sexta-feira, agosto 28, 2015

A opinião de quem entende

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Um excelente jornalista, Ricardo Sérgio Mendes, jamais se deu ao trabalho de ler projetos de mudança da legislação trabalhista. Ia direto à opinião da Fiesp, a Federação das Indústrias, e demais entidades patronais, e explicava: "Se eles forem a favor, é porque eu vou me ferrar. Se forem contra, então é boa para mim".

Não é preciso fazer qualquer análise sofisticada para saber como vai o Governo: se o maior banqueiro privado do país, Roberto Setúbal, apoia Dilma, é porque o Governo Dilma é bom para ele e os demais banqueiros. Quem não for banqueiro que arque com as consequências e pague a conta. E sem reclamar. 

Aliás, nem precisaríamos recorrer à sabedoria do velho jornalista: a própria propaganda de Dilma nos informou que, quando os banqueiros se articulam, a comida some da mesa dos cidadãos. E, agora como nunca, os banqueiros se articularam e ganharam prestígio: em vez de simplesmente assistir à nomeação de um dos seus para o comando da Economia, foram consultados oficialmente para saber quem a presidente reeleita escolheria para a Fazenda. Mandaram que fosse Joaquim Levy. Para obedecer aos banqueiros, Dilma rejeitou até Henrique Meirelles, o candidato de Lula: era banqueiro, mas não era o indicado pelos bancos. 

E ninguém estranhe que Setúbal, cuja competência como banqueiro é reconhecida por todos, apoie um Governo que se diz de esquerda e que condena a elite endinheirada de São Paulo. Este colunista, se fosse Setúbal, também seria Dilma desde criancinha. Quando é que os bancos ganharam tanto dinheiro?

Complementando
O banco dirigido por Roberto Setúbal anunciou que, para ampliar os lucros, vai fechar 15% de suas agências. O Sindicato dos Bancários é tradicionalmente petista (de lá saíram o ministro Ricardo Berzoini, o tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o ministro Luiz Gushiken e Sérgio Rosa, da Previ). 

Irá protestar contra um aliado tão bom só para defender os empregos de seus associados? 

Poeta quando calada
Dilma Rousseff nunca falha: na entrevista que concedeu à Folha, Estadão e O Globo, disse que para enfrentar o baixo crescimento fez uma "política pró-cíclica". Ou seja, em português correto, sua política buscava sustentar o ciclo de baixo crescimento. Mas Dilma pretendia dizer o contrário, que fez uma "política anticíclica", ou seja, buscando reverter a estagnação. Foi traída pelo dilmês. Disse ainda que não tinha percebido que a economia estava tão deteriorada.

Conclusão do jornalista Cláudio Humberto: "Ao admitir, um ano e meio depois, que não percebeu a gravidade da crise, agora é oficial: Dilma não precisa de oposição para chamá-la de incompetente". Conclusão do jornalista Gabriel Meissner: "Se até Dilma percebeu que a crise é grave, a coisa está bem feia".

Erro repetido
Equivocam-se os que denominam de Tico e Teco os dois famosos neurônios. Os nomes não vêm dos desenhos de Disney, mas de outro filme: Débi e Lóide. 

Ainda pode piorar
Dilma e seus aliados estão mais otimistas, achando que a declaração de Roberto Setúbal e a incapacidade do PSDB de se unir para escolher seu caminho dão um bom fôlego ao Governo. Como diria um personagem conhecido, menas, menas: há muitos focos de crise ainda intocados. O PMDB, por exemplo: hoje à noite, reúnem-se parlamentares do partido para discutir como afastar Dilma sem precisar do apoio de Aécio e Alckmin. O grupo de Renan não vai; mas, se achar que os opositores de Dilma são mais fortes, adere na hora. E Michel Temer, embora não vá mexer uma palha, ao menos em público, para derrubar a presidente, não reclamará se o poder cair em seu colo. Há também o depoimento do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, na CPI da Câmara. Em princípio, Coutinho, que é do ramo, tem tudo para sair-se bem; mas, se algum deputado tiver estudado o assunto, talvez possa criar-lhe (e ao Governo) alguns problemas.

A ponte para o futuro
Uma das condições básicas para qualquer retomada do desenvolvimento e superação da crise econômica, a segurança jurídica, é o tema de um simpósio dos mais importantes, que a Sociedade de Estudos Jurídicos Brasil-Alemanha, Sejubra, promove no próximo dia 20 em Joinville. 

Dois ministros do STJ, Ricardo Villas Bôas Cueva e Marco Aurélio Gastaldi Buzzi, falam sobre o tema para investidores alemães. Segurança jurídica é, para o investidor, um assunto essencial.

O pó da História
Muita gente indignada com o presidente boliviano Evo Morales, que disse que, "se houver golpe", ele e os bolivianos "vão defender a democracia no Brasil". A interpretação é de que Morales ameaçou agir militarmente (o que não chegou a dizer). Mas não há motivo para preocupação. No final do século 19, vitorioso na guerra franco-prussiana, o primeiro-ministro alemão Otto von Bismarck foi informado por um jornalista de que a Grã-Bretanha, enfraquecida pela Guerra da Crimeia e há longos anos enfrentando apenas lutas coloniais, ameaçava intervir na Europa. 

O jornalista quis saber qual seria sua reação se os ingleses desembarcassem. Bismarck não hesitou: "Ora, chamaria a Polícia!"

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