quinta-feira, outubro 15, 2015

Estamos longe de uma solução real para a indústria

Sérgio Vale (*)
O Estado de São Paulo

A indústria tem acumulado tantos recordes negativos que não caberiam todos nesse texto: desde fevereiro de 2014 não se vê expansão na comparação interanual; o pico de produção foi em junho de 2013 com queda acumulada nesse período do dado dessazonalizado de 15% e houve recorde de queda na produção de bens de capital de pouco mais de 33% no mês de agosto. Enfim, poderia continuar listando mais dados negativos que vão se tornando comuns a cada nova divulgação do IBGE. Há perspectiva de melhora? Por enquanto, não.

2016 continuará sendo ano de acumular quedas. O efeito cambial ajuda a mitigar um desastre maior em alguns setores, como em papel e celulose, mas choque cambial dessa magnitude não vem de forma isolada. Sua origem é um descontrole político que tira previsibilidade e aumenta os riscos de qualquer um que quiser produzir. Câmbio mais depreciado também significa mais custo, elemento muitas vezes esquecido, e que significa que o produtor terá de trocar o insumo importado, eventualmente mais barato e de melhor qualidade, por algum outro nacional não necessariamente de mesma qualidade e também caro. Além, claro, dos riscos inflacionários de um câmbio que fica muito tempo depreciado, o que parece que pode ser o caso dessa vez.

Assim, o que o câmbio pode ajudar de um lado, infelizmente ele se torna reflexo de um problema muito mais grave que é mascarado por esse câmbio elevado. Ao ajudar alguns setores durante o curto prazo não resolve seus problemas de competitividade.

O velho desejo heterodoxo de mais câmbio para resolver todos os problemas apenas disfarça o que necessariamente precisaria ser discutido. Como diminuir de forma relevante o custo tributário e trabalhista de toda a economia (não apenas da indústria)? Como aumentar o conteúdo tecnológico dos bens aqui produzidos?

Como convencer a sociedade e a indústria que abrir mais a economia para o mercado externo aumenta o bem-estar da sociedade e, no fim, aumenta o comércio exterior?

No momento, a indústria junta seus cacos e tenta sobreviver sem mercado doméstico e vendendo o que for possível para fora. Mas o que a fez diminuir ao longo de décadas permanecerá até que indústria, governo e sociedade resolvam discutir o que é relevante. 

(*)  Sérgio Vale é economista-chefe da MB Associados

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