segunda-feira, setembro 15, 2014

Lama na faixa presidencial

Adelson Elias Vasconcellos



Aécio Neves, em viagem à Minas Gerais, disse uma coisa que, não apenas faz sentido, mas incorpora a realidade da própria campanha eleitoral além de todos os acontecimentos desastrosos  ocorridos no governo da senhora Dilma, não só com as políticas públicas mas, especialmente, no campo ético. 

Afirmou o senador tucano que “... Dilma não tem condições morais para pleitear segundo turno...”. Aécio até que foi consciencioso porque, a grande verdade, é que Dilma não condição moral nenhuma de ocupar nem a presidência da república. Seus atos, suas palavras, suas mentiras, sua empulhação, seu governo medíocre, sua ação política com baixarias e golpes sujos e imorais, enlamearam a faixa presidencial. 

Fosse esse um país sério, com instituições republicanas sérias, com um Judiciário menos covarde e omisso, um Legislativo digno do papel que a Constituição lhe reserva e não transformado numa casa mercantil e um antro de corruptos – com honrosas mas raríssimas exceções -, com um povo menos ignorante, analfabeto e mais consciente de sua responsabilidade cívica, e muito certamente, Dilma sequer teria concorrido em 2010, e muito menos o Brasil correria o risco de ter de suportar sua desqualificação completa por mais quatro anos. 

O terrorismo e as baixarias de sua campanha representam o que há de mais deplorável no campo da política. Ela entende que caluniar e difamar adversários, ou espalhar o ódio e o medo é fazer política. Não é. Somente se aceita este tipo de “política” que a senhora Dilma e seu partido propõem  em regimes fascistas.  Acima, classifiquei o Judiciário de covarde e omisso.  Com efeito, agisse com o espírito constitucional que lhe é reservado, e a candidatura de Dilma Rousseff já teria sido impugnada há muito tempo. O uso descarado de recursos e máquina pública é um crime imperdoável. Houve eleições recentes em que o TSE impugnou candidatos eleitos por conta de R$ 24,00. Imagine-se por qual razão não determina o mesmo critério para uma candidata que, ainda ocupando  a presidência, desvia bilhões de reais  dos cofres públicos para reeleger-se com o emprego vergonhoso da máquina que, é bom lembrar, pertencem ao Estado e não a um partido político... Todo o seu ministério de inúteis e vagabundos está empenhado em fazer-lhe campanha. E isto está estampado nos jornais diariamente. Até que o silêncio da Justiça Eleitoral nem chega a surpreender, já que muitos ali estão por  nomeação dos governos petistas e, de algum modo, precisam retribuir o agrado. 

Se não bastasse a campanha de pura baixaria, o PT não satisfeito,  aliou-se ao IBOPE para aplicar o golpe da pesquisa a favor, conforme denunciado em textos da Tribuna da Internet em posts mais abaixo. Portanto, quem está em alta, conforme o DATAFOLHA é Marina, Dilma está em baixa. A pesquisa é mais recente e abrange um universo de mais de 10.000 entrevistados. 

Na edição deste final de semana, as três maiores revistas semanais, portanto de correntes editoriais diversas, trazem matérias bem elucidativas do abismo em que o país está sendo mergulhado pelo partido do crime organizado no poder. 

Numa, temos a chantagem que o PT vem sendo alvo e que tem pago a peso de ouro para que o senhor Lula da Silva não seja arrolado na podridão que salta da gestão criminosa a que a Petrobrás vem sendo submetida. Noutra, declarações bastante interessantes ligando o mensalão ao escândalo da Petrobrás. Na terceira reportagem, se revela mais quatro “autoridades”   beneficiária das propinas saídas do cofre da maior estatal do País. 

Em nenhuma destas reportagens, em nenhum destes escândalos se vê a mão de governos anteriores a 2003. São esquemas de fraudes, propinas e corrupção ativa e passiva, além, claro, da formação de quadrilha que o bondoso STF, no caso do mensalão, resolveu fazer vistas grossas, todas paridas no núcleo petista de governo em conluio criminoso com a tal base aliada. 

Se PC Farias foi um escândalo bombástico e o mensalão converteu-se no maior esquema de corrupção da história do país, no caso da Petrobrás o tamanho do lamaçal atinge não apenas proporções históricas, mas dimensões continentais. Afinal, a Petrobrás, muito embora controlada - aliás, mal controlada – pelo governo, tem ações em bolsa e participação de acionistas privados.  Não é de hoje que sempre se cobrou que se abrisse a caixa preta escondida nas entranhas da Petrobrás. Agora, na medida que as investigações e delações vão se tornando públicas, é possível perceber o desespero de Lula para que a tal base aliada, comandada pelo PT, impedisse a qualquer custo o avanço de qualquer investigação pelo Congresso. 

Mas o cheiro de podridão ainda vem de outras fontes que o tempo haverá de revelar. Há os Fundos de Pensão, as doações para as ONG’s picaretas, a participação do sindicalismo nas entranhas do poder,  os tais “cartões corporativos” mantidos sob sigilo cujos gastos não param de aumentar, além é claro, das negociatas via emendas parlamentares e as tais superfaturadas obras do PAC, em todas suas versões. Tudo neste governo cheira mal.  E o país precisa dar-se conta de que, renovar mais um mandato para Dilma, é apostar que esta podridão prossiga depauperando o país e seu povo. 

Nesta semana cheguei até a achar que esta campanha porca do PT, fosse por orientação determinada partido, não imaginando que o marqueteiro João Santana chegasse a grau mais alto que um cafajeste é capaz de chegar. Mas me enganei. Se de um lado, as orientações para as produções deploráveis que o país tem assistido são dadas pelo partido, a capacidade de criação é toda responsabilidade do marqueteiro que, sem um pingo de decência na alma, obriga o país assistir cenas de pura imoralidade. Deve estar sendo muito bem pago e o PT, que sempre gostou deste tipo de campanha imunda, deve, como cliente, estar bem satisfeito. 

Pelo menos nos resta um consolo: a de que, demore o que demorar, a verdade acaba prevalecendo. No caso dos governos petistas, o lamaçal vai sendo descoberto, pouco a pouco infelizmente,   mas de forma inexorável. Já disse muitas vezes que o destino de Lula está selado. Não serão os grandes escândalos que farão o país,  que ele comanda com uma máfia altamente destrutiva, descobrir sua verdadeira face. Será um pequeno,  sem chamar muito atenção no princípio, mas suficiente para puxar todos os fios desta meada pavorosa.    

Assim, quem quer que seja eleito,  para o dia da posse precisará confeccionar uma nova faixa presidencial. A que Dilma carrega no corpo apodreceu de vez.    

Dinheiro falso

J.R. Guzzo
Revista  VEJA

Eis onde veio parar o governo Dilma  nestes momentos decisivos da campanha. Muito pouco do que está dizendo faz nexo – resultado da contrafação dos fatos.

Governos que mentem para o público o tempo todo acabam mais cedo ou mais tarde mentindo para si mesmos e, pior ainda, acreditando nas mentiras que dizem; o resultado é que sempre chegam a uma situação em que não sabem mais fazer a diferença entre o que é verdadeiro e o que é falso. Eis aí onde veio parar o governo da presidente Dilma Rousseff nestes momentos decisivos da campanha eleitoral. Muito pouco do que está dizendo faz nexo – resultado inevitável do hábito, desenvolvido já há doze anos, de navegar com o piloto automático cravado na contrafação dos fatos e na falsificação das realidades.

Entre atender à sua consciência e atender a seus interesses, o governo jogou todas as fichas na segunda alternativa, ao se convencer de que seria muito mais proveitoso tapear o maior número possível de brasileiros com a invenção de virtudes do que ganhar seu apoio com a demonstração de resultados. Não compensa: para que fazer toda essa força se dá para comprar admiração, cartaz e votos com dinheiro falso? Foi o que concluíram, lá atrás, os atuais donos do país. Agora, como viciados em substâncias tóxicas, vivem na dependência da embromação; está muito tarde para mudar, e a única opção é continuar mentindo até o dia das eleições. Sua esperança é que a maioria dos eleitores, como acontece com frequência, ache mais fácil acreditar do que compreender.

Para se ter uma ideia de onde foram amarrar nosso burro: o estado-maior da campanha de Dilma considerou que sua vitória mais importante no primeiro debate entre os candidatos foi ter escapado “de todas as perguntas difíceis”. É triste. Quando a verdade é substituída pelo silêncio, ensina o poeta Ievgeni Ievtushenko, o silêncio torna-se uma mentira – talvez seja, aliás, sua modalidade mais eficiente. A partir daí, vale tudo, e por conta disso os brasileiros têm ouvido as coisas mais extraordinárias por parte do governo.

Os candidatos da oposição, sobretudo Aécio Neves, foram publicamente acusados, por exemplo, de já terem decidido fazer uma recessão econômica se forem eleitos; no mesmo momento, comicamente, saíram os resultados da economia nos primeiros seis meses de 2014, mostrando que o Brasil andou para trás nos dois primeiros trimestres do ano. Ou seja: a recessão que os adversários iriam provocar no futuro já está sendo praticada pelo governo Dilma no presente. Na média dos seus quatro anos, por sinal, será o pior desempenho econômico do Brasil desde o presidente Floriano Peixoto.

Diante dos canais de concreto em ruínas na obra de transposição do Rio São Francisco, que, segundo as mais solenes promessas do ex-presidente Lula, estaria pronta em 2010, depois em 2012 e hoje é um mistério em termos de prazo, Dilma disse em sua propaganda eleitoral que a culpa do atraso é da “curva do aprendizado” – ou seja, pelo que dá para entender, ainda não aprendemos a fazer direito esse tipo de coisa. Ainda? O Canal de Suez está pronto desde 1869, o do Panamá desde 1914; será que já não deu tempo de aprender?

A Ferrovia Norte-Sul, que vem sendo construída pelos governos Lu¬la-Dilma desde 2005, e que foi inaugurada mais uma vez em maio, continua fechada ao tráfego de trens, por falta de equipamentos – para piorar, ladrões vêm roubando os trilhos. São os únicos, além das empreiteiras, para quem a ferrovia tem tido alguma utilidade. O programa de formação de mão de obra técnica, descrito como “o maior do mundo”, formou até agora mais de 100 000 recepcionistas e manicures – o triplo do número de mecânicos. Em suma: já nem é mais um caso de mau governo. É anarquia.

Um dos diretores mais influentes da Petrobras durante o governo do PT, tão graduado que assumiu 24 vezes a presidência da empresa em substituição aos titulares, está na cadeia desde março, entalado em espetaculares denúncias de corrupção; foi figura-chave na tenebrosa compra da refinaria americana de Pasadena e está no centro da investigação sobre as negociatas na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, um pesadelo cujo custo final pode passar dos 20 bilhões de dólares. Indagada a respeito, Dilma nada respondeu. Preferiu dizer que o grande problema da empresa foi a sugestão, feita no governo Fernando Henrique, de trocar o nome da Petrobras para “Petrobrax” – apenas uma ideia tola, de vida curtíssima e sem importância nenhuma. E a economia parada? “Eu criei 5,5 milhões de empregos”, diz a candidata. Como assim – “eu criei”?

Uma mentira começa com o ato de fazer o que é falso parecer verdadeiro. Acaba deste jeito: em alucinação.

A recessão como produto da incompetência

Rolf Kuntz 
O Estado de S. Paulo

A indústria continua em marcha lenta e o emprego nas fábricas encolhe: cerca de 75 mil postos com carteira assinada foram cortados nos 12 meses terminados em agosto, de acordo com o Ministério do Trabalho. Mas a candidata Dilma Rousseff acusa seus principais competidores de planejar uma recessão. Será o resultado, segundo ela, das políticas de ajuste prometidas pela representante do PSB, Marina Silva, e pelo candidato do PSDB, Aécio Neves. Os dois têm prometido, de fato, combater a inflação mais seriamente do que têm feito as autoridades nos últimos anos e pôr em ordem as contas públicas. Pode-se discutir se essas políticas serão necessariamente recessivas.

Essa discussão vai além da competência demonstrada até hoje pela presidente Dilma Rousseff e pelos principais componentes de sua equipe econômica. Sua façanha mais notável, até agora, foi uma rara mistura de economia estagnada com inflação muito acima dos padrões internacionais. Os números do primeiro semestre valem um campeonato. A alta de preços em 12 meses ficou sempre perto de 6,5%, limite de tolerância, enquanto a produção encalhou e o País afundou na recessão.

Com alguma sorte, uma revisão dos dados do segundo trimestre poderá mostrar um resultado pouco menos lamentável que a contração de 0,6%. Mas só com muito despudor - ou quase nenhuma percepção dos fatos - alguém poderá festejar essa notícia. Com ou sem revisão, o filme de 2014 continuará muito ruim, um fecho perfeito para quatro anos de erros devastadores.

Conclusão provisória: dificilmente alguém poderá rivalizar com a presidente Dilma Rousseff na produção de um desastre econômico. Pode-se atribuir alguma responsabilidade à sua equipe e até ao ministro da Fazenda, mas a política econômica foi obviamente comandada no Palácio do Planalto. Nem o Banco Central (BC) escapou desse comando. O erro cometido em agosto de 2011, com a prematura redução dos juros e o afrouxamento do combate à inflação, mostrou já no primeiro ano a subordinação da autoridade monetária à Presidência da República.

Naquele momento, os diretores do BC tentaram justificar sua decisão com uma dupla aposta - na acomodação dos preços internacionais das commodities e na gestão austera das finanças públicas. O erro, evidente já naquele momento, em pouco tempo foi comprovado. A administração do Orçamento ficou longe de qualquer ensaio de austeridade e o balanço passou a depender cada vez mais da contabilidade criativa. Ainda assim, o BC só se mexeu e voltou a elevar os juros, em 2013, quando a inflação disparava e a sua reputação estava em queda acelerada.

O afrouxamento da política monetária somou-se aos desmandos fiscais e à política de crescimento centrada no estímulo ao consumo. Resultado: a inflação anual continua na vizinhança de 6%, apesar do represamento de preços dos combustíveis e da energia elétrica e também de tarifas de transporte urbano. A deflação dos preços das matérias-primas terminou. A partir de agosto a maior parte dos índices voltou a ganhar impulso.

A mistura de inflação com estagnação da indústria dá um caráter especial ao governo da presidente Dilma Rousseff. Muitos países têm entrado em recessão por causa de condições internacionais adversas. Isso ocorreu ao Brasil e a muitas outras economias no fim de 2008, quando se agravou a crise financeira crise nos países mais desenvolvidos. Depois desse impacto, muitos emergentes voltaram a crescer e a exportar com sucesso. Alguns países do mundo rico também tiveram desempenho bem melhor a partir de 2010.

Países têm sido levados à recessão também por outro caminho, quando seus governos decidem apertar as políticas monetária e fiscal para corrigir desajustes. Decisões desse tipo geralmente ocorrem quando se misturam problemas internos, como inflação acelerada e contas públicas deficitárias, com grandes desequilíbrios no balanço de pagamentos. Quando as políticas são bem planejadas e conduzidas com firmeza e seriedade, os desarranjos são controlados em pouco tempo e as condições de crescimento logo são restabelecidas, com inflação derrubada e fundamentos mais sólidos.

A história da atual estagnação brasileira é muito diferente. Do lado externo, as condições são muito melhores do que foram entre 2008 e 2010 ou 2011. Outros países voltaram a crescer depois de superado o impacto inicial. Do lado interno, a norma tem sido a tolerância à inflação, como se a meta anual fosse qualquer ponto entre 4,5% e 6,5%. Nenhum esforço duradouro e sério foi realizado para equilibrar os preços. A política fiscal foi dominada pela gastança, pela concessão mal planejada de incentivos tributários e pela promiscuidade entre o Tesouro e os bancos federais. Só ao Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) o Tesouro passou uns R$ 400 bilhões desde 2009. Sem impacto externo e sem aperto interno para combate à inflação e a outros desajustes, a recessão brasileira só é explicável como resultado de uma incompetência governamental de proporções olímpicas.

Mas empregos, insiste a presidente, continuam sendo criados. Sim, mas empregos de baixa produtividade, em serviços e na administração pública. Nos 12 meses até agosto foram criados 698.475 postos formais. Na área de serviços foram abertos 549.568 (78,68% do total), enquanto na indústria de transformação foram fechados 74.994. É evidente a redução da qualidade do emprego numa economia baseada muito mais no estímulo ao consumo do que no incentivo à produção, ao investimento e ao ganho de eficiência, Nessa estranha comédia de erros e de terror, a recessão é só um episódio, mas é um dos mais incomuns. Há vários caminhos para a recessão e o Brasil chegou lá pelo pior, o da inépcia, da mentira e do populismo.

Os socialistas na Oscar Freire

Elio Gaspari 
O Globo

A elite dos Jardins, o socialismo e a campanha de Marina Silva

Luis Fernando Verissimo criou grandes personagens como o Analista de Bagé e a Velhinha de Taubaté, aquela que acreditava em tudo o que o governo dizia. A velhinha morreu e o analista sumiu, mas resta Dora Avante, fundadora do movimento Socialites Socialistas. Se Dorinha tivesse aparecido na reunião de Walter Feldman e Bazileu Margarido, o coordenador-geral e o tesoureiro da campanha de Marina Silva, com a Associação de Lojistas dos Jardins (SP) teria visto que pode estar próximo o dia em que a humanidade chegará ao coletivismo de grife. As repórteres Marina Dias e Ligia Mesquita estiveram lá e contaram o que viram.

Marina, como se sabe, disputa a Presidência da República pelo Partido Socialista Brasileiro, e na Associação dos Lojistas dos Jardins estão pessoas que trabalham com a vanguarda do socialismo de consumo. Ela inclui as vitrines da gloriosa Rua Oscar Freire, sacrário das grande etiquetas. A presidente da entidade vestia uma camiseta bordada com a bandeira brasileira e abriu a sessão pedindo a todos que cantassem o Hino Nacional. Feldman contou o que seria a sua “democracia de alta intensidade”. Caíra mal na plateia a proposta de criação de “conselhos de participação da sociedade”. Ele explicou que a ideia nada tem a ver com os “conselhos populares” de Dilma Rousseff:

“Vejo que vocês estão nervosos com isso. Temos que tomar cuidado para não remeter aos sovietes”.
Uma das senhoras foi ao ponto: “O que me assusta em ter uma participação popular ativa é que a maioria às vezes é burra”. Noves fora o fato de que se busca exatamente a formação de uma maioria para levar Marina ao Planalto, restou outra questão. Se o Partido Socialista Brasileiro é socialista, uma senhora tinha motivo para expor sua preocupação: “Isso é comunismo”. Feldman explicou que Marina está apenas abrigada no partido e que o socialismo do PSB é um compromisso programático de 1947, ano de sua fundação.

Dora Avante, a Dorinha, acredita que surgiu o embrião para a vitória do seu movimento na busca da forma mais avançada de socialismo, o czarismo.

EIKE EM LONDRES
Eike Batista negocia em Londres a venda da ultima joia de sua coroa, a mina de ouro que tem na Colômbia. Pode valer US$ 800 milhões, e já se habilitaram a esse ervanário os bancos Itaú e Bradesco, além do poderoso grupo Mubadala, de Abu Dhabi.

Enquanto isso, a Caixa Econômica continua à cata das garantias do empréstimo de R$ 4 bilhões do Fundo de Marinha Mercante que fez ao estaleiro OSX. Elas eram compostas por ações da empresa (que viraram pó), pelo empreendimento (um terreno no porto do Açu), pelo aval do empresário e por uma apresentação em PowerPoint.

Sobrou o PowerPoint.

CASO ESQUECIDO
No que se refere à campanha eleitoral, a doutora Dilma explica tudo, menos o que aconteceu com sua promessa e de Fernando Haddad, então ministro da Educação, de realizar dois exames do Enem a cada ano.

A promessa foi renegada pelo comissário Aloizio Mercadante quando passou pelo ministério e pelo atual presidente do Inep, Chico Soares. Esse exame substitui o vestibular, no qual a garotada é obrigada a jogar um ano de suas vidas num só exame (nos Estados Unidos, numa prova semelhante, as oportunidades são sete a cada ano).

O comissariado gosta de cobrar de Marina o que ela disse e não diz mais. Bem que poderia cobrar de si o que prometeu durante o governo, reiterou e não faz.

LULA NA POSSE
Pelo andar da carruagem, no dia 1º de janeiro Lula estará na posse da nova presidente do Brasil, dizendo-se satisfeito com a posse da amiga.

OLHO DE GENEBRA
O Ministério Público brasileiro está de palavra passada com seu similar suíço na investigação das trilhas financeiras de Paulo Roberto Costa e de seu parceiro Alberto Youssef.

Cuidam para que essa investigação transcorra sem dar oportunidade às travas colocadas no Brasil para atrasar em anos o trabalho que desvendou uma parte do esquema tucano com o cartel da Alstom.

ROOSEVELTS
Está chegando às lojas americanas mais uma feitiçaria do grande diretor de documentários Ken Burns. É “Os Roosevelts”. São sete episódios cruzando as vidas de três personagens que marcaram como ninguém os Estados Unidos do século XX. O primeiro, Theodore, governou de 1901 a 1909. O segundo, Franklin, de 1933 a 1945. A terceira, Eleanor, era sobrinha de um e casou-se com o outro.

Burns já fez uma série sobre a Guerra Civil americana que revolucionou a arte dos documentários históricos. Aristocratas abatidos por dramas pessoais, os Roosevelts deram a volta por cima, bateram de frente com a plutocracia americana e reformaram o país. Teddy perdeu a mãe e a mulher no mesmo dia, na mesma casa. Por pouco não morreu numa expedição à Amazônia. Franklin ficou paralítico aos 39 anos, pegou um país quebrado em 1933, reformou sua economia, venceu a Segunda Guerra e transformou-o numa potência que jamais voltou a ser.

Se Deus é brasileiro, um dia “Os Roosevelts” vai ao ar em Pindorama. Alguns capítulos da série da Guerra Civil estão no YouTube, em português.

DEIXEM O PAULINHO FALAR EM PAZ
A colaboração do petrocomissário Paulo Roberto Costa com a Viúva tornou-se o pesadelo de maganos e grandes empresas metidas em seus negócios e nos do doleiro Alberto Youssef.

Mais que depressa, parlamentares querem que ele vá depor na CPI Mista da Petrobras. Logo numa CPI, instituição transformada em lavanderia de escândalos. O que se busca não é seu depoimento, pois esse está sendo colhido sigilosamente pelo Ministério Público, com vídeo e áudio. Esse serviço só terminará quando os procuradores concluírem as oitivas. Não há por que fatiá-lo. O que se quer é tumultuar as investigações, e nisso entram toda sorte de interesses.

Para ilustrar a manobra, vai aqui uma fábula:

Às oito da manhã de 24 de agosto de 1954, um advogado chegou a uma pensão da Rua do Catete. Fora chamado por um cliente que matara a mulher a facadas e saíra no corredor, ensanguentado, empunhando a arma do crime. Pouco havia a fazer, mas um rádio anunciou: “O presidente Getulio Vargas suicidou-se com um tiro no coração”.

O advogado vira-se para o delegado e diz: “Doutor, esses dois acontecimentos estão relacionados, peço-lhe que leve em conta esse fato na sua investigação”.

Juntando-se as duas coisas, poderiam aparecer novas versões, novas testemunhas e novos tumultos.
Nos últimos anos, o Congresso já montou duas CPIs para cuidar da Petrobras. Deram em nada, isso para não se falar da teatral e inútil CPI do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Penso, logo hesito.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Jaques Wagner, candidato petista ao Governo baiano em 2006, estava arriscado a não ir ao segundo turno: de acordo com as pesquisas, perdia por 48 a 31. Ganhou no primeiro turno. O presidente americano Harry Truman, em 1948, perdia longe nas pesquisas para seu adversário Thomas Dewey, governador de Nova York. Ganhou - e festejou a reeleição com uma foto clássica, mostrando a manchete do Chicago Daily Tribune, Dewey derrota Truman. Em 1985, Fernando Henrique estava tão vitorioso nas eleições de São Paulo que até posou para fotos sentado na cadeira de prefeito. Perdeu para Jânio Quadros, que tinha vencido eleições pela última vez havia 25 anos. Até as garrafas de vinho Chateau Petrus de sua adega sabiam que Paulo Maluf se elegeria prefeito de São Paulo em 1988, seguido, diziam as pesquisas, pelo peemedebista João Leiva, ficando em terceiro, bem perto do segundo, a petista Luiza Erundina. Erundina ganhou.

Mas o mundo não é só política. Nos anos 50, a Ford Motor Company decidiu retomar a posição de maior indústria automobilística do mundo, que tinha perdido para a GM uns 30 anos antes. Fez uma pesquisa caríssima, cobrindo todo o mercado americano; e nela teve tal confiança que o carro que daí resultou recebeu o nome de Edsel, o filho único - e falecido - de Henry Ford. Foi um dos maiores fracassos da história da empresa americana.

E daí? Daí, nada. Pesquisas também registram longo histórico de acertos. Mas é bom lembrar que, se pesquisa nunca errasse, nem precisaria haver eleições.

Questão de data
A última pesquisa, do Ibope, mostrou leve crescimento de Dilma e leve queda de Marina, comparadas à pesquisa anterior, do Datafolha. Ou não, como diria Caetano: a pesquisa Ibope foi divulgada por último, no dia 12, mas com base em entrevistas obtidas entre os dias 5 e 8. A pesquisa Datafolha foi divulgada antes, com base em entrevistas obtidas nos dias 8 e 9. É, portanto, mais recente. 

Se for para comparar pesquisas de institutos diferentes (o que não é correto), Dilma caiu um pouquinho, Marina subiu um pouquinho, mas mantendo trajetória de alta.

Leia Drummond, Aécio! 
Para o tucano Aécio Neves, tanto faz a ordem de leitura das pesquisas: o resultado é sempre ruim. Ele acha que vai virar o jogo; acredita que não é possível que perca a eleição até mesmo em sua base, Minas Gerais. Aécio deveria parafrasear o grande Carlos Drummond de Andrade, como ele um mineiro que gostava muito mais do Rio: 
Minas é apenas um retrato na parede. 

Mas como doi!

Vergonha 1
Caro leitor, sempre que lhe contarem algo feio demais para ser verdade, acredite: deve ser verdade. Juízes e desembargadores do Rio reivindicam um extrinha para ajudá-los a pagar a educação de filhos e dependentes entre 8 e 24 anos. Sabe aquilo que você paga ou paga? Pois é: quem mandou não escolher um serviço em que possa transferir a conta? 

O extrinha pode ir a R$ 7.250,00 por mês.

Vergonha 2
Enquanto as tropas do sultão turco Maomé 2º se aproximavam, a elite do Império Bizantino discutia, em Constantinopla, quantos anjos poderiam dançar na ponta de uma agulha; discutia-se também qual o sexo dos anjos. Hoje, no Brasil, há gente que deveria pensar em política e prefere discutir dogmas de fé - afinal, se Deus criou o mundo em sete dias ou se o Universo nasceu numa grande explosão, há uns 13 bilhões de anos, em que isso afeta a situação de quem não aguenta mais o aumento diário de preços? 

Enquanto a elite política brasileira discute Adão, Eva e Darwin, ocorre em São Paulo o Encontro Nacional Evoliano, entre os dias 10 e 12: em palavras mais simples, uma reunião internacional nazista, homofóbica e racista. "Evoliano" é referente a Julius Evola, falecido líder neofascista; entre os participantes estão Alain Soral e Aleksandr Dugin, inspiradores das leis discriminatórias contra homossexuais vigentes na Rússia. 

De acordo com o delegado federal aposentado Marcelo Itagiba, vários participantes não poderiam, conforme a lei brasileira, ter recebido autorização de entrada no país.

O mundo gira..
Já se proclamou o fim da dinastia Sarney quando, em 2006, Jackson Lago derrotou Roseana Sarney e ganhou o Governo do Maranhão. Mas deram um jeito de tirá-lo e botar Roseana em seu lugar, e Sarney continuou mandando. Tudo indica, entretanto, que a era do poder político da família está se encerrando. Roseana, a primeira filha, também não se candidatou a nenhum cargo. E não há no clã Sarney nenhum outro herdeiro capaz de conquistar o Maranhão ou o Amapá.

Só para rir: Sarney tinha fama de vanguarda, apoiado por Glauber Rocha.

...mas nem sempre
Já se proclamou o fim da dinastia de Antônio Carlos Magalhães quando seu filho Luiz Eduardo morreu e ele foi obrigado a renunciar ao Senado, para não ser cassado. Pouco mais tarde, seus candidatos ao Governo e ao Senado foram derrotados; e, não muito depois, morreu. Mas ACM Neto, o herdeiro político da dinastia, prefeito de Salvador, já detém uma boa fatia do poder baiano. Seu candidato, Paulo Souto, é favorito para o Governo; e ele é uma estrela em ascensão.

carlos@brickmann.com.br 
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A razão contra a baixaria e a apelação

O Estado de S. Paulo 
Editorial

A inacreditável baixaria e a apelação na qual o desespero de Dilma Rousseff e a empáfia de Marina Silva transformaram a campanha eleitoral em sua fase decisiva tiveram um contraponto na atuação de Aécio Neves, terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto, em sua participação, no último dia 10, na rodada de entrevistas com os presidenciáveis realizada pelo jornal O Globo. No momento em que o PT apela para o que sabe fazer melhor - atacar e iludir - e Marina recorre ao bom-mocismo e à manipulação de obviedades para seduzir um eleitorado ávido por mudanças, o candidato do PSDB introduziu um sopro de racionalidade no debate eleitoral.

O que se pode esperar daqui para a frente da campanha petista é a desfaçatez crescente de Dilma Rousseff diante do mar de lama que envolve seu governo, como ela demonstrou sem o menor constrangimento na entrevista ao Estado publicada no dia 9, ao responder sobre o mais recente escândalo na Petrobrás: "Se houve alguma coisa, e tudo indica que houve, eu posso garantir que todas, vamos dizer assim, as sangrias que eventualmente pudessem existir estão estancadas". "Sangrias", aliás, sobre as quais a ex-ministra de Minas e Energia e chefe do governo "não tinha a menor ideia".

Marina Silva, por sua vez, tem falado muito sobre a "nova política" que se propõe a levar ao Planalto e pouco sobre como e o que fará para transportá-la do plano das boas intenções para a realidade dura de um ambiente político que a prática dos últimos 12 anos levou a limites extremos de degradação. E fala pouco sobre os 24 anos em que, sob as asas do guru Lula, militou nas falanges petistas que, com denodo e método, se dedicaram a desmoralizar as instituições democráticas do País.

Surpreendido, como todo o Brasil, pela reviravolta provocada na campanha eleitoral com a morte trágica de Eduardo Campos, Aécio Neves, cuja candidatura até então parecia presença certa contra Dilma Rousseff no segundo turno, defronta-se agora com a necessidade de, em circunstâncias mais desfavoráveis do que até então, demonstrar que é a melhor opção para um eleitorado claramente ávido por mudanças.

Sem considerar a questão estritamente política, que é essencial, mas pouco compreendida em toda sua complexidade - ou simplesmente rejeitada pela maior parte do eleitorado -, o fator decisivo numa eleição presidencial é certamente a economia, traduzida em seus efeitos sobre o cotidiano dos cidadãos. Para reduzir a questão a sua expressão mais simples, quando a economia vai mal a produção cai, os empregos mínguam, a carestia aumenta e a insatisfação geral se instala. É exatamente o que acontece hoje no País, depois de quatro anos de incompetente e desastrado governo.

Diante desse desastre que nem a indispensável existência de programas sociais como o Bolsa Família consegue mais dissimular, está claro que o Brasil precisa, mais uma vez, de uma competente ação governamental de estabilização e desenvolvimento econômico, a exemplo do que ocorreu 20 anos atrás, quando a inflação anual atingia incríveis quatro dígitos e o então ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, comandou uma equipe de economistas que criou e implantou o Plano Real, a partir de três fundamentos básicos: metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário.

Esse é, claramente, um desafio para o qual Dilma Rousseff, até por formação ideológica, não tem a menor disposição - nem o PT dispõe de quadros habilitados - para enfrentar. Marina Silva, por sua vez, tampouco conseguiu demonstrar até agora genuína disposição, e disponibilidade do necessário apoio de quadros técnicos, para a difícil tarefa de recuperar a economia brasileira.


Além do comprometimento histórico dos tucanos com a estabilidade e o desenvolvimento econômico do País, Aécio Neves pode contar com a credibilidade de quadros técnicos comprovadamente competentes. E essa foi a ênfase de sua participação na entrevista ao jornal carioca, ao repudiar a baixaria e a apelação emocional na campanha: "Tenho feito um esforço maior e vou fazê-lo até o último dia desta eleição. Acredito que, no momento da decisão, vai prevalecer a onda da razão".

Herança indigesta na energia

Raul Velloso 
O Estado de S. Paulo

Dilma mudou o modelo do setor elétrico em vários aspectos, enquanto tornava o dedo do Estado cada vez mais presente

Um bom desempenho das concessões de serviços públicos e, de maneira geral, das Parcerias Público-Privadas (PPPs) é a única saída para conciliar objetivos como os de crescer o PIB a taxas mais elevadas e manter intacto o modelo oficial, que favorece o crescimento do consumo da população sob o empuxo dos gastos públicos correntes. Só que o governo tem posto a busca das menores tarifas imagináveis à frente de tudo, tentando obrigar o setor privado a investir a taxas de retorno não competitivas, como se ele fosse um mero braço do Estado. As chances de essa combinação funcionar são, obviamente, remotas.

Quanto à infraestrutura de transportes, alguma coisa de positivo aconteceu em aeroportos e rodovias, mas no resto continuamos na estaca zero. Na verdade, mesmo em rodovias, área em que se progrediu bastante na era FHC, o desempenho é ainda muito precário. Dia 26 saiu uma matéria neste jornal mostrando que a primeira leva de concessões da era Lula-Dilma, que data de 2007, continua bem emperrada. Concorrentes oportunistas aceitaram arrematar as concessões com pedágios mínimos, contando com compensações à frente. Não há apagão como em energia elétrica, mas o custo do grande atraso nessa área se irradia pela economia, reduzindo a produtividade e impondo custos pesados à população.

Aliás, a grande bomba que vai cair no colo do próximo mandato é o atual desastre do setor elétrico, em que Dilma mais uma vez tentou fazer coisas inconciliáveis. Deu o comando para evitar um novo racionamento de energia a qualquer custo e, ao mesmo tempo, mandou praticar a mesma e famigerada modicidade tarifária excessiva. O primeiro exigiria forte expansão da oferta, a fim de criar uma folga sobre a demanda. Já o segundo, como já dito, é o grande afugentador do setor privado, e, pois, atua no sentido oposto – o de inibir a oferta. Como as estatais da área não têm recursos e são ineficientes, seu acionamento seria inócuo.

Dilma mudou o modelo do setor elétrico em vários aspectos, enquanto tornava o dedo do Estado cada vez mais presente. De um texto novíssimo, que vai além do livro sobre o mesmo tema no meu blog (www.raulvelloso.com.br) e que pode também ser ali baixado, destaco os seguintes pontos.

Por mais que o governo tente esconder, há uma grave crise de escassez de oferta, como se vê pelo baixo nível dos reservatórios, próximo ao mínimo observado nos últimos 13 anos. E isso está assim mesmo após o governo ter mandado acionar todas as térmicas “por disponibilidade”, a plena carga desde outubro de 2012, que, de tão caras, só deveriam estar operando em 4% do período, e a despeito do fraco crescimento da demanda, diante do “PIBinho”.

O governo diz que a culpa é da hidrologia ruim. Até agosto, de fato, as chuvas se situaram em 81% da média histórica. Mas em 2013 haviam sido normais, situando-se em 97% dessa média, e, ainda assim, os reservatórios encerraram o ano com apenas 43% da sua capacidade, o terceiro menor valor dos últimos 15 anos.

Há falhas nos modelos oficiais de previsão, já detectadas por consultores da área, e muitos atrasos e/ou cancelamento de obras no últimos anos, que não podem ser atribuídos a causas fortuitas. Na verdade, é uma decorrência da política governamental de tentar impor modicidade tarifária a qualquer custo e de comportamentos oportunistas de concessionárias que aceitaram preços baixos à custa de não entregar a oferta energética adicional requerida, incluindo estatais.

Escapamos, por enquanto, do racionamento, mas o acionamento das térmicas deixa uma conta gigantesca, hoje ao redor de R$ 50 bilhões, que, embora escondida, está aí. Diferentemente do custo do atraso em transportes, aqui a conta “vem na lata”. E, ao fim, será assumida por consumidores e/ou contribuintes, pois o grande responsável por ela é o governo, que faz quase tudo nesse setor. Só que, com dificuldades financeiras e para fugir do inevitável desgaste, este vai empurrando o problema para a frente, enquanto, erroneamente, muitos atribuem a culpa às empresas privadas…

Dilma e o Banco Central

Rogério Furquim Werneck 
O Globo

Discurso da presidente da República mostra que o prazo de validade da mágica conversão do PT venceu

Marina Silva defende a independência formal do Banco Central. Já Aécio Neves acha que não é preciso ir tão longe. Que a simples restauração da independência de facto, assegurada ao Banco Central nos governos FH e Lula, já seria um grande avanço em relação à situação atual. E Dilma Rousseff? O que tem a dizer sobre essa questão?

A posição de Dilma foi explicitada no programa eleitoral do PT da noite de sábado, 6 de setembro: “Em suas propostas, Marina chega a dar passos mais atrás do que os tucanos. Defende a autonomia legal do Banco Central ...”, criticou Dilma.

A argumentação que supostamente daria respaldo a tal crítica foi deixada a cargo de dois jovens, que se alternavam, em jogral: “Tornar o Banco Central independente é tirar do presidente da República e do Congresso, eleitos pelo povo, as decisões sobre a política econômica do país, para entregá-las aos bancos. Ou seja, os banqueiros e seus técnicos passam a decidir sobre juros, preços, salários, câmbio, política externa e orçamento.”

No programa do PT de terça-feira, dia 9, a questão voltou a ser abordada. Depois de ter dedicado mais da metade do tempo ao inarredável compromisso de Dilma com o combate à corrupção, o programa tentou relacionar a proposta de Banco Central independente à corrupção. “O que mais dói na corrupção é saber que o dinheiro público que deveria ser usado para o bem de todos vai para o bolso de alguns poucos aproveitadores. Mas também devemos estar atentos a outras formas mais sutis de desvio da riqueza da nação para o bolso de uns poucos privilegiados. É o que acontece com certas decisões econômicas erradas. Por exemplo, dar autonomia jurídica ao Banco Central é privilegiar o interesse de poucos em prejuízo dos que mais precisam.”

Para perceber quão estapafúrdios são tais argumentos, o leitor deve ter em mente que países tão respeitáveis como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Nova Zelândia, Austrália, Coreia do Sul, Israel e Chile asseguram todos autonomia legal aos seus bancos centrais. E que o Banco Central Europeu também opera nessas mesmas bases.

Passaria pela cabeça de qualquer pessoa razoável que o eleitorado desses países poderia ter concordado com a concessão de autonomia legal do Banco Central, se isso significasse “entregar aos bancos” as decisões sobre “juros, câmbio, salários, política externa e orçamento”?

É inacreditável que, numa discussão tão importante como a que envolve o grau de autonomia que deve ser atribuído ao Banco Central, a presidente Dilma se tenha permitido subscrever argumento de tão baixo nível. Brandindo essa empulhação eleitoreira na televisão, a candidata pode até soar convincente entre eleitores menos informados, mas queima de vez qualquer possibilidade de ser levada a sério em questões relacionadas à condução da política econômica.

Se quisesse, Dilma poderia recorrer a argumentos perfeitamente razoáveis contra a independência formal do Banco Central e a favor de uma independência de facto, tácita, como a que foi concedida à instituição nos governos de seus dois predecessores. Mas tudo indica que a presidente já não tem qualquer preocupação com sequer manter as aparências na discussão dos rumos da política econômica. Em desesperada tentativa de se reeleger, rasgou completamente a fantasia. Já não vê qualquer problema em recorrer a uma argumentação tão despropositada, primitiva e populista como essa no horário nobre da propaganda eleitoral.

Não há como alimentar ilusões. O que se configura, de forma cada vez mais clara, é uma lamentável involução. Há 12 anos, na campanha presidencial de 2002, o país não pôde conter seu assombro quando, em súbita e espetacular metamorfose, o PT se desfez de seu velho discurso econômico e se dispôs a adotar uma política macroeconômica sensata, na linha que sempre criticara. Tudo indica que, com Dilma, o prazo de validade dessa mágica conversão do PT venceu. O filme está sendo rodado ao contrário. A borboleta está voltando ao casulo. E o PT, ao seu velho discurso. Só não vê quem não quer.

Ilusões eleitorais

Suely Caldas
O Estado de São Paulo

Lula e dona Marisa enviaram carinhosa mensagem de condolências à família do banqueiro espanhol Emilio Botín, dono do Santander, pela passagem de sua morte, na quarta-feira. Se a mensagem tivesse partido de Marina Silva ou de Aécio Neves, eles não escapariam de ser apresentados como representantes do capital financeiro internacional no programa eleitoral da candidata do PT. É triste, mas é este o nível desta campanha eleitoral. Para ganhar eleição vale tudo. Vale enganar a população distorcendo o significado da independência do Banco Central (BC) e vale até demitir publicamente o ministro mais importante do governo, desautorizando suas ações nos próximos meses de mandato.

A presidente Dilma Rousseff odeia quando questionam sua competência como economista, mas nesta eleição ela escolheu rasgar seu diploma ao corroborar com a propaganda enganosa em seu programa de TV. O comercial de 30 segundos afirma que independência do BC significa "entregar aos banqueiros o poder de decisão sobre sua vida e sua família, decisões sobre juros que você paga, seu emprego, preços e até salário". Nada mais disparatado e absurdo. Por que será que o ex-presidente Lula deu garantias ao ex-presidente do BC Henrique Meirelles de que ele teria total autonomia para tomar decisões durante seu mandato? Foram os banqueiros que governaram o País nos oito anos de Lula? Foram eles os responsáveis por demissões e reajustes de salário dos trabalhadores?

É, no mínimo, primário e inconsistente um economista ignorar que todos os países onde a autonomia do banco central virou lei hoje a valorizam como um bem público, importante avanço institucional para proteger a população contra influências e demandas políticas, que sempre se traduzem em liberação de verba, emissão de dinheiro e aumento da inflação. A história do Brasil está repleta de exemplos.

Nas gestões Sarney e Collor, era comum governadores endividados correrem à Brasília e arrancar do presidente amigo permissão para contrair mais dívidas, com a devida autorização do Banco Central. Quase sempre para gastar em campanhas eleitorais. Os bancos estaduais financiavam a farra dos políticos e a fiscalização do BC fazia vista grossa, não agia por temer retaliação e demissão de diretores. A partir de FHC, o BC passou a atuar sem interferência política e com autonomia, respeitada por ele e por Lula, mas sem o respaldo de uma lei específica, agora proposta pela candidata Marina Silva.

No mundo inteiro a missão central do BC é "assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda", como está escrito em destaque no site do BC brasileiro. A inflação é um imposto desumano, que empobrece os pobres e enriquece os ricos. Nos anos 80, de hiperinflação, os banqueiros ganharam muito com rendosas aplicações financeiras e quem nem conta bancária tinha via seu dinheirinho ser devorado pela inflação.

Afirmar que a autonomia do BC dá poderes aos banqueiros até para governar o País é inverter valores, enganar, tirar proveito da ingenuidade de quem desconhece o assunto.

Já demitir o ministro Guido Mantega em público, além de deselegante, não vai produzir efeito algum. Desta vez Dilma não fala com desavisados, mas com o mercado financeiro e investidores muito bem avisados e informados. E todos eles sabem que a verdadeira autora da fracassada política econômica dos últimos quatro anos é ela. Partiu dela a ideia de escolher empresas campeãs para receber dinheiro do BNDES, o que só resultou em dívidas transferidas ao banco, que delas virou sócio sem desejar. Também o fiasco da nova matriz econômica, que produziu juros altos, mais inflação e recessão; o represamento das tarifas de combustível, que desarticulou a Petrobrás, e de energia elétrica, que desorganizou e endividou as empresas do setor; a maquiagem fiscal, que agravou a falta de confiança de investidores; e, ainda, o PIB medíocre e a menor taxa de investimento da história são resultados de uma política econômica que tem na presidente a responsável maior.

Ela precisa, agora, dizer o que vai mudar nessa política, se for reeleita.

A República está à venda

Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr
Zero Hora

 O que fica é a certeza de que a política está cada vez mais transformada em um caso de polícia

A partir de informações reveladas por importante semanário nacional, o Brasil, mais uma vez, fica perplexo diante da desfaçatez política. Sem cortinas, as notícias publicadas indicam a existência de complexa organização criminosa que, desviando recursos da Petrobras, alimentava uma multifacetada rede de corrupção, formada por políticos diversos e partidos plurais; segundo o informado, além de concatenações no Executivo, o crime chegaria ao coração do Legislativo, envolvendo supostamente a presidência de ambas as casas parlamentares. Não faço juízo de valor nem digo que sim ou não; apenas registro o fato noticiado.

É claro, no entanto, que a simples possibilidade do fato já é de fazer corar um frade de pedra. Afinal, admitir, mesmo que hipoteticamente, a eventual existência de subterrânea rede de esgoto político, no núcleo central do poder republicano, com vista a irrigar o produto criminoso de uma ética desviada de personalidades transviadas da ética, bem expõe o elevado grau de necrose das instituições políticas brasileiras. Pelo visto, o famigerado “mensalão” foi um simples café pequeno, pois, desta vez, o esquema rompe as cifras dos milhões para atingir um patamar bilionário. 

Enfim, a ganância de nossos corruptos parece ilimitada; pensam que tudo podem, mesmo que o tudo seja um absoluto nada moral.

Sabidamente, a vida ensina que aquilo que atenta contra a natureza das coisas uma hora desmorona sobre suas pífias estruturas. Sim, a corrupção é poderosa, mas todo poder corrupto é fútil. E a futilidade, por maior que seja o brilho da superfície, é frágil em sua substância. Assim, quando menos se esperava, através do instituto da delação premiada, uma das peças centrais do esquema criminoso falou, jogando luzes sobre as sombras do delito potencial.

Naturalmente, as informações reveladas serão investigadas pelas autoridades competentes. Até aqui, o que fica é a certeza de que a política está cada vez mais transformada em um caso de polícia. O crime está subjugando a República para vender a democracia brasileira. Aliás, quanto será que custa a cadeira do Planalto?

Neocomunismo com Pai Nosso ou sem Pai Nosso?

Percival Puggina 

Atribui-se ao jornalista Cândido Norberto a frase segundo a qual, em política, pode acontecer tudo, inclusive nada. Por exemplo: pode explodir um avião sobre o cenário eleitoral; pode acontecer algo enigmático, tipo vir à superfície mais um escândalo e o governo melhorar sua posição. E também pode acontecer nada, pelo simples motivo de que parcela imensa da população, em flagrante desânimo, joga a toalha no ringue. As pesquisas desta semana indicam que nação está agendando um encontro de boi com matadouro. E vai abanando o rabo na direção de um entre dois neocomunismos: o sem Pai Nosso de Dilma ou o com Pai Nosso de Marina.

É possível que o leitor destas linhas pense que estou paranóico. Não, meu caro. Pergunto-lhe: você leu o documento final do 20º Encontro do Foro de São Paulo (aquela organização que a grande mídia nacional diz que, se existe, não fede nem cheira?). Quem lê o referido documento não só fica sabendo que o bicho existe, mas que é poderoso e bate no peito mostrando poder. O texto exalta o fato de que, em 1990, no grupo de partidos alinhados sob essa grife, apenas o PC Cubano governava um Estado nacional. Hoje, estão sob manto do FSP, entre outros, Brasil, Uruguai, Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Venezuela, El Salvador e Nicarágua. Se observar bem, verá que a lista contém a nata dos comunismos e socialismos bolivariano, cocaleiro, maconheiro, bananeiro e por aí vai. E se escrutinar caso a caso vai encontrar dirigindo esses países, em seus vários escalões, aos cachos, ex-guerrilheiros comunistas que, em momento algum, extravasaram arrependimento ou deserção das antigas fileiras. Uma parceria e tanto, essa que o Brasil integra na condição de grande benemérito e tendo o PT como sócio fundador.

O Foro de São Paulo, como bem mostra Olavo de Carvalho, é a chave de leitura para o que acontece, não apenas na política nacional, mas nas nossas universidades, na nossa economia, nos negócios externos e na tal geopolítica "multipolar" que nada mais é do que um passo adiantado na direção de um projeto de hegemonia e totalitarismo sobre a região. E é para lá que vamos se, confirmando-se o dito com que abri este texto, já aconteceu tudo e nada mais há para acontecer.

Se olharmos pela janela, veremos que a economia brasileira está parando. A cartola de sortilégios do ministro Mantega está tão vazia quanto os cérebros que nos governam. O que houve? Nada que não possa ser explicado pela sujeição nacional a um governo com estratégias erradas. A Venezuela já não está com polícia nos supermercados? Não se contam cinco décadas de escassez e filas em Cuba? A outrora próspera Argentina, não se encontra em plena decadência?

As parcerias do FSP adotam exitosas técnicas de sedução eleitoral. Mas exercem o poder de modo desastroso. E Marina vem na mesma toada. Ela nasceu para a política como líder comunista. Revoltada com a vida e com o mundo, como costumam ser os líderes comunistas. Marina não entendia o motivo pelo qual abrir trilha na floresta e riscar casca de seringueira não transformava o cidadão acreano num próspero suíço. Saiu da floresta, estudou, ganhou mundo, quer presidir o Brasil. Mas se não esconjurar as ideias que tinha quando ministra, ela é um apagão eminente.

Dilma ensina: é errando que se aprende. A errar!

Josias de Souza

Em entrevista veiculada pela Rede TV!, Dilma Rousseff sinalizou que, sob sua presidência, o governo jamais se acomodará. Entre o certo e o errado, haverá sempre espaço para mais erros. Na Petrobras, por exemplo, a extensão do equívoco será ilimitada.


PAULO ROBERTO COSTA, O DELATOR 

A Petrobras, como se sabe, convive com o absurdo. Preso, um ex-diretor conta às autoridades como saqueou as arcas da companhia para saciar as pulsões patrimonialistas de políticos governistas. Contra esse pano de fundo, perguntou-se a Dilma se extinguirá o modelo das nomeações políticas.

E ela: no meu governo, escolhi dentre os que eu considerava os melhores quadros da Petrobras. Vou continuar fazendo assim. Foi o que o presidente Lula fez. Vou continuar mantendo esse critério de escolher dentre os melhores. Esse é o melhor critério.

Quem assistiu foi tomado de assalto (ops!) pela impressão de que, sob o PT, o absurdo adquiriu uma doce, persuasiva, admirável naturalidade. A menos de quatro meses de fechar a conta do seu primeiro mandato, Dilma se espanta cada vez menos. Tornou-se uma administradora de pouquíssimos espantos.

Dilma referiu-se a Paulo Roberto Costa, o ex-executivo da Petrobras que virou delator, como um competente funcionário de carreira. Lembrou-se a ela que o executivo-delator tinha virado diretor de Abastecimento da Petrobras por indicação política. Sustentavam-no PT, PMDB e PP.

A senhora acha adequado? Em vez de responder com um ‘sim’ ou ‘não’, a Dilma preferiu praticar o esporte preferido do PT: tiro ao FHC. Paulo Roberto foi alto funcionário do governo Fernando Henrique, disse ela. Se não me engano, foi diretor da Gaspetro e gerente de exploração e prospecção de petróleo da região Sul. Dilma concluiu: os melhores quadros da Petrobras transitam de governo para governo.

A entrevistada não explicou se Paulinho, como Lula chamava o ex-executivo preso, já trazia o selo partidário da gestão FHC. Para ela, o apadrinhamento é normal. Se os aliados indicarem para a Petrobras uma ratazana, Dilma não fará a concessão de uma surpresa. É ratazana? Pois que seja ratazana! Se for uma ratazana de carreira, aí mesmo é que a nomeação sai. Se for uma alta ratazana da gestão FHC, as chances quintuplicam.

Entende-se agora por que Dilma mantém na Petrobras personagens como o ex-senador Sérgio Machado. Foi alojado no comando da subsidiária Transpetro em 2003, no alvorecer do primeiro reinado de Lula. Indicou-o, decerto movido por alguma inspiração patriótica, o notório senador Renan Calheiros.

Em dezembro, Sérgio Machado completará 12 anos de Petrobras. De duas, uma: ou o afilhado de Renan é um executivo genial ou Dilma, a exemplo do que fizera Lula, suprimiu dos seus hábitos o ponto de exclamação.

Amanhã, se der algum novo rolo, Dilma repetirá o que diz agora sobre Paulo Roberto Costa, o Paulinho: eu não sabia. O que nos espantou a todos foi que um desses quadros competentes da Petrobras cometeu esses delitos, ela acrescentou.

Sem querer, Dilma revoluciona o brocardo. Se o seu governo ensina alguma coisa é o seguinte: é errando que se aprende… A errar!

O PT sob chantagem

Robson Bonin
Revista VEJA

Para evitar que o partido e suas principais lideranças sejam arrastados ao epicentro do escândalo da Petrobras às vésperas da eleição, a legenda comprou o silêncio de um grupo de criminosos — e pagou em dólar

(Montagem com fotos de Ailton de Freitas-Ag. O Globo/Joel Rodrigues-Folhapress/Rodolfo Buhrer-Estadão Conteúdo/Jeferson Coppola/VEJA) 
O PODER E O CRIME - 
Enivaldo Quadrado (à direita), o chantagista, é pago pelo PT para manter em segredo
 o golpe que resultou no desvio de 6 milhões de reais da Petrobras, em outro caso de chantagem 
que envolve o ministro Gilberto Carvalho, o mensaleiro José Dirceu e o ex-presidente Lula 

Desde que estourou o escândalo da Petrobras, o PT é vítima de uma chantagem. De posse de um documento e informações que comprovam a participação dos principais líderes petistas num desfalque milionário nos cofres da estatal, chantagistas procuraram a direção do PT e ameaçaram contar o que sabiam sobre o golpe caso não fossem devidamente remunerados. 

Às vésperas da corrida presidencial, essas revelações levariam nomes importantes do partido para o epicentro do escândalo, entre eles o ex-presidente Lula e o ministro Gilberto Carvalho, um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff, e ressuscitariam velhos fantasmas do mensalão. No cenário menos otimista, os segredos dos criminosos, se revelados, prenunciariam uma tragédia eleitoral. Tudo o que o PT quer evitar. Dirigentes do partido avaliaram os riscos e decidiram que o melhor era ceder aos chantagistas — e assim foi feito, com uma pilha de dólares.

O PT conhece como poucos o que o dinheiro sujo é capaz de comprar. Com ele, subornou parlamentares no primeiro mandato de Lula e, quando descoberto o mensalão, tentou comprar o silêncio do operador do esquema, Marcos Valério. Ao pressentir a sua condenação à prisão, o próprio Valério deu mais detalhes dessa relação de fidelidade entre o partido e os recursos surrupiados dos contribuintes. 

Em depoimento ao Ministério Público, ele afirmou que o PT usou a Petrobras para levantar 6 milhões de reais e pagar um empresário que ameaçava envolver Lula, Gilberto Carvalho e o mensaleiro preso José Dirceu na teia criminosa que resultou no assassinato, em 2001, do petista Celso Daniel, então prefeito de Santo André. A denúncia de Valério não prosperou. Faltavam provas a ela. Não faltam mais. Os dólares serviram para silenciar o chantagista Enivaldo Quadrado, ele próprio participante da engenharia financeira do golpe contra os cofres da maior estatal brasileira — e agora o personagem principal de mais uma trama que envolve poder e dinheiro.

Quadrado deu um ultimato ao tesoureiro do PT, João Vacari Neto: ou era devidamente remunerado ou daria à polícia os detalhes de documento apreendido no escritório do doleiro Alberto Youssef. O documento era um contrato de empréstimo entre a 2 S Participações, de Marcos Valério, e a Expresso Nova Santo André, de Ronan Maria Pinto. 

O valor desse contrato é de 6 milhões de reais, exatamente a quantia que Valério dissera ao MP que o PT levantara na Petrobras para abafar o escândalo em Santo André. É esse o contrato que prova a denúncia de Valério. É esse o contrato que, em posse de Quadrado, permitia ao chantagista deitar e rolar sobre os petistas.

Um depoimento exclusivo revela o elo entre os escândalos do mensalão e da Petrobras

Hudson Correa e  Raphael Gomide
Revista ÉPOCA

Empresário conta à polícia como o ex-deputado José Janene, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef levaram para a estatal parte do esquema do Mensalão

Os dois períodos de Lula na Presidência foram marcados por crescimento econômico, disseminação de programas sociais – e também por dois grandes escândalos de corrupção. No primeiro mandato, reinou o mensalão. Ele acabou na prisão de seus principais operadores e articuladores, depois de julgados e condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). No segundo mandato – soube-se nos últimos meses, por meio de investigações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) –, floresceu um esquema de pagamento de propina em troca de contratos bilionários com a Petrobras (leia detalhes na reportagem da página 36), esquema que continuou durante o governo de Dilma Rousseff. Neste momento, as autoridades investigam a conexão entre os dois escândalos. Já se sabia que parte da estrutura financeira do mensalão fora usada no esquema da Petrobras. As últimas investigações vão além da questão financeira e se debruçam sobre os personagens comuns aos dois enredos. O ex-deputado federal José Janene (que morreu em 2010), o doleiro Alberto Youssef e o executivo Paulo Roberto Costa aparecem no mensalão e no esquema da Petrobras.

(Foto: Montagem sobre foto de Lula Marques/Folhapress)
 ELO
O ex-deputado José Janene, que morreu em 2010. Em depoimento, 
o empresário Hermes Magnus afirma que o esquema de 
propina da Petrobras foi uma “extensão do mensalão” 

Um depoimento dado no dia 22 de julho deste ano – revelado por ÉPOCA em primeira mão e disponível em vídeo em epoca.com.br –, ajuda a detalhar o papel dos atores que participaram dos dois esquemas. O autor do depoimento é o empresário Hermes Freitas Magnus, de 43 anos. Ele reafirma a participação do mensaleiro Janene – deputado do PP que, em troca de apoio político, embolsou R$ 4,1 milhões do mensalão petista – como figura central que liga os dois escândalos. Magnus foi sócio de Janene – e, segundo diz no depoimento, frequentava sua casa e ouvia confidências dele. Segundo Magnus, o esquema da Petrobras “era a extensão do mensalão, um cala-boca para que (Janene) permanecesse quieto”. Janene sempre dizia, segundo o depoimento de Magnus, que poderia “derrubar Lula”, porque sabia do esquema do PT tanto quanto o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, condenado por corrupção. 

Segundo Magnus, na hierarquia dos dois esquemas, Janene estava acima do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. De acordo com o depoimento de Carlos Alberto Pereira da Costa, advogado de Youssef – revelado com exclusividade na última terça-feira por epoca.com.br –, foi Janene quem apresentou Youssef a Paulo Roberto. O trio operou junto em dois momentos. Youssef ajudou Janene a lavar o dinheiro do mensalão. Ainda no primeiro mandato de Lula, Janene indicou Paulo Roberto à Diretoria de Abastecimento da Petrobras. No segundo mandato de Lula, os três operaram juntos no esquema da Petrobras. Investigações da Operação Lava Jato revelam que Youssef intermediava pagamento de propina na estatal. Por meio de empresas de fachada, Youssef recebia dinheiro de empreiteiras interessadas em assinar contratos com a Petrobras. Usando um emaranhado de depósitos bancários feitos por laranjas, fazia o suborno chegar a Paulo Roberto, o homem que tinha a caneta para fazer as contratações – e, agora preso, começa a entregar os participantes do esquema. Enquanto isso, Janene, por ser guardião dos segredos do PT, ganhava espaço na Petrobras. Ele continuou como deputado apenas no início do segundo governo Lula. Por causa de uma doença no coração, Janene arrancou em 2007 uma aposentadoria por invalidez na Câmara dos Deputados, embora já respondesse à acusação de receber dinheiro do mensalão. Continuou ativo na política, agindo nos bastidores.  


O relato que Magnus fez à Justiça Federal revela o grau de influência dele na Petrobras. “Lá, mando eu”, costumava dizer Janene, conforme o relato de Magnus – embora houvesse outros partidos e esquemas na Petrobras. “Alguns deputados federais queriam falar com diretores da Petrobras sem a intervenção de José Janene, e não conseguiam. Então, entravam em contato com Janene pelo telefone”, afirmou Magnus. Ele disse ainda que presenciou uma performance debochada de Janene ao telefone. Ele ironizava um parlamentar que tentara contato sem sua ajuda. “E aí, a espera tá grande?” Segundo Magnus, Janene tinha “acesso livre” e intermediava negócios entre a Petrobras e empresas de grande porte, como as construtoras Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. Ele não deu  detalhes que possam identificar que tipos de contrato seriam ou se houve algum tipo de ilegalidade. Procurada, a construtora Queiroz Galvão afirmou que não há “irregularidades nem ilegalidades” em seus contratos, que são negociados “dentro das regras estabelecidas pela legislação e sem a intermediação de terceiros”. A Camargo Corrêa disse que só presta serviços à Petrobras por meio de licitações públicas.  

(Foto: Joedson Alves/Estadão Conteúdo)

 SEGUNDO ESCALÃO
O doleiro Alberto Youssef. De acordo com Hermes Magnus, 
ele estava um degrau abaixo de Janene na hierarquia do esquema 

Magnus começou a contar o que sabia à Polícia Federal ainda em 2009, quando o escândalo de corrupção na Petrobras ainda era desconhecido. Concluiu a história com riqueza de detalhes no depoimento de julho passado. Ele parece ter credenciais para falar. A Operação Lava Jato teve início justamente a partir da investigação sobre um negócio de Magnus com Janene. De acordo com o MPF, Janene lavou dinheiro do mensalão ao investir parte da quantia recebida na Dunel Indústria e Comércio, fabricante de componentes eletrônicos que pertencia a Magnus. Janene usou a empresa de fachada CSA Project Finance, uma sociedade mantida pelo doleiro Youssef, para aplicar R$ 1,16 milhão dos R$ 4,1 milhões que ganhara no mensalão na Dunel. Isso ocorreu em julho de 2008.

Era mais um golpe aparentemente perfeito idealizado por Janene. Magnus tinha as características de vítima ideal para operadores experientes do mercado negro. Sua firma de eletrônicos automotores precisava de dinheiro para crescer, e ele buscava um investidor. Janene e Youssef estavam atrás de uma oportunidade para esquentar dinheiro frio de corrupção. O primeiro encontro com Magnus foi em junho de 2008, na sede da CSA, em bairro nobre de São Paulo. Acompanhado de Youssef, o afável Janene – já ex-deputado – chegou abraçando afetuosamente o futuro sócio, ou melhor, a futura vítima. O doleiro e o mensaleiro traziam soluções rápidas e práticas, quase um sonho para quem precisava de uma injeção de capital.  “Olha, podemos viabilizar seu negócio: se quiser dinheiro do Estado do Espírito Santo para cima, tenho a opção do Banco do Nordeste. Se não quiser se meter com banco, temos uma solução mais tranquila, um recurso nosso. Se quiserem, coloco 1 milhão de início”, disse Janene.

As imagens do depoimento obtidas por ÉPOCA mostram que, no momento em que Magnus conta essa história, Youssef senta-se ao lado do advogado dele e, apontando para Magnus, reclama: “Ele está mentindo, ele é mentiroso”. O juiz Sérgio Moro, que ouvia Magnus, interrompe Youssef. Ele só se cala quando é ameaçado por Moro de ser retirado da sala. Em pouco tempo, Magnus foi alijado da Dunel e virou, como ele mesmo se definiu, uma espécie de zumbi na firma. Os equipamentos encomendados não chegavam, e a produção emperrava. Ao consultar um advogado, Magnus descobriu que estava  no meio de uma trama de lavagem de dinheiro. Resolveu procurar a PF para contar o que sabia. Afirma que Janene o ameaçou de morte e que, na época, um incêndio misterioso destruiu uma casa dele.

Youssef, mais uma vez, se deu bem. Lavou o dinheiro para Janene e, ainda naquele ano de 2008, estreitou relações com Paulo Roberto, o executivo dos grandes contratos da Petrobras. Mal se livrara de uma condenação a sete anos de reclusão graças a uma delação premiada, Youssef reincidia em sua especialidade, a lavagem de dinheiro. Tinha o amigo e sócio Janene como cliente. Juntos, tinham um hotel, uma agência de viagens em Londrina e uma locadora de automóveis. A proximidade da dupla ia além dos negócios. Os dois se visitavam e se tratavam pelos títulos de compadre e padrinho. “Youssef chegava à casa de Janene e era padrinho pra cá, padrinho pra lá... Compadre pra cá, compadre pra lá. E era muito íntimo na lida das coisas”, afirmou Magnus à Justiça Federal. Numa dessas reuniões, Janene prometeu pagar o que chamou de “lua de mel” na Europa para Youssef e a mulher. Em seguida, explicou a ele o motivo da generosidade: “Ela só não pode pensar que você vai fazer aqueles câmbios para mim na França. Não deixe ela sonhar que você está fazendo isso”.

(Foto: Reprodução)

  DEBOCHE
O empresário Hermes Magnus. Segundo ele, Janene zombava de deputados
 que procuravam diretores da Petrobras sem sua intermediação 

Os desvios de dinheiro por meio de contratos superfaturados na Petrobras identificados até agora ocorreram de 2009 a 2014. A morte de Janene por infarto, na fila do transplante de coração, em 2010, não interrompeu a afinada e conveniente parceria entre Youssef e Paulo Roberto. Ao contrário, os laços ficaram ainda mais estreitos. Durante a Operação Lava Jato, a PF interceptou e-mails recebidos por Youssef. Uma das mensagens veio de um ressentido João Claudio Genu, ex-chefe de gabinete de Janene e um dos condenados do mensalão. Genu expressava seu “inconformismo” com a aproximação de Youssef e Paulo Roberto. Aparentemente, àquela altura, o doleiro e o diretor da Petrobras tinham estabelecido uma linha direta, sem intermediários, e Genu perdera seu quinhão no esquema. Paulo Roberto se tornara milionário. A Justiça descobriu que ele mantinha R$ 51,3 milhões em 12 contas secretas na Suíça.

O depoimento de Magnus reitera uma conclusão: o mensalão e o escândalo da Petrobras são dois esquemas distintos, mas com métodos, causas e consequências semelhantes. A causa é o fisiologismo: garantir apoio no Congresso usando cargos que deveriam ser preenchidos por critérios estritamente técnicos. O método: desvio de dinheiro público para financiar campanhas ou enriquecer os políticos envolvidos. A consequência: corrupção. Com a descoberta do mensalão, em 2005, quando o primeiro mandato de Lula se aproximava do fim, foi preciso assegurar a fidelidade dos mesmos partidos – e dos mesmos políticos – ao governo do PT. Com a reeleição de Lula, o governo continuaria a precisar de apoio no Congresso. E o Congresso não mudara. As regras de Brasília também não. Lula e o PT acomodaram-se às práticas políticas de sempre. E distribuíram aos partidos da base os cargos que os políticos tanto queriam. São aqueles que servem tão somente para gerar favores e dinheiro, seja para campanhas, seja para o bolso de quem está no esquema. Nenhum cargo era tão desejado pelos políticos quanto uma diretoria na Petrobras, a mais rica e poderosa empresa do país. No segundo mandato de Lula, a Petrobras, mais que qualquer outra estatal, ocupou o vácuo deixado pelo mensalão.

Janene está morto, não pode mais ameaçar nem delatar ninguém. Parentes seus são réus com Youssef na ação penal sobre a lavagem de dinheiro do mensalão. Um deles é Meheidin Jenani, primo de Janene. Magnus, o ex-sócio de Janene, afirma que Meheidin é especialista em assar carneiros e ia constantemente do Paraná a Brasília para preparar carneiros para a então ministra da Casa Civil, e hoje presidente Dilma Rousseff. Procurado por ÉPOCA, Meheidin desconversou. Procurada por ÉPOCA, a assessoria do Planalto disse que Dilma Rousseff não conhece Meheidin, muito menos era fã de carneiros preparados por ele.

No rastro do dinheiro da Propinobrás

Mário Simas Filho, Sérgio Pardellas e Josie Jerônimo
Revista ISTOÉ

Entenda como o esquema na Petrobras abasteceu o caixa de aliados do governo e conheça os novos nomes denunciados pelo ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa na delação premiada

Há duas semanas, uma equipe composta por integrantes da Polícia Federal e do Ministério Público trabalha arduamente para detalhar como funcionaria o propinoduto instalado na Petrobras para abastecer políticos aliados do governo Dilma Rousseff. Até agora, eram conhecidos trechos da delação do ex-diretor de Abastecimento e Refino da Petrobras Paulo Roberto Costa, considerado o maior arquivo vivo da República. Em depoimento à Polícia Federal, o ex-executivo da estatal entregou nomes de políticos e empresas que superfaturaram em 3% o valor dos contratos da Petrobras exatamente no período em que ele comandava o setor de distribuição, entre 2004 e 2012. 

HOMEM BOMBA
O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa
depôs novamente à PF, na última semana, e apresentou
novos nomes envolvidos no escândalo

Já se sabia que dessa lista faziam parte figuras graúdas da República, como os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Henrique Eduardo Alves, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, o ex-governador do Rio Sérgio Cabral, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, João Vaccari Neto, secretário nacional de finanças do PT, Ciro Nogueira, senador e presidente nacional do PP, Romero Jucá, senador do PMDB, Cândido Vaccarezza, deputado federal do PT, João Pizzolatti, deputado federal do PP, e Mário Negromonte, ex-ministro das Cidades, do PP, e até o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, morto em acidente aéreo no mês passado. No entanto, a relação de nomes entregue pelo ex-executivo da Petrobras é ainda mais robusta. ISTOÉ apurou com procuradores e fontes ligadas à investigação que, além desses políticos já citados, também foram delatados por Paulo Roberto Costa o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o governador do Ceará, Cid Gomes, e os senadores Delcídio Amaral (PT-MS) e Francisco Dornelles (PP-RJ). 

O DOLEIRO AMEAÇA FALAR
Envolvido na Operação Lava Jato, o doleiro Alberto Youssef, que também
está preso, tem sido pressionado a contar tudo, em troca de benefícios

Na semana passada, as investigações avançaram sobre o rastreamento do dinheiro desviado. Os levantamentos preliminares já confirmaram que boa parte da lista de parlamentares e chefes de governos estaduais contemplada, segundo o delator, pelo propinoduto da Petrobras, tem conexão direta com as empresas envolvidas no esquema da estatal. Levantamento feito na prestação de contas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela que cinco empreiteiras acusadas de participar do esquema este ano doaram quase R$ 90 milhões a políticos relacionados ao escândalo. Procuradas por ISTOÉ, as empresas envolvidas respondem em uníssono que as doações “seguem rigorosamente a legislação eleitoral”. A PF, no entanto, apura a origem dos recursos doados e se, além dos repasses oficiais, houve remessas ilegais. Suspeita-se que as doações eleitorais sejam usadas para lavar e internalizar o dinheiro depositado no exterior. Instada a colaborar, a Justiça da Suíça, país por onde circularam receitas provenientes de superfaturamento dos contratos da Petrobras, já deu o sinal verde para a cooperação.


FACHADA
O governador do Ceará, Cid Gomes, delatado por Paulo Roberto
Costa, nega que tenha envolvimento no caso

A análise do mapa de distribuição do dinheiro para as campanhas de políticos ligados ao escândalo mostra que os repasses financeiros nem sempre guardam relação com o perfil econômico dos Estados. Essa constatação intriga a PF. É o caso de Alagoas, Estado do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), um dos personagens citados no testemunho do delator. Em uma unidade da federação em que as principais atividades são a indústria açucareira e o turismo, as empreiteiras contratadas pela Petrobras não têm nenhum interesse de investimento ou projetos no estado. Mesmo asism, abarrotaram o caixa de campanha de Renan Filho (PMDB), herdeiro político do senador. Cinco empresas relacionadas ao esquema entraram com R$ 8,1 milhões na campanha, o equivalente a 46,8% dos R$ 17,3 milhões arrecadados pelo diretório estadual do partido, presidido pelo parlamentar.

No fim de agosto deste ano, um cheque de R$ 3,3 milhões da Camargo Corrêa irrigou o caixa controlado por Renan. Para que os recursos não saíssem diretamente para a campanha do filho do presidente do Senado, o dinheiro foi pulverizado em campanhas de deputados estaduais de diferentes partidos que compõem a coligação formada em torno de Renan Filho. Partidos como PDT, PT, PCdoB e PROS dividiram os recursos. O senador reagiu indignado ao vazamento do acordo de delação e negou proximidade com a diretoria da Petrobras. “As relações nunca ultrapassaram os limites institucionais”, afirma o parlamentar alagoano. A Camargo Corrêa foi levada à investigação da PF pelo doleiro Alberto Youssef, responsável pela lavagem do dinheiro ilegal da Petrobras. Em uma mensagem interceptada, ele reclamou que adiantou dinheiro à empreiteira e que não sabia como cobrar a dívida, de R$ 12 milhões, por ser amigo de diretores da empresa.



As denúncias do ex-diretor da Petrobras, feitas no depoimento concedido ao juiz Sérgio Moro, especialista em lavagem de dinheiro, atingiram as duas principais autoridades do Poder Legislativo. Além de Renan, Costa também mencionou o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), como beneficiário do esquema criminoso. Alves viveu por semanas a pressão de submeter o deputado André Vargas (PT-PR), amigo do doleiro Youssef, às instâncias do conselho de ética da Casa. Agora, ele próprio se vê envolvido na incômoda lista de políticos apontados pelo delator. Alves nega ter recebido recursos de Paulo Roberto Costa, mas, a exemplo de Renan, tem a campanha abastecida por empresas situadas no epicentro do escândalo. Henrique Eduardo Alves lidera a corrida ao governo do Rio Grande do Norte. Até agora, recebeu R$ 6,7 milhões de três empreiteiras apontadas no esquema de desvio de verbas da estatal. A relação do presidente da Câmara com a Petrobras é antiga. Sua influência nos quadros da estatal alcança desde grandes postos no Rio de Janeiro até a gestão da Refinaria Clara Camarão, no seu Estado. Só para alojar um apadrinhado na refinaria, o presidente da Câmara ordenou em 2012 a constituição de uma nova gerência de serviços especiais. Trata-se de Luiz Antônio Pereira. Um ano antes, a refinaria Clara Camarão havia passado por um pente fino do TCU e o tribunal encaminhou a auditoria para o Ministério Público, com o objetivo de esmiuçar indícios de superfaturamento e contratos sem licitações que marcaram a gestão da obra. 

BENEFICIÁRIO
Mencionado pelo ex-diretor da Petrobras na delação premiada, o senador
Delcídio Amaral obteve recursos para sua campanha de empresas
citadas como integrantes do esquema

Incluído também na lista do ex-diretor da Petrobras, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) viu brotar na conta bancária do diretório partidário que preside em Roraima recursos provenientes das empreiteiras citadas no esquema. A OAS, Andrade Gutierrez e UTC doaram, juntas, R$ 1,6 milhão ao projeto político do PMDB no Estado. O valor que as empreiteiras repassaram à sigla de Jucá é maior do que os recursos transferidos das empreiteiras para o PSB, partido do cabeça de chapa da coligação do PMDB: o comitê do candidato ao governo Chico Rodrigues, que tem o filho de Jucá, Rodrigo Jucá, como candidato a vice, arrecadou R$ 615 mil.

Em seu depoimento à PF, Paulo Roberto Costa revelou que as empreiteiras contratadas pela Petrobras eram obrigadas a fazer doações para um caixa paralelo de partidos e políticos integrantes da base de sustentação de Dilma. Seguindo o rastro do dinheiro, a investigação mostra que, até agora, as empresas contratadas pela Petrobras engordaram o caixa do PMDB em R$ 15,5 milhões. Enquanto os peemedebistas adotam um método pulverizado de doação de campanha, o PT é o que concentra a maior fatia do dinheiro das empresas citadas no escândalo. Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, Engevix e UTC destinaram R$ 28,5 milhões à direção nacional do PT. À candidata Dilma Rousseff, R$ 20 milhões foram repassados pela OAS e outros R$ 5 milhões pela UTC.


CITADO
O senador Francisco Dornelles, alvo do delator Paulo Roberto Costa,
obteve R$ 400 mil da Andrade Gutierrez e R$ 800 mil da Queiroz Galvão

A rede de corrupção guarda íntima relação com problemas de gestão identificados pelos órgãos de fiscalização na execução de outras obras de refinarias. No Maranhão, a pressa política do PT em apresentar a pedra fundamental da Refinaria Premium custou R$ 84,9 milhões à Petrobras. O lançamento foi feito sem o projeto básico e o consórcio de empreiteiras contratado atrasou o início das obras, pois os terrenos ainda estavam sub judice. Ainda no Estado maranhense, o filho do ministro de Minas e Energia, integrante da lista de Paulo Roberto Costa, e candidato do PMDB ao governo do Maranhão, Lobão Filho, recebeu para sua campanha R$ 500 mil da empresa Andrade Gutierrez. A PF apura ligações do candidato com a empresa fornecedora de material para a construção da refinaria, no município de Bacabeira. O ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau atua há muito tempo nessa área para a família do ex-presidente José Sarney (PMDB), pai da governadora do Maranhão, Roseana Sarney. Quando saiu do ministério, Rondeau foi trabalhar na Engevix, uma das cinco empreiteiras abraçadas pelo escândalo.

Recém-incluído na rumorosa relação do delator, o senador petista Delcídio Amaral também obteve recursos para sua campanha de empresas mencionadas como integrantes do esquema. A campanha de Delcídio ao governo de Mato Grosso do Sul recebeu R$ 622 mil da OAS, R$ 2,8 milhões da Andrade Gutierrez e R$ 2,3 milhões da UTC. Entre 2000 e 2001, Delcídio ocupou a diretoria de Gás e Energia da Petrobras. Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para presidente, em 2002, ele se transferiu do PFL para o PT e apadrinhou a indicação de Nestor Cerveró, primeiro para a área de Gás e Energia, ocupada por Ildo Sauer, e, finalmente, para a área Internacional. Um dos depoentes da CPI da Petrobras no Congresso na última semana, Cerveró encontra-se no rol de investigados no escândalo da estatal. 


ELE, DE NOVO
O deputado Eduardo Cunha é outro integrante do PMDB
incluído na lista do ex-diretor da Petrobras

Outros três políticos que aparecem no escândalo receberam, direta ou indiretamente, dinheiro das empreiteiras acusadas de irregularidades nos contratos com a Petrobras. O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) foi agraciado com R$ 150 mil provenientes da UTC. Já o senador Francisco Dornelles (PP) obteve R$ 400 mil da Andrade Gutierrez e R$ 800 mil da Queiroz Galvão. À ISTOÉ, Dornelles admitiu que conhece Paulo Roberto Costa, mas, segundo o senador, não houve qualquer participação dele nessas doações. “Todas as doações recebidas pelo diretório do PP no Rio tiveram como origem empresas juridicamente aptas a fazê-las”, afirmou. O ex-ministro das Cidades Mário Negromonte foi contemplado com R$ 200 mil da OAS e R$ 100 mil da UTC. Na delação que fez à PF, Paulo Roberto Costa menciona ainda o governador Cid Gomes, do Ceará, com quem negociou a instalação de uma minirrefinaria no Estado. O projeto seria apenas uma fachada para um esquema de lavagem de dinheiro por meio de empresas que nunca sairiam do papel, conforme ISTOÉ denunciou em abril. “Não sei quem é Paulo Roberto. Nunca estive com esse cidadão e sou vítima de uma armação de adversários políticos”, disse o governador Cid Gomes à ISTOÉ na tarde da sexta-feira 12.

Quando a Polícia Federal iniciou as apurações, os investigadores tentaram abraçar um universo de temas. Sob a guarda do juiz federal Sérgio Moro, a PF buscava provas de crimes de evasão de divisas, contrabando de pedras preciosas e tráfico internacional de drogas, mas tinha dificuldade para amarrar uma linha de trabalho e caracterizar a ação de uma quadrilha. O acordo de delação do ex-diretor da Petrobras contribuiu, e muito, para apontar um rumo. Mas, para se livrar dos 50 anos de prisão que teria de pagar pelos seus crimes, Paulo Roberto Costa terá de trazer provas. Todos os políticos rechaçam as acusações do delator com o argumento de que não foram apresentadas provas. De fato, para que o depoimento do delator tenha relevância na elucidação da rede de corrupção, Costa terá de materializar suas afirmações. Pelo que se pode depreender até agora, as movimentações feitas com os recursos desviados da Petrobras abrangem o caixa formal dos candidatos, como mostra esta reportagem, e também dinheiro de caixa 2. No curso de seu trabalho para desvendar as tenebrosas transações, Sérgio Moro deu uma ordem: não quer depender de grampos ou suposições e vai fugir da “teoria do domínio do fato”, método que permeou o julgamento do mensalão, o maior escândalo de corrupção dos governos do PT.