domingo, agosto 30, 2015

Ilusão criada pela expansão chinesa terminou

Editorial
O Globo

Sem desmerecer a importância dos produtos básicos, Brasil precisa retomar estratégia de diversificar mercados e aumentar participação de manufaturados nas exportações

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio estima que o Brasil tenha deixado de faturar este ano o equivalente a US$ 12 bilhões devido à queda dos preços das principais commodities que exporta. E entre as razões desse recuo está a desaceleração do crescimento da economia chinesa.

Tal desaceleração era previsível, pois, mesmo para uma economia com enorme propensão a poupar, há um momento em que fatores de produção começam a se esgotar. As altas taxas de expansão da China, por um longo período, causaram reviravolta na economia mundial, com preços de matérias-primas se valorizando enquanto os de produtos industrializados barateavam.

Se por um lado, outras economias emergentes ganharam impulso de crescimento devido à exportação de produtos básicos, por outro a invasão de mercadorias chinesas nos mercados desmontou uma série de cadeias produtivas.

Os governos Lula e Dilma se iludiram com esse processo, acreditando que o Brasil iria conseguir passar ao largo, quando a crise financeira se alastrou pelas economias mais desenvolvidas.

Essa ilusão de riqueza com o real apreciado fez com que o país pusesse de lado reformas estruturais essenciais e capazes de proporcionar ganhos de produtividade que tornariam a indústria brasileira mais competitiva.

No passado, o Brasil enfrentou crises semelhantes decorrentes da retração de mercados e queda de preços de commodities. A lição não foi devidamente aprendida, embora pouco antes da arrancada da economia chinesa os manufaturados tenham chegado a representar 50% das exportações brasileiras. De certa forma, com o boom nas cotações das matérias primas houve um recuo no tempo.

Ainda que não se possa conceituar mais produtos básicos como primários, já que hoje todos têm algum conteúdo tecnológico. No entanto, a tendência de longo prazo é que a relação de trocas volte a ser mais favorável para os manufaturados, em detrimento dos produtos básicos. O Brasil não deve desmerecer a importância do agronegócio, da extração de minérios e do petróleo em sua economia. São vetores de crescimento que ajudaram a interiorizar a economia brasileira, e precisam receber a devida atenção e reconhecimento.

Mas isso sem que o país abandone a estratégia de diversificar seu comércio exterior em produtos e mercados, elevando a participação dos manufaturados.



Nenhum comentário: