sexta-feira, setembro 12, 2014

Dilma merece um “TOP TEN” de suas mentiras

Adelson Elias Vasconcellos


A campanha de Dilma Rousseff, usando da influência do Executivo sobre o Judiciário (quem nomeia, influencia, ora!), tentou calar uma consultoria que teve a ousadia de criticar justamente ...o governo Dilma e sua política econômica recessiva e destrutiva da indústria. Erro de análise? Até poderia haver, apesar dos fatos corroborarem as conclusões da consultoria em seu estudo. Mas por que censurar? Para evitar que a verdade chegue aos ouvidos dos eleitores? Acaso, e pergunto ao juiz que concedeu o cala boca em favor do PT:  censura a livre manifestação é atitude democrática?  Fica claro, também, que o texto integral da análise não continha uma vírgula de ofensa, de ataques pessoais à honra da senhora presidente nem de sua equipe econômica. Nada. Era pura ...análise confrontando as medidas adotadas pelo governo diante dos resultados que tais medidas provocaram. E o PT encontrou um juiz para reviver os dias da censura imposta pelos militares durante a ditadura. Aliás, se sairmos por ai a pesquisar, o que tem de juiz e magistrado com saudades daqueles tempos...

Muito bem: a consultoria Empiricus, a vítima da hora, conseguiu provar ser inocente mesmo antes de ter provada sua culpa e, assim, cassou a liminar do cala boca. Antes de prosseguir, outro exemplo de como o judiciário é muito infeliz em alguns momentos: em Brasília, a campanha Dilma conseguiu obter uma liminar que proíbe o conselho Federal de Medicina de manifestar falando mal de Dilma Rousseff. Ocorre que o CFM jamais falou mal de ... Dilma, mas sempre contrário ao programa Mais Médicos principalmente como o programa determina a contratação de médicos cubanos. 

Durante a campanha eleitoral, qualquer que seja ela, candidatos tentam desqualificar adversários o mais que podem e, por outro lado, elevam suas virtudes e feitos à platitudes divinas. É do jogo. Quando o PT era oposição ao governo federal, escalava alguns emissários seus para distribuir notinhas caluniosas contra  adversários a jornalistas  simpáticos à sigla. O PT, portanto, muito do que conquistou, o fez via imprensa, ou parte dela, que foi sua cúmplice de muitas difamações absurdas mas plantadas meticulosamente por seus amigos jornalistas. 

No poder, o PT quis impor a regulamentação da mídia, que eles chamam cretinamente de “regulação democrática dos meios de comunicação”  onde consta claramente a censura na medida em que concede ao poder federal a condição de censor dos conteúdos do que vai impresso ou divulgado. Isto, no popular, é CENSURA, sim senhor, por mais que o PT negue. 

Como não conseguiu seu intento até hoje, o PT sempre encontra algum juiz de meia pataca disposto a colaborar com o partido e seu projeto de poder, para calar adversários. E foi nessa onda que a Empiricus acabou vitimada por ser  crítica a política econômica imposta por Dilma Rousseff. E foi por esta agressão estúpida que acabei chegando ao site da consultoria e pude conferir e apreciar alguns de seus textos. Um deles, muito bem apanhado,  fala das Dez mentiras de Dilma Rousseff. 

Enquanto Aécio Neves era visto como o inimigo público número 1 do partido, as mentiras, calúnias e difamações foram movidas contra ele e seu partido. Na verdade, vistos com profundidade, os ataques eram mero café requentado do que se viu e ouviu na campanha de 2010. 

Bastou Marina tornar-se a principal adversária de Dilma, de acordo com as pesquisas, e o PT armou um verdadeiro bunker contra a a candidata do PSB, herdeira de Eduardo Campos. Ontem, postamos um  texto desmontando o incrível, ardiloso e falso instrumental de críticas (criticas ou calúnias?) feitas por Dilma contra Marina. Em sua maioria, tais ataques não passam de terrorismo vigarista, verdadeira baixaria bucéfala que, em muitos pontos, até permitem que Marina processe Dilma por calúnia, difamação e danos morais. 

Também critiquei Marina, por seu passado, por suas ideias, e até por seu programa, por entender que a tal “nova política” não pode ser conquistada sem que faça... política.    É claro que grande parte dos nossos políticos são cafajestes ao extremo. São volúveis, gananciosos, corruptos, atuam exclusivamente mirando o próprio umbigo, e interesse público acaba sendo jogado no lixo. Contudo, eles lá estão não por obra do acaso: foi escolhidos pelo voto direto e secreto, isto é, na forma mais democrática que conhecemos. Representam, gostem ou não, a própria sociedade que os sustenta, até porque muitas de suas práticas ruins, é possível encontrá-las no dia a dia dos brasileiros. 

Lembrei a semelhança de enfrentamento que Marina propunha com o Congresso, com a empregada por Collor que, ao seu modo, também imaginava poder enfrentar na porrada deputados e senadores. Deu no que deu. Muito do que o programa de marina propõe e pretende só será possível com apoio do Congresso. E, neste quesito, qual a base política de Marina Silva atualmente? Baixa, muito baixa. Assim, sem contar com uma base maior, nada do que se dispõe a realizar será possível. 

Mas aqui não se leu absolutamente nada em relação à pessoa, tal qual tem feito a senhora Dilma. O fato de Dilma ser um desastre para o país – e é -  não me obriga a olhar com simpatia para “qualquer outra alternativa” para ocupar o seu lugar. E, como já deixei claro em outros textos e comentários, se Dilma representa o caos na economia, Marina representa perigosa instabilidade institucional, a começar que o PT não a perdoará pela derrota e não medirá esforços para sabotar em tempo integral seu governo.    

Mas voltemos à mentiras de Dilma e elas são muitas. Algumas, temos feito referência e desmascarado. Mas vale um TOP TEN  para que aquele eleitor indeciso não caia no canto de sereia da campanha de Dilma que, a rigor, deveria ser proibida para maiores e menores de qualquer idade.  

Segue , no post abaixo, o texto da Empiricus apontando as mentiras com as explicações necessárias.  De certa forma, para os leitores do blog, muito do que a Empiricus relaciona já foi amplamente desmascarada em nossos textos.  Mas a coletânea compensa a leitura e, principalmente,  vale como alerta para que os eleitores conscientes não repitam o erro de 2010 ao elegerem para Presidente da República um poste sem luz, totalmente desqualificada e descompromissada com a verdade. 

Pagando o preço da ilusão: 
O PT comemora a recuperação de Dilma nas pesquisas, atribuindo à sua ofensiva difamatória a reconquista de eleitores. Se assim for, se é preciso baixar o nível de uma campanha  presidencial ao nível da infâmia, se o eleitorado, apesar dos péssimos resultados do atual governo ainda prefere reelegê-lo, então que cada pague o preço de sua ilusão. Mas que estes iludidos não venham às ruas protestar por mais educação, saúde e segurança, agitando bandeiras e palavras contra o governo Dilma. Perderam autoridade moral para tanto. Informação tem de sobra para não se deixaram enganar. Se o fazem, é porque gostam de serem explorados, enganados, assaltados e tratados como reles massa de manobra política. Adoram a vigarice. Adoram vender seu voto e sua consciência.

Nunca, em tempo algum da nossa história, um governo perseguiu, criou e comandou tão obsessivamente esquemas de corrupção como os governos petistas, com o único propósito de se manter no poder. E o interesse do país? Para eles, que se dane o interesse do país.  

Cheque em branco?
Em O Globo online, lemos que Dilma Rousseff não vai divulgar seu programa de governo. Alega que seu programa é o seu governo e que apenas concederá à plateia a desonra de ler “diretrizes”. Ou seja, Dilma não tem nada a oferecer. A economia está em recessão técnica? A indústria está à beira do abismo? A educação vai de mal a pior? A segurança pública mata mais de 56 mil brasileiros por ano? E daí ?, diria a candidata presidente, segura de que seu governo desastroso é um sucesso. 

Assim, fica claro que, ao não ter “programa de governo”, Dilma também não se compromete com coisa alguma, a não ser o mais da mesma porcaria que deu ao Brasil nestes últimos quatro anos. 

Além de querer se reeleita no berro, com uma campanha entupida de mentiras e infâmias, Dilma quer que o eleitorado lhe dê um cheque em branco. É arrogância demais para competência de menos!!!!

Do próprio veneno
A  senhora Rousseff, nesta sua empreitada de difamar adversários, atribuindo às suas propostas consequências irreais, deveria tomar mais cuidado. Por exemplo, afirmou que a independência do Banco Central resultaria em desemprego, juros altos. Para políticas neoliberais também acenou com desemprego, inflação, destruição da indústria, redução de salários, juros altos.

Ok, só que com o Banco Central do jeito que Dilma gosta, e com suas próprias políticas na área econômica, o que temos hoje: desemprego na  indústria; Inflação e juros altos; baixo crescimento; geração de empregos de menor qualificação e salários mais baixos até para universitários; recessão técnica.  Sequer no aumento real do salário mínimo Dilma conseguiu ser melhor do que FHC e Lula. 

Como se vê, tudo aquilo que Dilma afirma que seus adversários irão provocar de ruim, caso eleitos, ela própria já está fazendo agora. E se isto é ruim para o país, no entender da presidente-candidata, é melhor que, em janeiro de 2015, Dilma fique  em casa, e deixe o Brasil para quem tem, ao menos, propostas de governo, e não apenas “diretrizes” !

TOP TEN: Dez mentiras do governo Dilma

Felipe Miranda
Empiricus Research

Governo novo, equipe nova


Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário. Se George Orwell estivesse por ai, seria prontamente acusado de terrorismo eleitoral.

Enquanto insistirem em falar mentiras sobre os “neoliberais”, cumprirei o compromisso de falar verdades sobre o governo.

Há dois elementos constrangedores envolvendo o governo Dilma: a incompetência e a desonestidade intelectual - essa última conhecida popularmente como hábito da mentira.

Inventam o que querem para evitarem a mudança de endereço. Abaixo listo as dez mentiras que mais me incomodam, cujas implicações ao seu patrimônio podem ser substanciais.

Restrinjo-me a questões de economia e finanças. Não imagino que a mitomania limite-se a essa área, mas prefiro manter-me no escopo, por uma questão de pertinência desta newsletter.

Ao não reconhecer os erros, mantém-se a rota errada da política econômica. Bateremos de frente com uma crise financeira em 2015.

1. “A crise vem de fora.”
Esse é o discurso oficial para justificar a recessão técnica em curso no Brasil. O que os dados podem nos dizer sobre isso? Comecemos do mais simples: o crescimento econômico do Governo Dilma será, na média, dois pontos percentuais menor àquele apresentado pela América Latina. Nos governos Lula e FHC, avançamos na mesma velocidade dos vizinhos.

Indo além, há de se lembrar que a economia mundial cresceu 3,9% em 2011, 3% ao ano entre 2012 e 2013, e deve emplacar mais 3,6% em 2014. Nada mal.

Comparando com o pessoal mais aqui ao lado especificamente, Chile, Colômbia e Peru, exatamente aqueles que adotaram políticas econômicas ortodoxas e perseguiram uma agenda de reformas na América Latina, cresceram 4,1%, 4,0% e 5,6% ao ano, entre 2008 e 2013.

Enquanto isso, a evolução média do PIB brasileiro na administração Dilma deve ser de 1,7% ao ano.
A retórica oficial, desprovida de qualquer embasamento empírico, continua ser de que a crise vem de fora. Aquela marolinha identificada pelo presidente Lula, lá em 2008, seis anos atrás, ainda deixando suas mazelas. 

2. “A política neoliberal vai aumentar o desemprego.”
Não há como desafiar o óbvio de que o produto agregado (PIB) depende dos fatores de produção, capital e trabalho. Ora, com o PIB desabando por conta da política econômica heterodoxa, cedo ou tarde bateremos no emprego.

Podemos não conseguir precisar qual a exata função de produção, ou seja, de como o PIB se relaciona com o nível de emprego, mas não há como contestar a existência de relação entre as variáveis.

O crescimento econômico da era Dilma é o menor desde Floriano Peixoto, governo terminado em 1894, subsequente à crise do encilhamento. Há uma transmissão óbvia desse comportamento para o emprego.

Os dados do Caged de maio apontaram a menor geração de postos de trabalho desde 1992. Em sequência, junho foi o pior desde 1998. E julho, o pior desde 1999.

Quem vai gerar desemprego é a nova matriz econômica - não o fez ainda simplesmente porque essa é a última variável a reagir (e a única que ainda não foi destruída). 

3. “A oposição quer acabar com o reajuste do salário mínimo.”
Essa é uma mentira escabrosa por vários motivos. O primeiro é trivial: os dois candidatos da oposição já se comprometeram, em dezenas de oportunidades, em manter a política de reajuste de salário mínimo.

Ademais, quando Dilma se coloca como a protetora do salário mínimo, está simplesmente contrariando as estatísticas. O aumento real do salário mínimo foi de 4,7% ao ano entre 1994 e 2002, de 5,5% ao ano entre 2003 e 2010, e de 3,5% ao ano entre 2011 e 2013.

Ou seja, o reajuste do mínimo na era Dilma é inferior àquele implementado por Lula e também ao observado no período FHC. Ainda assim, Dilma se coloca como o bastião em favor do salário mínimo. 

4. “A política neoliberal proposta pela oposição vai promover arrocho salarial.”
Esse ponto, obviamente, guarda relação com o anterior. Destaquei-o mesmo assim porque denota a doença de ilusão monetária ou uma tentativa descarada de enganar a população.

Arrocho salarial já vem sendo promovido pela atual política econômica, por meio da disparada da inflação. O salário nominal, o quanto o sujeito recebe em reais no final do mês, não interessa per se. O relevante é como e quanto esse numerário pode ser transformado em poder de compra - isso, evidentemente, tem sido maltratado pela leniência no combate à inflação.

Precisamos dar profundidade mínima ao debate. Se você consegue aumentos sistemáticos de salário acima da produtividade do trabalhador, a contrapartida óbvia no longo prazo é a inflação, que acaba reduzindo o próprio salário real.

O que os “neoliberais” querem é perseguir aumentos de produtividade maiores e duradouros. Isso permitiria dar incrementos de salário substanciais, sem impactar a inflação.

Caso contrário, aumentos do salário nominal serão corroídos pela inflação. 

5. “Programa de Marina reduz a pó política industrial.”
A presidente Dilma realmente não precisa ter essa preocupação, pois ela mesma já fez o serviço. O Plano Brasil Maior, lançado em 2010 com metas para 2014, não conseguiu entregar sequer um de seus vários objetivos.

Dilma oferece simplesmente o maior processo de desindustrialização da história brasileira, fazendo o presidente da Fiesp afirmar categoricamente que somente louco investe hoje no Brasil.

Seria pertinente preocupar-se com a própria política industrial antes de amedrontar-se com o programa alheio.

Quem defende uma política de campeões nacionais, em que se escolhem a priori os vencedores da prática concorrencial desafiando a lógica de mercado, não entende absolutamente nada de empreendedorismo e política industrial.

O maior elogio que Marina poderia receber à sua política industrial é a desconfiança de Dilma. 

6. “A política monetária foi exitosa.”
A frase foi proferida por Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, em seminário nos EUA sobre política monetária. A inflação brasileira tem sistematicamente namorado o teto da meta, de 6,50% em 12 meses, ignorando o princípio básico de um sistema de metas, em que o centro do intervalo deve ser perseguido. A banda de tolerância de dois pontos existe apenas para abarcar choques exógenos.

A rigor, a inflação em 12 meses está até acima do teto. O IPCA de agosto aponta variação de 6,51% em 12 meses, estourando o limite superior do intervalo.

Transformamos o teto no nosso objetivo e represamos cerca de dois pontos de inflação através do controle de preços de combustíveis, energia e câmbio.

Esse é o tipo de êxito que esperamos da política econômica? 

7. “Precisamos de um pouco mais de inflação para não perder empregos.”
Para ser justo, a frase, ao menos que seja de meu conhecimento, não foi dita ipsis verbis por nenhum membro do Governo. Entretanto, a julgar pelas decisões e diretrizes de política monetária, parece permanecer o racional da administração petista.

O velho trade-off entre inflação e crescimento, em pleno século XXI?

Bom, antes de entrar no debate acadêmico, pondero que poderia até ser verdade se houvesse, de fato, crescimento. Conforme supracitado, não é o caso.

Ignorando esse fato e fingindo que vivemos crescimento econômico pujante, a questão sobre o trade-off entre inflação e crescimento parece apoiar-se numa discussão tacanha sobre a Curva de Phillips.

O debate até faria sentido se estivéssemos nos idos de 1970. Dai em diante, Friedman, Phelps e outros destruíram o argumento de mais inflação, mais emprego.

A partir da síntese de 1976, naquilo que ficou batizado de crítica de Lucas, com trabalhos posteriores sobretudo de Kydland e Prescott, a fronteira do conhecimento passou a incorporar a ideia de que o trade-off entre inflação e desemprego existe apenas a curtíssimo prazo.

Ao trabalhar com uma inflação sistematicamente mais alta, rapidamente voltamos a um novo equilíbrio, com nível de preços maior e o mesmo nível de emprego original.

E, sim, o espaço aqui está aberto para o pessoal da Unicamp rebater o argumento de Lucas (professor Belluzzo incluindo, sem nenhum tipo de enfrentamento aqui; convite educada e genuinamente a um derbi das ideias). Criticam-nos por ouvir apenas a oposição e ignoram que eles declinam nosso convites - só pode haver vozes governistas e/ou heterodoxas em nossos eventos se elas aceitarem participar, certo? Lembre-se: fizemos o convite ao competente Nelson Barbosa, que, infelizmente, não pode comparecer por incompatibilidade de agenda. 

8. “As contas públicas estão absolutamente organizadas. O superávit primário, embora menor do que em 2008, é um dos maiores do mundo. Dizer que há uma desorganização fiscal é um absurdo.” 
A preciosidade foi dita pelo ministro Guido Mantega em entrevista ao jornal Valor. O superávit primário do setor público não é somente menor àquele de 2008. No primeiro semestre, foi o menor da história, em R$ 29,4 bilhões.

Nos últimos 12 meses, a variável marca 1,4% do PIB, sendo metade derivado de receitas extraordinárias, como Refis e leilão de libra. E se considerarmos o atraso em pagamentos em subsídios, precatórios e repasses aos bancos públicos para benefícios sociais, provavelmente não passamos de 0,5% do PIB.

O déficit nominal bate 4% do PIB, flertando com aumento de dívida, maiores impostos e/ou mais inflação à frente. Essa é a herança que a “absoluta organização das contas públicas está nos deixando.” 

9. “Nunca foi feito tanto pelo pobre neste país.”
Intuitivamente, você já poderia desconfiar da afirmação quando pensa na inflação, que é um fenômeno essencialmente ruim para as classes mais baixas. Os abastados têm um estoque de riqueza aplicada em ativos que remuneram acima da inflação. Logo, estão em grande parte protegidos. A inflação é um instrumento clássico de concentração de riqueza.

Mas há de ser além da simples intuição, evidentemente. Aqui, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2012, última disponível, é emblemática.

A constatação principal é de que, depois de 10 anos ininterruptos de melhora, a desigualdade de renda para de evoluir em 2012. O coeficiente de Gini, medida clássica de equidade, para de cair e as curvas de Lorenz de 2011 e 2012 são sobrepostas.

Em adição, a relação existente entre a renda apropriada pelo 1% mais rico da população e os 50% mais pobres aumenta de 0,66 para 0,69. Ou seja, o resultado é simples: quebramos uma sequência de 10 anos de avanço da distribuição de renda no Brasil.

A política econômica heterodoxa não cresce o bolo e também não o distribui de forma mais equitativa. 

10. “A oposição faz terrorismo eleitoral.”
Se você compactua com um dos nove pontos anteriores, você é um terrorista eleitoral, egoísta e interessado apenas em si mesmo. Provavelmente, é financiado por um dos candidatos de oposição.

Enquanto isso, a situação acusa a candidata oposicionista de homofóbica e de semelhanças com Fernando Collor. Sim, ele mesmo, parte da base de apoio da....situação.

Seríamos nós, analistas e economistas, os terroristas?

Essa é a herança que fica para 2015. Você tem dois caminhos a adotar: o primeiro é esperar as consequências materiais dessa gestão desastrosa sobre seu patrimônio, e o segundo é começar a se mexer, de modo a proteger ou até mesmo aumentar suas economias.

Abençoado por Deus e roubado com naturalidade

Fernando Gabeira  
O Estado de S. Paulo


Tá lá o corpo estendido no chão. Acabou uma época imprensada entre a crise econômica e uma profunda desconfiança da política. Não quero dizer com isso que o atual governo federal, com sua gigantesca capacidade, milhões de reais e a máquina do Estado, perderá a eleição. Não o subestimo. Quando digo que acabou uma época quero dizer que algo dentro de nós se está rompendo mais decisivamente, com as denúncias sobre o assalto à Petrobrás.

De um ponto de vista externo, você continua respeitando as leis e as decisões majoritárias. Mas internamente sabe que vive uma cisão. A contrapartida do respeito à maioria é negada quando o bloco do governo se transforma num grupo de assaltantes dos cofres públicos.

Uma fantástica máquina publicitária vai jogar fumaça nos nossos olhos. Intelectuais amigos vão dizer que sempre houve corrupção. Não se trata de um esquema de dominação. Ele tem seus métodos para confundir e argumentar.

O elenco escolhido pelo diretor da Petrobrás para encenar o grande assalto na política não chega a surpreender-me. O presidente do Senado, Renan Calheiros, e o presidente da Câmara, Henrique Alves, são atores experimentados. A diferença agora é que decidiram racionalizar. Renan e Alves viveram inúmeros escândalos separadamente. Agora estão juntos na mesma peça. Quem escreve sobre escândalos deve ser grato a eles. Com a presença num mesmo caso, Renan e Alves nos economizam um parágrafo. Partimos daí: os presidentes do Senado e da Câmara brasileira são acusados de assaltar a Petrobrás.

Deixamos para trás um Congresso em ruínas e vamos analisar o governo. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, foi acusado, o tesoureiro do PT também foi denunciado. As declarações deixam claro que Lula levou o diretor para o posto e elogiava seu trabalho na Petrobrás.

Em termos íntimos, não há governo nem Congresso para respeitar. Ambos já mudaram de qualidade. Os que se defendem afirmando que sempre houve corrupção não percebem a fragilidade do argumento. É como se estivessem diante do incêndio do Rio e alguém sussurrasse: "O Nero, lembra-se? O Nero também incendiou Roma".

Grande parte dos analistas se interessa pela repercussão do escândalo na corrida presidencial. Meu foco é outro: a repercussão na sensação de ser brasileiro. Quem talvez conheça melhor essa sensação são as pessoas que vivem em favelas, dominadas pelo tráfico ou pela milícia.

Existem diferenças entre as favelas e o Brasil que as envolve. Diante de escândalos políticos somos livres para protestar, o que não é possível nos becos e vielas. E contamos com a Justiça. No caso do mensalão, o processo foi conduzido por um juiz obstinado e com dor nas costas, pouco tolerante a artifícios jurídicos. Neste caso da Petrobrás há indícios de que o juiz Sérgio Moro, competente em analisar crimes de lavagem de dinheiro, pretende avançar nas investigações. E avançar por um território que não é virgem, mas extremamente inexplorado: o universo das empreiteiras que subornam os políticos.

Lembro-me, no Parlamento, dos esforços do velho Pedro Simon para que se investigassem também as empreiteiras nos escândalos de suborno. Falar disso no Congresso é falar de corda em casa de enforcado. Ele não conseguiu. Mas Simon queria mostrar também que os políticos não se corrompem sozinhos. Desgastados, polarizam tanto a rejeição que poucos se interessam por quem deu dinheiro e com que objetivo.

Leio nos jornais que as empreiteiras fizeram um pool de excelentes advogados e, pela primeira vez na história, vão se defender de forma coordenada. Vão passar por um momento crucial. Ainda no Congresso, apresentei projeto regulando suas atividades no exterior. A presunção era de que mesmo no exterior o suborno era ilegal para uma empresa brasileira. Alguns países já adotam essa política.

Sinceramente, não sei se o caso das empreiteiras é apenas de bons advogados. Em muitos lugares do mundo, algumas empresas assumem seus erros e se comprometem com um novo tipo de relação com as leis. Isso no Brasil seria uma decisão audaciosa. Sem o suborno, devem pensar, não há chance de ter contratos com o governo.

Se, como no mensalão, a justiça for aplicada com severidade, também as empreiteiras serão punidas. Mais uma razão para pensar numa mudança de comportamento para a qual o País já está maduro. Todo esse processo de corrupção pode ser combatido, parcialmente, a partir de nova cultura empresarial. Os outros caminhos são transparência, Polícia Federal, Justiça, liberdade de imprensa e internet.

Quando afirmo que uma época acabou, repito, não excluo a vitória eleitoral das forças que assaltam a Petrobrás. Mas, neste caso, o governo sobreviverá como um fósforo frio. Maduro, na Venezuela, vê Chávez transfigurado em passarinho. Esse truque não vale aqui, pois Lula está vivo. E no meio da confusão.

Não creio que o Congresso será melhor nem que a oposição, que não soube combinar a crítica econômica com a rejeição moral, possa realizar algo radicalmente novo. O próprio Supremo não é mais o mesmo. Modestamente, podemos esperar apenas alguma melhoras e elas vão depender de como o povo interpretará o saque à Petrobrás. Na minha idade já não me posso enganar: Senado, Câmara, governo, tudo continua sendo formalmente o que é; no juízo pessoal, são um sistema que nos assalta.

O PT, via Gilberto Carvalho, acha que a corrupção é incontrolável e propõe financiamento público de campanha. Bela manobra, como se o dinheiro da Petrobrás não fosse público. Os adversários têm tudo para desconfiar da tese. Ficariam proibidos de arrecadar com empresas, enquanto dinheiro a rodo é canalizado das estatais para o PT, que se enrola na Bandeira Nacional e grita: "O petróleo é nosso!".

Na medida em que tudo fique mais claro, talvez possamos até economizar palavras, como Renan e Alves nos economizaram um parágrafo participando do mesmo escândalo. Poderíamos usar a frase do mendigo em Esperando Godot, ao ser questionado sobre quem o espancou: os mesmos de sempre.

Corrupção em escala multitudinária

Percival Puggina



O pessimista no Brasil é um sujeito bem sucedido. As pessoas olham para ele e proclamam, balançando a cabeça e sinal de assentimento: "Ele já tinha me avisado. Está acontecendo tudo direitinho". Pois é, modéstia à parte, nos últimos meses tenho me defrontado com esse tipo de sucesso. Há bom tempo proclamei que estávamos chegando ao máximo em matéria de corrupção.

Contestaram-me alguns otimistas inveterados dizendo que não, que não era assim, que o poder ainda era doce e restava muito mel no pote. Mas eu não me referia ao botim remanescente. Batíamos no fundo do poço por algo bem pior do que o aumento do número de assaltantes do erário e da capacidade de operação dos pés-de-cabra administrativos e contratuais. Também estes se ampliaram muito, é verdade. A serem corretas as informações prestadas pelo ex-diretor da Petrobrás em sua delação premiada, um pool de empresas abasteceu durante longos anos, um caixa do qual se serviam duas dúzias de eminentes figuras da República. Quem tem põe, quem não tem tira.

Tampouco nos levam ao fundo do poço as reiteradas afirmações de ignorância e desconhecimento das autoridades superiores. "Eu não tinha a menor ideia de que isto ocorria dentro da empresa", afirmou a presidente Dilma, referindo-se àquela caverna de Ali-Babá montada em função dos negócios com o petróleo brasileiro. A presidente diz que não tinha a menor ideia e eu, pessimista, não acredito. Ora se a presidente, com seu currículo admirável, conselheira da firma, ex-chefe da Casa Civil, ex-ministra de Minas e Energia, poderia estar desinformada sobre a infestação de ratazanas na empresa de onde sairão os royalties para melhorar a Educação do país.

O que nos leva ao fundo do poço é outra coisa, é saber que tão lúgubres notícias se refletiram positivamente nos índices de aprovação do governo e da presidente, candidata à reeleição. Se as pesquisas estão corretas, 38% dos 202,7 milhões de brasileiros, ou seja, algo como 77 milhões de conterrâneos nossos, gente que passa pela gente, que cumprimenta a gente, que vai à missa, que compra, que vende, que trabalha, frequenta escola, universidade, fica sabendo dessas coisas e não dá a mínima. Bate palmas, atira beijinhos e posa para selfies com Sua Excelência. Isso é que eu chamo corrupção em escala multitudinária.

Um debate abastardado

O Estado de S. Paulo  
Editorial

Seria engraçada se não fosse deplorável a troca de acusações entre as candidatas Dilma Rousseff e Marina Silva sobre quem é mais submissa aos banqueiros. Começou, como sabem todos quantos tiveram a desventura de ouvi-las, com um ataque rombudo da presidente à promessa da adversária de que, eleita, encaminhará projeto de lei para tornar o Banco Central (BC) autônomo em relação aos governos de turno e ao Congresso Nacional. Em um vídeo de propaganda, na segunda-feira à noite, Dilma se pôs a "explicar" ao público o que significaria, no seu entender, o que "parece algo distante da vida da gente, né?". Seria nada menos do que "entregar aos banqueiros" um poder imenso "sobre a sua vida e a de sua família". Seu fiel escudeiro, Marco Aurélio Garcia, completou a estultícia: "Se houver essa independência, que será a dependência dos bancos privados, teremos a impossibilidade de formular políticas macroeconômicas e de desenvolvimento".

Marina replicou por baixo; fulanizou a discussão, disparando que "nunca os banqueiros ganharam tanto" como no atual governo, graças à "bolsa empresário", à "bolsa banqueiro", à "bolsa juros altos". Trata-se de uma rajada de despropósitos, a começar do primeiro, que deve ter caído no meio empresarial, que carrega um caminhão de justas queixas da assim chamada política econômica, como uma massagem de sal nas suas feridas. De mais a mais, funcionando como funciona o BC, a inflação supera a meta e a economia cambaleia entre a recessão e um pífio crescimento de menos de 1%.

A personalização da pendenga era tudo o que Dilma queria, desde que tomou a decisão (ou tomaram por ela) de partir para cima da rival, trocando as luvas pelo soco inglês. A campanha da presidente parece ter concluído que as suas chances de dar a volta por cima no segundo turno, desmentindo as pesquisas que apontam a vitória da pregadora da "nova política", variam na razão direta da competência de Dilma em oxidar a aura graças à qual a ex-petista, concorrendo pelo Partido Verde, colheu desconcertantes 19,6 milhões de votos na disputa de 2010. A presidente há de ter intuído que, se é para falar em banqueiros - atrás apenas dos políticos entre os campeões do desafeto nacional, especialmente na população mais pobre -, o negócio é vincular a desafiante aos vice-líderes desse inglório duelo. E mandou ver.

"Não adianta querer falar que eu fiz 'bolsa banqueiro'", retrucou. "Eu não tenho banqueiro me apoiando. Eu não tenho banqueiro me sustentando." É preciso ser muito desinformado para ignorar a pontiaguda alusão à educadora Maria Alice Setubal, a Neca, cujo irmão Roberto preside o Itaú Unibanco, o que a torna herdeira da instituição. Amiga de longa data de Marina, ela coordena o seu programa de governo e faz a ponte entre a candidata e o empresariado (que a olhava de soslaio quando era vice na chapa de Eduardo Campos). Segundo a Folha de S.Paulo, no ano passado Neca doou perto de R$ 1 milhão para um instituto criado por Marina para desenvolver projetos sobre sustentabilidade. O valor equivale a 83% do total arrecadado no período.

A troca de desaforos terminou - ou ficou interrompida - com Marina perdendo o prumo. "O Banco Central autônomo", argumentou, juntando tudo e misturando, "é para ter autonomia dos grupos que acabaram com a Petrobrás." Mas isso é o de menos. O de mais é que é de pasmar: a naturalidade com que as candidatas mais cotadas para adentrar ou permanecer no Planalto em 2015 se puseram a abastardar um debate de grande importância para a condução do Brasil - como é naqueles países com os quais aspiramos a ser comparados. O grau de liberdade da autoridade monetária não apenas para fixar a taxa básica de juros, mas também a política de câmbio, além de zelar pela integridade do sistema financeiro, não deveria ser objeto de tiradas marqueteiras.

A escassa familiaridade da grande maioria dos brasileiros com o assunto deveria ser um motivo a mais para que os presidenciáveis se guardassem de usá-lo como tacape eleitoral. Fazendo a coisa errada, escancaram a pobreza substantiva das suas campanhas. A videopolítica, que privilegia o componente pessoal da competição pelo voto sobre o que efetivamente os competidores têm a oferecer ao País, completa o desserviço.

O Tribunal da História

Ruy Fabiano

Entre os desserviços que a Era PT presta ao país, está o de tentar mudar sua história recente. Os heróis da resistência ao regime militar não foram os que apelaram à luta armada, que nada mais fizeram que fornecer pretextos para que o ambiente político se tornasse ainda mais espesso e adverso. Foram as lideranças civis desarmadas – entre outros, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Paulo Brossard, Sobral Pinto e Raymundo Faoro – que agiram com desassombro, bom senso e eficácia, pondo fim à ditadura sem disparar um único tiro. Com palavras – e nada mais que palavras -, conseguiram convencer os próprios governantes da ineficácia do regime que sustentavam e do desgaste que inevitavelmente recairia sobre as instituições armadas, se se perpetuassem no poder.

O papel do PT nesse processo, a partir de 1980, quando surge, é ambíguo, para dizer o mínimo. Nem é preciso recorrer à denúncia de Ruma Junior, no livro “Assassinato de Reputações”, de que Lula funcionava como informante do regime ao tempo em que mobilizava os sindicalistas para criar um partido. Pouco importa, do ponto de vista prático, se isso ocorreu.

O que importa é que o PT se empenhou em frustrar a estratégia das oposições de formar uma frente única contra o regime. Sabia-se que era propósito – e isso é fato histórico – do governo militar fragmentar as oposições para dividir-lhes os votos e vencer as eleições. E a isso o PT aderiu. Não votou em Tancredo Neves no colégio eleitoral, expulsando três parlamentares seus que ousaram fazê-lo: Airton Soares, José Eudes e Beth Mendes. Opôs-se na sequência a todos os governos pós-redemocratização, infernizando-os com seguidos pedidos de CPI. “Quanto mais CPIs, melhor”, bradava Lula, o mesmo que, no poder, passou a sustentar o contrário.

Não foi a única contradição. Ao assumir a Presidência da República, o partido iria aliar-se a lideranças antagônicas, como José Sarney, a quem Lula chamava de “o grande ladrão do Planalto”, sendo responsável pela ressurreição de alguns oligarcas que antes combatia, como Jáder Barbalho e Fernando Collor de Mello, e o próprio Paulo Maluf.

Esse comportamento, descomprometido com a mais elementar coerência ou senso ético, bagunça o entendimento da História. A Comissão da Verdade, cuja contradição básica consiste em tornar juízes os que são parte no que se está julgando, faz crer que a luta armada foi o ponto alto da resistência e derrubada do regime e que não cometeu pecado algum, já que até seus erros, que não são poucos, são atribuídos ao adversário.

Ao mesmo tempo, transforma a anistia em algo a ser revogado. Nunca antes – neste e em qualquer país – alguém fez isso. Anistia significa perpétuo esquecimento – ou não é anistia. Não significa que não se deva saber o que ocorreu, até porque a História, além de memória, é o grande tribunal dos erros do passado. Mas a anistia não leva esses erros, por mais hediondos, para o futuro. Ou, repita-se, não é anistia.

A democracia brasileira, mais uma vez ameaçada por uma agenda autoritária, que inclui censura à mídia e aparelhamento ideológico do Estado (vide decreto 8.243), depende mais uma vez da ação de lideranças civis desarmadas.

Só que hoje, diferentemente do que ocorria nos anos 70, ao tempo da distensão política, promovida pelo general Geisel, não há sociedade civil organizada. Há sociedade civil aparelhada. Não há na OAB um Raymundo Faoro, nem na ABI um Prudente de Moraes Neto (que representou a entidade dos jornalistas na interlocução com o regime em prol da redemocratização), nem no Congresso um Ulysses ou Tancredo.

O atual presidente da OAB, Marcus Vinicius Coelho, que mantém a entidade em silêncio desde sua posse, integra a lista dos candidatos à vaga de Joaquim Barbosa ao STF. Todas essas instituições converteram-se à categoria de “movimentos sociais” e seguem a cartilha ideológica em curso. A reação depende hoje da sociedade civil desorganizada, com protestos aleatórios nas ruas e nas redes sociais, mas que tem nas próximas eleições a oportunidade de optar entre seguir em frente ou mudar. A opção não será entre candidatos, mas entre projetos, cujos efeitos hão de determinar o país não do próximo mandato, mas das próximas gerações.

(Transcrito Blog Percival Puggina)

As dez coisas que me assustam em um segundo mandato do governo atual

Mansueto Almeida
Tribuna da Internet

Há dez coisas que me assustam muito em um segundo governo Dilma. Isso não necessariamente acontecerá, mas os dez pontos que destaco abaixo estão presentes em declarações de simpatizantes do governo e, às vezes, até mesmo em declarações da própria presidenta Dilma. Nesta lista não há nada pessoal. É um debate de ideias.

(1) Controle do Banco Central
O governo parece confundir independência do Banco Central – formal ou operacional – com o controle dos banqueiros da economia brasileira. Essa é a visão divulgada em uma propaganda política da coligação da presidenta, o que nos leva a crer que, em um novo governo, a presidenta e o seu partido tentarão controlar ainda mais o Banco Central. Vale lembrar que, neste governo,  a inflação só passou a ser levada a sério quando Ana Maria Braga vestiu um colar de tomates.

(2) Aumento da Divida Bruta e Liquida
Por mais que se tente explicar, simpatizantes do governo acreditam que, quanto maior a divida para financiar a juros subsidiados um conjunto de empresas, melhor. E o custo? para eles, há uma espécie de “milagre da multiplicação dos pães”.  O aumento da divida aumenta o investimento e, logo, ocasiona mais crescimento  e mais impostos que, necessariamente, serão suficientes para pagar o crescimento da dívida. Mas não fizemos exatamente isso na década de 70?  Logo, a solução para o crescimento não é aumento da produtividade, mas o crescimento cada vez maior da dívida. Como diz um amigo meu no governo quando questiono o crescimento da dívida: “como vamos financiar o crescimento da produtividade?”. Ou seja, tudo passa pelo aumento da dívida até mesmo o crescimento da produtividade.

(3) Inflação alta
O governo atual e seus simpatizantes não acreditam que uma taxa de inflação um pouco acima de 6% ao ano seja um problema. Na verdade, acreditam que é um índice bom porque é menor que 10% ao mês. Acreditam também que trazer a inflação para o centro da meta tem um custo muito grande e, assim, é melhor aceitar uma inflação moderadamente elevada de 6% ao ano (mesmo com controle de preços) e criticar quem promete trazer a inflação para o centro da meta. Por que isso mudaria em um segundo governo Dilma? Não tenho ideia.

(4) Superávit primário baixo
O governo atual parece acreditar que o esforço de gerar um superávit primário sem o uso de truques fiscais é excessivamente alto. Por quatro anos, o governo tentou enganar o mercado na divulgação do superávit primário, mas o tiro saiu pela culatra. Estamos na iminência de perder o grau de investimento e, mesmo que o governo mude a equipe econômica, a desconfiança do mercado é tão grande que o custo de ajuste em um segundo governo Dilma será maior do que em um governo da oposição – seja o presidente Aécio Neves ou Marina Silva.

(5)  Taxas de juros elevada.
Um país com poupança baixa, no qual a tendência da divida bruta e liquida é de crescimento, a taxa de juros tende a ser elevada. Isso será agravado por sucessivas tentativas de tentar controlar a taxa de juros de qualquer maneira, como o governo já tentou no mandato atual e fracassou. Claro que se os EUA elevarem a taxa de juros deles, teremos problemas.

(6) Estagnação ou queda da produtividade.
Em recente entrevista ao Estado de São Paulo, a presidenta Dilma afirmou que foi no governo Lula (2003-2010) que a produtividade cresceu e não no governo do ex-presidente FHC (1995-2002). Ou seja, na interpretação da nossa presidenta, o crescimento da produtividade responde sem defasagem à políticas do presente. Ou seja, todas as reformas anteriores ao governo Lula foram um fracasso. O problema é que ninguém acredita nessa ideia absurda. Nem mesmo os seus ministros. O governo tem a noção infantil que consegue aumentar a produtividade se reunindo com 50 empresários em uma sala fechada  e distribuindo incentivos setoriais. Não deu certo e não funcionará novamente.

(7) Controle da taxa interna de retorno dos projetos.
Alguns amigos me falam que o governo aprendeu com a tentativa fracassada de tentar controlar a taxa interna de retorno dos projetos. Mas acho que esse aprendizado foi parcial. O governo continua insistindo no aumento do crédito subsidiado, financiamento de fundos de pensão de estatais e aportes do FI-FGTS em troca de preços (tarifas) menores. Por que em um segundo governo será diferente? não será.

(8) Pré Sal e valorização da taxa de câmbio.
O governo atual fala para quem quiser ouvir e para quem não quiser ouvir que os recursos do pré sal serão utilizados para financiar maiores gastos com educação e outros gastos meritórios. Não explica, no entanto, que o uso de uma receita em dólar para financiar um  gasto corrente na moeda local significa valorização do Real e, logo, o risco maior de desindustrialização. Como isso será solucionado? não será porque eles não conseguem enxergar o problema. Samuel Pessoa já falou que topa dá uma aula de graça.

(9) Aumento da carga tributária
O governo tem dito nesta campanha eleitoral que  continuará a expandir os subsídios para financiar o setor “real” da economia. Como ainda não pagou o que já deu e ainda promete novos subsídios, isso significa uma coisa: aumento da carga tributária hoje ou no futuro (para pagar a dívida). Tenho certeza que um segundo governo Dilma vai tentar ressuscitar a CPMF. Mas isso não preocupa simpatizantes do governo porque eles acreditam, como falei acima, no “milagre da multiplicação dos pães”.

(10) Sindrome de He Man: “Eu tenho a força. Sou invencível. Juntos, amigos, venceremos a semente do mal”
O governo parece acreditar que consegue controlar o espírito animal dos empresários e escolher os setores que puxarão o crescimento. Qualquer empecilho é solucionado em uma reunião rápida no Palácio do Planalto. Se faltar recursos para obras de investimento, o Tesouro aumenta a divida e empresta para o BNDES. Se a indústria estiver com problemas, governo aumenta imposto de importação. O governo tem feito isso de forma sistemática nos últimos anos. Por que em um segundo mandato seria diferente? O governo acha que consegue microgerenciar a economia e não adianta tentar convence-lo do contrário porque, neste caso, você será a “semente do mal” da música do He Man (junto com os banqueiros e a grande imprensa).

Pelos dez motivos acima não voto no atual governo e acho que um segundo mandato tem tudo para ser desastroso. Mas posso estar errado por dois motivos. Primeiro, o governo pode ser forçado a mudar o curso da política econômica na iminência de uma crise. Segundo, o governo pode mudar porque se convenceu que o que fez ao longo dos últimos quatro anos não entregou o resultado esperado. Mas não é isso que representantes do governo falam e continuam culpando o resto do mundo pelas nossas mazelas.


PS: Por favor, respeitem o meu medo como eu respeito aqueles que acham que, com a independência do Banco Central, a comida das pessoas sairá voando da mesa de jantar.

Iludir é preciso

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

O PT comemora a recuperação de alguns pontos positivos para a presidente Dilma Rousseff nas pesquisas e atribui a boa nova à ofensiva de difamação contra a ex-senadora Marina Silva.

Na avaliação do comando, depois de alguns desacertos a campanha acertou a mão. Por "acerto" entenda-se a seguinte narrativa da propaganda eleitoral petista: Marina é candidata dos banqueiros a quem pretende entregar o País caso seja eleita presidente, permitindo que aquela gente malvada leve à miséria o povo brasileiro.

Se ao uso de invencionices é atribuído o resultado das pesquisas que apontam o empate entre a presidente e a ex-senadora - representando o estancamento da queda de uma e a parada da subida de outra -, evidentemente o recurso será cada vez mais utilizado. Aliás, já está sendo.

A campanha do PT não está preocupada com a verdade dos fatos porque não está falando para os informados. Aposta na massa que não dispõe de dados nem discernimento suficientes para cotejar os fatos e conta uma história que parece fazer sentido.

Exatamente para esse público no horário eleitoral a presidente Dilma agora resolveu "explicar" didaticamente como, quando e porque seu governo deu combate sem trégua à corrupção, tema até então evitado na propaganda e só abordado em entrevistas mediante provocação.

Segundo ela, os escândalos dos últimos anos foram apenas uma "falsa impressão" de aumento da corrupção. Nessa nova versão esses casos viraram notícia só porque o governo assim decidiu.

Isso a despeito de nenhum deles ter sido descoberto por iniciativa oficial, todos terem sido em princípio desmentidos, vários dos personagens envolvidos demitidos depois reincorporados aos ministérios, investigações escancaradamente barradas e denúncias reiteradamente ignoradas.

Está claro, pois, que a campanha do PT achou um atalho mais fácil para travar o atual combate: no lugar de tentar convencer, prefere enganar o eleitor. Campo no qual se sente bastante à vontade.

Melhor de três. 
O senador Aécio Neves disse na entrevista ao Globo que se perder a eleição será um oposicionista. Como não se pode levar em conta a hipótese de uma composição com governo do PT, resta o subentendido de que se referia à recusa de adesão no caso de vitória de Marina Silva.

A declaração pode ser compreendida de diversas formas. A mais simplesinha, a admissão prévia de que está fora do páreo. Outra: como presidente do PSDB vai se empenhar para que o partido fique de fora de um hipotético governo do PSB.

Uma terceira seria o reconhecimento de que uma nova disputa presidencial precisaria ser precedida de uma posição atuante, com mais atenção à ligação com a sociedade e menos confiança nos resultados da política de bastidor.

Destaques. 
Enquanto as pesquisas não revelam grandes alterações no cenário da disputa presidencial, nas eleições estaduais os números trazem algumas novidades.

Em Pernambuco, a virada de Paulo Câmara (candidato de Eduardo Campos). Saiu de 13% para 39% passando à frente de Armando Monteiro, que liderava com 47% e agora tem 33%.

No Rio Grande do Sul, a candidata Ana Amélia se distancia no primeiro lugar do governador Tarso Genro, cumprindo até agora a tradição gaúcha de não reeleger governadores.

No Distrito Federal ocorre um paradoxo. José Roberto Arruda, ficha suja concorrendo a poder de recurso, está em primeiro lugar para o governo. Ao Senado, o candidato disparado é o deputado José Antonio Reguffe cujo capital é a ficha limpa: não usa cota de passagens, devolve salários extras, defende redução de verbas e gabinete e recusa auxílio moradia.

Dilma sai pela tangente

Gazeta do Povo - PR
Editorial

Declarações da presidente sobre o novo escândalo da Petrobras não levam a lugar nenhum

A presidente Dilma Rousseff ainda está prospectando as razões pelas quais andam falando tão mal da Petrobras. Disse ela, em sabatina do jornal O Estado de S.Paulo: “Eu não tinha a menor ideia de que isso ocorria dentro da empresa”, referindo-se ao bilionário esquema de propina denunciado pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa. Seu alegado desconhecimento se refere ao suposto esquema que agora é manchete de todos os jornais, mas coincide também com os anos em que a estatal petrolífera brasileira deixou de garantir a autossuficiência na produção de óleo, tão festejada no início do governo Lula, e se envolveu em negócios desastrosos. Dilma, no entanto, não via anormalidades na empresa – nem técnicas, nem administrativas, nem morais.

Nesse período de decadência, em todos os mencionados sentidos, que no conjunto levaram à perda substancial de valor da Petrobras, Dilma sucessivamente foi ministra de Minas e Energia (pasta à qual a petrolífera está vinculada), ministra-chefe da Casa Civil da Presidência, presidente do Conselho de Administração da Petrobras e, finalmente, presidente da República. Mas “não tinha a menor ideia” do que ocorria dentro da empresa.

Claro que não se deve exigir da ocupante daqueles altos postos que conheça minúcias do que ocorre nas entranhas da administração pública. Mas é doloroso ter de admitir que essa ausência de cuidados se tenha estendido à mais estratégica das estatais nacionais – fonte de riqueza incomensurável, detentora de grande potencial de crescimento e, sobretudo, instrumento de garantia e de promoção do desenvolvimento de um país ainda tão carente na exploração de insumos energéticos.

Confrontada, porém, com dados revelados pela imprensa, Dilma preferiu sair-se por uma confortável tangente. Disse ela, na mesma entrevista: “Não quero dar à imprensa um caráter que ela não tem perante as leis brasileiras. A imprensa não tem nenhum foro inequívoco para dizer para mim se uma pessoa é corrupta ou não. Quem vai falar isso para mim é quem investiga, quem tem as provas”. Tem razão a presidente: a imprensa não é a Justiça, mas apresenta fatos que, mais lentamente que o desejável, são depois confirmados por “quem investiga”. Logo, não nos parece razoável o desmerecimento que Dilma Rousseff devota ao papel da imprensa livre – que agora está também no foco de “quem investiga” para se descobrir quem vazou dados colhidos pela Polícia Federal e que não foram desmentidos por “quem investiga”. O esforço por desvendar o vazamento, inclusive, parece tão ou mais intenso que a ânsia por descobrir os detalhes do esquema denunciado por Costa.

A presidente diz estar ainda à espera de dados oficiais para opinar e tomar providências em relação aos supostos desvios na Petrobras – atitude que não deixa de configurar uma contradição em termos, pois, se não são “oficiais” as informações da imprensa, não precisaria esperar que viessem à tona pela via de “quem investiga”. Bastaria-lhe a repetição do mantra com o verbo no presente: “não sei de nada”. Felizmente, preferiu reconhecer uma fumaça de bom conteúdo no que a imprensa já publicou, a ponto de afirmar que “tudo indica que houve” algo de muito errado na Petrobras.

Mas o entorno dessa frase esconde uma profunda contradição. “Se houve alguma coisa [na Petrobras], e tudo indica que houve, eu posso garantir que todas as sangrias que eventualmente pudessem existir estão estancadas”, disse Dilma. É no mínimo curiosa a afirmação: se ela não sabia, e se ainda não sabe (porque não lhe chegaram informações “oficiais”), como ela pode ter certeza absoluta de que as sangrias já foram estancadas? Será essa a única informação oficial que ela deve ter recebido? A de que acabaram com as sangrias, mas não lhe disseram quais eram, nem quem seriam os responsáveis?

É tudo muito surreal.

Raposas e galinheiros

Folha de São Paulo
Editorial

"Confiança" é palavra fundamental no léxico da democracia representativa. Enquanto sistemas autoritários de governo se sustentam numa relação de força, modelos democráticos se legitimam com a delegação do poder a mandatários escolhidos pela população.

Existem diferentes teorias para explicar por que, exatamente, esse processo dá certo, mas há consenso em torno de um aspecto: ele só funciona sem sobressaltos quando os cidadãos acreditam que seus votos são colhidos e computados de forma correta, livre de manipulações. Do contrário, a própria representação é posta em xeque.

A reflexão torna-se oportuna por causa de uma notícia preocupante. A gestão das urnas eletrônicas nos 217 municípios do Maranhão foi confiada, nas eleições deste ano, a uma empresa cujo dono tem vínculos com a família Sarney.

Não se trata de prejulgar Luiz Carlos Cantanhede Fernandes e sua empresa, a Atlântica Serviços Gerais, a quem o Tribunal Regional Eleitoral maranhense, após realizar licitação, incumbiu a responsabilidade de fornecer os 616 funcionários encarregados de transportar e armazenar as urnas, carregá-las com o software e transmitir os dados da votação.

Não surgiu, por ora, nenhum indício material de que uma fraude esteja em curso. Fernandes, porém, não apenas é sócio do marido da governadora Roseana Sarney (PMDB) como também apareceu, em 2002, num episódio nebuloso envolvendo a apreensão de uma grande soma de dinheiro em espécie numa empresa de Roseana.

Tais fatos deveriam ter bastado para deixá-lo de fora da licitação. E, como se não fossem suficientes, suspeita-se de que Fernandes tenha ligações pessoais com Lobão Filho (PMDB), candidato a governador com a bênção dos Sarney.

A situação só é possível porque o Tribunal Superior Eleitoral decidiu descentralizar a gestão das urnas. Até 2010, o serviço era prestado por uma única empresa em todo o país. Agora, cada um dos TREs deve contratar seu fornecedor.

Em alguns Estados, nos quais a política e a economia são dominadas por grupos poderosos, encontrar empresas sem ligações suspeitas é tarefa inglória. Daí não decorre, por óbvio, que as precauções devam ser relaxadas. Quando existe desconfiança quanto à lisura do processo eleitoral, a própria democracia termina maculada.

Pior a emenda do que o soneto

Carlos Chagas
Tribuna da Internet

Falta alguém na presidência da República para conter Dilma Rousseff em suas entrevistas à imprensa, que começou a produzir em cascata, todos os dias, depois de três anos e meio de silêncio. Algum ministro menos tímido deveria orientá-la, tanto faz se Gilberto Carvalho, Thomas Traumann, Aloízio Mercadante ou, em especial, o marqueteiro João Santana. Porque quanto mais a presidente fala, mais se enrola, na tentativa hoje desesperada de evitar a derrota para Marina Silva, em outubro. No governo, ninguém surge com coragem para alertá-la sobre suas contradições. O Lula parece ter perdido a esperança de enquadrá-la, tanto que vem cada vez menos a Brasília, e quando sai em sua companhia, em campanha pelo país, é apenas para pedir votos.

Nas mais recentes conversas com os jornalistas, geralmente nos corredores de algum palácio ou mesmo alguma esquina, Dilma saiu-se com duas afirmações desastrosas. Falava sobre os escândalos na Petrobras, que admite mas não reconhece, já a primeira contradição. Disse que estancou a sangria na empresa quando mudou quase toda a sua direção, um ano depois de chegar ao poder, mas acrescentou que “se houve alguma coisa, e tudo indica que houve, não há mais”. E em seguida: “Tirando essa questão que tem aparecido na campanha, a Petrobras é uma empresa primorosa”.

Ora, essa “coisa” que houve terá sido abafada com a simples substituição de alguns diretores? Sem falar da impossibilidade de a empresa continuar primorosa depois do que aconteceu. Dilma jogou barro no ventilador admitindo terem vindo de antes os malfeitos, quer dizer, do governo Lula. No entanto, nenhum dos diretores afastados foi responsabilizado ou punido, mesmo diante da evidência da distribuição de 3% dos contratos superfaturados da Petrobras com fornecedoras terem sido dados a partidos da base oficial e a líderes políticos mais do que conhecidos.

AGRESSÕES
As agressões da presidente a seus adversários, fruto também das entrevistas, só fazem prejudicá-la, como quando comparou Marina a Jânio Quadros e a Fernando Collor. O que fica dessa temporada de declarações dadas a esmo é que, de um lado, Dilma admite ter havido corrupção em atividades da Petrobras, mas, de outro, nega-se a agir alegando a inexistência de provas. Fica pior a emenda do que o soneto.

MAIS NOMES NO SÁBADO?
A semana vem sendo cercada por rumores de que a revista Veja, no sábado, completará a lista de políticos envolvidos no escândalo da Petrobras, divulgada dias atrás. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar como vazaram dos depoimentos de Paulo Roberto Costa os nomes já conhecidos, mas se nova leva de supostos implicados vier a público, a tarefa ficará mais difícil. No caso, lembra-se a história daquele imperador na Antiga Pérsia que quando recebia más notícia, mandava matar o mensageiro. Não é a publicação paulista que precisa ser investigada, senão suas denúncias.

Trampolins para Dilma

Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Marina Silva empurrou Aécio Neves para o terceiro lugar, fora do segundo turno, e Aécio faz tudo para derrubar Marina. Na prática, os dois armam um trampolim para a reeleição de Dilma Rousseff e a eternização do aparelhamento do Estado pelo PT. A oposição, desunida, certamente será vencida.

Marina, claro, não tinha alternativa depois da morte de Eduardo Campos. Era concorrer ou concorrer. Arrastou os quase 20% de votos de 2010, agregou a comoção nacional com o acidente e se beneficiou da forte rejeição tanto ao PT quanto a Dilma. Mas, ao entrar, pode ter apenas garantido a vitória de Dilma.

Aécio também ficou sem alternativa diante da novidade. Era bater ou bater em Marina. Com isso, ele tenta conter a sangria e dar ao PSDB um mínimo de capacidade de negociação no segundo turno, sem ter de aderir de graça a Marina. Mas o efeito favorece diretamente Dilma.

A questão de Aécio também é de calibragem --o quanto bater para garantir um patamar minimamente seguro de votos sem inviabilizar um acordo do PSDB com o PSB no segundo turno e num eventual governo Marina. A derrota já no primeiro turno será arrasadora para o PSDB, mas o partido tem quadros reconhecidos e eles podem se tornar indispensáveis para Marina governar.

Marina parou de crescer, mas mantém boas condições de ganhar. A situação de Aécio é que continua não sendo nada animadora. Ele está numa posição que candidato nenhum deseja: já que vai perder, tentar perder o mais honrosamente possível.

Do outro lado, a campanha de Dilma usa seu imenso tempo de TV para massificar mentiras e mistificações. Os bancos nunca lucraram tanto quanto com Lula e Dilma. Acusar Marina de aliada de banqueiros por causa da educadora Neca Setúbal é indigno. Tanto como compará-la a Jânio e Collor. Depois de anos desconstruindo o legado tucano, o PT tenta destruir a imagem de Marina, ex-companheira de tantos anos.

Disputa acirrada

Merval Pereira
O Globo 

Após ataques, candidatura de Marina mostra consistência. Depois de passar os últimos dias sob bombardeio permanente não apenas da presidente Dilma, mas também do candidato do PSDB Aécio Neves, a candidata do PSB Marina Silva mostrou a consistência de sua candidatura. Ao manter estabilizada sua situação na disputa, mesmo com um viés de alta para a presidente, Marina demonstra que continua sendo a opção dos que pretendem tirar o PT do governo.

Já a presidente Dilma deve intensificar a agressividade de sua propaganda, que tem demonstrado capacidade de pelo menos frear a subida de Marina, obrigando-a a um esforço redobrado para se manter competitiva até a chegada do segundo turno.

A má notícia para a presidente Dilma é que os desdobramentos do escândalo da Petrobras prometem marcar esses últimos dias da campanha, cujas contradições internas no PT podem abrir espaço para a recuperação de Marina.

Até mesmo a questão da independência do Banco Central, que tem dado motivos de críticas acirradas do governo, fica fragilizada com as notícias de que o próprio ex-presidente Lula está trabalhando para que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles seja anunciado como o responsável pela política econômica do governo Dilma em caso de reeleição.

Meirelles é o exemplo típico do banqueiro internacional que o PT trouxe para o governo Lula, tirando-o do PSDB, partido pelo qual havia sido eleito deputado federal, para dar credibilidade à política econômica petista. Como acusar a adversária Marina de querer dar poder a banqueiros quando um ex-presidente do Bank Boston é a figura central da mudança econômica que ela pretenderia anunciar para tranquilizar os investidores? E como ser contrário à autonomia do Banco Central se Meirelles foi intocável durante os dois governos Lula, gozando de uma autonomia que irritava os setores mais radicais do petismo?

O candidato do PSDB, Aécio Neves, por mais que se mostre preparado para o cargo e tenha projetos de longo prazo para o país que fazem sentido e, mais que isso, são necessários, perdeu a capacidade de encarnar a indignação da maioria dos eleitores, que encontraram em Marina Silva essa representante.

Aécio tem sido instado por seus aliados a arrefecer os ataques a Marina, para permitir a organização de uma aliança para o segundo turno. A declaração de ontem, depois da sabatina do GLOBO, de que se não ganhar a eleição o PSDB irá para a oposição, certamente não é consensual no partido e nem entre seus aliados da oposição.

Ele tem razões para estar amargurado, pois a entrada em cena de Marina colocou emoção na disputa, o que retirou do primeiro plano a análise da real capacidade de governar dos que estão na disputa. O candidato do PSDB contava com a máquina partidária para se impor ao adversário Eduardo Campos, mas a entrada de Marina misturou as pedras no tabuleiro político, deslocando Aécio para a terceira colocação mesmo nos estados em que o PSDB ou seus aliados estão vencendo as eleições para os governos estaduais.

Em São Paulo, Marina está em primeiro lugar, embora o governador Geraldo Alckmin tenha condições de vencer no primeiro turno. A composição com o PSB local, que deu o vice na chapa de Alckmin, está se mostrando mais eficaz para Marina do que a máquina partidária do PSDB favorável a Aécio.

O caso mais emblemático é o de Minas, em que o PSDB perde no momento o governo estadual e Aécio disputa o terceiro lugar com Marina Silva. Ele está certo de que manterá seu território político intacto, mas terá que gastar mais energia do que imaginava, enquanto no resto do país a polarização entre a presidente Dilma e a candidata Marina Silva se impõe.

Aristocracia à brasileira?

Gaudêncio Torquato
O Estado de São Paulo.

Governar com os melhores quadros. Na floresta política dominada pelas árvores dos ismos - patrimonialismo, mandonismo, caciquismo, nepotismo, grupismo, fisiologismo - e devastada pelo fogo da corrupção que consome parcela das nossas riquezas, a ideia de convocar uma casta de notáveis para o desafiante empreendimento de governar o País até parece medida simpática. Poucos haverão de levantar a voz contra tão eloquente demonstração de civismo. Pressupõe-se que os "melhores" a serem chamados para as tarefas governativas integrarão uma plêiade de sábios, cultores da moral e da ética, experientes, espelhos de uma vida regrada de bons exemplos. Onde estariam esses luminares? Em partidos políticos, nas organizações sociais, no universo produtivo, enfim, nos mais diferentes ambientes da vida nacional. Esse é um compromisso de Marina Silva, caso seja vitoriosa no pleito de outubro.

Seria viável reunir um núcleo de dirigentes com essa diferenciada qualificação sem afetar as instituições nacionais e manter o equilíbrio do triângulo do poder, que, convenhamos, tem sido submetido nos últimos tempos a tantas tensões? Uma reflexão se faz necessária. Primeiro, vale reconhecer que não se pode acusá-la de fazer promessa eleitoreira, com interesse em tirar proveito da tese que a insere numa posição apartidária independente, sob a aplaudida intenção de procurar os melhores e tomar distância dos piores. Ao recorrer à ideia com frequência, reforça a impressão de sinceridade. A ex-seringueira acriana chega a denominar perfis, jogando uns no fogo do inferno (os identificados com a velha política) e glorificando outros com hosanas celestiais (os aparentados com a nova política).

Um "governo dos melhores", como se sabe, constitui uma das três formas clássicas de governar, sendo a primeira, a aristocracia, a que confere o poder às mãos dos áristoi, os melhores; as outras formas são a monarquia (monos, único, e arché, comando) e a democracia (kratos e demos, poder do povo). Esses tipos puros conduzem, na visão do filósofo Políbio, que se inspirou na República, de Platão, e na Política, de Aristóteles, a três tipos corrompidos - tirania, oligarquia e demagogia -, sistemas que têm povoado a História ao longo dos tempos. No caso brasileiro, não é novidade a pletora de oligarcas que fincam pé nos vãos da República desde sua origem.

Ao se comprometer a governar com os melhores, Marina mostra a intenção de resgatar as virtudes da sabedoria, da integridade e do conhecimento, inerentes ao original termo aristocracia na República ideal desenhada por Platão. Ora, pinçar quadros perfeitos, sábios, possuidores da verdade, íntegros, dentro de uma cultura política permeada por mazelas históricas parece missão impossível. Afinal, as (poucas) figuras denominadas, caso aceitem a missão oferecida por uma mandatária-mor com intenção de recriar uma "aristocracia brasileira" (não se entenda isso de maneira pejorativa), seriam aprovadas pelos partidos que as abrigam?

Imaginemos a engenharia administrativa. Marina pede as planilhas e escolhe: três representantes de um partido, quatro de outro, dois de um terceiro, e assim por diante. Seleciona "os melhores". As siglas aceitariam a convocação unilateral de alguns feita pelo Palácio do Planalto? Pouco provável. Mais uma observação: a tríade do poder, arquitetada pelo barão de Montesquieu, está em plena vigência por estas plagas. A estabilidade de um regime requer que a correlação das forças sociais possa expressar-se nas instituições políticas. Os escolhidos pelo povo - não necessariamente os "melhores quadros" - são também legítimos representantes da sociedade e qualquer arranjo institucional voltado para a governabilidade há de considerar sua condição. Noutros termos, as chamadas bancadas do "baixo clero" também representam (e como) o povo. Qualquer iniciativa no sentido de forçar uma facção política (os qualificados) a prevalecer sobre as demais será antidemocrática. Há de se considerar, para efeito de garantia de governabilidade, o princípio de correlação de forças. Sem tal premissa a estabilidade de governos vai para o brejo.

Já se disse que os 513 deputados federais retratam fielmente a cara esburacada do País. Escolher os bem-compostos, os fluentes, os preparados, enfim, os mais qualificados para compor as estruturas governativas até pode constituir disposição do Poder Executivo. Porém tal iniciativa, mesmo carregando bom senso, haverá de ganhar endosso de partidos e, caso os escolhidos integrem entidades de intermediação social, delas devem receber o passaporte para compor a moldura administrativa. Vale lembrar que a harmonia alcançada pelos governos resulta da aplicação de certas capacidades, dentre elas, a extrativa, que abriga a extração de recursos necessários ao seu funcionamento, aqui entendidos não apenas os meios econômicos e financeiros, mas os suportes e apoios políticos (não só dos melhores). Desvios nessa vertente produzem tensões.

Por último é oportuno levantar o véu que cobre nossa cultura política. Nela se verão manchas de toda ordem: costumes do passado; desvios gerados pelo declínio dos mecanismos da política (partidos sem doutrina), infidelidade partidária, invasão da coisa pública pelo interesse privado, distorções no sistema de votação (vota-se num candidato e se elege outro), distorção na representação (o voto em alguns Estados vale mais que em outros), cooptação imoral de eleitores, Parlamento refém do Executivo, presidencialismo de índole imperial, etc. Portanto, o compromisso central de um governante deve contemplar a reforma do sistema político e sua remodelação implicará necessariamente mudanças no modelo de administração pública, dentro da qual se implantará a meritocracia.

Eis o cerne da questão posta pela candidata Marina Silva quando invoca a pretensão de "governar com os melhores".

Um homem de sorte

Bernardo Mello Franco
Folha de São Paulo

SÃO PAULO - Lobão nada explica. A manchete poderia ser publicada hoje, mas saiu no "Jornal do Brasil" em 9 de janeiro de 1994. Edison Lobão, governador do Maranhão pelo PFL, era suspeito de participar da máfia dos anões do orçamento. O delator do esquema contou que ele frequentava a casa de João Alves, que se dizia um homem de sorte e atribuía sua fortuna a vitórias seguidas na loteria. A CPI perguntou o que Lobão tinha a dizer sobre as acusações. Ele tentou ser rude, mas foi sincero: "Não há o que explicar".

Duas décadas se passaram. João Alves morreu, o PFL morreu, o "JB" morreu, mas Lobão continua. Aos 77 anos, é ministro de Minas e Energia do governo Dilma Rousseff, indicado pelo ex-presidente José Sarney. Demonstra pouco conhecimento da área, apesar de estar no cargo desde 2008. Em maio, disse que "com a graça de Deus" não haveria racionamento. Nem o ateu mais militante ousaria misturar o nome dEle com a gestão do maranhense.

Na semana passada, um novo delator, Paulo Roberto Costa, começou a entregar os beneficiários do esquema que saqueava os cofres da Petrobras. Além dos suspeitos de sempre do Congresso, citou um único ministro como destinatário de propina. Ganha uma passagem de ida para São Luís, com conexão de ônibus até o município de Governador Edison Lobão, quem adivinhar quem é.

Mais uma vez, Lobão nada explica. A lista dos delatados veio à tona no sábado, em reportagem da revista "Veja". No domingo, o ministro faltou ao desfile do Sete de Setembro. Na segunda-feira, saiu de férias. Questionada por repórteres, a presidente se saiu com a seguinte resposta: "Ele não sabe nem do que está sendo acusado, a revista não diz. Vocês sabem?".

No início do mandato, Dilma afastava ministros suspeitos de corrupção. Neste final melancólico, recorre a ironias de gosto duvidoso para protegê-los. Lobão não ganhou na loteria como João Alves, mas também pode ser considerado um homem de sorte.

A hipocrisia dos ataques de Dilma

Ricardo Setti
Veja online

Ao demonizar Marina por querer a independência do Banco Central, campanha de Dilma é hipócrita e desleal. Sabem por quê? Porque ninguém menos do que LULA cogitou de adotar a mesma coisa!

(Fotos: Agência Brasil) 

O fogo intenso que a candidata Dilma (PT) vem fazendo recair sobre Marina Silva (PSB), a quem acusou grosseiramente de ser “sustentada por banqueiros”, tem como um dos pontos principais o ataque à ideia da ex-senadora de promover a independência, por lei, do Banco Central, de forma a assegurar que suas decisões sobre controle da inflação e defesa da moeda não estejam submetidas a conveniências políticas.

Dilma não passa duas horas sem falar no assunto, como fez ontem, dirigindo-se a jornalistas:

– Minha filha, meu filho, esse povo da autonomia do Banco Central quer é o modelo anterior. Quer é fazer um baita ajuste (…), aumentar os juros pra danar, reduzir emprego e reduzir salário, porque emprego e salário não garantem a produtividade, segundo eles. Eu sou contra isso, eu tenho lado.

Dilma só pode ser contra um BC independente, uma vez que seu governo notoriamente lançou mão de mais pressão sobre o Banco Central para “segurar” os juros do que fez o próprio Lula, durante oito anos de lulalato (2003-2011) — que conferiu credibilidade à política econômica de seu governo que a sucessora está longe de alcançar.

O problema está na imensa hipocrisia contida nos ataques de Dilma a Marina. Pois fui justamente seu ainda hoje ministro da Fazenda, Guido Mantega, quem, como principal assessor para assuntos econômicos do então candidato Lula, viu-se durante a campanha presidencial de 2002 incumbido de estudar in loco, na Europa, como funcionam os bancos centrais que, por lei, gozam de independência, sejam de que partido forem os respectivos governos. ISSO FOI FEITO POR ENCOMENDA DE LULA.

Repito: POR ENCOMENDA DE LULA.

(Foto: exame.abril.com.br) 
A sede do Banco Central, em Brasília: 
autonomia diante de interferências políticas daria credibilidade à política econômica
 — e Lula, ninguém menos, chegou a cogitar de conceder independência à instituição 

Na ocasião, como muitos se lembrarão, o PT queria afastar de si a imagem de terror dos mercados, de partido que daria calote na dívida externa se chegasse ao poder e, em seu processo de agradar ao poder econômico, Lula chegou a cogitar de ir além da autonomia de que o BC dispunha na prática sob o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso — aventando, assim, a ideia de uma instituição independente e profissional, mas com essas características asseguradas em lei.

Dirceu — imaginem vocês!!!! — chegou a fazer um anúncio a respeito
O PT estava na fase de consolidar o “Lulinha paz e amor”, que começou com a “Carta aos Brasileiros” na qual Lula procurava acalmar os mercados e evitar uma débacle da economia.

A uma certa altura da campanha, o então deputado José Dirceu (SP) – futuro chefe da Casa Civil de Lula e, posteriormente, a partir das revelações surgidas em 2005, o chefe da quadrilha responsável pelo escândalo do mensalão — chegou a prever que o Banco Central gozaria de “plena autonomia” durante o governo Lula, em anúncio que o candidato faria mais adiante.

Depois da notícia apregoada por Dirceu, contudo, pouco se falou no assunto. E, na verdade, o tal anúncio jamais ocorreu. Lula, no entanto, durante seus oito anos no Planalto, teve um histórico muito positivo de não interferência no trabalho do presidente que indicou para o Banco Central, Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do BankBoston. Sua atitude se manteve com Mantega como ministro da Fazenda.

(Foto: Agência Brasil)
Mantega, já ministro, com Henrique Meirelles, presidente do BC
 durante o governo Lula: autonomia, na prática, foi respeitada 

De todo modo, muita gente boa, no PT daquela época, namorou com a ideia, avançadíssima e ousada para um governo “de esquerda”, embora tecnicamente muito desejável e adotada mundo afora, de blindar o BC de qualquer influência política. Leiam a história a seguir.

A ideia era ir além do que foi o governo de FHC
Independência do Banco Central, ou plena autonomia operacional significa, entre outras coisas, que o governo, começando pelo presidente da República, fixaria as metas de inflação, e a partir daí o BC e sua diretoria, que constituem o Comitê de Política Monetária (Copom), disporiam expressa e formalmente de liberdade para perseguir esses objetivos sem interferência do Poder Executivo.

Vejam bem: quem fixaria a meta seria o governo eleito. O GOVERNO. O BC adotaria as medidas técnicas que considerasse necessárias para chegar a essa meta.

Além disso, o presidente e os diretores do BC passariam a ser detentores de mandatos fixos e “cruzados” – ou seja, cuja duração não coincidiria com a do mandato do presidente da República.

Mecanismos institucionais seriam previstos para que, em casos extremos de não-cumprimento de metas e outros especificados em lei, o presidente pudesse destituir o presidente e/ou diretores do BC — mas só nesses casos, especificados em LEI.

O passo do PT seria tanto mais ousado por ir além do que fizeram o próprio governo FHC e seus quadros liberais: a gestão FHC conferiu virtual autonomia operacional ao BC, na prática, mas não ousou transformar isso em lei. Até porque, na ocasião, para que lei nesse sentido pudesse ser aprovada, era necessário, antes, desatar o complicado nó do artigo 192 da Constituição, que previa uma única lei complementar para regulamentar dezenas de aspectos do sistema financeiro.

O nó seria desatado pelo Congresso com emenda à Constituição proposta ainda na gestão de FHC mas só aprovada em maio de 2003, com o apoio do PT, que permitiu o desmembramento da regulamentação do artigo.

(Foto: thisismoney.co.uk) 
A sede do Banco da Inglaterra, o BC do Reino Unido: 
Mantega visitou-o para se informar ainda como assessor do então candidato Lula 

A ideia de blindar legalmente o BC começou em agosto de 2002, em Londres, uma das escalas – a outra foi Frankfurt, capital financeira da Alemanha – da viagem em que o então principal assessor econômico de Lula, professor Guido Mantega, que é desde 2005 ministro da Fazenda, reuniu-se com diversos investidores europeus, em agenda organizada pelo Deutsche Bank.

Em Londres, Mantega manteve longas reuniões com diretores do Bank of England, o BC do Reino Unido, para entender seu funcionamento. Fez extensas anotações e trouxe vasto material na bagagem. O Bank of England ganhou plena autonomia operacional logo após a primeira vitória eleitoral do primeiro-ministro trabalhista Tony Blair, em 1997, e os resultados de seu trabalho a partir de então são considerados excelentes.

Em Frankfurt, sede tanto do Bundesbank, o BC alemão, como do Banco Central Europeu, igualmente recolheu informações.

De volta, Mantega relatou o que viu e ouviu a Lula.

Também levou as informações às reuniões periódicas que Dirceu e o coordenador do programa de Lula, o então prefeito Antônio Palocci, de Ribeirão Preto (SP), mais tarde o primeiro ministro da Fazenda do governo petista, mantinham com o grupo de economistas que colaborava com o programa econômico do PT: Luciano Coutinho (hoje presidente do BNDES), João Sayad, ex-ministro do Planejamento e à época secretário de Finanças da prefeita Marta Suplicy em São Paulo, o então professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luiz Gonzaga Belluzzo e o ainda professor da mesma universidade Ricardo Carneiro e o atual chefe da Casa Civil de Dilma, Aloizio Mercadante, à época em campanha para o Senado.

O governo Lula não interferiu no BC

(Foto: Michael Probst/AP)
Banco Central Europeu

O plano com que o PT namorou, e que acabou não sendo levado à frente, guardava as linhas gerais aqui descritas. Na época, eu colaborava com a televisão do portal Terra e, nesta condição, entrevistei Mantega, com colegas ou sozinho, 3 ou 4 vezes durante a campanha, além de conversar informalmente com o hoje ministro. Ele me confirmou todos esses dados, fora dos microfones e câmeras.

Os envolvidos na discussão preferiram a autonomia operacional ao conceito de plena independência, que existe tanto no Federal Reserve Board (Fed), o BC dos Estados Unidos, e BCs como o Europeu — que é absolutamente independente dos 19 países que adotam o euro como moeda –, o Bundesbank, o Banco do Canadá e o do Japão, legalmente aptos a combater a inflação sem qualquer interferência do governo.

Embora a autonomia não migrasse para a lei, o governo Lula, na prática, e acertadamente, não interferiu no trabalho do o ex-tucano Henrique Meirelles e seus diretores. Não se pode dizer o mesmo de Dilma.

E agora a presidente finge que nada disso existiu, que seu próprio mentor, Lula, não cogitou da medida pela qual ela demoniza Marina — num show de hipocrisia e demagogia que não a enaltece.