sexta-feira, agosto 28, 2015

É bom o governo não se descuidar do campo

Adelson Elias Vasconcellos

Para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, não ignora que a recessão brasileira só não começou antes do segundo semestre de 2014 por conta da atividade agropecuária que, aliás, vem levando a economia brasileira nas costas faz tempo. 

Durante o tempo em que a nossa moeda esteve sobrevalorizada em relação ao dólar, fizemos muitos comentários e postamos inúmeros textos  criticando a postura do governo do ex-presidente Lula, dado que não seria com importações baratinhas que a inflação seria contida. Também com o represamento de tarifas como foi a postura adotada por Dilma no seu primeiro mandato.

Tanto não deu certo a tal política de “controle da inflação”, num e noutro caso, que ela ao beirando os dois dígitos e sem pressa de ir embora. 

Contudo, as manobras para conter o câmbio artificialmente, produziram dois desastres internos: um, pelo lado da indústria nacional que passou a perder espaço tanto interna quanto externamente. Inúmeros institutos apontaram que as importações passaram a ocupar cerca de 25% dos produtos oferecidos no comércio nacional. E as exportações, tanto de manufaturados quanto de semimanufaturados,  simplesmente sumiram de nossa pauta de exportações. Nossos excedentes de comércio exterior passaram a depender de modo único das commodities agrícolas e minerais. E, assim, mesmo, muito pelo seu alto preço internacional e alto consumo dos países emergentes, principalmente, China e Índia. 

Já de uns dois anos para cá, a economia chinesa vem dando mostras de arrefecimento. Basta compararmos os números do crescimento de seu PIB entre 2002 a 2008 com os de 2012 para cá. Isto, é claro, impactou o comércio externo brasileiro de produtos agrícolas, soja  e minerais, minério de ferro. 

Contudo, nossas dificuldades econômicas não se deve a redução de crescimento da China e, sim, pela falta de visão estratégica de médio e longo prazos,  o abandono completo das reformas estruturais, a brusca queda da produtividade da indústria e, claro, as medidas desastrosas do governo Dilma. 

Mas nada que está ruim pode ficar pior ainda. O Brasil já deveria ter se precavido para a redução do ritmo chinês.  Tal redução resultaria num volume menor de vendas e num volume menor ainda de receitas. Menos consumo, preço menor. As commodities, viu-se nesta segunda feira, simplesmente, desabaram. 

Ora, faz mais de um ano que o Brasil tenta negociar um acordo de comércio com a União Europeia. Ora são os Argentinos, ora são as próprias autoridades brasileiras que colocam empecilhos de toda ordem para que o acordo seja fechado. Tivesse o governo brasileiro melhor determinação em defesa dos interesses do país, e já teria mandado a Argentina para o espaço e fechado este acordo indispensável para o nosso desenvolvimento. E aí teríamos uma alternativa poderosa para não sermos tão dependentes da economia chinesa. 

Os soluços que os chineses vem dando de  uns dois meses para cá, e que tem despertado imensas preocupações ao redor do mundo, dado o impacto que pode causar para a recuperação da economia mundial como um todo, devem, ou deveriam ao menos, despertar imensas inquietações no governo brasileiro. Estes solavancos surgem num momento em que estamos fragilizados e imensamente vulneráveis, tentando a qualquer custo corrigir a rota de desgoverno imprimido por Dilma desde 2011. 

Claro que é imperioso criar incentivos para a recuperação, mesmo que lenta e gradual, da nossa indústria. Mas de toda a cadeia e não apenas de uma pequena parte como o governo fez recentemente. 

Mas não pode é deixar de olhar para o campo. Dada a escassez de crédito interno, a divisão de recursos deve bem contrabalanceada para não se desvestir um santo para tapar meia perna de outro. A atividade agropecuária é a nossa mais importante atividade de excelência em nível mundial. Não se pode fechar a torneira para este setor. E é precisamente isto que está acontecendo, conforme matéria da Veja online reproduzida nesta edição. Não basta “anunciar” que haverá dinheiro, é preciso disponibilizá-lo e parar, principalmente,  os bancos públicos, de criar dificuldades “extras” para os nossos produtores rurais terem acesso a financiamentos, dificuldades que até então nunca foram criadas.  

E mais: é preciso reconhecer que, foi graças a competência do campo, que o Brasil pode formar seu colchão de segurança chamado de “reservas internacionais”, hoje na casa de mais de R$ 350 bilhões.  E é graças a esta “poupança”, que as agências de risco internacionais ainda mantém nossa dívida em grau soberano. 

Portanto, que o ministro Levy reúna-se com a presidente Dilma para, juntos, encontrarem caminhos que atenuem as dificuldades que estão sendo impostas aos produtores rurais, que não podem, de maneira alguma, ser penalizados pela crise econômica do país. Pelo contrário, graças a eles é que a crise não chegou mais cedo.  Que  ambos não fiquem, agora,  na janela esperando a banda passar  ou admirando os lírios do campo. Atuem com competência para defender uma atividade econômica que nos orgulha dado o seu grau de excelência reconhecido mundialmente. 

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