quarta-feira, outubro 28, 2015

Legalização dos jogos de azar, aposta equivocada

Opinião
O Globo

Admita-se, por um exercício de divagação, que o Brasil liberasse os jogos de azar. Mais do que ingenuidade, seria um perigoso atestado de hipocrisia achar que a sólida estrutura montada pelos “capos”— para, do submundo da contravenção, controlar a jogatina — poderia ser contida nos limites da legalidade.

Liberados o bicho, as máquinas de azar e os cassinos, o que se veria de imediato seria o assalto dessas quadrilhas sobre o movimento de apostas, para preservar sua influência nessas atividades, agora com o beneplácito do Estado. A força dos reais donos do jogo no país é um poder que se mede pela circunstância de as “famílias” terem conseguido, por décadas, ampliar cada vez mais seus domínios, à sombra do formalismo de uma ilegalidade cujas ações não logram ser alcançadas pelos mecanismos de defesa das instituições.

Esse é o aspecto mais claramente deletério dos ensaios da legalização dos jogos de azar. Trata-se de movimento organizado — inclusive com forte lobby nos Poderes da República, principalmente no Legislativo. Volta e meia, tenta-se colocar essa carta na mesa.

Mês passado, por exemplo, no olho do furacão da crise que impõe a necessidade de um ajuste fiscal ao país, para fazer frente aos equívocos da política econômica do lulopetismo, o Planalto chegou a piscar positivamente para deputados da bancada do bicho que acenavam com a liberação do jogo como fonte de oxigenação do caixa do governo.

Aparentemente, a proposta não vingou, ao menos naquele momento, mas a liberação de roletas, cassinos e maquininhas nunca chega a ser definitivamente tirada da agenda do Legislativo. É certo que também desta vez isso não terá acontecido. 

Outro aspecto que desaconselha a legalização também diz respeito à atuação das quadrilhas de contraventores — esta, no entanto, com graves aspectos criminais. A crônica da atuação dos banqueiros de jogos de azar no Brasil, e particularmente no Rio de Janeiro, é marcada por uma série de episódios de extrema violência, que não poucas vezes resvalaram para homicídios. Para manter seus domínios, os “capos” não hesitam em limpar os caminhos pelos meios que lhes aprouver, dentro de um manual em que corrupção e lavagem de dinheiros também são indefectíveis verbetes .

A expansão desse poder forjado na violência consolidou-se, nos últimos anos, com a ligação de “banqueiros” com grupos mafiosos internacionais. É uma força que também funciona no sentido inverso: investigações da Polícia Federal mostram que grandes “capos” fluminenses globalizaram de tal forma suas atividades que lograram estendê-las para além das fronteiras do país, alcançando mercados no Uruguai, na Argentina e no Equador.

É ilusório, portanto, achar que a legalização do jogo no Brasil passaria ao largo dessa azeitada engrenagem. Essa é uma proposta que, longe de servir ao país, teria por resultado de fato não só consolidar, mas avalizar o poder de grandes quadrilhas.

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