domingo, setembro 21, 2014

Programas sociais e PNAD: entre o discurso e os fatos

Adelson Elias Vasconcellos


O resultado da PNAD divulgado pelo IBGE nesta semana não se revela em surpresa alguma. Um país que não cresce não acumula riqueza para ser distribuída. Um país que não honra o equilíbrio das contas públicas com gastos desnecessários em ostentação, propaganda ou cooptação de partidos e políticos, não terá o suficiente para investir em educação, segurança, saúde, saneamento. Um país que afronta o bom senso  colocando empecilhos de toda a espécie para o capital privado, não terá infraestrutura nenhuma. 

Ora, saber-se que este governo não consegue reduzir desigualdade há três anos, é o mesmo que também reconhecer que se trata de um governo de faz de conta, e que a propaganda oficial – e agora a da campanha – vende um país que só existe no imaginário.

Reparem o resultado da última pesquisa Datafolha. Vejam em que regiões do país reina absoluta a senhora Dilma Rousseff. E agora recorram aos dados oficiais do Bolsa Família e o comparem com a pesquisa eleitoral. Nada a acrescentar.  Não interessa  que este governo circula na roda da corrupção extrema, ou da mediocridade extravagante, como também não interessa o relatório do TCU sobre as manobras pouco recomendáveis com os programas sociais. Como também não chama a atenção a inflação que se mantém acima do teto da meta que é (ou deveria ser) de 6,5%. O governo está dando dinheiro, perenizando a pobreza por falta de perspectivas de emancipação do cidadão, tendo gente que está aboletada no Bolsa Família desde de sua criação, nada disso conta muito. Como também não  se liga muito que a dívida pública foi multiplicada por 4 vezes com os governos petistas e isto nos levará, inevitavelmente, a mesma crise que atormentou o país durante a década   perdida dos anos 80 e metade dos anos 90, do século passado. 

A indústria está em queda livre há três anos? O desemprego começou a assombrar? Cada vez há menos brasileiros no mercado de trabalho? A perda do poder aquisitivo cada vez se acentua mais? E daí?, perguntaria o vulgo. O que importa neste momento é o cartão que assegura R$ 70,00 per capita, diante de um salário mínimo de R$ 742,00. E daí?, é o mesmo vulgo acrescentando que para ele o que importa é que há uns R$ 70,00 no fim do mês, e o resto que se dane. Nossa juventude  está condenada a viver nas trevas da ignorância? O país vai continuar matando mais de 56 mil brasileiros por ano? E daí?, tenho meu celular e um tevê moderninha, de plasma ou LCD, com prestações a perder de vista.  E é nesta raiz de más políticas que se agasalha uma Dilma Rousseff com preferência para ser reeleita. 

Voltem à pesquisa Datafolha. Entre regular e péssimo,  a presidente-candidata amarga mais de 60% de desaprovação. Sua taxa de rejeição é, de longe, a maior do que a de todos os demais candidatos. E daí?, se mesmo assim acabar reeleita.

Nesta semana, Guido Mantega afirmou que os fundamentos da economia não mudarão em 2015. Ou seja, se antes 2015 e 2016 já estavam contaminados pelo mau governo,  a se manter os mesmos “fundamentos”, Mantega sinaliza que um segundo mandato de Dilma irá hipotecar e exterminar o futuro. Será a mesma indecência e incompetência que nos habita desde 2011.  

Será preciso o povo sentir efeitos catastróficos  para perceber que os R$ 70,00 com que compram seu silêncio e seu voto não são suficientes para cobrir a miséria que os estão condenando. 

E um detalhe. Se o acaso nos empurrar goela abaixo mais quatro anos de Dilma, que a oposição não deixe para a campanha de 2018 sua atuação como oposição. Certo é que, mesmo ganhando o pleito, Dilma representará apenas pouco mais de um terço da votação. Que a oposição leve isto em consideração. São 50% contra 37%. E isto significa muita coisa, é só afinar o discurso e atuar durante os próximos quatro anos. 

O certo em relação à Dilma, é que até agora ela não apresentou seu programa de governo não por divergências com o PT, como se espalha como justificativa oficial. São duas outras razões. Uma,  a de que a divulgação colocará munição na mão dos adversários que encontrarão coisas condenáveis. E outra, é que ao não divulgar programa algum, Dilma também não se compromete com coisa alguma. Tudo o que fizer pode ser grudado num programa fantasma. Se reeleita sem programa, estará recebendo um cheque em branco para praticar a malvadeza que quiser. 

É bom o país ficar esperto. Dias muito sombrios se aproximam, com trovoadas e raios com Dilma reeleita. O diabo ainda são aqueles R$ 70,00, não é? E daí?

E os tais panfletos, hein? 
Lembram as tais cartilhas pagas com dinheiro público na campanha de reeleição de Lula? Agora, é Dilma quem promove lambança semelhante. 

Haja confusão neste governinho de droga comandado pela senhora Rousseff. Não basta usar a máquina pública, prédios e recursos para sua campanha eleitoral. Não basta destacar ministros e servidores públicos para atuarem como militantes partidários. 

Também não basta travar o crescimento do país, colocar em risco boa parte do parque industrial brasileiro. É preciso envolver em seu mar de incompetência,  estatais como Eletrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica. Não escapam desta sanha desgovernada nem o IBGE tampouco os Correios. É bom que o Ministério Público vá a fundo nesta história dos panfletos eleitorais distribuídos sem chancela pela EBCT para a campanha de Dilma Rousseff.  Em sua defesa, a EBCT informou aos menos esclarecidos que,  apesar de se tratar de uma exceção, a empresa já fez o mesmo agrado para outros. Ok, mas quem são estes outros? Citem um único partido que não seja do governo, mas da oposição, para quem a EBCT prestou o mesmo favor graciosamente? Dilma, quando interpelada, afirmou que a campanha pagou uma enormidade pelo serviço, tão enorme que ela, na hora,  não lembrava do valor, mas que tudo estava correto com a emissão/distribuição, inclusive com nota fiscal. Cadê a Nota fiscal?  Não foi exibida. Provavelmente, a EBCT emitirá alguma, depois do escândalo vir a público. Será a primeira vez que os Correios emitem Nota Fiscal depois do serviço feito. 

Então o que temos é que o desespero de perder a eleição e ver milhares de vagabundos tendo que procurar emprego – não trabalho, que isto é coisa de “reacionário” -   em outras praças, é que está valendo qualquer coisa, inclusive ultrapassar os limites legais e até o decoro que, mesmo sendo candidata, a senhora Rousseff deveria lembrar que ainda verga a faixa presidencial. 

Aliás, dentre todos os candidatos, segundo o TSE, Dilma é que mais foi punida por infração à legislação eleitoral, muito embora sua campanha terrorista sequer tenha sido retirada do ar, contrariando parecer do próprio Procurador Geral.

Em resumo, se pode dizer que os programas sociais do PT produzem apenas dependência eterna do paternalismo estatal e, claro, na forma como estão configurados, perenização da pobreza. E o PNDA aí está para comprovar,  pois, mesmo com as correções dos “erros técnicos” (quem acredita?), a desigualdade permanece estagnada há três anos. E o resultado é o que importa.

Quatro anos de fiasco, mas a culpa é dos outros

Rolf Kuntz  
O Estado de S. Paulo



O inferno é o outro, conforme escreveu há 70 anos um filósofo e dramaturgo francês. A presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, certamente concordam. Mas o outro, poderiam acrescentar, tem lá seu valor. Sem ele, em quem jogar a culpa de nossos males, especialmente daqueles produzidos por nós? Para isso servem as potências estrangeiras, os bancos internacionais, os pessimistas de todas as nacionalidades e até o Banco Central do Brasil (BC), por sua insistência em manter os juros em 11%. Os maiores males deste momento ainda estarão por aí quando começar o próximo governo, em janeiro:

1) Os aumentos de preços ganharam impulso de novo. O IPCA-15, prévia da inflação oficial de setembro, subiu 0,39%, muito mais que o dobro da variação de agosto, 0,14%. A alta acumulada no ano, 4,72%, já ficou bem acima da meta, 4,5%. Em 12 meses chegou a 6,62% e dificilmente ficará abaixo de 6% no fim do ano.

2) Os economistas do mercado financeiro e das consultorias continuam reduzindo as projeções de crescimento econômico. A mediana das estimativas, na semana passada, ficou em 0,33%, de acordo com pesquisa do Banco Central. Coincidiu com a nova previsão divulgada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE): 0,3%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicará números atualizados em outubro. A previsão para o Brasil será, com certeza, bem menor que a de julho, 1,3%.

3) As finanças do governo continuam virando farelo. Nem receitas especiais têm resolvido o problema. Pelas primeiras informações, a arrecadação inicial do novo Refis, o refinanciamento de impostos em atraso, ficou abaixo do valor previsto - algo na faixa de R$ 13 bilhões a R$ 14 bilhões. O pessoal do Tesouro deverá continuar recorrendo à criatividade contábil. Qualquer balanço razoável no fim de 2014 será uma surpresa.

4) As contas externas continuam fracas e o déficit em conta corrente, no fim do ano, deverá ficar ainda próximo de US$ 80 bilhões, segundo estimativas do mercado. Nada, por enquanto, indica resultados muito melhores em 2015.

5) O País ainda vai depender fortemente de financiamento externo para fechar o buraco das transações correntes. O investimento direto estrangeiro tem sido e provavelmente continuará insuficiente para isso. Faltarão uns US$ 20 bilhões neste ano e, segundo as projeções do mercado, uma quantia muito parecida em 2015. Essa diferença será coberta, em grande parte, por dinheiro especulativo. As condições internacionais de financiamento serão provavelmente menos favoráveis que as de hoje, especialmente se o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, confirmar a elevação dos juros básicos, atualmente na faixa de zero a 0,25% ao ano.

Mesmo com o desemprego bem mais baixo, o Fed provavelmente só começará a aumentar os juros se os seus diretores estiverem convencidos da firme recuperação econômica dos Estados Unidos. Essa recuperação será boa para todo o mundo. Atividade mais intensa na maior economia resultará em mais oportunidades comerciais para todos os parceiros - ou, pelo menos, para aqueles preparados para aproveitar a ocasião. A indústria brasileira tem mais perdido que aproveitado oportunidades, por falta de investimento, por excesso de custos e por erros da diplomacia comercial.

Mas o começo do aperto monetário, possibilitado pela recuperação americana, afetará os investimentos e o custo dos empréstimos. Juros mais altos atrairão dinheiro para os Estados Unidos. Isso poderá neutralizar, em boa parte, a sobra de recursos provocada pelo esperado afrouxamento da política do Banco Central Europeu.

Todo mundo espera essa mudança no quadro internacional. Governos competentes procuram tornar seus países menos vulneráveis a riscos financeiros e mais capazes de acompanhar a onda de crescimento liderada pelos Estados Unidos e acompanhada, com algum atraso, pelas economias europeias mais sólidas.

Economistas do FMI, em documento preparado para a conferência ministerial do Grupo dos 20 (G-20) neste fim de semana, na Austrália, chamam a atenção para os perigos e para os ajustes necessários. A recuperação continua, mas num ambiente de riscos. No Brasil, aponta o estudo, o baixo crescimento dificultará a execução da política fiscal e a redução da dívida pública. Além disso, a inflação elevada poderá tornar necessário um novo aumento de juros se as expectativas piorarem. Isso é exatamente o contrário do caminho apontado pelo ministro da Fazenda.

Mas o governo brasileiro, especialmente em caso de reeleição, sempre poderá atribuir parte dos problemas de 2015 ao Fed. O banco central americano foi responsabilizado por males brasileiros quando inundou os mercados com dólares, tentando estimular a economia dos Estados Unidos. A valorização do real, uma das consequências, encareceu as exportações brasileiras e barateou as importações. O ministro Mantega reclamou de uma guerra cambial.

Desde o ano passado o jogo mudou. Ao anunciar a redução dos estímulos monetários, o Fed mexeu nos fluxos de capitais, valorizou o dólar e, segundo Brasília, criou pressões inflacionárias. O impacto da mudança poderá ser mais forte no próximo ano, com o aumento dos juros. Bendito seja o Fed, um dos culpados de sempre.

A presidente Dilma Rousseff tem citado com insistência uma frase famosa de Nelson Rodrigues sobre o complexo de vira-lata. Não se sabe quantas páginas da obra rodriguiana ela realmente leu, mas a tal frase é importante no repertório presidencial. Não se sabe, também, quantas páginas de Sartre ela terá lido. Mas a ideia sartriana sobre inferno, reduzida a uma tosca simplicidade, tem servido à retórica defensiva de um governo fracassado. Benditos sejam os outros.

Lula requenta o truque de 2006

Elio Gaspari
Folha de São Paulo

Nosso Guia quer confundir a Petrobras com a gestão do comissariado petista com que aparelhou a empresa

Lula fez uma involuntária defesa do voto útil, aquele que vai para qualquer lugar, desde que o PT vá embora. Foi para a frente do prédio da Petrobras e disse o seguinte:

"Já houve três pedidos de CPI só na Petrobras. Eu tenho a impressão de que essas pessoas pedem CPI para, depois, os empresários correrem atrás delas e achacarem esses empresários para ganhar dinheiro. (...) Se alguém roubou, esse alguém tem mais é que ser investigado, ser julgado. Se for culpado, tem que ir para a cadeia."

A Petrobras petista apareceu em várias CPIs. A primeira, de 2005, foi a do mensalão. Duas outras foram específicas e, com a ajuda do comissariado, deram em nada. Se Nosso Guia acha (e tem motivos para isso) que, incentivando-as, há "pessoas" achacando empresários que correm "atrás delas", não se conhece uma só fala de petista denunciando achacados ou achacadores. O relator da comissão que está funcionando é o petista Marco Maia.

O primeiro comissário apanhado em malfeitorias relacionadas com a Petrobras foi o secretário-geral do PT, Silvio Pereira. "Silvinho" fez um acordo com o Ministério Público e trocou o risco de uma condenação por 750 horas de trabalho comunitário. Ele ganhara um reles Land Rover de um fornecedor da Petrobras. Nem Lula nem o PT condenaram-no publicamente. Se o tivessem feito, teriam emitido um sinal. Afinal, dissera o seguinte: "Há cem Marcos Valério por trás do Marcos Valério". Ele está na cadeia. Salvo a bancada da Papuda, os demais estão soltos.

Em 2009, quando foi instalada a primeira CPI para tratar exclusivamente da Petrobras, o comissariado disse que a iniciativa tentava tisnar a imagem da empresa. Resultou que ela tisnou a imagem do instituto da CPI e os petrocomissários continuaram nos seus afazeres. Paulo Roberto Costa estava na diretoria da Petrobras desde 2004. Em oito anos, amealhou pelo menos US$ 23 milhões.

A CPI de hoje é abrilhantada também pelos petistas Humberto Costa, José Pimentel e Sibá Machado. Nenhum deles, nem Marco Maia, deve vestir a carapuça da fala de Lula, mas jamais apontaram um achacador. "Paulinho" foi preso em abril pela Polícia Federal e, em seu escritório, foram recolhidos abundantes provas de seus malfeitos. Ele prestou um depoimento à CPI em junho e o senador Humberto Costa considerou-o "satisfatório". "Paulinho" disse o seguinte: "A Petrobras não é uma empresa bandida nem tem bandidos em seus quadros". Tinha pelo menos um, hoje confesso: ele próprio.

Nessa comissão, como na anterior, a bancada governista não se deu conta do risco que corria. Descobriu-o há poucas semanas, quando "Paulinho" começou a colaborar com a Viúva. De saída, devolverá os US$ 23 milhões guardados em sua conta suíça, revelação ocorrida no dia seguinte ao seu depoimento. Nessa faxina não houve a colaboração do PT.

Durante a campanha eleitoral de 2006, o comissariado encurralou o tucanato, acusando-o de ter tentado privatizar a Petrobras. Era mentira, mas deu certo. Passados oito anos, Lula requentou o truque, mas há uma diferença: uma pessoa de boa-fé podia acreditar que os tucanos quisessem privatizar a Petrobras, mas fica-lhe difícil achar que falar em petrorroubalheiras possa prejudicar a empresa.

A corrupção na Petrobras e nas estatais

Gil Castello Branco (*)
O Globo

Recursos volumosos, ingerência política e pouca transparência fizeram dessas empresas a Disneylândia dos políticos

A cada novo escândalo envolvendo as empresas estatais, lembro-me de frase curiosa do diplomata e economista Roberto Campos: “A diferença entre a empresa privada e a empresa pública é que aquela é controlada pelo governo, e esta por ninguém.”

No Brasil, mesmo após tantas discussões sobre as privatizações, ainda existe uma centena de empresas estatais que empregam mais de meio milhão de funcionários e movimentam, anualmente, R$ 1,4 trilhão, montante superior ao PIB da Argentina. Apenas os investimentos do Grupo Petrobras no ano passado somaram R$ 99,2 bilhões, o dobro dos investimentos federais dos Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).

A conjunção de recursos volumosos, ingerência política e pouca transparência fez das estatais a Disneylândia dos políticos. Afinal, parafraseando Milton Nascimento na canção “Nos bailes da vida”, o corrupto vai aonde o dinheiro está. O ex-deputado e hoje condenado Roberto Jefferson, no seu livro “Nervos de aço”, referindo-se aos Correios, confessa: “... é evidente que as nomeações feitas pelo PTB se prendiam, sim, a uma estratégia de captação de recursos eleitorais. Nunca neguei isso.”

Essa lógica parece ser a mesma da camarilha infestada na Petrobras para intermediar negócios entre empreiteiras, prestadoras de serviços e políticos. A cada contrato, 3% para a patota. Se o próprio ex-diretor de operações Paulo Costa se ofereceu para devolver US$ 23 milhões, dá para imaginar o tamanho do rombo. A movimentação financeira irregular já identificada na operação Lava-Jato chega a R$ 10 bilhões, oriundos não só do desvio de dinheiro público, mas também de tráfico de drogas e contrabando de pedras preciosas. A importância faz o mensalão (R$ 141 milhões) parecer roubo de galinha.

De fato, as estatais são figurinhas carimbadas nos escândalos recentes. Com as eleições cada vez mais caras — e muitos ainda se valem dos pleitos para aumentar o próprio patrimônio — os partidos aparelham as empresas indicando “operadores” ou utilizam servidores de carreira filiados para viabilizar ganhos ilícitos em obras, contratos de prestação de serviços, aquisição de equipamentos ou, ainda, nos fundos de pensão. Quanto mais esses delinquentes “arrecadam”, mais são valorizados politicamente.

Como consequência da interferência do governo, a Petrobras e a Eletrobras se apequenaram como “autarquias” vinculadas ao Ministério da Fazenda, reféns da política econômica. Na Petrobras, a contenção dos preços dos combustíveis, para empurrar a inflação com a barriga até depois das eleições, afetou o caixa e a rentabilidade da empresa. Na Eletrobras, as ações viraram “mico” após o subsídio ao uso das usinas térmicas e a redução das tarifas de energia. Em 2013, segundo cálculos do economista José Roberto Afonso, as duas estatais tiveram déficit primário de 0,71% do Produto Interno Bruto (0,09% para a Eletrobras e 0,62% para a Petrobras). Em conjunto, investiram 2,2% do PIB, mas tomaram 1,58% do mesmo em operações de crédito. Se fossem empresas privadas, quebrariam.

As estatais fogem da transparência como o diabo da cruz. Incluídas na Lei de Acesso à Informação (lei 12.527), pressionaram o governo e foram praticamente excluídas da obrigatoriedade de prestarem informações à sociedade pelo decreto 7.724. Algumas situações beiram o ridículo. No primeiro dia da vigência da lei, a Associação Contas Abertas solicitou à Petrobras o Programa de Dispêndios Globais (PDG), conjunto de informações relacionado às receitas, dispêndios e necessidades de financiamento. A empresa negou sob a alegação de que “a informação não podia ser fornecida por comprometer a competitividade, a governança corporativa e/ou os interesses dos acionistas minoritários”. O próprio governo federal enviou-nos os dados.

Na verdade, o que hoje compromete a governança das estatais é, justamente, a falta de transparência. Os investimentos das estatais em julho, por exemplo, só serão conhecidos no fim de setembro. Sequer existe um portal com informações atualizadas e detalhadas sobre esse segmento. Na Petrobras, os mistérios são tantos que a Diretoria e o Conselho de Administração sequer desconfiavam do que Dilma e Lula costumam chamar de “malfeito”, expressão que minha avó usava quando fazia um bolo e ele solava. No bom português, o que aconteceu na Petrobras envolve peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

Voltando à frase de Roberto Campos, já é tempo de as empresas públicas serem controladas pela sociedade.

(*) Gil Castello Branco é economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas

Demolição de valores

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Mantido o rumo pelo qual enveredou a campanha à Presidência da República, o que se pode esperar dos próximos 18 dias até o primeiro turno e depois mais 20 antes da etapa final não é um clima emocionante típico das eleições bem disputadas, como pareceu quando Marina Silva entrou na competição.

Disputas pressupõem confrontações de argumentos, embates travados mediante a observância de determinadas regras. Pois o que temos no cenário desde que o governo decidiu mandar às favas os escrúpulos e fazer o diabo para tentar vencer as eleições não guarda a menor relação com troca de argumentos e muito menos com obediência a qualquer tipo de regra.

Por ora há uma perplexidade. Um pouco pela falta de cerimônia no uso de mentiras tão deslavadamente mentirosas, um pouco pelo fato de ainda haver um contingente disposto a acreditar nelas.

Daqui a pouco poderá haver um cansaço com a atuação de uma gente que mente e reiteradamente se desmente sem a preocupação de preservar a própria biografia ou respeitar a liturgia do cargo.

Além de candidata, Dilma Rousseff é presidente da República. Ao mesmo tempo em que ter certas prerrogativas que lhe dão vantagens inerentes ao posto, tem deveres decorrentes da função que a diferenciam dos demais concorrentes.

O grau irrepreensível “no que se refere” à compostura é um deles. O comedimento, a austeridade sempre invocada como uma de suas qualidades não autoriza sua chancela no uso de mentiras. Muito menos que se faça pessoalmente porta-voz delas. Embora não condiga com seu discurso de correção é o que vem fazendo.

A presidente está dizendo ao povo que governa que os adversários vão acabar com esse ou aquele benefício social, que vão tirar verbas da saúde e da educação, que empresários e banqueiros se regozijam com a fome do brasileiro, que o governo do PT combate como ninguém a corrupção.

Ainda que os adversários quisessem mesmo acabar com os benefícios, vender a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, reduzir os investimentos em saúde e educação. De onde a presidente tirou isso se nunca disseram nada parecido? Da cabeça de seus conselheiros que a mandaram repetir tudo isso.

E o combate à corrupção? Tema evitado a todo custo pelo governo. Se fosse tão espetacular como se diz agora no horário eleitoral, o assunto já estaria muito antes entre os “grandes feitos” e não deixado para ser incluído quando começa a se fechar o cerco a respeito dos esquemas na Petrobras.

Isso dito quando se viram tantos escândalos serem abafados. Sem contar o fato de a antiga cúpula do partido estar quase toda na cadeia por força de um julgamento tido pelo PT como produto de um “tribunal de exceção”.

Nessa nova fase até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que andava meio arisco, se animou a aparecer exercendo seu conhecido dom de iludir – quem quer ser iludido, bem entendido. No ato público desta segunda-feira, no Rio, onde se pretendia “abraçar” a Petrobras, mas que o público presente não foi suficiente para um aperto de mão, Lula voltou a atacar o financiamento privado de campanhas. Disse que deveria ser crime inafiançável.

No mesmo dia circulava um e-mail do PT a empresários apresentando, em nome de Dilma, “a oportunidade de contribuir financeiramente para a campanha da reeleição da presidenta da República”, no que a correspondência qualificava como uma “ação empresarial cidadã”.

É de se imaginar que o governo queime pontes confiando que, reeleito, poderá reconstruí-las pelo poder que a vitória tem de curar feridas. Agora pensa exclusivamente nas eleições. Por dever de responsabilidade conviria pensar que além de uma eleição há um país a ser governado e que não merece assistir a tão completa e definitiva escalada de demolição de valores.

Os perdedores

Demétrio Magnoli
Folha de São Paulo

O PT investe na indignidade e na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu

A semente transgênica e o Código Florestal; a hidrelétrica e a licença ambiental; os evangélicos e os jovens libertários; o Estado e as ONGs; os serviços públicos e os tributos; a "nova política" e o Congresso; a política e os partidos; o PSB e a Rede. Na candidatura de Marina Silva, não é difícil traçar círculos de giz em torno de ângulos agudos, superfícies de tensão, contradições represadas. O PT preferiu investir na indignidade, na mentira, na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu.

As peças incendiárias de marketing, referenciadas no pré-sal e na independência do Banco Central, inscrevem-se na esfera da delinquência eleitoral. A primeira organiza-se em torno de uma mentira (a suposta recusa de explorar o pré-sal), de cujo seio emana um corolário onírico (a "retirada" de centenas de bilhões de reais supostos e futuros da Educação). A segunda converte em escândalo um modelo que pode ser legitimamente combatido, mas está em vigor nos EUA, no Canadá, no Japão, na União Europeia, na Grã-Bretanha e no Chile --e que, no Brasil, surgiu embrionariamente sob Lula, durante a gestão de Henrique Meirelles.

Na TV, o partido do governo acusa a candidata desafiante de conspirar com banqueiros para lançar os pobres no abismo da miséria. O fenômeno vexaminoso não chega a causar comoção, pois tem precedentes. Contra Alckmin (2006) e Serra (2010), o PT difundiu as torpezas de que pretendiam privatizar a Petrobras e cortar os benefícios do Bolsa Família, ambas já reprisadas para atingir Marina. A diferença, significativa apenas no plano eleitoral, está na circunstância de que, agora, a ignomínia entrou no jogo antes do primeiro turno. A semelhança, por outro lado, evidencia que o PT aposta na ignorância, na desinformação, na pobreza intelectual --enfim, no fracasso do país.

Algo se rompeu quando eclodiu o escândalo do mensalão. Naquela hora, os intelectuais do PT depredaram a praça do debate político, ensinando ao partido que a saída era qualificar a imprensa como "mídia golpista" e descer às trincheiras de uma guerra contra a opinião pública. A lição deu frutos envenenados. O STF converteu-se em "tribunal de exceção", e os políticos corruptos, em "presos políticos". Os críticos passaram a ser classificados como representantes da "elite branca paulista" (se apontam as incongruências da "nova matriz econômica"), "fascistas" (se nomeiam como ditadura todas as ditaduras, inclusive as "de esquerda") ou "racistas" (se objetam às leis de preferências raciais).

O projeto de um partido moderno de esquerda dissolveu-se num pote de ácido que corrói a convivência com a opinião dissonante. Do antigo PT, partido da mudança, resta uma sombra esmaecida. As estatísticas desagregadas das sondagens eleitorais revelam o sentido da regressão histórica. A presidente-candidata tem suas fortalezas no Nordeste e no Norte, nas cidades pequenas e entre os menos escolarizados, mas enfrenta forte rejeição no Centro-Sul, nas metrópoles e entre os jovens. Não é um "voto de classe", como interpretam cientistas políticos embriagados com um economicismo primário que confundem com marxismo. É um voto do país que, ainda muito pobre, depende essencialmente do Estado. A antiga Arena vencia assim, espelhando um atraso social persistente.

Obviamente, a regressão tem causas múltiplas, ligadas à experiência de 12 anos de governos lulopetistas que estimularam o consumo de bens privados, mas não produziram bens públicos adequados a um país de renda média. A linguagem, contudo, ocupa um lugar significativo. O país moderno, cujos contornos atravessam todas as regiões, sabe identificar a empulhação, a mistificação e a truculência.

Na sua fúria destrutiva, a campanha de Dilma explode pontes, queima arquivos. O PT pode até triunfar nas eleições presidenciais, mas já perdeu o futuro.

As 'cartas sem selo' do PT

O Estado de S. Paulo
Editorial

Quando discutem os prós e os contras do direito à reeleição dos detentores de mandatos executivos, costuma-se pôr em um prato da balança os ganhos de estabilidade política e coerência administrativa proporcionados, nos regimes presidencialistas, pela possibilidade aberta a prefeitos, governadores e presidente da República de conquistar um segundo período de governo. No outro prato, contrapõe-se o inevitável desequilíbrio de oportunidades eleitorais que a modalidade acarreta.

À parte quaisquer outros fatores e as eventuais medidas para aplainar por igual o campo da disputa, mesmo o mais austero e ético dos candidatos incumbentes dificilmente abrirá mão dos seus recursos de poder para percorrer com o máximo de conforto a nova jornada rumo às urnas. O fato de, nos Estados Unidos, a regra ser a reeleição do ocupante da Casa Branca e a grande exceção ser o seu despejo não resulta de uma improvável superioridade intrínseca dos mandatários de turno sobre os rivais empenhados em desalojá-los.

A menos que carreguem nas costas quatro anos de governo desastroso ou sejam responsabilizados por um único fiasco de grandes proporções - como o patético fracasso da expedição ordenada em abril de 1980 pelo então presidente Jimmy Carter para resgatar 52 reféns americanos no Irã, o que acabou com as suas chances de reeleição -, o tiro de largada das corridas presidenciais já encontra o ocupante do cargo à frente dos adversários de prontidão na raia.

Mas, conforme a mentalidade do interessado e os usos e costumes de seu partido, não há preço que pague manter, se não ampliar, essa vantagem. A expressão, nesses casos, não se esgota no sentido estrito de gastança desabrida pelo voto nem tampouco na posta em marcha de grandes baixarias para solapar, entre as parcelas mais desinformadas do eleitorado, eventuais preferências por um ou outro dos demais candidatos. Abrange também um vasto rol de malandragens comparativamente miúdas.

Quando vem a público um desses "pequenos assassinatos", entende-se melhor o que significa, no nível da sarjeta, "fazer o diabo" para ganhar eleições, na inesquecível confissão da petista Dilma Rousseff. O exemplo da hora é o trambique armado nos Correios pela sua campanha. Quando um usuário se prepara para despachar um grande número de mensagens do mesmo tipo - a chamada "mala direta postal domiciliária" -, deve ele próprio chancelar, uma a uma, as peças a serem enviadas.

Ou seja, imprimir os seus dados. Tratando-se de propaganda eleitoral, devem constar ainda o nome do remetente, o CNPJ, o ano do pleito e a origem da postagem. Isso é necessário para que os Correios saibam quantos exemplares farão chegar aos destinatários e cobrar de acordo. Mas, como apuraram os repórteres Andreza Matais e Fábio Fabrini, da sucursal de Brasília do Estado, a estatal aceitou entregar alegados 4,8 milhões de folhetos pedindo votos para Dilma sem o necessário registro de controle. "Alegados" porque, embora a campanha tenha pago pelo serviço, não se tem como conferir se o total foi de fato aquele ou maior.

"O cara entrega 1 milhão de impressos para serem distribuídos", argumenta o ex-presidente dos Correios João Henrique de Almeida Souza. "Se não tiver a chancela, como é que eu sei se a quantidade é essa mesma?". "É como entregar uma carta sem o selo", resume o coordenador-geral do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telégrafos, Luís Aparecido de Moraes. Quem autorizou, "em caráter excepcional", a remessa daqueles milhões de cartas sem selo foi um departamento da empresa chefiado por um certo Wilson Abadio de Oliveira, afilhado político do vice de Dilma, o peemedebista Michel Temer.

Em nota, os Correios justificaram a facilidade a pedido do PT para não ter de inutilizar o material. A autorização, prevista nos seus procedimentos, já teria sido dada a clientes, não identificados, "de diversos partidos políticos". De todo modo, é sabido que a estatal se tornou um feudo do PT desde que, em fins de 2010, Dilma nomeou para comandá-la o sindicalista Wagner Pinheiro, filiado à legenda no Rio de Janeiro. Os petistas radicalizaram a lei de Gérson: nada é pequeno demais para dele não se tirar vantagem.

Aquarela tropical.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Se só existe no Brasil, e não é jabuticaba, é preciso tomar cuidado.

José Peixoto Filho e seu pai José Peixoto, 76 anos, foram assaltados a mão armada em Cascavel, Paraná. Reagiram e mataram os dois assaltantes. Peixoto Filho, ferido, foi preso e hospitalizado. Peixoto pai foi preso, passou a noite na cadeia e um juiz teve de soltá-lo. O juiz também suspendeu a prisão do filho. Uma boa notícia: quem é assaltado deixou de ser criminoso e voltou a ser vítima. 

Os líderes do grupo de sem-teto que atacou a PM, em São Paulo, para impedi-la de cumprir uma ordem judicial de reintegração de posse, levando a tumultos e incêndio de ônibus, são Ricardo Bonfim, da liderança do PT na Assembléia paulista, Osmar Silva Borges e Vera Eunice, ambos da Cohab, da Prefeitura paulistana, todos pagos com dinheiro público. O prefeito é Fernando Haddad, do PT.

O caro leitor consegue enviar qualquer coisa pelo Correio sem selo ou autenticação mecânica do pagamento? Não? Então não conhece as pessoas certas. Por ordem da Diretoria Regional Metropolitana de São Paulo, chefiada por Wilson Abadio de Oliveira, ligado a Michel Temer, PMDB, vice de Dilma e candidato à reeleição, os Correios estão enviando, "em caráter excepcional", pouco menos de cinco milhões de panfletos da chapa Dilma-Temer. A norma exige chancela em cada panfleto, com nome e CNPJ do candidato e o ano da eleição - e o objetivo é atestar que o envio foi devidamente pago. Mas comprovar o pagamento é para os fracos. 

Quem conhece gente certa faz como gosta, do jeito que quer.

Bons olhos
Por falar em Michel Temer, ele manifestou a certeza absoluta de que Dilma vencerá as eleições presidenciais, sem qualquer possibilidade de derrota. O motivo, sustenta, é econômico: "O Brasil está crescendo fantasticamente". 

Experiente, calejado, acostumado a campanhas, Temer diz isso sem sequer ruborizar-se.

Perigo: é um livro! 
Correio, ainda. Está na coluna Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br), coluna de Cláudio Humberto, sob o título "Bomba? Arma? Um livro"

"Ministro de Dilma, que pediu para não ser identificado, fez encomenda numa livraria de Buenos Aires, e no dia seguinte o livro lhe foi enviado. Mas ficou retido na burocracia dos Correios e da Receita brasileira por 40 dias. Certamente tentavam decifrar que objeto estranho era aquele".

Batizado de boneca
Numa frase imortal, Dilma disse que, em época de eleição, pode-se fazer o diabo. Pois é: a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo está promovendo (e pagando, claro) um "ato de lançamento do edital para as obras do Hospital Municipal da Brasilândia", com a presença do prefeito petista Fernando Haddad. 

Inaugurar uma obra, vá lá. Há até os exagerados que fazem festa de lançamento da pedra fundamental, mesmo sem saber se a obra vai ou não sair do papel. Mas ato de lançamento do edital é meio muito: é como ir a batizado de boneca. Se a moda pega, só de edital de trem-bala já deve ter uns cinco. Tudo bem, haverá eleições, o candidato petista em São Paulo vai mal, mas precisava exagerar?

Cruzando destinos
Octavio Mangabeira, lendário político baiano, criou uma frase clássica: "Pense num absurdo. Na Bahia tem precedente". Luiz Fernando Veríssimo, ótimo escritor gaúcho, diz, sobre outro Estado, que qualquer pessoa que se destaque por qualquer motivo, em qualquer parte do mundo, terá parentes no Interior do Paraná (a frase surgiu quando descobriram parentes paranaenses do papa polonês João Paulo 2º). 

Às vezes, os Estados trocam de lugar e o absurdo agora é paranaense. Como aqui: o vencedor da Mega-Sena de 6 de setembro, logo depois de retirar o prêmio de R$ 7 milhões, foi preso. Estava condenado por estelionato - e, pior ainda, quem o levou à prisão foi um parente que quis protegê-lo de extorsão.

A vida como ela é
O nome do sortudo sem sorte não foi divulgado. Mas deu-se que, tão logo recebeu o dinheiro, foi a uma agência bancária de Campo Largo, pertinho de Curitiba, com quatro pessoas, uma delas sua advogada, para sacar R$ 50 mil. Um parente imaginou (provavelmente estava certo) que havia extorsão, e chamou a Polícia. Verificou-se então que o sortudo sem sorte era foragido da Justiça. Foi direto para a prisão. E a advogada também foi presa, por suspeita de chantagem. A Polícia não informou o que aconteceu com os outros três envolvidos.

Numeralha
Pra não dizer que este colunista não falou de pesquisas (eta, assunto chato!), a próxima ocasião em que os principais candidatos à Presidência proclamarão a inevitabilidade de sua vitória e seu explosivo crescimento nas intenções de voto será na terça-feira (talvez quarta). O Ibope já iniciou as entrevistas para a nova pesquisa, contratada pela Rede Globo e O Estado de S. Paulo.

Tudo como antes
É maldade dizer que, ao demitir Guido Mantega com quatro meses de antecedência, Dilma o transformou num fantasma despido de autoridade. A demissão pode ter sido deselegante, mas Mantega continua o mesmo que sempre foi. 

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O tamanho do pré-sal

Cristovam Buarque
O Globo 

Brasil não cabe dentro de um poço de petróleo, nem deve esperar por ele

Não usar a riqueza do pré-sal seria uma estupidez, usá-la para iludir a nação é uma indecência. As estimativas para as reservas do pré-sal podem não ser exatas, mas não são mitos, são resultados de pesquisas geológicas; a exploração na sua profundidade não é um mito, a engenharia dispõe de ferramentas; a crença de que pode ser feita sem riscos para a ecologia não é um mito, embora haja exemplos de vazamentos em campos similares; a expectativa de que a demanda e os preços continuarão altos não é um mito, apesar das novas fontes.

Mito, contudo, é a afirmação de que o pré-sal mudará a realidade brasileira.

Se tudo der certo, em 2036 a receita líquida prevista do setor petrolífero corresponderá a R$ 100 bilhões, aproximadamente R$ 448 por brasileiro, quando a renda per capita será de R$ 27.800, estimando crescimento de 2% ao ano para o PIB. Apesar da dimensão da sua riqueza, o pré-sal não terá o impacto que o governo tenta passar. Explorá-lo é correto, concentrar sua receita na educação é ainda mais correto, mas é indecente usar o pré-sal como uma ilusão para enganar a nação e como mecanismo para justificar o adiamento de investimentos em educação.

O Brasil não cabe dentro de um poço de petróleo, nem deve esperar por ele.

Mito também é a afirmação de que a educação brasileira será universalizada e dará um salto de qualidade graças ao pré-sal. Em 2030, uma educação de qualidade universal custará cerca de R$ 511 bilhões, para o custo/aluno/ano de R$ 9.500. Se tudo der certo, a totalidade dos recursos do setor petrolífero destinada à educação corresponderá a R$ 37 bilhões, apenas 7,2% do necessário.

Também é um mito dizer que o atual governo teve a iniciativa da proposta de investir 75% dos royalties do petróleo em educação. A partir do momento da descoberta do pré-sal, 44 projetos de lei foram apresentados na Câmara e no Senado.

Mas foi com a aprovação do substitutivo PLC 41/2013 ao PL 323/2007, do deputado Brizola Neto, em 14/8/2013, após parecer favorável do deputado André Figueiredo (PDT-CE), que se determinou o destino de 100% dos royalties para a educação e a saúde. As atas mostram que os líderes da base de apoio ao governo tentaram impedir a aprovação, mas foram derrotados no voto.

Além de não serem destinados à educação os R$ 15 bilhões dos Bônus de Assinatura do Leilão do Campo de Libra, os recursos dos royalties não estão sendo aplicados. Até 28 de agosto, um ano depois da sanção da lei, apenas R$ 912 milhões foram efetivamente transferidos para o Ministério da Educação, ou seja, somente 13,5% do valor de R$ 4,2 bilhões previsto pela Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2014.

Enquanto o mundo vive uma revolução no conhecimento, estamos ficando para trás, eufóricos com a promessa de mudar nossa triste realidade educacional no futuro distante, com base em um recurso ainda na profundidade de sete mil metros e que não será suficiente. E o pouco prometido não está sendo cumprido.

Jogo indefinido

Folha de São Paulo
Editorial 

Gradual decréscimo de Marina Silva nas pesquisas se explica tanto pelos ataques recebidos como por fragilidades próprias

Os números da última pesquisa do Datafolha parecem dar consistência à tese de que haveria um componente emocional na súbita ascensão das preferências por Marina Silva (PSB) após o acidente que vitimou seu companheiro de chapa, Eduardo Campos.

A solidariedade diante da tragédia ou a repentina descoberta, por parte do eleitorado, de que a disputa presidencial não se resumia à alternativa entre PT e PSDB estariam, assim, por trás dos altos índices atingidos pela candidata.

Dos 21% que obtinha no levantamento realizado em 14 e 15 de agosto, imediatamente após a morte de Campos, Marina Silva passaria a 34% duas semanas depois, empatando com a primeira colocada, a presidente Dilma Rousseff (PT).

Se o fator emocional fosse o mais determinante, contudo, o declínio da ex-ministra do Meio Ambiente seria mais acentuado. Mas sua trajetória cadente nas últimas semanas se mostra bastante gradual --e acompanhada de discreta recuperação nos índices tanto de Dilma como de Aécio Neves (PSDB).

Ainda que muitas causas possam ser atribuídas a essa oscilação sutil, é plausível que, antes de um fenômeno puramente emocional, esteja em curso uma corrosão política da postulação marinista.

Não foram poucos os ataques que recebeu. Houve a tentativa de lhe atribuir uma imagem de subserviência ao mercado financeiro --como se o PT, em desespero de causa, estivesse de volta aos tempos estreitos de 1989--, assim como uma incipiente campanha do medo em torno da inconvincente ideia de que sua vitória poderia acarretar o fim do Bolsa Família.

A tática poderá ter surtido efeito nos setores de menor renda do eleitorado; nos municípios com menos de 200 mil habitantes, foi especialmente intenso o crescimento dos índices de rejeição à pessebista.

Também se vê a queda, porém, em outras parcelas da sociedade. Desse ponto de vista, a ofensiva dos adversários de Marina pode ser entendida como a tradução publicitária das fragilidades e inconsistências de sua própria candidatura.

Desmentidos sucessivos e ajustes emergenciais de discurso --na questão do casamento homoafetivo, na política energética, nas relações com o agronegócio, nas diferenças de imagem entre ela e seu vice-- talvez sejam sinal do quanto uma postulação de "terceira via" ainda carece de maturação ideológica para blindar-se contra as investidas dos oponentes.

Quanto a estes, beneficiam-se de uma divisão ideológica real, a que entretanto se esquivam numa mesma inexplicitude programática. A velha política --da qual Marina Silva, aliás, não se afasta tanto quanto quer aparentar-- continua, silenciosamente, a dar suas cartas num jogo ainda indefinido.

Abarrotadas, as gavetas da República explodem

Josias de Souza


Dilma Rousseff tem orgulho de dizer: “Ao longo da minha vida tive sempre tolerância zero com corrupção.” Mas o destino —essa fração de segundo em que o sinal muda de verde para amarelo e a pessoa é intimada a decidir se para ou avança— pregou-lhe uma peça. Na hora em que ela reivindica um segundo mandato, as gavetas da República começaram a explodir ao seu redor. São explosões incontroláveis.

A inevitabilidade dos estrondos é proporcional à quantidade de bombas estocada nas gavetas. Há nitroglicerina demais. Tanta nitroglicerina que já não é possível negociar o que será insinuado e o que permanecerá escondido. Até agora, Dilma não demonstrou desejo de parar. Diante do sinal amarelo, ela aperta o botão do ‘eu não sabia’ e pisa no acelerador. Pena, mas nada impede que enxergue o freio.

A plateia ainda não sabe o tamanho do estrago produzido pela autoimplosão de Paulo Roberto Costa. Sabe-se que a delação do ex-diretor da Petrobras balançará o coreto de autoridades, estilhaçando-lhes as coligações. Mas não ficou claro, por ora, o grau de comprometimento dos alicerces do Planalto. Infelizmente, a visitação aos escombros não deve ser liberada antes das eleições.

Enquanto tenta desviar sua candidatura do óleo derramado na pista da sucessão pelo delator Paulinho, como o chamava Lula, Dilma é surpreendida por outra bomba—dessa vez uma bomba de efeito retardado. Foi armada por Renan Calheiros. Deveria ter ido pelos ares em 2007. Mas, com a ajuda de Lula, o artefato desceu à gaveta. Que a Procuradoria da República acaba de abrir.

Seis procuradores da República protocolaram na 14ª Vara Federal do Distrito Federal uma ação por improbidade administrativa contra o presidente do Senado. Nela, Renan é acusado de pagar com propinas recebidas da empreiteira Mendes Júnior a pensão de uma filha que teve em relacionamento extraconjugal. Em troca, acusam os procuradores, o senador pendurou no Orçamento da União emendas que bancaram obras da firma corruptora.

Quando o caso veio à luz, em 2007, Renan já presidia o Senado. E Lula, solidário com seu drama, ajudou-o a mobilizar o consórcio governista para enterrar o escândalo vivo. Combinou-se na ocasião que o Conselho de Ética encamparia a tese de que o dinheiro repassado à ex-amante de Renan viera da venda do gado. E os brasileiros seriam convidados a se fingir de bobos. Pelo bem da República.

Produziram-se dois relatórios atestando a falta de provas para a cassação do mandato de Renan —um foi subscrito por Romeu Tuma, já morto. Outro, por Epitácio Cafeteira, ainda muito vivo. Sabia-se que fechar os olhos piorava a palhaçada. Mas dizia-se que não convinha arriscar a estabilidade do Legislativo e a própria governabilidade em nome de algo tão relativo e politicamente supérfluo como a verdade.

Todos se encaminhavam para aceitar a combinação de que nada ocorrera. Mas, de repente, a imprensa golpista demonstrou que a boiada que Renan apresentara para justificar suas despesas era feita de notas frias. Um rebanho de dúvidas passou a transitar pelos salões do Senado. De novo, combinou-se que as reses não estavam ali. Num grande acordo, Renan renunciou à Presidência do Senado e seus pares abstiveram-se de passar o mandato dele na lâmina.

Em fevereiro do ano passado, como se nada houvesse sucedido, Renan foi devolvido ao comando do Senado. Dias antes da aprovação do nome dele em plenário, o então procurador-geral da República Roberto Gurgel denunciou-o ao STF. Servindo-se do mesmo caso que mistura lençóis, verbas orçamentárias e propinas, Gurgel acusou Renan de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso.

A despeito de tudo, Renan obteve de volta, já sob Dilma, a poltrona de presidente do Senado. Amealhou votos de governistas e de oposicionistas. O PSDB entregou-lhe oito decisivos votos. Decorridos dezenove meses, ouve-se a explosão da nova ação judicial. O barulho chega na hora em que Renan emerge da lista de supostos recebedores de propinas cavadas na Petrobras. Uma bomba se interconecta com a outra.

Noutros tempos, as explosões eram resolvidas mais facilmente. As autoridades faziam cara de nojo em público, cobravam a cumplicidade dos aliados em privado e confiavam na pré-disposição da plateia para engolir histórias mal contadas. As prisões do mensalão geraram uma dúvida: de que tamanho precisa ficar o embaraço para que o brasileiro, já tão habituado ao papel de tolo, possa considerá-lo aceitável? A paciência parece ter diminuído. Além das gavetas, a desfaçatez encheu o saco.

Dilma sem coragem de apresentar um programa de governo (se é que ela tem algum).

Carlos Chagas
Tribuna da Internet


Apesar da perda de algum oxigênio, Marina Silva ainda pode ser tida como vitoriosa no segundo turno das eleições presidenciais. O problema, para ela, é se seus percentuais continuarem na baixa. Revelada ontem, a pesquisa do Datafolha indica empate técnico com Dilma Rousseff.

A semana termina com uma informação negativa para a presidente: ela teria desistido de apresentar seu programa de governo, devido a divergências com os diversos grupos do PT. Faltou coragem para enfrentar críticas daqueles que tiverem sido derrotados em suas sugestões.

Pior a emenda do que o soneto, diriam nossos avós. A conclusão a tirar é de que o segundo mandato, se for conquistado, será igual ao primeiro. No que se refere às leis trabalhistas, continuará tudo como está, quer dizer, nenhum avanço. Quanto a recuos e supressões, exigências do empresariado, fica a dúvida. Ora Dilma admite que novas relações de trabalho impõem nova legislação, ora jura que não reduzirá direitos do trabalhador. Pode estar, com sua indecisão, desagradando patrões e empregados.

Um dos males da reeleição é esse: presidentes, governadores e prefeitos não podem disputar votos prometendo grandes mudanças. Seria confessar fracasso no primeiro mandato.

DISSIDENTE DECLARADO
O senador Cristovam Buarque abriu o jogo, esta semana. Apesar de seu partido, o PDT, apoiar a reeleição da presidente Dilma, ele votará em Marina Silva. Acredita que a candidata terá condições, se eleita, de iniciar profunda revisão na política educacional. Nada que se resolva durante um mandato, pois a tarefa é para vinte ou trinta anos, mas importa começar.

O ex-governador faz críticas à propaganda de muitos governantes de que estão estabelecendo o tempo integral nas escolas. Não adianta deixar os alunos depois do almoço passarem a tarde inteira jogando futebol num campinho improvisado. É necessária infraestrutura para o aproveitamento do tempo.

A guerra dos companheiros

Ruy Fabiano
Blog do Noblat

O “abraço à Petrobras”, empreendido no início da semana pelo PT, na sede da empresa, no Rio, faz lembrar o clássico ditado policial de que “o criminoso sempre volta ao local do crime”.

Desta vez, não para avaliar os danos, como observador oculto, mas para testar às escâncaras sua capacidade de virar o jogo. Em meio às mais cabeludas denúncias, produzidas pelo ex-diretor de Abastecimento e Refino, Paulo Roberto Costa – que pontificou nos dois governos de Lula e na metade do de Dilma -, o PT testou a tese de que a melhor defesa é o ataque. Falhou.

Em sua campanha, Dilma quer transformar as denúncias de assalto à empresa – e a respectiva cobrança por investigações - em tentativa de sabotagem, imputando, de quebra, a Marina Silva o sórdido objetivo de liquidar o pré-sal. É o “pega ladrão!”, mas gritado pelo próprio ladrão. Já funcionou antes.

O mais significativo no ato, porém, não foi ele em si, mas a escassa presença de manifestantes. Lá estava a militância de sempre, acrescida do MST, que dela sempre fez parte. Povo mesmo não se viu. A Polícia Militar registrou cerca de 600 pessoas.

No passado recente, seriam milhares e milhares. Onde estão? Terá o PT perdido musculatura onde há muito reinava? Aparentemente, sim. A candidatura de Marina dividiu a esquerda e os chamados movimentos sociais. Não se sabe ainda em que escala, mas não há dúvida de que houve quebra de unidade.

O que se assiste é uma guerra civil entre companheiros. Não é uma guerra de ideias, mas por cargos, o que explica a fúria de quem se sente ameaçado com o desemprego. É mais fácil, em política, absorver a derrota de uma ideia que a perda de um cargo.

O sucesso do PT decorre de sua capacidade de mobilizar a sociedade, que aparelhou com paciência e método desde os tempos em que era oposição. Ao assumir o governo, consolidou esse domínio, por meio de ONGs, abastecidas com dinheiro público.

Os diversos movimentos que hoje se apresentam como sendo o rosto da sociedade civil – de gays, negros, feministas, ambientalistas, índios e universitários – estão atrelados ao guarda-chuva da nave mãe, que é o PT. 

Isso permitiu que o partido promovesse o impeachment de um presidente da República, Fernando Collor, por razões que hoje, diante das dimensões do Mensalão e do Petrolão, seriam risíveis.

Indignação depende de mobilização – e esta depende de verba. Antes de chegar ao poder federal, o PT já mobilizava seus governos estaduais e municipais para estabelecer sua engenharia social. A captação de recursos a qualquer preço deixou alguns rastros de sangue, como as mortes dos prefeitos de Campinas, Toninho do PT, e de Santo André, Celso Daniel, que o partido absorve como acidentes de trabalho.

Uma vez na Presidência da República, apossou-se não da sociedade real, mas de sua tribuna, erigindo como seus porta-vozes entidades como o MST, MTST, UNE e até a vetusta OAB. O universo das ONGs aparelhadas exerce o papel de intermediadora de recursos. Quando o partido quer colocar seu bloco na rua, aciona essa sofisticada e bem remunerada engrenagem e leva milhares aonde quer. Foi o que ocorreu em Brasília, em fevereiro, quando o MST ocupou a Esplanada dos Ministérios, feriu 30 PMs e viu sua baderna resultar numa audiência com a presidente da República.

Reclama-se que a oposição não faz nada diante de tantos escândalos. Não faz não porque não queira. Não dispõe dos instrumentos de militância, que não se improvisam.

O fenômeno Marina decorre, entre outros fatores, de que ela provém do mesmo ninho do PT, do qual é fundadora. Conhece a engrenagem e herdou parte dela. Em torno das causas ambiental e indígena, de que se tornou ícone, há milhares de ONGs que não temem sua eleição, já que não ameaça os espaços que ocupam.

Quanto a Aécio, padece da escassez de militância. Sua vitória depende de maioria espontânea, não impossível, mas bem mais difícil de obter sem os mecanismos de engenharia social que seu partido, como os que o antecederam no poder, negligenciou.

O PT aparelhou Estado e sociedade civil – e agora recorre a esta para não perder o domínio daquele. Perdeu musculatura, mas está longe de ter se tornado anêmico. A ferocidade vai aumentar.

Sarney, o maior cabo eleitoral de Marina

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Marina celebrou o ataque dele. Ninguém sabe a cara da nova política – e todos conhecem a velha

Não será o retrato do Brasil atual que elegerá Dilma, Marina ou Aécio. Cada candidato extrairá da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) os números que melhor sustentam seus discursos.

Não será o beijo de Chico Buarque na mão de Dilma que a reelegerá. Não será o beijo de Gilberto Gil na testa de Marina que elegerá aquela que passou fome na infância e se desgarrou do PT. Não será o apaixonado apoio das socialites que elegerá o tucano Aécio.

Não são os programas de governo que decidirão tampouco, porque, até sexta-feira, nem Dilma nem Aécio haviam tido a coragem de expor suas propostas. Não serão os evangélicos, os católicos ou os ateus que elegerão o novo presidente. Não serão os gays. Nem os héteros. Não serão as mulheres pró ou contra o direito ao aborto. Não serão os ambientalistas ou os devastadores da floresta. Não serão os banqueiros – esses então, nunca! Mesmo que seus lucros tenham batido recordes nos 12 anos de PT, os banqueiros são os piores cabos eleitorais neste Brasil hoje estagnado e com algumas bombas-relógio armadas por Dilma.

Não serão, claro, os jornalistas que elegerão o próximo presidente, num país que continua com 13 milhões de analfabetos, além dos 30 milhões de analfabetos funcionais, com dificuldade para interpretar um texto. O PT e os militantes totalitários que acusam a imprensa de “fascismo” esquecem que Lula foi incensado pelos mesmos jornais que estão aí hoje, ao ser eleito em 2002. Havia, na imprensa, a rejeição da estratégia falaciosa do medo – a mesma que Dilma usa hoje contra sua maior adversária, Marina.

Lula encarnava uma imensa esperança de o Brasil se tornar mais ético, com uma “nova política”, ancorada na ética e na honestidade. A palavra ética desapareceu para sempre dos programas e das bandeiras do PT. É muito improvável que figure no programa de Dilma. Cara de pau tem limite.

O eleitor, com fé e razão, esperava com o PT um Brasil que investisse pesado em educação, saúde, transporte, segurança e infraestrutura. Um Brasil cujo governo não escondesse dólares na cueca, na bolsa, no banco do carro, na valise. Um Brasil em que a roubalheira não se tornasse institucionalizada, e os desvios de verba pública não se tornassem tão corriqueiros, enlameando até a Petrobras.

Um Brasil que valorizasse a meritocracia, em vez de criar uma casta de “sindicalistas aspones” milionários. Um Brasil que não transformasse corruptos em conselheiros do Poder. Que não criasse mais de 30 Ministérios e mais de 20 mil cargos comissionados na administração direta. Esperávamos um Brasil que não trocasse projeto de governo por projeto de poder, em que o fim justifica os meios.

Será que, como diz Dilma, se Marina for eleita, “banqueiros” farão desaparecer a comida da mesa dos brasileiros? Dilma apoiou a autonomia do Banco Central em 2010 e já percebeu que exagerou ao transformar Marina na “exterminadora do futuro”. Onde está a Comissão da Verdade?

Nesse vendaval de mentiras, só engolidas pelos desinformados ou de má-fé, apareceu, nas hostes do governo, o maior cabo eleitoral de Marina até agora: José Sarney. “Dona Marina, com essa cara de santinha, mas (não tem) ninguém mais radical, mais raivosa, mais com vontade de ódio do que ela. Quando ela fala em diálogo, o que ela chama de diálogo é converter você.” Sarney estava em São Luís, no palanque de Lobão Filho (PMDB), filho do ministro Edison Lobão, candidato ao governo do Maranhão com seu apoio e de sua filha Roseana.

Sarney foi chamado por Lula, em 1986, de “grileiro do Maranhão” e, em 1987, de “o maior ladrão da Nova República” – perto de Sarney, Maluf não passava de “um trombadinha”. Com Lula eleito, viraram irmãos de sangue, prontos a duelar um pelo outro. Sarney sobreviveu incólume a acusações de improbidade, em três mandatos do PT, com a bênção e o beija-mão de Lula e Dilma. Tornou-se o coronel da Casa Grande de Brasília, o “homem incomum”. Imagino como Marina comemorou a declaração de Sarney.

Ninguém sabe direito a cara da nova política, mas todo mundo conhece a cara da velha. O mínimo que se pede ao novo presidente é honestidade. Dilma deve implorar a Collor que não a defenda em público e não ataque Marina. É que pega mal. Já chega o Sarney.

A desastrada revisão da Pnad 2013

O Globo
Editorial

O IBGE é inatacável, mas como a reputação do governo Dilma no manejo de estatísticas oficiais deixa a desejar, o tema deve entrar na agenda da campanha eleitoral

Em ano eleitoral, os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), um precioso retrato anual do Brasil que o IBGE elabora, tendem a ter diferentes leituras e interpretações, conforme a visão de cada candidato .

Foi o que aconteceu na quinta-feira, tão logo o IBGE divulgou a Pnad referente a 2013 com informações que soaram como música aos ouvidos dos candidatos de oposição: após 20 anos de queda ininterrupta, a concentração de renda voltou a aumentar, e, no ano passado, surgiu o primeiro sinal de que o mercado de trabalho, pujante desde 2009, fraquejava.

Mas ontem, uma entrevista coletiva foi convocada às pressas a fim de o IBGE comunicar que errara: a desigualdade de renda não só não aumentou, como diminuiu. O índice de Gini, usado nessas medições, não passara de 0,496 para 0,498 — quanto mais próximo de 1, pior —, mas caíra até 0,495.

A taxa de desemprego de 6,5% — acima dos 6,1% calculada em 2012 — foi mantida, porém a população desocupada cresceu menos: 6,3%, em vez de 7,2%.

O diretor de pesquisas da instituição, Roberto Olinto, explicou o erro, cometido na extrapolação para todo o país das informações levantadas na amostra. O equívoco técnico distorceu dados referentes a sete estados: São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas, Bahia, Pernambuco e Ceará, onde estão 59% da população brasileira.

Já na quinta-feira, ao comentar os resultados negativos, o ministro secretário de Assuntos Estratégicos, Marcelo Neri, ele mesmo um economista pesquisador neste campo, chamava a atenção para o fato de a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), também do IBGE, indicar uma redução da desigualdade de renda em 2014. Deduz-se que o IBGE recebeu ordens para rever os cálculos.

A instituição, pela reputação e história, é e continua inatacável. “Foi algo extremamente grave. Toda vez em que o IBGE erra, é nosso dever tornar isso público e pedir desculpas a toda a sociedade”, declarou a presidente do instituto, Wasmália Bivar. Fez bem.

Mas as circunstâncias não ajudam. A campanha eleitoral em si já amplificará as repercussões da revisão de última hora da Pnad, e mais ainda porque os novos cálculos devolveram à presidente-candidata argumentos para se apresentar nos palanques como campeã na luta contra a pobreza.

Por outro lado, o relacionamento tortuoso do governo Dilma com estatísticas oficiais sempre estimula suspeitas de malfeitos com os números. Difíceis de acreditar no caso do IBGE, reconheça-se.

Com a campanha eleitoral em fase de reta final para o primeiro turno, é possível, no entanto, que o conteúdo da pesquisa fique em segundo plano nos debates, infelizmente.

O Brasil e o próximo governo

O Estado de S. Paulo
Editorial

O próximo governo enfrentará juros mais altos no mercado internacional já no primeiro ano - e o aperto deverá aumentar em 2016, segundo as projeções da maioria dos dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). Para os americanos, essa mudança representará, principalmente, uma normalização da política monetária, depois de anos de juros básicos próximos de zero e de muito dinheiro emitido para facilitar a recuperação da economia. O ritmo da mudança nas condições de financiamento vai depender da criação de empregos e da evolução dos preços. Com a melhora dos negócios e o aumento das contratações, a inflação também deverá subir e convergir para a meta de 2%. Como contrapartida, a política será apertada e o crédito ficará mais caro e seletivo. O dinheiro será menos acessível, portanto, aos clientes com ficha menos favorável, sejam indivíduos, empresas ou países. Esta é mais uma excelente razão - e mais premente que nos últimos anos - para o governo brasileiro cuidar de sua credibilidade financeira e da blindagem do País contra choques externos.

Os mercados financeiros receberam o recado sobre as perspectivas de 2o15 e de 2016 na quarta-feira passada. Naquele dia, o Comitê Federal de Mercado Aberto, formado por diretores do Fed e responsável pela política monetária da maior economia do mundo, anunciou mais uma redução dos estímulos ao crescimento, mas com manutenção dos juros básicos na faixa de zero a 0,25% ao ano. Em outubro, o Fed reduzirá de US$ 25 bilhões para US$ 15 bilhões a compra de títulos do Tesouro e de papéis lastreados em hipotecas. Para realizar essa compra, a instituição emite dinheiro e com isso irriga os mercados. O corte mensal de US$ 10 bilhões foi iniciado em janeiro e poderá encerrar-se antes do fim do ano.

O Fed tem reduzido os estímulos porque a economia americana continua criando empregos e a produção segue em alta, depois de um tombo temporário no primeiro trimestre, explicável em grande parte pelo inverno excepcionalmente forte. Nos últimos três meses houve aumento mensal, em média, de 200 mil postos de trabalho. Esses postos foram abertos basicamente pelo setor privado, porque os governos continuaram ajustando suas finanças.

Apesar desses dados positivos, os membros do comitê avaliaram a melhora como insuficiente, porque muitos trabalhadores continuam desempregados ou empregados em tempo parcial, comentou a presidente do Fed, a economista Janet Yellen. Embora a taxa de desemprego, de 6,1%, seja cerca de 2 pontos inferior à de dois anos atrás, a maior parte do comitê considera ainda necessária uma política propícia ao crescimento econômico. Daí a decisão de manter "por um tempo considerável" uma política "altamente acomodatícia". Essa orientação inclui a conservação dos juros na faixa atual.

Ninguém define a extensão do "tempo considerável", mas, segundo a maioria dos dirigentes do Fed, será conveniente um primeiro aumento de juros no próximo ano. Catorze participantes da reunião apontaram 2015, enquanto 1 indicou 2014 e 2 mencionaram 2016. Em junho, esses palpites foram 12, 1 e 3. Os fatos poderão evoluir de forma diferente, até porque a elevação dos juros dependerá também da inflação. A taxa de 2%, segundo a projeção central, provavelmente só será alcançada em 2016.

O governo brasileiro tem, portanto, algum tempo para montar uma política mais apropriada às novas condições financeiras. Mas o tempo é curto, porque mudanças nas contas públicas são politicamente complicadas. Mas ninguém poderá alegar surpresa, mesmo porque a redução dos estímulos monetários nos Estados Unidos foi anunciada no primeiro semestre do ano passado. Além do mais, o mercado já está mudando e isso é normal.

Sobrou dinheiro no mercado internacional durante anos. O governo brasileiro foi incapaz de promover nesse período o fortalecimento e o crescimento da economia. A expansão média em quatro anos dificilmente chegará a 2%. Agora terá de realizar ajustes num cenário bem menos favorável.

O desespero bate na campanha do PT

Izabelle Torres 
Revista ISTOÉ

Um exército de militantes com cargos públicos se organiza para elevar o tom da Propaganda eleitoral de Dilma e evitar um revés na urnas. Até o ex-presidente Lula entra na briga com um discurso mais radicalizado

A eventual reeleição de Dilma Rousseff para a Presidência marcaria um recorde na história da República: nunca um partido político terá ficado por tanto tempo no poder. Nem mesmo os 21 anos da ditadura militar, com suas divisões internas e troca de grupos de comando, podem ser vistos com um período de direção partidária única, como seriam os 16 anos da era petista. O estilo da ação e a longevidade do PT no Palácio do Planalto claramente já deixaram marcas na máquina administrativa e política do governo. Ao longo de 12 anos, o número de cargos de confiança, por exemplo, saltou de 17 mil para 22 mil. Este universo de servidores, frequentemente nomeados por critérios políticos, criou uma estrutura de petistas aguerridos e abnegados, cujos salários e encargos fiscais consomem mais de R$ 200 bilhões por ano. Isso não é coisa para se desleixar. O risco de não ganhar as eleições já deixa esses servidores-militantes em desespero. A perda de poder em Brasília – ou, vá lá, da chance de praticarem seus ideais – assusta tanto quanto a perda dos cargos comissionados e a perspectiva de terem de a retornar a seus estados de origem para buscarem novos empregos. Hoje, os DAS (cargos de Direção e Assessoramento Superior) podem passar de R$ 20 mil mensais.


CLIMA TENSO
Na sexta-feira 19, Dilma se exaspera após coletiva à imprensa no
Palácio da Alvorada, num clima em que o PT exagera na dose dos
ataques aos adversários na corrida eleitoral

Este clima de tensão entre os servidores-militantes contaminou a campanha eleitoral e pode explicar boa parte do tom da propaganda petista, que passou a adotar o jogo bruto, com ataques exagerados aos adversários e alguma falta de discernimento entre o público e o privado. No início do mês, uma reunião na sede do partido, em São Paulo, se transformou em uma acalorada discussão sobre a participação mais efetiva dos funcionários públicos na eleição. No encontro, líderes do PT cobraram mais empenho de servidores comissionados e os exortaram a ir às ruas em favor da reeleição de Dilma Rousseff. O recado estava implícito. Quem não se mexer, tem o emprego ameaçado. Assim, o PT tem organizado caminhadas pelo País, a exemplo da que ocorreu em Brasília no último dia 13, em que grande parte dos cerca de quatro mil participantes era de funcionários públicos. Atos em prol da candidata do PT, como a reunião com artistas brasileiros, no último dia 15, viraram palcos quase exclusivos de ataques a adversários. Dilma aproveitou a oportunidade para, em tom agressivo, repetir diversas vezes que as propostas de Marina Silva, candidata do PSB, apresentariam riscos ao País. No mesmo dia, o exército de internautas petistas divulgava nas redes sociais críticas da classe artística à segunda colocada nas pesquisas.
Na semana passada, uma manifestação de homenagem a Petrobras capitaneada pelo ex-presidente Lula ilustrou bem o atual momento da campanha. Suado e descabelado, Lula esbravejou ao pedir apoio dos militantes. Disse que é preciso proteger a estatal contra Marina Silva, afirmando que ela não conhece e não dá importância às riquezas do pré-sal. Antes do evento, em uma reunião rápida com o líder do Movimento dos Sem Terra, José Pedro Stédile, Lula conclamou o antigo aliado a se engajar na campanha. A resposta veio rápida. Em entrevista, na segunda-feira 15, Stédile prometeu realizar invasões e fazer protestos diários, caso Marina vença a eleição. No comitê da candidata do PSB, a ameaça virou piada. “Entendo o temor deles, que vão ficar sem empregos”, respondeu o coordenador do comitê financeiro do PSB, Márcio França.


Suado e descabelado, Lula esbravejou em evento da Petrobras
contra Aécio Neves e Marina Silva. Até o MST foi chamado para
ameaçar invasões em caso de derrota governista

Mas o comportamento da campanha de Dilma está longe de ser uma distração eleitoral. De olho num embate no segundo turno das eleições, os petistas voltaram a jogar pesado no horário eleitoral gratuito. Na TV, um locutor apareceu dizendo que, se eleita, Marina Silva vai tirar R$ 1,3 trilhão da Educação e extinguir o pré-sal. A peça publicitária foi exibida dias depois do polêmico vídeo que mostrava uma família com a comida saindo no prato, como conseqüência da proposta de autonomia do Banco Central apresentada por Marina. Diante dos ataques, a candidata do PSB entrou com três representações no TSE contra a veiculação das propagandas do PT. No documento, argumentou que sua imagem fora duramente atingida pela candidata adversária, que teria apresentado um dado fraudulento com o propósito de incutir o medo nos eleitores. O mérito ainda não foi julgado, mas conta com o parecer favorável do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que viu intenção deliberada dos petistas de criarem “artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais”, o que é vedado por lei. Para ironizar também o candidato do PSDB, Aécio Neves, que tem dito que o sonho dos brasileiros é morar no País retratado pela propaganda ilusória de Dilma, os petistas levaram ao ar um personagem denominado Pessimildo, um boneco rabugento que faz troça dos críticos do governo e foi inspirado em figuras conhecidas da televisão com o objetivo de satirizar todas as críticas feitas à petista. A principal linha do discurso do personagem é responder ponto a ponto os programas eleitorais dos adversários.

Enquanto a campanha do PT foca-se no ataque pessoal aos adversários, crises internas afetam a própria candidata do partido. No final da última semana, a presidenta Dilma pediu a suspensão da divulgação de seu programa de governo após impasse com alas do PT que defendem idéias contrárias à posição do Planalto. A intenção inicial dos petistas era a de incluir no texto propostas com grande apelo eleitoral e que pudessem atrair categorias diversas de eleitores, como o fim do fator previdenciário e a redução da jornada de trabalho. Dilma, entretanto, resiste em defendê-las. Apesar de não declarar publicamente, o governo evita há pelo menos quatro anos que a proposta do fim do fator previdenciário seja votada no Congresso. O Planalto enfrenta pressão das centrais sindicais, mas nunca se comprometeu com a ideia da redução da jornada de trabalho. Ao saber por assessores das propostas para trabalho e emprego, Dilma pediu o adiamento da divulgação do programa.


No horário eleitoral, PT usa personagem denominado Pessimildo
para ironizar adversários, enquanto a propaganda do
partido retrata um país sem defeitos

Enquanto a campanha montada pelos marqueteiros adere ao radicalismo e reflete parte do desespero de gente agarrada ao poder, Dilma Rousseff segue tentando transparecer tranquilidade e segurança. Na vantajosa posição de atual presidenta, ela usa o Palácio da Alvorada como comitê de campanha sem que a Justiça Eleitoral faça sequer uma advertência. Em uma única semana, recebeu estudantes, reitores de universidades e concedeu duas entrevistas como candidata sentada na cadeira presidencial. O cenário é alentador para os milhares apadrinhados que tratam a estrutura pública como se fosse privada do partido e consideram positivo mostrar uma Dilma forte e em posição de superioridade em relação aos demais concorrentes.




Crise com PT faz Dilma vetar divulgação de programa de governo. Não é bem assim...

Veja online

Decisão é mais do que estratégia para evitar ataques dos adversários: propostas do Planalto não se encaixam com as defendidas pelo partido

(Pedro Ladeira/Folhapress) 
A presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, 
concede entrevista no Palácio da Alvorada, em Brasília

Mais do que à estratégia de evitar dar "munição" aos adversários para críticas, a decisão da presidente-candidata Dilma Rousseff (PT) de não divulgar seu programa de governo se deve a uma crise interna com o PT. É o que informa reportagem desta quinta-feira do jornal Folha de S. Paulo. Alas do partido defendem propostas contrárias às do Planalto, como a revisão da Lei de Anistia, o fim do fator previdenciário e a redução da jornada de trabalho.

Embora nunca tenha se posicionado oficialmente sobre o tema, durante todo seu mandato Dilma tem evitado a votação, pelo Congresso, de proposta que reduz a jornada de trabalho. Também não está disposta a abrir mão do fator previdenciário, a menos que seja instituída idade mínima para aposentadoria. Quanto à Lei de Anistia, a presidente teme, segundo a reportagem, abrir uma crise com as Forças Armadas. De acordo com o jornal, quando soube dos pontos defendidos pela legenda, Dilma decidiu barrar a divulgação de seu programa de governo.

A campanha da petista adotou a estratégia de não publicar um documento e de "dosar" na TV a apresentação das suas propostas. Além do temor de desgaste com o partido, a avaliação do comitê é de que apresentar neste momento um texto justificando as políticas adotadas nos últimos anos e apresentando um plano para o próximo mandato poderia dar munição aos adversários e abrir um flanco sobre o qual eles se debruçariam pelos próximos dias. Foi o que se deu com Marina Silva, candidata do PSB à Presidência. A ex-senadora se tornou alvo de ataques em razão das erratas que teve de divulgar em relação ao plano revelado em 29 de agosto - a principal delas retirava do texto causas caras ao movimento gay.

Dilma deve se encarregar de assumir compromissos pontuais, a exemplo do que fez quando defendeu a criminalização da homofobia. Ela mesma já disse recentemente que não haverá a divulgação de uma redação unificada de seu programa de governo, que nas palavras dela "será moderno e estará na televisão". Desde o início do processo eleitoral, a campanha petista trabalha em 25 textos setoriais que embasarão a defesa das políticas adotadas nos governos do PT e também para as promessas que serão apresentadas. 

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:

Inicialmente quando cobrada sobre plano de governo, Dilma ofereceu seu primeiro mandato como vitrine. Como não colou, até porque seu governo foi e é medíocre, agora surge com a versão de "divergências" entre a candidata e o partido. Nada disso. São duas razões primordiais para esconder o tal plano de governo: no fundo, Dilma não tem nada a oferecer além do que nos apresentou desde janeiro de 2011. Isto, para dizer pouco, é insuficiente para o eleitorado. E, segundo, e talvez a maior razão, em não apresentando plano nenhum, Dilma também não se compromete com coisa alguma, podendo, se reeleita, fazer o que bem entender. Em consequência, também, não se desgasta tendo que explicar cada meta projetada.

Reparem o quanto a  economia vem degringolando no governo Dilma: crescimento ínfimo, inflação acima da meta o tempo todo e juros no alto. Qual a programação prevista para debelar este fiasco? Dilma se vale do direito de permanecer calada. A indústria vai afundando? Mais uma vez, a prerrogativa de permanecer calada. As contas estão maquiadas para esconder o desequilíbrio fiscal permanente? Dilma fica muda.  Investimentos em queda? Silêncio absoluto. 

Ou seja, para os problemas atuais, ou Dilma não tem mesmo solução - e é a melhor das respostas - ou, se tem, prefere não oferecê-las ao eleitorado por temer a reação negativa. Assim, escolhe o silêncio, escondendo seu plano de governo, e prefere promover um festival de baixarias, indignidades, calúnias e uma gritaria geral para abafar a voz dos críticos sobre os escândalos e desmandos na Petrobrás e demais estatais,  a corrupção colossal, a desigualdade estagnada, a economia deteriorada, a inflação desmedida e os serviços públicos em total abandono. Em resumo, o que Dilma quer é mesmo um cheque em branco para continuar a fazer o que bem entender. E isto é ruim para o país.