quinta-feira, novembro 05, 2015

Dólar ajuda, mas recessão global freia alta das exportações

Lucianne Carneiro
O Globo

Apesar de rentabilidade alta, especialistas alertam para menor demanda mundial

Domingos Peixoto / Agência O Globo 
Porto de Manaus: já há quem espere queda nas exportações em 2016  

RIO - Com ajuda do dólar alto, a rentabilidade das exportações brasileiras alcançou, em setembro, seu maior nível desde novembro de 2008. O índice calculado pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) leva em conta o preço médio dos produtos e os custos de produção. E mesmo com a queda nos preços e alta nos gastos com produção, a rentabilidade chegou a 95,8 pontos no mês passado, puxada pela valorização do câmbio. O ritmo menor que o esperado da economia mundial e o recuo nos preços de commodities, no entanto, devem segurar um crescimento maior das exportações. Há até mesmo quem espere perda no valor das exportações em 2016. Assim, quem mais vai ajudar no aumento do saldo comercial estimado para o próximo ano será a queda das importações, tanto pela substituição de insumos importados quanto pela recessão na economia brasileira.

— A rentabilidade está subindo por causa do câmbio. Mesmo com queda do preço exportado e aumento do custo de produção, principalmente com energia, exportar está ficando mais atraente. E ainda temos uma economia doméstica fraca. Só que existe uma variável muito forte do outro lado: o mundo e o comércio não vão crescer como antes — afirma Daiane Santos, economista da Funcex.

Segundo ela, até agora o que está puxando mais as exportações brasileiras é o aumento da quantidade mundial de importados. Desde setembro, há indícios de que o aumento da rentabilidade tenha tido efeito maior e a tendência é que isso seja mantido.

ECONOMIA MUNDIAL FRUSTA
Na última sexta-feira, o ministro de Desenvolvimento, Armando Monteiro, afirmou em Londres que agora é a hora “da virada na balança comercial”. O otimismo, no entanto, contrasta com um cenário mundial que enfrenta renovadas fontes de preocupação. E tem levado a pioras nas projeções para 2015 e 2016.

Nos Estados Unidos, o crescimento da economia no terceiro trimestre foi bem mais fraco e a indústria americana sente a desaceleração. Diante do quadro, a tão esperada elevação das taxas de juros vem sendo adiada pelo Federal Reserve (banco central americano). Na China, a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) foi a menor desde a crise de 2009. As importações estão em queda, levando os efeitos para o resto do mundo.

A recuperação da economia japonesa também tem frustrado. Na semana passada, o Banco do Japão, banco central do país, não ampliou os estímulos econômicos, mas ainda terá que conviver com exportações e gastos das famílias fracos. Já a União Europeia mantém seu ritmo lento na economia, enquanto a América Latina amarga desaceleração puxada pelos preços de commodities em queda e pela recessão no país.

— O que vivemos hoje ainda é parte da mesma crise lá de 2008. As famílias americanas continuam muito endividadas e é difícil imaginar uma grande retomada. A Europa continua em confusão, com os países tentando reduzir o déficit com a Alemanha. A economia chinesa cresce menos. O câmbio vai ajudar as exportações brasileiras, mas os efeitos serão menos expressivos diante da conjuntura internacional — diz o professor Luiz Carlos Prado, do Instituto de Economia da UFRJ.

Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, o crescimento mais modesto da economia mundial e os preços menores das commodities acabam afetando um quadro com dólar valorizado, que foi aguardado por tanto tempo pelos exportadores:

— Há uma sensação de frustração porque agora temos preço, mas não temos mercado. Hoje todos querem exportar para os Estados Unidos, o único mercado com crescimento de importações. Na China, há queda.

Depois de registrar em 2014 o primeiro déficit em 14 anos, a balança comercial brasileira deve voltar a superávit em 2015. Pelo Boletim Focus — que reúne as principais previsões do mercado —, o saldo deve ser de US$ 14 bilhões este ano e de US$ 26,3 bilhões no próximo. Mais do que resultado de um salto nas exportações, o saldo será fruto de recuo nas importações, seja pelo dólar alto que estimula a substituição de produtos importados seja pela recessão brasileira que reduz a demanda.

— Os ganhos com o câmbio serão muito mais limitados para as exportações, porque o comércio mundial não cresce tanto. A melhora do saldo comercial será muito mais pela contração das exportações que pelas importações — avalia o economista sênior de América Latina da consultoria Oxford Economics, MarcosCasarin.

As projeções do banco Santander apontam para exportações de US$ 199,1 bilhões em 2016, o que representaria alta de 3,6% sobre o resultado previsto para este ano, e importações de US$ 161,7, queda de 10,2% frente a 2015. O saldo passa de US$ 11,9 bilhões para US$ 37,3 bilhões. Já o Itaú prevê exportações de US$ 181 bilhões, 3,7% a menos que em 2015, e importações de US$ 151 bilhões, recuo de 13,7% frente a este ano. Nessa estimativa, o superávit comercial sobe de US$ 13 bilhões para US$ 30 bilhões. Já a Tendências espera exportações de US$ 197 bilhões em 2016, 3% de aumento, e importações de US$ 165,6 bilhões, queda de 6,5%.

Como lembra a economista do Itaú Unibanco Julia Gottlieb, mais da metade das exportações brasileiras é de commodities, que sofreram queda forte nos preços. Mesmo que não se espere uma queda tão forte daqui para a frente, o preço médio em 2016 será inferior ao de 2015:

— Isso limita o efeito do câmbio no valor exportado, ainda que se espere alta de 5% na quantidade exportada no próximo ano. De qualquer forma, o efeito do dólar nas exportações demora mais que nas importações.

EFEITO NO PIB
Os efeitos mais amenos dos ganhos com exportações sugerem um caminho mais difícil para a economia brasileira. Em crises anteriores, o comércio exterior era o principal caminho para o início da recuperação.

— As exportações seriam a luz no fim do túnel na atual situação da economia brasileira. Só que as condições externas estão muito negativas e vão tirar a força da única saída dos próximos anos. Os preços de commodities estão em queda, há forte revisão das previsões de crescimento principalmente dos países emergentes e existe um baixo crescimento das exportações mundiais. O câmbio ajuda as exportações, mas o cenário externo é determinante — afirma Luís Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização Econômica (Sobeet).

O desempenho da rentabilidade das exportações difere entre os setores. Na média geral, o índice teve alta de 0,4% quando se olha o resultado acumulado nos 12 meses encerrados em setembro. Vinte e cinco dos 28 setores pesquisados pela Funcex registraram alta no índice de rentabilidade, dos quais 16 com taxas de crescimento de dois dígitos.

Os setores com maior ganho foram bebidas (22,2%), impressão e reprodução de gravações (20,2%), equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (20%), produção florestal (21%), outros equipamentos de transportes, exceto veículos automotores (22,9%) e extração de minerais não metálicos (21,3%).

Mas há também quem tenha perdido rentabilidade: os setores ligados a commodities, como reflexo da queda nos preços. A maior perda foi na extração de petróleo e gás, de 31,3%, seguida por extração de minerais metálicos, de 25%. Também ficaram menos rentáveis as exportações de derivados de petróleo, combustíveis e coque.

Economia global freia exportações


Mundo consome menos e impede recuperação de vendas para o exterior



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