domingo, setembro 13, 2015

Crise até na comida

Lucas Moretzsohn
O Globo

Indústria recua 1,5% em julho, puxada por tombo de 6,2% na produção de alimentos

Agência O Globo / Mônica Imbuzeiro 
Na casa de Maria Fernanda Azevedo, em nome da economia, 
família busca os produtos mais baratos 

RIO - A crise atingiu produtos essenciais. A indústria de alimentos cortou a produção em 6,2% em julho, contribuindo para a produção industrial despencar 1,5% frente a junho, o maior corte desde dezembro do ano passado. A fabricação de açúcar, carne, suco de laranja, chocolate, biscoitos e leite em pó diminuiu e fez a queda na indústria ser bem superior às estimativas médias, que eram de recuo de 0,1%. Foi o pior mês de julho desde 2013, quando o tombo chegou a 3,6%.

— O consumo doméstico lento por causa do aumento da taxa do desemprego, renda menor e aumento do nível de preços afetam claramente o consumo das famílias. Além, é claro, do crédito mais caro, mais restrito e mais seletivo na concessão, que traz um fator adicional para justificar esse menor ritmo da produção industrial — afirmou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

A indústria alimentícia também reduziu produção frente a julho do ano passado. O recuo de 7,2% responde à redução do volume de vendas nos hipermercados, que estão sofrendo com o desemprego em alta e a corrosão de salários pela inflação. Segundo Leonardo Carvalho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os estoques estão elevados diante da queda nas vendas no varejo:

— Não há como a produção do setor ficar imune à recessão que estamos vivendo.

Os resultados negativos se disseminaram na indústria. Segundo Macedo, a indústria está produzindo 14,1% menos do que em junho de 2013, o ponto mais alto da produção, e o mesmo que maio de 2009, quando o país estava em recessão causada pela crise financeira global:

— Mantemos um comportamento negativo, já há algum tempo. Nos últimos 11 meses, há uma frequência maior de resultados negativos: foram oito quedas. De setembro para cá, há uma perda acumulada de 8,5%. De tal forma que o saldo negativo é importante.

Neste cenário, eliminar ou substituir itens básicos é uma forma de driblar os preços altos e a crise. A dona de casa Maria Fernanda Azevedo diz que os “preços exorbitantes” fizeram com que ela e o marido cortassem gastos para pagar as contas.

— A gente come tudo que é mais barato, o que estiver em promoção no mercado. Às vezes, faltou carne, frango, peixe. Então a gente come só legume com arroz. Não tem problema nenhum, mas está afetando muito. Está difícil — conta.

CRESCE PRODUÇÃO DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS
Setores que apresentavam resultados negativos seguidos se recuperaram em julho. A produção de máquinas e equipamentos, recuava há cinco meses seguidos, com perda acumulada de 11,9%, e teve alta de 6,5% frente a junho. Equipamentos de informática e produtos eletrônicos (3,2%) e veículos automotores (1,4%) também subiram em julho. Especialistas afirmam, no entanto, que o crescimento não é uma tendência no futuro próximo.

— É um aumento pontual, pode ter tido faturamento de uma máquina grande. O ideal é comparar um período mais longo. Bens de capital (que indicam o investimento para aumentar a capacidade da economia) tiveram queda de 27,8% na comparação com julho de 2014. No acumulado do ano, queda de 20,9%. Isso é absurdo — explica José Velloso, presidente-executivo da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). — Para o próximo mês, a expectativa é de queda. Esperamos que a produção recue entre 7% e 10% este ano.

Segundo Marcelo de Ávila, gerente de Estudos Econômicos da Firjan, o aumento de 6,5% na produção de máquinas e equipamentos não foi suficiente para compensar o recuo de 7% em junho:

— Essa alta não garante que os investimentos vão continuar a crescer. A confiança dos empresários da indústria continua caindo mês a mês. Não há nenhum componente de demanda que faça com que haja mudança no investimento. Eles vão continuar caindo.

De acordo com Fabio Silveira, diretor de Pesquisas Econômicas da GO Associados, esse crescimento é pontual. O economista acredita que houve reposição de estoque. Quanto aos veículos automotores, ele afirma que a desvalorização cambial torna o produto mais competitivo lá fora:

— A desvalorização de 50% do dólar em aproximadamente um ano aumentou a competitividade dos veículos automotores. Mas não podemos alimentar muita esperança de que as exportações vão crescer muito, porque concorremos com carros chineses. Acho que as exportações vão melhorar, mas de forma modesta.

Segundo Silveira, a recuperação da indústria vai ser um processo lento, gradual. É preciso recuperar os clientes perdidos nos últimos anos e achar novos:

— É uma tarefa desafiadora.

Entre as categorias da indústria, bens de consumo não duráveis — que engloba alimentos e vestuário — tiveram a redução mais acentuada (-3,4%), eliminando a expansão de 3,1% acumulada em maio e junho. Bens de capital (máquinas e equipamentos) e bens intermediários (insumos para indústria) caíram 1,9% e 2,1%, respectivamente, o que representa para ambos o sexto mês seguido de queda e acúmulo de perda de 17,7% e 4,4% respectivamente. Apenas bens de consumo durável (carros e eletrodomésticos) tiveram resultado positivo no mês (9,6%), após acumular perda de 25,2% entre outubro de 2014 e junho de 2015.

Na comparação com julho de 2014, o recuo da produção foi de 8,9%, em queda há quase um ano e meio. Em 2015, até julho, a atividade já acumula perda de 6,6%, e, nos últimos doze meses, a contração chega a 5,3%.

Colaborou Aline Macedo, estagiária sob supervisão de Cássia Almeida

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