domingo, agosto 30, 2015

Os três roubos

Adelson Elias Vasconcellos

Há certas obviedades que a gente, às vezes,  até sente certa preguiça em descrevê-las. Mas,  num país em que a intolerância do governo atual e seu partido não admite o contraditório e, no entanto,  enche o peito para falar de “democracia”,  em que a existência da oposição é que justifica a própria democracia, repetir obviedades acaba sendo uma necessidade que se impõem. Quanto mais não seja, num país de pouca leitura, de informação inacessível para grande parte de seus 204 milhões de pessoas, seja pela geografia, ou pela educação deficiente, repetir obviedades acaba se tornando um serviço privado para benefício público.

Quando o PT assumiu a presidência em 2003, se comprometeu, para atingir seu objetivo, em manter contratos,  respeitar as regras e, principalmente, em manter inalterado o tripé macroeconômico que assegurava ao Brasil a tão batalhada, sonhada e sofrida estabilidade econômica, após ter comido o pão que o diabo amassou e purgado as portas do inferno em 25 anos de estagnação, atraso, concentração de renda e aumento indiscriminado da miséria, herança amarga recebida do período da ditadura militar e que se estendeu até a chegada do Plano Real.

De fato, na primeira metade do primeiro mandato de Lula cumpriu-se o contrato que o ex-operário e seu partido havia firmado com o povo brasileiro.  Com isso, Lula conquistou o que até então parecia impossível: a confiança da elite empresarial do país e,  nela, para a desgraça de todos nós, sabemos agora pela Lava Jato, montou seus esquemas sórdidos encaixados no projeto de poder político hegemônico do seu partido. Pelo lado institucional, logo se descobriu,  foi criado o mensalão com o objetivo de manter o Legislativo, ou sua maioria, genuflexa e submissa, de onde partiriam os projetos que consagrariam aquele projeto de poder. Tanto é assim que, por três vezes, Lula enviou projeto de  lei ao Congresso que, encapados sob rótulos aparentemente dóceis, iriam reprimir a livre expressão recriando a censura à imprensa e engessar o Judiciário.

Dada a reação da sociedade, teve de recuar de seu intento, mas sem nunca perder o desejo de concretizar tais “conquistas”. 

Porém, como a economia mundial já experimentava um período virtuoso, o maior dos últimos cem anos, Lula resolveu aparelhar o Estado com sua gente, a exemplo do que já fizera com sindicatos, centrais sindicais além de algumas organizações da sociedade civil. É dessa época que o governo abriu a porteira do Tesouro para ONG’s picaretas, com farta distribuição de doações, a grande maioria sem exigir nenhuma contrapartida. 

Através de uma massiva campanha publicitária, primeiro capturou a agenda do seu antecessor e, em seguida, demonizou-o a tal ponto que próprios tucanos evitaram, por algum tempo, ou exibi-lo ou referirem-se a obra tanto econômica quanto social de FHC.

Neste momento acontece, então, o primeiro roubo: Lula roubou um passado de  construção virtuosa que não lhe pertencia. E começa a tentativa criminosa de tentar reescrever a história do país ao seu modo. Neste ponto, o Bolsa Família espalhou-se de norte a sul, e sua existência passa a ser associada a Lula, o Pai dos Pobres,  com poucos lembrando que o embrião do Bolsa Família havia sido plantado e  se desenvolvido no Comunidade Solidária, comandado por Ruth Cardoso, esposa de FHC, já falecida.  

Enquanto isso, no plano econômico, o país ia  se beneficiando do vertiginoso crescimento do consumo mundial, principalmente pela  Índia e China, de commodities nas quais o Brasil tinha excelência, como soja e minério de ferro. 

As exportações cresceram em volume e valor faturado, dado que o maior consumo elevou  os preços das commodities no mercado internacional. Foi por este fator que o Brasil formou seu colchão de segurança em divisas internacionais elevadas.  Porém, por preguiça, covardia ou incompetência, Lula perdeu, neste ponto, a grande oportunidade de provocar um salto no desenvolvimento do país para garantir-lhe sustentabilidade. Para começar, abandonou toda e qualquer intenção de dar seguimento às reformas estruturais, que abriram caminho, no governo FHC, para a estabilidade. Depois, para manter a inflação sob controle manipulou de tal forma o câmbio, que o dólar chegou a valer R$ 1,57. Segundo analistas, à época, o dólar de equilíbrio deveria pelo menos de 30 a 40% mais. O efeito desta manipulação foi dar início ao débâcle da indústria brasileira.  

A primeira consequência deste desastre foi desaparecer os manufaturados e semimanufaturados da nossa pauta de exportações. Depois, com o dólar baratinho, as prateleiras do comércio interno se entupiram de importados, roubando espaço da nossa indústria. Ato contínuo, Lula criou o clubinho chamado “Campeões Nacionais”, para os quais o BNDES abriu seus cofres, com juros subsidiados. A intenção era internacionalizar as empresas privilegiadas, como símbolo de megalomania de, no improviso e no berro, alinhariam o Brasil como um país “rico”. Na época, reivindicava-se, em todos os fóruns internacionais, uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.  Quanto aos todos os demais setores da economia esquecidos por Lula, padeciam com o chamado “Custo Brasil”.

Ainda em seu primeiro mandato, já projetando sua estratégia de roubar o passado, Lula decidiu interromper todas as obras de infraestrutura em andamento no país e, sob a desculpa de mandar rever os estudos, manteve-as paralisadas. Nesta época, Lula não pensava nem no custo da obra parada tampouco no atraso que provocaria sua decisão para o desenvolvimento do país, tendo que conviver com uma infraestrutura deteriorada. 

Reeleito, Lula saca da algibeira todas aquelas obras que interrompera e cria o tal PAC, incluindo no rol de obras todas aquelas que, no primeiro mandato, ele interrompera e posa como o grande gênio do desenvolvimento. Em seguida, nomeia Dilma Rousseff, então na Casa Civil desde a queda de José Dirceu, como a “Mãe do PAC”, o que ensejaria escolhê-la para sua sucessão. Neste ponto, Lula rouba do Brasil o seu presente. 

Para eleger Dilma, abriu as torneiras da gastança desenfreada, loteando o quanto pode o Estado, concedendo aumentos aos servidores de determinadas categoria acima de 100%. Lula gastou o que podia e não podia. E o fez porque, à luz do pré-sal, Lula determinara, por sua conta e risco, que o Brasil já era rico, e passou a gastar por conta de uma riqueza que só se tornaria como tal dali a 10 anos. 

Ao conseguir eleger Dilma Rousseff, Lula cometeu o terceiro pecado, isto é, roubou o futuro. Sua sucessora não tinha o temperamento tampouco a qualificação necessária para o posto mais alto da república. Sempre fora uma burocrata, sem nenhum trato político (que, aliás, detesta), além de uma formação nacionalista que lembrava os generais presidentes de má memória.  

Ao assumir, sem qualificação, sem temperamento para o ambiente político, sendo vista com desconfiança até pelos companheiros de partido, não demorou muito para demonstrar que se tratava da pessoa errada, no lugar e hora errados. 

Se,  pela reprovação das contas via TCU e consequentemente abertura, pelo Congresso,  de processo por crime de responsabilidade, ou pela constatação de haver cometido crime eleitoral, via TSE, esta senhora não for retirada da presidência, seguramente o Brasil retroagirá ao início dos anos de 1990, naquela bagunça que foi o governo de Fernando Collor. Dilma está, simplesmente, detonando todas as bases sobre as quais o país construiu sua estabilidade.  E não vá se esperar que lhe sobrevenha um surto de humildade sincera para, a partir dela, reconhecer seus próprios erros e escolhas. Orgulho, prepotência, arrogância, e uma imensa compulsão à mentira, emolduram um caráter difícil de mudar. 

Na tal entrevista aos três maiores jornais em circulação no país, tendo ali uma preciosa oportunidade de se reconciliar com a sociedade, ela apenas reconheceu como seu erro (assim mesmo, com um “talvez”), ter demorado a reconhecer a gravidade da crise. E as razões para o aparecimento da crise? Nada, a não ser a crise na China como uma desculpa indecente. Soluções para debelar a crise? Nada. E a corrupção dos parceiros políticos mancomunados com as grandes empreiteiras? Nem um pio. Não apresentou uma única solução, repetindo o mantra de que ela será passageira, quando todos sabem que a crise dura pelo menos dois a três anos..

Talvez, quando já estiver longe do poder, Dilma reflita e, num rasgo de sincera humildade, reconheça que, graças ao seu reconhecido destempero, seu incurável preconceito contra o capital privado, sua teimosia incurável e sua arrogância imbecilizada e medíocre, reconheça os males que seu governo produziu para o futuro do país. Retornamos no tempo, perdemos vitalidade e virtudes conquistadas com muito esforço e sacrifício por toda a sociedade. 

Além do Brasil, quem mais perdeu   força econômica? Rússia e Ucrânia, dois países em guerra. O resto do mundo cresceu, até a complicada e encrencada Grécia apresentou resultado positivo. 

Quanto a “dificuldades passageiras”, isto Dilma pode contar para si mesma. Afinal, ela pode enganar-se o quanto quiser. O que não pode, e já nem mais tem credibilidade para tanto, é achar que o resto do país lhe dará ouvidos. Dilma mentiu antes, durante e após as eleições. E mesmo diante do desastre que seu primeiro mandato provocou na economia e vida diária do país,  teima em mentir, em ludibriar, em insistir num discursos de palanque num tempo em que já mão há mais eleições para disputar. 

Claro que houve outros momentos tão ou mais relevantes dos que os que aqui narrados, mas a resenha acima representa um rol de acontecimentos representativos dos três roubos, passado, presente e futuro, praticados contra o Brasil e seu povo. O conserto deste total desarranjo praticado em 12 anos, vai cobrar das futuras gerações  muito sacrifício. Mas certamente, elas não nos perdoarão por termos permitido que o PT,  Lula e Dilma, roubasse toda a esperança de um país melhor que poderíamos ter deixado como herança.  

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