um quadro do partido como Delúbio Soares, que aguentou o tranco e foi para o abatedouro sem entregar o resto da boiada.

Com a delação premiada, o ex-diretor deixou claro que sua prioridade é salvar o que for possível da própria pele. Joga uma profusão de nomes e siglas nas páginas da Justiça e nos ares da eleição. Aliás, já que falamos de Delúbio, uma peça-chave nas denúncias é o novo tesoureiro do PT. Está um salve-se quem puder.

Na reta final da campanha, com Marina Silva na cola de Dilma Rousseff e ameaçando o seu antigo partido, o PT. Haja coração! Lula que o diga. Se está complicado para Dilma, seu primeiro poste, e péssimo para Alexandre Padilha, sua derradeira tentativa de poste, pode ficar pior. Tende a chegar no coração do PT e é improvável que Lula passe incólume.

Se a Petrobras já era um campo minado para a imagem de gestora de Dilma, as novas histórias que saem da boca de Paulo Roberto explodem num outro campo muito delicado para os governos do PT: o da ética. Certo ou errado, o fato é que o mensalão, o deputado amigão do doleiro, o vereador aliado ao PCC e as peripécias dos aliados minaram a aura e o discurso petista construídos em décadas. Cada coisa nova só reforça a sensação que se generalizou. E a "coisa", desta vez, é cabeluda.

O único e frágil alívio para Lula, Dilma e o PT é que a citação a Eduardo Campos embaralha as cartas e deixa Marina sem artilharia para atacar, sobretudo depois da história mal contada do avião da campanha do PSB. É difícil reverter o quadro crítico para Aécio Neves, mas, no mínimo, o tucano deve estar pensando: quem ri por último ri melhor.

Volta dos "nem-nem" pode elevar desemprego

Valor

O aumento da taxa de desemprego previsto desde o ano passado pelo mercado tem contornado as expectativas e deve chegar com quase um ano de "atraso". Para Sonia Rocha, pesquisadora do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), mais do que os sinais visíveis de esgotamento do mercado de trabalho, já é possível enxergar quais segmentos da população deverão pressionar o indicador nos próximos meses.

No estudo "Demografia e Mercado de Trabalho: o que Explica o Declínio da Desocupação no Brasil?", as mulheres e os jovens "nem-nem" - aqueles que não estudam nem trabalham - aparecem entre os grupos cuja participação no mercado de trabalho caiu de maneira mais significativa entre 2005 e 2012. Quando a desaceleração do aumento da renda comprometer o pagamento das despesas das famílias, diz, eles serão os primeiros a voltar em busca de uma vaga.


Segundo Sonia, o "fôlego do setor de serviços" surpreendeu boa parte dos especialistas e ajudou a manter a taxa de desemprego próxima de 5% entre 2013 e 2014. O comportamento favorável do rendimento do trabalho, que continuou subindo em um mercado aquecido, com demanda por mão de obra no ramo de serviços, permitiu adiar esse aumento previsto da desocupação. Essa é, entretanto, uma sobrevida "insustentável", diz a pesquisadora, e que já mostra sinais de esgotamento.

No estudo, a economista coloca o declínio da taxa de participação - a relação entre as pessoas em idade de trabalhar e aquelas que estão no mercado de trabalho, empregadas ou em busca de uma vaga - como um dos principais responsáveis pelo processo de redução contínua do desemprego no Brasil desde 2004. Entre 2005 e 2012, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), a taxa passou de 62,8% para 59,8%. Se tivesse permanecido constante, a taxa de desemprego em 2012 teria sido de 11,2%, e não de 6,2%, como foi verificado.

Mais do que gerar novos empregos, o mercado tem assistido a uma saída constante de trabalhadores. Entre 2001 e 2005, por exemplo, a população ocupada cresceu a um ritmo forte de 2,78% ao ano. A geração de postos desse período, porém, não foi suficiente para responder à demanda, refletida no avanço anual médio do 2,8% da população economicamente ativa (PEA). A situação muda no intervalo de 2009 a 2012, com avanço da ocupação mais modesto, de 0,75% ao ano, e uma redução de 0,01% na PEA, que retirou pressão significativa da taxa desemprego.

Houve declínio da participação em praticamente todos os grupos observados. A economista destaca, contudo, o caso das mulheres, cuja inserção cresceu de maneira contínua entre 2001 e 2009, elevando a taxa de participação a 52,8%, mas perdeu força no momento seguinte, estabilizando-se em 50%.

O grupo dos jovens também perdeu participação. Para Sonia, porém, esse movimento não está ligado apenas a um maior esforço para dar continuidade aos estudos. Entre 2005 e 2012, a taxa de escolarização no Brasil aumentou ligeiramente na faixa de 15 a 17 anos, de 82% para 84%, mas declinou na parcela de 18 a 24, passando de 32% para 29%. Ao lado da queda simultânea da taxa de atividade, afirma a pesquisadora, esse indicador explicita o aumento do contingente dos "nem-nem".

A renda do trabalho é o "determinante-chave" para a construção desse cenário. O aumento de 38% em termos reais na renda domiciliar per capita entre 2005 a 2012 permitiu, por um lado, que os jovens não tivessem de trabalhar para ajudar a pagar as despesas domésticas e que, de outro, algumas mulheres pudessem, por exemplo, dedicar-se apenas à família - nesse sentido, a deficiência na oferta de creches e pré-escolas públicas pode ter tido um peso importante na decisão.

Sendo assim, no momento em que a renda desacelera e não é mais suficiente para sustentar toda a família, esses grupos serão os primeiros a voltar ao mercado de trabalho e, por consequência, a pressionar a taxa de desocupação, afirma Sonia. Em sua avaliação, não há medidas de curto prazo que promovam uma colocação rápida desses grupos no mercado e suavizem o aumento - que já não é intenso - esperado na taxa de desemprego.

"As medidas de efeito rápido para a criação de vagas significam geralmente menor proteção ao trabalhador e só devem ser utilizadas em momentos de crise aguda", afirma. A reversão das expectativas - e do pessimismo - dos agentes econômicos, por sua vez, afetaria de maneira favorável o mercado de trabalho como um todo, avalia, gerando otimismo que permitiria a retomada do investimento. "Mas não vejo no curto prazo mais que efeito psicológico."

O que se coloca, na avaliação de Sonia, é um trabalho difícil e de longo prazo de melhoria do ambiente de negócios, que depende de ganhos de eficiência da máquina pública, da maturação de investimentos em educação e infraestrutura, além de reformas trabalhistas e tributárias. "Começar a fazer tudo isso, que já deveríamos estar fazendo há décadas - o caso do nosso desastre educacional é exemplar - já seria progresso".

Número de formandos no ensino superior cai pela primeira vez desde 2003

Veja online

Instituições privadas ganham terreno nos governos Lula e Dilma e já recebem três de cada quatro alunos, segundo Censo da Educação Superior

(Thinkstock/VEJA)

O Ministério da Educação divulgou nesta terça-feira dados preliminares do Censo da Educação Superior 2013, com informações do período 2003-2013, que coincide com os governos de Lula e Dilma Rousseff. Os dados de 2013 confirmaram tendências já observados nas edições anteriores, como ascensão do número de matrículas, cursos e também da modalidade de educação a distância. Houve, contudo, redução inédita em 2013 do número de formandos de graduação, que passou de 1.056.069, em 2012, para 994.812 na última medição. Em 2003, 554.230 estudantes cursavam o último ano.

Consolidou-se ainda o avanço do ensino superior privado. Em 2003, as instituições particulares recebiam 70% dos graduandos; em 2013, a participação subiu para 74%. O número de inscritos nessas instituições passou de 2,76 milhões para 5,37 milhões — alta de 95%. Ou seja, a rede privada quase dobrou.

Crescimento relativo idêntico foi observado na rede federal. A diferença é que esta abriga um número bem menor de estudantes. Em 2003, as instituições mantidas pela União recebiam cerca de 580.000 estudantes de graduação. Dez anos depois, o número chegou a 1,1 milhão. Boa parte desse crescimento foi alimentado pelo Reuni, programa de expansão das federais.

A participação dessas instituições no número total de matrículas da graduação passou de 15% para 16%. Os estados perderam espaço: o percentual de graduandos nessas redes caiu pela metade, passando de 12% para 8%. Instituições superiores mantidas por municípios mantiveram a taxa de 3%.

Entre 2003 e 2013, o número total de cursos (graduação e sequencial) cresceu 85%; o de matrículas, 84%; o de concluintes, 79%; e o de calouros, 73%. O relatório não informa qual o percentual de jovens no ensino superior. A meta do Plano Nacional de Educacação encerrado em 2010 era de 30% — valor que provavelmente não foi atingido. A previsão para o PNE 2011-2020, recém-sancionado pela presidente Dilma, é chegar a 33% em 2020.

Ainda há professores universitários sem diploma no Brasil

Talita Abrantes
Exame.com

Dos mais de 300 mil professores universitários do Brasil, 16 sequer terminaram a graduação. Veja outros fatos curiosos sobre o quadro docente das instituições de ensino superior brasileiras

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São Paulo - Nos últimos dez anos, o número de cursos e alunos matriculados no ensino superior praticamente dobrou no Brasil. Apesar disso, ainda há professores universitários que não possuem nem mesmo um diploma de graduação. É o que revelam dados do Censo da Educação Superior 2013, divulgados hoje pelo Ministério da Educação. 

No ano passado, ao menos 16 docentes de faculdades ou universidades espalhadas pelo país não tinham concluído um curso no ensino superior - o que representa 0,4% do quadro de professores universitários que atuam no país. 

O número já foi pior. Em 2010, segundo o Ministério da Educação, 381 docentes de nível superior não tinham terminado a faculdade ainda. Em 2012, eram 93 profissionais nestas condições no Brasil.

Enquanto isso, menos da metade dos professores universitários possuíam um título de doutor no ano passado. Há uma década, no entanto, os doutores representavam apenas 20% do quadro de docentes das instituições de ensino superior no Brasil. No período, o número de professores com doutorado cresceu 136%.

Veja outros detalhes do perfil dos professores universitários brasileiros. 

1. Ao todo, 16 professores universitários não terminaram a faculdade
Dos 16 que não são formados na graduação, 10 dão aulas em alguma instituição de ensino superior da região Sudeste. Detalhe: destes, 8 estão em instituições públicas.

2. Em uma década, número de professores universitários cresceu 36%
Segundo dados do Censo, em 2013, o Brasil possuía 367.282 professores em suas instituições de ensino superior. Destes, 321,7 mil estavam em pleno exercício da função. Há 10 anos, eram 268.816 docentes. No mesmo período, o número de alunos matriculados saltou 83,5% e o volume de cursos abertos em 85%.

3. 70% dos professores doutores estão em universidades públicas
Ao todo, o Brasil possui pouco mais de 121 mil docentes com doutorado em suas instituições de ensino superior – a maior parte deles está nas universidades públicas. Nas particulares há apenas 38,6 mil professores com título de doutor.

4. As particulares são as que mais contratam
Quase 60% dos docentes que dão aulas em faculdades trabalham na rede privada. Não é para menos. No Brasil, em 2013, existiam 2.090 faculdades particulares contra 301 instituições de ensino superior públicas. Só para constar: das mais de 7,3 milhões de matrículas feitas no ano passado no ensino superior, 5,3 milhões foram em faculdades e universidades privadas.

5. Maior parte dos professores trabalham em tempo integral
Quase 180 mil docentes trabalham em tempo integral nas faculdades e universidades que os empregam. Isso equivale a quase metade do número total de professores universitários do Brasil. Há dez anos, 35% dos professores trabalhavam integralmente no ensino superior. Em tempo: instituições públicas são as que mais empregam professores neste regime. 

Especialistas criticam forma de divulgação dos dados do Ideb

Bárbara Ferreira Santos 
O Estado de S. Paulo

Pesquisadores ouvidos pelo 'Estado' questionaram a falta de dados nas planilhas divulgadas pelo governo federal

SÃO PAULO - Especialistas em Educação criticaram a forma como os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2013 foram divulgados na sexta-feira passada, 5. Entre os questionamentos, está a falta de informações sobre os dados da Prova Brasil pela escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) - que incluiria separadamente os dados das provas de Português e Matemática. Eles também citaram a falta de divulgação dos dados por escola e dos dados de nível socioeconômico - os últimos seriam divulgados no Ideb pela primeira vez.

O principal ponto abordado pelos especialistas foi a falta de divulgação dos dados da Prova Brasil na escala Saeb. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela publicação dos dados, divulgou apenas a "nota padronizada", uma média das provas de Português e Matemática feita pelos alunos. Segundo Paula Louzano, doutora em Educação por Harvard, se os dados por disciplina fossem divulgados, seria possível visualizar como os alunos estão aprendendo. "Seria importante para a discussão pedagógica, sobre o que está contribuindo mais, se Português ou Matemática. Isso (a divulgação dos dados) permitiria mais análises."

Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, concorda. "Ficou mais difícil fazer uma boa análise, principalmente para os anos finais do ensino fundamental e para o ensino médio. O olhar sobre a escala nos permite ver o que os alunos não estão aprendendo, e até inferir o que anos finais e ensino médio estão agregando para os alunos", acrescentou.

Para Faria, o fato de o Inep não ter divulgado os dados por escola em uma planilha "gerou poucas informações sobre as boas práticas que possuímos no País". Faria afirma que indicadores de contextualização, como o nível socioeconômico dos alunos, fizeram falta na divulgação. "Praticamente não se discutiu como o Ideb é influenciado por muitos fatores, com destaque para o nível socioeconômico dos alunos. Atualmente estão sendo construídos vários indicadores de contextualização no Inep, como um propriamente de nível socioeconômico, um de adequação da formação docente e um de complexidade da gestão."

Ele explica ainda que a falta de um prazo de embargo, para que a imprensa e especialistas pudessem olhar o material e planejar a cobertura, influenciou na qualidade do debate publicado. "A imprensa não recebeu os dados embargados, o que gerou muita correria para os repórteres na hora de escrever as matérias, muitos rankings e pouca qualidade na cobertura". Paula também afirma que a divulgação parcial e sem embargo prejudicou a cobertura. "É importante esses dados virem nesse momento porque todos os veículos estão olhando, é a chance de ter a Educação na posição central dos meios de educação."

O Inep foi procurado, mas ainda não se manifestou sobre as questões apontadas pelos especialistas. No dia em que o Ideb foi divulgado, o órgão afirmou que publicará “em breve”, sem data definida, os  dados socioeconômicos.

'5 problemas da divulgação dos resultados do Ideb'

O Estado de S. Paulo

Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, elenca problemas do primeiro dia de divulgação dos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica 

• A imprensa não recebeu os dados embargados, o que gerou muita correria para os repórteres na hora de escrever as matérias, muitos rankings e pouca qualidade na cobertura.

• Os dados por escola não foram divulgados em uma planilha. Isso gerou poucas informações sobre as boas práticas que possuímos no país.

• Os resultados da Prova Brasil na escala Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) não foram divulgados. Com isso, se tornou mais difícil fazer uma boa análise, principalmente para os anos finais do ensino fundamental e para o ensino médio. O olhar sobre a escala nos permite ver o que os alunos não estão aprendendo, e até inferir o que anos finais e ensino médio estão agregando para os alunos.

• Os rankings para o ensino médio. Além de a maioria deles desconsiderar que a avaliação de proficiência para a etapa é amostral, não se atentou que em uma etapa com taxas de reprovação e abandono mais altas as mudanças no ranking, em muitos casos, aconteceram por melhoras na aprovação, sem avanços na proficiência em língua portuguesa e matemática.

• Pouco foco na equidade e na contextualização dos resultados. Praticamente não se discutiu como o Ideb é influenciado por muitos fatores, com destaque para o nível socioeconômico dos alunos. 

Atualmente estão sendo construídos vários indicadores de contextualização no Inep, como um propriamente de nível socioeconômico, um de adequação da formação docente e um de complexidade da gestão. Indicadores como esses fizeram muita falta na divulgação.




Mudar para que lado?

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Ninguém ficou sabendo o que pode mudar, nem na política nem na equipe. Sai a tal Nova Matriz Macroeconômica, reconhecidamente perdedora. Mas entra o que no lugar? Saem o ministro Guido Mantega, como a presidente Dilma reconfirmou nesta segunda-feira, e outros figurões mais. Mas quem entra no lugar?

Já foi difícil arrancar da presidente Dilma a promessa (ou o compromisso) de que, se conduzida a um segundo mandato, providenciaria mudanças na sua política econômica e na equipe que a gerencia. Mas ficou nisso.

Ninguém ficou sabendo o que pode mudar, nem na política nem na equipe. Sai a tal Nova Matriz Macroeconômica, reconhecidamente perdedora. Mas entra o que no lugar? Saem o ministro Guido Mantega, como a presidente Dilma  reconfirmou nesta segunda-feira, e outros figurões mais. Mas quem entra no lugar?

(FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADÃO)
 Dilma. Qual é o plano? 

 Ninguém sabe. A candidata presidente não apresentou nenhum programa de política econômica, nem para fins eleitorais. Não chega nem sequer a imitar seu ex-dirigente Leonel Brizola que, no seu tempo, apontava o indicador para a sua própria cabeça e dizia: “O programa está aqui”.

Mesmo com a falta desse gesto, sabe-se que ela pensa e age do mesmo jeito. Durante estes quase quatro anos, foi ela própria o programa e os executores do programa. Os ministros da área econômica e a direção do Banco Central foram extensões do que quis fazer. Assim, demitir o ministro Mantega, ainda que a pedido, parece significar substituí-lo por outro que aceite fazer o que ele fez: defender bovinamente a política que lhe foi ditada.

Como a defesa automática de tudo não serviu para muita coisa – porque o que está aí está com tantos furos que precisa ser mudado -, então qual é o diagnóstico? A única justificativa para a sucessão de crescimentos mirrados do PIB foi a de que, em todos esses anos, a economia foi vítima da crise global.

Essa mesma crise global não explica a inflação acima do teto da meta, porque, nos países de economia madura, a inflação ronda o rés do chão. A escalada interna de preços teve de encontrar outra justificativa: foi atribuída ora ao aumento dos preços das commodities, ora à seca ou, até mesmo, à Copa do Mundo.

Enfim, como explicar a necessidade de mudar se não há mau desempenho da economia?

Em 2002, o então candidato Lula não se constrangeu a engavetar as críticas que seu partido fazia então à “política neoliberal” e às inspirações do chamado Acordo de Washington que marcaram a administração do seu antecessor. Assinou a Carta ao Povo Brasileiro e optou por uma política igualmente ortodoxa. Mas a presidente Dilma seria capaz de algo equivalente? Ou tudo o que faria seria dobrar a aposta, com outras pessoas e algum ajuste?

O que dá para dizer é que, se não houver mudança substancial, o risco de um desastre, que até hoje não aconteceu, tende a aumentar. Não basta capitalizar-se eleitoralmente com a condução a um segundo mandato. As contas públicas estão fortemente desequilibradas, o investimento vem em queda livre, a inflação beira o descontrole, o nível de confiança nunca foi tão baixo e os preços dos principais produtos de exportação (as commodities) começaram um período de baixa que tende a prolongar-se, sabe-se lá até quando.

Enfim, a pergunta sem resposta é: conhecendo-se quem é a presidente Dilma e seu estilo centralizador de governar, até que ponto dá para acreditar na sua disposição de mudar essa política econômica emperradora e de colocar em marcha as reformas tão cobradas nos debates e nas ruas?

CONFIRA:


No gráfico, a evolução das projeções do avanço do PIB e da inflação feitas pelas 100 consultorias e instituições do mercado ouvidas semanalmente pelo Banco Central (Pesquisa Focus).

Cada vez menos
Pela 15ª semana seguida, houve queda nas projeções do avanço do PIB deste ano. Impossível separar esse movimento do crescimento do desânimo do mercado.

Coisa combinada?
Se foi a pedido, por que o ministro Mantega ficou tão chateado com sua demissão antecipada?

Indefinição oficial

Míriam Leitão e Alvaro Gribel 
O Globo 

É pouco dizer “novo governo, novo time”, como fez a presidente Dilma para responder às dúvidas sobre como serão resolvidos os inúmeros problemas criados pelos erros da sua política econômica. O país não cresce, a inflação está no limite máximo, os indicadores fiscais perderam a credibilidade e acumulam-se as dívidas cruzadas entre entes do setor público.

Qualquer que seja a pessoa a envergar a faixa presidencial, a política econômica terá que mudar, e uma difícil agenda de ajustes terá que ser iniciada em janeiro de 2015. As escolhas equivocadas da presidente Dilma na economia e na energia deixarão uma herança amarga para quem assumir, mesmo que seja ela mesma. Como serão desarmadas as bombas que ficaram destes quatro anos, em que prazo, e com que grau de perícia?

Os erros começaram antes do atual mandato presidencial, mas a persistência nas escolhas aprofundou o desajuste que já contaminou o ano de 2015, visto por todos os analistas como período em que a correção necessária de rumos reduzirá a possibilidade de crescer.

Os dois oponentes competitivos da presidente Dilma têm dito mais sobre política econômica do que a candidata à reeleição que insinuou que o ministro Guido Mantega não permanecerá. Isso coloca o ministro em aviso prévio. Pode ser visto como esperança de mudança, mas essa informação é insuficiente para tranquilizar quem acompanha o que se passa na economia. Até porque há dúvidas mais agudas, como a da permanência ou não do secretário do Tesouro, Arno Augustin, com quem a presidente tem uma simbiose conhecida. E é da fábrica de Arno que têm saído as ideias mais perigosas, como as alquimias e pedaladas nos números da contabilidade pública. Claro, tudo contou com a aquiescência do ministro da Fazenda, mas a fonte do poder do secretário é a presidente, que o fez inclusive ir além de suas fronteiras e espalhar confusões na área de energia.

É deliberado o silêncio da presidente-candidata sobre economia e energia, setores nos quais ela é especialista e, portanto, tem fortes convicções. Perguntada sobre os problemas, ela defende seu governo ou culpa o mundo. Disso só se pode concluir que tudo permanecerá como está. Ou então ela teria que reconhecer os erros e apontar soluções para os problemas que criou. Dilma não tem dado ao eleitor o conforto de saber o rumo do seu próximo mandato, caso o receba das urnas. Conseguiu a proeza de representar mais incertezas do que os que postulam a sua cadeira. Há inconsistências em todos os programas, mas tanto Marina Silva quanto Aécio Neves têm dado mais informações sobre os rumos que pretendem seguir, caso eleitos, do que a candidata que governa o Brasil.

A afirmação de que o Brasil é vítima de um mundo em crise não resiste ao crivo dos dados e fatos da economia internacional. Os países centrais não vivem um momento brilhante, mas já passaram por momentos piores. Não há justificativa externa para tão baixo desempenho.

A precária situação das empresas do setor de energia não é resultado apenas de um ano com estresse hídrico. Desde a edição da Medida Provisória 579, que reduziu os preços da energia, o setor vem acumulando desequilíbrios. Ela foi imposta de forma autoritária, sem que os alertas sobre a complexidade do setor fossem considerados. O tema foi politizado para ser usado no período eleitoral, mas esse palanque prévio ruiu antes de ser inaugurado. O quadro piorou pela barbeiragem de deixar as empresas distribuidoras expostas ao mercado de curto prazo quando tudo indicava que os preços subiriam. Elas não escolheram ficar expostas ao preço do mercado à vista. Leilões que deveriam conciliar oferta e demanda fracassaram porque o governo estabeleceu um preço-teto irreal; os ofertantes preferiram não vender a energia e as distribuidoras entraram em 2014 descontratadas.

Especialistas na área aconselharam o uso de medidas de economia de energia e de eficiência energética ainda no período chuvoso para poupar água nos reservatórios. O governo não fez isso e ainda adiou para o ano que vem o mecanismo já negociado de bandeiras tarifárias que induziria à redução do consumo nestes momentos de uso intensivo das termelétricas. Todos esses erros pesarão no bolso do consumidor nos próximos anos. As más notícias foram adiadas.