quinta-feira, novembro 19, 2015

Exploração de petróleo sofre queda e ameaça meta de produção

Bruno Rosa e  Ramona Ordoñez 
O Globo

Número de poços perfurados em busca de óleo cai 68% em 5 anos

Rich Press/Bloomberg News/7-15-2011
 Após Brasil ter ficado cinco anos sem leilões, 
Lava-Jato e queda do petróleo complicam cenário  

RIO - Chegar ao fundo de um poço de petróleo está se tornando uma atividade cada vez mais escassa no Brasil. O setor que já representou mais de 13% do Produto Interno Bruto (PIB) dificilmente ajudará o Brasil a se recuperar da atual crise econômica. Da “pujança” e euforia na década passada com a descoberta das gigantescas reservas de petróleo no pré-sal, a indústria sofre nos últimos anos com uma forte retração de suas atividades. Os números deixam claro a situação atual: a quantidade de novos poços exploratórios (onde há procura de petróleo) que tiveram sua perfuração iniciada despencou de 192, em 2010, para 62, até outubro deste ano. Ou seja, um tombo de quase 68%.

Essa menor atividade ajuda a ilustrar a forte redução dos investimentos e eles continuarão caindo nos próximos anos, dizem especialistas. De acordo com o estudo “Perspectivas do investimento” do BNDES, a indústria petrolífera deverá investir R$ 323,4 bilhões entre 2015 e 2018, número calculado com base nas operações em análise no banco, anúncios de novos projetos e informações repassadas por federações do setor. O valor representa uma redução de 36% em relação à previsão anterior, feita no fim de 2014, que apontava R$ 509 bilhões em novos projetos.

Segundo analistas, a retração generalizada ocorreu por uma série de fatores. Um deles foi o Brasil ter ficado cinco anos sem leilões para oferta de áreas para exploração de petróleo, enquanto era discutido o novo marco regulatório do pré-sal. Outra razão foi a queda de 50% no preço do petróleo no mercado internacional. E, para completar a “tempestade perfeita” para o setor de petróleo, a Petrobras está em forte crise, desencadeada pela revelação da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal (PF), de um esquema de desvios bilionários da estatal para o pagamento de propinas.













DÍVIDA DA PETROBRAS PREOCUPA
A redução das atividades vai afetar em cheio a produção futura de petróleo no país. Segundo projeções de Adriano Pires Rodrigues, do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), “se tudo der certo, ou seja, se a Petrobras não for obrigada a reduzir ainda mais seus investimentos para os próximos anos”, a produção deverá chegar a 2,5 milhões de barris diários em 2020, 300 mil barris a menos do que as estimativas da estatal. Porém, Pires alerta que, se o quadro continuar negativo para a empresa, a produção de petróleo poderá cair para 2 milhões de barris por dia em 2020, menos que os 2,1 milhões atuais:

— A Petrobras está com um serviço da dívida muito elevado até 2019. Se a situação do mercado não melhorar, e a companhia tiver de cortar investimentos de 2017 e 2018 como fez em 2015 e 2016, chegaremos em 2020 com uma produção em queda, com 2 milhões de barris diários. Se tiver de cortar mais investimentos, vai reduzir a produção no pré-sal.

 Menos atividade no setor de óleo e gás - ANP
A avaliação é reforçada com os dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), compilados a pedido do GLOBO. A retração das atividades exploratórias se estende à sísmica 3D, que é o primeiro passo para definir os locais que serão perfurados para se produzir petróleo. Daí até a produção efetiva, é um processo que pode levar até dez anos. A área pesquisada, entre 2010 e 2015, caiu de 10,5 mil quilômetros quadrados (km²) para 542,8 km² — recuo de quase 95%. Ainda na fase de exploração, com o menor volume de poços exploratórios, a utilização de sondas (que ajudam na perfuração) também só recua. Passou de 92, em 2012, para 51 até setembro deste ano. Como resultado, menos poços produtores iniciaram suas operações. A quantidade caiu de 623, em 2010, para 464, até outubro deste ano — queda de 25,5%.

O recuo nos investimentos, segundo Eloi Fernández y Fernández, diretor-geral da Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip), ocorre ainda porque os investidores vêm exigindo maiores dividendos (parcela do lucro destinada aos acionistas) das empresas do setor, pressionando por corte de custos e melhoria na produtividade.

— Ainda há os problemas envolvendo as últimas rodadas, a 11ª e a 12ª (realizadas em 2013), que estão paradas devido a questões de licenciamento ambiental. Em números absolutos, os investimentos vão cair — destacou.

R$ 612 BILHÕES ATÉ 2018
“A retração das expectativas empresariais acentuou-se em 2015, sendo influenciada especialmente pelos desdobramentos da investigação em curso na Petrobras, com reflexo em toda a cadeia de óleo e gás”, diz o estudo do BNDES. Segundo o banco, mesmo com recuo, o setor ainda responde por 52% dos R$ 612,3 bilhões de investimentos totais previstos pela indústria para 2015-2018. O BNDES lembra ainda que “o setor de petróleo e gás, que apresentava acentuado crescimento até recentemente, ainda se adequa à nova realidade da Petrobras, com reflexos em toda a cadeia produtiva”.

De janeiro a agosto, os desembolsos do banco para o setor somaram R$ 1,931 bilhão, uma queda de 49,8% frente ao mesmo período do ano passado, quando foram R$ 3,852 bilhões.

Por causa das dificuldades financeiras agravadas pelo escândalo de corrupção, da queda dos preços do petróleo, da desvalorização do real e do seu elevado endividamento — R$ 506 bilhões em setembro — a Petrobras fez um corte drástico nos investimentos. As cifras caíram da média de US$ 44,1 bilhões por ano (Plano de Negócios 2014/2018) para cerca de US$ 23,8 bilhões (no Plano de Negócios 2015/19).

Mesmo assim, o Brasil ainda teria potencial para atrair investimentos nas áreas de exploração e produção de petróleo, avalia o secretário executivo do instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), Antônio Guimarães. Segundo ele, dos investimentos previstos no mundo, em torno de US$ 550 bilhões no setor de Exploração e Produção (E&P), pelo menos US$ 50 bilhões poderiam ser investidos no país.
No entanto, as projeções indicam que os investimentos no Brasil ficarão entre US$ 25 bilhões e US$ 27 bilhões.

— Independentemente da crise mundial e da queda dos preços do petróleo, o Brasil tem geologia favorável para atrair mais investimentos do que estão ocorrendo. Apesar da crise mundial, as empresas continuarão investindo, desde que as condições contratuais sejam atrativas — afirmou Guimarães.

FRACASSO DA ÚLTIMA RODADA
Segundo o executivo do IBP, o Brasil precisa oferecer condições de competitividade e atratividade, promovendo alguns ajustes na sua regulamentação. Entre os pontos que o IBP defende que sejam revistos, estão os percentuais de conteúdo local exigidos da indústria e a obrigatoriedade de que a Petrobras seja a operadora única na exploração do pré-sal, com participação mínima de 30% nessas áreas.

Um executivo que prefere não se identificar também acredita que o resultado da 13ª rodada realizada em outubro último poderia ter sido bem melhor, se o governo tivesse oferecido condições contratuais mais favoráveis.

O executivo lembrou que, mesmo em um cenário de baixa dos preços do petróleo, o governo de Moçambique teve sucesso em um leilão realizado em outubro e garantiu investimentos de US$ 700 milhões em exploração de óleo e gás.

— No Brasil, o leilão da 13ª rodada foi um fracasso estrondoso — destacou.

Na opinião de Mauricio Canêdo, pesquisador do Ibre, da Fundação Getulio Vargas (FGV), muitos projetos no setor estão sendo postergados porque ficaram menos atrativos com a queda no preço do petróleo.

— No Brasil, o grande player é a Petrobras, e todas as empresas querem ser sócias da estatal. Mas, como ela revisou seus investimentos, houve um recuo das projeções. E, claro, toda essa instabilidade da economia acabou fazendo com que as empresas colocassem o pé no freio — disse Canêdo.

Marcio Oliveira, sócio de tributos da Ernst & Young (EY), diz que a queda no preço do petróleo pode dificultar a viabilidade de projetos no pré-sal.

— No caso do pré-sal, o mercado estima que o custo mínimo por barril para viabilizar o projeto é entre US$ 40 e US$ 55. Todavia, não é possível avaliar quantas áreas poderiam tornar-se economicamente inviáveis caso o preço do petróleo caia abaixo desses níveis. É bom lembrar que a tecnologia de exploração e produção vem evoluindo, reduzindo custos e permitindo o desenvolvimento de áreas até então impraticáveis economicamente — explicou.

Oliveira também defende revisão no sistema regulatório para aumentar os investimentos. Segundo ele, uma das mudanças necessárias seria desobrigar a Petrobras a ser operadora única do pré-sal, área que vem sustentando o crescimento da produção no país.

— É natural que toda essa crise na Petrobras afete a indústria, já que muitos contratos estão parados. E isso acaba afetando o interesse do investidor estrangeiro.

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