quinta-feira, novembro 26, 2015

Mauro Santayana e um texto tendencioso

Adelson Elias Vasconcellos

Admiro os textos de Mauro Santayana, pela clareza e pela profundidade com que aborda determinados temas. Fruto desta admiração, o blog nunca se furtou de transcrever seus textos. Porém, isto não nos impede de sermos críticos quando entendemos que o jornalista errou a mão. É o caso de seu texto “AS “PEDALADAS”, AS RESERVAS INTERNACIONAIS E A CPMF”, originalmente publicado pela Carta Capital e transcrito na Tribuna da Internet.  Ali encontramos um compêndio de desinformação e mau julgamento.

Em primeiro lugar, nem na imprensa que ele considera “conservadora” muito menos aquela com viés de esquerda, se leu que o TCU tenha poderes além daqueles que a constituição determina. Outra coisa, contudo, é a sua posição em relação às tais pedaladas fiscais que,  que deverá ser submetido à apreciação do Congresso  que poderá acatar o parecer, em todo ou em parte, e até rejeitá-lo.  Quanto às pedaladas em si, Santayana não pode negar o fato de que o governo Dilma as aprofundou de tal sorte em ano de eleição que ficou impossível não reconhecer seu completo descaso para com a Lei de Responsabilidade Fiscal.  Ela é determinante ao vedar que banco público financie programas do governo. Santayana até pode achar a proibição coisa de menor importância, mas trata-se de um dispositivo legal a que estão sujeitos os governantes e o não cumprimento caracteriza  o cometimento de crime fiscal, sim senhor. 

Quanto à concordância com Dalmo Dallari de que as pedaladas não significarão prejuízo algum ao país, aí não dá. Prá começo de conversa, Dallari, por ser petista roxo, é mais do que suspeito quando  ignora o cometimento do crime fiscal. Depois, ficou evidenciado que as pedaladas fiscais tiveram por objetivo sonegar ao país a sua real situação econômica,  vendendo-se ao eleitorado uma fantasia de mar de rosas quando na verdade o desemprego já estava instalado, a recessão encaminhada, a inflação descontrolada e os juros em ascensão.  Fruto desta fantasia, desta mistificação é que Dilma acabou reeleita. E, em um espaço de apenas 7 dias após o resultado, praticou vários estelionatos eleitorais.

E aonde chegamos? Chegamos a um completo descrédito da presidente junto à sociedade, base na qual se assentam as crises políticas que se seguiram, tornando ainda mais difícil a retomada do crescimento. Ficou clara a barafunda das contas públicas pelas inúmeras maquiagens da tal “contabilidade criativa” implementada pela senhora Rousseff. Ora, olhando para os mais de 9 milhões de desempregados, perto de 1 milhão apenas em 2015, será possível concordar que as tais pedaladas não trouxeram prejuízo algum para o Brasil e os brasileiros?   

Em dado instante, o jornalista discorre sobre a dívida pública e ainda se põe a traçar um paralelo com o governo FHC. Aqui, maior desinformação não poderia haver. Ocorre que, naquela ocasião, o governo federal assumiu a totalidade das dívidas dos governos estaduais,  um dos muitos culpados pelo descontrole da economia pré-Real. Ou será que Santayana ignora a razão das dívidas que estes mesmos estados pagam até hoje para o governo federal?  E foi graças a esta, dentre outra medidas, que se pode trazer a inflação descontrolada para algo mais decente, colaborando para a estabilidade econômica que gerou tantos frutos tanto na economia quanto no plano social nos anos posteriores. 

Diferente, no entanto,  é o aumento descomunal da dívida no governo Dilma. Só para o bolsa BNDES foram despendidos mais de 500 bilhões de reais,  recursos que, acrescente-se, beneficiaram os amigos do reino como o caso de Eike Batista para quem se doou mais de 10 bilhões, enterrados  e sem retorno na falência do tal “sólido” grupo empresarial que vivia de ventos, nunca de produção. Este montante que era para “investimentos” resultou no quê? Queda de investimentos, desaceleração da economia, recessão, desemprego. Ficou só a dívida. 

Quanto aos elogios às reservas internacionais acumuladas nos últimos dez anos,  Santayana deveria, por questão de justiça e de compromisso com a verdade,  informar que elas não derivaram de nenhuma medida adotada pelo governo dos últimos dez anos.  São consequência do crescimento vertiginoso dos países emergentes, principalmente China e Índia, o que fez disparar o consumo de commodities   agrícolas e minerais de que o Brasil é grande produtor apesar do discurso anti-produtores rurais e das políticas de incentivos dos governos petistas às ações predatórias de MST e suas congêneres.  E, apesar do montante acumulado, que poderiam ser muito mais não fosse a infraestrutura débil de estradas e portos e da manipulação vergonhosa do câmbio apreciado,  estas  bilionárias reservas não são suficientes para quitar sequer metade da dívida pública. 

Ainda no quesito da dívida pública, é mentira afirmar que o Brasil pagou ao FMI lá atrás uma dívida de 40 bilhões de dólares. A dívida era de 26 bilhões de dólares e a forma como se utilizou para a sua quitação é daquelas ações desastrosas que melhor seria sequer mencionar.  Trocou-se uma dívida com encargos de até 7% ao ano, a do FMI, por outra com encargos de 18%!!!! Em lugar nenhum da história mundial, tal medida representou sinal de inteligência. 

Quanto a incentivar a redução dos juros, sem aumentar impostos, pergunto: que outra alternativa resta ao país para trazer a inflação para o centro da meta que deveria ser 4,5% e já ultrapassa os 10%? O remédio pode parecer doloroso, e é, mas não há tratamento alternativo para curar o doente. E, durante todo o primeiro mandato da senhora Rousseff, sempre se tratou a inflação com total descaso. O resultado é o que vemos.

O resto do texto de Santayna prossegue na mesma balada da desinformação como achar que a carga tributária não é tão alta assim. Pergunto ao jornalista: qual o retorno que a sociedade brasileira tem pelos mais de 90 impostos, taxas e contribuições que recolhe?  O Brasil, e isto é fato comprovado, além de ter um dos índices mais baixos índices de retorno,  é disparado o que apresenta o maior custo para calcular e recolher tamanha quantidade de tributos. 

Santayna pode até bater palmas para os governos petistas, pode torcer o nariz para as reformas implementadas com o Plano Real e antipatizar-se com o governo FHC. Pode até achar que está tudo lindo e maravilhoso com o descontrole das contas públicas nos últimos anos. O que não pode é ignorar fatos, distorcer a história e  achar que os 90% de rejeição popular à presidente Dilma são fruto do discurso neoliberal e da imprensa conservadora.  Porque o desemprego aí está, a inflação é visível nas gôndolas dos mercados, e a perda da renda com o endividamento asfixiante são decorrentes de um governo medíocre que mais se preocupou em mentir  e torrar a esmo dinheiro público do que em lhe dar gestão responsável.  

Quanto a CPMF, dizer o quê? Este governo,  que você , Santayana, parece aplaudir, deveria em primeiro lugar gastar melhor e provar que a arrecadação atual está bem investida na melhoria de serviços, educação saúde, segurança, saneamento, infraestrutura. Depois, acabar com a imensa sonegação e com a corrupção, este câncer que consome a maior parte das riquezas que o país produz.   Só depois, e ainda com muita comprovação da necessidade, falar em novos impostos que, a exemplo do passado, acabarão resvalando para a vala comum da má gestão.  Da última vez que vigorou, a CPMF acabou comprando até lata de goiabada  para o Palácio do Planalto e a saúde, a quem ela se destinava, permaneceu tão abandonada quanto estava antes de sua criação.

Quanto a sugestão  final de que o governo “...há muito tempo deveria ter lançado uma campanha nacional com os reais dados macroeconômicos para combater a “crise”- que é de dar lástima, em sua comunicação com o povo brasileiro...” chega a ser hilário. Desde 2003, a dívida pública saltou de R$ 600 bi para mais de R$ 3 trilhões, e os serviços públicos em nada foram privilegiados. Pelo contrário. Só este dado seria suficiente para desmascarar os tais últimos anos. Quanto aos programas sociais, o jornalista deveria ao menos ter a decência de informar quem os implantou, até porque seu custo anual está sendo insuficiente para conter o aumento da miséria e pobreza, e ainda não bastaram para reduzir as desigualdades gritantes.

Se é  para informar a sociedade, basta-nos os levantamentos do IBGE e os dados estatísticos do próprio Banco Central. Ou será que a marca histórica de três anos consecutivos de recessão, algo inédito na história do país, não passam de miragens? Num grupo das 20 maiores economia, o Brasil é o único que fechará 2015 em recessão! 

O texto do Mauro Santayana pode ser acessado aqui. Aliás, sugeriria ao jornalista que lesse mais os textos do seu colega Sebastião Nery, Tribuna da Internet (antiga Tribuna da Imprensa), que lhe fornecerá, por certo, estatísticas bem mais confiáveis e precisas. 

Santayana tem um bom texto, mas deveria por de lado suas simpatias ideológicas ao referir-se à realidade da economia brasileira neste ano de 2015. Uma coisa é ter opinião, direito a ele inalienável. Outra, é distorcer fatos que afligem a todos os brasileiros que não precisam de textos primorosos para fazer o julgamento de um governante que, como sempre afirmamos, vale não por sua ideologia, por seus discursos, pelas propagandas compradas com dinheiro público,  mas pelos resultados que sua ação produz. Neste sentido, senhor Santayana, se está bom para você do jeito que a economia se encontra, parabéns. Mas não tente manipular a opinião pública com fantasias e mistificações. O povo brasileiro é bem mais inteligente do que você supõe.    

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