domingo, setembro 13, 2015

A irresponsabilidade reiterada

Editorial
O Estado de S. Paulo

A reação do Planalto ao rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela Standard & Poor’s é uma patética reiteração da irresponsabilidade do governo na gestão de suas próprias contas, apontada pela agência de classificação de risco como a principal razão de sua decisão. Embora a presidente Dilma Rousseff tenha afirmado dias atrás, em entrevista ao jornal Valor, que seu governo tem “uma clara estratégia” para tirar o País da crise econômica, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, foi escalado para anunciar, após a reunião de emergência realizada na manhã de quinta-feira no Planalto, que “até o fim do mês” serão anunciadas as medidas de corte de despesas e aumento de tributos destinadas a promover o ajuste fiscal. Ora, o próprio Levy, que tem proposto medidas de austeridade desde o início do ano, apenas para serem invariavelmente rejeitadas por Dilma e pelo PT, faz uma clara confissão de que não existe nenhuma estratégia definida. Quem sabe, até o fim do mês.

A razão pela qual o governo está sendo incapaz de dar uma pronta resposta ao agravamento da crise é óbvia: Dilma Rousseff não tem a menor ideia do que fazer, dividida entre o caminho da austeridade e o da persistência na gastança que é a matriz econômica ditada por suas convicções estatistas e pelo populismo irresponsável do PT. Sem credibilidade popular e política, e com um comportamento errático, a presidente tem-se limitado a bisonhas tentativas de tapar o sol com a peneira que só fazem rebaixar mais ainda o nível da confiança que a Nação ainda deposita nela.

Para agravar a situação, o ex-presidente Lula – cujo desespero pela sobrevivência política o tem impelido a agir estabanadamente – escancarou seu populismo irresponsável com a declaração desdenhosa de que o rebaixamento da nota de crédito “não significa nada”. Despudoradamente, desdisse o que afirmara em 2008, ao comemorar o ingresso do Brasil na faixa de crédito da qual é agora rebaixado: “O Brasil foi declarado um País sério”. Pelo mesmíssimo critério, deixou de sê-lo.
Apesar da decadência da liderança política do chefão do PT, o modo cada vez mais explícito como ele se posiciona contra o ajuste fiscal agrava o impasse político que paralisa o governo e joga para além do horizonte as perspectivas de alguma saída a curto prazo para a crise econômica. Lula não está nem um pouco preocupado com a crise que solapa as conquistas sociais obtidas a duras penas pelas classes menos abastadas nos últimos anos. Ele só pensa em tirar proveito da situação para voltar a ocupar o Palácio do Planalto, desta vez vem sem intermediação.

Diante da gravidade e da abrangência da crise – política, econômica, social e moral –, seria de esperar que as chamadas forças vivas da Nação se unissem para tirar o País do buraco fundo em que o lulopetismo o meteu.

Mas não é isso o que se vê. Em vez de medidas oportunas para evitar que as classes pobres e médias se vejam ainda mais sacrificadas pela inflação e pela recessão, o que as pessoas e os partidos responsáveis pela condução do governo fazem é, uns, contemplar a chegada do desastre, imóveis, e, outros, engendrar fórmulas perversas para tirar proveito da desgraça alheia.

Não é preciso ser economista para saber que o País está à beira da insolvência e essa situação só pode ser revertida com a adoção de medidas – tão mais severas quanto é a gravidade da crise – tanto de redução de despesas quanto de aumento da receita. E os sacrifícios inevitavelmente decorrentes devem ser distribuídos da maneira mais justa possível entre todos os membros da sociedade. É um equívoco imaginar, até porque não é justo nem democrático, que qualquer segmento social seja mais penalizado ou beneficiado do que outros na hora da austeridade. É preciso, acima de tudo, que tais medidas saneadoras sejam adotadas sem mais delongas.

A “travessia” que Dilma não se cansa de mencionar exige uma liderança competente, segura e confiável. Comportando-se como cego em tiroteio, a presidente mostra que não é nada disso e que seu governo está sujeito a ter breve final. O que virá depois não se sabe. Mas uma coisa é certa: pior do que está pode ficar.

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