domingo, setembro 27, 2015

Anão diplomático, o retorno

Clóvis Rossi
Folha de São Paulo

Lembra-se de quando o então porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmor, chamou o Brasil de “anão diplomático”, pelas posições assumidas na guerra de Gaza em 2014?

Pois é, não era verdade naquele momento, mas é verdade agora e não tem nada, absolutamente nada, a ver com Israel, Palestina ou imediações.

A demonstração mais imediata e mais eloquente do nanismo brasileiro é a reunião desta segunda-feira (21) entre os presidentes da Colômbia, Juan Manuel Santos, e da Venezuela, Nicolás Maduro, acompanhados pelos mandatários do Equador e do Uruguai.

Recapitulemos: o Brasil ficou quietinho durante duas semanas, depois do fechamento pela Venezuela da fronteira com a Colômbia.

Um silêncio inexplicável para um país que tem todas as condições naturais para ser líder regional. Mais inexplicável ainda quando se considera que a situação, como é óbvio, prejudica a prioridade número 1 da diplomacia brasileira, que é a integração sul-americana. Preciso desenhar que o fechamento de fronteiras é o exato oposto de integração?

Por fim, o Brasil se mexeu, despachando seu chanceler para a Colômbia e a Venezuela, com a missão explícita —e correta, diga-se— de tentar promover um encontro entre os presidentes dos países em litígio.

Acabou esnobado, porque Colômbia e Venezuela não aceitaram o encontro de cúpula a não ser quando entraram no jogo o Equador, presidente de turno da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe), e o Uruguai, que preside no momento a Unasul (União de Nações Sul-Americana).

Foi só então que Santos e Maduro aceitaram encontrar-se para tentar resolver o tremendo imbróglio.

O Brasil foi, pois, tratado como anão, por mais que, no Itamaraty, se alegue que o importante é que mais países tenham entrado em ação para promover a reunião.

É razoável supor que o papel secundário a que o país foi reduzido se deva à crise interna. A presidente Dilma Rousseff, que nunca teve lá muito interesse por política externa, está ocupada demais em tentar preservar o emprego.

Pena. A diplomacia brasileira acaba afastada de “um problema muito sério, que pode destruir a ilusão de que a região pode resolver suas disputas sem usar outros meios que não seja a diplomacia”, como escreve Javier Ciurlizza, diretor para América Latina do International Crisis Group.

Conclui Ciurlizza, também acertadamente: “Desafortunadamente, tocou-nos um tempo de lideranças escassas na América Latina”.

É uma outra maneira de falar em “anão diplomático”, embora não se refira apenas ou especificamente ao Brasil.

O pior é que o conflito do qual a diplomacia brasileira foi inteiramente marginalizada ocorre em países que têm, ambos, fronteiras também com o Brasil —e problemáticas.

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