domingo, setembro 13, 2015

Destruição de riqueza

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Muita gente do governo comemorou, ainda que discretamente, o resultado dos mercados financeiros no dia seguinte ao rebaixamento do Brasil pela Standard & Poor’s (S&P). “Não foi o pânico que esperávamos e temíamos”, disse um ministro, certo de que os investidores entenderam que a presidente Dilma Rousseff está disposta a agir para evitar o pior. “Passamos bem pelo dia mais difícil”, emendou.

Tal visão só reforça o quanto esse governo não tem noção da realidade — ou finge não ter. A reação do mercado financeiro é a parte mais imediata, e menos importante, do estrago provocado pela perda do grau de investimento. O que realmente importa é a economia real, e esta pagará caro pelas mazelas que Dilma impôs ao país. Sem o selo de bom pagador, as incertezas se acentuaram. Todas as projeções de indicadores que interferem no dia a dia das pessoas pioraram – e muito.

Os especialistas estão certos de que a recessão vai se agravar. O Itaú Unibanco aumentou a previsão de queda do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano de 2,3% para 2,8%. Em 2016, em vez de 1%, o tombo será de 1,2%. No caso da inflação, o banco projeta taxa de 9,5% (era de 9,3%) em 2015 e de 6,5% (ante 5,8%) no ano que vem. A combinação perversa de retração econômica com inflação em alta levará o desemprego às alturas, assim como a dificuldade dos trabalhadores de honrarem dívidas.

“Não há dúvidas de que as coisas vão piorar muito”, ressalta João Pedro Ribeiro, analista da Nomura Securities. Com os dois anos seguidos de contração do PIB, o tamanho da economia brasileira retornará aos níveis de 2012. A renda dos trabalhadores recuará ainda mais, devido à arrancada da inflação e ao aumento do desemprego, e deverá se situar nos patamares de 2010, último ano da era Lula — ou seja, serão cinco anos perdidos.

Essas projeções explicitam como Dilma se especializou em destruir riquezas e sonhos. Quando ela foi reeleita, sobretudo pelos mais pobres, acreditou-se que preservaria conquistas importantes: planos de saúde, escola particular para os filhos, cursos de língua e viagens de férias, inclusive para o exterior. Numa economia deprimida, contudo, são esses ganhos os primeiros a serem limados pela população.

“O quadro é tão complicado, que o movimento nas emergências dos hospitais caiu 30%, em média, desde o início do ano”, diz um diretor de uma das principais redes de hospitais do Distrito Federal. “E não foi porque as pessoas estão com saúde melhor. Elas perderam o plano de saúde, seja porque ficaram desempregadas, seja porque não conseguiram mais pagar as mensalidades”, acrescenta.

Fim de linha
As perdas contabilizadas pela população tendem a ampliar a insatisfação em relação ao governo. É por isso que muitos analistas não acreditam na permanência de Dilma no Palácio do Planalto por muito mais tempo. Não há, no entender deles, como um presidente se sustentar no cargo com a economia à beira de um colapso e uma crise política que inviabiliza qualquer ação do Executivo para aprovar um ajuste fiscal consistente que possa reverter o estrago provocado pelo rebaixamento do país.

A falta de confiança em Dilma é tamanha, que as estimativas para as contas públicas pioram dia após dia. O governo enviou ao Congresso o projeto de Orçamento de 2016 com previsão de rombo de R$ 30,5 bilhões, o equivalente a 0,34% do PIB. Os especialistas garantem, contudo, que o buraco será maior, de ao menos 1% do PIB, o que reforça a tese de que a presidente não terá forças políticas nem para cortar gastos nem para aprovar aumento de impostos.

“Não vemos coordenação no governo para levar um ajuste fiscal adiante”, afirma Ribeiro, da Nomura Securities. Por enquanto, ele não acredita em impeachment nem em renúncia de Dilma, mas o encurtamento de mandato da petista está em todos os cenários traçados pelos investidores e começa a ganhar relevância, ante a inação do Palácio do Planalto, que se apegou a discursos e promessas em vez de agir com convicção para mostrar que o país não está à deriva.

“Não vejo um acerto aparente entre o PMDB e o PSDB para levar adiante o processo de afastamento da presidente”, diz Ribeiro. “Trata-se de um processo arriscado. Temos que ver se o PMDB quer ser vidraça num quadro político conturbado, com uma Operação Lava-Jato a pleno vapor. Não é só: como reagirá o governo diante de um movimento para derrubá-lo? Certamente, correrá mais à esquerda, jogando o ajuste fiscal para o alto”, complementa.

Diante de tudo o que se está vendo, é melhor a população se ajoelhar e rezar. Se uma coisa está certa no Brasil das incertezas é que a fatura vai ser pesada para todos. De uma forma ou de outra, todos terão de dar sua cota de sacrifício: perdendo o emprego, dando calote em lojas e bancos, tirando produtos básicos do carrinho do supermercado, adiando sonhos e, claro, pagando mais impostos, pois, como diz o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, estará se fazendo um investimento, dando uma mãozinha a um governo perdulário e irresponsável, que jogou o país no atoleiro.

Fio de esperança
» Joaquim Levy sabe que se tornou o único fio de esperança do governo para evitar a derrocada geral da administração Dilma Rousseff. Acredita que, enfim, vão fazer o que sempre defendeu: um ajuste fiscal consistente. O risco de se decepcionar novamente é enorme.

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