terça-feira, setembro 15, 2015

Argentina, Venezuela e Equador são os parceiros mais complicados

Eliane Oliveira
O Globo

Em pesquisa da CNI, exportador se queixa de logística ruim e burocracia excessiva

Paulo Fridman/Bloomberg News/27-7-2015
 Fábrica da Ford na Bahia: 
setor automotivo aposta em acordos com Uruguai e Colômbia 

BRASÍLIA - Com sérias dificuldades econômicas e em meio a crises político-institucionais, Argentina, Venezuela e Equador são os países mais problemáticos para se fazer negócios na América do Sul, na opinião de empresários brasileiros de médio e grande porte que exportam para a região. Os parceiros comerciais menos reclamados são Uruguai, Paraguai e Bolívia. Os dados fazem parte de um estudo inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI), repassado ao GLOBO com exclusividade.

A forte concorrência de países de fora, como China, União Europeia (UE), entre outros; o excesso de burocracia; as barreiras não tarifárias; e os problemas de transporte e logística estão entre os principais obstáculos citados pelos 150 médios e grandes empresários de 20 setores, entre os quais, automotivo, de alimentos, de máquinas e equipamentos, de químicos, de metalurgia e têxteis. São pedras no caminho que causaram perdas até agora irreparáveis ao comércio do Brasil com a região.

— A Argentina, principal destino das nossas exportações, tem sistematicamente nos imposto barreiras tarifárias e cotas totalmente inadequadas e inaceitáveis em uma zona de livre comércio como o Mercosul. Do outro lado, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Peru têm se mostrado parceiros cada vez mais significativos para o Brasil, com um ambiente de negócios favorável e pouco burocrático, inclusive para investimentos bilaterais. E com a Colômbia também há uma grande oportunidade de negócios. Precisamos acelerar o processo de nosso acordo comercial — disse o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Rafael Cervone.

EXPORTAÇÕES ESTAGNADAS
As exportações brasileiras para a América do Sul estão estagnadas desde 2011. Em 2014, o saldo comercial com a região, de US$ 6,9 bilhões, foi o menor dos últimos dez anos. As vendas de bens industrializados aos mercados sul-americanos estão abaixo do nível pré-crise, de 2008. Com a perda de competitividade brasileira, outros países estão aumentando sua presença, com destaque para os europeus e a China.

O economista Fabrizio Panzini, um dos autores do estudo da CNI, denominado “Interesses da Indústria na América do Sul", explicou que as duas modalidades de barreiras não tarifárias mais mencionadas pelos exportadores brasileiros foram inspeção sanitária e requisitos técnicos, largamente adotados por Argentina e Venezuela. Outro problema com esses dois países e com o Equador é a instabilidade da situação cambial, o que afeta diretamente o fluxo de comércio na região.

Chile, Colômbia e Peru precisam ser conquistados pela promoção comercial. Com colombianos e peruanos, especificamente, o Brasil também trabalha pela redução das tarifas de importação.

— Colômbia, Chile e Peru fazem parte da Aliança do Pacífico, que é o grande foco da indústria brasileira na América do Sul — disse o economista, acrescentando que, enquanto esses países estão fechando acordos comerciais com diversos mercados, como União Europeia, Estados Unidos e China, o Mercosul vai ficando de fora.

Para o presidente da Associação Nacional dos Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, a exportação é um caminho fundamental para que as empresas do setor possam sobreviver. Sobre a necessidade de acordos bilaterais para aumentar o intercâmbio de veículos e autopeças, Moan brincou:

— Estou virando caixeiro-viajante, para acelerar os acordos. Já fechamos um acordo com o Uruguai recentemente e, dentro de duas semanas, esperamos chegar a um entendimento com a Colômbia — ressaltou o presidente da Anfavea.

RECESSÃO DE 7% NA VENEZUELA
Um setor que pode servir de exemplo positivo nessa empreitada é o químico, que já tem o comércio liberalizado com todos os países da região. É o que afirma a diretora de assuntos de comércio exterior da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Denise Naranjo.

— A América do Sul é o principal destino de nossas exportações. Estamos longe de ter esse problema.

Junto com o Brasil, Argentina e Venezuela são os únicos, entre os vizinhos sul-americanos, que terão retração em suas economias este ano. No caso dos venezuelanos, a baixa atingirá 7%, conforme projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para a Argentina, o FMI prevê uma queda de 0,3% no PIB.

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