segunda-feira, outubro 26, 2015

Modelo argentino não gera riqueza, diz analista de índice

Janaína Figueiredo
O Globo

Eduardo Donza defende que ainda existe déficit social importante no país

Maxie Amena / LA NACIÓN/GDA 
Cooperativas trabalham em 'villas' de Buenos Aires 

BUENOS AIRES - O modelo econômico kirchnerista não está, há pelo menos cinco anos, gerando riqueza que possa ser redistribuída na sociedade. Essa é a opinião de Eduardo Donza, pesquisador do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA) — que mede o índice de pobreza considerado mais confiável no país. Para o especialista, ainda existe um déficit social importante, que deveria ser prioridade do próximo governo.

Quando começaram as medições de pobreza?
Na crise de 2002, mas nosso objetivo é estudar algo muito mais amplo, como os problemas no mercado de trabalho, renda, saúde física e psicológica, condições materiais de vida, infância, vida dos idosos, narcotráfico e participação da cidadania. Somos um observatório social abrangente. Iniciamos nosso trabalho muito antes da intervenção no Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina) e das denúncias de manipulação das estatísticas públicas.

Qual é a principal diferença entre o indicador de pobreza da UCA e o do Indec?
O valor da cesta básica. Para nós, pobre é uma família de quatro pessoas que vive com menos de 5.700 pesos por mês (US$ 600). O Indec usa valores bem mais baixos e, por isso, a diferença. Nossa taxa é de 28,7% argentinos pobres hoje.

Subiu um pouco em relação ao ano passado...
Sim, não muito, mas subiu. Este modelo econômico não está gerando riqueza que se redistribua na sociedade. Melhoramos muito depois de 2002 (quando a pobreza superava 50%), mas essa melhora se interrompeu em 2009, sobretudo porque se esgotou um círculo econômico virtuoso. A inflação, que é escondida pelo governo, afetou a renda e a geração de postos de trabalho, e o cenário internacional ficou mais complicado. O aumento do consumo ajudou a criar empregos, mas chegamos a um teto. O que persiste é um setor informal da economia, cada vez maior, onde está quase a metade dos trabalhadores argentinos. Os que limpam os vidros dos carros nos sinais, os catadores de lixo...

O próximo governo vai receber uma situação social delicada?
Ainda existe um déficit social importante na Argentina. O sistema de saúde tem falhas, ainda é bom, comparado com a região, mas muito pior do que já chegamos a ter em outras épocas. A pobreza será um dos desafios do próximo governo.

Os programas sociais devem ser mantidos?
Sem dúvida, mas esses programas ajudam a sair da indigência, a cobrir necessidades básicas de alimentação. Não são suficientes para sair da pobreza. Para isso deve haver um mercado de trabalho de qualidade, uma produção ativa, novos investimentos. Os programas sociais ajudam 25% da população, são necessários, mas não suficientes.

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