terça-feira, novembro 17, 2015

Aula de traição

 Vicente Nunes
Correio Braziliense

O governo não perde a oportunidade de tumultuar o ambiente quando tudo do que precisa é de um clima de tranquilidade para tentar tirar o país do atoleiro. E faz questão de caprichar, se o objetivo for desestabilizar o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Agora, aliados da presidente Dilma Rousseff já definiram até o prazo para o chefe da equipe econômica cair: o fim de dezembro ou, no máximo, janeiro de 2016.

É incrível a justificativa para a demissão de Levy. Ele não conseguiu entregar o que Dilma e o partido dela, o PT, tanto queriam: a retomada do crescimento econômico. Os petistas se conscientizaram de que a situação do país está tão ruim que não haverá propaganda enganosa que consiga eleger prefeitos do partido no ano que vem. Com a retração de mais de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e de queda de ao menos 2% em 2016, há o risco de a legenda ser riscada do mapa, com os eleitores de menor renda, que sempre votaram no PT, tomando as ruas para protestar contra o desemprego.

Não é possível que Dilma e o PT realmente acreditem que, defenestrando Levy, todos os problemas do Brasil se resolverão. Foi a petista que empurrou o país para a beira do precipício ao optar por uma política econômica desastrosa. Dilma abusou do direito de errar. Trouxe a inflação de volta — o índice acumulado neste ano, de 8,52%, é o maior desde 1996 —; provocou um tsunami de demissões — 1,2 milhão de vagas foram fechadas nos últimos 12 meses —; e estraçalhou as contas públicas, a ponto de o Brasil ser jogado novamente no grupo de países vistos como párias pelos investidores.

Constrangimento 
E não é que o PT de Dilma quer justamente resgatar essa política que Levy tentou enterrar? Em todas as conversas de petistas, está claro que a receita para o Brasil voltar a crescer passa pelo estímulo ao consumo e ao endividamento. Em 2008, o então presidente Lula abriu os cofres para evitar que o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos arrastasse a economia brasileira. O crédito foi disseminado, com os bancos públicos se transformando em máquinas de emprestar. Nessa empreitada, o Tesouro Nacional foi usado sem constrangimento, inundando o caixa das instituições e elevando a dívida pública.

Naquele momento, a receita funcionou. O Brasil foi um dos primeiros países a sair da crise. Mas, para eleger Dilma, em 2010, Lula fez o diabo. Gastou o que não podia. E foi vitorioso. Esperava-se, porém, que, com a petista eleita, um raio da racionalidade e de bom senso se abatesse sobre o governo. Contudo, Dilma não só manteve a gastança e o estímulo ao endividamento como acelerou o passo ao implantar a inacreditável nova matriz econômica. O resultado todo mundo sabe: três anos seguidos de rombo nas contas públicas — 2014, 2015 e 2016 — e a maior recessão desde 1930.

Nem mesmo a chegada de Levy ao governo, vista com euforia no início pelos investidores, foi capaz de conter o caos. O ministro da Fazenda fracassou porque, na verdade, Dilma nunca quis mudar. Acenou com um segundo mandato mais responsável, mas continuou fazendo as mesmas estripulias, cuja conta, como sempre, cai no colo da população. De salvador da pátria, Levy hoje é o empecilho de que o PT quer se livrar na ânsia de manter o projeto de poder.

Ambições 
A demissão de Levy está tão certa que seu possível futuro sucessor, Henrique Meirelles, já teria recebido autorização de Lula para se reunir com lideranças políticas a fim de discutir cenários econômicos. O ex-presidente do Banco Central nega veementemente que esteja com um pé na Esplanada dos Ministérios. Mas que ele quer voltar por cima para Brasília, ninguém tem dúvidas. Como não é bobo e tem ambições, inclusive a de ser presidente da República, está fazendo todas as exigências possíveis. Teme fracassar e sair pelas portas dos fundos, como pode ocorrer com Levy.

O ex-presidente do BC só terá sucesso como chefe da equipe econômica se Dilma realmente abrir mão de definir a política econômica. E apoiar de verdade o ajuste fiscal, que é boicotado diariamente nos círculos petistas. Se não mostrar serviço nos primeiros dois meses, Meirelles morrerá na praia, como Levy. Esse, coitado, foi traído e perdeu a capacidade de agir. Só continua ainda onde está por desejo de poder. De ministro da Fazenda, ele agora só tem o título.

Apreensão no BC 
» No Banco Central, a possível demissão de Joaquim Levy é vista com apreensão. Se Meirelles realmente for nomeado para o Ministério da Fazenda, fará mudanças na autoridade monetária. Para ele, o time de Alexandre Tombini foi um fiasco ao nunca ter entregado a inflação na meta.

Hora da recompensa 
» Meirelles, quando se refere ao sistema de metas de inflação, bate no peito e diz que foi a sua política eficiente no comando do BC que permitiu que o custo de vida ficasse abaixo de 4% em 2006, ampliando a sensação de bem-estar e ajudando Lula a se livrar do mensalão e ser reeleito.

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