domingo, outubro 26, 2014

Com Dilma, o Brasil se tornou um país à deriva

Adelson Elias Vasconcellos

Não sei qual foi o preparo dado à senhora Dilma Rousseff para o debate na Globo. Acho que, em alguns momentos, deve ter-lhe baixado a pressão e ela se desligou das instruções de seu marqueteiro. Sua atuação não poderia ter sido pior.

Repetiu as mesmas mentiras, as mesmas confusões, as mesmas mistificações, as mesmas estatísticas deturpadas e manipuladas da forma mais vigarista possível. Mas o que mais chamou a atenção foi a tentativa de tentar roubar para si e para o governo de Lula, obras construídas, arquitetadas e implementadas justamente pelo governo a quem ela mais se opôs ao longo da campanha. Afirmar, como fez, que Pronaf, ENEM, Fies são obras dos governos petistas? Em que mundo esta senhora imagina ter vivido antes de seu partido alcançar o poder em 2003? 

Nunca vou esquecer as barricadas erguidas por Lindergh Farias, candidato petista a governador do Rio derrotado, tentando sabotar o ENEM, impedindo os alunos de terem acesso aos locais de provas! 
Não, senhora Rousseff, o ENEM foi um exame de avaliação da qualidade e desempenho dos alunos do ensino médio, criado por Renato de Souza, ministro da Educação do governo FHC, infelizmente já falecido.  

Quem deturpou o exame foi o PT que, não podendo roubar no grito a obra alheia, tratou de desvirtuar seu objetivo principal, criando o vestibulão, que foi no que o ENEM se transformou.   Hoje, pelo ENEM, não se pode mais avaliar a qualidade do ensino médio no país e, em consequência,  buscar soluções para a melhoria desta qualidade. Aliás, o ensino médio é o que tem maior evasão escolar e o que apresenta os menores índices de eficiência dentre os diferentes degraus da educação brasileira. 

Depois, em relação ao PRONAF, quis comparar o volume de recursos repassados pelo programa à agricultura famíliar, de vinte anos atrás com os atuais. Isto é um absurdo descomunal. É evidente que a arrecadação federal cresceu muitas vezes nestes vinte anos. O que Dilma deveria ter feito, e não fez por conveniência, era atualizar os valores de vinte anos atrás pela taxa de inflação do país ocorrida no período. Depois, tentou insinuar que a estabilidade econômica e o fim da inflação foram obras do PT. Neste ponto, a vigarice da senhora Rousseff extrapolou qualquer limite de indecência.  Veja abaixo o histórico real - não manipulado - sobre a inflação brasileira: 



Claro que para os petistas a atuação de sua candidata deve ter sido soberba. Porém, para quem cuidou dos detalhes, das afirmações, das respostas, de maneira fria e sem torcida, apenas se guiando pelo conhecimento de História e o bom senso, não resta dúvida de que talvez tenha sido este debate na Globo o de pior atuação da senhora Dilma. Não dá para dizer que seu desastre vá influenciar o eleitor no domingo, ou que seu  desempenho desastroso será suficiente para empurrar Aécio para a vitória. 

Porém,  é possível concluir que Dilma é completamente despreparada para ocupar a presidência. Seus quatro anos foram suficientes para chegarmos a esta constatação. Não há índice econômico que tenha se salvado do desastre. Até o tal pleno emprego é lorota, só possível de ser admitido mediante manipulação e truque estatístico. Na verdade, o que se tem neste campo, é que aumentou o número de brasileiros desocupados, e reduziu-se a força de trabalho ativa. Isto não é uma questão de opinião, Trata-se de um fato medido e divulgado pelo próprio IBGE.  

Um detalhe ainda em relação à agricultura: durante mais de uma década, a produção total de grãos do país se manteve estagnada entre 70 e 80 milhões de toneladas. Foi a partir de FHC que conseguimos atravessar, pela primeira vez na história, a barreira das 100 milhões de toneladas, e isto apesar de dois anos seguidos de imensa estiagem que afetou a maioria das culturas. Tanto é assim, que na região de maior produção agropecuária  nacional, a região Centro-Oeste, o PT jamais conseguiu vencer a eleição presidencial.  

Dilma,  tentando atingir o candidato Aécio Neves, falou sobre a crise híbrida que atinge principalmente São Paulo mas que também já afeta Rio de Janeiro e Minas Gerais. Tentou colar no tucano a incapacidade de planejamento  do PSDB. Primeiro,  as principais nascentes do Rio São Francisco estão secas, e ao longo do rio a navegação se tornou impossível. O Rio São Francisco não cruza São Paulo.  Muitas hidrelétricas reduziram suas vazões e sua capacidade de geração por conta da prolongada estiagem, a maior dos últimos 80 anos.  Seria o mesmo que acusar o Japão pelo desastre do terremoto que provocou um tsunami mortal para milhares de pessoas. Alguém é capaz de planejar desastres naturais?  Tanto é assim que, em razão da estiagem, toda a rede de usinas termoelétricas está operando na capacidade máxima para o país não ficar no escuro.  E, estivesse o país crescendo a razão de 4 a 5% ao ano, e estaríamos convivendo com apagões e racionamento por conta do baixo nível dos reservatórios. 

Isto, senhores, é respeitar a história, é respeitar os fatos, é olhar a realidade sem paixão, mas com a análise fria de quem se importa com os problemas que nos atingem. Porque, primeiro, é preciso reconhecer que os problemas existem, situação da qual Dilma foge como o diabo da cruz. 

O que lamento, sinceramente, é que a grande maioria do povo brasileiro tem formação deficiente e informação insuficiente.  Não fosse isso, e Dilma já teria perdido a eleição no primeiro turno. Porque o baú de mentiras que contou e espalhou não encontraria eco suficiente para lhe garantir um segundo turno. 

Uma das questões colocadas pelo Aécio foi a tal construção do porto de Mariel, em Cuba. Já nem vou entrar nos detalhes das condições super facilitadas do financiamento, não concedidas a nenhuma empresa que atue no Brasil.  Afirmou a senhora Rousseff que o financiamento garantiu milhares de empregos no país. Ok, vamos considerar que tal geração de empregos seja verdade. Porém, pergunto: quantos outros milhares de empregos a mais teriam sido gerados se os financiamentos tivessem sido direcionados para a ampliação e modernização dos portos brasileiros?  Mais: quanto em custos e aumento da nossa competitividade teriam os mesmos investimentos  proporcionado ao país, se o mesmo volume de recursos tivessem sido aplicados em portos e terminais localizados no Brasil? Ou, acaso, Dilma não sabe das imensas filas e demora para embarque e desembarque dos nos principais portos?  Ou ignora que a perda da competitividade brasileira se deve, sobretudo, ao custo Brasil, no qual a infraestrutura tem enorme peso?

Além disso, à época, se alegou que a operacionalização do Porto de Mariel iria beneficiar o comércio bilateral com Cuba,  facilitando a exportação de produtos brasileiros. Dois meses depois da visita de Dilma ao tal porto, Cuba não se envergonhou nenhum um pouco em firmar um acordo com a Rússia para que aquele país operasse o porto, além do que o que entra em Cuba são produtos chineses e não brasileiros. Dilma às vezes parece perder qualquer linha de raciocínio e vai despejando números que são verdadeiras aberrações.  Destacou que a construção do porto teria  gerado 450 mil empregos no Brasil,  e isto não passa delírio puro.   

Terá o eleitor o mesmo discernimento sobre a atuação de Dilma no debate que o que acima apresentamos? Não sei. Como disse, é preciso ter vivido e conhecido a História recente do país para não cair no conto do vigário e aceitar, sem pestanejar nem retrucar, as muitas mentiras  e impropérios citados por Dilma Rousseff. 

Na questão da reforma política Dilma deu uma rateada legal: afirmou, sem meias palavras, que  o financiamento empresarial coloca dentro das campanhas o fator econômico. Estaria  falando por experiência própria, é? 

Sobre corrupção. Dilma esqueceu completamente que já está em vigor a chamada Lei Anticorrupção, que ela própria sancionou e que tem dispositivos muito rigorosos também no tocante à punição dos empresários corruptores. É uma lei que o governo até hoje não regulamentou, por que será, né? Será para não ter de “punir” os petistas enrolados no escândalo da Petrobrás? 

Para encerrar sua imensa coleção de absurdos, Dilma  atacou Aécio pelas verbas de publicidade recebidas por uma emissora de televisão da família dele. Que mancada, hein, presidente?   A  família do tucano não possui nenhuma TV. E Aécio nem perdeu tempo em responder.

Nesta sexta-feira, divulgou-se   que o rombo das contas externas do país bateu novo recorde histórico. E segue em tendência de alta. Pode ainda não ser uma ameaça à estabilidade do país. Contudo, juntando-se tudo que de ruim este governo costurou nos últimos quatro anos, impossível não reconhecer que a estabilidade está sim ameaçada.  Que o desemprego já existe,  e tende a aumentar ainda mais. Que a queda da produção industrial continuará sua regressão perversa em relação aos empregos de maior qualificação e maior renda. Que o endividamento tende a aumentar, com o pagamento de juros comprometendo fatias cada vez maiores do orçamento da União, hoje já superando os 50%. Que a inflação não refreada, tolerada sempre próxima ao teto da meta,  continuará corroendo os ganhos de renda e salários dos últimos anos. E que o conjunto de toda esta obra ruim vai nos colocar na rabeira do crescimento econômico mundial.  Se é para comparar, vamos por o papo furado de lado e ir ao ponto. Vejam o quadro abaixo: 



O debate sob todos estes pontos de vista não deixa dúvida sobre o despreparo da senhora Rousseff. É preciso mudar agora, já, e a principal mudança, ou o primeiro passo para a mudança acontecer de forma virtuosa, é afastando o atual do comando do país. Do contrário, como já afirmamos em outros textos, dentro de quatro anos,  estaremos discutindo as mesmas mazelas, os mesmos retrocessos, o mesmo crescimento pífio, as mesmas necessidades não atendidas, e ouvindo o mesmo discurso enganador.   Creio que depois de 12 anos, chegou a hora do BASTA. O Brasil, pela sua grandeza, por suas imensas riquezas e potencialidades, pela infinidade de oportunidades que oferece mas num ambiente não são aproveitadas, não pode continuar sendo governado por quem sequer se dignou em apresentar um plano mínimo de governo. O desastre destes últimos quatro anos resultou em deixar a economia e o crescimento do país à deriva.   

Ou o eleitor acaba com o terrorismo, ou o terrorismo acaba com a democracia
Neste domingo compete ao eleitor brasileiro acabar com o terrorismo, dando uma resposta direta de que não aceita mais campanhas desonestas como  as protagonizadas pelo PT.  Junto, também dirá não admite mais roubalheira de dinheiro público por um partido político. E a resposta é dizer para uma questão e outra é uma só: varrer o PT do Planalto. Ou se faz isso, ou quem perderá, e muito, é a democracia do Brasil.  Este bandido de criminosos e delinquentes devem ser julgados, condenados e presos, além de proibidos de exercer cargos públicos de qualquer natureza.  O que não pode, é o Brasil ficar à deriva por ser governado por uma presidente  sem a qualificação que o cargo exige. Mas é o eleitor quem decide. Então, o que vai ser?

E a economia, dona Dilma, alguma proposta nova?

Adelson Elias Vasconcellos


Você que acompanhou debates, leu e ouviu os presidenciáveis exporem ideias, criticas, acusações e outras pantomimas, alguma vez lembra de ter ouvido da senhora Rousseff, que afinal de contas, mesmo sendo candidata em tempo integral, ainda é a presidente do país,  alguma proposta ou media para tirar o país do atoleiro da inflação alta, juros altos, baixo investimento, baixo crescimento e contas públicas debilitadas? 

Pois é, sequer ela reconhece o diagnóstico, quanto mais receitou algum remédio. Já falamos inúmeras vezes do perigo que é darmos  um cheque em branco  para Dilma, sem propostas e em consequência sem compromissos com coisa alguma, dar prosseguimento a esta política econômica retrógrada. Como também já se disse aqui várias vezes o quanto o governo da senhora Rousseff, em ideias e programas, se assemelhava ao governo Ernesto Geisel, dos tempos da ditadura, respeitados os contextos históricos. 

Há uma reportagem na Exame.com que, quase em ritmo de incentivo, anuncia que num provável segundo mandato Dilma mudaria seu estilo de ser.  Não sei de onde o jornalista tirou tal conclusão, mas não foi fruto do bom senso. Vejamos. Ninguém muda por decreto, certo? Ora, Dilma cumprindo um segundo mandato sabe que depois dele é aposentadoria na certa, já que vida política nunca teve, ao contrário de Lula, Sarney e Collor.

Claro que seu governo se devotaria a incensar Lula da Silva, tentando abrir caminho para sua volta ao poder. E o país? Bem, se o eleitorado em sua maioria reconduziu Dilma para mais quatro anos, e sendo aqui seu ponto de chegada na vida pública, a troco do que Dilma iria mudar seu estilo? 

Quem a conhece sabe que sua intempestividade, seus desequilíbrios emocionais, seu comportamento grosseiro e agressivo sempre fizeram parte de sua personalidade. Já com mais de 60 anos, quem de sã consciência acredita que Dilma vá mudar radicalmente sua conduta? 

Sendo assim, a não ser em medidas pontuais e de curto alcance, não se pode esperar  grandes reformas, nem mudanças radicais na atual política econômica. E ela sequer sente necessidade disto. 

Ora, sabemos que muito do sucesso econômico do governo Lula se deve a dois fatores: o primeiro, o compromisso assumido ainda em 2002, de que não quebraria contratos e nem alteraria os fundamentos macroeconômicos que garantiram o alcance da estabilidade econômica.  E o segundo fator foi a grande expansão da economia mundial, com elevação dos preços internacionais das commodities e seu maior consumo, principalmente,  por parte dos países emergentes, notoriamente China e Índia.  

Tais condições não estarão presentes em 2015. O modelo de incentivo ao consumo das famílias se esgotou já a partir da renda relativamente baixa destas mesmas famílias. Somente com uma política industrial racional ancorada numa política coerente de atração de investimentos privados para a infraestrutura, terá o condão de devolver crescimento ao país. Mas há ainda a questão dos gastos públicos que, em governos populistas,  tendem a ser  mais altos do que as receitas.  Como equilibrar esta balança? Dilma não sabe nem quer saber. Se necessário, dá-se um jeito de elevar a carga tributária, e vida que segue. Claro que aumentar impostos num país com uma carga já elevada, é um tema delicadíssimo. Assim, a outra porta de saída (ou de entrada), seria aumentar o endividamento do país, já por si alto, mas dentro de certo controle. 

Seja como for, para o lado que se queira olhar, colocar o bonde nos trilhos do crescimento vai exigir, goste-se ou não , de um ajuste fiscal, e isto significa reduzir parte das gordura do Estado e cortar despesas inúteis (e que são muitas). 

E, no contexto atual, ajuste fiscal e corte de despesas tem uma consequência danosa: conviver com certa recessão por alguns meses. Isto é inadiável, é o preço a pagar pela imprevidência e incompetência do atual governo.   

Se o desejo do próximo governante, seja ele quem for, é reencontrar os caminhos do crescimento sustentável, independente do efeito colateral,  a vacina é obrigatória e inadiável. 

Assim, o que Dilma oferece em sua campanha em favor da retomada do crescimento? Até agora, nada. Nem uma palavra, nem uma proposta. Silêncio total e absoluto. E isto representa dizer que, se o eleitorado a escolher para os próximos quatro anos, Dilma não se sentirá obrigada a nada, já que não apresentou plano de governo algum. Assim, estarão entregando a ela um cheque em branco podendo a dita cuja fazer dele o que bem entender. 

E isto é preocupante. É uma aposta de altíssimo risco, quanto mais sabendo que ela governará sem credibilidade e sob suspeita geral de ter prevaricado, isto no mínimo, no caso do escândalo da Petrobrás. Sentará na cadeira presidencial com uma espada espetada em direção à sua cabeça. Pergunta-se: que apoio ela espera receber de um Congresso, com viés bastante conservador, e que também terá entre seus membros, uma quantidade enorme de parlamentares respondendo a processos variados? 

Neste ponto, fica a questão: qual seria a melhor opção para o país? Se a gente colocar de lado o espírito de fla-flu, as questões ideológicas, ou até mesmo as inclinações partidárias, não resta dúvida que o candidato do PSDB representa, ao menos, a mudança que tanto se reclama, além do fato de que alimentará todo um espírito de esperança capaz de tirar o Brasil do atual marasmo. E com a bonificação de que poderá governar sem a ameaça de uma crise política e até institucional.   Não há dúvida de que a recuperação dos bons predicados de uma economia austera, mas devotada  ao investimento, nos fará muito bem. Com Dilma será mais do mesmo, além dos problemas políticos-institucionais. 

Saberá o eleitor brasileiro discernir a diferença entre um e outro? Eis aí a grande questão. O terrorismo promovido por Dilma e sua campanha praticamente dividiu o país ao meio, criando uma falsa disputa entre “nós”  e “eles”, entre ricos e pobres, entre norte-nordeste contra sul-sudeste, entre pretos e brancos, entre índios  e produtores rurais. Em tais condições a paixão sempre acaba embotando o pensamento, e a disseminação do ódio acaba sempre criando um clima de beligerância entre os lados. Não precisava ser assim, a campanha tinha muito para discutir sobre o país, projetando propostas e discutindo programas. Porém, dada a mediocridade do governo atual, a opção foi fazer muito  barulho e espalhar o terror na falta do que dizer e apresentar, na tentativa de calar a crítica. No domingo saberemos se a tática deu certo ou não.   

E a pergunta no título, vai permanecer sem resposta. Nem no debate da Rede Globo, Dilma Roussefff se dignou em, primeiro,  reconhecer que a economia brasileira vai mal e,  em segundo, não nos brindou com nenhuma proposta.   

Nada a declarar

J.R. Guzzo, de 
Revista EXAME

São Paulo - Pouco antes das eleições que o colocaram pela primeira vez na presidência da República, em 2002, o ex-presidente Lula divulgou um documento que até hoje é considerado por muita gente boa um instrumento decisivo para sua vitória nas urnas: a “Carta aos Brasileiros” — uma relação de compromissos do candidato com a manutenção de pontos-chave da política econômica do governo anterior, o respeito aos contratos e a adesão a princípios básicos das sociedades capitalistas.

O manifesto de Lula acabaria ganhando renome na vida política brasileira. Mostrou uma clara opção pela racionalidade, garantiu que as conquistas essenciais do governo Fernando Henrique não seriam eliminadas para satisfazer quimeras ideológicas e revelou a todos que tanto Lula quanto o PT eram capazes de admitir equívocos em seu pensamento econômico e de mudar de posição para corrigir o rumo.

Junto a esses sinais tranquilizadores, o candidato revelou uma percepção essencial: a de que ele, seu partido e as forças que os apoiavam eram uma minoria na sociedade brasileira em matéria de propostas para gerir a economia nacional. Deu certo para Lula, que acabou eleito. Deu certo para o Brasil, que ficou na direção correta.

A candidata de Lula nesta eleição que agora chega ao fim, a presidente Dilma Rousseff, não julgou necessário fazer a própria “Carta aos Brasileiros”. Ao contrário: tenta reeleger-se com a bandeira da imobilidade, em cima da fé cega de que está absolutamente com a razão em todas as questões possíveis e imaginárias da economia, ou de qualquer outra área.

Os resultados concretos de seus quatro anos de governo são uma tristeza. A economia cresce abaixo de 1%, as contas internas estão em desordem, as contas externas vão mal, a indústria tem um desempenho infame, não há sinais de controle efetivo da inflação, a capacidade de competição e a produtividade agonizam.

Há uma clara impotência do governo em remover as travas da economia, e uma generalizada submissão à burocracia, à inépcia da máquina pública e a outras travas ao desenvolvimento. Do ponto de vista estratégico, bem, não há estratégia.

O governo Dilma tem sido incapaz de definir objetivos coerentes, não mostra competência para organizar metas e desestimula os investimentos com uma constante exibição de preconceitos quanto às liberdades econômicas, hostilidade à iniciativa privada e tendências a um estatismo obsoleto, tolo e primitivo.

Lula, no momento decisivo, apresentou um conjunto de estímulos para o futuro. Dilma não tem o que dizer nem sobre o presente. Mais do que tudo, o ex-presidente teve a excelente ideia de efetivamente cumprir os compromissos que assumiu na “Carta aos Brasileiros”.

Colocou Antonio Palocci no Ministério da Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central. Faziam parte de seu ministério Roberto Rodrigues, Luiz Furlan e Márcio Thomaz Bastos. Deixou no segundo escalão gestores talentosos e sem compromisso com ideologias sagradas a seu partido — curiosas do ponto de vista arqueológico, talvez, mas inúteis no mundo real de hoje.

Estava aí a verdadeira governabilidade — foi a escolha de nomes como esses, muito mais do que a entrega da administração às gangues partidárias da “base aliada”, que realmente pôs e manteve seu governo de pé. Resultados? O Plano Real foi mantido em tudo o que tinha de essencial. Nenhuma privatização foi desfeita.

O Banco Central teve autonomia para defender a moeda. Os programas sociais do governo Fernando Henrique, que já beneficiavam 5 milhões de pessoas em janeiro de 2003, foram adotados na íntegra — em lugar do folclórico “Fome Zero”, rapidamente sepultado quando levantamentos oficiais demonstraram que o problema do Brasil era o excesso de obesos, e não de famintos.

Dilma nem sequer cogita que possa ter ocorrido alguma coisa errada na economia nestes últimos quatro anos. Azar dos brasileiros. Precisam de uma “Carta” como a de 2002. Só receberam da presidente, até agora, um “nada a declarar”.

A misteriosa origem de muitos votos para Dilma

Percival Puggina 

Tenho pensado muito, nestes dias, sobre os motivos que levam grande número de pessoas a votar na candidata do PT. Como método de análise, tratei de classificar esses eleitores em grupos ordenados segundo as prováveis motivações.

O primeiro, e certamente o que abriga maior número de cidadãos, é composto por aqueles que recebem do governo algum benefício de natureza social compensatória. Ainda que os principais programas assistenciais em vigor venham de governos anteriores, parece fácil iludir tais pessoas com a ameaça de que uma mudança no comando do país implica o risco de extinção de tais auxílios.

O segundo grupo é formado pelo numeroso e privilegiado contingente de membros da nomenklatura petista, investidos em posições de mando ou ocupando postos de indicação partidária no governo, em empresas estatais, no próprio Estado e na administração pública. Para esses eleitores não existe qualquer dúvida: uma derrota petista significa o fim do contracheque. Frequentemente, esses contracheques guardam nenhuma simetria com a qualificação e os serviços prestados pelos recebedores.

O terceiro grupo inclui o vasto contingente de pessoas cujos postos de trabalho e fontes de renda provêm dessa miríade de organizações não governamentais (ONGs) cujos recursos, paradoxalmente, procedem do erário nacional. Para franquear acesso aos fundos públicos, o governo e seu partido levam em altíssima conta a posição política daqueles que as dirigem. Vale o mesmo para o recrutamento de recursos humanos às atividades fins.

O quarto grupo é formado pelos aficionados ideológicos. São eleitores que colocam a ideologia acima de tudo. São cegos a toda evidência.

O quinto grupo agasalha (o verbo agasalhar cabe bem para estes) todos os que, graças ao PT, vivem à vida regalada sem serem do governo. Atuam no restrito universo das grandes empresas, no mundo da cultura, da publicidade, fazendo negócios multimilionários com o governo. E com os governantes.

O sexto grupo, sem fixações ideológicas e interesses individuais, está a par dos fatos, acompanha as notícias, reprova os malfeitos, conhece os dados econômicos e se preocupa com a situação nacional. E, ainda assim, vota no PT. Entre as mentiras que lhe são contadas e o que os próprios olhos e ouvidos lhe revelam, esse grupo prefere crer nas mentiras. É mais difícil entendê-los do que compreender o Bóson de Higgs (aquela partícula que representa a chave para explicar a origem da massa das partículas elementares). Esse grupo e suas misteriosas razões têm votos que podem decidir, contra toda a lógica, a eleição presidencial.

Ignorantes do bem

Guilherme Fiuza
O Globo

Exija respeito pela sua escolha na urna. Mas procure um jeito honesto de se orgulhar dela.

O Sudeste decidirá a eleição presidencial mais disputada da história recente. E o Rio de Janeiro poderá ser o fiel da balança. O fator decisivo para esse resultado será a famosa tradição carioca de ser oposição — que ultimamente tem se transformado em oposição a favor.

Os ânimos estão exaltados, mas é o destino do país que está sendo decidido palmo a palmo. Demarcada a fronteira da estupidez, ninguém precisa se envergonhar de ser aguerrido. E ninguém precisa se envergonhar do voto que escolher. A não ser que esse voto esteja baseado em premissas hipócritas. Aí é o caso de se envergonhar.

Boa parte do eleitorado carioca resolveu fazer poesia numa hora dessas. Na falta de miragem nova, muita gente boa embarcou na toada de que a disputa entre Dilma e Aécio é um confronto esquerda x direita — a esquerda sendo o bem, e a direita o mal, claro. Muitos repetem até que é uma espécie de reedição do embate Lula x Collor. Só três hipóteses podem explicar a defesa dessa tese: distração, ignorância ou desonestidade.

Em 1989, o Brasil tinha sua primeira eleição direta para presidente depois da ditadura. Collor era identificado com as elites que sustentaram o regime militar. O voto contra Collor, portanto, era um voto contra o autoritarismo. O que as crianças do balneário não querem perceber é que esse filme passou há um quarto de século. E o autoritarismo mudou de lugar.

Arrancado do poder por corrupção, Collor hoje apoia Dilma. Mas isso é o de menos (por incrível que pareça). Dilma e todo o PT apoiam, desinibidamente, os condenados pelo escândalo do mensalão. É como se os presidentes das associações de medicina apoiassem Roger Abdelmassih, o devorador de gestantes. Dilma Rousseff, a candidata do bem contra o mal, apoia pelo menos meia dúzia de governos autoritários na América do Sul e no Oriente Médio, oferecendo-lhes até colaboração econômica — com o dinheiro dos progressistas que votam no PT contra o autoritarismo. Quando Mahmoud Ahmadinejad massacrou manifestantes de oposição, Lula socorreu o ditador iraniano declarando que aquilo era normal, como “briga entre flamenguistas e vascaínos”.

Os progressistas com alma de oposição têm todo o direito de votar em Dilma. Só não fica bem fingirem que estão votando contra as elites reacionárias e autoritárias, sentindo-se humanos e sensíveis. O que há de mais reacionário, autoritário, insensível e desumano no país hoje é o assalto ao Estado brasileiro. Não só o do mensalão, mas o da fraude que o governo Dilma instituiu na contabilidade pública: maquiagem dos balanços para esconder déficits e gastar mais — com uma máquina sem precedentes que acomoda os companheiros e simpatizantes.

Quem são hoje, 25 de outubro de 2014, as elites que se organizam para sugar o que é do povo? Não, meu caro progressista do bem, não dá mais para você olhar no espelho e dizer que é a “direita conservadora” — ou qualquer desses apelidos feios para quem não usa a estrelinha vermelha. A elite egoísta e predadora hoje é essa que você ajudou a vitaminar, achando que estava votando num livro de García-Marquez, numa canção de Chico Buarque ou num poema de Neruda. Traficaram o seu romantismo, caro eleitor de esquerda, e o transformaram na maior indústria parasitária que este país já viu.

O doleiro acaba de revelar que Dilma e Lula sabiam do esquema de saque à Petrobras. O que você fará diante disso, caro progressista do bem? Colocará para tocar um disco de Mercedes Sosa? Ou fechará os olhos e ficará repetindo para si mesmo que casos de corrupção existem em todos os governos? Não, meu caro, a nova elite vermelha não protagonizou casos de corrupção. Ela criou, sob a propaganda da bondade, um sistema de corrupção.

O mensalão foi montado dentro do Palácio do Planalto pelo principal ministro de Estado, fazendo uma transfusão de dinheiro público para o partido do presidente. O tesoureiro desse partido, condenado e preso, foi sucedido por outro tesoureiro que está no centro do escândalo do petrolão. Esse outro, João Vaccari Neto, é o homem forte da campanha de Dilma Rousseff. Será que o doleiro ainda precisa lhe dizer, prezado e orgulhoso eleitor de esquerda, que todos os seus heróis sabiam de tudo? Ou mais claramente: que eles arranjaram um jeito esperto de transformar a política em meio de vida?

São 12 anos de erosão nas contas públicas, o que qualquer economista sério atesta. Gastança sem critério (ou com os critérios acima descritos) que travam o crescimento e geram inflação. Traduzindo: empobrecimento. O país resiste com seu fôlego próprio, mas não há programa assistencial que compense: todos perderão.

O PT está tomando providências: some com os indicadores que fazem mal à sua propaganda — como acaba de fazer com os dados do Ipea sobre a miséria. É a mesma tecnologia da contabilidade criativa. Uma usina de versões, que faz a presidente da República atolar em sua própria fala ao vivo. Um vexame, caro eleitor do bem, um show de impostura.

Exija respeito pela sua escolha na urna. Mas procure um jeito honesto de se orgulhar dela.

O fantasma do impeachment de Dilma está logo ali

Ruy Fabiano
Blog Noblat

Caso se comprovem as delações de Youssef, uma eventual vitória de Dilma recolocará o fantasma do impeachment no palco da política.

Não é verdade que o povo brasileiro seja insensível à corrupção. Fosse assim, Getúlio Vargas não teria se suicidado ao se ver cercado por um mar de lama (expressão que introduziu no glossário da política brasileira).

Fosse assim, não apenas Fernando Collor não teria sido deposto por um impeachment, como o PT não teria chegado aonde chegou, já que construiu sua trajetória pela via do denuncismo.

Hoje, mesmo com sua cúpula na cadeia, insiste em apontar a corrupção do próximo. Não a encontrando no presente, vai ao passado e procura desenterrar denúncias que fez ao governo FHC e que, em doze anos de exercício do poder, não cuidou de demonstrar – e providenciar a punição.

Uma coisa é o denuncismo vazio, que procura constranger o adversário e pô-lo na defensiva, como o PT sempre fez e continua fazendo. Outra coisa é a denúncia consistente, lastreada em testemunhos e documentos, como as que levaram ao impeachment de Collor e ao Mensalão – e agora ao Petrolão.

Não há exemplo mais eloquente de denúncia vazia – e, portanto, leviana - que a que fez Dilma Roussef ao falecido ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra, de que recebera propina da Petrobras. Para tanto, invocou o depoente Paulo Roberto Costa, que manteve na diretoria da Petrobras, e cujas acusações aos governistas rejeitara por falta de provas.

O advogado de defesa de Paulo Roberto assegura que seu cliente jamais se referiu a Paulo Roberto Costa em sua delação premiada – e que nem o conheceu.

Quanto a Sérgio Guerra, não está aí para se defender. A denúncia foi feita num dos debates, surpreendendo o oponente, já que ninguém antes mencionara – e nem fazia sentido – a participação de um oposicionista na farra do PT e seus aliados.

Não importa: importa o efeito no eleitor, que pode atribuir a surpresa do oponente a um desmascaramento.

Não se busque aí nenhum fundo moral. Lula disse que “eles não sabem do que somos capazes”. E Dilma disse que faria “o diabo” para vencer as eleições. Essas promessas eles cumprem, fielmente. Aécio já foi acusado de espancar mulheres, de dirigir bêbado e drogado, de ser playboy e coisas do gênero. Na falta de fatos concretos, o jeito é inventá-los.

De tal modo Lula se mostrou transtornado nos últimos comícios que o ministro Gilmar Mendes, do STF, não resistiu ao comentário: “Ainda bem que não há bafômetro para comícios”.

A edição de Veja desta semana explica esse desespero: o doleiro Alberto Youssef, submetido à delação premiada, pôs pela primeira vez os nomes de Lula e Dilma na cena do crime. Disse que eles sabiam de tudo. E prometeu dar os números das contas bancárias do PT no exterior para onde ia a grana da roubalheira.

Precisa mais? Não são apenas acusações de um marginal, que busca jogar lama no ventilador. Trata-se de alguém que joga seu próprio destino. Delação premiada não é um jogo de vale-tudo.

As informações precisam estar fundamentadas, lastreadas em documentação – ou não serão aceitas e agravarão a pena do depoente. As de Paulo Roberto Costa foram aceitas pelo Ministério Público e pelo Supremo Tribunal Federal. E ele já está em casa – sinal de que não se tratou de denúncias vazias.

Seja qual for o resultado de amanhã, há uma crise institucional no fim do túnel. Segundo se informa, em Brasília, algumas ordens de prisão, direcionadas a parlamentares e a governadores, já estão prontas.

A democracia foi substituída pela criminocracia. Caso se comprovem as delações de Youssef – e quem circula no meio político tem poucas razões para duvidar dessa hipótese -, uma eventual vitória de Dilma Roussef recolocará o fantasma do impeachment no palco da política.

Ouvi de um importante advogado de Brasília, acostumado a defender políticos, a frase: “Os eleitores de Dilma devem desde já procurar conhecer o programa de governo de Michel Temer”.

De fato, se vitoriosa – e na hipótese de um processo de impeachment -, Dilma acha que o PMDB a apoiaria ou preferiria exercer diretamente o poder? A eleição termina amanhã, mas a crise ocupará 2015.

Crônica de uma casa dividida.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Esqueça as promessas dos candidatos: não teriam importância se fossem cumpridas e sabemos que não o serão. O melhor que pode ocorrer, o mais importante, é que o vitorioso cumpra uma promessa que não fez: governar para todos.

A campanha eleitoral foi o ponto alto de uma crise que cresce há tempos: a divisão do país. Há muita gente jogando na luta de pobres contra ricos, de nordestinos contra o Sudeste (especialmente São Paulo), de negros contra brancos, na loucura de ganhar o poder total e destruir quem se oponha a esse projeto. A presidente Dilma é vaiada num estádio de futebol em Brasília e a culpa é "da elite branca paulista endinheirada". 

A cúpula do PT vai para a cadeia e a culpa é da elite branca paulista endinheirada - embora o magistrado que a condenou fosse um negro mineiro de classe média, professor universitário no Rio, nomeado por um presidente que, conforme a ocasião, era pernambucano ou paulista.

Ninguém consegue governar bem um país que não está bem. Quem percebeu a maluquice do divisionismo foi um dos presidentes mais populares da História, Juscelino Kubitschek. Um ano antes de sua eleição, o presidente da República se suicidou, o vice foi afastado pelos militares junto com o presidente da Câmara e o país ficou sob o governo do vice-presidente do Senado, Nereu Ramos). Juscelino aparou os ódios e, mesmo enfrentando dura oposição, reunificou o país.

É bom para nós lembrar a frase de John McCain, ao reconhecer a derrota para Obama: "Até agora era meu adversário. A partir de agora é meu presidente".

Os tiros no ar
Qual o efeito eleitoral das revelações atribuídas pela revista Veja ao doleiro Alberto Youssef, do caso do Petrolão, em sua delação premiada? Bobagem especular: em poucas horas saberemos. Mas as revelações, se verdadeiras (Youssef pode estar mentindo; ou talvez essas revelações nem constem na delação premiada, já que tudo o que ele disse deveria estar em rigorosíssimo segredo de Justiça) são explosivas. Youssef, segundo diz Veja, afirmou que Lula e Dilma sabiam das propinas do Petrolão. Atribui à atual presidente e ao ex-presidente, portanto, a participação num crime - ou pior, em vários, todos de ação pública. 

Caso Dilma seja a preferida dos eleitores e Youssef tenha dito a verdade, é crise instalada.

A bala da crise
A afirmação mais importante da reportagem de Veja, e que não despertou tanta atenção, é a que atribui a Youssef a disposição de fornecer à Justiça o número das contas secretas do PT no Exterior, já que as teria utilizado para distribuir as propinas. Esse tipo de informação, caso confirmada, não comporta interpretações: ou os números correspondem a contas ou não. 

Se corresponderem, é crise.

Fazendo de conta
Uma dúvida deste colunista: se a delação premiada envolve pouca gente, se as gravações são imediatamente guardadas em cofres, se a transcrição é codificada e guardada em locais protegidos pela Justiça, não deve ser difícil localizar a origem dos vazamentos nem os interesses que se ocultam por trás das informações que pingam para a imprensa. 

Há alguma investigação na Justiça sobre a responsabilidade por falhas na guarda e proteção de depoimentos sigilosos?

Perguntar não ofende
Considerando-se que esta não é a primeira vez que processos em segredo de Justiça vazam para a imprensa, por que insistir em manter o sistema? Que se abram os processos, que o público tenha livre acesso a tudo - a tudo, não a pedacinhos escolhidos, normalmente de interesse da acusação, para influenciá-lo. 

Quem nos julga
Acostumado a criticar os gastos secretos com cartão corporativo do Governo Federal? Habituado a criticar as montanhas de despesas e mordomias da Câmara e do Senado, que transformam o parlamentar brasileiro num dos mais caros do mundo? Pois está na hora de mudar o disco: o portalCongresso em Foco comprovou que apenas o auxílio-moradia para os juízes custará cerca de R$ 1 bilhão por ano - praticamente a mesma coisa que custa o Congresso inteiro, com todos os seus penduricalhos e desperdícios, e que atinge R$ 1,1 bilhão por ano. 

Traduzindo: com apenas um benefício extra, o Judiciário consumirá o mesmo que os salários, assessores e penduricalhos de 513 deputados e 81 senadores.

Histórias da vida real
Val Marchiori, lembra? Aquela apresentadora de TV e integrante de reality shows que acaba de conseguir um empréstimo de, digamos, pai para filha, com juros de 4% ao ano? 

Recordando: Val Marchiori conseguiu um empréstimo de quase 3 milhões de reais do BNDES, via Banco do Brasil, com nove anos para pagar e seis meses de carência. Claro, o fato de ser amiga do presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine - ele, em duas viagens oficiais, ao Rio e Buenos Aires, encontrou-a por acaso no mesmo hotel - não teve influência no caso.

Mas falemos um pouco de Val. No último réveillon do Iate Clube de Santos, o comodoro do clube tinha levado uma garrafa de champanhe Crystal, comprada por ele, para brindar com a família. Val recusou a champanhe que acompanhava o jantar de réveillon, foi à mesa do comodoro e pegou a que ele tinha levado. 

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Quatro anos num domingo

Fernando Gabeira
O Estado de S. Paulo 

A campanha chega ao fim com o grande debate de hoje. Alguns temas ficaram de fora. Do Rio Piracicaba à nascente do São Francisco, na Serra da Canastra, encontrei vestígios da grande seca, talvez a maior dos últimos 50 anos no Sudeste. Ignoro o que os candidatos pretendem fazer a respeito. Não falam em recuperação de rios, fortalecimento dos comitês de bacia, nada que lembre uma política de recursos hídricos. Apenas se culpam.

Não sei se todos têm a sensação de que há uma distância entre o País dos debates e o da vida real. Creio que a distância às vezes é ampliada pelo próprio debate, que deveria encurtá-la.

Jean Piaget escreveu muito sobre inteligência infantil. Ele descrevia um tipo de linguagem que prevalece numa faixa de idade: a linguagem egocêntrica. Nela não importa necessariamente fazer sentido, muito menos comunicar-se com o outro.

Apesar dos debates sem mediação, foi impossível estabelecer um fio da meada. Dilma comportou-se como se fosse uma candidata da oposição em Minas Gerais. Após o debate no SBT sua memória falhou em alguns momentos. Depois de tropeçar na palavra inequívoca, ela capitulou em mobilidade urbana, pediu um pouco de água, sentou-se para descansar. O que se passa no cérebro de Dilma, como se articulam nela uma camada do córtex com uma região do hipocampo, criando ou embotando a memória, é uma análise que farei depois de pesquisar o tema.

Dilma está se transformando numa equilibrista que entra em cena mesmo sem ter completado o período de formação. No caso da Petrobrás, a opção do governo era negar as denúncias: são apenas vazamentos clandestinos. No campo do feminismo, Dilma projetou imagem dura ao ironizar o choro de Marina Silva, bombardeada pelas mentiras do PT: o cargo de presidente não é para coitadinhas, afirmou.

Quando soube que um ex-dirigente do PSDB, Sérgio Guerra, também foi acusado de receber propinas no escândalo da Petrobrás, Dilma passou a acreditar nas denúncias. E afirmou: houve desvios. O fluxo de denúncias não acabara. Depois de Sérgio Guerra, aparecia em cena o nome de Gleisi Hoffman, ex-chefe da Casa Civil no governo Dilma. Nesse caso, a presidente voltou a duvidar e pedir precauções. Ficou evidente que as denúncias valem quando envolvem o adversário, mas são levianas e perigosas quando envolvem o governo.

Depois do piripaco de Dilma, Lula e outros insinuaram que Aécio agride mulheres e isso pode ter influenciado a performance dela. Marina tinha de apanhar sem choro, pois a "Presidência não é para coitadinhos".

O escândalo da Petrobrás, embora possa ter envolvido gente da oposição, é de principal responsabilidade do governo. A empresa está sendo investigada nos EUA. Lá, por exemplo, a lei é clara e responsabiliza também os dirigentes da empresa, mesmo que não tenham tocado no dinheiro.

O choro da Marina massacrada é fraqueza; a crise de Dilma, uma consequência do machismo. Eles reinventam o mundo à sua maneira. Passada a eleição, em vez de ficar remexendo a essência macunaímica do PT, talvez fosse necessária uma avaliação mais profunda de como uma experiência histórica termina na porta da delegacia.

Análises sobre a trajetória da esquerda no século passado ocuparam grandes historiadores. Tony Judt dedicou parte de seu trabalho aos intelectuais franceses e seus equívocos. No caso europeu, as hesitações diante do stalinismo conduzem um dos fios da meada. Aqui, no Brasil, não creio que o stalinismo tenha o mesmo peso. O fio da meada é a relação com a ditadura cubana, a admiração por um regime falido e o silêncio inquietante sobre seus crimes.

A trajetória da esquerda brasileira no governo mudou. Goulart foi derrubado pelos militares que alegavam combater a subversão e a corrupção. A corrupção era algo mais simbólico no seu discurso. Envoltos na guerra fria, os militares queriam, principalmente, derrotar o comunismo. Essa passagem de uma resistência à ditadura militar, o trânsito das páginas políticas para as policiais, essa mudança de ala nas penitenciárias é uma guinada na história da esquerda.

Tanto se falou em Goebbels, o homem da comunicação de Hitler, que a tática de repetir a mentira passou a ser até elogiada por alguns. O encontro da tática do PT com Goebbels não é acidental. Assim como o encontro das Farc com o tráfico de drogas também não o foi.

Quando desaparecem os objetivos estratégicos, quando o único alento é ganhar o poder, desaparece também a fronteira entre política e crime. Não te prendem mais em quartéis, mas na delegacia da esquina; já não se ergue o punho cerrado pelo futuro da humanidade, mas para garantir o banho de sol; não se comemoram grandes viradas históricas, mas o ingresso no regime de prisão albergue.

A transformação de uma força política num compacto muro de cinismo, o trânsito de ideias, aparentemente, generosas para a delinquência intelectual - tudo isso configura uma fascinante matéria de estudo.

Não sei se teria a isenção para cumprir a tarefa: ela mexe comigo, com a história pessoal, com as ilusões que me moveram no século passado. Mas alguém escreverá a história do nosso passado imperfeito, como Tony Judt fez com a intelectualidade francesa do pós-guerra.

No continente já estamos no socialismo do século 21. Em Caracas não se racionam mais os produtos básicos com cadernetas, mas com as impressões digitais. De Cuba para a Venezuela houve um salto tecnológico no interior do mesmo atraso.

Mas a sedução do modelo ainda não foi abalada na esquerda brasileira. O verdadeiro século 21, de certa forma, não chegou. Quem sabe, domingo?

Um exame profundo dessa longa trajetória histórica pode começar, se o PT perder. Se vencer, será preciso concentrar a energia na vigilância cotidiana e preservar alguma esperança no Brasil.

Vitoriosos depois do assalto à Petrobrás, os petistas logo estariam sonhando com o assalto aos céus.

Atenção, senhores: podem roubar à vontade!

Ricardo Noblat

O eleitor não está nem aí.

Dilma guardou silêncio por mais de mês sobre o escândalo de corrupção que reduziu à metade o valor da Petrobras.

O escândalo tem a ver com o desvio de recursos para enriquecer políticos que apoiam o governo e financiar campanhas. A de Dilma, inclusive.

Por que na semana passada, finalmente, Dilma avisou a jornalistas que a entrevistavam: “Houve desvio, sim!”?

Primeiro: o desgaste de continuar fingindo que desconhecia o escândalo estava pegando mal junto a formadores de opinião.

Segundo: Dilma se sentiu confortável para reconhecer o escândalo ao saber que políticos do PSDB também meteram a mão na grana da Petrobras.

Ora, se todos roubam por que não podemos roubar? Se todos são uns pilantras por que não podemos ser?

E daí?

Daí, nada.

Salvo uma parcela do eleitorado que baba de raiva quando ouve falar em roubalheira, o resto está pouco se lixando. Parte do pressuposto de que todo político é ladrão. E de que só nos resta aturá-los.

O mensalão 1, o pagamento de propina a deputados federais para que votassem como queria o governo, fez tremer o governo no segundo semestre de 2005. Lula chegou a pensar em desistir da reeleição.

O primeiro semestre do ano seguinte começou com a recuperação da popularidade de Lula. O segundo terminou com a reeleição de Lula com larga vantagem de votos sobre Geraldo Alckmin (PSDB).

João Vaccari, tesoureiro do PT e representante da campanha de Dilma junto à Justiça Eleitoral, está metido até o último fio de sua quase careca na corrupção que ameaça engolir a Petrobras.

Vaccari foi nomeado por Dilma para o Conselho Administrativo da Itaipu Binacional. Ganha R$ 20 mil para participar de duas reuniões mensais.

- A senhora confia em Vaccari? Confia? – perguntou Aécio a Dilma no debate da TV Record.

Dilma fez que não ouviu.

Desde que façam alguma coisa pelos mais pobres, os políticos poderão continuar roubando à vontade.

(Imagem: Arquivo Google)
 Corrupção custa caro 

O herói sem caráter

 Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Lula tenta vender a tese de que alternância de poder faz mal à democracia brasileira

Remexendo na gaveta de recortes de jornais – valorosos e não raro mais úteis que o Google – encontro um texto escrito em 7 de setembro de 2010. Apenas coincidência a data da Independência. O título, Macunaíma. O herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade.

Faltava pouco menos de um mês para o primeiro turno da eleição em que o então presidente Luiz Inácio da Silva fazia o “diabo” e conseguiria na etapa final realizada em 31 de outubro eleger uma incógnita como sua sucessora.

Deu todas as garantias de que a chefe de sua Casa Civil, Dilma Rousseff, seria uma administradora de escol para o Brasil. Não foi, conforme comprovam os indicadores de um governo que se sustenta no índice positivo do emprego formal, cuja durabilidade depende do rumo da economia.

Como ex-presidente, Lula agora pede que se renove a aposta. Sem uma justa causa, apenas baseado na ficção por ele criada de que a alternância de poder faz mal à democracia brasileira. A propósito de reflexão a respeito da nossa história recente, convido a prezada leitora e o caro leitor ao reexame daquele texto.

“Só porque é popular uma pessoa pode escarnecer de todos, ignorar a lei, zombar da Justiça, enaltecer notórios ditadores, tomar para si a realização alheia, mentir e nunca dar um passo que não seja em proveito próprio?

Um artista não poderia fazer, nem sequer ousaria fazer isso, pois a condenação da sociedade seria o começo do seu fim. Um político tampouco ousaria abrir tanto a guarda. A menos que tivesse respaldo, que só revelasse sua verdadeira face lentamente e ao mesmo tempo cooptasse os que poderiam repreendê-lo tornando-os dependentes de seus projetos dos quais aos poucos se alijariam os críticos por intimidação ou cansaço.

A base de tudo seria a condescendência dos setores pensantes e falantes; oponentes tíbios, erráticos, excessivamente confiantes diante do adversário atrevido, eivado por ambições pessoais e sem direito a contar com aquele consenso benevolente que é de uso exclusivo dos representantes dos fracos, oprimidos e assim nominados ignorantes.

O ambiente em que o presidente Luiz Inácio da Silva criou o personagem sem freios que faz o que bem entende e a quem tudo é permitido – abusar do poder, usar indevidamente a máquina pública, insultar, desmoralizar – sem que ninguém consiga lhe impor paradeiro, não foi criado da noite para o dia. Não é fruto de ato discricionário, não nasceu por geração espontânea nem se desenvolveu por obra da fragilidade da oposição.

Esse ambiente é fruto de uma criação coletiva. Produto da tolerância dos informados que puseram seus atributos e respectivos instrumentos à disposição do deslumbramento, da bajulação e da opção pela indulgência. Gente que tem vergonha de tudo, até de exigir que o presidente da República fale direito o idioma do país, mas não parece se importar de lidar com quem não tem pudor algum.

Da esperteza dos arautos do atraso e dos trapaceiros da política que viram nessa aliança uma janela de oportunidade. A salvação que os tiraria do aperto em que estavam já caminhando para o ostracismo. Foram ressuscitados e por isso estão gratos.

Da ambição dos que vendem suas convicções (quando as têm) em troca de verbas do Estado.

Da covardia dos que se calam com medo das patrulhas.

Do despeito dos ressentidos.

Do complexo de culpa dos mal resolvidos.

Da torpeza dos oportunistas.

Da superioridade dos cínicos.

Da falsa isenção dos preguiçosos.

Da preguiça dos irresponsáveis.

Lula não teria ido tão longe com a construção desse personagem que hoje assombra e indigna muitos dos que lhe faziam a corte não fosse a permissividade geral. Se não conseguir eleger a sucessora não deixará o próximo governo governar. Importante pontuar que só fará isso se o país deixar que faça; assim como deixou que se tornasse esse ser que extrapola.”

Fora PT!

Marco Antonio Villa
Folha de São Paulo

A socialização dos meios de produção se transformou no maior saque do Estado brasileiro em proveito do partido e de seus asseclas

Estamos vivendo o processo eleitoral mais importante da história da República. Nesta eleição está em jogo um mandato de 12 anos. Caso o PT vença, estarão dadas as condições para a materialização do projeto criminoso de poder --expressão cunhada pelo ministro Celso de Mello no julgamento do mensalão.

Em contrapartida, poderemos pela primeira vez ter uma ruptura democrática --pelo voto-- com a vitória da oposição. Isso não é pouco, especialmente em um país com a tradição autoritária que tem.

O PT não gosta da democracia. Nunca gostou. E os 12 anos no poder reforçaram seu autoritarismo. Hoje, o partido não sobrevive longe das benesses do Estado. Tem de sustentar milhares de militantes profissionais.

O socialismo marxista foi substituído pelo oportunismo, pela despolitização, pelo rebaixamento da política às práticas tradicionais do coronelismo. A socialização dos meios de produção se transformou no maior saque do Estado brasileiro em proveito do partido e de seus asseclas de maior ou menor graus.

Lula representa o que há de mais atrasado na política brasileira. Tem uma personalidade que oscila entre Mussum e Stálin. Ataca as elites --sem defini-las-- e apoia José Sarney, Jader Barbalho e Renan Calheiros. Fala em poder popular e transfere bilhões de reais dos bancos públicos para empresários aventureiros. Fez de tudo para que esta eleição fosse a mais suja da história.

E conseguiu. Por meio do seu departamento de propaganda --especializado em destruir reputações--, triturou Marina Silva com a mais vil campanha de calúnias e mentiras de uma eleição presidencial.

Dilma nada representa. É mera criatura sem vida própria. O que está em jogo é derrotar seu criador, Lula. Ele transformou o Estado em sua imagem e semelhança. Desmoralizou o Itamaraty ao apoiar terroristas e ditadores. Os bancos e as estatais foram transformadas em seções do partido. Nenhuma política pública foi adotada sem que fosse tirado proveito partidário. A estrutura estatal foi ampliada para tê-la sob controle, estando no poder ou não.

A derrota petista é a derrota de Lula. Será muito positiva para o PT, pois o partido poderá renovar sua direção e suas práticas longe daquele que sempre sufocou as discussões políticas, personalizou as divergências e expulsou lideranças emergentes. Mas, principalmente, quem vai ganhar será o Brasil porque o lulismo é um inimigo das liberdades e sonha com a ditadura.

Daí a importância de votar em Aécio Neves. Hoje sua candidatura é muito maior do que aquela que deu início ao processo eleitoral.

Aécio representa aqueles que querem dar um basta às mazelas do PT. Representa o desejo de que a máquina governamental esteja a serviço do interesse público. Representa a disposição do país para voltar a crescer --de forma sustentável-- e, então, enfrentar os graves problemas sociais. Representa a ética e a moralidade públicas que foram pisoteadas pelo petismo durante longos 12 anos.

Cabe aos democratas construir as condições para a vitória de Aécio. Não é tarefa fácil. Afinal, os marginais do poder --outra expressão utilizada no julgamento do mensalão-- tudo farão para se manter no governo. Mas o país clama: fora PT!

Desrespeito à população

O Estado de S. Paulo 
Editorial

Completo descaso com a aflitiva situação de milhões de pessoas e irresponsabilidade no exercício de função pública - que, por sua natureza, deveria ser exercida de acordo com padrões rigorosamente técnicos - sintetizam o comportamento do presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), o antigo sindicalista e militante petista Vicente Andreu Guillo, ao tentar tirar proveito eleitoral da crise de abastecimento de água em São Paulo, provocada por uma das secas mais severas de que se tem registro.

Ao participar, a cinco dias da eleição presidencial, de um evento de nítido interesse eleitoral organizado pela bancada do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo para atacar o governo de Geraldo Alckmin - e, por tabela, o modelo de gestão do PSDB do candidato Aécio Neves, adversário da petista Dilma Rousseff -, Andreu classificou a situação do fornecimento de água no Estado de pré-tragédia, desqualificou as medidas de emergência tomadas pelo governo paulista e previu que, se a intensidade das chuvas não voltar à média histórica, "não haverá alternativa a não ser ir ao lodo".

Para tentar atribuir à administração tucana uma responsabilidade que, definitivamente, não é dela - nunca se registrara uma seca tão severa -, o presidente da ANA não hesitou em alimentar o pânico, para tentar beneficiar a candidatura pela qual trabalha, como militante petista que é.

Trata-se de uma atitude que desrespeita o cidadão, fere as normas de civilidade que devem reger as relações entre as diferentes instâncias de governo e, sobretudo, amesquinha a ANA. Não está entre suas funções embalar candidaturas, como obviamente fez seu diretor.

A agência reguladora, como ela diz, tem como missão coordenar o uso sustentável da água "em benefício das atuais e futuras gerações". Ela pretende ser reconhecida como referência no desempenho de suas funções e, para bem desempenhá-las, diz ter como valores "compromisso, transparência, excelência técnica, proatividade e espírito público". Nenhum deles, infelizmente, pode ser identificado no comportamento do presidente da agência durante o encontro político-eleitoral dos petistas.

Embora possa causar repulsa entre os que lutam pela lisura e decência no exercício de funções públicas, a atitude de Vicente Andreu talvez não tenha surpreendido quem acompanhou sua carreira até a indicação, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para a presidência da ANA, que assumiu pela primeira vez em janeiro de 2010. Ex-dirigente sindical da categoria dos eletricitários de Campinas e ex-secretário de Planejamento da prefeitura de Campinas de 2007 a 2008 na gestão do prefeito Hélio de Oliveira Santos - posteriormente cassado por suspeita de corrupção -, Andreu já ocupou outros cargos no governo petista graças à sua condição de fiel militante partidário.

Com sua participação no evento eleitoral do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo, deixou claro que essa condição precede qualquer outra, inclusive a de presidente de um organismo que, por sua função reguladora e de defesa dos interesses da sociedade - contra excessos do governo ou práticas prejudiciais de empresas privadas concessionárias de serviços públicos -, deveria ser conduzido por critérios impessoais, apartidários e técnicos.

Decerto o presidente da ANA foi inspirado pelo comportamento da candidata Dilma Rousseff. Tendo tido votação pouco expressiva em São Paulo no primeiro turno, Dilma vislumbrou na crise da água no Estado um veio de onde imagina poder extrair alguns votos a mais. Por isso, vem atacando com dureza a administração de Geraldo Alckmin.

Trata-se, como observou o chefe da Casa Civil do governo paulista, Saulo de Castro, referindo-se à participação do presidente da ANA em um evento partidário, de uma atitude "lamentável". Em nota, a ANA disse ser "fundamental manter a cooperação e confiança entre os atores institucionais que atuam na gestão e regulação dos recursos hídricos". O que seu presidente fez, porém, foi exatamente o contrário disso.

Próximo presidente terá o dever de entregar um país mais competitivo

Luis Lima e Naiara Infante Bertão
Veja online

Não há almoço grátis: sem 'boom' das commodities e ajuda da China, produtividade terá de avançar para que o Brasil volte a crescer

 (Jonne Roriz/VEJA) 
Infraestrutura: gargalo persiste e deverá 
ser atacado com mais afinco pelo próximo governo 

O Brasil que emergirá das eleições tem um imperativo para voltar a crescer: ganhar produtividade. Nos últimos quatro anos, o governo não conseguiu solucionar os graves problemas da economia brasileira, como a alta e complexa carga tributária, o baixo nível de infraestrutura e a falta de mão de obra qualificada. Em alguns aspectos, piorou o ambiente de negócios, lançando mão de uma política intervencionista em setores como o automotivo, de óleo e gás e elétrico. O resultado é que o país acumulou, entre 2011 e 2013, três anos de desempenho negativo no indicador de produtividade elaborado pelo The Conference Board. Para reverter esse quadro, o próximo governo, seja ele qual for, terá de implementar políticas opostas às que foram levadas adiante nos últimos anos. A chave, segundo especialistas ouvidos pelo site de VEJA, é trocar a ideologia pela meritocracia. A busca por mercados mais estratégicos comercialmente é o primeiro passo.

Abandonar o protecionismo em setores pouco competitivos vem em seguida. A missão é difícil. Em caso de vitória de Aécio Neves (PSDB), será preciso um trabalho rigoroso para detectar ineficiências e elaborar uma política de longo prazo que restabeleça a confiança do setor industrial, hoje abalada. Já Dilma Rousseff (PT) terá de fazer um exame de consciência, que poderá levar à constatação de que as medidas de proteção que marcaram seu governo provocaram o efeito rebote e levaram o país a colher baixo crescimento.

Especialistas consultados pela reportagem são categóricos: para que o Brasil dê um verdadeiro salto em produtividade, é preciso que sua indústria consiga integrar as cadeias globais de valor, ou seja, ter preço e qualidade para competir com os demais países. Tal missão só será viável se o próximo governante encampá-la como prioridade, ao lado dos avanços em saúde pública e educação. Para que isso ocorra, a taxa de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) precisa avançar. Durante o governo Dilma, o Brasil teve sua menor taxa histórica de investimento, de 18%. Em países da América Latina, como Peru, Chile e México, esse coeficiente é, em média, de 25%. Na China, é de cerca de 30%. “Não avançamos por conta do posicionamento ideológico do atual governo. Em vez de procurar mercados mais exigentes e rentáveis, houve foco no Mercosul, e foi um desastre. As exportações para a Argentina vêm caindo e a China ganha cada vez mais mercado em cima das nossas costas”, afirma Luiz Felipe D’Ávila, presidente do Centro de Liderança Pública (CLP).

O Brasil possui problemas antigos que atravancam o desenvolvimento e ainda não foram devidamente solucionados: infraestrutura deficiente, impostos muito mais elevados que seus vizinhos e burocracia. Mas, adicionalmente, ao longo do governo Dilma, houve um distanciamento em relação ao setor empresarial, que contribuiu de forma significativa para que a indústria não prosperasse. Não que Dilma não quisesse o avanço. O plano Brasil Maior e o pacote de desonerações da folha de pagamentos estão aí para mostrar o contrário. O problema é que a concepção que o governo tem em relação a como tornar o país mais competitivo está descolada da realidade vivenciada por nações que dão o exemplo, como a Coreia do Sul. As medidas internalizaram a indústria e reduziram seu potencial de competitividade no período em que o Brasil mais precisava do setor para crescer. “É preciso que o governo reconheça a importância da indústria dentro de um projeto nacional de desenvolvimento. Não adianta a indústria ser competitiva dentro de suas fronteiras”, afirma Paulo Francini, diretor de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Como resultado das medidas de proteção ao mercado, a produtividade tem contribuído menos para o crescimento econômico no Brasil do que em outros países. O indicador da OCDE que calcula a produtividade total dos fatores (PTF) mostra que o crescimento médio anual do Brasil desde o ano de 2000 foi negativo em 0,3% até 2012. No caso dos dez países mais desenvolvidos da América Latina, o mesmo período corresponde a uma alta de 0,14%. Já quando se traça uma média de sete países asiáticos, percebe-se avanço de 2,4% em produtividade. Corrobora para este cenário a dificuldade que existe para se abrir e fechar empresas no país. O indicador Doing Business, do Banco Mundial, aponta que a abertura de uma empresa brasileira exige 13 etapas e leva 119 dias. No Chile, na Colômbia e no México, é possível atingir o mesmo objetivo em apenas 14 dias.

VEJA 

 O consenso dos especialistas é de que a única forma de resgatar o país de um modelo que desestimula a concorrência externa é a implementação de políticas horizontais, ou seja, que sejam as mesmas para todos os setores. A dinâmica é exatamente oposta à que vem sendo aplicada no atual governo. Em um intento de estimular o emprego, o governo acabou forçando o consumo de bens produzidos no país em detrimento de produtos importados com preços mais competitivos. Cria-se, assim, uma cadeia de ineficiências cultivada por preços elevados. “O melhor que o governo pode fazer é criar condições adequadas para o crescimento da produtividade, em vez de tomar apostas arriscadas em indústrias específicas”, afirma Jens Arnold, economista sênior da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Caso não haja, na estratégia do próximo governante, um plano de abertura industrial eficaz e que projete o Brasil para atender às demandas globais, o país pode não apenas ser menos competitivo em relação ao exterior, mas também em relação a ele mesmo. Segundo o economista Carlos Arruda, coordenador do núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral, os ganhos de produtividade dos setores que conseguem avançar decorrem, em geral, de aumento de investimento e área de produção, e não da produtividade propriamente dita, que envolve inovação e tecnologia. Outra deficiência é que mesmo no caso de setores competitivos, como o agronegócio, as ineficiências que existem ao longo do caminho, até o produto chegar ao consumidor final, acabam anulando os ganhos obtidos com a inovação. “No setor agrícola, houve um ganho de produção e eficiência na produção por hectare de soja, em especial. Mas, até chegar ao consumidor, esse ganho de produção já absorveu, ao longo da cadeia, ineficiências produtivas ligadas a infraestrutura, logística, fornecedores, serviços e distribuidores”, afirma Arruda. Nesta mesma dinâmica se enquadra a Embraer, que trabalha com ganhos de produtividade, dá treinamentos periódicos a seus funcionários, busca os ganhos de eficiência, mas recebe as deficiências produtivas de seus fornecedores. “São as heranças produtivas. O problema não está só no ambiente macro e nem só no micro. Entre os dois há uma cadeia que incorpora ou tira produtividade do processo produtivo”, diz o economista.

VEJA 

A manutenção do emprego tem sido apontada pelo governo como a justificativa para todas as políticas de protecionismo industrial. A intenção da presidente Dilma foi sempre muito clara: com um mercado consumidor aquecido, pensa ela, a indústria não precisa demitir. E se essa indústria usa produtos nacionais, acaba criando um círculo virtuoso de emprego e consumo. A presidente, contudo, esqueceu-se de combinar isso com os próprios brasileiros, cujo orçamento está altamente comprometido com dívidas. Fosse a indústria mais competitiva, poderia compensar com exportações o desaquecimento local. O maior exemplo de falha nessa estratégia pode ser percebido no setor que mais foi alvo de medidas de estímulo: o automotivo. É justamente ele que mais vem sofrendo os efeitos da desaceleração. As vendas de veículos acumulam queda recorde para essa década e a indústria automotiva já demitiu mais de 10 mil funcionários ao longo do ano. Reverter esse caminho em busca de uma verdadeira abertura comercial significa ganhar no longo prazo. O resultado, apontam os especialistas, será um país com um mercado de trabalho mais sustentável e menos oscilante — já que não dependerá diretamente de políticas de governo. A receita é apartidária e pragmática. Mas requer um (a) cozinheiro (a) competente.

O que esperar... dos próximos 4 anos

Izabelle Torres
Revista ISTOÉ

As encruzilhadas em que se meteu o País nas áreas da saúde, educação, segurança e economia, e o que pode acontecer se o cenário não for revertido


O Brasil que vai às urnas no dia 26 de outubro, para o segundo turno das eleições presidenciais, viveu mudanças significativas nas últimas décadas. O governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) trouxe a estabilidade da moeda, retirou a inflação dos patamares anuais de três dígitos, que impediam o consumo a prazo e o planejamento das famílias, instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal e criou o embrião de diversos programas sociais. O governo Lula aproveitou os ventos favoráveis da economia para fazer o Brasil deslanchar na área social e virar modelo de combate à extrema pobreza, distribuindo renda e viabilizando a ascensão das classes mais baixas. O sucesso dos oito anos do governo Lula alavancou Dilma Rousseff e a levou para o comando do País sob a expectativa de uma gestão técnica de continuidade. O que se viu, entretanto, foi a construção de um cenário bem diferente do que imaginavam os brasileiros em 2010. O País promissor que despontava como uma potência emergente se meteu em encruzilhadas nos mais importantes setores, estagnando o crescimento e levando a população a níveis de insatisfação, medidos com precisão no resultado do primeiro turno da eleição, quando 58,42% dos eleitores optaram pela oposição ao atual governo. Dessa forma, o PT deixou as urnas mais fragilizado e Dilma seguiu na disputa com o menor índice de um vencedor da primeira fase desde a eleição de 1994. 


A CONTINUIDADE E A MUDANÇA
Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), que se enfrentam no
segundo turno, apresentam receitas diferentes para mudar os rumos do País

Um resultado desfavorável não se constrói de uma hora para outra. O governo alterou a política econômica costurada pelos governos anteriores e, em defesa das políticas sociais, descuidou das contas públicas e da inflação e atrapalhou o desempenho da iniciativa privada, inibindo investimentos com medidas intervencionistas. A consequência foi o crescimento médio do PIB de 1,6% ao ano, a inflação superando o teto de 6,5% e o índice de confiança da indústria – que alavanca investimentos – com quedas sucessivas, atingindo redução de 23,8% este ano, segundo cálculo da FGV. Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a previsão de crescimento da economia brasileira para este ano. O diagnóstico do Fundo é que o Brasil freou e vai crescer mero 0,3% em 2014, o que corresponde a 10% da média mundial, de 3,3%. No relatório, o FMI resume o significado desse percentual: “Uma competitividade frágil, baixa confiança dos empresários e condições financeiras mais ajustadas restringem o investimento”.

A saúde foi outro nó dos últimos quatro anos. Pesquisas realizadas em junho pelo Instituto Datafolha indicaram que 93% da população está insatisfeita com o setor. Os principais problemas enfrentados incluem filas de espera, falta de acesso aos serviços públicos e má gestão de recursos. De acordo com o estudo, a saúde é apontada como a área de maior importância para 87% dos brasileiros, mas a falta de leitos, de equipamento e de médicos criou situações preocupantes no País. Além das dezenas de demonstrações das falhas de gestão do Sistema Único de Saúde (SUS), a pressão de entidades privadas de planos de saúde e indústrias de medicamentos e equipamentos exerce influência cada vez maior nas decisões das instituições públicas. Relação essa, vale lembrar, capitalizada pelos financiamentos de campanhas eleitorais.

Para melhorar os serviços públicos de saúde, o governo do PT lançou o Programa Mais Médicos, com a importação de estrangeiros para áreas isoladas. Essa medida estimulou o debate sobre a qualidade da estrutura pública de saúde nessas localidades, não tendo sido elas beneficiadas pelas tais metas ou promessas de campanha. Em 2010, a presidenta Dilma prometeu, por exemplo, construir 500 Unidades de Pronto Atendimento (UPA), mas apenas 175 estão funcionando. Apesar das soluções paliativas, o direito universal à saúde ainda é uma realidade distante dos brasileiros. Distância comparável à qualidade da educação pública prometida nos discursos de campanha.

O baixo investimento em educação básica e os salários dos professores, muito aquém das metas pleiteadas pela categoria, são apenas alguns dos ingredientes que tornaram o setor um problema a ser administrado. Em 2010, Dilma prometeu criar seis mil creches e pré-escolas e dez mil quadras esportivas cobertas. No entanto, foram entregues pouco mais de mil creches e 45 quadras. Além disso, embora o acesso às faculdades tenha aumentado durante os governos do PT, 38% dos alunos de nível superior são considerados analfabetos funcionais. O País ocupa ainda a triste posição de líder no ranking de violência contra professores e o penúltimo lugar do mundo na qualidade da educação pública.





A desaprovação ao governo de parte majoritária dos eleitores no primeiro turno pode ser explicada ainda por outros dois problemas cruciais enfrentados pelo País: a corrupção e o aumento da violência. Foi durante os governos petistas que brotaram escândalos como o mensalão e os desvios bilionários de contratos da Petrobras. Diante de cifras desviadas e de caciques partidários condenados à cadeia, ficou difícil desvincular-se dos malfeitos. “Se somarmos a esse cenário um crescimento estagnado e a queda do poder de compra, será possível compreender a falta de apoio ao atual governo”, avalia David Fleisher, da UnB.

Na área de segurança pública, existe um outro enrosco. Os números mais recentes sobre o setor mostrados no estudo do Mapa da Violência 2014 apontam que, em 2012, 154 pessoas morreram, em média, por dia no Brasil. No total, foram 56.337 pessoas que perderam a vida assassinadas no ano — 7% a mais do que em 2011. O estudo que analisou a última década registra aumento de 13,4% da violência no período, enquanto o crescimento da população ficou em 11,1%. Os índices brasileiros ultrapassam as mortes registradas nos mais sangrentos conflitos armados do mundo.

Diante da crise de segurança, não faltam contra-argumentos do governo sobre o aumento dos investimentos na área e os esforços com o lançamento de programas voltados a combater a violência. A questão que se apresenta como um grande imbróglio na segurança pública são as cifras de investimentos. O governo federal participa com apenas 13% do financiamento da segurança pública, cabendo aos Estados e municípios arcar com os outros 87% do que deveria ser gasto. Sem recursos, os Estados alegam que não há o que fazer e o jogo de empurra faz com que o País ostente índices acima dos países em guerra civil. Nos últimos quatro anos, foram liberados apenas 10,5% dos recursos previstos no Fundo Penitenciário Nacional, que devem ser usados para ampliar a estrutura das penitenciárias.

Diante de números e fatos que desmentem as mais mirabolantes promessas de campanha eleitoral, o questionamento que se impõe é o que pode acontecer com o Brasil se tudo continuar como está. O próximo presidente assume um país com manobras fiscais evidentes e inegáveis, o que dificulta o desenho do real cenário financeiro das contas públicas. O Brasil acumulou o quarto déficit mensal seguido em agosto. Os gastos superaram a arrecadação em R$ 10 bilhões. Mesmo assim, o governo afirma que as análises sobre os gastos descontrolados são eleitoreiras e que o discurso de que é preciso fazer ajustes no próximo ano, que obrigaria a próxima administração a reduzir despesas, não possui base técnica. A presidenta Dilma diz que não pretende realizar nenhum choque fiscal, embora especialistas digam que, se isso não acontecer, o País pode quebrar de vez.

Na lista dos gastos descontrolados está ainda o déficit da previdência, próximo de 7,5% do PIB. Especialistas concordam que se não houver controle dessa conta poderá faltar recursos para financiar os gastos com setores vitais como saúde e educação. Além disso, reajustes de energia elétrica e gasolina estão represados para não aumentar ainda mais a inflação em ano eleitoral. Essa realidade terá de ser enfrentada no próximo ano. O cientista político brasileiro Bruno Hoepers, da Universidade de Pittsburgh, ressalta que a manutenção das diretrizes do atual governo ainda guardam outro problema: as alianças no Congresso para obter o mínimo de governabilidade. “O grande desafio será gerenciar melhor a coalizão, o que implica distribuir de forma mais equitativa as pastas ministeriais e cargos na burocracia federal entre os partidos aliados”, afirma. Na opinião de Hoepers, essa tarefa será mais desafiadora em um eventual segundo mandato de Dilma, uma vez que seu partido, o PT, terá menos cadeiras na Câmara do que tem hoje. A situação ainda será agravada pelas negociações que terão de ser feitas com 28 partidos, número de legendas da próxima legislatura. Atualmente, são 22 partidos na Câmara. 




Se Dilma for reeleita, por certo a inflação permanecerá nos atuais patamares, já que a própria presidenta defende que a perseguição de uma meta mais austera pode significar o aumento do desemprego. É justamente o que o PT promete evitar. Embora receba críticas de diversos setores, o atual governo não dá sinais de que pretende mudar sua política econômica. Pelo contrário, integrantes da equipe de reeleição dizem que a orientação em um eventual segundo mandato será o de continuar a perseguir índices inflacionários próximos a 6%, como ocorre desde 2011. Aécio Neves, candidato do PSDB, defende justamente o oposto. Acredita que é preciso trazer a inflação para o centro da meta e que durante seu mandato o ideal seria atingir índice de 3%, que é a meta semelhante a países como o Chile. Na prática, esses números complexos e a discussão de metas e índices representam para os brasileiros os valores do custo de vida. Quanto menor o índice, menos será preciso gastar para consumir.

Para o economista da UnB Flavio Basílio, o Brasil passa por um momento de transição, no qual a estratégia de crescimento sustentado no aumento do crédito e dos salários acima da produtividade, ambos estimulando o consumo, mostra sinais de esgotamento. Isso significa que o crescimento futuro da economia brasileira depende, mais do que nunca, da ampliação dos investimentos produtivos, do aumento da competitividade da indústria de transformação e, por consequência, da retomada da confiança do empresariado.

O risco, segundo o especialista, se as coisas continuarem no mesmo caminho, é de o País perder o grau de investimento nos próximos anos. “Com uma inflação próxima do teto da meta de 6,5% ao ano e com crescente ampliação do déficit em transações correntes, é importante que o próximo governo promova um ajuste fiscal para auxiliar a política monetária no combate à inflação e assegurar a manutenção do poder de compra dos trabalhadores e o grau de investimento do Brasil”, diz Basílio. “Sem o ajuste, o risco de o país perder o grau de investimento nos próximos anos é real”, afirma. Na opinião do professor, essa perda poderia ocorrer justamente quando o Banco Central americano subisse os juros, o que provocaria fuga de capitais do Brasil com consequências inflacionárias e com repercussões negativas sobre a estabilidade da economia.