segunda-feira, outubro 26, 2015

Os meninos e meninas que têm a infância interditada

Exame.com
Donminique Azevedo, Agência Pública

Donminique Azevedo/Agência Pública

Criança moradora da comunidade Barro Branco, na Bahia: rotina em meio aos deslizamentos de terra
Salvador – Na comunidade do Barro Branco – a menos de dez quilômetros do Pelourinho, um dos principais pontos turísticos da capital baiana – Gabriel*, 8 anos, chora desesperadamente. Chove muito. Ele mora em uma das cinco últimas casas habitáveis do local. 

Pouco mais de três quilômetros separam Gabriel de Jorge*, 10 anos. No cubículo de dois cômodos, também na periferia da cidade, Jorge, a mãe, o pai e as duas irmãs tentam, com vassoura, rodo e panos de chão, retirar a água que entra pela única fonte de ventilação da casa, a porta. 

A alternativa mais viável para tamanho esforço é furar novamente a parede do quarto/cozinha/banheiro que dá para os fundos. O volume de água que entra é desproporcionalmente maior do que aquele que sai pelo buraco feito.

A preocupação de Jorge e da família não reside apenas nas perdas dos poucos móveis, mas, principalmente, em saber que o barranco pode desmoronar a qualquer momento. A casa dele está a 60 metros de altura, na borda de uma pedreira desativada, em São Caetano.

Mais distante de Jorge e de Gabriel, do outro lado da cidade, em São Cristóvão, também região periférica, porém na parte norte de Salvador, para ir à escola, Ana Maria* aguarda a mãe voltar da primeira travessia. 

Paula*, a mãe, percorre, por entre as águas de chuva e de esgotos, 50 metros com Miguel* no pescoço. Deixa o garoto de 10 anos e recomenda que aguarde na esquina da rua para que ela volte para buscar Ana Maria, de 12 anos.

Basta chover mais forte para que condições semelhantes alterem a rotina de outros milhares de crianças que vivem em áreas com risco de deslizamento de terra, desabamento e alagamentos na capital baiana. 

Somente neste ano foram 21 mortes, sete delas eram crianças e adolescentes. Quase 8 mil famílias ficaram desabrigadas. Reza a Carta Magna que os direitos das crianças e dos adolescentes estão amparados pelo princípio da prioridade absoluta presente no artigo 227 da Constituição Cidadã de 1988. 

Consta que “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. 

No entanto, o cenário com que se depara é oposto à legislação maior do Brasil. Viver em lugares sem as mínimas condições de sobrevivência coloca a infância e a juventude em extrema situação de vulnerabilidade física, emocional e social.

Donminique Azevedo/Agência Pública


Dialogar com meninos e meninas imersos nesse universo de violações exige muito mais que bloquinho de anotações, roteiro de entrevista, gravador e uma máquina fotográfica. Já na primeira tentativa, encontro muita resistência, inclusive dos pais, para falarem sobre o assunto. 

“Mas você vai falar de chuva logo agora que ela está passando. Não desejo que minha filha fale sobre essas coisas”, escuto, por telefone, de uma mãe, moradora de umas das 600 áreas de risco de Salvador. Depois de muitas tentativas, consigo agendar com uma família. Volto ao Barro Branco, quatro meses após o deslizamento de terra que vitimou 11 pessoas. Todos os mortos estavam presentes na lista de convidados da festa de aniversário de Gabriel, aquele do início da reportagem. 

No portão, o garoto me recebe, com muita desconfiança. “Quem é essa, mamãe, é bombeiro?” A mãe esclarece que é uma jornalista e que veio conversar sobre algo importante. Recomeça a chover e Gabriel se encolhe na cadeira. Grita que está com medo. 

Da sala, a avó avisa que é apenas uma nuvem. Daí em diante, Gabriel passaria boa parte do tempo entre o portão da casa e a varanda, local onde entrevisto a mãe. 

“É assim que ele fica o tempo todo. Pergunta-me todo dia pelo pessoal que morreu e pelas casas também”, conta Luciana*, a mãe. No local do acidente, um vazio. Com o risco de novos acidentes, a prefeitura demoliu outras habitações. No chão, alguns pertences pessoais das vítimas, semicobertos pelo barro.

Enquanto lista, uma a uma, as tragédias que ocorreram no Barro Branco, Luciana oferece uma coxinha de frango a Gabriel. O garoto fala que perdeu a fome, volta ao portão e permanece em silêncio. 

A mãe continua: “Oxe, eu lembro de todos acidentes daqui. Já ouvi muitos gritos na madrugada de gente correndo porque a casa desabou ou porque o barro começou a descer. O povo só lembra das tragédias com vítimas fatais”.

A chuva dá uma trégua e o assunto agora é futebol. “O Barcelona joga hoje?”, pergunta-nos Gabriel, chutando uma garrafa PET. Ofereço lápis de cor e papel. Peço que desenhe a casa em dias de chuva. Resiste. Deixo os materiais sobre a mesa. 

Em minutos, lá estava ele com lápis de cor azul nas mãos. Faz apenas o nome completo no papel e me entrega, dizendo que terminou. Pergunto sobre a casa e ele responde que está pronta. “É isso, ele não superou ainda, quer dizer, ninguém supera. Vivemos dias de terror”, diz a mãe.

O horror citado por Luciana é narrado por seu vizinho em detalhes. Jeferson de Oliveira, 23, um dos primeiros a chegar ao local do acidente ocorrido três dias antes do aniversário de Gabriel. 

“A última cena que eu vi foi tudo em pé. Isso era cerca de umas 18h30 de domingo. Acordei cedo para ver como estava a rua, pois ia sair para trabalhar. Não enxerguei nada direito, estava tudo branco, chovia muito. Foi só o tempo de fechar a porta para ouvir um barulho bem forte, como se fossem uns ‘estralos’ de vidro quebrando. Quando voltei à porta, vi aquela água barrenta escorrendo perto da casa de minha mãe, que fica a três metros da minha. A casa do vizinho Sandro já estava no chão. Vi uma mão acenando mais adiante. Minha esposa e meu tio acharam que eu estava vendo alucinações.” 

Era a mão do vizinho Sandro pedindo ajuda para retirar dos escombros o filho Samuel Santos, de 12 anos, uma das 11 vítimas do deslizamento de terra daquele dia no Barro Branco.

Àquela altura, outros moradores se juntaram aos primeiros a chegar ao local. Mesmo sabendo dos riscos que a atitude apresentava, iniciaram o resgate aos soterrados. Sob a chuva intensa, o barranco continuava a descer. 

“Veio uma tempestade de chuva, desceu barro e soterrou Samuel. Ajudamos a retirar com vida a mãe dele, mas o menino não resistiu”, conta Jeferson. Era preciso continuar o trabalho sozinho. 

O Corpo de Bombeiros, mesmo avisado do ocorrido, demoraria a chegar devido aos problemas habituais em dias de chuva em Salvador: trânsito caótico – seguido de assaltos a motoristas presos nos congestionamentos –, esgotos transbordando, alagamentos em diversos pontos da cidade, protestos em vias públicas, árvores e muros caídos, deslizamentos de terra e desabamento de imóveis.

Os pedidos de socorro ecoavam abafados. “Quando retornamos para dentro do buraco, vi uma cena de horror. Um pedaço da laje estava sobre dona Magnólia. A amiga dela estava soterrada da barriga até a cabeça, e só as pernas para o ar. Minha pressão quase baixou. Para chegar até Carla, filha de dona Magnólia, teria que pisar sobre o corpo da mãe dela. Ao mesmo tempo, Robertinho também pedia que o tirasse dali. Ele estava esmagado entre dois pedaços de laje, uma grade, com um bocado de barro e panelas por cima. Eu e Edmilson, nosso vizinho, conseguimos tirar Carla. Ele não aguentou porque a cena foi bem forte e ficou sem condições de continuar. Já com a ajuda dos bombeiros, conseguimos tirar Robertinho com vida, mas ele não resistiu. Isso me tocou muito. Eu tinha visto a mãe de Robertinho grávida dele”, lembra Jeferson emocionado. 

Em meio ao caos, o mecânico e estudante de engenharia civil teve ainda que retirar seu filho de 1 ano às pressas de casa, pois o barro estava descendo próximo à casa dele. Outros moradores estavam evacuando as residências, pois não havia tempo nem condições de avaliar os riscos.

A maior preocupação era com as crianças e idosos que foram abrigados nas casas do início da rua, sem risco de desabar, ou levados para outros bairros. Embora houvesse uma tentativa de poupar os pequenos, era impossível diante daquele quadro não perceber o que acontecia. O desespero da vizinhança eclodia à medida que, do meio dos escombros tomados pelo barro, mais um corpo era retirado.

A pouco mais de 100 metros do local da tragédia, na entrada da rua, abrigado em um bar, o pequeno Gabriel, atônito, procurava respostas para o que estava acontecendo. “Mãe, foi a casa da dona Maria? Ela morreu?” Gabriel era muito próximo a dona Maria Tereza, 57. 

Desde pequeno, todos os dias, nos mesmos horários, Gabriel ficava no portão à espera da vizinha. A brincadeira entre os dois era certa.

Dois dias antes do acidente, dona Maria brincou dizendo que esse ano Gabriel não ganharia presente de aniversário, enquanto escondia uma sacola nas costas. 

De fato, o presente não chegou. Dona Maria estava entre os que morreram. Faleceram ainda Cássia Vitória Paim dos Santos, 14, Dezaneide Dias Figueiredo, 59, Elaine Oliveira dos Santos, 30, Jocenildo dos Santos Luz, 33, José Cosme de Oliveira Luz, 56, Magnólia Paim dos Santos, 44, Maria José dos Santos, 75, Roberto Ubiratã dos Santos Júnior (Robertinho), 16, Samuel Santos Oliveira, 12, Sivaldo Silva Neves Filho, 30. 

Como dizer a Gabriel que, como numa espécie de desenho animado, seus vizinhos foram engolidos pela precariedade das moradias? Diferentemente do que ocorre no mundo da fantasia – no qual uma casa cai sobre alguém e, de repente, como num passe de mágica, lá está a pessoa na tela, sem um arranhão sequer –, na vida real, acidentes deixam marcas. As cicatrizes, ou seja, as consequências, vão além de mudanças na paisagem, da destruição de imóveis e de outros bens.

Donminique Azevedo/Agência Pública


Crianças em desamparo
Para o psicólogo e professor universitário Júlio Hoenisch, a probabilidade de uma pessoa em desenvolvimento, especialmente as crianças, apresentar um sentimento de inferioridade em relação ao outro é bastante considerável para meninos e meninas em áreas de risco.

“Se essas crianças não tiverem acesso a políticas sociais efetivas, isso vai produzir uma relação cíclica com a tragédia. Certamente colocará a pessoa em posição de desalento diante da realidade. Este estado já é um dano porque a pessoa não consegue ser protagonista de mudança nenhuma. Ela foi cerceada da condição de sujeito”, pontua.

Em São Caetano – bairro que reúne mais de 200 mil habitantes espremidos em diversas comunidades –, Jorge, o garoto que mora na borda da abandonada pedreira, conta-me, de forma contida, que não gosta de morar naquele local. 

Peço que me fale sobre as condições da moradia. Ele silencia e continua desenhando a casa em dias de chuva. Minutos depois, desabafa: “A única coisa que eu queria era uma casa com laje para poder ter quartos na parte de cima, calçada para brincar e que esse barranco não fosse aqui perto”. Silêncio novamente.

Entrega o desenho e pergunta se o desenho vai passar na TV. Digo que não e explico sobre onde e como o trabalho será publicado. No desenho, Jorge pinta apenas a sala. Questiono por que ele não coloriu o vão da casa que reúne quarto/cozinha/banheiro. Ele, cabisbaixo, com a voz embargada, responde “não precisa”.

Jorge não conhece os dados do IBGE que mostram que 67% da população de Salvador reside em bairros sem condições mínimas de saneamento e com índices elevados de pobreza. 

O garoto não sabe também, mas a “terra mãe do axé music” está entre os municípios brasileiros que apresentam os maiores percentuais de domicílios sem espaçamento entre si e com verticalização predominante de dois ou mais pavimentos, localizados em áreas não propícias à urbanização regular, como encostas. 

No entanto, Jorge vive essa realidade que, como espécie de hereditariedade, acompanha sua família há longos anos.

Seu pai nasceu e foi criado no casebre onde vivem. “Eu era menino e já vi vizinhos serem soterrados aqui. A gente sai para trabalhar, não sabe se vai chegar e encontrar os filhos vivos, como foi o caso do Marotinho, uma comunidade que fica aqui perto, no bairro de Bom Juá”, desabafa o pai de Jorge. 

O operador de máquinas faz referência ao deslizamento de terra que causou desabamento de um imóvel, a 130 metros de seu domicílio. Sete pessoas, todas da mesma família, foram soterradas. Entre os mortos estavam os irmãos Joice Bispo Ribeiro Reis, 15 anos, e Jonathan Bispo Ribeiro Reis, 13 anos, parentes de Adriano Bispo Pereira, 11 anos, e de Geraldina da Cunha Bispo Reis, 35 anos. Na mesma região, em 2013, duas pessoas também morreram soterradas.

Em São Cristóvão, Paula, mãe de Ana Maria, revela que desde pequena convive com os problemas ocasionados pelas inundações. “Embora aqui, graças a Deus, não tenha morrido ninguém, como foi o caso de outros lugares, todo ano a gente sofre com a chuva. Olha para aqui como é que eu estou! Fiquei quatro dias internada com meu filho mais novo com problema alérgico por causa da frieza”, desabafa Paula, mostrando as feridas no corpo, resultado do contato com águas contaminadas ao passar por dentro do alagamento para levar e buscar os filhos na escola. 

A garota, ao lado da mãe, observa atenta. Proponho o desenho, e Ana Maria também questiona se é para “colocar na TV”. Pergunto se ela deseja que coloque e por quê. Prontamente, a garota de olhar atento responde que sim e justifica o questionamento. “Acho que se sair na televisão alguém vai resolver nosso problema.”

Reflito sobre a expectativa das crianças. Meus pensamentos são interrompidos pelos gritos da garota na rua convidando os amigos a desenhar. Ela mesma passou as recomendações. Preferi não intervir, apenas observar. Enquanto desenhavam na calçada estreita de menos de 50 centímetros, ao lado da casa de Ana Maria, dei continuidade à entrevista com Paula.

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