domingo, setembro 13, 2015

Queda esperada

Alvaro Gribel
O Globo

A perda do grau de investimento era questão de tempo diante de um quadro de déficit nas contas públicas, inflação, recessão e incerteza política. O que surpreendeu foram a rapidez e a sinalização negativa. Ou seja, um novo corte pode acontecer pela S&P. O Brasil ainda é considerado seguro para investimentos por outras duas agências, mas, de novo, também parece questão de tempo. Ambas rebaixaram o país recentemente.

O selo de bom pagador é fundamental para qualquer país que queira captar no mercado internacional. Perdê-lo por uma agência do tamanho da S&P é muito ruim. Grandes investidores mundiais e fundos de pensão têm em seus estatutos a determinação de que só podem investir em países que são grau de investimento por pelo menos duas das grandes agências. E isso o Brasil ainda tem, pela Moody's e a Fitch. O esforço agora é para evitar que as duas sigam o caminho da S&P.

Os sinais do governo nos últimos meses foram os piores possíveis. Em menos de seis semanas, houve duas reduções da meta fiscal. Com o envio do Orçamento deficitário para 2016, o país terá três anos consecutivos de déficit primário, ressaltou a S&P. Ou seja, fechará no vermelho mesmo sem considerar os gastos com juros. Quando eles entram na conta, o déficit nominal já passa de 8% do PIB.

Um grande temor dos economistas é o que vai acontecer com os títulos do governo. Cerca de 15% do total está nas mãos de estrangeiros, e isso pode significar um forte movimento de venda nos próximos dias. Esta semana mesmo o nosso risco-país subiu acima do governo da Rússia.

Parte da perda do grau de investimento já está precificada, como dizem os economistas, e isso fica claro na forte alta do dólar dos últimos meses, que foi muito mais intensa do que outras moedas pelo mundo. Mas ainda há as reações de última hora que podem provocar volatilidade.

O gráfico abaixo mostra como o mercado financeiro foi perdendo a esperança no ajuste fiscal. Em 2013, apostava em um superávit primário em torno de 2,5% do PIB em 2016. Em janeiro deste ano, ainda acreditava que viria um número próximo de 2%. Diante da briga interna dentro do governo pela condução da política econômica e das reduções das metas, a expectativa desabou para 0,24%. Agora todo mundo já sabe que será déficit.



Fala de Dilma vem tarde demais
Um economista do mercado financeiro chamou atenção para a declaração da presidente Dilma Rousseff ao ValorPro, na noite de ontem, dizendo que a meta de superávit do ano que vem continuava 0,7% do PIB. Ficou a impressão de que ela havia sido avisada pela S&P e tentava um remendo de última hora. Já era tarde demais. Minutos depois, a agência comunicava o rebaixamento do país.

Lamento e esperança
Apesar do tom de lamento, economistas brasileiros ouvidos pela coluna disseram que a decisão da S&P foi coerente diante do agravamento do quadro econômico e político do país. A esperança é que o governo se empenhe de vez no ajuste fiscal, com fortalecimento do ministro Joaquim Levy, para evitar novas quedas pela Moody’s e pela Fitch.

ALERTA VEIO ANTES. 
As agências de risco têm um histórico de erros, e isso ficou claro na crise americana. Mas, no caso brasileiro, elas têm avisado com antecedência sobre os riscos.

INFLUÊNCIA MANTIDA. 
Além disso, gostando delas ou não, as notas sobre governos e empresas são consideradas pelos investidores institucionais de todo o mundo.

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