terça-feira, setembro 15, 2015

Retração econômica e rebaixamento do Brasil afetam vizinhos na América Latina

Marcello Corrêa 
O Globo

Segundo dados da Cepal, Argentina, Paraguai e Bolívia são os países mais vulneráveis à crise brasileira 

RIO - O agravamento da crise econômica brasileira já começa a ultrapassar as fronteiras e afetar os países vizinhos da América Latina. Até agora, esses efeitos eram restritos aos parceiros comerciais mais próximos do Brasil. Porém, a retirada do selo de bom pagador do país, após o rebaixamento pela agência Standard & Poor’s (S&P), pode estender as consequências da crise brasileira para outras economias da região, já abaladas pela desaceleração global, o freio no crescimento chinês e a queda no preço das principais commodities exportadas pela América Latina. A região deve crescer apenas 0,5% este ano, no pior desempenho desde a crise global de 2009.

Segundo dados compilados pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), a Argentina é o país mais vulnerável à crise brasileira. De tudo que exporta, 20,8% têm como destino o Brasil. Integrante do Mercosul, o Paraguai também vende muito para compradores brasileiros — 30,8% do total. Já a Bolívia, que vende gás para o país, tem 29,7% de sua pauta de exportações ligada à economia brasileira.

— A Argentina é a mais afetada, porque o Brasil aumentou seu saldo comercial com esse país no primeiro semestre e porque nossa integração intra-industrial (intercâmbio de produto numa mesma indústria) é maior lá. As exportações da Bolívia para o Brasil caíram em valor, devido à queda do preço do gás no mercado internacional, mas em quantidade houve aumento de exportações de gás boliviano ao Brasil — afirma Antonio Prado, secretário executivo adjunto da Cepal.

PIB DA REGIÃO TERÁ PIOR RESULTADO DESDE 2009
A entidade estima que a América Latina crescerá só 0,5% neste ano. O número modesto é influenciado por uma previsão de retração de 1,5% do PIB brasileiro — mais otimista do que a média das projeções dos analistas do mercado, que veem contração de 2,4%. Maior país da região, com um PIB de US$ 2,35 bilhões — quase o dobro do México, que terminou 2014 com US$ 1,28 bilhão, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) — o Brasil é determinante para as estatísticas da América Latina. Afinal, a economia brasileira responde por 40% do PIB da região.

Mas o efeito da contração brasileira não é distribuído igualmente por todos os países.

— O número não significa que o Brasil afete diretamente o crescimento de toda a América do Sul. Por um motivo simples: os países que têm exportações significativas para o Brasil são basicamente os do Mercosul. Os andinos (como Peru e Chile) têm poucas exportações para o país. A nossa integração comercial com eles é muito pequena. Para se ter uma ideia, o Brasil, nas exportações colombianas, tem um peso de 3%. Para o Equador tem peso de 0,5% — afirma.

Se são menos afetados pelas relações comerciais, países de fora do Mercosul correm risco de se contaminarem com o agravamento das incertezas causado pela deterioração dos indicadores brasileiros, que acabam dando o tom da economia regional. No início de setembro, o ministro da Economia do Peru, Alonso Segura, disse que a crise brasileira é mais um fator de risco para o país, que, assim como outros emergentes, sofre com a desaceleração da China e com a turbulência causada pela expectativa de elevação dos juros nos EUA.

— Há novos riscos que se somam a este horizonte de fontes externas, um deles é o desempenho da maior economia da região, que é nosso vizinho Brasil, que está em uma recessão que está se acentuando. Isso tem um impacto direto no Peru através de suas relações econômicas, mas também pelo efeito de incerteza que pode gerar na região — disse Segura, em discurso ao Congresso peruano no dia em que apresentou o projeto do Orçamento para 2016.

O efeito sobre a confiança de investidores deve ser o maior motivo de preocupação para economias como o Peru, segundo analistas. Para o economista Paulo Eduardo Nogueira Gomes, da AZ FuturaInvest, o risco é que os países vizinhos sejam julgados pelo desempenho do Brasil, a maior economia da América Latina.

— O que vai determinar é se a percepção de risco é maior e a avaliação se a região está indo ou não para o caminho certo — afirma.

RISCO DE INVESTIDOR PÔR TODOS NO MESMO SACO
A economista Lia Valls, da Fundação Getulio Vargas (FGV), destaca que sempre se considera o risco de que investidores coloquem “todos no mesmo saco” na hora de tomar decisões, embora lembre que, quando a Argentina anunciou o calote de sua dívida externa em 2001, pouco foi sentido fora de Buenos Aires.

— É mais uma questão sobre como fica a imagem da América Latina. Na década de 1990, quando teve a crise no México, esses fundos agiram olhando mercados regionais. Não sei até que ponto hoje eles distinguem ou colocam todo mundo no mesmo saco — diz a especialista.

O economista Alberto Ramos, que acompanha América Latina pelo banco Goldman Sachs, descarta um efeito manada dos fundos. Para ele, o mercado tem capacidade de distinguir cenários distintos nos países. O Chile, por exemplo, tem nota AA- pela S&P, considerado grau de investimento e sete degraus acima da nova nota brasileira, BB+.

— Quando a maior economia está passando um período difícil não é algo bom. Mas o investidor é sofisticado o suficiente para fazer diferenciação — afirma Ramos, que prevê retração de 0,4% do PIB da América Latina. — Há uma recessão que se aprofunda. Tem a Argentina também em recessão e com uma transição política complicada; a Venezuela com problemas institucionais gravíssimos; as pequenas economias andinas em desaceleração e o México que cresce menos. É um quadro não muito inspirador.

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