sexta-feira, agosto 28, 2015

Nos estados em crise, escola sem papel e delegacia sem carro

Flávio Ilha, Bárbara Nascimento, Rennan Setti e Ronaldo D’ercole 
O Globo

Com agulha, mas sem reagente, hospital suspende exames. Sala de aula no Rio tem janelas vedadas e ar-condicionado parado

ANDRE COELHO / André Coelho
 Professoras e funcionárias de escola nos arreadores de Brasília 
se cotizam para pagar material de limpeza e gás de cozinha  

PORTO ALEGRE, BRASÍLIA, RIO e SÃO PAULO - Do policial que paga do próprio bolso o treinamento à professora que teve que parar o tratamento contra o câncer. Das salas de aula transformadas em verdadeiras estufas no verão carioca até falta de gás e papel para imprimir provas em Brasília. De aumento da violência à perda dos bônus da nota fiscal paulista. Os cidadãos estão sendo atingidos pela penúria dos estados Brasil afora.

No Rio Grande do Sul, que chegou a parcelar salários, a insegurança impera nas cidades diante do abandono da polícia.

— O pessoal aqui da delegacia se reúne esporadicamente, a cada quatro ou seis meses, em algum estande privado de tiro para treinar. Tiramos dinheiro do próprio bolso para pagar as horas de treinamento — desabafa o escrivão Cládio Abel Wohlfahrt, com 21 anos de Polícia.

O corte de 20% nos gastos das secretarias teve efeito imediato nas ruas: em junho deste ano, os registros de latrocínios (roubo seguido de morte) aumentaram 77% em relação ao ano passado. São mais de 6 mil roubos violentos por mês no estado.

A 2ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, que já foi classificada pela ONG Altus Global Alliance como uma das melhores do Brasil nos quesitos atendimento ao público e resolução de casos, tem apenas três investigadores para atender a uma população estimada em 200 mil pessoas. São cinco carros, mas dois funcionam precariamente. Há só uma carabina para enfrentar o armamento cada vez mais pesado dos bandidos.

Na educação, o tempo na escola diminuiu. O Corpo de Bombeiros interditou um dos prédios da Escola Estadual Otero Paiva Guimarães, tirando da estrutura da escola oito salas de aula, por defeitos na rede elétrica e na estrutura de alvenaria. Assim, os 750 alunos só têm três horas de aula:

— A Coordenadoria que atende à nossa região é compreensiva e solidária, entende nossas dificuldades, mas justifica que não há dinheiro. Infelizmente não há alternativa se não reduzir os turnos. Não sei como poderemos recuperar essas horas de aula — diz a diretora Eveline Murlik Moraes.

TRATAMENTO DE CÂNCER INTERROMPIDO
Do Sul Maravilha ao Planalto Central, é na saúde que os estados fazem suas vítimas. Nos hospitais do Distrito Federal faltam de seringas e reagentes a cadeiras de rodas e equipamentos. Diagnosticada com câncer de mama há quatro meses, a professora Marlene Gomes da Costa, de 53 anos, terá que interromper o tratamento no Hospital de Base, o maior hospital público da região. Após terminar a quimioterapia, ela teria que começar a fazer sessões de radioterapia, mas o equipamento está quebrado, sem previsão de conserto.

— As pessoas começam um tratamento para câncer, que tem que ser rápido, e são obrigadas a parar no meio. Os médicos são muito atenciosos, mas não podem fazer nada sem as máquinas.

Também no meio de um tratamento para combater um câncer, a professora Irielma Carvalho, de 67 anos, é obrigada a pagar os exames:

— Tenho que fazer todos os exames fora, porque está tudo sempre quebrado e demora. Eu não posso esperar.

No Hospital Regional do Gama, distante 40 quilômetros da Esplanada dos Ministérios, faltam luvas, máscaras, capotes e até reagentes para exames de sangue.

— Tem médico, tem agulha, mas não tem reagente. As pessoas internadas colhem o sangue aqui e pedem para os familiares levarem para laboratórios particulares — disse um médico que preferiu não se identificar.

A Secretaria de Saúde do DF informou que apenas o aparelho de cobaltoterapia está quebrado e que os reagentes para os exames já foram comprados.

Nas escolas, os professores tiram do próprio bolso o dinheiro para pagar material de limpeza e gás de cozinha. Em São Sebastião, cidade a cerca de 30 quilômetros da área central de Brasília, a direção da escola CAIC Unesc teve que fazer uma vaquinha entre os funcionários para pagar itens básicos.

— Acabou o papel para rodar as provas e o gás da cozinha. Nós tiramos do nosso bolso, deixamos de ter um uniforme, cobrimos uma conta com outra.

Da capital brasiliense ao calor carioca, a crise deixa estudantes da rede estadual numa verdadeira sauna, num inverno de temperaturas acima de 30 graus.

— Os aparelhos de ar-condicionado estão nas escolas porque a empresa ainda não os retirou, mas a ordem expressa da Seeduc (Secretaria Estadual de Educação) é para não ligá-los. Para a instalação dos aparelhos, as salas tiveram as janelas vedadas, e os ventiladores, retirados. Então, hoje, alunos de várias escolas da rede estadual estão tendo aula como se estivessem em uma estufa — afirmou Beatriz Lugão, da diretoria do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio (Sepe-RJ) e professora do Ciep Pablo Neruda, em São Gonçalo.

A Secretaria estadual de Educação prometeu licitar o serviço ainda este mês, depois do fim do contrato com a empresa prestadora do serviço. Os gastos com despesas correntes e investimentos foram enxugados em 20% no primeiro semestre.

Na segunda-feira passada, os 672 alunos do Colégio Estadual João Tarcísio Bueno, em São Gonçalo, precisaram ser remanejados para outras unidades depois que o teto da escola desabou. A Empresa de Obras Públicas (Emop) analisa as causas do acidente.

Em São Paulo, outro estado em crise, a medida que bateu em cheio no bolso dos paulistas foi a suspensão dos créditos da Nota Fiscal Paulista, programa criado em 2007 para estimular as pessoas a pedir a nota fiscal, ajudando a arrecadação do estado. Em troca, o governo devolvia parte do ICMS aos contribuintes. Trata-se de um bolada de R$ 2 bilhões anuais que era rateada entre os contribuintes.

— É um programa que tem seus méritos e que, do ponto de vista de geração de receitas, foi muito importante lá atrás. A alternativa seria cortar outros programas ou aumentar impostos — afirmou o secretário estadual de Fazenda de São Paulo, Renato Villela.

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