domingo, agosto 30, 2015

O elefante despercebido da Unasul

Rodrigo Botero Montoya (*)
O Globo

O regime bolivariano produziu um caos econômico que colocou o país à beira da insolvência e da dissolução social

O elefante é o animal terrestre de maior tamanho. Seu habitat natural é a África ao sul do Saara (o Loxodanta Africano) e a Ásia (o Elephas Maximus). Um elefante africano pode alcançar uma altura de quatro metros e um peso de 6,35 toneladas. O grande porte constitui um de seus traços predominantes. Por essa razão, é inverossímil pretender que se ignora a presença de um elefante no interior de um recinto. Essa foi a acusação que o arcebispo da Colômbia fez a um político inescrupuloso que sustentava que a entrada de dinheiro do narcotráfico para financiar sua campanha eleitoral ocorrera à sua revelia.

O inadvertido paquiderme na sede da Unasul é a demolição do Estado de Direito que o regime bolivariano leva a cabo na Venezuela. De maneira sistemática, estão diminuindo os fundamentos da democracia liberal: separação de poderes; alternância no governo; prestação de contas; Justiça independente; propriedade privada; liberdade de imprensa; e economia de mercado. Aos dirigentes políticos dissidentes, se reserva o cárcere. Aos jornais de oposição, restringe-se a disponibilidade de papel. Aos manifestantes populares inconformados, reprime-se com uso incomum de violência.

O regime produziu um caos econômico que colocou o país à beira da insolvência e da dissolução social. A exasperação causada pela maior inflação do mundo e o desabastecimento está sendo manifestada por meio de saques da população aos supermercados. Além do mais, há indícios de que esta situação começa a se tornar insustentável. Embora a data de um eventual colapso seja imprevisível, as apostas pela longevidade da revolução bolivariana são cada vez mais escassas.

Não seria razoável supor que os membros da Unasul desconheçam uma realidade que foi denunciada pela União Europeia, a Internacional Socialista e numerosos ex-presidentes democráticos. O fato de que os atropelos das liberdades individuais na Venezuela passem inadvertidos pelos porta-vozes da Unasul tem outra explicação. A denominada revolução bolivariana conta com a solidariedade dos governos de Argentina, Bolívia, Brasil, Equador e Uruguai. Eles parecem ter um acordo tácito para legitimar o autoritarismo quando este é exercido em nome de um projeto revolucionário.

Esta constelação de forças políticas tem um caráter transitório. Depende do que Hugo Chávez denominou de eixo Caracas-Brasília-Buenos Aires. A política externa da Argentina pode mudar no próximo governo. A cumplicidade do Brasil se explica por uma anomalia. Os governos do PT delegaram a Marco Aurélio Garcia, companheiro de viagens das Farc, as relações com a América Latina. Este esquema diplomático é inapropriado para uma nação que deseja ser percebida como uma grande potência.

Os eventos se encarregarão de relegar ao esquecimento as vacilações da Unasul. Mas uma entidade regional que mantém silêncio enquanto o regime venezuelano atenta contra os valores democráticos proclama sua própria irrelevância cada vez que é colocada em pauta sua razão de existir.

(*) Rodrigo Botero Montoya é economista e foi ministro da Fazenda da Colômbia

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