domingo, novembro 15, 2015

Com ao menos 250 casos no Nordeste, microcefalia assusta gestantes

Clarissa Pains (*)
O Globo

Médicos buscam causa comum para surto da doença, que diminui o crânio do bebê

Edmar Melo/JC Imagem
Mãe segura seu bebê enquanto espera por consulta 
sobre microcefalia no Hospital Oswaldo Cruz, no Recife 

RIO — Grávida de seis meses, a pernambucana Maísa Oliveira levou um susto quando, ao fazer um ultrassom na última terça-feira, recebeu dos médicos a notícia de que sua bebê, Maria Isabela, tem microcefalia. Até então, a moça de 34 anos nunca havia ouvido falar sobre esse tipo de malformação, que reduz o crânio da criança e pode levar a sequelas neurológicas, deficiências motoras e dificuldade respiratória, entre outros problemas. Com esse diagnóstico, Maísa se junta a outras 140 mães de Pernambuco — algumas ainda gestantes, outras que já deram à luz — que, de agosto para cá, tiveram a confirmação de que seus filhos têm essa doença. A incidência normal no estado é de apenas nove casos por ano. O surto de microcefalia, que, em menores proporções, também atinge Rio Grande do Norte e Sergipe, levou o Ministério da Saúde a declarar anteontem, pela primeira vez, estado de emergência em saúde pública de importância nacional.

Maísa mora na cidade de Paudalho, a 44 quilômetros do Recife, e só foi à capital na terça-feira devido a um aumento em sua pressão arterial. Desde então, por conta da descoberta da malformação congênita em sua filha, está internada para fazer uma bateria de exames no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). É para esta unidade — além do Hospital Oswaldo Cruz, também do Recife — que essas mães estão sendo encaminhadas.

— Eu fiquei muito abalada, porque já tinha feito ultrassons antes e nada foi detectado. Eu estava seguindo o pré-natal normalmente. Não sei como será daqui para frente — conta Maísa, que já tem um filho, nascido saudável 14 anos atrás. — Depois de conversar com os médicos, eu me tranquilizei um pouco. Agora eu não posso me alarmar para a minha pressão não subir e não agravar o quadro. Não há o que fazer.

Não existe cura para microcefalia. O tipo de tratamento paliativo que a bebê receberá só será decidido após o nascimento, porque cada criança reage de forma diferente à doença. Segundo especialistas, as sequelas só aparecem à medida que o recém-nascido cresce. Mesmo nos casos mais graves, o bebê costuma passar o primeiro mês de vida sem qualquer obstáculo em seu desenvolvimento. O único problema aparente é mesmo o perímetro reduzido do crânio, abaixo dos 33 centímetros no momento do parto. Segundo levantamento do GLOBO com as secretarias estaduais de Saúde do Nordeste, toda a região registrou, este ano, pelo menos 250 casos.

Entre as possíveis causas da malformação, estão infecções congênitas — como a rubéola, o citomegalovírus e as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti —, mutações genéticas, abuso de drogas e exposição à radiação em excesso. A hipótese que tem ganhado mais destaque para explicar a atual explosão de casos é o surto de zika pelo qual Pernambuco passou no primeiro semestre. Para o ginecologista e obstetra Alex Sandro Rolland de Souza, especialista em Medicina Fetal do Imip, é quase certo que a causa das microcefalias tenha sido viral. De acordo com ele, há possibilidade tanto de o responsável ser o vírus zika quanto o chicungunha:

— Os dois geram sintomas muito parecidos, e por vezes são confundidos. A pessoa é diagnosticada com um, mas na verdade tem o outro. E também tivemos surto de chicungunha no estado. A grande maioria das mulheres que atendemos no Imip com feto microcefálico teve, durante a gestação, sintomas que podem ser de um dos dois vírus. Descartamos dengue porque essas mães tiveram sintomas leves, que passaram rapidamente, tanto que muitas nem procuraram postos de saúde na época — diz o médico

'ONDE EU MORO, NÃO TEM ÁGUA TODO DIA'
Souza acompanha 15 dessas mulheres no instituto. Todas tiveram sinais que podem ser de um dos vírus do Aedes. Entre elas, Maísa, que, no quarto mês de gestação, notou algumas manchas avermelhadas no peito e na barriga. Ela chegou a fazer uma consulta médica, mas não houve suspeita de qualquer vírus. Após dois dias, as manchas sumiram naturalmente.

Pouco tempo depois, foi a vez de o marido dela apresentar alguns sinais. Mas, no caso dele, a reação foi severa, com dor nas articulações e febre. O diagnóstico veio rápido: dengue. Muitas outras pessoas no bairro pernambucano onde eles vivem, Santa Tereza, também tiveram sintomas similares.
— Onde eu moro, não tem água todo dia. É dia sim, outro não. Aí as pessoas têm que estocar, não é difícil surgirem mosquitos — conta ela.

Com a declaração de emergência em saúde, a burocracia para realizar os estudos epidemiológicos que podem determinar a causa do surto será abreviada. O governo também poderá comprar materiais e contratar médicos que não fazem parte dos quadros do Ministério da Saúde e das secretarias locais. Além disso, bens e serviços de pessoas físicas e jurídicas podem ser requisitados. Nesses casos, esses cidadãos e empresas seriam indenizados. 

(*) Colaborou André de Souza

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