quinta-feira, novembro 05, 2015

Joaquim Levy, os duendes e a dor do arrependimento

José Fucs
Revista ÉPOCA

O ministro da Fazenda não é vítima apenas da sabotagem de Lula e do PT. Ao aceitar o cargo, após trabalhar para Aécio Neves nas eleições, ele tornou-se também o seu próprio algoz

 (Foto: Nacho Doce/Reuters) 
O ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
Capacidade invejável de engolir sapos

Às vésperas de completar um ano desde a sua nomeação para a Fazenda, em novembro do ano passado, o ministro Joaquim Levy está vivendo o seu “inferno astral” no governo. Mas, ao contrário do que se diz por aí, Levy não é apenas vítima da sabotagem do PT, do distanciamento de Dilma e das intrigas que correm soltas nos gabinetes da Esplanada dos Ministérios e do Palácio do Planalto. Ele é também, por mais estranho que possa parecer à primeira vista, o seu próprio algoz.

Embora tenha trabalhado na equipe econômica que assessorou o senador Aécio Neves na campanha presidencial, capitaneada por Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, Levy tomou a surpreendente decisão de aderir ao governo do PT logo depois das eleições.

Ainda hoje, é difícil dizer o que levou Levy a aceitar o cargo, mesmo sabendo que Dilma e o PT defendem ideias opostas às suas – centradas no ajuste nas contas públicas – para promover o desenvolvimento do país. Também é difícil entender por que Levy acreditou numa súbita conversão de Dilma a suas ideias fiscalistas, consideradas “neoliberais” pelos petistas.

Talvez tenha sido o desejo de poder, a ambição de comandar a economia e o ministério mais influente do governo. Ou talvez tenha sido apenas o nobre desejo de servir ao país, como servidor civil exemplar que ele já demonstrara ser ao longo de sua trajetória profissional. Ou, então, o desejo de cumprir a missão que lhe foi atribuída pelo ex-patrão, o presidente do Bradesco, Luís Carlos Trabuco Cappi, o primeiro a ser convidado por Dilma para o cargo e o responsável pela indicação de Levy. Ou, quem sabe, no final, tenha sido tudo isso junto.

Quaisquer que tenham sido as motivações de Levy, porém, ele deveria saber que, ao dizer sim ao convite feito por Dilma, que reluta até hoje em reconhecer a herança maldita que deixou para ela mesma, sua vida não seria fácil. Não apenas por se sujeitar a críticas pesadas da oposição, mas principalmente por conta do “fogo amigo”, disparado por quem deveria estar do seu lado.

Se Levy tivesse sido fiel às suas crenças, dificilmente estaria passando pelo desgaste cruel que enfrenta hoje. Em vez disso, Levy preferiu acreditar em duendes e pagar para ver se eles realmente apareciam em Brasília. Acabou se dando mal, como seria de se prever, perdendo cada vez mais poder. Apesar de continuar no governo, demonstrando uma capacidade invejável de engolir sapos, Levy deve se contorcer de arrependimento todas as noites, ao encostar a cabeça no travesseiro, por ter embarcado nessa canoa furada.

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