quinta-feira, novembro 19, 2015

Gabrielli pressionou por compra de Pasadena por 'dívida política', diz delator

Laryssa Borges
Veja online

Novo envolvido no esquema do petrolão a fechar acordo com a força-tarefa da Lava Jato detalhou aos investigadores a divisão da propina na operação nos EUA

Ueslei Marcelino/Reuters
 O ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli: 'dívidas políticas' 

Um novo delator da Operação Lava Jato, o engenheiro elétrico Agosthilde Mônaco de Carvalho, detalhou à força-tarefa a pressão que o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli exerceu para a desastrosa compra da refinaria de Pasadena, no Texas. Em depoimento no dia 11 de novembro, Mônaco, que foi assistente de Nestor Cerveró na área internacional da Petrobras, revelou as transações que balizaram a compra da unidade de refino nos Estados Unidos e disse que, embora diversos diretores da estatal soubessem das más condições da refinaria, o negócio seria utilizado por Gabrielli para "honrar seus compromissos políticos".

Segundo o delator, ao ser informado da precária situação da refinaria de Pasadena, conhecida como "ruivinha" pelo avançado estado de corrosão, Cerveró "abriu um sorriso" e disse que a transação poderia deixar o então presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli "bastante satisfeito" porque permitiria que ele quitasse dívidas políticas. "Se chegarmos a um acordo com ela [Astra], um revamp [revisão e ampliação] da refinaria deixará bastante satisfeito o presidente da Petrobras, pois sei que ele tem alguns compromissos políticos a saldar. Portanto com Pasadena mataremos dois coelhos com uma única cajadada: refinar o óleo de marlim nos Estados Unidos e o presidente Gabrielli poder honrar seus compromissos políticos", disse Nestor Cerveró, de acordo com o depoimento de Mônaco aos investigadores da Lava Jato.

Depois de uma visita técnica de funcionários da Petrobras à refinaria de Pasadena confirmando o péssimo estado de conservação da unidade de refino, um relatório foi encaminhado a Cerveró, que mais uma vez alegou que a transação envolvia motivos políticos. "Não se meta, Mônaco. Isso é coisa da Presidência", disse Cerveró segundo o relato do delator.

Nas negociações para a compra da refinaria nos Estados Unidos, o engenheiro Agosthilde Mônaco de Carvalho deu indicativos que o chamado clube do bilhão, apontado pela acusação como responsável por fraudar contratos com a Petrobras, já estava a postos para abocanhar mais este contrato. O próprio Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da petroleira, disse em delação que caso fosse adiante o processo de reforma e ampliação das instalações, já havia um acordo para que a Odebrecht e a UTC fizessem a obra. "Antes mesmo do fechamento do contrato de compra de Pasadena, Gabrielli já havia indicado a construtora Odebrecht para fazer a ampliação de Pasadena", disse Mônaco em seu depoimento.

Conforme informações do novo delator, em junho de 2005, em uma reunião em Los Angeles, funcionários da Petrobras alvo de mandados nesta 20ª fase da Operação Lava Jato negociaram que seriam pagos 15 milhões de dólares de propina a funcionários da estatal para garantir a operação de compra de Pasadena. Em uma negociação paralela, o engenheiro Carlos Barbosa receberia cerca de 20 milhões de dólares em propina da empresa belga Astra Oil, empresa que vendeu a unidade de refino à Petrobras.

Segundo o delator, entre os então executivos da petroleira brasileira, Luís Carlos Moreira recebeu 2 milhões de dólares em propina, Rafael Mauro Comino, 1,8 milhões de dólares, Aurélio Oliveira Telles, 600.000 dólares, Cesar Souza Tavares, 800.000 dólares. Na mesma transação, de acordo com o engenheiro que fechou acordo de delação premiada, o ex-diretor Nestor Cerveró embolsou 2,5 milhões de dólares, o também ex-diretor Paulo Roberto Costa mais 1,5 milhão de dólares e o lobista Fernando Baiano a cifra de 4 milhões de dólares. O dinheiro sujo da maior parte deles foi pago em contas no exterior.

A transação – 
Em janeiro de 2005, o grupo belga Astra comprou 100% da refinaria de Pasadena pelo valor de 42,5 milhões de dólares. No ano seguinte, vendeu 50% do negócio para a Petrobras por 431,7 milhões de dólares. Após mais de três anos de litígio, a Petrobras se viu forçada a adquirir todas as ações da refinaria e da trading associada à empresa por 1,24 bilhão de dólares. De acordo com cálculos do Tribunal de Contas da União (TCU), a Petrobras teve prejuízo de 792 milhões de dólares na operação de compra da refinaria nos Estados Unidos. A chamada operação Pasadena é considerada um dos piores negócios da história da empresa.

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