terça-feira, novembro 17, 2015

A farra do Fuleco: governo pagou R$ 6 mil de diária para usar mascote da Fifa

Filipe Coutinho
Revista ÉPOCA

A Apex, ligada ao Ministério do Desenvolvimento, gastou mais de R$ 1 milhão com brindes na Copa do Mundo para empresários, do mascote do Fuleco a mochilas personalizadas. Até ingresso foi parar na lata do lixo

(Foto: Reprodução)
 Salário de craque: o mascote Fuleco custou R$ 6 mil por dia durante a Copa 

Caído no esquecimento durante a própria Copa do Mundo, o Fuleco, aquele tatu-bola que virou mascote da Fifa, tinha um salário de craque nas ações de marketing pagas pela Apex, agência de promoção do comércio exterior ligada ao Ministério do Desenvolvimento. Cada diária do mascote, incluindo a pessoa responsável por se fantasiar de Fuleco, custou R$ 6 mil à agência – se fosse um salário, seria de R$ 180 mil.

O Fuleco era uma das ações de marketing da Apex durante o mundial, com a tarefa de receber empresários nos hotéis reservados para os parceiros comerciais. A ideia era aproveitar o chamariz da Copa para convidar empresários do mundo todo para gerar negócios, o chamado marketing de relacionamento. A Apex estima que o projeto Copa do Mundo pode ter rendido até R$ 6 bilhões em negócios, no período de 12 meses.

Para isso, a Apex contratou uma agência de marketing, ao custo de R$ 5 milhões, para realizar as ações especiais para o evento. Só com brindes foi gasto R$ 1 milhão, sem contar a distribuição de ingressos e hospedagem.

Além do Fuleco a R$ 6 mil por dia, a lista de brindes inclui mochilas, miniaturas de estádios e até carregadores de celular – tudo como forma de agradar os empresários estrangeiros e tentar convencê-los a fazer negócios.  Só com malas e mochilas foram gastos quase meio milhão de reais.




Ingressos na lata de lixo
A principal ação da Apex, claro, foi a compra de ingressos para os empresários parceiros. A agência, contudo, se recusa a informar quantos ingressos comprou e quem recebeu. Nem sequer o nome da empresa de marketing contratada a Apex informa. Vale registrar que quem pagou foi dinheiro público. Assim, a Apex vira uma espécie de caixa-preta do Ministério do Desenvolvimento.

A compra de ingressos foi um ponto de controvérsia entre a Controladoria Geral da União (CGU) e a Apex. Por três vezes, a CGU tentou convencer a Apex a não comprar ingressos, lembrando a possibilidade de conflito de interesses e questionamentos legais. A Apex ignorou todos os alertas e deu convites para políticos brasileiros e estrangeiros. E foi aí que surgiram os problemas.

“Como exemplo da criticidade da situação apontada, uma empreiteira, em sua Agenda de Negócios e em seu relatório após a participação na Copa do Mundo, citou a importância de ter convidado uma autoridade diplomática por estar participando de licitações de obras de transporte público no país representado por essa autoridade”, apontou a CGU em auditoria. “Avaliamos que a relação entre empresas privadas e servidores públicos estrangeiros, como apoiada pela Apex-Brasil, pode vir a ser considerada oferecimento de vantagem indevida as autoridades estrangeiras”. Em bom português, vantagem indevida é um sinônimo de corrupção.

Na Copa do Mundo, a CGU descobriu outra falha. Embora fizesse o controle de ingressos para empresários, a Apex deu 72 ingressos para o Ministério do Desenvolvimento, que não justificou para quem recebeu os convites. Na prática, o ministério driblou as sucessivas recomendações da CGU para que não fossem comprados ingressos.

Na Copa das Confederações, também ocorreram problemas com ingressos. Acredite se quiser: sumiram exatos 553 ingressos. A Apex jura que não distribuiu esses ingressos para políticos ou funcionários da agência. A agência disse aos auditores da CGU que esses convites sobraram e foram, literalmente, para a lata do lixo. A Apex, contudo, diz que não registrou que os ingressos foram descartados. “A Apex informou ainda que esses ingressos não utilizados foram descartados no lixo comum da Agência por não mais possuírem valor comercial. Nesse sentido, a Agência informou não ter conservado evidencias desse descarte e, portanto, não foi possível a equipe da CGU certificar a destinação desses ingressos”, assinalou a auditoria.

Questionada sobre os apontamentos da CGU, a agência disse que já apresentou a documentação sobre a ação de marketing. “Esclarecemos que todas as informações sobre o Projeto Copa do Mundo (incluindo a etapa Copa das Confederações), acompanhadas de documentação pertinente, foram prestadas à Controladoria Geral da União durante o processo de auditoria específica a que o projeto foi submetido para a verificação da regularidade de suas ações”, diz a Apex, em nota. Segundo a agência, o projeto foi um sucesso. “A iniciativa teve a participação de 3.200 compradores, formadores de opinião e investidores internacionais, representando 104 países, e gerou uma estimativa de negócios da ordem de US$ 6 bilhões em exportações e investimentos atraídos ao Brasil”.

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