sexta-feira, setembro 11, 2015

Questão de escolha

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Ou o governo continua em sua postura arrogante ou enfrenta o problema com coragem e trata de recuperar os fundamentos da economia

O governo Dilma pode reagir de duas maneiras à perda do grau de investimento pela Standard & Poor’s (S&P).

Ou continua em sua postura arrogante, de que esse rebaixamento pouco ou nada muda, e segue no seu ajuste meia-boca em direção à disparada da dívida pública e daí para o que Deus quiser; ou enfrenta o problema com coragem, derruba as despesas, aciona as reformas e trata de recuperar os fundamentos da economia, mesmo que os efeitos colaterais temporários sejam recessão e desemprego.




Nesta quinta-feira o ex-presidente Lula deixou a entender que, a depender dele, escolhe a primeira opção. Disse, em Buenos Aires, que o rebaixamento do Brasil “não significa nada; significa apenas que a gente não pode fazer o que eles querem; a gente tem de fazer o que a gente quer”.

Curiosa essa declaração. Em abril de 2008, quando a S&P concedeu o grau de investimento ao Brasil, o então presidente Lula festejou com foguetório verbal a “grande conquista do povo brasileiro”. Não disse que esse certificado de bom pagador não significava nada. 

Agora assistimos a uma administração caótica, destituída de visão de prioridades, que transmite sinais contraditórios sobre o que pretende.

A presidente Dilma ouve do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a recomendação de que deve aprofundar o ajuste e comprometer-se com a obtenção de um forte superávit primário (sobra de arrecadação para amortizar a dívida - veja o gráfico). Mas parece mais inclinada a aceitar a argumentação do seu ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que prega dobrar a aposta de sua política anticíclica, que deixe correr as despesas públicas, derrube os juros e obtenha certo crescimento econômico, mesmo que à custa de maior desarrumação da economia, da inflação e da dívida pública.

Como está no comunicado divulgado pela S&P, “os desafios políticos seguem aumentando”. Entre esses desafios está até mesmo a sustentação da presidente Dilma no cargo, como já se discute até dentro do PT.

O principal problema não é a desintegração da economia em si mesma, mas o desarranjo político interno que impede a adoção rápida da terapêutica adequada para o conserto dos estragos.

Ninguém se entende, a presidente Dilma não sabe o que quer. E essa conversa de que está cada vez mais confucionista, “que prefere o caminho do meio”, como está na entrevista publicada quinta-feira no jornal Valor, mostra que não quer escolher, que prefere a equidistância, mesmo sabendo que no meio de duas montanhas há um precipício.

Como a própria presidente já reconheceu, só entendeu tarde demais a gravidade dos problemas econômicos. Agora, parece não ter se dado conta de que a melhor maneira de “fazer o que a gente quer”, como disse Lula, ou de praticar as políticas sociais do programa de governo é garantir primeiramente o equilíbrio das contas públicas. 

Enfim, se o principal problema é político, é preciso saber se, na condição de zumbi do Palácio do Planalto, a presidente Dilma está apta a liderar a recuperação da economia. 

CONFIRA:



A inflação de agosto surpreendeu: 0,22%. Falta saber se a moderação é consistente ou é apenas ponto fora da curva, como dizem os estatísticos.

Ai, ai, ai, Petrobrás
A perda do grau de investimento da Petrobrás, comunicada nesta quinta-feira pela S&P, já era fava contada. No entanto, mesmo previsível, a situação não elimina os novos problemas que terá de enfrentar. O custo do financiamento subirá, a dívida, já quase impagável, aumentará ainda mais. Parece inevitável também que nessas condições, a Petrobrás perca parceiros em alguns dos seus negócios.

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