quinta-feira, outubro 15, 2015

De quem é a culpa pela crise?

Marcio Garcia (*)
Valor Econômico

Em relatório do FMI o Brasil é o que tem o pior desempenho. Num mundo que freia, o Brasil dá marcha-a-ré

Ainda que o descalabro econômico atual seja generalizado, o indicador mais doloroso é o desemprego, que já cresceu muito e, infelizmente, deve se elevar ainda mais. Como pôde a economia piorar tanto em tão pouco tempo?

O governo alega que foi a crise mundial que, de forma inesperada, causou a piora da nossa economia em 2015. Mas isso é uma falácia. Embora quase todos os países estejam crescendo menos do que no passado e do que se previa, o desempenho do PIB brasileiro é muito pior do que os demais. De todos os países que o FMI destaca em sua tabela principal sobre as perspectivas da economia mundial (World Economic Outlook, outubro de 2015, Tabela 1.1), o Brasil é o que tem o pior desempenho, só secundado pela Rússia, muito dependente de exportações de petróleo, cujo preço despencou, e que vem sendo afetada pelas sanções econômicas impostas em decorrência de sua interferência na Ucrânia. Num mundo que freia, o Brasil dá marcha-a-ré.

A principal razão do desempenho excepcionalmente ruim da economia brasileira está nas políticas econômicas praticadas pelos governos do PT desde a saída do ministro Antônio Palocci, em 2006. Como se sabe, o PT sempre comungou de uma cartilha econômica heterodoxa.

Quis a Providência que os economistas de grei heterodoxa não comandassem a equipe econômica que iniciou o primeiro governo do PT, em 2003. Provavelmente, o aprendizado de Lula com o Plano Real foi fundamental para que tivesse deixado os economistas do PT de fora do centro de sua primeira equipe econômica. Afinal, em 1994, quando Lula tentava sua segunda eleição presidencial, ele já havia botado à prova a competência de tais economistas.

Lula era franco favorito quando o Plano Real estava sendo lançado, em 1994. E os economistas do PT recomendaram que Lula se opusesse ao novo plano de estabilização, que, segundo eles, fracassaria como os anteriores. Como se sabe, o sucesso do Plano Real deu a Fernando Henrique Cardoso não só uma, mas duas vitórias, em 1994 e 1998, ambas em primeiro turno. Algo que Lula nunca conseguiu. Com tal demonstração de clarividência econômica pelos economistas do PT, nada mais natural que Lula tivesse recorrido ao dr. Palocci, arquiteto da "Carta ao Povo Brasileiro", para ministro da Fazenda.

Infelizmente, a Providência nos abandonou, ou quis que trilhássemos nossos próprios caminhos. Em 2006, Palocci foi substituído por Mantega, um genuíno representante do pensamento heterodoxo do PT. Pior ainda, após a crise de 2008, quando países avançados começaram a experimentar a adoção de políticas que eram nossas velhas conhecidas, Mantega e sua equipe receberam a "licença para matar" dos filmes de James Bond.

Nascia então a malfadada NME: Nova Matriz Econômica. Basicamente, tratava-se de um conjunto de políticas de estímulo à demanda agregada via gastos públicos, reajuste de salário mínimo, expansão de crédito subsidiado e baixa de juros, acoplada com intervenções microeconômicas ad hoc. Apesar de toda a bonança proporcionada pelo boom dos preços das commodities, ainda foi necessário quebrar regras básicas das finanças públicas, com as "pedaladas fiscais". Nesse meio insalubre, vicejaram os vermes da corrupção.

Com o fracasso inconteste da NME, há hoje distintas reações dos economistas por elas responsáveis. Alguns, mais espertos, tentam recauchutar seus currículos, negando a paternidade da NME e tentando agora professar princípios de retidão fiscal e monetária, a favor dos quais nada fizeram quando no governo. Outros, xiitas da causa heterodoxa, tentam culpar a curta e atribulada tentativa de ajuste fiscal que ora vivemos pela recessão iniciada em meados de 2014 e agravada em 2015. Parecem não estar convencidos do óbvio e querem dobrar a aposta na terapêutica que já quase matou o doente.

É fundamental que seja atribuída a devida culpa a quem de direito, para que nem eles, nem sobretudo suas ideias canhestras sobre economia voltem a comandar a política econômica brasileira. Como dizia Bertrand Russel, há tantos erros novos a serem cometidos que não há por que repetir os antigos, sobretudo erros crassos tão penosos.

(*) Márcio G. P. Garcia, Ph.D. por Stanford, é professor do departamento de economia da PUC-Rio.

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