quinta-feira, novembro 05, 2015

Ex-‘compradora serial’, Hypermarcas agora vende (caro)

Geraldo Samor
Veja online

Companhia vende cosméticos para a Coty por duas vezes o múltiplo que pagou

(Pedro Rubens/VEJA)
 Hypermarcas é dona de marcas como Doril, Gelol, Estomazil, entre outras 

Desde que vendeu suas marcas de alimentação e limpeza em 2011, a Hypermarcas passou a focar em apenas dois negócios: medicamentos e produtos de consumo.

Mas seus acionistas reclamavam que o mercado quase não atribuía valor ao negócio de consumo e que, no papel, a soma das duas partes da Hypermarcas era muito superior ao valor de mercado da empresa na Bolsa.

Essa tese de investimento vai ser testada agora.

Na manhã de hoje, a Hypermarcas anunciou a venda de seu negócio de cosméticos — que inclui marcas como Bozzano, Monange, Paixão, Biocolor, Risqué, Cenoura & Bronze — para a gigante americana Coty.

O preço — 3,8 bilhões de reais — equivale a 3,88 vezes a receita líquida gerada pela área, de 977 milhões de reais/ano — e, nas contas de um gestor, mais de 20 vezes o EBITDA da divisão de consumo (a Hypermarcas não divulga a geração de caixa de cada negócio separadamente).

Isto significa que o negócio menos desejado da empresa foi vendido por um múltiplo bem mais alto do que o da companhia inteira.

A Hypermarcas, que fatura cerca de 5,1 bilhões de reais por ano, valia na sexta-feira 11 bilhões de reais na Bovespa — um múltiplo de 2,15 vezes.

A transação foi negociada em menos de uma semana, sem intermediários. As marcas vendidas agora foram compradas, na última década, por preços equivalentes a 1,5-2 vezes seu faturamento líquido.

O interesse da Coty mostra que, apesar da crise, os investidores estrangeiros estão com apetite para ativos brasileiros que têm escala. Sugere, ainda, que empresas internacionais estão prontos para competir com fundos de private equity na hora de raspar o tacho das empresas brasileiras neste momento de ‘valuations’ deprimidos na Bovespa.

Além disso, o cheque da Coty seria mais do que suficiente para zerar a dívida líquida da Hypermarcas, que chegava a 3,33 bilhões de reais ao final do terceiro trimestre (depois que se contabilizam as operações de proteção contra a alta do dólar), ou 2,9 vezes sua geração de caixa ns últimos 12 meses.

Entre 2001 e 2011, a Hypermarcas foi uma compradora serial, ganhando escala por meio de cerca de 40 aquisições. Apesar de mostrar margens altas sobre sua geração de caixa (mais de 20%), a Hypermarcas sempre teve que comprometer muito capital de giro para investir em marketing e financiar os compradores de seus produtos. Esta necessidade de capital impedia que sobrasse caixa para a empresa pagar dividendos e mantinha o endividamento da companhia estagnado numa faixa entre 2,5 vezes e 3 vezes sua geração de caixa. Ao vender o negócio de consumo, o que mais demandava capital de giro, a partir de agora a Hypermarcas provavelmente conseguirá ter fluxo de caixa livre positivo — e de forma sustentável.

Não entraram no negócio com a Coty as fraldas das marcas Pom Pom, Cremer Disney, Sapeka e Bigfral; os preservativos Jontex, Olla e Lovetex; os adoçantes Zero-Cal, Finn e Adocyl; e os dermocosméticos como Episol, Epidrat e Hydraporin.

Nas próximas semanas, a Hypermarcas ainda pode concluir a venda do negócio de fraldas, que ainda pode gerar mais 800 milhões de reais para a companhia, na estimativa de uma pessoa envolvida na negociação. Em 22 de outubro, a Reuters noticiou que a empresa estava em ‘conversas avançadas’ com a Kimberly-Clark, a gigante americana de fraldas e papeis descartáveis, para vender as fraldas.

Num ano de crise e de Bolsa às moscas, a venda para a Coty é uma tacada de mestre para o controlador da Hypermarcas, João Alves de Queiroz Filho, mais conhecido como ‘Júnior’, seus cinco sócios mexicanos na holding Maiorem, e para o Capital Group, o maior acionista da companhia, com 19% das ações da empresa.



Depois da venda das fraldas, a Hypermarcas passará a ser apenas uma empresa 100% farmacêutica, com um faturamento estimado em 3 bilhões de reais/ano.

No mundo todo, empresas farmacêuticas negociam a 5-6 vezes seu faturamento e, numa transação recente, a mexicana Rimsa foi vendida para a israelense Teva Pharmaceutical por 10 vezes seu faturamento de 230 milhões de dólares.

Na Bolsa de Nova York, a reação inicial dos acionistas da Coty foi positiva. As ações da empresa chegaram a subir 3,6% pela manhã e fecharam o dia em alta de 2,5%.

Nenhum comentário: