domingo, setembro 27, 2015

MP avança nas investigações sobre o PMDB no petrolão

Thiago Bronzatto
Revista ÉPOCA

Forte nas negociações para ganhar mais ministérios do desesperado governo Dilma, o PMDB é refém de delatores que o envolvem cada vez mais no esquema

(Foto: Paulo Whitaker/Reuters)
 SEGREDOS
Os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha. 
Delatores relatam a influência deles nos negócios da Petrobras 

Ao preparar a decolagem dos gramados do Alvorada na noite de quinta-feira, dia 24, o helicóptero que levaria a presidente Dilma Rousseff à base aérea de Brasília produziu uma labareda na traseira. Dilma só soube do fato na manhã seguinte, já em Nova York, aonde chegara para participar da Assembleia-Geral da ONU. Seu comentário sobre o fato serve para o momento político: “Ninguém viu. Ninguém percebeu”, disse. Operando sem os instrumentos que um presidente deve ter e envolvida no varejo das negociações, onde um presidente não deve estar, Dilma não tem a dimensão da encrenca de negociar com o PMDB em posição desfavorável. Dilma ofereceu ao partido ao menos cinco ministérios, inclusive o da Saúde. Apesar disso, líderes do PMDB coreografavam a saída do governo. O PMDB tem as cartas na mão.

Um pouco abaixo da superfície, no entanto, as coisas são mais complexas. O PMDB está à beira de um precipício, que pode desestabilizar as negociações. Relatos novos de delatores presos pela Operação Lava Jato, mais especificamente o lobista Fernando Soares, o Baiano, e o ex-diretor da área Internacional da estatal Nestor Cerveró, obtidos por ÉPOCA, montam um cenário conturbado para a cúpula do PMDB – em particular, o presidente do Senado, Renan Calheiros, e os senadores Edison Lobão, Valdir Raupp e Jader Barbalho. A combustão está no ar.

Entre 2006 e 2007 foram fechados dois contratos com o estaleiro coreano Samsung Heavy Industries para a construção de navios-sonda para a exploração de petróleo em águas profundas. Negócios assim, sabe-se hoje, não saíam sem propina. O esquema de pagamentos foi acertado por Cerveró, diretor da área de Internacional, e Luis Carlos Moreira da Silva, gerente da estatal, de um lado, e por Fernando Baiano, operador do PMDB, e o lobista Julio Camargo, representante da Samsung, do outro. O negócio de US$ 1,2 bilhão rendeu US$ 40 milhões em comissão aos envolvidos.

O dinheiro foi passado das contas bancárias de empresas de Camargo sediadas no exterior para as de Baiano. A força-tarefa que investiga a Lava Jato descobriu que Baiano repassava o dinheiro para as contas de outro operador, Jorge Luz. Mentor de Baiano, Luz atua nas entranhas da Petrobras desde os anos 1980. Luz recebia de Baiano e pagava aos senadores Renan Calheiros e Jader Barbalho. Os delatores estimam que os dois senadores tenham recebido cerca de US$ 6 milhões. Aos investigadores, Baiano defendeu a tese de que não realizava pagamentos de propinas diretamente para políticos. Sempre havia um intermediário.

Em sua proposta de colaboração enviada ao Ministério Público Federal, Cerveró relatou uma interferência do senador Edison Lobão nos negócios da BR Distribuidora. Em 2010, Lobão, então ministro de Minas e Energia, perguntou a Cerveró quem era Fernando Matos, que se opunha a um investimento do fundo de pensão Petros, dos funcionários da Petrobras, no banco BVA. A ordem de Lobão, segundo Cerveró, era facilitar o investimento. A Petros investiu R$ 734 milhões em papéis do BVA, que quebrou em 2012. Cerveró também diz que o senador Valdir Raupp indicava as empresas de informática contratadas pela BR, por meio do afilhado Nelson Cardoso. Em 2012, Raupp recorreu a Lobão para evitar a demissão de Cardoso. A delação de Cerveró ainda não foi fechada como a de Baiano, mas está em estágio avançado, decidindo os termos dos benefícios da colaboração.

Na semana passada, a Polícia Federal prendeu o lobista João Augusto Henriques, outro operador do PMDB na Petrobras. Em 2013, João Augusto revelou a ÉPOCA a extensão da influência do PMDB e do PT em negócios da Petrobras. “João Augusto Henriques disse que conseguiu emplacar Jorge Luiz Zelada para diretor Internacional da Petrobras com o apoio do PMDB de Minas Gerais, mas quem dava a palavra final era o deputado Eduardo Cunha”, disse em depoimento Eduardo Vaz Musa, ex-gerente da área Internacional da Petrobras e um dos delatores da Lava Jato. João Augusto e Zelada atuaram no aluguel do navio-sonda Titanium Explorer, da empresa Vantage, por US$ 1,6 bilhão. A ÉPOCA, João Augusto disse que o negócio rendeu US$ 10 milhões em propinas para o PMDB. Se João Augusto decidir colaborar, a barra do PMDB pesará mais ainda.

O advogado de Fernando Baiano, Sérgio Riera, disse que não se manifestaria, porque a delação de seu cliente está sob sigilo. O criminalista Edson Ribeiro, que defende Cerveró, afirma que o ex-diretor da Petrobras não fará delação premiada. O senador Renan Calheiros reitera que suas relações com dirigentes de empresas públicas nunca ultrapassaram os limites institucionais. O senador Valdir Raupp diz que não indicou ninguém para a área de informática da BR Distribuidora. “Nunca pedi nada ao ministro Lobão”, diz. O senador Jader Barbalho nega ter recebido propinas de contratos na Petrobras. “Nunca nem ouvi falar (sobre  navios-sondas)”, diz. O advogado do senador Edison Lobão, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, disse que desconhece o caso. “Temos trabalhado, de uma forma técnica, para demonstrar a fragilidade das delações.” O advogado Antonio Fernando de Souza, que defende Eduardo Cunha, afirma que “não há nenhum elemento probatório que vincule o parlamentar a esses fatos”. 

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