domingo, novembro 29, 2015

Deputado acusa Cunha de fazer devassa em contas para intimidar adversários


 (Sérgio Dutti/AE/VEJA)
 Jarbas Vasconcelos

Às vésperas do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados votar o parecer que pede a continuidade das investigações contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um episódio promete acirrar o já intenso fogo cruzado entre aliados e adversários do parlamentar. Um dos primeiros deputados a se insurgirem contra Cunha e a defender o afastamento dele do comando da Casa, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) afirma agora ser alvo de retaliação. Um dos fundadores do PMDB, Jarbas chegou a ser cotado entre os nomes que poderiam substituir Cunha caso ele deixe o mais alto posto da Câmara. Ao site de VEJA, o deputado narrou uma investida de um funcionário do gabinete da presidência da Câmara para encontrar materiais que pudessem comprovar fraudes envolvendo o seu nome. Cunha nega.

O episódio, conta o deputado, se deu em meados de outubro, quando Jarbas Vasconcelos intensificou a artilharia contra Eduardo Cunha, chegando a chamá-lo de "cínico" e "psicopata" em entrevistas. De acordo com ele, um emissário do presidente da Câmara dirigiu-se ao órgão que controla os gastos de congressistas com cotas parlamentares pedindo uma varredura em sua prestação de contas. Um funcionário desse setor narrou o episódio a Jarbas. Os documentos conteriam notas fiscais sobre pagamentos de combustíveis, alimentação, passagens aéreas e consultorias, entre outros. Atualmente, deputados têm direito a uma verba mensal para custear despesas de mandato. Os valores variam conforme o Estado eleitoral e podem chegar a 41.600 reais.

Não houve, contudo, nenhum questionamento ao deputado. O setor responsável pela coordenação dos gastos dos congressistas é autônomo e as prestações de contas e os comprovantes de pagamento não passam pela cúpula da Câmara.

"O presidente está fazendo isso com tudo mundo, não é só comigo. Ele está olhando com lupa qualquer coisa que envolva seus adversários. Quem está desesperado, como ele, faz qualquer coisa. Ele acha que vai conseguir se sustentar fazendo isso", afirmou Jarbas Vasconcelos. "Na cabeça do Cunha, o adversário é igual a ele. Ele deve ter pensando que eu poderia apresentar uma nota fria ou alguma coisa errada. Mas nem todos são iguais", continuou.

Questionado, o presidente da Câmara afirmou que as acusações são mentirosas e pediu que Jarbas aponte o nome do funcionário para que, caso se confirme a ação, seja demitido. Eduardo Cunha ponderou ainda que as notas fiscais referentes a gastos durante o mandato são divulgadas na íntegra na internet e que seria desnecessário acionar o Núcleo de Controle da Cota para ter acesso a esses documentos. De fato, os comprovantes dos gastos dos parlamentares são facilmente encontrados no site da Câmara dos Deputados. Aliados de Cunha acusam Jarbas de incendiar os ânimos contra o peemedebista e de tentar se "vacinar" contra a descoberta de problemas em suas contas.

Bastidores – 
Deputados ouvidos pelo site de VEJA afirmam que Cunha se utiliza de estratégias para intimidar adversários. Segundo relatos de parlamentares, desde que passou a ser alvo de questionamentos e a responder a inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção e lavagem de dinheiro, o peemedebista manda 'recados' pelos corredores da Câmara.

Os parlamentares alegam que aliados de Cunha teriam abordado adversários ou pessoas ligadas a esses desafetos ventilando que foi encontrado algum tipo de irregularidade em suas contas ou que "se Cunha cair, muitos deputados caem junto". Outros afirmam que Cunha teria passado a distribuir dossiês contra adversários. "A ideia é jogar todo mundo para a vala comum ou tentar agir pela intimidação e pelo constrangimento", resumiu um deputado.

Representação – 
Na última quarta-feira, um grupo de deputados ingressou na Procuradoria-Geral da República pedindo o afastamento de Cunha da presidência da Câmara. O argumento é o de que o peemedebista tem usado a estrutura da Casa para impedir o avanço do processo de cassação contra ele no Conselho de Ética e para atrapalhar as investigações no âmbito de Lava Jato.


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