quinta-feira, outubro 02, 2014

Não esperem que o demônio peça perdão a Deus por seus pecados

Adelson Elias Vasconcellos

O eleitor perceberá o malogro que será insistir em dar ao demônio mais uma chance para ele continuar errando e pecando, porque é da natureza do demônio errar e pecar. 


Nos diferentes textos postados no blog,  procuramos demonstrar que reeleger Dilma representa,  gostem ou não, concordem ou discordem, jogar o país numa aventura cujo final já é por todos conhecido. 

O que talvez faltasse no discurso da oposição, Aécio ou Marina, foi demonstrar que a ruindade de todos os indicadores do governo Dilma não se deve exclusivamente a ela. Dilma é apenas o continuísmo de algo que vem dando errado desde 2003. Claro que devemos fazer o reparo de que, metade de seu primeiro mandato Lula esqueceu seus discursos dos tempos de oposição, e adotou um comportamento mais comprometido com o interesse do país.   

Porém, a degradação dos serviços públicos, a deterioração das contas públicas, a manipulação de estatísticas, a falta de transparência de atos do Executivo, do qual o sigilo sobre gastos do cartão corporativo é um exemplo bem prático, tudo e mais algumas coisas se arrastam desde que o PT chegou ao poder. Não é coisa recente. Se, de um lado, se apontam as “políticas sociais” como mérito, de outro, naquilo que o país precisa para sustentar a continuidade destas mesmas políticas, estamos andando no sentido inverso. Nesta edição,  vejam reportagem da Folha que os recursos para saúde estão perdendo terreno para as tais políticas sociais. Basta comparar o total de beneficiários dos programas, se diz que chega a 40 milhões,  com os que dependem da saúde pública, que somam pelo menos três vezes mais.  Só que  mais saúde pública não garante voto na urna, bolsa família sim. Basta ver que as regiões com maior número de beneficiários são justamente a que garantem maior intenção de voto em Dilma.  

Sabe-se que, desde junho de 2013, quase 80% da população brasileira alimenta o enorme desejo por mudanças. E, pesquisa mais recente, aponta que, para 34% desta mesma população, Dilma é escolhida como a melhor agente para levar adiante este processo. Ok, mas pergunto: como pode alguém, cujo governo plantou na consciência das pessoas a necessidade de se mudar o que aí está,  ser agente para fazer diferente se, quando pode, não o fez? 

Pego uma linha da campanha de Dilma  para provar que a presidente-candidata é, dentre os principais candidatos, a menos qualificada. Afirmou a senhora Rousseff  que, num segundo mandato, vai agir com mãos firmes contra a corrupção. Ora, teve quatro anos para fazê-lo,  por que não o fez?  Terá a corrupção contribuído para tornar seu governo melhor e mais conveniente aos interesses dela e do seu partido?  Ora, acredita  nesta ladainha só quem é capaz de aceitar que o Diabo subiu aos  céus  e pediu perdão a Deus por seus pecados...  

Não, senhores, Dilma é, dentre todos, a que menos tem interesse em mudar alguma coisa,  já que foi nesta porcaria em que ela e seu antecessor mergulharam o país, que este mesmo país a premiou com mais quatro anos. Onde então o interesse em mudar? Para mudar, o primeiro passo que se exige é  que o agente reconheça o que está errado. Pergunto: quando foi nesta campanha que alguém ouviu de Dilma esta reflexão de que, tal ou qual política, está errada? Ou que as escolhas feitas e os caminhos perseguidos por sua política econômica deram com os burros n’água? 

Assim, se  ela entende que no Brasil está tudo justo e perfeito, e sua campanha corrobora este sentimento,  em que ela precisaria mudar? 

Portanto, se os eleitores ainda não tiveram esta consciência de que,  a agente  que nos empurrou para a beira do abismo,  é a mesma que eles entendem  ser a que melhor pode provocar e atender o  anseio geral de “muda, Brasil”, a perspectiva de que a sociedade brasileira venha penar com enorme frustração, é infinita.  

De maneira alguma Dilma reúne o mínimo de preparo para mudar  a situação caótica criada por ela . Para tanto, precisaria mudar a si mesma e isto, a exemplo do Diabo arrependido,  é impossível. Ninguém muda por decreto, quanto mais se a situação atual lhe é conveniente.  

Além disto, o povo brasileiro, mais precisamente aquele que comparecerá às urnas, precisa revolver a história recente para que não incorrer em escolhas ruins.  Tentem pesquisar o que era o Brasil de antes do Plano Real, sua desigualdade social, sua péssima distribuição de renda, sua economia simplesmente falida, sua dívida crescente e impagável,  um país sem crédito e sem credibilidade,  classificado, merecidamente, como subdesenvolvido. Depois, comparem este Brasil com aquele que FHC entregou a Lula, e vocês concluirão que existe vida inteligente além do PT, perceberão que há outras maneiras certas de fazer um país melhor, que existem muito mais capacidade de gestão além da mediocridade petista de governar. 

Há sim outros caminhos que também nos levam à felicidade, a um país melhor e mais justo, com um governo decente e não mergulhado na ladroeira diária, gente capaz de implementar políticas que nos devolvam o crescimento, o aumento da força de trabalho, que nos garantam rendimentos superiores aos atuais, e tudo isto embalado em programas sociais virtuosos que elevam a cidadania e garantam a autodeterminação individual. 

Sem tal retrospectiva, teremos indivíduos acéfalos, desprovidos de qualquer racionalidade, a votar na aventureira, na  gaiata que se pinta de ouro para assaltar, no primeiro dia da posse, os bolsos de todos nós. Esperem pela conta de luz a partir de 2015!

Foram Lula e Dilma quem  criaram este ambiente no qual as pessoas sentem necessidade por mudanças. Deste modo, não seriam eles os mais indicados e qualificados  para comandarem este processo. 

O Brasil não pode continuar à margem do progresso e da civilização. Mudar é preciso acima de tudo, mas precisamos escolher quem, de fato, tem ideias próprias, tem políticas diferentes desta bandalheira geral implementada no país. E, certamente, diante desta pesquisa,  o eleitor perceberá o malogro que será insistir em dar ao demônio mais uma chance para ele continuar errando e pecando, porque é da natureza do demônio errar e pecar. 

Dilma e a irresponsabilidade fiscal

Adelson Elias Vasconcellos

A presidente Dilma Rousseff defendeu sem meias palavras a política fiscal de seu governo. "Temos tido nessa área desempenho inquestionável", afirmou a presidente acerca do resultado fiscal de agosto que, no ano,  representa apenas 10% do previsto.

 “Desempenho inquestionável” é? Ô se é inquestionável!!!. Não há incompetência, descontrole e irresponsabilidade maiores que se igualem a atual política fiscal do governo.   

 Não satisfeita com seu descaso para algo tão grave, achou que podia pincelar mais algumas asneiras e mandou ver: "Eu não vi ninguém dizer que 35% de dívida líquida (sobre o PIB) seja preocupante nem aqui e nem em lugar nenhum do mundo". Infelizmente para a desinformada Dilma, o resto do mundo não adota o critério da dívida líquida e sim o da dívida bruta.  Inclusive o governo brasileiro já tentou emplacar sua jabuticaba neste quesito, sem sucesso.  Mais adiante vamos se, mesmo sob tal régua, a da dívida líquida, faz sentido a afirmação de que 35% sobre o PIB é ou não preocupante.  

Dilma resolveu ser o soldado do passo certo. E estas sandices é que faz a terra tremer diante do desastre que seria uma reeleição de Dilma Rousseff. Um governante, a não ser em ditaduras, não pode se dar ao requinte de ser tão irresponsável diante do trato das finanças públicas, sob pena e risco de comprometer e condenar o futuro do país que comanda.  Para  azar de todos nós, caso Dilma receba mais quatro anos de governo, teremos que pagar esta conta maldita. E ela não é pequena, não. 
Mas para o leitor ter sobre o que refletir sobre o descalabro com a senhora Rousseff tem tratado as contas públicas, eis alguns números divulgados nesta semana: 

- Crescimento do PIB  em 2014 conforme Banco Central:  0,7% (a previsão inicial era de 2,5%, o mais baixo dentre as vinte maiores economias mundiais;

- Déficit primário: Agosto registrou o quarto déficit primário seguido do país. Desde que o Banco Central iniciou a divulgação, em 2001, o Brasil nunca havia tido descontrole tão grande, seguidas vezes. No oitavo mês de 2014, o governo gastou R$ 14,4 bilhões a mais do que arrecadou. Em 12 meses, o governo conseguiu economizar apenas 0,9% do PIB. A reserva estava em 1,2% em julho, já bem abaixo do compromisso do governo de salvar 1,9% (R$ 99 bilhões) para pagar juros.

No recorte de 2014, a situação é ainda mais crítica. Em oito meses, o governo economizou apenas R$ 10,2 bilhões, ou 0,3% do PIB.

-  Bolsa BNDES versus baixo crescimento: Enquanto os investimentos despencaram em 2,7% do PIB de 2010 a 2014, a carteira de crédito do BNDES, expandiu em 2,7% do PIB.

Desde 2009, o Tesouro aportou mais de R$ 400 bilhões no BNDES. Segundo o Ministério da Fazenda, o custo dos subsídios dos empréstimos do BNDES ficará em R$ 24,3 bilhões em 2015, cerca de 0,5% do PIB por ano.

A justificativa para o Bolsa BNDES é que os recursos se destinam a incentivar o crescimento do país. Considerando que dificilmente o atual governo conseguirá a marca de 2,0% como média anual de crescimento, fica muito difícil engolir a desculpa. No fundo, a única coisa que este fabuloso desembolso conseguiu produzir foi aumentar a dívida pública;

- Rombo do setor elétrico: Segundo o TCU, a intervenção estabanada no setor elétrico feito por dona Dilma provocou um rombo de R$ 61 bilhões que terá que ser coberto pelo aumento das tarifas;

- Balança comercial :  A balança comercial brasileira fechou setembro com um déficit de US$ 939 milhões, segundo os dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Com esse resultado, o saldo acumulado do ano voltou a ficar negativo (US$ 690 milhões), depois de, em agosto, a balança comercial ter ficado superavitária para o período acumulado no ano pela primeira vez em 2014. Até agosto, o superávit de 2014 era de US$ 249 milhões.

O resultado é o pior para o mês desde 1998, quando o resultado de setembro havia sido um déficit de US$ 1,203 bilhão. A última vez que a balança do mês havia apresentado resultado deficitário foi em 2000 (-US$ 326,7 milhões).

- Déficit em conta corrente: De acordo com dados do Banco Central, em 2013 o Brasil registrou déficit de US$ 81,075 bilhões em suas transações correntes com outros países, equivalente a 3,6% do PIB (Produto Interno Bruto). Esse resultado foi o pior desde 2001.

No ranking das dez economias com maiores déficits em 2013 listadas pelo FMI, o Brasil está atrás apenas dos Estados Unidos (déficit de US$ 400 bilhões, ou 2,4% do PIB) e da Grã-Bretanha (déficit de US$ 114 bilhões, ou 4,5% do PIB).

Para 2014, o Banco Central prevê que o saldo negativo nas transações correntes fique em US$ 80 bilhões. No mês passado, o déficit em conta corrente do Brasil foi de US$ 5,489 bilhões. O acumulado em 12 meses é de 3,47% do PIB.

- Dívida Pública:  Sob a régua com que Dilma tenta aparentar controle da dívida pública, o Brasil aparece em terceiro lugar na lista do FMI que reúne as maiores economias devedoras, atrás dos EUA e da Espanha, com passivo externo líquido de 33,4% do PIB em 2013. Um detalhe:  o Brasil apresentou, em 2013, um PIB  de  US$ 2,242 trilhões, enquanto o PIB dos  Estados Unidos  foi de US$ l6,799 trilhões. 

Além disso, segundo o site Auditoria Cidadã da Dívida, até início de Setembro de 2014, a dívida pública consumiu R$ 825,5 bilhões, ou 51% do gasto federal.   

Claro que a gente poderia falar dos juros, da inflação, do aumento das despesas acima do crescimento das receitas em termos reais, das sucessivas quedas na indústria, mas creio que os indicadores acima são suficientes para demonstrar que o tal “desempenho inquestionável” a que Dilma se referiu, só pode ser admitido no campo da incompetência, do descontrole e da irresponsabilidade. Sob tal prisma, não há nada para se discutir. Valem resultados, não blá-blá-blá sem fundamento. Afirmações bucéfalas, desprovidas  de qualquer afinidade com o mundo real é apenas bravata e discurso vazio.

Enredos repetidos

Roberto Damatta
O Estado de São Paulo

O autoritarismo se repete tanto quanto as eleições. Só que o traço familístico e personalista que o forma ocorre diariamente e surge nas negativas envergonhadas e cínicas das roubalheiras; enquanto a eleição desponta como um ato cívico. Um ritual de passagem do poder mais do que positivo emoldurado na forma pelos partidos, mas no fundo por pessoas, padrinhos e ventríloquos cuja sombra se projeta em certos candidatos. Qual é a fórmula do autoritarismo? Ela é banal: no Brasil todos os crimes e desafios dependem de pessoas. Se for X duvidamos; se for de classe média e não petista, é fascista.

Em véspera de eleição, determinados assuntos surgem nitidamente como propriedade de candidatos ou partidos. O PT aparece, mesmo alquebrado, como dono absoluto do Brasil. Ele condescendentemente relega seus opositores ao papel de incapazes de enfrentar problemas e de inimigos dos pobres. Mas, como compensação, o PT falha clamorosamente quando não explica como um sistema de corrupção tomou conta da vida pública brasileira nestes "momentos mágicos" em que tem governado. Nunca, jamais e em nenhum momento, as pessoas foram tão ou mais importantes do que assuntos, os crimes e as leis neste país quanto neste período lulo-petista. Daí o recorrente da máquina pública para o enriquecimento ilícito por meio do personalismo. Se é nosso, pode! Se for uma outra pessoa, polícia!

Centrado em protagonistas, o processo eleitoral amplia esse lado. Porque em campanha presidencial todos se apresentam como a "solução" para os problemas. Na refrega que vai terminar neste fim de semana, todos os recursos pessoais e institucionais são mobilizados na esperança de mudar os prognósticos das pesquisas.

Mas o fato é que o ritual eleitoral exerce pressão para votar. Nisso reside a esperança de quem espera mudar o jogo, indo para o segundo turno (caso de Aécio); ou simplesmente lá chegar sem maiores trepidações (caso de Marina); ou de vencer e liquidar a fatura neste primeiro embate (caso da presidente Dilma).

Os marqueteiros e observadores sutis ou medíocres, como é o meu caso, especulam e se abrem às angústias dominantes do não saber - essa máquina de fazer rezar e promover insônia.

Pessoalmente, eu gostaria que o eleitor estivesse também interessado em liquidar o "Você sabe com quem está falando?", essa praga cultural que faz parte de nossa estrutura autoritária. Que revela o personalismo porque tenta distinguir, proteger e inocentar os que, em nome do povo e elevados a donos do poder, promovem a má-fé e uma intolerável transgressão dos limites entre a esfera pública (que é de todos) e a pessoal - a do partido, do compadre e do filhotismo. Hoje, graças ao PT e a uma exemplar ausência de oposição, partidos, parentes e companheiros se confundem.

Nascido de um sistema aristocrático, o nosso republicanismo acabou com o império, mas manteve o baronato. Hoje, ministros, senadores, magistrados, deputados e outros altos funcionários públicos, são muito mais patrões do Estado do que seus servidores. No Brasil, o significado profundo da palavra "poder" tem tudo a ver com a tomada de cargos. Tomar o poder é ter o gosto de "tirar" e de promover a "queda" de milhares de pessoas. O poder à brasileira é tão onipotente que ele pode até mesmo saquear o nosso dinheiro, como ocorreu no governo Collor e ocorre na roubalheira atual. Ele também censurou, prendeu, exilou e torturou no Estado Novo e na Ditadura Militar.

A reação sistemática contra a autonomia de certas instituições é um sintoma da relação entre pessoas e cargos estatais por meio do governo que faz a intermediação entre o Estado impessoal e grupos que passam a comandá-lo e, inevitavelmente, o fazem com um viés pessoal.

Seria isso feito apenas por maldade? Penso que é mais complicado. Não sou fascista, embora tenha alergia pelos reducionismos e pelo controle do mercado, da informação e do mérito. Sei como isso opera porque tenho observado o processo ao longo da minha longa vida.

Alexis de Tocqueville observou como, nos Estados Unidos, a democracia liberal e individualista promovia solidão e isolamento. Ele viu a luta para desmanchar elos pessoais, mesmo num país excepcional porque foi fabricado por imigrantes. Em sociedades que transitaram da monarquia para a República por meio de golpes (de elos pessoais entre poderosos), as oligarquias continuaram a operar juntando sua força familística ao poder do voto aberto e livre. Em todo lugar, a democracia tem recriado clãs pelo voto. É um defeito do regime ou da sociedade? Essa é questão.

O fato é que quando a maré vai mal os laços pessoais compensam a derrota política e ficam acima das clivagens ideológicas mais ferozes. No Brasil, sempre fomos nobres ou comunistas e fascistas generosos e, mais que isso, bem-educados e penhorados a quem nos prestou um favor ou roubou conosco.

Amor com amor se paga.

Antes de votar, caro leitor, reflita sobre o personalismo que relativiza todos os crimes, caso o criminoso seja amigo, partidário ou parente. O que o País precisa é de um Plano Real Social. De uma moeda ética única, que discuta o espaço dos favores trocados com justiça e mérito; ao lado dos empenhos que conduzem a essas falcatruas que, realizadas debaixo do caldo do filhotismo, inibem a oposição e impedem a apuração dos carnavais de escândalos.

Isso para não falar da crise institucional envolvendo as polícias que, para alguns, atuam independentemente e, para outros, agem dentro de parâmetros partidários e familísticos para derrubar os nossos em favor dos adversários.

Você decide!

Malévola e os inocentes.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação 

Na época em que o Palmeiras tinha um dos melhores times do mundo, o goleiro Leão saiu de campo reclamando por ter perdido um jogo nos pênaltis. "O goleiro deles se adiantou", queixou-se. O técnico do Palmeiras, Filpo Núñez, um mestre, disse que a reclamação não tinha sentido: se o goleiro deles se adiantou, é porque o juiz estava deixando. Leão deveria ter-se adiantado também.

Isso vale para a eleição. A campanha do PT é sempre agressiva. Lula já disse que fazia bravatas; e inventou que Alckmin iria privatizar a Petrobras. É espantoso que PSDB e PSB se queixem da baixaria de campanha, como se Dilma fosse a Loba Má. Se não sabiam, são desinformados. Se sabiam, despreparados.

Não é só o PT. Há mais de 60 anos o brigadeiro Eduardo Gomes ficou com a fama de rejeitar o voto de "marmiteiros" - operários que levavam marmita para o serviço. Lula era acusado de planejar a divisão das casas (outras famílias iriam morar com os proprietários) e o confisco das contas bancárias - que, aliás, aconteceu, só que promovido por seu então adversário, Fernando Collor. É jogo bruto. E quem prefere o chororô à preparação adequada está condenado à derrota.

Urnas fraudadas? São as mesmas que funcionavam quando o tucano Fernando Henrique foi presidente; as mesmas que eram boas quando Marina Silva era ministra de Lula. Crimes eleitorais? Apontem alguém que tenha sido afastado das eleições por esse motivo. Roubalheira? OK, mas como diria um notável líder de dois mil e poucos anos atrás, quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.

Os cordeirinhos
Pois não é que agora um importante dirigente tucano lamenta que muitos eleitores tenham dificuldade para falar o nome de Aécio? Pode ser - e que é que Aécio e seu partido fizeram, nos últimos anos, para resolver esse problema? 

E, cá entre nós, ninguém precisa falar o nome do candidato. Basta teclar seu número.

Alegria, alegria
Quando as coisas vão mal, o PT também entra no chororô. A moda é culpar "a zelite paulista" pelo pífio desempenho do candidato petista Alexandre Padilha - um político sem voto que não morava nem votava em São Paulo e foi importado só para ser candidato. As reclamações se espalham: o conservadorismo paulista freia o projeto petista de implantar o Paraíso brasileiro. Não votar no PT é como se fosse um crime. 

Mas citemos o ótimo poeta português Manuel Alegre a respeito da posição do eleitorado paulista: "Mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não". 

Tudo errado
Frase de Dilma Rousseff: "Humildemente, peço seu voto". A frase não tem sentido: a ala bolivariana do petismo não sabe o que é voto. Os petistas militantes não sabem o que é "pedir". E Dilma não sabe o que é "humildemente".

O truque que deu certo
Levy Fidelix chegou lá: depois de muitos anos defendendo o aerotrem, sem qualquer repercussão, virou assunto nacional ao falar mal de gays no debate da Record. Foi esperteza explícita (alguém que há tantos anos vive dos dividendos de um partido nanico certamente não é burro). Sabe que a população não vai decair devido a leis que consagrem direitos de homossexuais. Júlio César gostava de homens e aumentou o poderio de Roma. Alcibíades teve um caso com o filósofo Sócrates e foi o mais vitorioso general de sua época. Fidelix lançou a isca e virou assunto. 

E conseguiu até que gente inteligente lhe desse importância. 

O verde errado
Responda sem consultar o Google: qual o ator que faz o papel do Incrível Hulk? Este colunista responde: é Mark Ruffalo. Ruffalo gravou vídeo de apoio a Marina Silva, cheio de elogios à candidata. Menos de 24 horas depois, retirou seu apoio a Marina: "Não posso apoiar um candidato que tem uma abordagem dura em relação a questões como casamento entre homossexuais e os direitos reprodutivos". Direitos reprodutivos, no dialeto utilizado, significa "aborto".

Hulk apoiou Marina e retirou seu apoio. Não é nada, não é nada... não é nada.

Os mais iguais
O juiz baiano Sérgio Rocha Pinheiro Heathrow foi condenado por crime de peculato - desvio de dinheiro público - pelo Tribunal de Justiça da Bahia. Segundo a acusação, o juiz libertou duas pessoas, com o pagamento de fiança, e se apropriou das quantias. Coisa pequena, aliás (para quem acompanha o Petrolão, é dinheiro de troco): R$ 1.085,00 e R$ 3.400,00. Mas, enfim, houve desvio de dinheiro público, segundo o entendimento do Tribunal que o condenou.

Qual foi a pena? Não, caro leitor. Prisão é para os fracos. Para o juiz Sérgio Rocha Pinheiro Heathrow, a pena é outra: aposentadoria, com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Foi condenado a receber sem trabalhar.

Hábitos e costumes
O tratamento ao juiz Sérgio Heathrow não foi mais benévolo que o habitual. Um juiz condenado por matar a esposa e ocultar o cadáver continua como ocupante do cargo de juiz titular da comarca. Como não pode trabalhar, outro magistrado exerce a função, mas com título e salário de juiz substituto.

carlos@brickmann.com.br 
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A lista dos perigos

Arnaldo Jabor
O Globo

O que acontecerá com o Brasil se a Dilma for eleita?

Aqui vai a lista:

A catástrofe anunciada vai chegar pelo desejo teimoso de governar um país capitalista com métodos "socialistas". Os "meios" errados nos levarão a "fins" errados. Como não haverá outra "reeleição", o PT no governo vai adotar medidas bolivarianas tropicais, na "linha justa" da Venezuela, Argentina e outros.

Dilma já diz que vai controlar a mídia, economicamente, como faz a Cristina na Argentina. Quando o programa do PT diz: "Combater o monopólio dos meios eletrônicos de informação, cultura e entretenimento", leia-se, como um velho petista deixou escapar: "Eliminar o esterco da cultura internacional e a 'irresponsabilidade' da mídia conservadora". Poderão, enfim, pôr em prática a velha frase de Stalin: "As ideias são mais poderosas do que as armas. Nós não permitimos que nossos inimigos tenham armas, porque deveríamos permitir que tenham ideias?".

As agências reguladoras serão mais esvaziadas do que já foram, para o governo PT ter mais controle sobre a vida do País. Também para "controlar", serão criados os "conselhos" de consulta direta à população, disfarce de "sovietes" como na Rússia de Stalin.

O inútil Mercosul continuará dominado pela ideologia bolivariana e "cristiniana". Continuaremos a evitar acordos bilaterais, a não ser com países irrelevantes (do "terceiro mundo") como tarefa para o emasculado Itamaraty, hoje controlado pelo assessor internacional de Dilma, Marco Aurélio Garcia. Ou seja, continuaremos a ser um "anão diplomático" irrelevante, como muito acertadamente nos apelidou o Ministério do Exterior de Israel.

Continuaremos a "defender" o Estado Islâmico e outros terroristas do "terceiro mundo", porque afinal eles são contra os Estados Unidos, "inimigo principal" dos bolcheviques que amavam o Bush e tratam o grande Obama como um "neguinho pernóstico".

Os governos estaduais de oposição serão boicotados sistematicamente, receberão poucas verbas, como aconteceu em S. Paulo.

Junto ao "patrimonialismo de Estado", os velhos caciques do "patrimonialismo privado" ficarão babando de felicidade, como Sarney, Renan "et caterva" voltarão de mãos dadas com Dilma e sua turminha de brizolistas e bolcheviques.

Os gastos públicos jamais serão cortados, e aumentarão muito, como já formulou a presidenta.

O Banco Central vai virar um tamborete usado pela Dilma, como ela também já declarou: "Como deixar independente o BC?".

A Inflação vai continuar crescendo, pois eles não ligam para a "inflação neoliberal".

Quanto aos crimes de corrupção e até a morte de Celso Daniel serão ignorados, pois, como afirma o PT, são "meias-verdades e mentiras, sobre supostos crimes sem comprovação...".

Em vez de necessárias privatizações ou "concessões", a tendência é de reestatização do que puderem. A sociedade e os empresários que constroem o País continuarão a ser olhados como suspeitos.

Manipularão as contas públicas com o descaro de "revolucionários" - em 2015, as contas vão explodir. Mas ela vai nomear outro "pau-mandado" como o Mantega. Aguardem.

Nenhuma reforma será feita no Estado infestado de petistas, que criarão normas e macetes para continuar nas boquinhas para sempre.

A reforma da Previdência não existirá, pois, segundo o PT, "ela não é necessária, pois exageram muito sobre sua crise", não havendo nenhum "rombo" no orçamento. Só de 52 bilhões.

A Lei de Responsabilidade Fiscal será desmoralizada por medidas atenuantes - prefeitos e governadores têm direito de gastar mais do que arrecadam, porque a corrupção não pode ficar à mercê de regras da época "neoliberal". Da reforma política e tributária ninguém cogita.

Nossa maior doença - o Estado canceroso - será ignorada e terá uma recaída talvez fatal; mas, se voltar a inflação, tudo bem, pois, segundo eles, isso não é um grande problema na política de "desenvolvimento".

Certas leis "chatas" serão ignoradas, como a lei que proíbe reforma agrária em terras invadidas ilegalmente, que já foi esquecida de propósito.

Aliás, a evidente tolerância com os ataques do MST (o Stedile já declarou que se Dilma não vencer, "vamos fazer uma guerra") mostra que, além de financiá-los, este governo quer mantê-los unidos e fiéis, como uma espécie de "guarda pretoriana", como a guarda revolucionária dos "aiatolás" do Irã.

A arrogância e cobiça do PT aumentarão. As 30 mil boquinhas de "militantes" dentro do Estado vão crescer, pois consideram a vitória uma "tomada de poder". Se Dilma for eleita, teremos um governo de vingança contra a oposição, que ousou contestá-la. Haverá o triunfo "existencial" dos comunas livres para agir e, como eles não sabem fazer nada, tudo farão para avacalhar o sistema capitalista no País, em nome de uma revolução imaginária. As bestas ficarão inteligentes, os incompetentes ficarão mais autoconfiantes na fabricação de desastres. Os corruptos da Petrobrás, do próprio TCU, das inúmeras ONGs falsas vão comemorar. Ninguém será punido - Joaquim Barbosa foi uma nuvem passageira.

Nesta eleição, não se trata apenas de substituir um nome por outro. Não é Fla x Flu. Não. O grave é que tramam uma mutação dentro do Estado democrático. Para isso, topam tudo: calúnias, números mentirosos, alianças com a direita mais maléfica.

E, claro, eles têm seus exércitos de eleitores: os homens e as mulheres pobres do País que não puderam estudar, que não leem jornais, que não sabem nada. Parafraseando alguém (Stalin ou Hitler?) - "que sorte para os ditadores (ou populistas) que os homens não pensem".

Toda sua propaganda até agora se acomodou à compreensão dos menos inteligentes: "Quanto maior a mentira, maior é a chance de ela ser acreditada" - esta é do velho nazista.

O programa do PT é um plano de guerra. Essa gente não larga o osso. Eles odeiam a democracia e se consideram os "sujeitos", os agentes heroicos da História. Nós somos, como eles falam, a "massa atrasada".

É isso aí. Tenho vontade de registrar este texto em cartório, para depois mostrar aos eleitores da Dilma. Se ela for eleita.

Zero noção de Estado

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Realmente o governo brasileiro não dá a mínima para o Brasil. Interessa-lhe única e exclusivamente a plataforma de poder, a máquina para fazer política, assegurar empregos e outros que tais cujos detalhes o fim da fase do segredo de Justiça poderá esclarecer.

Tivessem algum apreço pelo País, a presidente Dilma Rousseff e os que a cercam teriam pensado duas vezes (ou quantas fossem necessárias) antes de levar um discurso de cunho partidário à abertura da Assembleia-Geral da ONU, evitando também no campo internacional a proposição de "diálogo" com gente que não conversa, degola.

À presidente da República não parece ter ocorrido nem por um minuto que estaria ali na representação de um País e seu posicionamento no mundo. Foi à Organização das Nações Unidas com o mesmo espírito com que se dirige a um encontro do PT, à biblioteca do Palácio da Alvorada, ao canteiro de obras do Rio São Francisco ou onde grave sua participação no horário eleitoral da televisão ou recite a cantilena sobre a história do partido que salvou o Brasil.

Ainda que fosse tudo verdade, que tudo caminhasse àquelas maravilhas por ela contadas, que o dito combate à corrupção não se expressasse em repetidas operações "abafa", que o País tivesse sido inventado há 12 anos, não caberia à presidente aproveitar-se da tribuna da ONU para produzir cenas às câmeras de João Santana.

Não é bom nem imaginar qual terá sido a avaliação dos chefes de Estados ali presentes diante de uma presidente exclusivamente concentrada em enaltecer a si de maneira provinciana e, sobretudo, sectária na medida em que não falou como porta-voz do Estado brasileiro, uma instituição permanente, preferindo se colocar como porta-bandeira de uma corrente partidária em episódio transitório que se encerra dentro de um mês.

A presidente já havia deixado de lado a compostura quando chancelou o uso da mentira na campanha e aceitou vocalizar indelicadezas contra uma adversária. Na ONU, não desencarnou da candidata. No dia a dia, deixou em segundo plano suas funções. Ocupada com seus afazeres eleitorais, há tempo não recebe embaixadores que esperam para apresentar suas credenciais a fim de exercer a representação dos respectivos países. Já são 28, noticia O Globo.

Poderia até ser um exemplo menor, mera falta de cortesia, se o constrangedor discurso nas Nações Unidas não tivesse deixado patente que o governo brasileiro só tem olhos e põe realmente as mãos à obra quando o assunto é eleitoral.

Falo, não faço. 
A displicência com que o ex-presidente Lula trata o convite da Polícia Federal para que deponha como testemunha em um dos inquéritos ainda restantes do mensalão não combina com a maneira incisiva com que a presidente Dilma vem abordando a questão do combate à corrupção.

O assunto entrou na campanha depois do acordo de delação premiada do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa. Desde então, a presidente tem acentuado que os governos do PT foram dos mais combativos e mais ativos na criação de controles. Segundo ela, só há tantos escândalos porque a corrupção passou a ser combatida.

Ocorre que desde fevereiro a PF tenta sem sucesso ouvir Lula sobre uma denúncia feita por Marcos Valério de Souza a respeito de um repasse de R$ 7 milhões da Portugal Telecom para o PT. O advogado Márcio Thomaz Bastos posterga o depoimento e Lula trata o tema com ironia. "Só se você me convidar", respondeu à jornalista que o indagou a respeito nesta semana.

Como não está intimado, não é obrigado a comparecer. Paulo Okamoto, um de seus assessores, diz que depois das eleições "talvez" o ex-presidente compareça. De onde se conclui que a disposição para colaborar com o combate à corrupção não é ampla, geral e muito menos irrestrita. Tem seus limites.

Coincidências

José Casado
O Globo

Dilma propôs lei contra caixa 2 — o que existe há 28 anos —, na semana em que caciques do PT foram acusados de pedir dinheiro para campanha aos operadores de maracutaias petroleiras

Quarta-feira passada em Nova York, a presidente da República usou a Assembleia Geral da ONU para exaltar, entre outras coisas, o “combate à corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros” no seu governo.

Nos dias seguintes, a candidata Dilma Rousseff propagou a mais nova promessa do seu sigiloso programa de governo: um “pacote” de medidas anticorrupção, com lei específica “para transformar em crime a prática de caixa 2”. No domingo repetiu a oferta, inscrita num caderno a que recorreu durante todo o debate na Rede Record.

Eleição tem dessas coisas. Candidatos desafiam a imaginação dos eleitores com todo tipo de promessa — de pontes onde não existem rios até ferrovias sem trens. Em maio, por exemplo, Dilma inaugurou trecho da Transnordestina, cujos trilhos continuam sem tráfego ferroviário. A linha havia sido inaugurada duas vezes por Lula na campanha para eleger Dilma em 2010.

Desta vez, a presidente-candidata inovou. Ao prometer “transformar em crime a prática de caixa 2”, anunciou a intenção de fazer algo que existe há mais de 28 anos.

Está na lei 7.492, entre as definições de crimes contra o sistema financeiro nacional. Em 23 palavras o artigo 11 sentencia de forma cristalina sobre recursos financeiros “não contabilizados”, o popular caixa 2: “Manter ou movimentar recurso ou valor paralelamente à contabilidade exigida pela legislação: Pena — Reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa.”

O texto pode ser consultado na página da Casa Civil da Presidência (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/l7492.htm). Se Dilma quiser, pode telefonar ao ex-presidente José Sarney, que sancionou a lei na segunda-feira 16 de junho de 1986. Caso persista na dúvida, deveria resgatar o voto da ministra Cármen Lúcia na sessão de terça-feira 9 de outubro de 2012 do Supremo Tribunal Federal.

Ela julgava caciques do Partido dos Trabalhadores acusados no mensalão. A defesa do tesoureiro do PT Delúbio Soares alegou que o dinheiro era “caixa 2, de campanha”. A ministra, que na época também presidia o Tribunal Superior Eleitoral, respondeu incisiva: “Me causou especial atenção a circunstância de que a defesa, quer na defesa escrita, quer na apresentação na tribuna desta Casa, afirmou o ilícito. E que o dinheiro arrecadado não tinha sido comprovado (...) Acho estranho e muito, muito grave, que alguém diga, ‘houve caixa 2’. Caixa 2 é crime! É agressão contra sociedade brasileira!”

O desfecho do caso é conhecido. Não se conhecem as razões pelas quais Dilma decidiu reintroduzir o mensalão e a puída tese do caixa 2 na reta final do primeiro turno.

Pode ter sido ato impensado no calor da peleja por uma nobre causa — autopreservação. Afinal, há 28 semanas seguidas seu governo vive sobressaltado por revelações sobre traficâncias na Petrobras, estatal que ela tentou controlar nos últimos 12 anos.

Ainda assim, é difícil compreender a essência da evocação do crime de caixa 2. Sobretudo, pela ocasião: Dilma se propôs a fazer uma lei que existe há mais de 28 anos na mesma semana em que caciques do PT foram acusados de pedir dinheiro para sua campanha presidencial (2010) aos operadores de maracutaias petroleiras.

Só pode ser mera coincidência.

Gargalos no ensino e má gestão comprometem conquistas

O Globo
Editorial

PROBLEMAS DO BRASIL/EDUCAÇÃO 

A Educação no Brasil consolidou uma conquista: o setor é consensualmente aceito pela sociedade como prioritário nas políticas públicas. É um avanço, e não só conceitualmente; desde os anos 90, incrementaram-se os indicadores em todos os níveis de ensino do país, graças a ações práticas que atacaram crônicas demandas. Mas esse ainda é um movimento sujeito a contramarchas. Permanecem gargalos a serem desbloqueados.

Com Fernando Henrique, avançou-se na meta de universalizar o acesso ao ensino fundamental. Um primeiro passo que se consolidou nos indicadores da recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). De 2012 para 2013, aumentou, de 78,1% para 81,2%, o percentual de crianças de 4 e 5 anos em salas de aula. A meta é chegar a 2016 com 100% matriculados. Também houve crescimento no índice de presença em salas de aula na faixa dos 6 aos 14 anos: 98,2% frequentavam a escola ano passado.

Com Lula, a opção inicial de dar prioridade ao ensino superior, um equívoco, foi revertida, com o Plano de Desenvolvimento da Educação, para o ensino básico. O Fundef (Fernando Henrique) e o Fundeb (Lula) legaram ao poder público instrumentos para equacionar o repasse de verbas destinadas a esse módulo, com melhor repartição de recursos da Federação entre estados e municípios. Também há conquistas no combate ao analfabetismo: o Pnad detectou um recuo, de 8,7% para 8,3%, no número de brasileiros que não sabem ler, embora o problema continue grave entre adultos e nas regiões mais pobres.

Um dos mais graves gargalos evidenciou-se com a divulgação do último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Seus indicadores mostram uma tendência preocupante: enquanto a evolução do Ideb em comparação com as metas de notas tem números positivos no primeiro ciclo do fundamental (em 2013, o patamar da meta, de 4,9, foi ultrapassado, chegando a 5,2), nos anos finais e no ensino médio registraram-se retrocessos: no primeiro caso, para uma meta de 4,4, a nota ficou em 4,2; no segundo, a meta era de 3,9, e o Ideb estacionou em 3,7. Isso significa que o esforço dispendido para se obter saltos positivos na qualidade do ensino da primeira etapa do fundamental (1º ao 5º anos) não se reflete no ciclo seguinte. E não alcança o ensino médio, o que compromete a qualidade do aluno que chega à Universidade.

´Nesse apagão, é sintomático o perfil de gasto anual por aluno em comparação com nações do OCDE, o grupo de países mais desenvolvidos do planeta. No ensino fundamental, o Brasil dispende per capita US$ 2.673 (contra US$ 8.296 da OCDE); no ensino médio, a relação é ainda mais desigual: US$ 2.662 do Brasil contra US$ 9.280 da OCDE; já no ensino superior, a diferença cai significativamente: US$ 10.902 contra US$ 13.958.

Dados como estes evidenciam que ainda há distorções graves no ensino do país, principalmente o básico. O diagnóstico mais fácil — a necessidade de mais verbas para o setor, atualmente na faixa de 5,7% do PIB — não explica tudo. Dinheiro não é solução mágica. O módulo mais crítico da Educação, o básico (os ensinos fundamental e médio), tem sido beneficiado por aumentos gradativos de repasses, através do Fundeb. E mesmo assim esses ciclos foram reprovados no Ideb. A constatação é óbvia: como em outras áreas de políticas públicas, os problemas decorrem menos por falta de recursos, e bem mais por deficiências de gestão.

São números e questões prioritários para a agenda do próximo presidente. Note-se que, em razão da redução da taxa de crescimento populacional, o mercado de trabalho do país também tende a se retrair. A um número cada vez menor de jovens trabalhando deve-se, em contrapartida, aprimorar-se a qualificação, via aperfeiçoamento da qualidade do ensino. É um desafio para já, do qual depende o aumento da baixa produtividade da economia brasileira, ponto vital.


OS PONTOS-CHAVE

1- De 2012 para 2013, aumentou de 78,1% para 81,2% o percentual de crianças de 4 e 5 anos matriculadas

2-  O analfabetismo recuou no país, mas o problema é grave entre adultos e em regiões pobres

3 - Há uma estagnação perigosa no ensino médio, que, pelo Ideb, ficou em 2013 com nota abaixo da meta

4- Problemas de gestão: o ensino básico tem verbas generosas do Fundeb, mas o módulo foi mal no Ideb  

5- Os avanços no primeiro ciclo do fundamental não se refletem no módulo seguinte e no ensino médio   

Este é o terceiro editorial de uma série sobre problemas que terão de ser enfrentados pelo próximo presidente da República

Zero a zero já é lucro na economia brasileira

Humberto Maia Júnior
Revista EXAME

Dados recentes mostram que a economia brasileira estagnou. A dúvida agora é: já chegamos ao fundo do poço?

Leandro Fonseca / EXAME 
Parando: com estoque elevado, a fabricante de 
embalagens Dixie Toga planeja dar férias coletivas

São Paulo - Boa parte do debate econômico das últimas semanas se deu sobre uma questão conceitual: afinal, o Brasil está ou não em plena recessão? Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística no fim de agosto atestaram que a atividade total no país recuou na primeira metade do ano — houve a chamada recessão técnica, caracterizada por dois trimestres consecutivos de desempenho negativo do produto interno bruto.

Como o acumulado em 12 meses ainda é 1,4% positivo, há quem resista a cravar que o país está em retração. Será preciso esperar o resultado do ano completo para tirar uma conclusão. Discussão à parte, os dados mostram uma deterioração generalizada: o PIB caiu em três dos últimos quatro trimestres.

A produção industrial declina há um ano. Os investimentos recuam há quatro trimestres e chegaram a 16,5% do PIB, o nível mais baixo desde 2006. A confiança de empresários e consumidores está baixa. O consumo das famílias e os serviços, duas estrelas dos últimos anos, perderam o brilho.

Para completar, a inflação anual continua em torno de 6,5%, o teto da faixa adotada como alvo pelo Banco Central. Diante de tudo isso, vale a pena discutir o termo para adjetivar a economia?

A discussão estará em pauta no dia 23 de setembro, na reunião do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), ligado à Fundação Getulio Vargas. Trata-se de um grupo de economistas que se encontram de tempos em tempos para avaliar a conjuntura.

“Independentemente do que o comitê concluir, existe uma verdade: a economia parou de crescer”, diz Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central e presidente do Codace. O comitê é inspirado num similar existente nos Estados Unidos, que analisa um conjunto de indicadores econômicos, que incluem a situação do emprego, e decide se o país entrou em um ciclo recessivo.

Segundo o comitê, desde 1981 o Brasil já acumula oito períodos de retração, que somam um total de dez anos. Ou seja, quase um terço das últimas três décadas foi tempo perdido em termos de crescimento da economia. De acordo com Pastore, o mais importante é entender as causas do baixo crescimento.

Para ele, a situação atual indica a diminuição de uma capacidade do país: a de crescer sem gerar inflação — chamada de PIB potencial pelos especialistas. Nos seus cálculos, em 2007 o crescimento potencial do PIB brasileiro era de quase 4,5%. Hoje estaria em torno de 1,5%. Esse quadro é reflexo da queda na produtividade e do baixo nível de investimento registrados nos últimos anos.

Trata-se de um diagnóstico mais complexo do que o apresentado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. O ministro culpou a conjuntura pelos dados decepcionantes — no caso, a Copa do Mundo e o desempenho da economia mundial. E prometeu crescimento no terceiro trimestre. Tradicionalmente, diversas atividades são mais fortes na segunda metade do ano.

Com base nesse histórico, as projeções dos analistas apontam para um avanço total no ano de até 0,5% — mas já há quem preveja praticamente um zero a zero. “Ainda que o PIB cresça, será mais um crescimento medíocre”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados.

Mudança de rumo
Está difícil enxergar a prometida reação no segundo semestre. Setores da base da economia não mostram sinais de alento. As vendas de aço da Gerdau tiveram queda de 4% no primeiro semestre. “Houve redução da demanda em razão da menor atividade de todos os setores”, diz André Gerdau Johannpeter, presidente da Gerdau, em recente apresentação de resultados aos acionistas.

As vendas da Dixie Toga, que produz embalagens, caíram 8% no ano passado e, neste ano, mais 7% até agora. “Eu vou me dar por satisfeito se conseguirmos fechar o ano com queda de 3,5%”, diz Marcos Barros, diretor financeiro da Dixie Toga.

Por enquanto, a realidade da empresa é de estoques altos. Estão 30% acima da média normal. Em dezembro, a Dixie Toga deverá dar férias coletivas. No primeiro semestre, cortou 4% do quadro de 5 400 funcionários.

As dificuldades da indústria refletem os desarranjos que também chegaram ao consumo. O PIB do comércio caiu 0,4% no primeiro trimestre e 2,2% no segundo. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a queda reflete a confiança em baixa dos consumidores e a restrição no crédito, que ficou mais caro.

Em um ano, a taxa média de juro ao consumidor saiu de 36,2% para 43,2% ao ano, número mais alto desde 2011. “Isso tem afetado setores dependentes de crédito, como os de carros, material de construção e computadores”, afirma Fabio Bentes, economista da CNC. Na visão de Bentes, o comércio deve fechar o ano com o pior desempenho desde 2003.

Se a sensação que mais se dissemina é a de que 2014 será mais um ano da lista do tempo perdido, os olhos agora estão voltados para 2015. O ânimo vai voltar e os indicadores reverterão o sinal? Aí, a questão que se impõe é: quem estiver no comando do país vai transmitir confiança para a retomada dos investimentos? Os principais candidatos estão usando seus trunfos.

O tucano Aécio Neves adiantou que, se eleito, vai colocar o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga à frente do Ministério da Fazenda. Marina Silva, do PSB, promete dar autonomia plena ao Banco Central. E a presidente Dilma Rousseff declarou que vai trocar nomes de sua equipe econômica, o que incluiria o ministro Guido Mantega. De certa maneira, admitiu que os rumos precisam ser redefinidos. Pelo menos quanto a isso, todos já concordam.

Não será fácil a vida do novo presidente

João Luiz Mauad 
O Globo

Se quisermos turbinar rapidamente as taxas de crescimento, será preciso desengavetar a velha agenda liberal e fazer algumas reformas o mais breve possível

Existe hoje praticamente um consenso entre economistas sensatos: um duro ajuste fiscal terá de ser feito, envolvendo o realinhamento de tarifas e a redução de gastos, para que o país retome o caminho da estabilidade e do crescimento, com juros baixos e inflação sob controle.

Esses mesmos economistas têm insistido que, independentemente de vontade política, não será possível, qualquer que seja o novo presidente eleito, reduzir substancialmente os gastos do governo central a curto prazo, tendo em vista que a grande maioria das despesas primárias refere-se a transferências de renda — Previdência Social, seguro-desemprego, Bolsa Família, pensões e salários do pessoal da União —, enquanto os gastos de custeio, alguns dos quais poderiam ser mexidos imediatamente, representam muito pouco em relação ao total.

Em outras palavras, a despeito de eventuais promessas de campanha e discursos prometendo milagres, é ilusão acreditar que, logo no primeiro ano de governo, por melhores que sejam as intenções e os níveis de gestão da equipe do novo presidente, haverá redução significativa dos gastos públicos.

A longo prazo, o ajuste nas despesas dependerá, principalmente, de duas variáveis básicas: aumento do PIB e manutenção, tanto quanto possível, das despesas com transferências, uma vez que é absolutamente inviável, tanto política quanto legalmente, reduzi-las nominalmente. O importante, portanto, não é olhar o gasto nominal, mas a sua expressão em relação ao PIB (“G/PIB”), cuja redução dependerá muito mais do aumento deste do que propriamente da diminuição daquele.

Se quisermos turbinar rapidamente as taxas de crescimento, será preciso desengavetar a velha agenda liberal e fazer algumas reformas o mais breve possível, especialmente nas áreas tributária e trabalhista, assim como retirar dos ombros do empresariado o pesado fardo burocrático. Além disso, é desejável privatizar todas as atividades que possam ser executadas pelo setor privado, não apenas para torná-las mais eficientes, mas principalmente a fim de que o governo possa se concentrar naquelas áreas onde ainda é insubstituível. São tarefas árduas, mas não impossíveis.

Por outro lado, para manter os gastos nominais em níveis perto dos atuais, serão necessárias doses de esforço e determinação tremendas, principalmente para lidar com as futuras reivindicações — algumas justas, outras nem tanto — de grupos barulhentos e bem organizados. Talvez essa seja a decisão mais difícil, a qual demandará, além de coragem, muita abnegação e desprendimento, porque extremamente impopular.

Não será fácil, por exemplo, enfrentar as indefectíveis greves de funcionários públicos por aumentos de salários. Menos ainda lidar com a fúria dos aposentados, ávidos por aumentos reais dos seus benefícios. Pior ainda será, eventualmente, ter de congelar os valores do Bolsa Família e outras transferências de renda. Menos problemático politicamente, malgrado sua dificuldade operacional, será fiscalizar com rigor as concessões de seguro-desemprego e outros subsídios temporários.

Como se vê, não será nada fácil a vida do novo presidente, especialmente se ele tiver coragem de fazer o que precisa ser feito. A alternativa é continuar empurrando os problemas com a barriga e largar a fatura para as próximas gerações. Alguém se habilita?

O mundo encantado de Dilma

O Estado de S. Paulo
Editorial

Um turista francês de 55 anos, chamado Hervé Goudel, foi decapitado na Argélia por um grupo extremista que disse estar sob as ordens do Estado Islâmico (EI), a organização terrorista que controla atualmente parte da Síria e do Iraque e lá estabeleceu o que chama de "califado". Um vídeo que mostra a decapitação de Goudel foi divulgado ontem, para servir como peça de propaganda do EI - cujos militantes já decapitaram em frente às câmeras dois jornalistas americanos e um agente humanitário britânico e estarreceram o mundo ao fazer circular as imagens de sua desumanidade.

Pois é com essa gente que a presidente Dilma Rousseff disse que é preciso "dialogar".

A petista deu essa inacreditável declaração a propósito da ofensiva militar deflagrada pelos Estados Unidos contra o EI na Síria. Numa entrevista coletiva em Nova York, na véspera de seu discurso na abertura da Assembleia-Geral da ONU, Dilma afirmou lamentar "enormemente" os ataques americanos contra os terroristas. "O Brasil sempre vai acreditar que a melhor forma é o diálogo, o acordo e a intermediação da ONU", disse a presidente - partindo do princípio, absolutamente equivocado, de que o EI tem alguma legitimidade para que se lhe ofereça alguma forma de "acordo".
É urgente que algum dos assessores diplomáticos de Dilma a informe sobre o que é o EI, pois sua fala revela profunda ignorância a respeito do assunto, descredenciando-a como estadista capaz de portar a mensagem do Brasil sobre temas tão importantes quanto este.

O EI surgiu no Iraque em 2006 por iniciativa da Al-Qaeda, para defender a minoria sunita contra os xiitas que chegaram ao poder depois da invasão americana. Sua brutalidade inaudita fez com que até mesmo a Al-Qaeda renegasse o grupo, que acabou expulso do Iraque pelos sunitas. A partir de 2011, o EI passou a lutar na Síria contra o regime de Bashar al-Assad. Mas os jihadistas sírios que estão na órbita da Al-Qaeda também rejeitaram o grupo, dando início a um conflito que já matou mais de 6 mil pessoas.

Com grande velocidade, o EI ganhou territórios na Síria e, no início deste ano, ocupou parte do Iraque, ameaçando a própria integridade do país. No caminho dessas conquistas, o EI deixou um rastro de terror. Além de decapitar ocidentais para fins de propaganda, seus métodos incluem crucificações, estupros, flagelações e apedrejamento de mulheres.

"A brutalidade dos terroristas na Síria e no Iraque nos força a olhar para o coração das trevas", discursou o presidente americano, Barack Obama, na Assembleia-Geral da ONU, ao justificar a ação dos Estados Unidos contra o EI - tomada sem o aval do Conselho de Segurança da ONU. Em busca de apoio internacional mais amplo - na coalizão liderada por Washington se destacam cinco países árabes que se dispuseram a ajudar diretamente na operação -, Obama fez um apelo para que "o mundo se some a esse empenho", pois "a única linguagem que os assassinos entendem é a força".

Pode-se questionar se a estratégia de Obama vai ou não funcionar, ou então se a ação atual é uma forma de tentar remendar os erros do governo americano no Iraque e na Síria (ver o editorial A aventura de Obama, abaixo). Pode-se mesmo indagar se a operação militar, em si, carece de legitimidade. Mas o fato incontornável é que falar em "diálogo" com o EI, como sugeriu Dilma, é insultar a inteligência alheia - e, como tem sido habitual na gestão petista, fazer a diplomacia brasileira apequenar-se.

Em sua linguagem peculiar, Dilma caprichou nas platitudes ao declarar que "todos os grandes conflitos que se armaram (sic) tiveram uma consequência: perda de vidas humanas dos dois lados". E foi adiante, professoral: "Agressões sem sustentação, aparentemente, podem dar ganhos imediatos. Depois, causam enormes prejuízos e turbulências. É o caso, por exemplo, do Iraque. Tá lá, provadinho, no caso do Iraque". Por fim, Dilma disse que o Brasil "é contra todas as agressões" e, por essa razão, faz jus a uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU - para, num passe de mágica, "impedir essa paralisia do Conselho diante do aumento dos conflitos em todas as regiões do mundo".

A solidez fiscal se desmancha no ar

Míriam Leitão e Marcelo Loureiro  
O Globo

O que está acontecendo nas contas públicas é gravíssimo. A solidez fiscal necessária para sustentar a estabilização da economia está se desfazendo. Se alguém tinha alguma dúvida, o dado que acaba de ser divulgado pelo Banco Central eliminou todas elas: quatro meses de déficit primário! É um déficit gigante, o maior de que se tem registro. Quando a conta é feita em 12 meses, o superávit primário é menor do que o necessário, mas ainda é apresentável. Mas o dado do ano é lamentável, de apenas 0,3%, mesmo com os truques como os dividendos maiores de empresas estatais, que desconsidera a necessidade de investimento delas. 

Para quem não sabe, o relato do fato do dia:

Agosto registrou o quarto déficit primário seguido do país. Desde que o Banco Central iniciou a divulgação, em 2001, o Brasil nunca havia tido descontrole tão grande, seguidas vezes. No oitavo mês de 2014, o governo gastou R$ 14,4 bilhões a mais do que arrecadou. Em 12 meses, o governo conseguiu economizar apenas 0,9% do PIB. A reserva estava em 1,2% em julho, já bem abaixo do compromisso do governo de salvar 1,9% (R$ 99 bilhões) para pagar juros.

No recorte de 2014, a situação é ainda mais crítica. Em oito meses, o governo economizou apenas R$ 10,2 bilhões, ou 0,3% do PIB. Se estiver interessado em cumprir com sua palavra, o país terá de economizar cerca de R$ 22 bi ao mês até o fim do ano, algo que nunca ocorreu.

O temor é que isso eleve os riscos de que o Brasil perca o grau de investimento. A concessão do selo, que mede a capacidade de pagamento de um país, está diretamente ligada à disposição de economizar parte do PIB para honrar compromisso com credores. Perder o grau de investimento tem consequências concretas em oferta e preço de financiamento externo para empresas brasileiras. 

Gestão desabonadora

Folha de São Paulo 
Editorial 

Governo Dilma insiste em lidar com as contas públicas por meio de truques contábeis e previsões orçamentárias irrealistas

Têm sido recorrentes os exemplos de má gestão no governo Dilma Rousseff (PT), pródigo em truques de contabilidade para fechar as contas públicas e irrealista em excesso nas previsões que faz para elaborar o Orçamento.

Tomem-se as receitas. Com o arrefecimento da atividade econômica, a arrecadação estagnou, ficando longe, em 2014, do crescimento superestimado pelo Planalto. Em 2015, tudo leva a crer que o cenário pífio se repita, mas o governo, ao montar suas planilhas, mais uma vez supõe um aumento.

Ao ignorar princípios de prudência que deveriam pautar seus cálculos, a atual administração não se limita a inspirar descrédito, com suas consequências deletérias para o custo da dívida pública. A atitude temerária também estimula a própria máquina a inventar manobras contábeis com o fim de disfarçar a insuficiência de recursos.

No episódio mais recente, a gestão Dilma cortou quase pela metade (de R$ 18,9 bilhões para R$ 10,1 bilhões) a programação de gastos para 2015 com o abono salarial do PIS/Pasep --benefício pago a cerca de 20 milhões de trabalhadores com carteira assinada que receberam, em média, até dois salários mínimos mensais no ano anterior.

Iniciativas dessa natureza ainda têm algo de espantoso, pois nem ludibriam observadores da economia nem livram o país de sofrer os efeitos reais, e negativos, dessa gestão imprudente.

O governo da presidente Dilma Rousseff mesmo assim recorre sem cessar a parcelamentos de dívidas tributárias, com a intenção de compensar, com receitas atípicas e incertas, os rombos deixados pela falta de entradas regulares.

Cria despesas que não são discutidas no Orçamento, como as injeções de dinheiro no BNDES, financiadas por aumento de dívida pública. Tais empréstimos ao banco estatal, aliás, foram renegociados com base em prazos e juros ainda mais subsidiados --trata-se, portanto, de maquiagem das dificuldades presentes à custa do futuro.

Recorreu-se até à prática perigosíssima de atrasar repasses à Caixa Econômica Federal de fundos destinados ao pagamento de benefícios sociais. Assim, o banco federal paga, com recursos próprios, os compromissos do Tesouro e espera receber o repasse devido.

Em suma, esta administração desmoraliza as instituições desenvolvidas penosa e lentamente com o objetivo republicano de tornar transparentes as contas públicas e colocá-las sob controle, sujeitas ao escrutínio público.

Como se já não fosse em si bastante, contribui com isso para a deterioração objetiva da economia e para o aumento da incerteza a respeito do futuro do país.

Há algo no ar além dos aviões de carreira

Elio Gaspari 
O Globo

O presidente da seccional de Brasília da OAB quer proibir oex-ministro Joaquim Barbosa de advogar
De acordo com o paragrafo 1º ao artigo 5º do Ato Institucional nº 5, o presidente da República podia “fixar restrições ou proibições (...) ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados”.

Com base nisso, o marechal Arthur da Costa e Silva proibiu que os jornalistas Antonio Callado e Léo Guanabara exercessem a profissão.

Mesmo para tempos de treva, a medida foi vista como uma exorbitância e o presidente revogou-a pouco depois.

Agora, em pleno regime democrático, o advogado Ibaneis Rocha Barros Junior, presidente da seccional de Brasília da Ordem dos Advogados do Brasil, pediu a impugnação do pedido de inscrição de Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. Sem registro na OAB um bacharel em direito não pode advogar.

O doutor justificou seu pedido mencionando episódios em que, segundo ele, Barbosa ofendeu e prejudicou a classe dos advogados. Em todos os casos, o ministro agiu no exercício de função pública e em nenhum deles teve sua conduta condenada pelos poderes competentes. Felizmente, os tempos atuais são diferentes da treva que baixou sobre o país em 1968. O pedido de impugnação é uma iniciativa legítima e precisará ser ratificada por uma instância superior.

Do ponto de vista curricular, o doutor Ibaneis chegou à presidência da seccional da OAB de Brasília com menos títulos que o professor Luís Antônio da Gama e Silva, ministro da Justiça e redator do AI-5. “Gaminha” havia sido reitor da Universidade de São Paulo e diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Era um liberticida a serviço de uma causa. Achava que proibindo Callado e Leo Guanabara de exercer a profissão de jornalista contribuía para assegurar uma “autêntica ordem democrática”. Afinal, foi isso que escreveu no preâmbulo do Ato Institucional. Essa “ordem democrática” expulsou do Supremo Tribunal os ministros Evandro Lins e Vitor Nunes Leal, mas não os impediu de advogar.

O doutor Ibaneis certamente acredita que a ordem jurídica brasileira e a própria advocacia terão a ganhar negando a um ex-presidente do Supremo Tribunal o direito de advogar. Há pessoas que aplaudem Barbosa na rua e há aqueles que o detestam. Em todos os casos, a opinião que se faz dele relaciona-se acima de tudo com a conduta que teve no STF ao relatar e presidir o julgamento dos réus do mensalão.

O pedido do presidente da seccional da OAB de Brasília é uma iniciativa individual, mas pode ser perigosamente associado a uma maneira de pensar do comissariado petista. Nenhum cidadão que aplaudiu a formação da bancada da Papuda acredita que Barbosa deve ser proibido de qualquer coisa, muito menos de advogar.

Em qualquer época, em qualquer governo, sempre haverá nos arrabaldes do governo um militar querendo fazer a bomba atômica e um operador político querendo limitar os direitos de seus adversários. Parecem figuras folclóricas, como “Gaminha” parecia sê-lo quando o marechal Costa e Silva colocou-o no Ministério da Justiça. O tempo passa, as coisas se complicam e os personagens folclóricos ganham aliados e tornam-se sábios clarividentes. Quando a festa acaba, atribui-se a ruína ao radicalismo de um “maluco”. Gaminha não era maluco, era apenas liberticida. Doidos foram os outros.

Cartão vermelho para Dilma e Marina

Carlos Chagas
Diário do Poder

Quando a gente imaginava que não podia ficar pior, ficou. E mais ficará, estendendo-se a certeza até o segundo turno, dia 26. Fala-se da baixaria que assola não apenas a campanha presidencial, mas o pudor e a paciência de todos nós.

Dilma chama Marina de mentirosa, acusando-a de desvio de caráter por conta da votação da emenda da CPMF. Marina retruca que mentirosa é a Dilma, por sustentar não ter conhecimento dos escândalos na Petrobras.

As duas vão se encontrar cara a cara no último debate entre os candidatos, dentro de horas, na Rede Globo. Irão armadas? Porque já prepararam novas injúrias, além das que dispararam ontem, durante as campanhas. Fosse num campo de futebol e teriam recebido o cartão vermelho, tanto pelas agressões quanto pelas mentiras.

Do fundo da memória, só se encontra paralelo nessa lambança promovida pelas candidatas quando Jânio Quadros e Ademar de Barros disputaram o governo de São Paulo, em 1954. Um levava para os comícios um rato morto pendurado num bambu, por um fio. O outro reagia com um gambá, na mesma situação – ambos sustentando ser o adversário.

A pergunta que se faz é se tanto Dilma quanto Marina terão condições emocionais para dirigir o país pelos próximos quatro anos. No Congresso, adversários serão transformados em inimigos? E nos governos estaduais? A presidente, quando de sua eleição contra José Serra, em 2010, jamais levou a campanha para tamanho baixo nível. Nem a ex-senadora, ao disputar o mesmo pleito, ficando em terceiro lugar. Qualquer uma que vença agora carregará o peso da falta de equilíbrio.

PESQUISAS EM XEQUE
Longe de levantar suspeitas, mas como explicar que as pequisas indicavam Garotinho em primeiro lugar, na disputa pelo governo do Rio, com Luís Pesão lá em baixo, mas, pouco depois, inverteu-se o pêndulo? Eunício Oliveira, no Ceará, já podia encomendar o terno da posse, agora corre o risco de perder. E no Rio Grande do Sul, com Ana Amélia considerada eleita e hoje perdendo para Tarso Genro? Os exemplos da inconstância do eleitorado se multiplicam. Ou os institutos de consulta popular se enrolaram? Vale aguardar a verdadeira pesquisa, domingo.

Quanta velhacaria de Lula e sua turma!

Ricardo Noblat



Lula comentou hoje:

- Ouvi dizer que o mercado está nervoso porque Dilma vai ganhar. Ganhei em 2002 e 2006 e não pedi voto para o mercado. Dilma ganhou em 2010 e não pediu voto pro mercado. A gente pede voto é pras pessoas.

Em 2002, Lula lançou um documento chamado “Carta aos Brasileiros” onde garantia a manutenção da política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso.

Na verdade, indiretamente, a carta foi destinada a empresários e banqueiros. Eram eles que estavam em pânico com a eventual eleição de Lula.

Fez isso por que? Por que desejasse perder votos do mercado financeiro? Ou por que desejasse ganhá-los?

A resposta é óbvia.

Meus Deus! De quanta velhacaria Lula, Dilma e sua turma são capazes.

Campanha de Marina vai ao TSE contra ataque a site

Ana Fernandes e  Isadora Peron
Estadão Conteúdo

O coordenador-geral da campanha de Marina Silva (PSB), Walter Feldman, informou nesta terça-feira, 30, que a coligação entrará na noite de hoje com uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), notificando um crime de ataque cibernético e pedindo apuração de provas que foram coletadas em uma investigação preliminar feita pela própria equipe de campanha.

Segundo Feldman, o site oficial da campanha de Marina foi atacado na madrugada do dia 12 de setembro. A investigação preliminar mostrou, ainda de acordo com o coordenador, que 1.365 computadores fizeram 4 milhões de acessos em 16 minutos. A ação teria gerado uma instabilidade e deixado o site fora do ar por cinco horas. "Foi um ataque virulento, contundente e capaz de derrubar qualquer site", disse o coordenador.

Feldman comunicou ainda que essa investigação preliminar feita pela campanha, segundo ele de forma legal, apontou ao menos três instituições públicas de onde teriam partido os ataques: Petrobras, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e prefeitura de Ivoti (RS). Questionado se haveria desconfiança de os ataques poderiam ter partido de adversários políticos, com fins eleitorais de atingir a campanha de Marina, Feldman disse ser cedo para fazer uma afirmação como essa. "Não temos elementos para dizer isso. O nosso requerimento para o TSE é muito cuidadoso. Causa estranheza apenas porque teria acontecido de forma muito organizada e isso tem um custo."

Ainda de acordo com Feldman, a investigação não foi capaz de identificar se foi um computador de cada uma das três instituições identificadas ou "nós" que interligariam a mais máquinas. Mas reafirmou que essas três origens foram identificadas. Para ele, a mais surpreendente é a conexão identificada com a Petrobras, que teria revelado um ataque partindo de um IP (identificação do computador na rede) vindo de um prédio da estatal no Rio de Janeiro. "A investigação demonstra, no mínimo, a abertura da blindagem que os computadores da Petrobras teoricamente deviam ter", disse Feldman.

O coordenador disse que a prefeitura de Ivoti é comandada pelo PSDB, em resposta aos jornalistas, mas pontuou que isso não significa ainda responsabilidade de qualquer partido sobre a ação. Ele reafirmou que o pedido de investigação ao TSE é justamente para esclarecer o que ocorreu. Feldman explicou também que a campanha decidiu levar o caso ao TSE porque julgou ser o órgão mais adequado dado o teor da investigação e a proximidade das eleições. E justificou a atitude da campanha de conduzir uma investigação preliminar dizendo que seria "vago" apresentar uma reclamação de invasão do site.

Segundo turno
Feldman comentou brevemente o cenário eleitoral, com avanço da candidata petista Dilma Rousseff e recuo de Marina nas pesquisas. Ele disse não ter "nenhum receio" de Marina ficar fora do segundo turno, repetindo o discurso que havia sido colocado pela própria candidata momentos antes.

O coordenador da campanha de Marina também reclamou dos ataques dos adversários, dizendo que falta escrúpulo e ética à campanha dos concorrentes. Feldman acusou ainda de cinismo o presidente do PT, Rui Falcão. "Esses dias o presidente do PT se disse indignado com ataques feitos pela Marina. Só pode ser uma afirmação cínica, não dá pra acreditar que ele próprio acredite nisso."

PSB diz que computador da Petrobras atacou site de Marina

Marcela Mattos
Veja online

Partido de Marina afirma que, dos onze números de IPs que atacaram o site, onze estão localizados geograficamente no eixo monumental de Brasília, que concentra a maior parte dos órgãos públicos federais

 (Nacho Doce/Reuters) 
Candidata Marina Silva (PSB) conversa com membro
 de tribo Tupi durante campanha na cidade de São Paulo/SP  

A campanha da candidata à Presidência pelo PSB, Marina Silva, apresentou uma representação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na qual afirma que um dos endereços de IPs identificados no ataque ao site da coligação é da Petrobras. O site foi invadido no dia 12 de setembro. De acordo com nota divulgada pelo partido, também foram constatadas investidas feitas de endereços da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de uma prefeitura do Rio Grande do Sul. 

"Dos cerca de 1.300 endereços IP (internet protocol) usados para o ataque, a equipe técnica conseguiu localizar um que pertence à Petrobras, como também identificou os IPs da Universidade Federal de Minas Gerais, da Prefeitura de Ivoti (RS), da Global Village Telecom Ltda – GVT, da NET Serviços de Comunicação S.A. e da Brasil Telecom S.A, entre outros", diz a nota.

A nota afirma ainda que, dos mais de 4 milhões de acessos ao site, realizados em dezesseis minutos de 1.365 computadores, 11 números de IPs estão localizados geograficamente no eixo monumental de Brasília, "exatamente onde se concentra a maior parte dos órgãos públicos federais, indicando que podem ter sido utilizadas instituições públicas no ilícito".

O assunto foi comentado pelo coordenador da campanha de Marina Silva, o ex-deputado federal Walter Feldman. “Essa ação tipifica crime. Aconteceu durante a madrugada, de forma articulada e com custo”, afirmou, durante entrevista nesta segunda-feira. Feldman destacou ainda que esse tipo de ataque custa caro e que provavelmente os hackers receberam dinheiro pela ação.

Custos da diplomacia eleitoreira

O Globo
Editorial

Entre os danos causados pelo uso partidário da assembleia da ONU está o fim do sonho do assento no Conselho de Segurança e mais uma rusga com os Estados Unidos

Entre as marcas fortes destes 12 anos de administração petista, inclui-se a partidarização da política externa. Assim, tão logo Lula assumiu, a nova diplomacia brasileira começou a trabalhar contra as negociações com os americanos em torno da Alca, Aliança de Livre Comércio das Américas, sob aplausos do nacional-populismo já reinstalado no continente — Venezuela e Argentina, seus representantes mais proeminentes. De fato soterrou-se aquele projeto de integração Norte-Sul, e a diplomacia companheira fez o país mergulhar em outra direção, na política Sul-Sul, equivocada, como sabido.

A patética participação da candidata-presidente Dilma Rousseff na 69º Assembleia Geral da ONU mostrou outra faceta preocupante da “petização” da diplomacia brasileira: seu uso eleitoreiro, apenas para afeito da campanha da reeleição de Dilma. Neste caso, dizer que o Barão do Rio Branco enrubesce na tumba não é um bordão surrado.

Antes de representar o Brasil no discurso de abertura da assembleia, Dilma participou da Cúpula do Clima, com um providencial vestido vermelho, em óbvia obediência aos marqueteiros da campanha. Da tribuna da ONU, Dilma continuou no script eleitoreiro, ao fazer um discurso de prestação de contas de seu governo e dos oito demais anos de PT no Planalto, sem qualquer interesse para os representantes dos países.

Teve o mesmo objetivo a desastrada crítica, feita de forma mais clara em entrevistas, à ação militar da coalizão liderada pelos americanos contra o Estado Islâmico, grupo sectário tão radical e violento que foi desligado da al-Qaeda. Inspirada no antiamericanismo, agora com fins eleitoreiros, Dilma fez a inaceitável defesa dos jihadistas assassinos do EI, com base no conhecido discurso já usado sobre a guerra no Iraque — correto em si —, de que é necessário “dialogar”, em vez de sacar armas.

Fez uma inacreditável confusão. O EI não é um Estado, mas um bando armado, fanático, já conhecido por degolar jornalistas e, agora, um turista, filmar as atrocidades e colocá-las na internet como peça de propaganda. Esqueceu-se a diplomacia companheira que da coalização participam países árabes, o que aumenta a legitimidade da operação.

Da desastrosa passagem por Nova York sobram danos para o Brasil. Além do descrédito semeado por Dilma, há um novo distanciamento em relação aos Estados Unidos, cuja economia se recupera e pode compensar as perdas nas exportações nacionais causadas pela debacle Argentina. Outro dano é o virtual fim do projeto de obtenção do assento no Conselho de Segurança, elevando o status político brasileiro ao peso que o país já tem na economia mundial. Não se pode mesmo dar poder de veto no CS a quem protege sectários.

É uma imagem emblemática a cena do assessor especial da presidência Marco Aurélio Garcia, liderança petista, aboletado na bancada brasileira na assembleia geral. Simbolizava a tutela da política externa pelo partido.

Os postes

Maria Lucia Victor Barbosa (*)

No meu primeiro livro, O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – A Ética da Malandragem, editado por Jorge Zahar, escrevi:

“É necessário que o candidato em seus discursos aborde problemas cotidianos e use uma retórica exaltada, eivada de ideologia cabocla de justiça social, pois é necessário ressaltar a diferença entre ricos e pobres e clamar por vingança contra os que no momento ou no passado não conseguiram satisfazer as aspirações populares”.

Focando na figura de Lula da Silva compreende-se que foi graças a tais artimanhas que ele, na quarta tentativa, chegou lá. De um lado agradou a maioria composta pela pobreza. De outro, convenceu aos que depois chamou de “zelite”, que não ia mexer no mercado ou desagradar banqueiros, empreiteiros, grandes empresários. Aquela linguagem revolucionária de esquerda era só de brincadeirinha.

No poder Lula deu migalhas aos pobres e agiu como “coronel”, daqueles do “voto de cabresto”. Aos ricos proporcionou lucros inimagináveis e eles, agradecidos, sustentaram suas campanhas e a de seus companheiros. A classe média, onde entre outras categorias se inserem artistas, intelectuais, universitários, profissionais liberais que costumam ostentar ser de esquerda, Lula provocou aquele embasbacar pueril que faz a alegria dos demagogos.

Lula fez da presidência da República seu palanque de politicagem no qual achincalhou a língua pátria e se deliciou ao utilizar pesada retórica onde não faltaram palavrões, impropriedades e estultices. Louvado pela obra de ficção descrita pelo marketing como o Brasil transformado em paraíso reinou absoluto sem nenhuma oposição, quer partidária, quer institucional.

O saldo do seu longo período é a herança maldita que se sente no caos econômico, na corrupção presente em escândalos que permearam seus oito anos de governo, mais os quase quatro de Rousseff em que ele foi o presidente de fato.

O último e mais estrepitoso escândalo está sendo escancarado pelo detento, Paulo Roberto da Costa, ex-diretor da Petrobrás, o companheiro Paulinho. Na tentativa de diminuir sua pena, Paulo Roberto está mostrando que se roubou não em milhões, mas em bilhões e dá nome aos poderosos que se locupletaram, sobretudo, aos companheiros do PT e aos amigões do PMDB e do PP. Lula e Rousseff durante anos não viram nada, não souberam de nada e se alguma coisa houve a culpa foi dos Estados Unidos, de Fernando Henrique e da crise internacional.

Mantém ainda Lula o mesmo poder? Seu primeiro poste, a criatura Rousseff, é um retumbante fracasso e tem conduzido o Brasil à bancarrota. Seu segundo poste, Fernando Haddad, eleito por Lula prefeito de São Paulo, tem uma das piores avaliações entre os prefeitos de todo o país. O terceiro poste, o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, amarga o último lugar na campanha ao governo de São Paulo.

O teste das urnas, que inclui outros candidatos do PT Brasil afora mostrará se Lula continua poderoso ou não. Para alegria dos petistas pesquisas do momento estão dando esperança ao PT, que estava sentindo medo. O chamado escândalo do pretrolão que fez empalidecer o mensalão não sensibilizou o povo. Inflação acelerada junto com inadimplência, indústria afundando, piora no emprego, o Brasil entrando em recessão, nada disto é notado pelos eleitores que continuam otimistas.

Se os brasileiros não ligam mais para seu bolso, que como dizem é a parte mais sensível do corpo, seria difícil imaginar a maioria assistindo ou entendendo a recente entrevista concedida por Rousseff ao Bom Dia Brasil. Naquela ocasião a governanta esbanjou prepotência, cinismo e total ignorância de dados do seu próprio governo e do panorama internacional.

A última da governanta se deu na ONU, dia 23, antes de seu discurso de autoelogio feito na abertura do evento. Não se sabe se por inspiração de Lula da Silva, que sempre defendeu a pior escória mundial ou se por instrução do chanceler de fato, Marco Aurélio Garcia, Rousseff se posicionou contra os Estados Unidos e aliados, e a favor do Estado Islâmico. Uma aberração diplomática capaz de matar de vergonha os brasileiros que têm informações e senso das medidas.

De fato, com bem disse uma autoridade israelense, somos um anão diplomático. Afinal, apoiamos terroristas fanáticos cujas ações contra os que consideram infiéis são a degola, a crucificação, o enforcamento, o estrupo, a flagelação e o apedrejamento de mulheres. A governanta certamente ignora que pelas leis do IE é uma infiel e, que por isso, merece perder literalmente a cabeça ou no mínimo ser obrigada a usar burca.

Diante de tantos descalabros e ao ver o poste Rousseff subindo nas pesquisas, a pergunta a se fazer não é mais que país é esse, mas que povo é esse, que não se envergonha da incompetência e da corrupção internas e da repulsiva política externa. A resposta estará contida no teste de poder de Lula quando as urnas mostrarem os resultados.

(*) Transcrito do Blog do Percival Puggina