quarta-feira, outubro 28, 2015

Novo delator detalha como administrava propina de Duque

Laryssa Borges
Veja online

João Antônio Bernardi fez acordo de delação premiada e afirmou que lavava parte da propina recebida em obras de arte e imóveis

 (Vagner Rosario/VEJA)
 João Antônio Bernardi Filho, ex-funcionário da Odebrecht 
e preso na Operação Lava-Jato, faz acordo de delação premiada 

O empresário João Antônio Bernardi, que fechou acordo de delação premiada na Operação Lava Jato, detalhou aos investigadores como atuava para administrar parte da propina recebida pelo ex-diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, e disse que ora aplicou os recursos em imóveis, ora em obras de arte.

Segundo ele, em 2009, Renato Duque o procurou pedindo que administrasse uma parcela da propina que ele, como dirigente da Petrobras, receberia no exterior. Convite aceito, Bernardi procurou o advogado José Reginaldo Filpi para abrir uma empresa offshore para poder embolsar o dinheiro de propina. Na triangulação, foram abertas a Hayley Sociedad Anonima, no Uruguai, e uma conta bancária em Genebra. Entre 2009 e 2010, a Hayley já tinha recebido cerca de 5 milhões de dólares.

Conforme Bernardi narrou, para lavar a propina, os valores foram aplicados em imóveis e, para evitar problemas com a Receita Federal brasileira, foi aberta uma filial da Hayley no Brasil. Em 2011, Duque aproveitou o boom imobiliário no Brasil para lavar a propina em imóveis - comprou 12, sendo nove diretamente na planta. Pelos serviços em favor de Renato Duque, foi acordado que Bernardi recebia 10.000 reais por mês. Ele próprio declarou no Imposto de Renda 110.000 reais recebidos.

Suíça – 
O delator disse também que o empresário Benjamin Sodré, que atuava em nome da empresa Confab, ofereceu propina a Duque para beneficiar a companhia em contratos de fornecimento de equipamentos para a Petrobras. Para o recebimento dos recursos, João Antonio Bernardi combinou que os pagamentos seriam feitos por meio da Hayley na Suíça. A propina envolvendo a Confab foi paga de 2009 a outubro de 2013, o que inclui, portanto, um período em que Duque já não estava mais na Petrobras. Os valores eram viabilizados por meio de contratos fictícios.

Em 2011, a Hayley foi utilizada para receber 1 milhão de dólares do lobista Julio Camargo, o mesmo delator que detalhou aos investigadores o pagamento de propina ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e ao ex-ministro José Dirceu. Por meio de um contrato falso de prestação de serviços entre a empresa Vigela e a Hayley, Camargo enviou o dinheiro em duas remessas.

A partir de 2012, para ter menos custos fixos na administração do dinheiro de propina, a Hayley passou a investir o dinheiro embolsado por Renato Duque em obras de arte. Ao todo, foram compradas 14 obras, incluindo a Ogiva, de Alfredo Volpi, por 399.000 reais, e um Grignard, avaliado em 1 milhão de dólares.

Acusações – 
Segundo o Ministério Público, entre janeiro e agosto de 2011, João Antonio Bernardi teria oferecido propina a Duque para favorecer a empresa multinacional italiana de equipamentos de perfuração Saipem, para quem trabalhava. O esquema envolvia a contratos de instalação de um gasoduto submarino de interligação dos campos de Lula e Cernambi.

No esquema que beneficiou a empresa, a Saipem apresentou, em agosto de 2011, propostas inviáveis para a obra, mas ainda assim saiu vencedora do certame depois de influência direta de Renato Duque. Mensagens de e-mail em poder dos investigadores da Lava Jato apontam para a relação próxima entre João Bernardi e Renato Duque. Além de o executivo ter visitado o então dirigente da Petrobras "dezenas de vezes" ao longo de 2011, uma conversa telefônica entre os dois mostra que Duque era tratado como "mestre" pelo executivo.

Renato Duque já foi condenado a 20 anos e oito meses por corrupção passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro no processo em que investigou desvios de recursos e pagamento de propina envolvendo quatro projetos da Petrobras - os gasodutos Urucu-Coari e Pilar-Ipojuca e as refinarias de Araucária (PR) e Paulínia (SP). Ele é réu em outro processo, o que apura o pagamento de propina para beneficiar a empresa Saipem, e já tentou fechar com o MP um acordo de delação premiada.

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